Babel da floresta, cidades dos brancos? Os Marubo no trânsito entre dois mundos
Este ensaio trata da relação entre territórios indígenas e espaços urbanos. Tal
relação é aqui estudada do ponto de vista da mitologia e do xamanismo marubo
(povo falante de língua pano e habitante da Terra Indígena Vale do Javari, no
Amazonas). As reflexões elaboradas pelos xamãs marubo sobre os estrangeiros e
as cidades são tributárias de estruturas de fundo do pensamento ameríndio, que
vêm sendo elucidadas nas últimas décadas pela etnologia americanista. A falta
de maior diluição dos avanços da etnologia, seja no próprio ambiente acadêmico,
seja em um ambiente cultural ou político mais amplo, tem causado uma série de
equívocos na interpretação dos trânsitos entre floresta e cidade e das
estratégias indígenas de ocupação do espaço urbano. As lacunas de informação
sobre tais deslocamentos trazem graves conseqüências para os povos da floresta
e suas relações com o mundo não-indígena.
Pretende-se aqui oferecer alternativas críticas e etnograficamente embasadas
para certos pressupostos ainda marcados por uma base romântica e positivista.
Tais pressupostos sustentam, em linhas gerais, que os supostos "índios"
genéricos não possuem pressupostos intelectuais, ou possuem apenas alguns, tão
frágeis a ponto de poderem desaparecer em meio aos processos de integração. O
tratamento assimétrico é hegemônico; serve de justificativa para argumentações
unilaterais tais como as mobilizadas pelo discurso desenvolvimentista em voga.
Tal discurso tende a menosprezar o ponto de vista da floresta como uma fonte
possível de interlocução e a difundir julgamentos supostamente "especializados"
sobre assuntos que a antropologia, ao menos, considera como alguns dos mais
difíceis e desafiadores para o pensamento. Afinal, se os primitivos são mesmo
todos iguais, quem estaria desautorizado a emitir opiniões formadas sobre o
assunto? Um deputado federal, por exemplo, disse recentemente em um jornal de
grande circulação que "a cosmogonia tem valor para as populações que não
tiveram contato com o não-índio"2. Entenda-se, pela negativa, que aqueles que
tiveram "contato" não têm mais uma "cosmogonia", ou ao menos perderam a
credibilidade e o direito para tal, pois agora usam shorts adidas, já
abandonaram o paleolítico.
Afirmações equivocadas desse gênero espalham-se por diversos setores da
intelligentsia nacional, como podemos constatar na seguinte passagem de um
artigo de Hélio Jaguaribe, recentemente publicado em outro jornal de grande
circulação:
[...] a perpetuação de culturas nativas, em que se fundamenta, no
Brasil, a política de reservas, carece de sentido. Em termos
antropológicos, pois é impossível sustar o processo civilizatório. As
populações civilizadas do mundo são descendentes de populações
tribais, que seguiram, em todos os países, o secular caminho que leva
paleolíticos a se transformarem em neolíticos e estes, em
civilizados3.
O trecho, que se baseia em pressupostos similares aos de Rebelo, dispensa
maiores comentários. Basta dizer que varre para debaixo do tapete os genocídios
que movimentaram tal "secular caminho", além de ser uma confissão de ignorância
com relação ao conceito de cultura, basilar para disciplinas tais como a
sociologia e a antropologia. Rebelo e tantos outros furtam-se ao exercício de
investigar as perguntas alheias. Mas afinal, quais são mesmo elas?
BABEL DA FLORESTA
A formação da sociedade hoje conhecida como "marubo" (e de tantas outras
ameríndias) esconde uma configuração relacional característica da Amazônia
ocidental, marcada por uma complexa rede de trânsitos e circulações que, desde
os tempos pré-colombianos, parece determinar os modos de se atuar e refletir
sobre a alteridade, os impactos da presença dos brancos e da urbanização. Em
outros termos, "marubo", um nome dado para um determinado coletivo pela
história da relação com os invasores brancos e peruanos, é algo distinto das
hordas de caçadores e coletores perdidos na selva, ou de sociedades atômicas
isoladas, fechadas em si próprias. O que chamamos de "sociedade marubo" formou-
se em meados do século XIX na região das cabeceiras dos rios Curuçá e Ituí, a
partir de remanescentes de povos falantes de línguas pano. Estes remanescentes,
dizimados por conflitos internos e, progressivamente, pela pressão das
explorações econômicas na região, aglutinaram-se sob a influência de um
poderoso xamã (romeya) e chefe (kakaya) chamado João Tuxáua. No final do século
XIX e começo do XX, João Tuxáua passa a reunir os povos dispersos sob a
perspectiva do parentesco e do xamanismo: faz com que as pessoas deixem de
guerrear entre si e as estimula a adotar um modus vivendi baseado no trabalho
em grandes roçados, na elaboração de grandes festivais (saiki) e no aprendizado
de um vasto conhecimento mitológico e xamanístico4. Os nomes provenientes de
antigos grupos tribais transformam-se então em segmentos de uma nova morfologia
social5, tais como Povo-Azulão (Shanenawavo), Povo-Sol (Varinawavo), Povo-
Jaguar (Inonawavo), Povo-Japó (Rovonawavo), Povo-Arara (Shawãnawavo), entre
outros. É assim que o sistema social acaba guardando de maneira particular os
vestígios da diversidade anterior. Tal diversidade se faz notável, por exemplo,
no papel central que a oratória e a diplomacia possuem na vida social6, bem
como nas próprias comparações com os brancos: "somos como vocês, que se dividem
em portugueses, brasileiros, peruanos, americanos...".
A diversidade característica da formação da sociedade marubo faz dela um
intrigante exemplo das redes que constituem a paisagem ameríndia e, em nosso
caso, a Amazônia ocidental. Vastas redes de troca entre os Andes e os povos da
Amazônia são conhecidas pelos estudiosos7; a existência de grandes ocupações
populacionais e de rotas de circulação tem sido alvo de intensas pesquisas
etnológicas e arqueológicas (um bom exemplo é o estudo sobre o Alto Xingu de
Heckenberger)8. A multiplicidade interna dos povos falantes de língua pano
espalhados pela Amazônia ocidental, as conhecidas relações estabelecidas com os
falantes de quíchua ou com o inca9, são exemplos de que sociedades com a marubo
não são entidades fechadas e isoladas, mas sistemas relacionais abertos.
Para estes sistemas, os trânsitos entre aldeia e cidade são centrais. Os
marubo, muito embora vivam em aldeias que distam dias de viagem das cidades do
vale do Juruá e do Alto Solimões, têm propensão especial para os deslocamentos
e interlocuções. A distância de suas aldeias, no entanto, garantiu aos marubo
uma certa proteção com relação às transformações radicais sofridas pelos povos
do vale do Juruá por conta da exploração da borracha. (Os kaxinawá, assim com
os yaminawa ou os yawanawa, deixaram de viver em malocas e adotaram quase que
exclusivamente as casas de tapiri utilizadas pelos seringueiros10.) Nos dias de
hoje, o uso de malocas se alia à manutenção de um xamanismo ativo, cujas
características muito têm a ver com as multiplicidades e diplomacias que
constituem as redes ameríndias desde tempos imemoriais. Como se relacionam com
o fluxo intenso para as cidades? Trata-se de fato de duas experiências e modos
de socialização radicalmente incompatíveis? Por quais critérios tais trânsitos
são pensados? A mitologia e o xamanismo fornecerão algumas pistas.
Os marubo possuem uma complexa mitologia transmitida através de longas
narrativas cantadas, que, em linhas gerais, pode ser compreendida como uma
mitologia de viagem, centrada nos temas da aliança e da afinidade11. O canto de
surgimento dos antepassados (Wenía saiti), por exemplo, narra a viagem dos
povos antigos desde as terras localizadas a jusante, na direção de um grande
rio (noa), até as terras das cabeceiras. Ao longo do trajeto, os antepassados
encontram estrangeiros habitando as beiras do rio noa (identificado com Manaus
e, por vezes, com São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro), em casas com criações
de galinhas e roçados. Aqueles mantêm relações sexuais com as mulheres destes e
continuam seguindo viagem ao longo do grande rio. Num determinado momento,
encontram a famosa Ponte-Jacaré (kape tapã), um tema difundido na mitologia
pano. No início da ponte, estão novamente alguns estrangeiros vigilantes, donos
de cordas de ferro (mane cheo). Os antigos chefes e xamãs atravessam a ponte e,
já do outro lado, chamam as pessoas insensatas e lascivas que caminhavam atrás
deles para a travessia. Quando estão no meio do rio, os chefes pedem
emprestadas aos estrangeiros suas cordas de ferro, com as quais decepam o
pescoço da ponte monstruosa. Livram-se assim da presença incômoda dos outros
parentes, que ficavam atrás brincando com seus pênis e não sabiam escutar
palavras importantes. Com o pescoço decepado, a Ponte-Jacaré vira e os parentes
lascivos caem nas águas dos rios, morrendo retalhados pelas piranhas dentadas e
por lâminas aquáticas. Suas almas ou duplos (vaká) partem então novamente a
jusante, dando origem às prostitutas e aos arruaceiros das cidades. Os chefes e
xamãs seguem o seu trajeto.
A mitologia marubo, cujas complexas conexões não terminam (assim dizem os
próprios xamãs), elabora diversas outras reflexões sobre os não-indígenas, que,
de um modo geral, seguem o espírito das clássicas considerações desenvolvidas
por Lévi-Strauss na Histoire de lynx. Os mitos pan-ameríndios sobre o
surgimento dos brancos, indagava-se o antropólogo francês, seriam uma reação à
chegada "dos emissários de um outro mundo"?12. A resposta é conhecida:
Fenômeno incompreensível, dizia eu, a não ser que se admita que o lugar dos
brancos estava cravado nos sistemas de pensamento fundados sobre um princípio
dicotômico que, passo a passo, obriga a duplicar os termos, de modo que a
criação dos índios pelo demiurgo tornava simultaneamente necessário que ele
houvesse criado também os não-índios13.
A versão marubo de tal tema se encontra na história de Shoma Wetsa, uma mulher
de ferro que possuía lâminas afiadas nos braços14, com as quais exterminava
seus inimigos para, em seguida, devorá-los. Shoma Wetsa vivia em sua maloca com
a irmã e o filho, Rane Topãne. Andando na floresta, Topãne encontra Shetã Veka,
uma mulher que havia conseguido escapar do naufrágio da Ponte-Jacaré, e decide
levá-la para casa como sua esposa. Shoma Wetsa não gosta da decisão do filho,
pois sabe que sua nora é uma pessoa ruim, que deveria ter morrido no episódio
da Ponte. Seu filho, no entanto, tem três bebês com a mulher e os deixa sob os
cuidados de Shoma Wetsa, que, sucessivamente, os esquarteja e devora. Dando-se
conta disso, Topãne decide matar sua mãe, mas as diversas tentativas fracassam,
pois a mulher é de ferro. Em um determinado momento, Topãne percebe que a mãe
teme o fogo. Decide jogá-la dentro de um buraco cavado no meio da maloca, onde
há uma fogueira. Antes de morrer queimada, Shoma Wetsa aconselha seu filho a
preparar duas espécies de ayahuasca15, a ayahuasca do estrangeiro (nawã oni) e
a do pássaro txõtxõ (txõtxõ oni). Em seguida, ela explode nas chamas: seu
fígado cai em algum lugar do rio noa e se transforma em machado; seus dentes,
em ouro; seus ossos, em ferro. Atrapalhado, Rane Topãne troca as infusões de
ayahuasca e acaba por tomar aquela que deveria ter ficado reservada para o
duplo de sua mãe, que retornaria após a morte do corpo. Quando a mãe vem
chegando de volta à maloca, Topãne e sua mulher pensam se tratar dos brancos
violentos. Shoma Wetsa se ofende e parte para jusante levando os duplos de seus
três netos mortos, dizendo que os brancos voltarão em outra era para matá-los.
Um dos duplos de Shoma Wetsa vai então viver junto com o Inca-Machado (Roe
Inka) na direção do poente; o outro vai viver a jusante, na direção do sol
nascente: dão origem aos brancos, tais como os brasileiros que vivem em Manaus
e Brasília. A narrativa está em relação de transformação com o mito jê de
Auké16: ali, é a figura de D.Pedro II que surgia a partir do conflito em um
núcleo familiar inicial.
O mito mostra mais uma vez que o surgimento dos brancos está prefigurado nas
mitologias ameríndias e não pode ser compreendido como uma mera reação aos
efeitos do contato. Mitologias como a marubo, assim como o próprio processo de
formação de tal sociedade, mostram que "contato" não é a rigor um bom conceito
para pensá-las17. No mito acima, vemos como os brancos surgem de um mesmo
núcleo familiar considerado como pertencente aos antepassados dos marubo
atuais: a "dualidade em perpétuo desequilíbrio" de que falava Lévi-Strauss
encontra-se escamoteada na narrativa. A alteridade, a rigor, é constitutiva de
povos como os marubo: "é como se os pano sempre tivessem sabido se acomodar a
uma forma de alteridade poderosa, ao mesmo tempo útil e ameaçadora, atraente e
desconcertante, de que os brancos representariam apenas o último avatar em
termos cronológicos", escreve com precisão Erikson18. De fato, para os marubo e
outros pano, o inca representa um antecedente dessa relação que,
posteriormente, seria estabelecida com os peruanos caucheiros e, nos dias de
hoje, com os brasileiros19. Noutro canto-mito, "Pedindo machado ao inca" (Inka
Roe Yõká saiti), são narradas as viagens dos antepassados para o oeste a fim de
obter machados de ferro ou pedra junto ao inca: ao longo do trajeto, os povos
antigos mais uma vez encontram uma série de outros tais como o "Povo das
Mulheres" (Ai vo Nawa), com as quais devem copular intensamente a fim de que
não sejam devorados. Após uma série de visitas aos povos que se encontram na
viagem, chegam enfim à casa de pedra do inca, que lhes oferece uma caiçuma de
fezes (poi waka, uma metáfora para café, explicavam-me). Aquele que a ingerir
por inteiro terá um machado bom; aquele que recusar, um machado ruim. Na posse
dos utensílios, retornam para suas terras a fim de cultivar roçados mais
extensos20. Hoje em dia, é para as cidades adjacentes à Terra Indígena que os
marubo viajam para obter instrumentos industrializados, agora, junto aos
brasileiros.
Não é apenas nos deslocamentos para as terras dos estrangeiros a fim de obter
instrumentos que multiplicidades de povos se encontram. A cosmologia marubo é
ela própria um emaranhado infinitista de trajetos, povos e coletivos, visitados
pelos xamãs romeya. Os espíritos yovevo organizam-se também em sociedades e
estendem suas relações de parentesco aos marubo, cujo xamanismo é um trabalho
de tradução e mediação entre as intermináveis populações do mundo aquático, dos
estratos celestes e subterrâneos. Seus duplos passeiam por tais habitações como
quem passeia pelas cidades: as casas dos espíritos Ni Okevo são todas de pedra,
ao modo das casas dos brancos; o duplo do Sol é um estrangeiro barbado, que
vive também em uma casa de pedra e possui objetos tecnológicos. O xamanismo
marubo replica para o cosmos um esquema similar ao das redes de relação
características dos mundos amazônicos: também aqui os xamãs são "diplomatas"21,
ao transitar por uma profusão de coletividades que não deixam nada a desejar às
cidades dos brancos e, de certa forma, as antecipam. O neologismo
"sociocosmos"22 aplica-se bem a sistemas xamanísticos tais como o marubo, para
o qual o socius ultrapassa os limites visíveis. Com seus olhares alterados, os
xamãs podem ver o mundo da copa das árvores (Tama Shavá) como uma miríade de
aldeias e casas, onde vivem intermináveis espíritos com suas línguas e costumes
distintos. A paisagem, dizem, é mais vasta do que a de cidades como São Paulo
ou Manaus.
Ainda que a mitologia ofereça um lugar para os estrangeiros desde os tempos do
surgimento, existem pontos essenciais de contraste. Os estrangeiros, donos da
escrita, não são "pessoas pensadoras" (chinãivo yora) tais como aquelas que
habitam a floresta: "eles têm escrita mas não sabem pensar", explicava-me um
xamã. Os estrangeiros lêem no papel, objetivam um conhecimento, que, no caso
das "pessoas pensadoras", está internalizado sob a forma de desenhos
geométricos invisíveis, os kene, através dos quais os xamãs são capazes de
traduzir as línguas dos diversos povos-espírito. Em que consiste esse
"pensamento" (chinã) contrastado ao conhecimento dos brancos? Trata-se de uma
reflexão que pretende capturar (a) o surgimento, (b) o trajeto, (c) o
estabelecimento e (d) os comportamentos ou características de todos os entes e
fenômenos existentes, tais como pessoas, árvores, animais, doenças, dinheiro ou
computadores, através dos longos e intrincados cantos
shõki23
. O esquema está presente na estruturação das narrativas míticas, tal como
podemos ver no caso de Shoma Wetsa: a velha (a) morreu em uma maloca, da qual
surge seu duplo que irá (b) realizar um percurso até (c) se estabelecer a
jusante no rio noa ou junto ao inca, onde permanece (d) falando a língua dos
brancos. É esse conhecimento que será mobilizado pelos xamãs em suas relações
com os "outros" (espíritos, brancos, missionários, comerciantes, funcionários
da Funai...): uma vez identificados os processos de formação de determinados
coletivos, a atuação sobre eles torna-se possível. Não há novidade que escape
ao esquema, que re-traduz a diferença em seus próprios termos e, assim, permite
a atuação xamanística por meio dos cantos24.
Seja neste esquema de pensamento desenvolvido pelos cantos, seja nos relatos
das experiências visionárias elaborados pelos xamãs, o fenômeno da
multiplicidade não é um dado desconhecido, mas uma essência do sistema babélico
marubo. Se a floresta, vista pelos olhos alterados, é um conglomerado infinito
de habitações, muitas das quais semelhantes às dos brancos, o espaço das
cidades também pode ser, alternativamente, morada para espíritos de
comportamentos mais próximos aos das "gentes pensadoras". Os espaços são
reversíveis; a multiplicação perspectivista25 do xamanismo não se detém a
domínios circunscritos. As visões de ayahuasca dos xamanismos sharanawa e
shipibo-conibo, em muito semelhantes ao caso marubo, são permeadas por
espíritos/mestres estrangeiros, dotados de equipamentos e tecnologias, donos de
estabelecimentos comerciais e de instrumentos sofisticados de medicina26. Um
xamã com o qual trabalhei em Tabatinga e Letícia, cidades fronteiriças do Alto
Solimões, e em Cruzeiro do Sul (Acre), dizia que os espíritos-galinha (takare
yochi) e os espíritos-sabiá do rio grande (noa mawa) encontram-se ali em
multidões. São tomadores de cachaça e cerveja, mas são pessoas boas: espírito-
galinha costuma entrar no corpo/casa do xamã que canta em sua maloca na
floresta. Uma vez ali, extrai agentes patogênicos do corpo dos doentes.
Assistindo aos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro pela televisão,
o mesmo xamã dizia ser aquela multidão igual à dos espíritos que costuma
visitar: são brilhantes, inúmeros e fulgurantes, adjetivos utilizados também
pelo xamã yanomami Davi Kopenawa em seus relatos sobre os espíritos xapiripë27.
Tal reversibilidade é compreensível através da lógica dos termos yora ("gente")
e nawa ("estrangeiro"). Sentado na varanda da casa que os marubo mantêm em
Cruzeiro do Sul com o dinheiro de suas aposentadorias, um homem me dizia que
"todos somos nawa, mas somos yora no meio". Com isso queria dizer que os
marubo, assim como os estrangeiros (brasileiros, peruanos, portugueses,
colombianos, americanos etc.), sempre foram compostos de uma diversidade de
coletivos. A posição de uma determinada pessoa dentro de uma rede de relações
marcada pelo parentesco e pela comensalidade é que a definirá como "gente"
(yora) em face dos "outros" (outra tradução possível para nawa). O par yora/
nawa não pode, portanto, ser compreendido apenas mediante a oposição "índios/
brancos": seu uso é contextual e posicional; segue, de maneira geral, a lógica
da "afinidade potencial" elucidada por Viveiros de Castro28 e aplicável aos
pano29. Um branco urbano que passa longas temporadas nas aldeias poderá ser
dito yora ao integrar o campo do parentesco de seus anfitriões, tornando-se um
parceiro de comensalidade e um interlocutor na língua nativa; um marubo que, ao
reverso, passa muito tempo nas cidades poderá ser considerado como
"estrangeirizado" (nawaya) por seus parentes da floresta. Um rapaz
"estrangeirizado", entretanto, ao encontrar esse mesmo antropólogo em uma
cidade, dormindo em um quarto de hotel, chamá-lo-á de nawa e a si mesmo de
yora, mesmo que o antropólogo fale em sua língua.
O modo marubo de pensar a alteridade não se baseia em cortes ontológicos
intransponíveis, tais como os que se utilizam para fazer o contraste entre os
povos da natureza (floresta) e os da civilização (cidade). Se o retorno a um
estado de natureza nos é vedado; se nosso senso comum deixa de considerar como
"índio autêntico" aquele que abandonou de modo irreversível tal estado para
adentrar a civilização (e a própria civilização como um processo irreversível),
o pensamento ameríndio molda-se alternativamente pela idéia de transformação30:
a possibilidade de estender conexões relacionais aos horizontes mais vastos
possíveis é que está em jogo, seja nas regiões do cosmos, seja ao longo da
hidrografia ou nas cidades, através de temporadas ou de vínculos mais
duradouros. A possibilidade de estabelecer vínculos parece ser, pois, um dos
lastros dos sistemas em questão e de seus pensamentos pelo parentesco31. Vamos
observar mais detalhadamente como tal predisposição à alteridade e à relação
tem se (des)harmonizado com a vida nas cidades; como, sem que desapareça no
falacioso processo de "aculturação"32, convive em conflito com o mundo não-
indígena.
CIDADE DOS BRANCOS
As passagens de uma conversa que segue traduzida trazem um bom histórico das
relações entre os marubo e as cidades. O narrador é Lauro Brasil, experiente
xamã curador. Agora falecido, Lauro fora em vida madeireiro e regatão: conhecia
bem os costumes dos brancos e as cidades a jusante (Atalaia do Norte, Tabatinga
e Benjamin Constant) e a montante (Cruzeiro do Sul, Guajará/AM), nas quais
possuía amigos, "cumpadres" e outras formas de relação, muitas das quais
estabelecidas com os patrões do comércio do Alto Juruá. Passou boa parte de sua
vida madura em viagem, trazendo produtos dos brancos para serem comercializados
nas aldeias do Alto Ituí e vivendo longas temporadas nas cidades, até que se
tornou um xamã romeya. Neste tipo de xamanismo desencadeado por crises e
doenças, a pessoa inteira se altera até que se torne capaz de manter relações
de parentesco com os espíritos33. A experiência pode ser arriscada e Lauro, que
quase chegou a morrer por conta dela, teve os caminhos que ligavam seu corpo/
maloca às casas dos espíritos desfeitos por seu irmão mais velho, um xamã
rezador (ke chi txo). As circulações do xamanismo possuem, entretanto,
afinidade intrínseca com as viagens para as cidades: num ou noutro caso,
exerce-se a diplomacia, o trânsito entre pontos de vista34. Lauro falava sobre
o início das visitas às cidades e seus desdobramentos:
Pedro: Antes as cidades eram boas?
Lauro: Antes as pessoas não entendiam a língua dos brancos. Não viviam nos
brancos. Naquela época, a cidade era boa, era bom viver na cidade. Naquela
época, podíamos ficar nas cidades sem documentos. Naquela época em que fomos
ver os brancos, na época em que fomos ver os brancos... em 1955 eu fui viver
nos brancos. Naquela época, Cruzeiro [do Sul] não era deste tamanho, não era
muito grande, podíamos ficar sem documentos, não tínhamos documentos, olhávamos
as festas e depois voltávamos para casa, era mesmo assim, naquela época
tínhamos medo de bebedeira, não tomávamos cachaça, assim nós vivíamos, vivíamos
bem naquele tempo. Os brancos também, eles cuidavam da gente, "não tomem
cachaça!", eles diziam.
Mas agora não é assim, agora nós todos temos que ter documentos, os brancos
perguntam, "você tem documento?", assim costumamos escutar. Por isso agora tem
ficado difícil para os jovens que vão estudar nas cidades. "Vocês têm
documentos? Onde vocês fizeram seus estudos?", assim dizem. Naquela época não
havia gente amansada, não havia gente amansada naquela época. Naqueles tempos
nós não tínhamos doença, nós não tínhamos febre. Era assim também a fala dos
chefes, "não venham para cá quando estiverem gripados, não venham para cá
quando estiverem gripados", e então, "não estou brincando, se houver gripe aqui
as pessoas podem morrer, podemos todos morrer por causa da gripe que vocês
trazem...". Mas agora é assim, estou falando destes tempos recentes, agora não
dá para entender a doença, não dá para entender o peso da doença, não dá para
entender o peso da febre. Agora nós queremos tentar aprender a escrever,
queremos aprender a escrever, queremos aprender a língua dos brancos, nós vamos
para os brancos, quando estamos nos brancos nós não entendemos sua língua, como
é que vamos falar... [...]
Naqueles tempos não tinha gente morando nos brancos, isso foi agora mesmo,
agora tem gente vivendo para cá, na direção de Cruzeiro moram alguns jovens, em
Atalaia tem muita gente. Agora nós estamos pensando assim, agora é assim que
estamos pensando. Eu conversei com meus irmãos e nós pensamos assim. Agora nós
vamos trazer os nossos parentes para cá, as pessoas que ficam vivendo nos
brancos vão se estragando. Nossos filhos estão acabando, vamos trazê-los de
volta para viver em nosso rio, nós temos uma terra muito grande. [...]
Pedro: Por que é que as pessoas que moram em Atalaia ficam assim, tomam
cachaça, ficam doidas, mexem com os outros? O que é que tem de ruim na cidade
que faz as pessoas ficarem assim?
Lauro: As pessoas ficam assim porque tomam cachaça, querem ver mulher para
transar, ficam buscando confusão. As pessoas tomam bebida e ficam doidas, as
pessoas tomam cachaça e o espírito dela encosta. Eu passo a querer brigar com
esse meu parente de quem eu gosto. Eu me altero, meu pensamento se altera, o
espírito da cachaça passa por você, eh!, eu fico querendo te matar, fico
pensando em brigar com você. Na cidade é assim. O duplo da pessoa que morreu em
briga, do que morreu em briga [assassinado],seu duplo se levanta. Tendo
morrido. o seu duplo se levanta e encosta em outra pessoa, encosta em outra
pessoa, vai passando por suas costas. Esses espíritos todos, esses espíritos
mortos por assassinato, esses que nós chamamos de espíritos guerreiros, as
pessoas mortas por armas, o espírito da cachaça, esses todos, uma vez que seus
duplos ficaram fortes eles encostam nas pessoas, matam as pessoas, esses
espíritos todos que tem nas cidades. As multidões de espíritos ruins, o
espírito da cachaça, o espírito da cana, todos esses. [...]
Os nossos antepassados, quando viemos surgindo, quando foram surgindo, o vento
da terra os exterminou e os Japós do Rio Grande [Ene Iskovo] apareceram, estes
que são as pessoas mais bravas, estes são os donos de vocês, de vocês
estrangeiros, estrangeiros mais bravos, prendedores [policiais]35.O Japó do Rio
Grande, seu duplo é que fez surgir aqueles prendedores. Assim eles surgiram, os
Japós do Rio Grande, os estrangeiros prendedores. Japó do Rio Grande não é nome
de bicho não, é nome de gente, nome de estrangeiro, nome de estrangeiro. Esses
Japós do Rio Grande não sabem pensar mesmo, sabem escrever, entendem bastante
de escrita mas têm pensamento bravo, tem estrangeiro que é assim. [...]
Nós fomos os primeiros donos, nós surgimos primeiro e vocês surgiram depois,
nós surgimos primeiro e, tendo surgido primeiro, tendo surgido, uma vez que
surgimos vocês então surgiram de lá, surgiram lá há muito tempo, neste lugar
que vocês chamam de Europa. Surgindo de lá, vocês quiseram nos pegar. Fazendo
assim, os antepassados de vocês acabaram com a gente, vieram tomar as cidades
da gente, eles acabaram com muita gente. Quando nossos antigos acabaram, outras
pessoas chegaram juntas quando os antigos acabaram e pegaram a terra, ficaram
ali vivendo juntos.
Assim meu pai contava. Assim vocês vieram, assim vinham acabando com nossos
antigos e pegaram a terra, acabaram com os antigos e pegaram a terra. Havia
muita gente e vocês, vocês não eram muitos, mas nós aprendemos a sua língua.
Algumas pessoas se amansaram, outras ficaram bravas. Essa terra é nossa, nós
surgimos primeiro, mas querem pegar a nossa terra. Vocês vieram roubando as
cidades. As cidades não são de vocês, a terra é nossa, mas vocês roubaram.
Vocês não podem nos pagar? "Não, nós queremos mesmo é pegar a terra, nós
retalhamos a terra e não pagamos de jeito nenhum!"36.
"Dê-nos um avião, nós não vamos acabar rápido! Governo, venha rápido nos
pagar!", eu fico bravo37.
As últimas considerações do depoimento não devem eclipsar um traço notável dos
marubo: a admiração pelos estrangeiros, habitantes das cidades ou visitantes
nas aldeias. Admiração, cativação: conhecimentos vêm sempre de fora, seja dos
espíritos subaquáticos (que, nos tempos míticos, ensinaram a arquitetura das
malocas e a caça com arco-e-flecha), seja dos não-índios. A despeito da memória
viva dos massacres e correrias que aterrorizaram essas regiões da Amazônia
ocidental, não se pretende nos dias de hoje travar uma guerra com os brancos,
mas, pelo contrário, abrir espaço para interações possíveis, a partir de
premissas distintas, contudo. A possibilidade de conciliar a vida nas cidades
com a vida nas aldeias depende, porém e simultaneamente, no plano interno, do
desenrolar das atuais relações entre gêneros e gerações e, no plano externo, de
mudanças nas instituições e pressupostos dos brancos. Muito embora usufruam da
segunda maior área indígena do Brasil, a ausência de serviços essenciais e os
decorrentes desastres sanitários têm minado o estabelecimento de vínculos
harmoniosos entre os marubo e os brancos, comprometendo a vida nas aldeias38.
Alguns velhos cogitam abandonar a beira dos rios (marcada pelo acesso às
benfeitorias e aos produtos das cidades) e se estabelecer nas remotas
cabeceiras dos igarapés, a fim de fugir das doenças que escapam ao controle do
xamanismo. Como se pretendessem uma espécie de devir-antepassado com essa vida
nas cabeceiras, por oposição ao devir-estrangeiro característico do estado
atual de relações. Os marubo, dizem, tornaram-se há tempos eseyavo, "sábios" ou
"respeitosos", por oposição aos seus antepassados e às populações vizinhas
adjacentes, consideradas como "bravas" e propensas aos conflitos. Tal ethos
intelectual e diplomático acaba por dificultar uma reação das aldeias ao caos
que impera no município de Atalaia do Norte. Vamos então investigar essa recusa
por um conflito aberto e a opção pela reflexão, conduzida nas intermináveis
reuniões noturnas das malocas.
DESOLAÇÃO, MESSIANISMO
É provável que o fluxo para as cidades esteja relacionado à inclinação comum da
juventude para períodos de experiência em outras terras, tal como argumenta
Ruedas39, ecoando a propensão dos pano e outros tantos ameríndios para a
alteridade40. Os xamãs, no entanto, andam preocupados com o atual estado das
coisas. Atalaia do Norte é vista como uma cidade essencialmente problemática,
fonte de conflitos e desentendimentos de longa data com os brancos. Ainda
assim, os marubo ali se estabelecem cada vez mais. Por quais razões? Os perigos
de Atalaia têm a ver com a proliferação de espíritos agressivos/assassinos
originários de pessoas matadoras e dos espíritos da cachaça, que encostam nas
pessoas e as tornam insensatas. Os espíritos agressivos e insensatos
interrompem o parentesco, jogam pessoas umas contra as outras, e a cidade
parece ser local privilegiado para isso. Nas aldeias, o assédio constante dos
espectros dos mortos pode ser monitorado e manipulado pelas atividades dos
xamãs, que, com seus cantos, os mantêm afastados das pessoas. A pessoa comum
ignora estar sendo prestidigitada por um espectro e, nas cidades, assim
permanecerá sem que ele possa ser afastado.
De acordo com um xamã, uma pessoa se torna moradora de rua, alcoólatra ou
doente mental justamente por causa do assédio dos espectros dos mortos que
perambulam pelas ruas sem rumo: tomando de assalto a pessoa, eles a alteram,
substituindo ou eclipsando o duplo que antes tomava conta de seu corpo. Nas
aldeias, os mortos são conduzidos pelos xamãs através do Caminho-Morte (Vei
Vai) ou então para longe das imediações das malocas. Os brancos insensatos das
cidades, no entanto, não sabem o que fazer com seus defuntos. Não sabiam,
aliás, o que fazer em vida: se foram agressivos, assim permanecerão em seus
destinos póstumos. Incapazes de atravessar o longo Caminho-Morte (o mesmo para
os marubo e para os estrangeiros), acabam por ficar presos em suas margens ou
então recuam para esta terra, onde permanecem atrapalhando os viventes.
Os velhos marubo dizem que, nas cidades adjacentes à Terra Indígena, vivem "os
filhos/descendentes de Shoma Wetsa", isto é, os brancos violentos que surgiram
a partir dos duplos dos netos outrora devorados pela mulher de ferro. Tais
brancos são freqüentemente contrastados aos brancos "bons", que vêm de terras
distantes tais como São Paulo, Brasília ou Rio de Janeiro. Os xamãs desprezam
as populações de tais cidades, formadas por pessoas "sem ensinamento" (ese
yama), cujo comportamento é marcadamente distinto daqueles outros brancos
"donos de palavra" (vana ivorasi) que vêm de terras mais distantes. Mesmo
sabendo que estes estrangeiros são descendentes daqueles que roubaram suas
terras em outros tempos, os marubo apreciam sua capacidade de conversa e de
aprendizado da língua, oposta ao comportamento desrespeitoso dos brasileiros
regionais, com os quais julgam ser difícil estabelecer uma interlocução
inteligente.
Numa ou noutra cidade, os jovens criam vínculos com moças brasileiras, alguns
dos quais mais duradouros, e aprendem os seus modos do amor e do sexo,
distintos dos das mulheres das aldeias. Voltam para sua terra e tentam
reproduzir a experiência das cidades em suas casas de tapiri, construídas ao
redor das grandes malocas: as paredes internas são forradas de fotografias de
revistas; alguns fazem mesas com bancos e estantes, onde organizam fitas
cassete e CDs em torno dos aparelhos de som, objetos cobiçados. Isolados dos
eventos que ocorrem nas malocas, onde velhos e homens maduros conversam ou
realizam rituais, os jovens ficam entre si escutando músicas regionais
românticas, jogando cartas ou dominó, fumando cigarros e consumindo cachaça ou
outras bebidas, quando disponíveis. Os humores passam das brincadeiras
eufóricas à melancolia: neste extremo, os jovens ficam tristes/nostálgicos
(oniska), pois seus pensamentos estão alhures. Para alguns, o afeto e os
compromissos com as mulheres das aldeias e a vivência com as moças brasileiras
tornam-se experiências incompatíveis.
É verdade que os cantos dos espíritos (iniki) possuem uma semelhança de base
com as músicas dos estrangeiros (nawã kokaiki): são todas melodias provenientes
de fora, de outros povos invisíveis, sendo por isso tristes ou nostálgicas,
este tipo de afeto característico dos trajetos e distâncias que marcam a
paisagem amazônica41. Ainda assim, a audição voltada apenas às músicas dos
estrangeiros afasta os jovens da possibilidade de convívio com o parentesco
sociocósmico, isto é, com o campo de relações que integra os marubo aos
infindáveis espíritos. É a integração a esse campo que possibilita uma
alteração efetiva da pessoa (composta de seu suporte corporal, shaká ou kaya, e
de seus diversos duplos, os yochi ou vaká), tornando-a apta para atravessar o
Caminho-Morte ou a viver com os espíritos após a morte. Alguns jovens acabam
por ter seus duplos vivendo nas cidades, enquanto seus corpos permanecem nas
aldeias. O resultado é a melancolia, a desolação, os conflitos de gênero e
geração, bem como, no limite, a doença (agravada pelos casos diversos de
hepatite e malária). Em outros povos ameríndios, talvez por razões similares,
suicídios são desfechos freqüentes42.
A ausência de um ensino escolar diferenciado reforça o quadro desalentador. Sem
acesso a um conhecimento crítico sobre os saberes dos brancos, os jovens
permanecem também à margem do conhecimento de seus antigos, uma vez que são
poucos os que atualmente se engajam nos processos de transmissão das artes
verbais e dos saberes xamanísticos. Incapazes de interagir de modo efetivo com
ambos os mundos, acabam em um limbo desolador. As seguintes palavras de Davi
Kopenawa Yanomami ressoam os dilemas dos marubo:
Por isso, quando meu pensamento está triste, às vezes me pergunto se, no
futuro, ainda haverá xamãs. Talvez não. Nesse caso, nossos filhos estarão tão
confusos que deixarão de ver os espíritos e de escutar seus cantos. Sem xamãs,
viverão desprotegidos e perderão o juízo. Passarão seu tempo a vagar entre os
brancos. [...] Por isso, nos esforçamos sem trégua para convencer nossos filhos
e genros a inalar yãkoana e fazer dançar os espíritos como faziam os nossos
antigos. Assim as palavras dos xapiripë [espíritos] jamais se perderão43.
É verdade, como dizíamos, que o xamanismo marubo é um sistema babélico de
tradução; é verdade que sua mitologia é uma grande narrativa do contato
imemorial e dos trajetos por terras alheias e multidões de populações
estrangeiras. O conhecimento mitopoético que dá as bases para a atuação do
xamanismo de cura pano44 possui, no caso marubo, recursos para pensar o
surgimento das prostitutas, dos marginais, dos alcoólatras e dos policiais
bravos. Pôde, ao longo das décadas, calibrar o trânsito para o mundo dos
brancos de maneira a garantir a socialidade e a vida ritual das malocas. Por
que então a experiência contemporânea com as cidades tem se mostrado tão
ameaçadora e desagregadora? Não parece haver uma resposta única para tal
questão.
Um xamã dizia que os desajustes nos casamentos, iniciados a partir dos anos
1970, são uma causa provável para a insensatez e as doenças que atualmente
assolam as aldeias. Ao estabelecerem relações sexuais escondidas e antes do
tempo certo, e com outras moças que não as suas primas cruzadas, os viventes
"estragam seu sangue" (awe imi ichnai) e repelem os espíritos yovevo. Para o
jovem xamã Robson Venãpa, o comportamento é sintomático destes tempos, que
estão para acabar. Kana Voã, um dos demiurgos, retornará de sua morada no
poente e a terra inteira arderá em chamas. A notícia, escutada dos espíritos, é
novidade entre os marubo, que não partilham de um messianismo comum a outras
populações ameríndias. Atesta, de toda forma, que a relação com o mundo dos
brancos urbanos tem sido desarmônica e ameaçadora. As cidades, mesmo que
pensadas pelo xamanismo, são ainda um permanente desafio, um espaço a ser re-
habitado.
EPÍLOGO
O panorama acima apresentado não quer dizer que o fluxo para as cidades seja a
causa da vida conturbada nas aldeias, derivada, isso sim, das omissões do
Estado e da sociedade nacional. Utilizar tal quadro para sustentar algum
argumento contrário à manutenção de grandes reservas indígenas, sob o pretexto
do esvaziamento populacional e outros tantos, também não se justifica. O
problema não está no estabelecimento de frações das populações indígenas nas
cidades, mas na falta de acompanhamento e mediação de uma situação imposta aos
povos da floresta pelo processo histórico. Os trânsitos entre aldeia e cidade,
como vimos, não podem ser pensados pelo binômio natureza/cultura, a espinha
dorsal das "equivocidades tradutivas"45 estabelecidas entre a cultura nacional
e as ontologias ameríndias. Reservas indígenas não são jaulas de jardim
zoológico, vitrines do paleolítico, grotões onde "índios genéricos" devem ficar
para que não percam a sua "autenticidade" e, portanto, a justificativa para a
aquisição de seus direitos legais.
De quem são afinal os critérios para delimitar os agrupamentos indígenas, para
dizer quais são os seus lugares originais de ocupação? Ou ainda mais, como
recentemente delirou um general, para dizer que reservas indígenas trazem a
ameaça do separatismo, como se os povos amazônicos partilhassem do mesmo caldo
romântico-nacionalista que produziu a desgraça dos Bálcãs? Os processos
políticos amazônicos, na maioria referentes a sociedades acéfalas, são
intimamente ligados ao xamanismo e sua potência transformativa parecem
situar-se nos antípodas, discute-se bastante, das institucionalizações
centradas no Estado e em alguma espécie de filiação à identidade nacional46. Na
tentativa de rastrear os sentidos ameríndios de comunidade, Viveiros de Castro
lembrou bem que a tarefa da antropologia é a de "elucidação das condições de
autodeterminação ontológica do outro. E ponto"47. Tais condições permitem ao
antropólogo especular que
comunidade indígena é toda comunidade fundada em relações de
parentesco ou vizinhança entre seus membros. O "ou" aqui é
evidentemente inclusivo: "seja parentesco, seja vizinhança". Este é
um ponto importante, porque ele impede uma definição genética ou
genealógica de comunidade. A idéia de vizinhança serve para sublinhar
que "comunidade" não é uma realidade genética; por outro lado,
colocar "relações de parentesco" na definição permite que se
contemplem possíveis dimensões translocais dessa "comunidade". Em
outras palavras, a comunidade que tenho em mente é ou pode ser uma
realidade temporal tanto quanto espacial. Em suma, "parentesco" e
"território", para falarmos como Morgan, são tomados aqui como
princípios alternativos ou simultâneos de constituição de uma
comunidade. Convém sublinhar o caráter não-geométrico desse
território: a inscrição espacial da comunidade não precisa ser, por
exemplo, concentrada ou contínua, podendo ao contrário ser dispersa e
descontínua48.
Comunidades indígenas não se situam, portanto, ou na floresta ou em lugar
nenhum, mas nas florestas e nas cidades e nos estratos celestes, nas moradas
dos mortos e em quantas posições a cartografia virtual dos pensamentos
xamanísticos quiser projetar. O sentido ameríndio de coletivo, também lastreado
na memória do espaço (mas não de uma identidade nacional...), baseia-se
justamente na idéia de que os vínculos podem ser produzidos, e não dados, tal
como no caso de nossos cortes ontológicos originários da distinção entre
natureza e cultura. O discurso contundente de Lauro Brasil não é uma
demonstração de separatismo ou intolerância, mas uma reflexão sobre a
intolerância e avidez alheias. O pensamento xamanístico não opera pela lógica
da exclusão discriminatória (ou se é primitivo, ou se é civilizado), mas por
níveis de inclusão e dinâmicas de alteração, para os quais o outro é o ponto
essencial, e não uma discrepância a ser uniformizada. Resta saber como a vida
urbana e os trânsitos para as cidades poderão dialogar com a reinvenção
tradutiva e a experiência da diversidade desde sempre familiares ao xamanismo,
capaz de oferecer alternativas plurais em meio à imposição do consenso.
[1] A pesquisa que deu origem a este artigo se baseia em catorze meses de
trabalho de campo entre os marubo do Vale do Javari. O trabalho contou com o
apoio do CNPq, do Núcleo Transformações Indígenas (Pronex/Faperj), da Wenner-
Gren Foundation for Anthropological Research, do Centre National de la
Recherche Scientifique (CNRS, Paris, EREA) e do Centro de Trabalho Indigenista
(CTI).
[2] Rebelo, Aldo. "O Exército não pode desterrar os não-índios" (Entrevista a
Rui Nogueira). O Estado de S. Paulo, Primeiro Caderno, 27/04/2008, p. A-8.
[3] Jaguaribe, Hélio. "O jardim antropológico é uma insensatez". Folha de
S.Paulo, "Tendências e Debates", 26/04/2008, p. A-3.
[4] Ver Ruedas, Javier. "History, ethnography, and politics in Amazonia:
implications of diachronic and synchronic variability in Marubo politics".
Tipití 2 (1), pp. 23-65.
[5] Ver Melatti, Julio Cezar. "Estrutura social marubo: um sistema australiano
na Amazônia". Anuário Antropológico 76, 1977, pp. 83-120.
[6] Veja, por exemplo, Sztutman, Renato. O profeta e o principal: a ação
política ameríndia e seus personagens (São Paulo: tese de doutorado, FFLCH-USP,
2005, pp. 267 ss. ) para uma análise da oralidade, diplomacia
e chefia tupi; e Franchetto, Bruna. "A celebração da história nos discursos
cerimoniais kuikuro" (In: Cunha, M. Carneiro da e Castro, E. Viveiros de
(orgs). Amazônia: etnologia e história indígena. São Paulo: NHII/Fapesp, 1993,
pp. 95-117), para o mesmo entre os kuikuro.
[7] Ver Chaumeil, Jean-Pierre. "Réseaux chamaniques contemporains et relations
interethniques dans le Haut Amazone (Pérou)". In: Pinzón, C. e outros (orgs).
Otra América en Construcción. 46º Congreso Internacional de Americanistas,
Bogotá, ICAN, 1991, pp. 9-21; Renard-Casevitz, France-Marie.
"História kampa, memória ashaninka". In: Cunha, M. Carneiro da (org). História
dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, pp. 197-213.
[8] Heckenberger, Michael e outros. "Amazonia 1492: pristine forest or cultural
parkland?". Science, v. 301, nº 5640, 2003, pp. 1710-14.
[9] Ver Erikson, Philippe. "Uma singular pluralidade: a etno-história pano".
In: Cunha, M. Carneiro da (org). História dos índios no Brasil, op. cit., pp.
239-53; Saez, Oscar Calavia. "O inca pano: mito, história e
modelos etnológicos". Mana, v. 6, nº 2, 2000; idem, O nome e
o tempo dos yaminawa. São Paulo: Editora da Unesp/NuTI/ISA, 2006; Cesarino, Pedro e Colpron, Anne-Marie. "O Sol e o Machado: a figura
do inca pano através dos casos marubo e shipibo-conibo", 2008 (mimeo).
[10] Ver Almeida, Mauro e Carneiro da Cunha, Manuela (orgs). Encicplopédia da
floresta. São Paulo: Companhia das Letras, 2002; Iglesias,
Marcelo Pidrafita. Os kaxinawá de felizardo: "correrias", "trabalho" e
"civilização" no vale do Juruá. Rio de Janeiro: tese de doutorado, Museu
Nacional/ PPGAS/ UFRJ, 2008.
[11] Ver Cesarino, Pedro. Oniska - A poética do mundo e da morte entre os
marubo da Amazônia ocidental. Rio de Janeiro: tese de doutorado, Museu
Nacional/PPGAS/UFRJ, 2008; Welang, Guilherme. Emerging
peoples: marubo myth-chants. Saint Andrews, Scotland: Phd Thesis, University of
Saint Andrews, 2001.
[12] Lévi-Strauss, Claude. Histoire de Lynx. Paris: Plon, 1991, p. 292 [ed.
bras. História de lince, trad. Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Companhia das
Letras, 1993] .
[13] "Phénomène incompréhensible, disais-je, sauf à admettre que la place des
Blancs était marquée en creux dans des systèmes de pensée fondés sur un
principe dichotomique qui, étape après étape, oblige à dédoubler les termes; de
sorte que la création des Indiens par le démiurge rendait du même coup
nécessaire qu'il eût créé aussi des non-Indiens" (ibidem - tradução minha).
[14] Melatti dedica um artigo a esse mito. Melatti, J. C. "Shoma Wetsa: a
história de um mito". Ciência Hoje, v. 9, nº 53, 1989, pp. 56-61.
[15] Infusão do cipó psicoativo Banisteriopsis caapi.
[16] Ver Da Matta, Roberto. Ensaios de antropologia estrutural. Petrópolis:
Vozes, 1977.
[17] Ver Viveiros de Castro, Eduardo. Araweté, os deuses canibais. Rio de
Janeiro: Zahar/Anpocs, 1986.
[18] Erikson, op. cit., p. 251.
[19] Ver Cesarino e Colpron, op. cit.; Saez, "O inca pano: mito, história e
modelos etnológicos", op. cit.; Erikson, op. cit.
[20] Veja, para um artigo sobre o assunto, Cesarino e Colpron, op. cit.
[21] Ver Carneiro da Cunha, Manuela. "Pontos de vista sobre a floresta
amazônica: xamanismo e tradução". Mana, v. 4, nº 1, 1998, pp. 7-23.
[22] Ver Viveiros de Castro, E. A inconstância da alma selvagem. São Paulo:
CosacNaify, 2002.
[23] Ver Cesarino, op. cit.
[24] Ver ibidem para um estudo detalhado do assunto, que, embora não possa ser
desenvolvido aqui, possui semelhanças com outros xamanismos ameríndios, tais
como os warao (Briggs, Charles. "The Sting of the Ray: bodies, agency, and
grammar in Warao curing". Journal of American Folklore, v. 107, nº 423, 1994,
pp. 179-212), kuna (Severi, Carlo. La memoria ritual. Quito:
Ediciones Abya-Yala, 1996) e sharanawa (Déléage, Pierre. Le chamanisme
sharanahua (enquête sur l'apprentissage et l'épistemologie d'un rituel). Paris:
thèse de doctorat, École des Hautes Études em Sciences Sociales, 2006).
[25] A noção é de Viveiros de Castro (A inconstância da alma selvagem, op.
cit.) e Tânia Stolze Lima (Um peixe olhou para mim [o povo yudjá e a
perspectiva]. São Paulo: Editora Unesp/ NuTI, 2005).
[26] Ver Déléage, op. cit., e Colpron, Anne-Marie. Dichotomies sexuelles dans
l'étude du chamanisme: le contre-exemple des femmes "chamanes" shipibo-conibo
(Amazonie péruvienne). Montreal: thèse de doctorat, Université de Montreal,
2004.
[27] Kopenawa, Davi Yanomami. "Xapiripë". In: Albert, B. e Kopenawa, D. (orgs).
Yanomami, o espírito da floresta. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do
Brasil/Fondation Cartier, 2004.
[28] Viveiros de Castro, A inconstância da alma selvagem, op. cit.
[29] Para o caso kaxinawá, ver Deshayes, Patrick e Keifenheim, Barbara. Penser
l'Autre chez les Huni Kuin del'Amazonie. Paris: L'Harmattan, 1994; e para os matis e uma análise comparativa, ver Erikson, Philippe. La
griffe des aïeux. Paris: Peeters, 1996.
[30] Ver, por exemplo, Vilaça, Aparecida. "Devenir autre: chamanisme et contact
interethnique en Amazonie brésilienne". Journal de la Societé des
Americanistes, v. 85, 1999, pp. 239-60. Para estudos sobre a
relação entre natureza, cultura e as ontologias ameríndias, ver Viveiros de
Castro, A inconstância da alma selvagem, op. cit., e Philippe Descola, La
nature domestique: symbolisme et praxis dans l' écologie des Achuar. Paris:
Maison des Sciences de l'Homme, 1986; "Societies of nature
and the nature of society". In: Kuper, A. (org.). Conceptualizing society.
Londres: Routledge, 1992, pp. 107-26; e Par-delà nature et
culture. Paris: Gallimard, 2005.
[31] Cristiane Lasmar e outros ("Exclusão sociocultural pode ter levado jovens
ao suicídio em São Gabriel". In: Ricardo, B. e Ricardo, F. [orgs]. Povos
indígenas no Brasil. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2006, p. 243)
observaram como o estabelecimento de populaç ões indígenas na
região de São Gabriel da Cachoeira (AM) não implica uma uniformização das
práticas econômicas, mas, pelo contrário, uma reinvenção das situações urbanas
a partir das técnicas de subsistência da floresta. Escapa aos propósitos do
presente artigo examinar com mais detalhes as estratégias econômicas e
políticas envolvidas no trânsito entre aldeia e cidade. Para uma análise de tal
questão e das relações de gênero no Alto Rio Negro, ver Lasmar, Cristiane. De
volta ao lago de leite: gênero e transformação no Alto Rio Negro. São Paulo:
Editora da Unesp/NuTI/ ISA, 2005; para as reconfigurações
políticas, simbólicas e espaciais na passagem entre maloca e aldeia entre os
makuna, ver Arhem, Kaj. "From longhouse to village: structure and change in the
Colombian Amazon". In: Rival, L. e Whitehead, N. (orgs.). Beyond the visible
and the material. Oxford: Oxford University Press, 2001, pp. 123-55.
[32] Ver Viveiros de Castro, "Etnologia brasileira", para uma crítica da noção
de aculturação. In: Miceli, S. (org.). O que ler na ciência social brasileira
(1970-1995). São Paulo: Sumaré/Anpocs, vol 1: 109-223.
[33] Os xamãs kechitxo (ou shõikiya) atuam sobretudo por intermédio de
espíritos auxiliares e dos cantos de cura shõki. Seus duplos (vaká) não saem de
seus corpos para realizar viagens pelo cosmos, tal como no caso dos xamãs
romeya.
[34] Ver Carneiro da Cunha, "Pontos de vista sobre a floresta amazônica:
xamanismo e tradução", op. cit.
[35] Lauro faz referência a um episódio do canto-mito Wenía de que falamos
páginas acima.
[36] Como é comum nas oratórias ameríndias, Lauro cita/imita a fala dos brancos
e, em seguida, a sua própria. As reiterações são uma marca especial de seu
estilo.
[37] Uma versão mais longa deste depoimento foi publicada em Marubo, Lauro
Kene. "É tudo pensamento de pajé", trad. e edição Pedro Cesarino. In: Ricardo
B. e Ricardo, F. (orgs.). Povos indígenas no Brasil, op. cit., pp. 34-37.
[38] Ver Cesarino, Pedro e Welper, Elena. "Epidemias produzem caos social entre
os marubo". In: Ricardo B. e Ricardo, F. (orgs.). Povos indígenas no Brasil,
op. cit., pp. 449-52.
[39] Op. cit.
[40] Ver Erikson, La griffe des aïeux, op. cit.
[41] Ver Cesarino, op. cit.
[42] O fenômeno parece estar relacionado à pessoa cindida ou partida ameríndia:
o duplo e a pessoa se ignoram, muito embora afetem-se mutuamente (ver Viveiros
de Castro, Araweté, os deuses canibais, op. cit; Lima, Um peixe olhou para
mim..., op. cit.; Vilaça, Aparecida. Quem somos nós: questões de alteridade no
encontro dos wari' com os brancos. Rio de Janeiro: tese de doutorado, Museu
Nacional/PPGAS/UFRJ, 1996; e, para os kaxinawá e o suicídio,
ver Keifenheim, Barbara. "Suicide à là kashinawa: le désir de l'au-delà ou la
séduction olfactive et auditive par les esprits des morts". Journal de la
Societé des Americanistes, v. 88, 2002, pp. 91-110, p. 101).
[43] Kopenawa, "Pensamentos noturnos", trad. Bruce Albert. In: Ricardo, B. e
Ricardo, F. (orgs.). Povos indígenas no Brasil, op. cit., p. 21.
[44] Ver Cesarino, op. cit.; Déléage, op. cit.; Townsley, Graham. "Song paths:
the ways and means of yaminawa shamanic knowledge". L'Homme vols. 126-128,
1993, pp. 449-68.
[45] Viveiros de Castro, "Perspectival anthropology and the method of
controlled equivocation". Tipiti, v. 2, nº 2, 2004, pp. 3-23.
[46] Não posso aqui aprofundar as conexões da antropologia política com a
etnologia e o tema das cidades, muito embora sejam certamente férteis. O leitor
interessado deve se reportar aos trabalhos de Pierre Clastres (La société
contre l'état. Paris: Les Étidions de Minuit, 1974 [ ed. bras.
A sociedade contra o Estado. São Paulo: CosacNaify, 2007]), Santos-Granero
(Santos Granero, Fernando. "Power, ideology and the ritual of production in
Lowland South America". Man (N.S.), v. 21, nº 4, 1986, pp. 657-79. ), Descola ("La chefferie amérindienne dans l'anthropologie
politique". Revue Française de Science Politique, v. 38, nº 5, 1988, pp. 818-
27), Sztutman (op. cit.) e Viveiros de Castro (A inconstância
da alma selvagem, op. cit., e "Filiação intensiva e aliança demoníaca". Novos
Estudos, nº 77, 2007, pp. 91-126), entre outros.
[47] Viveiros de Castro, "Filiação intensiva e aliança demoníaca", op. cit., p.
47.
[48] Tal ponto, vale frisar, não constitui um argumento para a defesa de
demarcações descontínuas de áreas indígenas, mesmo no caso limite de populações
historicamente mais próximas de grandes centros urbanos e áreas de intensa
exploração econômica: "Em suma, o índio aldeado, o índio que foi 'misturado',
que os missionários e bandeirantes desceram, não pode ser culpado de ter
perdido suas referências territoriais originais. Essas comunidades vão deixar
de ser indígenas porque seus membros foram trazidos à força de regiões
diferentes? - 'Bem... desculpem, mas os jesuítas misturaram vocês com índios de
todos os lugares'. - 'E daí (responde o índio), a culpa é minha? Eu vou ser
punido por causa disso? Quero minha terra de volta. Mas já tem muito branco, há
muito tempo, nessa terra? Então vamos negociar.' A antiguidade da
expropriação não a faz deixar de sê-lo. O único prazo de validade é a memória"
(ibidem, p. 48).