O gosto dominante como gosto tradicional: preferências e aversões estéticas das
classes altas de São Paulo
De modo geral, estudos sobre a elite brasileira contemporânea por um lado
tendem a abordagens em termos das variáveis socioeconômicas que influenciam a
mobilidade social, ocupacional e/ou financeira1, e por outro acentuam aspectos
ligados ao consumo visto de forma ampla2. Baseado em trinta entrevistas
semidiretivas com membros das classes altas de São Paulo e em críticas
culturais veiculadas pela imprensa paulistana contemporânea, este artigo
discutirá algumas visões que banqueiros, colecionadores de arte, fazendeiros,
rentiers, embaixadores, filantropos, grandes empresários, industriais, altos
executivos, construtores etc. constroem de si mesmos e dos outros em suas
preferências estéticas declaradas, as quais também contribuem para formar a
"realidade" dessas elites.
Como não seria possível descrever minuciosamente as condições em que se
desenvolveu o trabalho de campo com informantes abastados que impõem sérias
resistências ao contato e tendem a dominar a situação da entrevista3, me
permito uma digressão a fim de esclarecer de forma sintética quais foram os
parâmetros de seleção dos entrevistados, pois, feita a opção de análise de um
único grupo social, a questão de como discernir os pontos precisos em que ele
começa e termina se impõe inevitavelmente. Diante da impossibilidade prática de
introduzir na investigação fatos de estrutura como os rendimentos de
operações financeiras e valores de patrimônio4 , formei uma "coleção de casos"
através do critério bairro de residência 5, sempre complementado pelos
indicadores profissão, nível e características da escolaridade (instituições e
natureza dos estudos), tempo de pertencimento à posição atual (trajetória
social dos bisavós e dos avós paternos e maternos, dos pais, do cônjuge e dos
sogros) e montante aproximado do capital econômico. Ainda que os entrevistados
dispusessem de renda familiar mensal superior a oitenta salários mínimos, a
escolha foi feita caso a caso a fim de evitar a seleção de um hipotético
indivíduo "classe A" possivelmente afastado dos altos estratos sociais6. A
imensa dificuldade de obtenção de informantes afortunados e sua precária
delimitação empírica inviabilizaram o cumprimento das exigências operacionais
de constituição de uma amostra, fazendo dessa "coleção de casos" material que
dá suporte a uma análise exploratória que buscou formar algum conhecimento de
uma classe praticamente invisível para as ciências sociais brasileiras7.
Em estudo sobre os gostos da elite gerencial britânica, Alan Warde e Tony
Bennett salientaram o quanto o comprometimento com a causa da "Cultura"
funcionava como meio de reconhecimento mútuo e facilitador de relações sociais
no interior desse estrato8. Nessa linha de juízo, o patrocínio, gerenciamento
e/ou participação em atividades culturais forneceriam uma oportunidade de
aquisição e ostentação de capital social, o que implicaria reconhecer que a
reprodução das classes dominantes continua se valendo dos itens simbólicos da
cultura "legítima" para poder existir. A ocupação de altas posições na
hierarquia social predisporia, assim, na visão dos autores, ao contato com a
"alta cultura". Do ponto de vista de pesquisas realizadas com os segmentos
dominantes franceses, Michel Pinçon e Monique Pinçon-Charlot também veem na
promoção das artes um pretexto para cerimônias sociais que permitem a um
público seleto afirmar seu pertencimento aos altos círculos, e parecem
convencidos de que "a sociabilidade mundana é uma forma eufemizada e denegada
da mobilização da classe"9.
No que diz respeito aos altos estratos da cidade de São Paulo, é possível dizer
que uma boa parte dos entrevistados da fração de classe alta há mais tempo
estabelecida socialmente10 compra obras de artistas consagrados, pertence ao
conselho da Bienal, da Sala São Paulo, do Mozarteum Brasileiro, do MAM, do
MASP, ao grupo de sócios do MOMA, do Metropolitan, do Louvre etc., o que indica
que tais atividades permanecem insígnias das classes abastadas também no caso
brasileiro. Tal conivência com o mundo da arte rende, entre outros dividendos,
a expansão e a consolidação do montante de capital social, esse quinhão do
patrimônio tão bem conservado nesses rituais da vida mundana que são os
vernissages e os jantares para a arrecadação de fundos para instituições
culturais. Apesar de não ter feito observação participante, repetidas vezes ao
longo da realização dessa pesquisa me ocorreu abrir a coluna social da Folhae
do Estadoe encontrar vários dos meus informantes reunidos nos mesmos ritos
integradores e distintivos do calendário mundano11.
Mas, se a participação nas organizações culturais sugere que essas elites são
recompensadas por seu engajamento na promoção de atividades artísticas, ela não
necessariamente indica um padrão de gosto vanguardista. Pelo contrário, a
análise das preferências e aversões estéticas da população estudada permite
afirmar que "o gosto burguês ou mundano é fundamentalmente um gosto
tradicional"12.
A análise dos partidos arquitetônicos acolhidos pelos bairros de elite
testemunha esse desapego ao vanguardismo. O Jardim América, por exemplo, reduto
de eminentes representantes das altas classes locais, rejeita os princípios
modernos de Le Corbusieur e adota os estilos neogeorgianos, neocoloniais e um
"clássico imponente e monumental":
Menos um estilo, mais uma concepção espacial, a casa clássica cúbica
foi um exemplo de permanência no Jardim América. O tipo de plantas
rebatidas nos dois pavimentos, com concepção simétrica organizada em
torno de um acesso principal centralizado referido à vila cúbica
paladiana, jamais deixou de existir como um modelo na concepção de
residências no bairro. Tal concepção prestou-se como suporte a quase
todas as linguagens e ornamentos que estiveram presentes nas casas do
Jardim América. Desde sóbrias criações neogeorgianas do início da
ocupação até o pragmatismo dos anos 1940, passando pelo neocolonial e
por um clássico imponente e monumental nos anos 1930, às vezes
referidos pela crítica como "arquitetura fascista". Antes dos anos de
1920 a concepção clássica já estivera presente como suporte para
outras linguagens em São Paulo, em casas inspiradas no renascimento
francês ou italiano, ou em experimentações no estilo neocolonial.
Essa concepção de residência permaneceu até o final da ocupação do
bairro, revestida com as variações do vocabulário ornamental
vigentes, até a predominância de linguagens pragmáticas. Mas, em
casas que buscassem expressar atributos como monumentalidade, a
linguagem clássica jamais foi abandonada13.
Quando iniciei minha pesquisa com frações da elite paulistana esperava
encontrar mais casas modernas, feitas por arquitetos importantes, mas o que
pude apurar foi um pouco o contrário: os projetos de casa que seguiam os
ditames da arquitetura modernista eram raros. Com poucas exceções (como uma
informante que vivia numa residência projetada por Marcos Acayaba e outra
residente num casarão projetado pelo escritório de Artigas), vários
entrevistados reclamaram das "casas de arquiteto", nas quais "a cozinha está
dentro da sala". Uma entrevistada já tinha mesmo vendido uma de suas casas
projetadas por Ruy Ohtake no Pacaembu e outro havia demolido uma residência no
Jardim Europa feita pelo chileno e professor de arquitetura Ernesto Bofil, que
trabalhou com Oswaldo Bratke, pai de Roberto Bratke, outro importante arquiteto
brasileiro moderno. Tais achados empíricos indicam que a atual configuração dos
gostos e desgostos não difere tanto daquela encontrada por José Carlos Durand,
que, tendo investigado o campo da arquitetura brasileira desde a inauguração de
Brasília até o começo dos anos 1980, mostrou o quanto "a arquitetura dos
arquitetos" dirigiu-se a um segmento bastante exíguo da burguesia cultivada14.
Em meio a meus informantes, a resistência à planta livre que suaviza a
separação entre o "setor de serviços" e o "setor social" de uma casa ("a
cozinha está dentro da sala!") e, ainda, as observações de que a cozinha é um
lugar da casa em que não se entra, posto que "é o espaço das empregadas", dão a
ver a dificuldade em aceitar uma arquitetura que não reproduza nossas
arraigadas formas hierárquicas de sociabilidade social. Um alto executivo e
proprietário de gigantesca construtora brasileira de obras civis (casado com
uma filantropa e colecionadora de obras de arte e de móveis do século XIX)
manifestou reiteradas vezes um sentimento de amor-próprio com a memória dos
antepassados através de seu gosto pelas casas coloniais deixadas por seus
ancestrais fazendeiros de café e que hoje são restauradas por iniciativa sua:
"Eu gosto dos arquitetos que fazem casas mais tradicionais, mais coloniais.
[...] Não gosto do moderno, eu não gosto de casa moderna, essa casa toda clean,
toda branca, sem nenhuma parede". A revivescência dos estilos antigos
tradicionais, em matéria de arquitetura como alhures, revigora traços do estilo
de vida dos segmentos dominantes brasileiros, privilegiando hábitos de
comportamento historicamente associados às elites escravocratas do país15.
Não surpreende, assim, que na opinião de Carlos Lemos, grande especialista das
formas de morar brasileiras, a arquitetura do território dos bairros-jardins
seja:
[...] sem interesse maior, pois é posterior ao ecletismo histórico,
continuando, no entanto, a mostrar aquela natural variedade de
soluções típicas dos anos 20, onde predominavam os estilos "missões"
especialmente mexicanas, o neocolonial, o art déco e outras soluções
estilísticas exóticas. É certo que essa miscelânea de gostos e
soluções arquitetônicas também representa um estágio cultural de
nossa classe conservadora que habita o local e, portanto, deve ser
considerada como documento alusivo a uma época e a uma sociedade. E
há, também de permeio, obras importantes de arquitetos de renome.
Alguns exemplares podem mesmo ser considerados verdadeiros bens
culturais. Mas a grande massa de edificações é vulgar. Seria
interessante a preservação de exemplares mais representativos, de
conjuntos residenciais dignos de preservação com fins documentais16.
A arquitetura que se reconcilia com uma antiga ordem social também seduziu a
emergente elite libanesa. A respeito da casa de seus pais, imigrantes
enriquecidos, uma ex-diretora de museu e esposa de um importante arquiteto
brasileiro afirmou o seguinte:
A minha família, quando fez a casa importante da minha família, de um
dos lados era um palacete, copiavam o palacete, a arquitetura
muçulmana, mesquita. Sabe, quando o cara tem dinheiro, ele precisa
mostrar o que é que era a melhor coisa da cultura dele. Era a
mesquita, ele vai lá e copia a mesquita.
Um economista (antigo diretor de vigorosa empresa brasileira) e ex-ministro se
desfez de sua casa moderna e investiu numa residência "mais térmica". Os poucos
informantes que habitavam "casas de arquiteto" referiram-se à necessidade de se
impor ao profissional da arquitetura. Nas narrativas sobre as atuações do
arquiteto, engenheiro, paisagista e decorador, o primeiro é tido como um
profissional idiossincrático e alheio ao gosto da clientela:
Porque no Brasil até a minha infância não existia essa valorização da
arquitetura. Eu acho que a arquitetura começou a ser valorizada pelo
vulgo depois dos anos 60, por causa de Niemeyer, né, toda essa gente
que começou a aparecer e tal, e as pessoas acordaram que arquitetura
era importante. Antes era tudo casa de engenheiro [...] eu não chamei
nenhum arquiteto para fazer a minha casa, não ia chamar a minha irmã
porque também tem uma coisa, né, o arquiteto às vezes é um sujeito um
pouco... Por exemplo, é só se ver essa casa aí da frente, que é feita
por um arquiteto muito famoso, e fez uma coisa horrorosa [...] tem um
caixotão todo de madeirinha assim, com uma coisa... O caixotão cheio
de madeirinha. [...] É eu adoro ver na casa dos outros, por exemplo,
na casa do Isay [Weinfeld]; eu adoro ver a casa do Isay, mas aqui eu
não chamei o Isay para fazer porque eu não queria casa de arquiteto.
Queria uma casa minha, do meu jeito, uma casinha de velhinha [...] Eu
já dormi numa casa do Niemeyer que tinha esse problema [de claridade
de manhã], que era a casa da minha ex-sogra. [...] Era linda, só que
eu fui dormir lá porque o nosso apartamento estava sendo dedetizado,
seis horas da manhã PUF! Não tinha veneziana e para mim casa que não
tem veneziana não serve [...] Aquele espaço todo, todo mundo fazendo
bagunça, eu não gosto, ai. [...] cozinha dentro da sala!
(Psicanalista, senhora da sociedade e mulher de um importante
empresário brasileiro)
Tendo reformado sua casa (assinada por um artista importante e tombada pelo
patrimônio histórico) situada numa cidade de veraneio cara às elites
brasileiras a fim de que ela ficasse "menos pobrezinha", essa entrevistada
compõe o perfil típico do "gosto burguês"17 que "não aguenta" o ascetismo
eletivo dos arquitetos mais energicamente modernos. Afastando-se, também no que
tange ao paisagismo, dos preceitos modernistas que no Brasil primam pelo uso
abundante de plantas tropicais, essa informante optou por um jardim toscano
para acompanhar a arquitetura dessa sua residência secundária. Filiado aos
princípios arquitetônicos neoclássicos, seu domicílio no bairro paulistano do
Jardim Europa é, portanto, em tudo coerente com esse sistema mais amplo de
preferências.
A capital federal, Brasília, é, para um empresário, rentiere filantropo, a
expressão de como o Brasil "está cheio de coisa de mau gosto". Apesar de
apreciar as residências de Artigas e Niemeyer, ele precisa em seguida que não
viveria nesse tipo de habitação: "Maravilhosas, tem obras fantásticas. Mas não
que eu queira morar lá".
Engenheiro da Politécnica, proprietário de construtora e herdeiro de outra
construtora de condomínios de luxo, um informante de Alphaville saiu em defesa
das fachadas monumentais ornamentadas por colunas e pórticos das mansões do
condomínio, afirmando não ser possível dizer, como faz em peso a classe dos
arquitetos, que o neoclássico seja um estilo arquitetônico criticável, posto
que o fato de agradar a tanta gente atesta, de maneira irrefutável, sua
legitimidade social. Em sua opinião, o profissional de arquitetura "tem a
responsabilidade de não induzir o cliente a fazer o que ele acha que ele tem de
fazer".
Consulesa de um país europeu, jornalista da imprensa oficial e esposa de um
empresário do setor exportador, cônsul e antigo juiz de direito, uma informante
descreve negativamente sua experiência como moradora de uma casa modernista:
Quando eu morava ainda no Pacaembu [...] a minha casa lá tinha sido
feita toda com o arquiteto Ruy Ohtake [...] Só que o Ruy Ohtake não
tem uma técnica ou uma arte da qual eu seja apreciadora. E
principalmente aquela fase dele foi a fase que ele desenhou todas as
agências do Banespa, lembra? E a casa era aquela casa de concreto
toda, e eu mudei tudo. Ele quase morreu [...] Aquela sala era toda
aberta, não é assim, por exemplo, como essa daqui toda quebrada. Não,
uma sala só, porta de vidro enorme, só que eu não moro na sala. Sabe,
então de repente, eu tinha cinco suítes em cima, nenhuma tinha
conforto. Eram todas muito pequenas, era bem agência do Banespa, né,
tudo de concreto aparente, quer dizer, uma coisa triste. O teto muito
baixo. Detesto. Eu mandei pintar tudo. Tira todo esse concreto.
Mandei iluminar tudo, mudei toda a casa. Mas eu vivia tendo problema
de vazamentos, porque a casa tem aquelas claraboias que ele faz...
Dentro do concreto só pode ter aquilo para dar iluminação. E aquelas
claraboias são ótimas para viverem dando problema. Então chovia [...]
dentro da casa... Por isso que nós saímos de lá.
Quando o que se tem em vista são as lutas para impor os princípios dominantes
de hierarquização dos bens e das visões artísticas, pode-se dizer que,
contrariamente à "falta de interesse pela existência ou pela não existência da
coisa representada"18, apregoada pelas leituras "puras" das obras de arte, a
recusa da insignificância do tema revelou-se, no universo estudado, em matéria
de cinema. Por mais incisivas que sejam as investidas de críticos e
historiadores da arte em prol de "uma aguda noção de forma"19, as críticas
culturais referentes ao gosto cinematográfico brasileiro veiculadas na mídia
impressa e eletrônica paulista entre 2007 e 2009 também apontaram a
incapacidade bastante generalizada de se ater primordialmente às singularidades
do estilo (e não do conteúdo) característico de uma obra de arte.
Em meio à discussão sobre as causas da queda do público dos longas nacionais em
2007 não obstante a produção cada vez mais volumosa de filmes brasileiros ,
o produtor Diler Trindade avaliou que "o dado objetivo é que o dinheiro está
curto para quem gosta do cinema nacional as classes populares"20. Para o
presidente da rede Cinemark Internacional, Valmir Fernandes, o descompasso
entre a oferta e o consumo do filme brasileiro no mercado interno a queda do
público no primeiro semestre de 2007 foi de 14,7% em comparação com o mesmo
período do ano anterior, ao passo que o número de estreias, no mesmo intervalo
de tempo, aumentou 39% também se deveu, em alguma medida, à falta de
"condições para uma política de preços adequada às camadas populares"21. A
crítica cultural de Cássio Starling Carlos intitulada "'Linha de passe' chega,
por fim, ao 'povo'" também denuncia a lógica socialmente perniciosa do acesso à
cultura no Brasil, comprazendo-se com a chegada em dvd desse terceiro filme
concebido pela parceria Walter Salles e Daniela Thomas:
No espaço doméstico, "Linha de passe" talvez renove a oportunidade de
ser percebido por uma plateia que não atingiu no trajeto pelas salas,
estabelecendo nexos com um público que o filme teve como ambição
projetar, hoje isolado dos cinemas devido aos custos das entradas,
uma evidência do nosso "apartheid" cultural22.
Mas o fato de o preço dos ingressos ser ainda proibitivo para os setores
populares estaria longe de ser a única explicação plausível para a diminuição
da audiência de filmes nacionais em 2007. As explicações acerca das causas do
baixo público do filme Antônia (2007), de Tata Amaral, introduziram um
argumento importante ao apontar o dado de que a classe média alta, que poderia
pagar entre 15 e 20 reais pela entrada, não estaria disposta a ver "drama de
pobre no cinema"23. Depois de apresentar esse argumento no blog Ilustrada no
Cinema, o crítico Leonardo Cruz recebeu 266 mensagens, que, a seu ver, podem
ser condensadas na seguinte opinião:
Os críticos se esquecem de que, tirando eles próprios, as pessoas vão
ao cinema para seu entretenimento e não para ver denúncia social, ou
como somos feios, sujos e malvados no Brasil. Para ver o mundo das
favelas, pobreza, injustiças sociais, basta abrir a janela do
apartamento ou olhar pelas ruas do país ou assistir aos telejornais,
e não ir ao cinema24.
Tendo discutido o mesmo assunto em sua coluna Olha Só, no site No Mínimo, o
crítico de cinema e documentarista Ricardo Calil registra uma reação parecida
por parte do público, como dá a ver o comentário de um leitor: "Os filmes
nacionais fracassam porque são ruins. É simples assim. Alguém ainda aguenta
assistir a histórias de periferia, travestis e violência?"25. Em crítica ao
filme Linha de passe (2008), o editor Marcos Augusto Gonçalves, da Ilustrada da
Folha de S.Paulo, expõe seu desagrado devido a questões que ultrapassam a mera
reincidência temática. No seu modo de ver, os filmes brasileiros que tratam das
favelas, da violência e das grandes cidades construiriam visões dicotômicas
tendentes a apresentar sempre os pobres como vítimas e os ricos como algozes:
Diferentemente dos representantes da elite, malvados, drogados ou
pusilânimes, os pobres são sempre vítimas, e devemos desculpá-los,
mesmo que se comportem de maneira irritante, como a pateta mãe
corintiana, já crescida e experiente o bastante para arrumar e manter
uma gravidez àquela altura do campeonato (sem trocadilho). A
estratégia estética e mercadológica de "Linha de passe" se presta
justamente a análises do tipo "tem o mérito de confrontar o
espectador da elite com uma realidade que ele desconhece ou não quer
ver". Francamente: moro em São Paulo há 24 anos e não creio que
precise ir ao shopping, comprar um saco de pipoca e entrar num cinema
para ter uma revelação sobre a pobreza que testemunho diariamente26.
Na mesma linha de juízo, Daniel Piza considera, em crítica veiculada pelo
jornal O Estado de S. Paulo, que o filme incorreria numa "redução ideológica"
devido ao contraste esquemático entre os ricos e os pobres, que desvaloriza de
antemão os primeiros:
Toda vez que aparece alguém de classe alta ou média no filme é para
simbolizar o que há de ruim na sociedade brasileira. A juventude de
condomínios droga o rapaz pobre e bate nele por jogar futebol melhor;
os motoristas de importados atropelam os motoboys e apenas sentem
medo deles, incapazes de olhá-los como pessoas; a intelectual não
registra a empregada em carteira; o dono do posto de gasolina divide
o mundo em bandido e "dotô". Todas essas situações são reais, até
recorrentes no dia a dia? Individualmente, sim. Mas por que a esse
bloco de personagens não é reservada semelhante variedade? Por que
nenhum recebe nem meia dose de compreensão?27
No bojo da discussão (ocorrida entre 2007 e 2008) sobre a queda de público do
filme nacional, o Sindicato dos Distribuidores do Rio de Janeiro encomendou uma
pesquisa ao Datafolha que, aplicada a 2.120 pessoas de dez cidades brasileiras,
apurou que o tema dos filmes brasileiros desagrada 80% dos frequentadores de
cinema que afirmam não gostar da produção nacional28. Em crítica dedicada ao
mesmo Linha de passe, Marcelo Coelho notou que o público estaria a "dar mostras
de cansaço diante de tanta gente pobre no cinema brasileiro"29.
De modo geral, os informantes das classes altas entrevistados confirmaram tais
críticas e estatísticas culturais que mostraram serem as classes mais abastadas
refratárias ao cinema nacional que tematiza a violência e os pobres. Depois de
afirmar que "eu não consigo entender muito bem o que eles falam", uma dona de
casa e esposa de um industrial assumiu desgostar da grande maioria dos filmes
brasileiros a que assiste: "Nenhum desses filmes que foram famosos e que
tiveram [...] premiação, aqueles meninos bandidos, favela, pá, pá, eu não
assisto. Eu não assisto porque eu não... Tudo bem, seria uma coisa a discutir,
mas eu não me sinto bem assistindo, entendeu?". Mesmo os que não se mostraram
ardorosos críticos da produção cinematográfica brasileira não revelaram grande
entusiasmo por esses filmes, com exceção do polo representado pelas elites mais
intelectualizadas (historiadora da arquitetura casada com um importante
arquiteto brasileiro; psicanalista e colecionadora de arte divorciada de um
industrial; artista plástica viúva de um industrial):
Acho que há bons filmes nacionais atualmente. Entretanto,
provavelmente para obter sucesso lá fora, abusa-se da filmagem da
miséria, da pobreza. O estrangeiro gosta do exótico, da miséria, das
favelas. Há companhias de turismo hoje em dia levando estrangeiros
para fazer um tour pelas favelas do Rio de Janeiro. Provavelmente o
último filmeQuem quer ser um milionário, do diretor inglês Daniel
Boyle, ganhou o Oscar neste ano influenciado por essa razão. O filme
se passa na Índia. É um filme que abusa da filmagem da miséria da
vida de crianças pobres órfãs. Vi a declaração de um intelectual
indiano infelizmente não me lembro quem que declarava que este
filme nem mesmo corresponde à realidade na Índia. (Psicanalista e
esposa de um economista e ex-ministro)
Convencido de que a produção cinematográfica brasileira "tem um prazer especial
em pegar as chagas da nossa sociedade", um banqueiro (ex-presidente e diretor
de bancos públicos e privados) e filantropo disse ir ao cinema para se
distrair, e não para sair angustiado:
O final feliz é simpático, né? [...] Não, não precisa, não
necessariamente. Mas, enfim, se você vai assistir um... Em outras
palavras, se eu vou assistir para me distrair, ou para vivenciar um
drama e sair de lá angustiado, eu prefiro ver uma coisa mais leve,
mais... Porque no fim das contas o cinema é um prazer, não é um
estudo científico que eu estou fazendo. Se eu estou tendo que estudar
um caso aí é diferente. Eu posso ter... Agora, se eu for por prazer,
o que é que me dá prazer? O que dá prazer são as coisas bonitas da
vida, as coisas gostosas, as coisas que vão bem.
Para o teatro é o mesmo gosto "la vie en rose", a próxima peça que veria era
Sassaricando: "Me contaram que era divertido e eu... Isso é uma coisa que eu
gosto. Coisa leve, alegre". O mesmo vale para suas preferências literárias:
Equador,de Miguel Sousa Tavares, um romance que o marcou, é considerado "um
livro leve, não é?", indicando como alguns membros da classe alta esperam uma
arte comprometida com a alegria e a "leveza". Sobre a filha artista plástica e
filantropa que retratou as favelas num dado momento de sua obra disse, com bom
humor: "É a burguesia enfeitando as suas casas com fotografias da favela [...]
há uma certa contradição, né?". Quando indagado sobre se atribuía mais
importância ao conteúdo ou à forma de uma tela, o informante invocou São Tomás
de Aquino para dizer que o belo é quod visum placet, como ele disse, "que
visto, agrada [...] O que é o belo? É aquilo que visto agrada".
Outro entrevistado que assumiu rejeitar filmes dramáticos e, também, músicas
tristes foi um grande empresário de importantíssima construtora brasileira de
obras civis e filantropo. Fã do repertório de Frank Sinatra e Glenn Miller, ele
conta que sempre foi um "pé de valsa", e que dançava "fora tango tudo, porque
tango eu acho uma música muito triste, muito bonita, mas triste, e eu sou um
cara alegre". Seus gostos em matéria de música parecem homólogos a suas
preferências cinematográficas, já que aí também se inclina aos bens culturais
que celebram a alegria de viver e induzem a um olhar otimista sobre o mundo.
Depois de dizer, do cinema nacional que tematiza a violência e os pobres, que
"a gente só vê filme falando mal do Brasil", afirmou preferir o cinema
americano ao europeu pois este se caracterizaria por fazer um filme "muito
parado, muito drama [...] é muito drama, e eu não gosto de drama".
Um empresário, rentier e filantropo destaca que, em matéria de teatro, "eu não
gosto de tragédia, eu só gosto de peças cômicas, então o final feliz é
imperativo". Sem se opor frontalmente ao cinema brasileiro que tematiza a
violência e a pobreza, um chef da alta gastronomia reconheceu, contudo, que se
regala com happy end: "[...] saio contente assim [...] prefiro sempre. Gosto de
final feliz". O mesmo para uma psicanalista, colecionadora de arte e ex-mulher
de um industrial que, entusiasta dos filmes brasileiros malgrado a "temática
terrível da violência", é também amadora do final feliz: "Ai que delícia!
[...] Sou romântica, quando você me pergunta se sou apenas surrealista ou [...]
bergmaniana com as tragédias totais, não é? [Você também gosta de um final
feliz?] Evidentemente".
Sem reagir energicamente aos temas diletos da produção cinematográfica
nacional, um jornalista e ocupante de altos postos em importantes instituições
culturais do país também reprovou uma espécie de obsessão pela pobreza nas
várias modalidades artísticas brasileiras:
O intelectual brasileiro tem medo de revelar o pensamento da
burguesia. Todos os nossos sociólogos[...]cuidam do pobre, todos os
nossos cineastas só fazem o cinema da pobreza[...]Os romancistas
fazem[...]a literatura regional[...]Mas isso foi um pouco uma
imposição ideológica depois de vinte, de uma grande hegemonia
intelectual do Partido Comunista brasileiro, que só via a cultura
dentro do traço regionalista e nacionalista. Então a burguesia urbana
não era objeto de consideração. Já o contrário você pega na Alemanha,
por exemplo. Você pega o... as grandes sagas, Thomas Mann,Os
Buddenbrooks, é uma história da burguesia. Você pega o Proust, você
pega o Roger Martin du Gard, os Thibault, é uma história, digamos, da
burguesia. Mesmo se você for ver o Wittgenstein, a vida, é uma
história do mais elevado pensamento burguês[...]Isso não tem nada que
ver com você fazer, só fazer a literatura da... Sobre as classes
populares, o que é uma coisa tirânica porque você que fica escrevendo
sobre quem é o pobre[...]O que falta no cinema brasileiro, a meu ver,
é roteiro. Nós temos um desprezo por roteiro, e quando fazemos
roteiro é o roteiro da miséria, né[...]Agora, há um preciosismo, um
sentimento de culpa, alguma coisa que levou ao exagero nessa temática
da miséria, entende?
Mesmo tendo dito não se incomodar com o cinema brasileiro que retrata a
violência e a pobreza, um economista e ex-ministro lamenta não ter ido assistir
à comédia romântica Se eu fosse você, com Glória Pires e Tony Ramos, um dos
maiores sucessos da bilheteria nacional nos últimos anos30. E também manifestou
traços do "incurável otimismo das elites"31 ao me dizer, num outro momento da
entrevista, que "se você administrar bem a sua vida, você será bem-sucedido,
senão, não".
A rejeição do pessimismo na arte também apareceu nas preferências
cinematográficas de um colecionador de arte, médico proprietário de clínica e
filho de médico dono de hospital, que não escapa à supremacia temática quando
deixa de assistir a um filme francês por tratar "de um cara na cadeira de
rodas"32. A recusa da insignificância do tema e a oposição à arte que retrata a
indigesta realidade também são bastante claras nas opções culturais de um
músico, escritor e herdeiro de uma família de banqueiros e políticos do
Nordeste. Certo de que o tema, mais do que os atores ou o diretor, é o que mais
conta na escolha de um filme, ele assume gostar de longas "fáceis, humorados e
felizes" e valorizar o "final feliz", pois, nas suas palavras, "a sociedade em
si já é muito desanimadora".
Uma informante que, um pouco mais acima neste texto, afirmou ter vendido sua
casa modernista por considerá-la dotada de uma arquitetura "triste" exprime um
gosto cinematográfico homólogo ao assumir seu desgosto pelo filme nacional que
encena a violência urbana e os pobres:
Ninguém quer ir ao cinema para ver isso. Você pode ir assistir um
documentário, um filme com um tema desses, mas você não pode ir toda
hora ao cinema assistir favelado matando, favelado pobreza, e sem
roupa e, sabe, com um palavreado muito chulo. Ninguém aguenta isso.
Olha, isso não é nem pobre, nem médio, nem rico. Isso é o ser humano
em si, ele não consegue conviver com isso muito tempo[...]por isso
que todo mundo se distanciou do filme nacional. Falava que era filme
nacional "Não, estou fora".
Uma de suas vizinhas, dona de casa e esposa de um industrial, afirmou preferir
o cinema feito nos Estados Unidos devido ao fato de que as produções europeias
seriam muito sérias e melodramáticas e as nacionais incorreriam no erro de
mostrar apenas "um Brasil":
Eles não aprenderam ainda a mostrar um Brasil que... nós temos dois
Brasis, e eles só mostram a parte ruim, quer dizer, o povo de fora só
conhece a gente por essa parte de violência, de pobreza... Não é
pobreza, é miséria, porque ser pobre é uma coisa e ser miserável é
outra. Tem quem mora num barraco feito aqui na beira da marginal,
falei "pô eu acho engraçado eles fazem aquelas casinhas de cachorro",
falei "qualquer dia eu vou parar e eu vou conversar com um cara por
que é que ele não faz aquela casinha num tamanho maior e vende para o
pessoal, pelo menos morar numa casinha bem feitinha". Não, eles pegam
aquelas madeiras, cruza de um lado e de outro, aí depois ele vai
fazer a casinha do cachorro direitinho, você já reparou?
Um banqueiro e ex-presidente e diretor de bancos públicos e privados e um
empresário de imensa construtora brasileira de obras civis, dois dos mais
enérgicos opositores do cinema nacional que tematiza a violência e os pobres,
são comprometidos com o mecenato e sobretudo com a filantropia: praticamente
toda a família de ambos está engajada em "causas nobres" e ao longo das
entrevistas são constantes as referências aos projetos sociais de que são
mantenedores: "O meu maior prazer é ver um jovem se desenvolvendo"33. Essa
"positividade" advinda do financiamento de atividades de inserção de jovens
carentes talvez torne difícil, se não insuportável, deglutir a realidade nua e
crua da violência no Brasil encenada na produção cinematográfica nacional.
Dando a ver um país um pouco sem saída, "que não tem mais jeito", filmes como
Linha de passee documentários como Notícias de uma guerra particularou Ônibus
174não são obras propriamente edificantes e confortadoras das boas intenções e
dignidades morais. Atuando como agentes privados em projetos filantrópicos
delimitados, precisamente financiados e com resultados (tanto quanto possível)
controláveis, eles se situam na rejeição do pessimismo na arte e, também, na
maneira de ver o país, suas preferências estéticas sendo, a um só tempo,
escolhas éticas:
O brasileiro é um povo espetacular. Não tem isso. E eu posso te
provar hoje que nós estamos fazendo um estaleiro em Recife, vamos
formar 5 mil crianças, meninos de dezoito anos que nós estamos
tirando da cana. E muitas meninas eu tenho conversado[...]qual é o, o
que é que ela vê como mulher, o que é que ela vê... Então ela vem de
uma quase escravatura, de uma coisa, e uma oportunidade que nós demos
espetacular, e você vê aquela mulher se transformando numa mulher com
um ideal, com não sei o quê.
Você vê que churrascarias estão pegando o mundo hoje. O Brasil está
se internacionalizando como um todo. Você vê a capacidade do povo
brasileiro. Não são só as grandes empresas. Você vê os futebolistas,
você vê o pessoal de... As modelos[...]!
Desse modo, apesar do julgamento do artista plástico Paulo Pasta, que, impondo
uma leitura formalista das obras de arte, assume que "preciso pintar a coisa
para não pintar a coisa, pintar o tema para não pintar o tema"34, o conteúdo,
quer em matéria de pintura, quer em matéria de cinema, é algo amplamente
decisivo nas preferências culturais de boa parte do público interrogado, que,
como visto, se orienta muito mais em função do que se representa e não de
comose retrata determinado tema.
Tais são também algumas evidências de como a contestação simbólica da realidade
social intentada por alguns artistas colide com as expectativas do "gosto
burguês", que prefere sempre e invariavelmente la vie en roseà la vie en noir,
rejeita o pessimismo antiburguês de gente com problemas para acolher o otimismo
social de gente sem problemas esperando, em suma, que a arte não seja senão um
instrumento de obscurecimento e não de crítica da realidade social.
Diferentemente das frações mais intelectualizadas das classes dominantes, "o
'burguês' espera que seus artistas, escritores e críticos assim como seus
costureiros, joalheiros ou decoradores mostrem emblemas de distinção que, ao
mesmo tempo, sejam instrumentos de denegação da realidade social"35. A
resistência à arte que tematiza a miséria do mundo não parece ser específica de
um único país quando os grupos sociais enfocados são as classes altas. Quando
discute o tradicionalismo da cultura do Segundo Império Germânico, Arno Mayer
lembra que:
Segundo a concepção do Kaiser, a alta cultura tinha como única grande
tarefa a de educar o público, em especial as classes baixas,
retratando obrigatoriamente a virtude, a beleza e a honra. Enquanto
projetar esses sublimes ideais clássicos era elevar moral e
espiritualmente o povo germânico, pintar e exagerar a miséria humana
era "pecar contra ele"[...]Embora muitíssimo homenageado no exterior,
Gerhart Hauptmann era sistematicamente rejeitado por seu tratamento
naturalista da miséria dos tecelões da Silésia emDie Webere sua
ridicularização das tendências autoritárias da Prússia emDer
Biberpelz36.
Hostil aos modernismos artísticos e afeito aos valores culturais já bem
estabelecidos, esse gosto tradicional revelou-se, finalmente, na apreciação das
obras de artes plásticas. Um indicador nesse sentido é a dificuldade em admitir
a arte contemporânea:
Eu não sei se ela é incompreensível. Não me diz tanto, eu acho que
tem determinadas instalações, determinadas coisas nas artes
conceituais que o artista tem que voltar lá todo ano pra trocar assim
o fio. Incrível isso[...]eu fui ver um, tinha uma exposição dele [de
José Rezende] compreensível, mas, tem que gostar, uma coisa assim
quase idiota de tão boba. Tartarugas no chão, umas saboneteiras, C-A-
R-Í-S-S-I-M-A-S. Em três horas estava tudo vendido. Muito caras. E
muito feias[...]Eu me lembro de uma inglesa que veio aqui, que estava
lá na OCA há um tempo, há uns quatro, cinco anos. Um copo d'água. Com
água. Um pouco de água[...]Eu não vou dizer como o Monteiro Lobato
falou da Anita Malfatti, mas, realmente, não me diz nada. (Banqueiro,
Jardim Europa)
A produção artística da atualidade não é acolhida por mais do que três
informantes, o que indica a falta de predileção pelo novo: "Eu achei bizarra
essa Bienal, não tem um quadro nessa Bienal, um quadro sequer" (Restauradora de
obras de arte acadêmica, Jardim América). Mesmo uma proprietária de importante
coleção de arte moderna julga que a produção contemporânea apresentada, por
exemplo, nas Bienais, não passaria de um "blefe": "[...] nem dou bola para
isso. Isso eu acho que não tem cabimento". Proprietário de duas obras de Iberê
Camargo, um pianista, maestro e compositor avalia que, apesar de frequentar as
Bienais, "eu acabo curtindo 10% do que está lá, que é uma coisa que me bate". À
pergunta sobre o gosto por pintura, um empresário, rentiere filantropo
responde, de pronto: "Os clássicos, especialmente os clássicos [...] Eu demorei
para aceitar Picasso, demorei para aceitar Picasso!". Autor de fotografias que
buscam apenas o registro de paisagens e de momentos felizes, um músico e
escritor herdeiro de uma família de banqueiros e políticos avalia que "as novas
instalações são em geral facilmente compreensíveis, tolas em sua grande
maioria". Uma artista plástica e herdeira de um importante publicitário
brasileiro testemunha que "instalações, por exemplo, eu tenho uma certa
dificuldade".
A arte abstrata também não granjeia o interesse da maioria dos entrevistados:
"Eu gosto da arte figurativa moderna mais do que a abstrata. E gosto de alguns
abstratos, mas não é o meu... Hoje não é a arte que eu compraria" (jornalista e
ocupante de altos cargos em importantes instituições culturais brasileiras);
"há raros exemplos de bons trabalhos abstratos, que não sejam por preguiça de
pintar algo mais difícil" (músico, escritor e herdeiro de uma família de
banqueiros e políticos); "às vezes fico bravo com a arte abstrata, mas tenho um
monte de arte abstrata em casa [...] É porque às vezes fica muito... Muito
vazia, né, se você quiser, de conteúdo [...] de qualquer forma acho que os
grandes, grandes autores não foram abstratos (economista, ex-ministro do país e
antigo diretor de vigorosa empresa brasileira).
Herdeira de obras de arte que seu avô adquiriu na Europa, uma dona de casa
oriunda de antigas famílias de São Paulo (e viúva de um advogado de fábrica
familiar e assessor político da prefeitura da cidade) exprime da seguinte
maneira suas preferências em matéria de pintura:
Eu sou mais do estilo romântico, o mais suave, não vou dizer que o
meu predileto fosse o Van Gogh, de jeito nenhum, mas admiro, acho
bonito, mas não é o que eu mais gostaria de ficar visitando, por
exemplo, quando estou viajando. Principalmente na Europa, né? Mas eu
gosto, eu gosto do Cézanne, eu gosto de... Aquele maluquinho de umas
formas compridas, engraçadinho[...]Modigliani.
Integrante do polo "mundano-cultivado" da população estudada, uma psicanalista,
senhora da sociedade e mulher de um grande industrial brasileiro foi das poucas
a se dizer interessada na arte contemporânea apresentada nas Bienais, tendo
inclusive julgado que tal modalidade artística só é incompreensível para
aqueles que não se informam, pois para entender o que o artista contemporâneo
quis dizer "você tem às vezes que ler um livro". No entanto, contrariamente ao
que artistas e críticos de arte julgariam apropriado, a informante assume que,
ao deparar com um quadro, presta primeiramente atenção à legenda e, depois, à
representação pictórica proposta: "Leio primeiro a legenda, sou muito do
livro". Na mesma linha de juízo, diz se apegar mais ao conteúdo da tela, ao
objeto representado, do que às técnicas propriamente formais empregadas pelo
artista. Apesar de declarar ir ao cinema três vezes por semana, assume que não
frequenta as melhores salas, ou, ao menos, as salas "onde tem gente mais
educada", por questões de segurança, distância e conforto. Acaba indo bastante
às salas do shopping Iguatemi, que têm lugar marcado, excelente projeção,
ciente de que nelas "a frequência é de gente que come pipoca e fala, né?". Ou
seja, o que temos aqui não é tanto o "amor puro" pela arte, pronto a quaisquer
sacrifícios: na escolha de um cinema, a existência de estacionamento conta mais
do que uma plateia com maior disposição estética.
Assim, quando se tem em vista o repertório das artes plásticas selecionadas,
pode-se dizer que os grandes artistas do Quattrocento (como Piero de la
Francesca, Leonardo da Vinci, Van Eyck, Fra Angélico), os pintores holandeses
do XVII (como Rembrandt e Vermeer) e os impressionistas (Renoir, Monet, Manet e
Degas), a partir do XIX, figuram, junto com a arte moderna brasileira do século
XX (Anita Malfatti e Volpi), em boa parte do conjunto das preferências dos
entrevistados. Tomando emprestada uma análise do gosto artístico empreendida
por Louis Pinto na França, ninguém "se aventura nas regiões raras, audaciosas
ou marginais: nem a arte contemporânea nem a arte não ocidental são objeto de
suas escolhas"37. Para além do gosto pela realidade idílica e "dócil" dos
expoentes do movimento impressionista (13/30), o apreço pela obra de Matisse
(6/30), considerada de "tramas ornamentais, decorativas e superficiais"38, é
mais um indício de como as elites em pauta são pouco subversivas
culturalmente39.
Todas essas recusas da disposição estética que hoje se impõe como a mais
legítima correspondem bem ao que disse Bourdieu dos grupos dominantes na
França, ou seja, que eles não são, em geral, os mais bem providos de capital
cultural em seu estado "incorporado". O gosto "burguês" que se opõe ao mesmo
tempo aos gostos "intelectual", "médio" e "popular" e que consagra os valores
tradicionais da cultura clássica não tem a pretensão, associada à fração
dominada das elites isto é, os intelectuais e os artistas , de rejeitar a
cultura de massa e é inclusive bastante anti-intelectualista. Quando discute o
estilo de vida dos grandes empresários e industriais franceses, o autor evoca o
teatro de bulevar, music halls, espetáculos de televisão e filmes de sucesso
comercial40. No domínio das predileções e aversões estéticas, portanto, não
haveria uma nítida especificidade no modo como operam as frações de classe alta
brasileira estudadas.
Do ponto de vista dos confrontos que atravessam atualmente a sociologia do
gosto na Europa e na América do Norte, a pesquisa cujos resultados parciais
apresentei aqui autorizaria a questionar o diagnóstico segundo o qual o autor
de A distinçãoteria concebido a "visão de uma cultura dominante unificada pela
veneração das obras da cultura erudita"41. Dada a estrutura frequentemente em
quiasma do capital possuído, a "fração dominante da classe dominante" se situa
na recusa sistemática das pretensões vanguardistas, opondo-se ao gosto dos
intelectuais e dos artistas.
As escolhas culturais pouco arriscadas das elites com estrutura patrimonial de
dominância econômica também sugerem que a compatibilidade das várias espécies
de capital não é necessariamente típica dos "grandes burgueses", diferentemente
do que apuraram estudos contemporâneos sobre as classes altas francesas42. Meus
resultados de pesquisa com as classes altas paulistanas sugerem que a aquisição
material de obras de arte (o capital cultural em seu estado objetivado) não
pode ser diretamente assimilada à apropriação simbólica dos bens artísticos
(que conforma o capital cultural incorporado).
Por fim e ainda que, como explicitado no início deste texto, eu não tenha
trabalhado com casos estatisticamente representativos , minha análise das
elites paulistas poderia fornecer uma última contribuição a alguns dos debates
mais candentes na sociologia do gosto contemporânea: contrariamente a uma
pesquisa canadense sobre os "repertórios culturais das novas elites
onívoras"43, que destacou as diferenças profundas entre indivíduos pertencentes
a uma mesma classe social, é possível dizer que, com exceção do polo mais
intelectualizado de minha coleção de casos (formado por uma historiadora da
arquitetura casada com um importante arquiteto brasileiro, por uma artista
plástica viúva de um industrial e por uma psicanalista e fazendeira residente
numa casa modernista), os outros informantes dos altos estratos estiveram de
acordo a respeito de certos gostos que davam a ver claras representações deles
mesmos e dos outros. Como procurei indicar no espaço deste artigo, a
preferência pelos bens culturais "estabelecidos" e que não evocam uma visão
pessimista do mundo foi recorrentemente acolhida, sendo portanto ainda cabível
propor, como hipótese de pesquisas futuras, a existência de uma comunidade
social de gosto e, no caso em pauta, de uma certa coesão das elites
(especialmente as de estrutura patrimonial de dominância econômica) a partir
das preferências estéticas.
CAROLINA PULICI é Doutora em Sociologia pela FFLCH-USP e bolsista Fapesp de
pós-doutorado no Museu Paulista da USP
[*] Uma primeira versão deste texto foi exposta no colóquio Trente ans après
"La Distinction"/Thirty years after "Distinction", ocorrido em 2010 em Paris
sob os aUSPícios do Ministério da Cultura, Sciences Po/cnrs e Paris 1-EHESS-
CNRS. Tanto a comunicação ao congresso quanto o artigo aqui apresentado
constituem resultados parciais da minha tese de doutorado centrada nos
processos de distinção social pelo gosto com ocupantes das altas posições na
hierarquia social da cidade de São Paulo. Pulici, Carolina Martins. O charme
(in)discreto do gosto burguês paulista: estudo sociológico da distinção social
em São Paulo. São Paulo: tese de doutorado em Sociologia, USP, 2010.
[1] Ferreira, Marcelo Costa. "Permeável, ma non troppo? A mobilidade social em
setores de elite, Brasil 1996". Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol.
16, n. 47, 2001; Medeiros, Marcelo. O que faz os ricos ricos:
o outro lado da desigualdade brasileira.São Paulo: Hucitec/ Anpocs, 2005.
[2] Lima, Diana Nogueira de Oliveira. "Ethos emergente: notas etnográficas
sobre o sucesso". Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol. 22, n. 65, 2007.
[3] Conferir, a esse respeito, Bourdieu, Pierre. La distinction: critique
sociale du jugement.Paris: Minuit, 1979; Le Wita, Béatrix. Ni
vue, ni connue. Approche ethnographique de la culture bourgeoise.Paris:
Éditions de la Maison des sciences de l'homme, 1988; Pinçon,
Michel e Pinçon-Charlot, Monique. Voyage en grande bourgeoisie. 2ª ed. Paris:
Quadrige/ PUF, 2005; Pulici, C. O charme (in)discreto do
gosto burguês paulista, op. cit.
[4] Medeiros, M. O que faz os ricos ricos: o outro lado da desigualdade
brasileira, op. cit.
[5] Mesmo que não se possa falar numa homologia inequívoca entre o sistema de
posições sociais e o espaço geográfico da cidade de São Paulo, pode-se deduzir
que lugares como Jardim América, Jardim Europa, Jardim Paulistano, Jardim
Paulista, Cidade Jardim e Alto de Pinheiros concentram parte de uma "burguesia"
mais antiga, da mesma forma que alguns residenciais de Alphaville constituem
lugares emblemáticos de grupos que ascenderam economicamente de forma tardia.
Em sua análise das singularidades da urbanização da metrópole paulista, Paulo
Garcez Marins mostra como São Paulo sofreu experiências de segregação social
bem mais marcantes do que outras grandes capitais brasileiras republicanas e
como esse zoneamento social dos bairros foi radicalizado pela experiência dos
bairros-jardins. Cf. Marins, Paulo César Garcez. "Habitação e vizinhança:
limites da privacidade no surgimento das metrópoles brasileiras". In: História
da vida privada no Brasil, vol. 3. 5ª reimpressão. São Paulo: Companhia das
Letras, 2002 [1998], p. 180.
[6] As informações requeridas por minha pesquisa só poderiam ter sido obtidas
através de entrevista qualitativa. Como mostrou uma investigação baseada em
dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), tais pesquisas amostrais não
fornecem informações precisas sobre o gosto nem captam os muito ricos. Cf.
Bertoncelo, Edison R. E. Classes sociais e estilos de vida na sociedade
brasileira.São Paulo: tese de doutorado, FFLCH-USP, 2010.
[7] Em vista do espaço exíguo deste artigo, optei por trabalhar
majoritariamente com tais fontes empíricas de primeira mão, malgrado o fato de
que a pesquisa completa cujos resultados parciais apresento aqui se baseou não
apenas nessas entrevistas, mas em manuais de etiqueta, crônicas da vida
mundana, críticas culturais, estatísticas da dispersão social dos bens
culturais, representações do consumo encenadas no material da imprensa
paulistana contemporânea e na própria sociologia do gosto tomada como objeto de
estudo.
[8] Warde, Alan e Bennett, Tony. "A culture in common: the cultural consumption
of the uk managerial elite". In: Savage, Mike e Williams, Karel. Remembering
Elites. Oxford: Blackwell Publishing, 2008, p. 254.
[9] Pinçon, M. e Pinçon-Charlot, M. Les ghettos du gotha: comment la
bourgeoisie défend ses espaces. Paris: Seuil, 2007, p. 56.
[10] Seguindo uma abordagem da estratificação social que atenta para a
multidimensionalidade das formas de riqueza apreendidas sincrônica e
diacronicamente, a escolha de dois núcleos residenciais de elite (bairros-
jardins que seguem o padrão da Companhia City x Alphaville) para a realização
da pesquisa de campo fez aparecer disparidades associadas à estrutura e,
sobretudo, à evolução no tempo do volume total do capital: no condomínio
fechado e afastado das áreas centrais encontrei não apenas os informantes menos
dotados de capital cultural, social e simbólico, mas também os mais tardiamente
chegados às altas classes paulistanas, o que sugere que origens sociais
diferentes geram estruturas patrimoniais igualmente diversas.
[11] Não posso dar a referência dessas fontes documentais, pois isso
comprometeria o anonimato que garanti a todos os informantes.
[12] Bourdieu, P. A distinção: crítica social do julgamento.São Paulo/ Porto
Alegre: EdUSP/ Zouk, 2008, p. 247. Gosto "tradicional" tem
neste artigo a mesma acepção que Bourdieu atribuiu ao termo, ou seja, diz
respeito à preferência por valores culturais bem estabelecidos, em detrimento
dos modernismos artísticos. Partilho também do sentido que Arno Mayer confere à
expressão "tradicionalismo" quando afirma a persistência das culturas oficiais
na Europa de 1848 à Grande Guerra, em detrimento das vanguardas. Cf. Mayer,
Arno. "Culturas oficiais e vanguardas". In: A força da tradição: a persistência
do antigo regime.São Paulo: Companhia das Letras, 1990 [ 1981].
[13] Wolff, Silvia Ferreira Santos. Jardim América: o primeiro bairro-jardim de
São Paulo e sua arquitetura.São Paulo: EdUSP/ Fapesp/ Imprensa Oficial do
Estado, 2001, pp. 190- 1.
[14] Durand, José Carlos. Arte, privilégio e distinção. Artes plásticas,
arquitetura e classe dirigente no Brasil, 1855/1985. São Paulo: Perspectiva/
EdUSP, 1989, p. 280. Para um estudo dos clientes e dos
projetos das "casas de arquiteto", consultar Acayaba, Marlene Milan.
Residências em São Paulo: 1947/1975.São Paulo: dissertação de mestrado, FAU-
USP, 1983. 2 vols.
[15] Discutindo "Estética de São Paulo", de Roger Bastide, Gilda de Mello e
Souza trata de uma arquitetura reconciliada com nossa antiga ordem senhorial:
"Para Roger Bastide, o espaço de uma cidade como São Paulo que naquele
momento iniciava o surto vertiginoso de seu crescimento é um espaço vertical.
Ora, este espaço está em contradição com a sensibilidade horizontal, descrita
por Gilberto Freyre e característica do complexo Casa-grande e senzalaou
Sobrados e mocambos. Como faz a cidade para acomodar às imposições novas da
arquitetura a velha mentalidade? E quais as consequências dessa acomodação?
Pois na Europa, o prédio de apartamentos corresponde ou traduz, na sua
disposição interna, a sociedade estratificada de classes superpostas: no
primeiro andar localiza-se a burguesia rica, nos andares intermediários a
classe média e nos sótãos os empregados. A estrutura arquitetônica repete, por
conseguinte, a estrutura da sociedade: separa os grupos, mostrando que as
relações entre a família do patrão e a do empregado são profissionais; e que
este é independente, ama a liberdade, é cioso de suas prerrogativas e está
comprometido com a luta de classes. Mas em São Paulo, ao contrário, o prédio de
apartamentos repete a organização horizontalda casa-grande: distribui no mesmo
andar os cômodos destinados a patrões e empregados; situa as acomodações dos
domésticos ao lado da cozinha, fazendo-os ocupar um espaço próximo e
dependente. O arranha-céu é, assim, uma espécie de grande monstro anacrônico,
que inscreve na paisagem dinâmica a velha e retrógrada estrutura patriarcal".
Cf. Souza, Gilda de Mello e. "A estética rica e a estética pobre dos
professores franceses".Discurso. São Paulo: Departamento de Filosofia da FFLCH-
USP, n. 9, 1979 [1973], pp. 17- 8.
[16] Lemos, Carlos. "O mis e os ricos". Apud Paula, Zuleide Casagrande de. A
cidade e os Jardins: Jardim América, de projeto urbano a monumento patrimonial
(1915-1986).São Paulo: Editora Unesp, 2008, p. 204.
[17] Utilizo a noção de "gosto burguês" empregada por Bourdieu em La
distinction, obra que opõe tal sistema de preferências simultaneamente ao
"gosto intelectual" associado às frações dominadas das elites, ao "gosto médio"
tendente a ser encontrado entre as classes médias e, por fim, ao "gosto
popular".
[18] Bourdieu, P. A distinção, op. cit., p. 456.
[19] Naves, Rodrigo. O vento e o moinho: ensaios sobre arte moderna e
contemporânea.São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 19.
[20] Arantes, Silvana. "Mercado discute queda de público". Folha de S. Paulo,
11/07/2007, p. E4.
[21] Idem, ibidem.
[22] Carlos, Cássio Starling. "'Linha de passe' chega, por fim, ao 'povo'".
Folha de S.Paulo, 03/05/2009, p. E4.
[23] Cruz, Leonardo. "Público de cinema rejeita pobreza". Folha de S.Paulo, 12/
03/2007, p. E3.
[24] Idem, ibidem.
[25] Idem, ibidem.
[26] Gonçalves, Marcos Augusto. "A ficção da realidade: politicamente correto,
'Linha de passe' frustra como cinema e ensaio sociológico". Folha de S.Paulo,
21/09/2008, p. E5.
[27] Piza, Daniel. "Quase lá". O Estado de S. Paulo, 21/09/2008, p. D3.
[28] Arantes, S. "Espectador prefere filme dublado". Folha de S.Paulo, 29/08/
2008, p. E4. A tematização da violência urbana no cinema
nacional não é fato do século XXI, já que esteve presente, de forma precursora,
entre os autores do chamado Cinema Marginal. Sem se contrapor radicalmente a
seus antecessores do Cinema Novo, filmes como O bandido da luz vermelha
(Rogério Sganzerla, 1968) e Matou a família e foi ao cinema (Júlio Bressane,
1969) exploraram personagens ligados às práticas criminosas nas cidades. Após
um período de "relativa invisibilidade que encobriu a pobreza e a violência nos
anos 1970 e 1980, anos de consolidação da indústria de TV e do mercado de
consumo no Brasil", o final dos anos 1990 e, sobretudo, início de 2000 foram
marcados por uma "explosão" da temática da violência urbana nos filmes
nacionais. Cf. Hamburger, Esther. "Violência e pobreza no cinema brasileiro
recente: reflexões sobre a ideia do espetáculo". Novos Estudos Cebrap, n. 78,
2007, pp. 113- 28.
[29] Coelho, Marcelo. "Filmar pobre não é pecado". Folha de S.Paulo, 24/09/
2008, p. E12. Visto que a coleta das fontes empíricas e
documentais desta pesquisa (finalizada em 2010) se deu entre 2006 e 2009, o
sucesso de Tropa de elite 2, filme de José Padilha que em 2010 ultrapassou o
recorde de 1 milhão de espectadores, ficou de fora do escopo do meu trabalho,
que, como qualquer outro, tem sua historicidade.
[30] Arantes, S. "Bateu!".Folha de S.Paulo, 04/03/2009, p.
E1.
[31] Bourdieu, P. A distinção, op. cit., p. 251.
[32] Trata-se do filme O escafandro e a borboleta, de Julian Schnabel, de 2007.
[33] A mulher desse informante, por exemplo, coleciona obras de arte e móveis
do século XIX e integra o conselho de uma associação caritativa internacional,
enquanto o instituto criado por ele empreende, além de projetos sociais,
atividades de preservação ambiental, histórica e cultural.
[34] Longman, Gabriela. "Exposição e livro reveem trajetória de Paulo Pasta".
Folha de S.Paulo, 18/08/2006, p. E8.
[35] Bourdieu, P. A distinção, op. cit., p. 273.
[36] Mayer, A. "Culturas oficiais e vanguardas", op. cit., pp. 220-1.
[37] Pinto, Louis. "L'émoi, le mot, le moi: le discours sur l'art dans le
'musée égoïste' du Nouvel Observateur". Actes de la recherche em sciences
sociales, n. 88, 1991, p. 85.
[38] Mayer, A. "Culturas oficiais e vanguardas", op. cit., p. 226.
[39] Mesmo que não seja possível desenvolver o argumento no espaço deste
artigo, cabe ao menos enunciar que a ausência de escolhas culturais audaciosas
se mostrou também no domínio dos hábitos indumentários, especialmente na
preferência da maioria dos homens e das mulheres entrevistados pelos cortes
clássicos e pelas cores sóbrias. Segue-se assim a tendência que, na visão de
Gilberto Freyre, dataria do reinado de d. Pedro ii e se caracterizaria pelo
desaparecimento dos orientalismos na moda brasileira, em prol de vestimentas
que carregassem a marca do europeísmo. Assim, se por um lado o trajar mais e
mais casual, descontraído, que se afirma na contemporaneidade ("Hoje em dia a
tendência toda é você não se arrumar") é um indício de enfraquecimento das
aparências "graves" e "solenes" importadas da Europa, a quase absoluta rejeição
do que consideram cores "berrantes" indica, por outro lado, que a
reeuropeização na moda foi um gosto que se prolongou além da vigência da
sociedade brasileira do século XIX: "Então o meu gosto é gosto europeu. Para
ser mais exato, francês [...] Nas cores têm que ser cores discretas entendeu?"
(empresário, rentier e filantropo); "Eu compro muita roupa fora. Então, eu
gosto muito de blazer, de tailleurzinho [...] Eu sou superclássica [...] Nos
cortes e nas cores, então, se você abrir o meu guarda-roupa ele começa no
preto, passa pelo azul-marinho, vai para o uva e algumas coisas em bege e
alguma coisa em branco [...] Eu não uso nada estampado [...]" (dona de casa e
mulher de um industrial). Cf. Freyre, Gilberto. Modos de homem & modas de
mulher. 2ª ed. São Paulo: Global, 2009, pp. 213- 4.
[40] Bourdieu, P. La distinction, op. cit., pp. 306 e 321-2.
[41] Coulangeon, Philippe. "Classes sociales, pratiques culturelles et style de
vie: le modèle de la distinction est-il (vraiment) obsolète?", vol. 36, 2004,
p. 60.
[42] Pinçon, M. e Pinçon-Charlot, M. Voyage en grande bourgeoisie, op. cit.
[43] Bellavance, Guy, Ratté, Michel e Valex, Myrtille. "Le goût des autres: une
analyse des répertoires culturels de nouvelles élites omnivores". Sociologie et
sociétés, vol. XXXVI, 2004.