A política educacional do governo Fernando Henrique Cardoso: uma visão
comparada
Toda análise de políticas educacionais precisa partir do reconhecimento de que
nem os seus sucessos nem os seus insucessos são de responsabilidade exclusiva
do governo federal. De fato, todo o ensino básico, da pré -escola ao ensino
médio, é de responsabilidade de estados e municípios. O desenvolvimento da
educação depende, em grande parte, da atuação destas entidades federadas, como
mostra o desempenho diferencial entre estados e regiões do Brasil e entre
municípios do mesmo estado diante das mesmas políticas nacionais. Parte dessas
diferenças deve-se à disponibilidade ou falta de recursos e ao grau de
desigualdade social. Mas as políticas estaduais e municipais são tão ou mais
importantes do que as intervenções federais para assegurar a frequência à
escola e melhorar o desempenho dos alunos. Minas Gerais e os estados do Sul,
por exemplo, têm tido desempenho melhor que São Paulo, cujo pib é maior; no
Nordeste, o Ceará tem desempenho melhor que os demais estados. Avanços nos
indicadores estaduais paulistas durante o governo Serra, por outro lado, também
demonstram a importância das políticas estaduais de educação.
Não se deve esquecer que, apesar das variações nas políticas governamentais,
existem tendências gerais que permeiam todos os governos, tendências que
decorrem de amplas transformações e pressões sociais. A principal delas é a
reivindicação de ampliação de acesso a todos os níveis de ensino. Até a década
de 1980, tratava-se do acesso às séries iniciais do ensino fundamental e o
analfabetismo ainda era considerado o maior problema do país. No final desta
mesma década, a preocupação maior era com o aumento de matrículas nas séries
finais do ensino fundamental. Nos anos de 1990, vêm à tona, adicionalmente, as
questões da ampliação do ensino médio e da qualidade do ensino.
O desempenho escolar depende, também, do nível de renda e de escolarização dos
pais. Os países com os melhores sistemas educacionais são aqueles ou muito
ricos ou onde há os pequenos desníveis sociais, ou, ainda, onde a geração dos
pais já completou os níveis iniciais do ensino, o que não é o caso do Brasil.
Na área de educação, o desenvolvimento se dá a longo prazo e é cumulativo. Por
esta razão boas políticas desenvolvidas por um governo frequentemente só
apresentam resultados no governo seguinte. O desenvolvimento do ensino médio
depende, por exemplo, do aumento das matrículas no ensino fundamental e,
especialmente, da diminuição da repetência e do abandono escolar nas séries
iniciais, permitindo o aumento de concluintes na 8ª série. Por sua vez, a
expansão do ensino superior depende do aumento do número de matriculados e de
egressos do ensino médio.
O Gráfico_1 elaborado pela Fundação Lemann1 demonstra a consistência, a longo
prazo, do aumento das matrículas entre 1970 e 2000 e a ruptura ocorrida entre
2000 e 2007, advinda provavelmente de mudanças políticas do governo Lula.

Há de fato, até o ano 2000 e ao longo de diferentes governos, um crescimento
constante das matrículas em todos os níveis de ensino, da pré -escola ao ensino
superior. O grande aumento das matrículas entre 1970 e 1980 concentrou-se nas
séries iniciais do ensino fundamental, e na década de 1990 as matrículas de 5ª
a 8ª séries aumentaram significativamente, assim como as do ensino médio. A
tendência de aumento constante altera-se apenas no período entre 2000 e 2007,
com redução das matrículas no ensino fundamental e estagnação no ensino médio.
Aumentos significativos das matrículas, neste período, ocorrem apenas na pré -
escola e no ensino superior, os dois extremos do sistema, e é só neste último
que o crescimento é maior do que nos governos anteriores.
A consistência das tendências implica o reconhecimento da força de tradições
históricas que antecedem em muito o período que estamos analisando, que
continuam a existir e que estiveram na base do patamar institucional atual da
educação.
Em primeiro lugar, atradição, que vem desde o Império, de atribuir a
responsabilidade pelo ensino básico (então limitado às escolas primárias) a
estados e municípios. Como diz Maria Helena Guimarães de Castro, o governo
federal encarregou-se das instituições do topo do sistema, as mais caras e as
de melhor qualidade, que tendem a absorver a totalidade orçamentária do
Ministério da Educação2. Dado o custo dessas instituições, a rede federal
permaneceu pequena, atendendo às faixas superiores de renda da população e, por
esta razão, foi incapaz de absorver o grande aumento da demanda e o atendimento
maciço do ensino básico e superior que recaiu, quase que inteiramente, sobre
estados e municípios e sobre o ensino privado. Abordamos também, a tendência do
governo federal de controlar todo o sistema de ensino, utilizando como
instrumento privilegiado para promover mudanças o recurso a leis, normas e
decretos de alcance nacional, que os estados e os municípios devem executar e
financiar (apesar de frequentemente serem incapazes de fazê -lo). Disto
resultou um sistema extremamente burocrático, ao mesmo tempo centralizador,
fragmentado e desigual3.
Por fim, há uma tendência histórica de malversação dos recursos destinados à
educação. De fato, irregularidades na aplicação dos recursos para a educação
são constantes na história da educação brasileira envolvendo o governo federal,
os estados e os municípios.
OS MARCOS ESTRUTURAIS DO SISTEMA DE ENSINO
Até a Constituição de 1988, a estrutura do sistema brasileiro de ensino estava
baseada nas profundas reformas promovidas pelo Regime Militar entre 1964 e
1970, as quais definiram o modelo de universidade e reorganizaram todo o ensino
básico, unindo os antigos ginásios e colégios num único nível, o fundamental4.
Data também deste período a criação do Fundo Nacional de Desenvolvimento da
Educação (fnde), constituído por recursos extra-orçamentários fornecidos pelo
Salário Educação, que permitiu à União interferir diretamente no ensino
fundamental.
A primeira grande mudança do marco estrutural criado pelo governo militar
ocorreu com a Constituição de 1988. Quatro medidas tiveram impacto muito grande
no sistema educacional.
A primeira, que afetou especialmente o ensino superior, foi a inclusão da
autonomia universitária como cláusula constitucional. Esta medida, defendida
pelo setor público, teve impacto maior (e não esperado) sobre o setor privado,
liberando as universidades particulares de grande parte dos controles exercidos
pelo Conselho Federal de Educação. As repercussões sobre os setores públicos
foram menores, uma vez que a autonomia financeira foi restringida pelas leis
orçamentárias e a gestão de seu pessoal foi engessada pelo Regime Único do
Funcionalismo Público, publicado logo depois. Alem dessas medidas, a
Constituição incluiu e aumentou a vinculação de percentuais mínimos dos
orçamentos públicos destinados à educação: 18% para a União e 25% para estados
e municípios.
Mas a medida de maior repercussão na organização do sistema educacional foi a
alteração do pacto federativo, que concedeu autonomia aos municípios para
organizar seus próprios sistemas de ensino, independentemente de supervisão dos
estados ou da União. Desta forma, criaram-se no Brasil mais de 5, 6 mil
sistemas educacionais autônomos, dificultando enormemente a formulação e a
execução de uma política nacional, ou mesmo estadual, para o ensino básico.
A outra mudança nos marcos estruturais ocorreu já no governo Fernando Henrique,
qual seja, a promulgação, em 1996, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional (ldb), depois de oito anos de discussão no Congresso. Embora não se
tratasse de iniciativa do governo Fernando Henrique, a atuação do MEC foi
decisiva para sua aprovação.
A LDB fortaleceu a tendência à descentralização normativa, executiva e
financeira do sistema educacional e repartiu a competência entre as instâncias
do poder (federal, estadual e municipal), enfatizando a responsabilidade de
estados e municípios para com a universalização do ensino fundamental, que
passou a ser responsabilidade de ambos.
A educação infantil foi atribuída aos municípios e o ensino médio aos estados.
A União permaneceu como o principal responsável pelo desenvolvimento do ensino
superior público e pelo controle sobre todo o ensino superior privado, mantendo
suas antigas funções de coordenar o conjunto do sistema. Também lhe coube a
função redistributiva e supletiva com o objetivo de diminuir as desigualdades
regionais e suprir deficiências dos sistemas de ensino As mudanças promovidas
pela LDB no ensino superior foram profundas. Em primeiro lugar, a Lei
regulamentou e ampliou a autonomia das universidades, inclusive no que diz
respeito à possibilidade de reorganização de sua estrutura interna, até então
obrigatoriamente organizada em departamentos e institutos. Além disso, liberou
os cursos da obrigatoriedade do currículo mínimo, que definia as disciplinas a
serem ministradas obrigatoriamente em cada curso, sistema que foi substituído
por diretrizes curriculares mais gerais, as quais contemplam prioritariamente
os objetivos do curso e o perfil profissional dos formandos. A LDB tentou
também diversificar a oferta de cursos superiores, até então totalmente
amarrada às licenciaturas e aos bacharelados, criando os cursos sequenciais.
Deve-se reconhecer, no entanto, que a grande liberdade na organização dos
cursos e na estrutura do ensino superior propiciada pela LDB , estranhamente,
em grande parte foi ignorada pelas universidades públicas. O ensino privado
tirou maiores proveitos das inovações.
Durante o governo Lula houve apenas duas tentativas de criação de novos modelos
de universidades públicas, inspirados nas mudanças que o Protocolo de Bologna5
promoveu na Europa: a reforma proposta pela Universidade Federal da Bahia e a
criação da Universidade do abc. Trata-se, em ambos os casos, de iniciativas que
vêm encontrando dificuldades de implantação, mas que merecem ser bem-sucedidas
e replicadas.
No caso do ensino básico, a LDB teve influência decisiva ao tratar da questão
da formação de professores, exigindo que, num período de dez anos, não se
admitissem mais docentes sem curso superior. Além disso, reconhecendo as
enormes deficiências das licenciaturas, estabeleceu que elas não mais poderiam
ser oferecidas como simples habilitação de um curso com outros objetivos (como
os bacharelados e os cursos de pedagogia), mas que deveriam ser cursos
especificamente destinados à formação de professores. Para a docência nas
séries iniciais do ensino fundamental, que é a raiz do problema, deveria ser
criado um curso novo, o Normal Superior. Foi esta parte da LDB que encontrou os
maiores obstáculos para sua implantação em virtude da forte resistência por
parte dos cursos de pedagogia das universidades públicas e dos sindicatos, e
acabou sendo descaracterizada no governo Lula.
Quanto ao conjunto dos sistemas de ensino, a LDB teve uma influência decisiva,
ao exigir avaliações periódicas de todos os níveis do sistema, que passou a ser
responsabilidade da União, com a colaboração de estados e municípios. No caso
do ensino superior, a injunção da avaliação foi reforçada pela exigência de
renovação periódica do credenciamento das instituições e do reconhecimento dos
cursos, baseada em avaliações prévias.
Boa parte das políticas do governo Fernando Henrique foi orientada para a
implantação das reformas estabelecidas pela LDB . De fato, uma das maiores
realizações deste governo foi a montagem de um sistema de avaliação a partir do
SAEB (Sistema de Avaliação do Ensino Básico), cuja excelência foi reconhecida
internacionalmente, tornando-se um instrumento fundamental para a formulação de
políticas públicas. No ensino superiorfoiinstituído,
comoprincipalcritériodeavaliação, oExameNacional de Conclusão de Curso,
conhecido como Provão.
A LDB , lei modernizante e descentralizadora, reconhece que conteúdos e
competências podem ser transmitidos por intermédio de diversas combinações
curriculares. Não fixa disciplinasobrigatórias, mas áreas de conhecimento,
permitindo que muitos conteúdos sejam transmitidos como temas transversais,
eliminando a excessiva compartimentalização dos currículos. Esta lei, no
entanto, foi inteiramente descaracterizada durante o governo Lula por mais de
vinte emendas, a maioria das quais de interesses particularistas ou
corporativos, entupindo novamente e descaracterizando a estrutura curricular do
ensino básico.
O CRESCIMENTO DOS SISTEMAS DE ENSINO
Começaremos esta análise pelos dados quantitativos, tomando como referência da
extensão das mudanças o ano de 1992, anterior ao período Fernando Henrique, e
utilizando como indicador não o número de matrículas, como consta do Gráfico_1,
mas as taxas bruta e líquida de matrículas, que permitem avaliar o nível de
inclusão do sistema6.
Como os períodos que estamos analisando são de duração desigual (três anos do
governo Itamar, oito anos do governo Fernando Henrique e seis anos do governo
Lula), para se obter uma visão mais adequada é necessário calcular a média
anual do crescimento das taxas de matrículas.
O ensino fundamental, que já vinha crescendo a níveis elevados durante o
governo Itamar, mas com a matrícula concentrada nas séries iniciais, continuou
a crescer substancialmente no governo Fernando Henrique, especialmente nas
séries finais. De fato, um dos aspectos mais importantes deste crescimento é
que ele ocorreu da 5ª a 8ª séries, indicando que mais alunos estavam
conseguindo se formar, o que ampliou a procura pelo ensino médio.
as taxas de crescimento anual das matrículas no ensino fundamental decaem no
governo Lula, não só nas séries iniciais, que já estavam praticamente
universalizadas, mas também nas finais, nas quais ainda era necessário um
aumento significativo.
por outro lado, o índice de crescimento anual do ensino médio, muito pequeno
até o governo itamar, acelera substancialmente durante o governo Fernando
Henrique e cresce muito pouco no governo Lula.
O ensino superior, por sua vez, cujo crescimento estagnou entre 1985 e 1995,
começa a crescer novamente no governo Fernando Henrique e continua seu
movimento ascendente no governo Lula, especialmente no que diz respeito à taxa
bruta.
É preciso considerar, entretanto, que em todos os períodos de crescimento
quanto mais perto se chega da universalização, mais difícil é manter o ritmo de
crescimento, porque há menos crianças a serem incorporadas e as que estão fora
do sistema se encontram nos rincões mais pobres, mais marginalizados e mais
isolados e, portanto, mais difíceis de serem atendidos. Além disso, tem havido
uma queda na natalidade, o que afeta a demanda para as séries iniciais. Isto
explica em parte o fato de que a taxa de matrículas nas séries iniciais tenham
decrescido no governo Lula, mas não justifica a diminuição das matrículas nas
séries finais (ver Gráfico_1). O ensino médio, apesar do crescimento
excepcional ocorrido durante o governo Fernando Henrique, está ainda muito
longe da universalização, e a diminuição do ritmo de crescimento durante o
governo Lula é preocupante.
O crescimento de um nível de ensino depende do crescimento anterior do nível
abaixo dele. Dessa forma, o crescimento do ensino médio, no governo Fernando
Henrique, beneficiou-se do crescimento do ensino fundamental ocorrido no
governo anterior e ainda em marcha durante sua própria gestão. O aumento das
taxas de inclusão no ensino médio promoveram, por sua vez, um aumento de
matrículas no nível superior, como de fato ocorreu durante o governo Lula. Mas
esse crescimento será certamente prejudicado no futuro, dada a pequena expansão
do nível médio.
O PÚBLICO E O PRIVADO
No caso do ensino superior, é necessário analisar também o crescimento relativo
dos setores público e privado. Esta relação entre os setores público e privado
permanece relativamente estável no período entre 1933 e 1965, com predomínio do
setor público. Em 1965, no início do governo militar, o setor privado começa a
crescer mais vigorosamente do que o público, ultrapassando-o em número de
matrículas em 1970. A partir desta data, o predomínio do setor privado cresce
continuamente até 1980 e cai (embora muito pouco) entre 1985 e 1995. O período
do governo Fernando Henrique é marcado por uma nova expansão do setor privado
que continua a crescer até 2008, durante o governo Lula, embora em ritmo
menor7.
Não houve nenhuma alteração de políticas nem criação de dificuldades para o
setor privado entre 1980 e 1988 (ano da nova constituição); no entanto, a
participação deste setor decresceu nesse período, provavelmente em função da
crise econômica, iniciando então um novo crescimento que vai até 2008.
Na verdade, o crescimento do setor privado parece operar por ciclos que são em
grande parte independentes de estímulos federais mas que dependem da demanda do
mercado, o qual é condicionado pelo nível de renda da população e pelo número
de egressos do ensino médio. Em períodos de crise econômica, o setor privado
cresce muito pouco ou decresce. Em períodos de desenvolvimento, ele aumenta
vigorosamente.
Não houve nenhuma medida durante o governo Fernando Henrique que justifique a
acusação que lhe tem sido feita de favorecimento ao setor privado. Pelo
contrário, as duas medidas que afetaram este setor tiveram influência negativa
A primeira, paradoxalmente, consistiu no reconhecimento e na permissão de
instituições privadas lucrativas. Isto desmascarou um segredo de Polichinelo: o
fato de que instituições privadas de ensino superior estavam se tornando, de
fato, negócios extremamente rendosos, utilizando falhas na legislação. O
reconhecimento do caráter lucrativo retirou a isenção de impostos, da qual
gozavam, o que as tornou muito menos rentáveis. A segunda envolveu o Provão,
que, informando o público sobre o desempenho dos mesmos cursos em diferentes
instituições, diminuiu a procura nos cursos mal avaliados e aumentou o número
de candidatos naqueles mais bem avaliados.
Paradoxalmente, dada a orientação do PT de criticar qualquer repasse de
recursos públicos para o setor privado, a única medida que beneficiou este
setor ocorreu no período Lula, com a criação do PROUNI 8, que socorreu, por
meio da isenção fiscal, boa parte das instituições privadas lucrativas, boas e
más, que enfrentavam dificuldades financeiras. Eliminou-se assim a clara
distinção no tratamento conferido às instituições lucrativas e não lucrativas
estabelecido no governo Fernando Henrique, porque ambas foram isentas de
impostos e ambas tiveram que aceitar os alunos do PROUNI 9.
Se esta mudança de fato aumentou o acesso ao ensino superior por parte da
população mais pobre, perdeu-se no entanto a oportunidade de incentivar a
qualidade do ensino privado, o que poderia ser feito restringindo-se o PROUNI
aos cursos e às instituições mais bem avaliados.
Por fim, é preciso reconhecer que, com o grande aumento da carga de impostos,
foi possível para o governo Lula, depois de muitos anos, aumentar
substancialmente o número de universidades públicas e expandir as vagas nas já
existentes. O programa Reuni é uma contribuição do governo Lula para o aumento
do setor público da educação superior. Se isto era importante e necessário, há
que se lamentar não ter havido o estabelecimento de critérios de expansão que
corrigissem a grande desigualdade de oferta de ensino superior federal entre as
diferentes unidades da federação, levando-se em consideração o número de
egressos do ensino médio em cada uma delas. Pode-se lamentar também que a
expansão não tenha sido utilizada para diversificar o sistema de ensino
superior, o que se torna cada vez mais necessário dada a crescente
heterogeneidade dos egressos do ensino médio em termos de competência
acadêmica, interesses e vocações. Foi mantido o modelo único de universidades
voltadas para a associação entre ensino e pesquisa, contrário do que vem
ocorrendo nos países desenvolvidos10.
Vale lembrar que o crescimento quantitativo é crucial para a democratização do
ensino, como se verifica no Gráfico_2, que compara a taxa líquida de matrícula
nos diferentes níveis de ensino por faixa de renda, entre os anos de 1995 e
2005, período quase todo coberto pelo governo Fernando Henrique (Gráfico_2).
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O crescimento das matrículas e da taxa líquida beneficia primordialmente as
camadas mais pobres, e há um inegável movimento em direção à maior equalização
do sistema. O acesso às séries iniciais dos 20% mais pobres foi praticamente
igualado ao dos 20% mais ricos. Nas séries finais, a diferença não desaparece,
mas diminui muito. No ensino médio houve um grande crescimento na participação
dos 20% mais pobres, mas estamos muito longe da universalização. É por esta
razão que o decréscimo no índice de crescimento durante o governo Lula nas
séries finais e no ensino médio, apontado nas tabelas_1 e 2, é tão preocupante.
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A QUALIDADE DO ENSINO E OS SISTEMAS DE AVALIAÇÃO
Ensino básico
A questão da qualidade de ensino, o maior problema do sistema educacional
brasileiro hoje, foi a área na qual o governo Fernando Henrique encontrou suas
maiores dificuldades.
Até o governo Fernando Henrique não havia indicadores que medissem a qualidade
do ensino. Não sabemos, portanto, quando se inicia a queda da qualidade do
ensino nem sua amplitude. Foi apenas com a regularização e o aperfeiçoamento do
SAEB a partir de 1995, e a inclusão do Brasil na avaliação internacional feita
pela oecd (Organization for Economic Co-Operation Development) com o pisa
(Programa Internacional de Avaliação de Alunos), ações realizadas pelo governo
Fernando Henrique, que tivemos dados objetivos sobre desempenho escolar. A
importância dessa iniciativa precisa ser reconhecida porque a construção deste
sistema de avaliação representa, de fato, uma mudança de patamar nas políticas
educacionais do país. O governo Fernando Henrique não foi marcado pelo início
da queda da qualidade do ensino, mas pela possibilidade de medi-la.
O problema da qualidade já vinha sendo apontado desde a década de 1980 por
pesquisadores da área de educação. Embora não houvesse ainda indicador de
desempenho propriamente dito, estes pesquisadores, muitos dos quais do próprio
MEC , percebiam claramente o problema da má qualidade de ensino por meio da
análise de dados referentes à repetência e ao abandono escolar que ela promove.
O grande pioneiro nesse tipo de análise foi Sérgio Costa Ribeiro, que criou o
termo "pedagogia da repetência" para caracterizar a concepção pedagógica que
embasava o caráter altamente seletivo do sistema de ensino tradicional11.
Estudo realizado por Goldemberg e Durham em 199312 aponta com clareza a
gravidade do fenômeno da repetência, demonstrada no fluxo escolar.
A Tabela_4 mostra muito claramente o grau de exclusão escolar vigente em 1985:
de cada 100 ingressantes, apenas 18 concluíam a 8ª série.
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Esses dados, no entanto, não atingiam o grande público. Foi só com a
regularização e a institucionalização do SAEB realizada pelo governo Fernando
Henrique e com a ampla divulgação dos seus resultados, promovida pelo MEC , é
que a questão da qualidade passou a ser discutida na grande imprensa,
conscientizando a população sobre a gravidade do problema. Mas a análise do
fenômeno da repetência ajuda-nos a entender por que a ampliação das matrículas
está associada a uma queda da qualidade do ensino.
Costuma-se dizer, e é verdade, que o Brasil possuía antigamente um excelente
sistema de ensino público (especialmente no ginásio e no colégio) e que o
desempenho dos alunos diminuiu de modo alarmante. Mas é preciso considerar que,
naquele tempo, as altíssimas taxas de reprovação e evasão escolar, (assim como
os antigos exames de admissão ao ginásio) funcionavam como um sistema de
peneiras cada vez mais finas, que excluíam precocemente do sistema de ensino a
enorme maioria dos alunos provenientes de famílias menos escolarizadas e de
menor renda, como ficou patente no Gráfico_2 e na Tabela_613.
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[/img/revistas/nec/n88/a09tab06.jpg]
Neste sistema, a evasão decorrente das reprovações maciças no ensino
fundamental, especialmente nas séries iniciais, fazia com que apenas os
melhores alunos (de acordo com os padrões então aceitos) chegassem até o final
da quarta série e, com o exame de admissão ao ginásio, apenas os melhores entre
esses lograssem terminar a oitava. Ascendia ao ensino médio um número ainda
mais restrito de alunos. Este tipo de processo seletivo assegurava que apenas
uma pequena parcela dos alunos, os de melhor desempenho, sobrevivesse no
sistema educacional até o final do ensino fundamental e médio. Cria-se assim a
ilusão de um ensino de qualidade que resulta da eliminação precoce dos alunos
com maiores dificuldades de corresponder às expectativas dos professores.
O Sistema de Avaliação do Ensino Básico (SAEB) aplicado a cada dois anos de
1995 a 2005 mostra a continuidade da queda no desempenho dos alunos até o
penúltimo ano do governo Fernando Henrique.
Os primeiros sinais de melhoria e de inversão da curva decrescente da qualidade
do ensino ocorrem apenas entre 2001 e 200314, quando os indicadores melhoram
tanto em matemática como em português, em todas as séries. A única exceção é a
da média em português na oitava série, a qual apresenta uma queda, embora muito
pequena, de 0, 2 pontos. Sendo o SAEB aplicado a cada 2 anos, não inclui 2002
último ano do governo Fernando Henrique. Embora os resultados tenham sido
obtidos em 2003, já no governo Lula, devem ser atribuídos aos esforços do
governo anterior, uma vez que o ano de 2003 foi muito tumultuado no MEC em
função de trocas de ministros, não tendo sido possível, durante este ano,
elaborar e implementar políticas voltadas para a melhoria da qualidade do
ensino. Esta hipótese é reforçada pelo fato de que no período entre 2003 e
2005, já superadas as dificuldades iniciais no governo Lula, se as séries
iniciais continuaram a apresentar uma pequena melhoria, tanto em matemática
como em português, as séries finais e o ensino médio retomam um movimento
descendente. Isto significa que as dificuldades encontradas pelo governo
Fernando Henrique no esforço de melhorar o ensino persistiram pelo menos
durante o primeiro mandato do governo Lula.
Além do SAEB , contamostambém, a partirde2000, com a inclusão do Brasil no pisa
realizado pela oecd; uma avaliação internacional comparada do desempenho dos
alunos de 15 anos que é aplicada a cada três anos.
A análise comparativa entre o Brasil e outros países, possibilitada pelo pisa
oferece, pela primeira vez, uma demonstração cabal da gravidade do problema da
qualidade de ensino. A publicação destes resultados contribuiu enormemente para
que a questão da qualidade do ensino atingisse o grande público. A Tabela_5
apresenta uma relação de alguns dos países avaliados, que indica claramente o
fosso que separa o Brasil não só dos países desenvolvidos, mas de outros dois
países latino americanos15.
Em 2006, 55, 5 % dos alunos brasileiros de 15 anos matriculados na 8ª série do
ensino fundamental ou na 1ª série do ensino médio estão classificados nos
níveis 1 e abaixo de 1, considerados crítico e abaixo do crítico. Em
comparação, apenas 5, 7% dos coreanos e 11% dos canadenses encontram-se nesta
categoria. Inversamente, apenas 5, 8% dos estudantes brasileiros atingem os
níveis 4 e 5, ao passo que nos dois países citados, 54, 4% e 41, 7% se situam
nos dois níveis mais elevados.
Isto obviamente repercute no ensino superior. Podemos inferir que os alunos dos
níveis 1, abaixo de 1 e até 2, isto é , 75% dos concluintes do ensino
fundamental, não têm condições de enfrentar o ensino superior com sucesso e
estarão excluídos deste nível de ensino16.
Resultados tão desastrosos não podem ser atribuídos a falhas do governo
Fernando Henrique: são uma "herança maldita" bem mais antiga, que não
conseguimos ainda superar. Por fim, a enorme importância do sistema de
avaliação do desempenho escolar, de grande credibilidade, criado no governo
Fernando Henrique permitiu análises e denúncias no que diz respeito à qualidade
do nosso ensino. Não se pode deixar de admirar a coragem e a honestidade na
apresentação de dados que poderiam prejudicar sua imagem política.
A partir de 2006 o novo governo introduziu profundas modificações no SAEB . A
primeira - a substituição do caráter amostral do exame por uma prova universal
para as 4ª e 8ª séries do ensino fundamental, a Prova Brasil - foi positiva. A
vantagem da prova universal é que, utilizando metodologia semelhante à do SAEB
, com pequenas diferenças, permite avaliar não apenas estados e regiões mas,
inclusive, municípios e escolas, oferecendo um novo instrumento, mais
detalhado, para orientar as políticas educacionais.
Como houve ligeiras variações da metodologia entre SAEB e a Prova Brasil, os
dados de 2007 não são estritamente comparáveis aos de 2005, e a melhoria
apresentada neste ano pode ser ilusória. Mas é encorajador o fato de a Prova
Brasil haver finalmente registrado, no segundo governo Lula, entre 2005 e 2007,
uma substancial melhoria no desempenho em português nas três séries avaliadas.
No entanto, a melhoria é muito pequena no que diz respeito à prova de
matemática, na 8ª série e no ensino médio.
A partir de 1996, além da Prova Brasil, o MEC passou a utilizar um novo
indicador, o IDEB (Índice de Desenvolvimento Educacional Brasileiro), que
apresenta resultados melhores do que o SAEB.
O IDEB não pode ser comparado ao SAEB porque combina, num único índice, duas
variáveis: o desempenho na Prova Brasil e o fluxo escolar (isto é , a
repetência). Isto significa que um aumento na nota tanto pode significar que a
repetência diminuiu como que o desempenho escolar melhorou. Essas duas
variáveis são importantes, mas uma avaliação comparativa dos resultados entre
os dois governos só poderá ser feita se os resultados da Prova Brasil forem
desagregados do problema do fluxo (Gráfico_4). Como a grande melhoria nos
índices de reprovação se deu no governo Fernando Henrique, como se vê na Tabela
7, o cálculo de um IDEB para o governo anterior mostraria resultados muito mais
elevados do que o apresentado apenas pelas notas do SAEB , como vinha sendo
feito.
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Ensino superior
No início do governo Fernando Henrique, havia uma consciência generalizada da
queda de qualidade do ensino superior, especialmente daquele oferecido por
instituições privadas. Também neste caso não havia dados seguros que
comprovassem este fato.
Os únicos momentos de avaliação no ensino superior ocorriam por ocasião do
credenciamento de instituições e o reconhecimento dos cursos feitos pelo então
Conselho Federal de Educação, atribuição assumida depois pelo Conselho Nacional
de Educação em 1995. No caso das instituições estaduais esta avaliação recaía
sobre os Conselhos Estaduais. Após uma instituição ser credenciada e seus
cursos reconhecidos, não passava por nenhuma outra avaliação. Além do mais,
como os processos eram sempre individuais, não havia nenhum instrumento de
comparação entre os cursos existentes.
A ideia de criar uma avaliação de desempenho dos alunos através de um exame de
final de curso, como fazia o SAEB, foi audaciosa. Criou-se, então, o Exame
Nacional de Conclusão de Curso (ENENC), utilizando os métodos de avaliação mais
modernos, o qual ficou conhecido popularmente como Provão. No primeiro ano de
funcionamento, foram avaliados cinco cursos e o número foi aumentando
anualmente até atingir, em 2002, 75% dos alunos matriculados no ensino
superior. Os exames eram universais, isto é , abrangiam todos os alunos
concluintes dos cursos avaliados. Isto permitiu, pela primeira vez, uma
comparação da qualidade da formação obtida pelos alunos em cursos de diferentes
instituições.
Apesar da intensa oposição, o governo insistiu na ampla divulgação dos
resultados, não só no sitedo MEC, mas também pela imprensa, o que contribuiu
muito para tornar a questão da qualidade do ensino superior um objeto de
discussão pública. Além disso, o Provão permi-tiu e orientou uma avaliação in
locoe mais aprofundada das instituições com os piores resultado, exigindo
reformas internas no sentido de melhorar a formação oferecida.
Sem dúvida, o Provão precisava de revisões, que estavam sendo estudadas no
final do governo Fernando Henrique, mas foi um instrumento crucial para
realizar a passagem de um sistema de controle baseado em critérios formais para
um outro, centrado na avaliação de desempenho. Na passagem para o governo Lula,
considerou-se impossível manter o Provão porque havia sido uma das iniciativas
mais criticadas pelo PT em relação ao governo anterior. Mas já era impossível
também ignorar a necessidade de um sistema de avaliação, além do fato de o
Provão ter contado com grande apoio popular. Criou-se então um novo sistema
extremamente complexo de avaliação de cursos e instituições, o sinaes
incorporando a autoavaliação à avaliação externa e um novo sistema de exames
que incluía, além dos formandos, também os ingressantes, tentando medir o valor
agregado. Além disso, o exame passou a ser feito por amostragem.
A implantação do sinaes, pela sua própria complexidade, encontrou inúmeras
dificuldades. Talvez por esta razão seus resultados não têm sido amplamente
divulgados. Incluindo variáveis diferentes num mesmo índice, não possuia
clareza do Provão sobre o que, de fato, está sendo avaliado. Além disso, sendo
feito por amostragem, não permite a comparação entre as instituições, tornando-
se válido apenas quando se comparam estados e regiões. Com isto, o resultado
mais utilizado do sinaes tem sido o exame realizado com os concluintes, o ENAD,
isto é , mais semelhante ao Provão, embora mesmo esta prova venha encontrando
dificuldades na sua elaboração e aplicação.
Parece-me indispensável que, aproveitando as experiências dos governos
anteriores, um novo governo institua um novo sistema de avaliação sem as
fragilidades do sinaes e mais semelhante ao Provão.
ENSINO TÉCNICO E TECNOLÓGICO
Precisamos agora mencionar uma parte do sistema educacional que se torna cada
vez mais relevante e que, até há pouco tempo, era ignorado nas análises. Trata-
se do ensino técnico e tecnológico para a formação de uma mão de obra mais
qualificada para o mercado de trabalho. O governo federal havia criado, ainda
durante o regime militar, uma rede de escolas técnicas de excelente nível e
muito bem equipadas, as quais integravam o ensino médio propedêutico e uma
formação técnica e operavam em tempo integral. A qualidade do ensino era igual
ou superior à das melhores escolas particulares de nível médio, e eram mais
caras do que estas, custando de cinco a dez vezes mais do que as escolas
secundárias estaduais.
Dado o elevado custo de instalação e manutenção dessas escolas, a rede sempre
foi muito pequena e atendeu a uma minoria muito reduzida dos alunos de nível
médio. O problema mais sério, no entanto, que vinha sendo apontado desde antes
do governo Fernando Henrique, é que, oferecendo, além da formação técnica, um
excelente curso médio regular propedêutico, tornava-se uma ótima preparação
para o vestibular. Em virtude disso, as vagas passaram a ser disputadas por
alunos provenientes das classes médias, que haviam cursado o ensino fundamental
em escolas particulares, os quais, ingressando diretamente na universidade após
a conclusão do curso técnico, não se dirigiam para o mercado de trabalho.
Diante da grande procura, exigiam exame para ingresso, cuja disputa era tão
grande como a que ocorria nos vestibulares das universidades públicas, com os
mesmos resultados elitizantes.
Dessa forma, em lugar de formar trabalhadores e técnicos altamente qualificados
e bem remunerados para atender às novas necessidades do mercado de trabalho,
transformaram-se em cursos pré-vestibulares, atendendo a uma minoria
privilegiada17.
O governo Fernando Henrique tomou a iniciativa de separar a formação para o
trabalho, oferecida nas escolas técnicas, da formação propedêutica, que deveria
ser obtida nos cursos médios regulares. Isto permitia uma ampliação imediata
nas vagas para o ensino técnico, afastando boa parte da clientela cujo
interesse estava centrado no vestibular.
A resistência das escolas técnicas foi enorme, porque se orgulhavam da
excelência de seu ensino e da excelente formação dos que nela ingressavam. A
reforma implicava deixarem de ser instituições de elite. Em face dessa
resistência, a reforma foi iniciada, mas de forma parcial. Cedendo à pressão
das escolas, o governo Lula reintroduziu a junção de ensino propedêutico junto
ao técnico, mantendo sua excelente qualidade e seu elitismo. O acerto da
orientação da proposta do governo anterior pode ser avaliado pelo que ocorreu
nas escolas técnicas estaduais de São Paulo, onde se manteve a separação. Os
alunos cursam o ensino médio regular, de caráter propedêutico, na rede comum e
fazem a formação para o trabalho nas escolas técnicas. Com isto, o número de
ingressantes nas escolas técnicas provenientes da rede pública passou de cerca
de 45% para mais de 70%, com colocação imediata no mercado de trabalho.
Quanto ao ensino tecnológico de nível superior, que é , em todos os países
desenvolvidos, uma excelente alternativa aos cursos universitários, os
problemas dizem respeito ao pequeno tamanho da rede, que absorviam até 2008, no
conjunto do país, apenas o equivalente a 3% das matrículas. Foi só nos últimos
dois anos (período não coberto pelas estatísticas que estamos utilizando) que o
governo Lula tomou a iniciativa de propor um plano para promover uma grande
expansão da rede federal de ensino técnico e tecnológico, mas já sem tempo para
sua implantação. Se implantado pelo próximo governo, certamente será uma
excelente contribuição para a diversificação do sistema de ensino superior18.
No entanto, apenas a educação técnica de nível médio e a tecnológica de nível
superior não satisfazem as necessidades do mercado nem as do grande número de
jovens e adultos que não conseguiu completar o ensino médio, ou o fez com
aproveitamento muito insatisfatório. Esta população precisa de alguma
qualificação que lhes permita exercer um trabalho mais bem remunerado. O
Ministério do Trabalho e os sistemas S19 podem satisfazer esta demanda com
cursos vocacionais, de curta duração, que não demandam escolaridade anterior.
A drástica diminuição de recursos para a oferta destes cursos durante o governo
Lula é muito estranha, quando se considera a postura ideológica do Partido dos
Trabalhadores. Reportagem do Estado de São Paulo20 que teve acesso a estudo
elaborado pelo Ministério do Planejamento mostra que os gastos do governo
federal, de 2003 a 2008, com programas de qualificação financiadas pelo Fundo
de Amparo ao Trabalhador (FAT) foram de 97 milhões de reais por ano, enquanto a
média anual entre 1999 e 2003 (segundo mandato de Fernando Henrique) havia
atingido 768 milhões de reais, cerca de oito vezes mais. Em 2009, a situação
piorou, pois foram despendidos apenas 40, 4 milhões. O próximo governo deverá
rever esta situação com urgência, para que não ocorra o que a indústria vem
receando: "um apagão" da mão de obra qualificada.
AS POLÍTICAS E OS PROGRAMAS DO GOVERNO FH
FUNDEF
Se a Constituição havia dado um passo importante com a vinculação de recursos
para a educação nas três instâncias de poder, a questão do financiamento do
ensino fundamental obrigatório, que é a base de todo o sistema educacional, não
havia sido resolvida. De fato, a autonomia de estados e municípios e sua
responsabilidade conjunta pelo ensino fundamental tinha deixado indefinida a
contribuição de uns e outros.
Quando se inicia o governo Fernando Henrique, a situação do financiamento do
ensino fundamental ainda era caótica, havendo um jogo entre estados e
municípios no sentido de empurrar as responsabilidades de uns para outros,
criando desigualdades setoriais e locais inadmissíveis e desnecessárias.
Como prelúdio ao FUNDEF (Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental e
Valorização do Magistério), houve uma medida importante tomada em 1996,
estabelecendo que os governos municipais e estaduais deveriam destinar 60% dos
recursos vinculados à educação para a manutenção do ensino fundamental. Mas
esta medida não chegou a resolver a questão, persistindo enormes diferenças nos
recursos disponíveis para diferentes municípios no mesmo estado. Foi para
resolver este problema que se criou o FUNDEF.
O FUNDEF é uma das medidas mais importantes do governo Fernando Henrique,
estabelecendo, de fato, um novo marco institucional no financiamento do ensino.
Tendo como base a vinculação de 15% do orçamento de estados e municípios para o
ensino fundamental, o FUNDEF resultou na criação, em cada estado, de um Fundo,
formado a partir do total dos recursos transferidos da União para estados e
municípios e entre estados e seus municípios, dos quais se reservava 15% para o
financiamento do ensino fundamental (equivalente a 60% dos 25% obrigatórios
para a educação). Dividindo-se este montante pelo número de crianças
matriculadas nas escolas públicas de ensino fundamental chegava-se a um valor
mínimo por aluno, e redistribuía-se este valor entre o governo estadual e os
governos municipais, de acordo com o número de matrículas de cada sistema. Nos
estados onde o valor aluno assim distribuído era menor do que um mínimo
calculado anualmente, a União o complementava com recursos próprios. Igualou-se
a situação extremamente desigual de financiamento do ensino por entre unidades
extremamente díspares, respeitando a autonomia dos entes federados, já que os
recursos arrecadados localmente não eram partilhados (embora, para estes,
permanecesse obrigatória a reserva de 15% para o ensino fundamental). Incidindo
apenas sobre as verbas transferidas entre União, estados e municípios, era de
aplicação absolutamente transparente e automática, não envolvendo uma nova
burocracia. Além disso, estabelecendo que 60% dos recursos do Fundo seriam
obrigatoriamente destinados ao pagamento do salário dos professores em efetivo
exercício nas escolas, permitiu aumentos generalizados dos salários que, nos
municípios mais pobres, chegaram a 300%. Além disso, diminuiu radicalmente a
utilização de professores em atividade fora da escola. Por fim, como estados e
municípios recebiam conforme o número de alunos que mantinham,
independentemente do partido ao qual pertenciam governadores e prefeitos,
dificultou-se enormemente a pressão político-partidária e clientelística,
criando-se um imenso incentivo para o aumento das matrículas no ensino
fundamental. O Fundo foi um instrumento extremamente eficaz para o aumento das
taxas de inclusão no ensino fundamental.
O PT , e os sindicatos de professores dominados pelo partido, fizeram oposição
feroz ao FUNDEF, propondo substituí-lo por um simples piso salarial nacional,
que acabou sendo finalmente implantado no segundo governo Lula. A vantagem de
medidas como o FUNDEF, em oposição ao piso salarial, é que aquele assegura aos
estados e aos municípios os recursos para aumentos salariais, que ficam
associados ao valor por aluno. O Piso Nacional volta à tradição anterior de
tentar a resolução de um problema a partir de uma lei nacional que repassa a
responsabilidade pela garantia dos recursos a estados e municípios, sem levar
em conta as imensas diferenças entre eles. Acredito que este tipo deleifederal
é inconstitucional, pois cria despesas paraos outros entes federados, ferindo
sua autonomia, sem levar em conta a disparidade da capacidade financeira entre
estados e entre municípios, que é enorme.
Tendo o PT feito violenta oposição ao FUNDEF, quando assumiu o poder no
Ministério resolveu criar um novo sistema e substituí-lo pelo FUNDEF (Fundo de
Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos
Profissionais da Educação), que procura estender o mesmo princípio para todo o
ensino básico, da creche ao ensino médio. Este novo sistema é extremamente
complicado porque envolve diferentes porcentagens de diferentes impostos e
valores por aluno, que são diversos nos diferentes tipose níveis de ensino. O
FUNDEF redistribuía recursos entre o estado e seus municípios em relação a uma
obrigação comum, a do ensino fundamental. Mas a educação infantil é de
responsabilidade exclusiva dos municípios, não envolvendo os estados; e o
ensino médio cabe apenas aos estados, não envolvendo os municípios. O FUNDEF
deixava à disposição tanto dos municípios como do estado 40% dos recursos
destinados à educação a fim de que cumprissem suas responsabilidades
específicas: a educação infantil de um lado, e o ensino médio, de outro.
Distribuir fundos entre municípios e, entre municípios e estados, entre
educação infantil e ensino fundamental e médio, por critérios estabelecidos
pelo governo federal, é um problema complicado e diferente para cada estado,
o que pode prejudicar um ou outro nível de ensino, além de interferir na
autonomia dos sistemas. No Estado de São Paulo, por exemplo, a ampliação e a
melhoria do ensino médio vem sendo prejudicada pela redução das verbas
destinadas a este setor. O mais correto teria sido criar três fundos separados,
se é que havia necessidade de ação federal nesta questão.
Bolsa Escola
A bolsa escola foi a uma inovação importante no campo das políticas sociais,
orientada para estimular a entrada e a permanência na escola dos filhos de
famílias mais pobres.
Essa ideia não foi criada pelo governo Fernando Henrique, mas por Cristóvão
Buarque, durante sua gestão como governador do Distrito Federal. A gestão
Fernando Henrique adotou a idéia e a transformou em um programa nacional que
oferecia auxílio monetário a famílias de baixa renda, com filhos em idade
escolar, para que os matriculassem e assegurassem um mínimo de 75% de
frequência às aulas. O controle era feito por meio dos boletins de frequência
dos filhos. O programa auxiliou famílias de baixa renda e aumentou o número de
matrículas escolares.
No governo Lula esta bolsa foi muito ampliada e transformada na Bolsa Família,
incluindo a população sem filhos em idade escolar, o que implicou um aumento
considerável da população atendida. A frequência à escola pelos filhos em idade
escolar continua sendo exigida, mas não tem sido controlada.
Dinheiro Direto na Escola
Este programa, criado antes do FUNDEF, foi o primeiro que teve como objetivo
desburocratizar a distribuição de recursos do FNDE (Fundo Nacional de
Desenvolvimento da Educação) para a educação e neutralizar as influências
político-partidárias, aumentando a autonomia da escola. Nele, parte dos
recursos do FNDE passaram a ser distribuídos diretamente às escolas de ensino
fundamental de todo o país, podendo ser utilizado de acordo com as necessidades
de cada uma, incluindo consertos e pequenas reformas, aquisição de material
pedagógico e administrativo etc. Até então, para substituir vidros ou telhas
quebradas, pintar uma sala de aula ou consertar buracos no pátio era necessário
acionar os órgãos centrais. A distribuição era feita de acordo com o número de
alunos, independentemente do partido do prefeito ou do governador, dificultando
o clientelismo que tem caracterizado o FNDE.
Os programas de formação de professor
Deu-se continuidade tanto no governo Fernando Henrique como no governo Lula a
uma política já antiga utilizada pela União e pelos estados, qual seja, a
oferta de cursos de aperfeiçoamento para professores em exercício nas redes
públicas. Entretanto, pesquisas realizadas com dados do SAEB têm demonstrado
que eles pouco ou nada contribuíram para melhorar o desempenho dos alunos. A
raiz do problema parece residir na formação inicial dos docentes, especialmente
no que diz respeito às séries iniciais.
Por esta razão, o principal programa dirigido para a melhoria do ensino foi uma
decorrência da LDB e afetou basicamente a docência para as séries iniciais do
ensino fundamental ao criar o curso normal superior e estabelecer a exigência
de que, em dez anos, só fossem admitidos professores com licenciatura em nível
superior. Isto provocou, em todos os estados, com ou sem auxílio do governo
federal, programas especiais para a obtenção desta titulação por parte dos
docentes da rede pública. Voltaremos a esta questão nas conclusões.
Outros Programas
A lista de novos programas criados durante o governo Fernando Henrique é muito
grande. Parte deles foi reformulada durante governo Lula, como o FUNDEF, parte
foi abandonada, alguns foram ampliados e outros foram criados. Cabe nos limites
deste trabalho apenas citar alguns outros.
[/img/revistas/nec/n88/a09car01.jpg] O Fundescola, criado com
recursos do FNDE e do BID, dirigiu novos recursos para as regiões
Norte, Nordeste e Centro Oeste e tinha por objetivo diminuir as
desigualdades regionais do sistema educacional. Foi substituído pelo
par, muito semelhante a ele.
[/img/revistas/nec/n88/a09car01.jpg] O programa de avaliação dos
livros didáticos distribuídos às escolas foi preservado.
[/img/revistas/nec/n88/a09car01.jpg] O programa dos Parâmetros
Curriculares Nacionais, que teve como objetivo oferecer uma base
comum nacional para o ensino básico não foi extinto mas deixou de
receber atenção.
[/img/revistas/nec/n88/a09car01.jpg] Das iniciativas de ampliar o uso
de novas tecnologias que envolveram a TV Escola, a distribuição de
computadores e o início de cursos à distância. Apenas o primeiro foi
abandonado e os demais consideravelmente ampliados.
[/img/revistas/nec/n88/a09car01.jpg] Por fim, há que se mencionar a
continuidade de programas mais antigos do FNDE , como o da Merenda
Escolar, o do Transporte Escolar e o da distribuição de livros
didáticos, que foram ampliados e avaliados.
É de fato surpreendente a quantidade de programas mantidos, transformados,
ampliados ou criados por cada governo. Embora eles tenham provavelmente
influído para o aumento das taxas de matrículas, é notável que nenhum deles
pareça ter conseguido melhorar a qualidade do ensino.
CONCLUSÕES: A QUESTÃO INADIÁVEL DA QUALIDADE DO ENSINO
Quando se analisa a história das políticas educacionais e os inúmeros programas
voltados tanto para a democratização do acesso como para a melhoria da
qualidade de ensino dos últimos vinte anos, constata-se que enquanto o primeiro
objetivo foi persistentemente perseguido e gradualmente atingido, o segundo,
objeto de preocupação igualmente constante, está longe de ser alcançado.
O resultado mais surpreendente que emerge de uma análise sobre a qualidade do
ensino nos últimos dezesseis anos é que, embora a grande maioria dos docentes
já tenha obtido diploma de ensino superior e feito cursos de educação
continuada, os concursos para ingresso na carreira do magistério, abertos
apenas a docentes com esta qualificação, não conseguem preencher as vagas
existentes, apesar do grande número de candidatos, em virtude do elevadíssimo
índice de reprovação. Em São Paulo, em concurso realizado em 2010, a reprovação
em algumas disciplinas chegou a 80% e, na média, atingiu 50%. Os concursos
demonstram de forma cabal que os licenciados não dominam sequer os conteúdos
básicos das matérias e das estruturas curriculares com as quais devem operar.
Não creio que este fracasso possa ser atribuído à falta de interesse dos
diferentes governos mas resulta de não termos conseguido atingir a raiz do
problema: a formação inicial de professores. A melhoria do salário e da
carreira docente são igualmente importantes, mas sem que haja professores
qualificados, nenhuma dessas medidas terá efeito na melhoria da qualidade do
ensino. Mesmo a formação continuada não consegue superar deficiências da
formação inicial.
Darcy Ribeiro já dizia que era preciso uma reforma profunda de todo o sistema
de formação de docentes para o ensino básico e que não adiantava formar em
nível superior se os cursos de formação continuassem a apresentar os mesmos
defeitos que os caracterizavam. É exatamente isso que continua acontecendo.
O cerne da questão reside na formação de docentes para os níveis iniciais de
ensino, durante os quais os alunos deveriam aprender a ler, escrever, realizar
operações simples de matemática, utilizar computadores e adquirir noções
elementares mas integradas de geografia, história e ciências. Crianças podem e
devem aprender muito mais. Mas esta é a base da qual depende o sucesso escolar
em todos os níveis posteriores do sistema de ensino. A verdade é que não
estamos conseguindo formar professores competentes para ensinar esta base.
A tentativa mais importante de alterar tal situação consistiu na criação, pela
LDB , dos Cursos Normais Superiores para a formação de docentes para a pré -
escola e as séries iniciais do ensino fundamental. Até então, o único curso que
oferecia titulação em nível superior na área da educação era o curso de
Pedagogia, o qual, entretanto, não foi concebido para formar professores das
séries inicias, mas os chamados especialistas em educação: teóricos,
pesquisadores, planejadores e gestores dos sistemas educacionais. Quando foram
criados, recrutavam seu público entre os professores já formados nas escolas
normais. Os egressos do curso de Pedagogia não pretendiam voltar à sala de
aula, mas orientavam-se para preencher as funções de pesquisadores e gestores
do sistema educacional. Até hoje, o curso mantém esta orientação e filosofia,
não conseguindo se libertar de suas marcas de origem. Embora hoje o curso
defina formalmente seu objetivo como sendo a formação de docentes para os
níveis iniciais do sistema de ensino, suas diretrizes curriculares mal
mencionam esta tarefa e se omitem na questão dos conteúdos que os futuros
professores precisam dominar. As deficiências dos cursos de Pedagogia vem sendo
denunciadas há anos e pesquisa recente de Bernadete Gatti dá um tratamento
exaustivo a esta questão21.
Se a formação de professores para os níveis iniciais é uma tarefa difícil, não
é impossível. Já tivemos, mesmo no Brasil, cursos que conseguiram formar
professores com a competência necessária para realizar esta tarefa, como
ocorreu nos cefans. Estes eram escolas de nível médio. Hoje é necessário
retomar esta mesma experiência em nível superior.
O exemplo a ser seguido é o de Cuba, que possui hoje, junto com Costa Rica, o
melhor sistema educacional da América Latina. O estranho é que, embora a grande
maioria dos pedagogos brasileiros demonstre grande admiração pelo sistema
educacional cubano, continuam a defender uma pedagogia contrária a tudo que se
faz naquele país, opondo-se ferozmente aos Cursos Normais Superiores. O segredo
cubano reside em garantir, durante o período formativo, que os futuros
professores dominem os conhecimentos que devem transmitir e aprendam a realizar
a transposição didática necessária entre o que aprenderam e aquilo que devem
ensinar. Este é o cerne de um currículo destinado a formar professores e não
pesquisadores, teóricos da educação ou gestores. No Brasil, continuamos a
insistir em uma formação pedagógica teórica e em jargões vazios como o de que o
importante não é o que o aluno aprende, mas que ele "aprenda a aprender", e de
que não deve haver a preocupação de ensinar conteúdos, mas "competências", como
se se tratasse de coisas diferentes22.
A questão da ênfase nos conteúdos é tão mais necessária porquanto, no Brasil
(embora o problema não seja só nosso), os candidatos às licenciaturas,
especialmente das séries iniciais, são majoritariamente jovens provenientes do
nosso péssimo ensino médio público, oriundos de famílias pobres, cujos pais são
pouco escolarizados. Boa parte deles não tem um domínio adequado nem da leitura
nem da escrita, possuem um vocabulário muito pobre e tem grande dificuldade de
resolver problemas simples de aritmética. Seus conhecimentos de geografia e
história são muito limitados e fragmentados. Por outro lado, são também,
frequentemente, jovens que se esforçaram muito para concluir o ensino médio e
os primeiros de suas famílias a ingressar num curso superior. Têm um talento
que deve ser aproveitado e desenvolvido, mas para isso é necessário que as
deficiências de sua formação anterior sejam sanadas.
De fato, a causa principal do mal desempenho dos alunos do ensino fundamental,
denunciada pelo pisa, é que os próprios professores, carregando consigo as
falhas de sua formação de nível médio, não dominam nem as competências nem os
conteúdos do que devem ensinar.
Um dos maiores desserviços do governo Lula na questão educacional, no meu
entender, foi o desmonte da experiência dos Cursos Normais Superiores que o
governo Fernando Henrique havia iniciado e o retorno à formação dos professores
nos Cursos de Pedagogia, comprovadamente incapazes de realizar esta tarefa.
O problema das demais licenciaturas também é conhecido de longa data. Consiste
em, como nos cursos de Pedagogia, relegar a formação profissional do futuro
docente a um mero apêndice dos cursos de bacharelado, estabelecendo um fosso
entre a aprendizagem dos conteúdos (em geral voltados para a formação de
pesquisadores) e sua adaptação às exigências e às peculiaridades do ensino
básico. A parte pedagógica, propriamente, é igualmente divorciada dos conteúdos
e é incapaz de lidar com a questão da transposição dos conhecimentos. Isto
ocorre porque a preparação pedagógica é monopolizada por graduados e pós-
graduados dos cursos de Pedagogia que não tem nenhuma formação na área de
conhecimento ofertada pelo bacharelado. Chegamos à situação absurda na qual,
por exemplo, a formação pedagógica oferecida aos futuros professores de física
é feita por pedagogos que não sabem nada de física.
Tenta-se agora, por meio de cursos à distância, melhorar a formação dos
docentes. Mas enquanto toda a concepção pedagógica não for revista e os
currículos não forem inteiramente reformulados, temo que os concursos de
ingresso ao magistério continuem a reprovar a maioria dos candidatos e a
qualidade do ensino básico continue a ser muito precária. Esta é a tarefa
inadiável do próximo governo.
EUNICE RIBEIRO DURHAM é professora titular do departamento de Antropologia da
FFLCH-USP e diretora do Núcleo de Pesquisas Sobre o Ensino Superior (NUPES) da
mesma universidade.
[1] O gráfico cobre um período maior do que aquele que estamos analisando neste
artigo e sua periodicidade não coincide exatamente com mudanças de governo.
[2] Guimarães, Maria Helena de Castro. "A educação tem jeito?O desafio da
Qualidade". In: Ituassu, Arthur e Almeida, Rodrigo de (orgs.) . O Brasil tem
jeito?. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007, pp. 35-73.
[3] Há de fato uma tendência, no Brasil, de se acreditar no poder mágico da
lei, ignorando sua exequibilidade e a disponibilidade de recursos para
implementá -la, como no caso da lei de expansão do ensino fundamental
obrigatório para oito anos, a qual, promulgada em 1970, só se aproxima da
concretização no final da década de 1990.
[4] Sobre esta questão, podemos recomendar o livro de Werebe, que faz uma
excelente crítica sobre esta reforma, a qual ainda permanece válida. Werebe,
Maria José Garcia. 30 Anos depois: grandezas e misérias do ensino no Brasil.
São Paulo: Ática, 1994.
[5] Acordo entre os países da União Europeia para a reformulação dos sistemas
de ensino superior.
[6] As taxas bruta e líquida são calculadas tomando como referência a faixa
etária que, idealmente, estaria cursando aquele nível de ensino. A taxa bruta
indica a relação entre o total de alunos de qualquer idade e o tamanho da faixa
etária, sendo frequentemente maior que 100%, em virtude da inclusão de alunos
mais velhos ou (o que é raro), mais novos. A taxa líquida indica o percentual
de crianças e jovens da faixa etária correspondente matriculados no nível de
ensino teoricamente corretos.
[7] A periodização que escolhemos é adequada para mostrar a ocorrência de
inflexões na relação público-privado. Para um tratamento mais extenso sobre o
assunto, ver Durham, Eunice. "Educação superior, pública e privada (1808-
2000)". In: Brock, Colin e Schwartzman, Simon (orgs). Os desafios da Educação
no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005, Sampaio,
Helena. Ensino superior no Brasil: o setor privado. São Paulo: HUCITEC/FAPESP,
2000.
[8] O PROUNI isenta de diferentes impostos instituições privadas lucrativas que
ofereçam um percentual de vagas gratuitas a estudantes provenientes do ensino
médio público, com bom desempenho no Exame Nacional de Ensino Médio (enem)e
obriga as não lucrativas, que já gozam de isenção de impostos, a oferta do
mesmo percentual de vagas gratuitas.
[9] Não encontrei nenhum estudo nem consegui dados sobre o custo real do PROUNI
para o país em termos de isenção de impostos. Dado o grande peso dos impostos
sobre o setor privado, suponho que seja bastante elevado.
[10] Ver mais adiante a discussão sobre ensino tecnológico.
[11] Ribeiro, Sergio Costa. "A pedagogia da repetência". Estudos Avançados,
vol. 5, nº 12, 1991, pp. 7-22.
[12] Goldemberg, Jose e Durham, Eunice R. "A educação no Brasil". São Paulo:
Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, 1993.
[13] Neste sistema, a evasão decorrente das reprovações maciças no ensino
fundamental, especialmente nas séries iniciais, fazia com que apenas os
melhores alunos (de acordo com os padrões então aceitos) chegassem até o final
da 4ª série e, com o exame de admissão ao ginásio, apenas os melhores entre
esses lograssem terminar a oitava. Ascendia ao ensino médio um número ainda
mais restrito de alunos. Este tipo de processo seletivo assegurava que apenas
uma pequena parcela dos alunos, os de melhor desempenho, sobrevivesse no
sistema educacional até o final do ensino fundamental e médio. Cria-se assim a
ilusão de um ensino de qualidade que resulta da eliminação precoce dos alunos
com maiores dificuldades de corresponder às expectativas dos professores. Sobre
esta questão, ver também Gomes, Candido. A. e Sobrinho, José Amaral (orgs.) .
"Qualidade, eficiência e equidade na educação básica". Série Ipea, nº 136.
IPEA/BSB, 1992.
[14] Como o SAEB é aplicado a cada dois anos, não temos dados para 2002, último
ano do governo anterior.
[15] O pisa classifica os alunos em 56 categorias que vão de 1, ou crítico, a
mais baixa, a 5, ou avançada, a mais elevada, incluindo ainda uma sexta
categoria, sem numeração, a do abaixo do crítico ou -1. Sobre esta questão, ver
Soares, J. F. "Qualidade e equidade na educação básica brasileira: fatos e
possibilidades". In: Brock, Colin e Schwartzman, Simon (orgs), op. cit.
[16] O SAEB também foi importante na medida em que incluía uma série de outras
informações úteis como infraestrutura da escola, formação inicial e continuada
do corpo docente, formação e atuação dos diretores, entre outras. Essas
informações deram origem a pesquisas sobre as variáveis internas ao sistema
escolar que influíam positivamente no desempenho dos estudantes, chegando à
conclusão que a mais relevante era a atuação do diretor da escola. Por outro
lado, a formação em nível superior dos docentes possuía uma influência bem
menor e o fato de o professor possuir ou não licenciatura (em oposição ao
bacharelado) não era significativo. Por fim, um resultado surpreendente dessas
pesquisas foi o de que não havia uma forte associação entre o salário dos
docentes e o desempenho dos estudantes.
[17] Cláudio Moura Castro vem há anos denunciando este desvio. Ver Brock, Colin
e Schwartzman, Simon (orgs). Os desafios da Educação no Brasil. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 2005.
[18] A exceção ao reduzido tamanho da rede de ensino técnico e tecnológico
público no Brasil é o estado de São Paulo, onde, há mais de dez anos, vem
ocorrendo um acelerado processo de criação, pelo governo do Estado, de
Faculdades Tecnológicas (FATECS) e Escolas Técnicas (ETECS), dentro de um
sistema de gestão inovador, sem os entraves do funcionalismo público e com um
custo menor, mas mantendo sua gratuidade e qualidade.
[19] O sistema S constitui uma iniciativa de formação profissional por parte da
empresas privadas. Tem como base um fundo constituído a partir de uma pequena
porcentagem da folha salarial e é separado por ramo da produção. Os mais
importantes são o senai (da indústria) e o senac (do comércio).
[20] O Estado de São Paulo, 18/7/2010, p. 3.
[21] Gatti, B. A. e outros. "Formação de professores para o ensino fundamental:
instituições formadoras e seus currículos". Relatório de pesquisa. São Paulo:
Fundação Carlos Chagas/Fundação Vitor Civita, 2008.
[22] Para uma comparação entre Cuba e Brasil, ver Carnoy, Martin; Gove, Amber
K. ; Marshall, Jefery H. "As razões das diferenças de desempenho acadêmico na
América Latina: dados qualitativos do Brasil, Cuba".