Identidade e estratégia na formação do movimento ambientalista brasileiro
Em julho de 1982, às margens das cataratas de Foz do Iguaçu, em Guaíra, 3 mil
pessoas participaram de um quarup em protesto contra a construção da
hidrelétrica de Itaipu, que ameaçava o Parque Nacional de Sete Quedas: "Ao som
melancólico e compassado de um tambor, levando uma muda de árvore e uma
bandeira branca com uma pétala ao centro, em forma de lágrima, além da faixa
'Sete Quedas Viverá', os manifestantes fizeram sete paradas durante o
percurso"2. Organizado por uma coalizão de pequenos grupos ambientalistas de
diversas regiões do país, o Quarup Adeus Sete-Quedas incluiu atos políticos e
culturais ao longo de três dias.
Itaipu era uma das obras magnas do plano desenvolvimentista levado a cabo pelos
governos militares. Ao contestá-la, os ativistas ambientalistas contestavam, em
decorrência, o próprio regime autoritário. O episódio revela, pois, a conexão
do movimento ambientalista em suas origens com o movimento pela
Redemocratização. Embora essa característica seja saliente em vários eventos
contemporâneos ao Adeus Sete Quedas, a vasta literatura sobre movimentos
sociais que se constituiu no Brasil durante o ciclo de protestos da
Redemocratização, inspirada no marxismo, privilegiou os movimentos populares e
deu pouca atenção ao ativismo ambientalista, mais restrito à classe média. O
processo de formação e a dinâmica interna do movimento ambientalista brasileiro
motivaram poucas análises sistemáticas, restringindo-se, na maior parte, a
estudos de caso3.
Assim como as mobilizações coletivas estimularam a proliferação dos estudos, o
arrefecimento delas, concluída a Redemocratização, esvaziou essa agenda de
pesquisa. Na verdade, a institucionalização de vários movimentos sociais, sob
forma de associações formais ou de partidos políticos, foi interpretada
negativamente por boa parte da literatura, como sinal de desmobilização ou
cooptação. Esse juízo foi contrastado, na virada dos anos 1980 para os 1990,
por estudos que demonstraram que o aparente declínio dos movimentos sociais
podia ser explicado pela dinâmica de sua interação com o Estado e pelos dilemas
daí decorrentes acerca de estratégias, ou então pelo próprio caráter fluido dos
movimentos, com os picos e baixas de mobilização, típico dos ciclos de
protesto4.
Contudo, nos anos 1990, a literatura não seguiu essas pistas. Com a crise do
marxismo e a incorporação da Teoria dos Novos Movimentos Sociais, as análises
se deslocaram dos movimentos sociais populares para movimentos "pós-materiais",
vistos como os novos agentes coletivos da mudança social e política. Ganhou
relevo a dimensão cultural e simbólica das mobilizações, sobretudo a formação
de identidades coletivas5. Foi então que a questão ambiental vingou como objeto
de estudos no Brasil conjugada a temas como mulheres, negros e homossexuais.
Entretanto, simultaneamente, sob a égide de reformulações dos conceitos de
"sociedade civil" e de "esfera pública", os próprios estudos sobre movimentos
sociais perderam fôlego, sendo substituídos por análises sobre o associativismo
e a participação da sociedade civil em fóruns deliberativos e na prestação de
serviços ao Estado6. As análises sobre a questão ambiental seguiram esse rumo7,
deixando de lado o problema da constituição de um movimento social
ambientalista.
É justamente essa questão que motiva este artigo. Procuramos reconstituir o
processo de formação do movimento ambientalista brasileiro seguindo a tendência
de combinação das duas principais tradições de explicação na área, a Teoria dos
Novos Movimentos Sociais e a Teoria do Processo Político, patente na literatura
internacional dos anos 19908. Em consonância, atentaremos aqui tanto para as
dimensões materiais e estratégicas, ressaltadas pela Teoria do Processo
Político isto é, as estruturas de oportunidades políticas nas quais grupos
ambientalistas se configuraram e em vista das quais adotaram determinadas
estratégias de mobilização , quanto para as dimensões simbólicas enfatizadas
pela Teoria dos Novos Movimentos Sociais como os contextos de
micromobilização nos quais identidades coletivas foram construídas e frames,
isto é, as interpretações da questão ambiental, foram gerados pelos ativistas.
A partir dessa embocadura, argumentamos que ao longo de três estruturas de
oportunidades políticas o processo de Redemocratização, a Assembléia
Constituinte e a Rio-92 grupos de ativistas ambientalistas se formaram
autonomamente e enfrentaram dilemas comuns relativos a seus frames e
estratégias de mobilização. Ao longo delas, a articulação estratégica e
simbólica entre tais grupos produziu uma rede de ativismo autonomeada
"movimento ambientalista brasileiro"9.
A FORMAÇÃO DOS GRUPOS AMBIENTALISTAS (1970-85)
A ESTRUTURA DE OPORTUNIDADES POLÍTICAS DA REDEMOCRATIZAÇÃO A Teoria do processo
Político salienta que movimentos sociais surgem tipicamente quando mudanças nas
oportunidades políticas, isto é, nas dimensões formais e informais do ambiente
político, aumentam as possibilidades para grupos sociais se mobilizarem,
abrindo ou criando novos canais para expressão de reivindicações10. Isso pode
ocorrer de três maneiras11. Primeiro, pelo aumento de permeabilidade das
instituições políticas e administrativas às reivindicações da sociedade civil,
provocadas por crises na coalizão política no poder. Segundo, por mudanças no
estilo de interações políticas entre o Estado e os movimentos sociais,
especialmente a redução da repressão a mobilizações. Terceiro, pela presença de
aliados potenciais, como movimentos sociais, partidos políticos, mídia e elites
dissidentes. Tais fatores aumentam as possibilidades de os grupos sociais
insatisfeitos expressarem suas demandas na arena pública.
No caso brasileiro, uma mudança na estrutura de oportunidades políticas (EOP)
aconteceu com o início do processo de Redemocratização. As possibilidades de
mobilização coletiva se expandiram na segunda metade dos anos 1970, quando
eclodiu uma crise interna à coalizão que dirigia o regime. Vias de mobilização
política foram abertas. As formas de expressão política foram liberalizadas em
1978 e a censura prévia aos meios de comunicação foi reduzida. No ano seguinte,
a Anistia e a extinção do bipartidarismo propiciaram a diversificação de
lideranças e a partidarização de movimentos sociais antes albergados ou
simpáticos ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB)12. A Abertura culminou na
seqüência de vitórias do MDB nas eleições para o Legislativo, executivos locais
e governos de estado, em 1974, 1978 e 1982. Esse êxito constituiu um efeito
demonstração para mobilizações de vários setores da sociedade civil
operários, profissionais liberais de classe média, funcionários públicos,
moradores da periferia dos centros urbanos , constituindo um ciclo de
protesto13.
Quatro dimensões dessa nova estrutura de oportunidades políticas são decisivas
para entender a emergência de protestos ambientais no Brasil. Primeiro, a
Abertura significou um amainamento da repressão aos protestos sociais em geral.
Segundo, os ativistas ambientalistas podiam contar com aliados em outros
movimentos sociais, bem como na Igreja Católica e na Ordem dos Advogados do
Brasil (OAB), apoiadores potenciais dos protestos contra o regime autoritário
em fins dos anos 1970. Terceiro, as instituições políticas e administrativas se
tornaram mais permeáveis às demandas da sociedade civil. Desde 1973, com a
criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente, o aparato burocrático-legal
ambiental foi sendo incrementado com a criação de órgãos e legislação
específica, fornecendo aos ativistas novos espaços políticos e novas estruturas
de mobilização para veicular suas reivindicações. Por fim, durante a
Redemocratização, estava em constituição uma agenda ambientalista
internacional. A Conferência de Estocolmo, reunião da ONU sobre meio ambiente e
desenvolvimento em 1972, abriu a discussão pública nacional sobre a questão
ambiental no Brasil. Além disso, associações ambientalistas internacionais e
partidos verdes nacionais recém-formados ofereciam novos modelos
organizacionais e estratégias de mobilização.
Em conjunto, as dimensões da estrutura de oportunidades políticas da
Redemocratização geraram as condições para a constituição dos grupos
ambientalistas que darão a espinha dorsal do movimento brasileiro nos anos
1980.
CONTEXTOS DE MICROMOBILIZAÇÃO E A FORMAÇÃO DE IDENTIDADES COLETIVAS Embora se
possam descrever todos os grupos ambientalistas brasileiros surgidos no Brasil
dos anos 1970 e 1980 como membros das "classes médias", como fez Antuniassi, a
extração social comum não é suficiente para caracterizá-los. Boa parte das
mobilizações políticas do período contava com ativistas oriundos das classes
médias. A variação entre os grupos se deve mais aos distintos "contextos de
micromobilização" nos quais se formaram. Isto é, a microcontextos de interação
social, tais como instituições profissionais, grupos culturais e redes de
amizade, nos quais cidadãos comuns se convertem em ativistas ambientalistas. A
conexão entre ativistas é, antes de mais nada, uma interação sociocultural e
pessoal, por meio da qual interpretações comuns, laços afetivos, lealdades
comunitárias e o sentimento de pertencimento a grupos se constroem14. Nesse
processo, emergem identidades coletivas, isto é, "percepções de distinção,
fronteiras e interesses de grupo, alguma coisa próxima a uma comunidade"15.
Diferentes gêneros de experiência social e política conferem, portanto, feições
particulares a cada grupo e definem distintos estilos de ativismo. No nosso
caso, identidades ambientalistas emergiram a partir de quatro contextos de
micromobilização.
Nas origens do ativismo ambientalista no Brasil está um grupo de perfil
estritamente conservacionista: a Fundação Brasileira para Conservação da
Natureza (FBCN), fundada em 1958 no Rio de Janeiro. Seus membros eram,
sobretudo, engenheiros agrônomos e cientistas naturais, trabalhando na
burocracia estatal e envolvidos com a questão ambiental por razões
profissionais. A situação de funcionários públicos dos membros da FBCN deu-lhe
desde sempre a feição de um grupo de interesse, procurando influir diretamente
sobre as decisões de Estado, por meio de lobby, em detrimento de mobilizações
públicas. Antes e durante o regime autoritário, essa estratégia foi bem-
sucedida: a FBCN influenciou a criação de leis, órgãos e políticas ambientais e
seus membros ascenderam aos cargos de direção na área16. Nesse sentido, a
trajetória de seus membros se confunde com a montagem da própria burocracia
ambiental brasileira, dando à FBCN um caráter paraestatal até a década de 1970.
Ao longo dos anos 1970 foram surgindo grupos que começaram a dar conotações
mais políticas à questão ambiental.
A Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), fundada em 1971,
em Porto Alegre, é, na origem, muito similar à FBCN. Também formada por
pesquisadores de ciências naturais com interesse profissional no tema e muitos
deles com contato prévio com associações conservacionistas locais. Como a FBCN,
a Agapan se engajou na constituição da burocracia ambiental, influenciando a
formulação de legislação e a implementação de políticas públicas ambientais,
mas em nível estadual17. Todavia, a Agapan se diferenciava da FBCN no uso de
estratégias de mobilização, especialmente campanhas de difusão de informação,
palestras e formas simbólicas de manifestação. Por meio delas, a Agapan atraiu
jovens ativistas da seara estudantil e foi progressivamente se aproximando do
movimento pela Redemocratização.
O Movimento Arte e Pensamento Ecológico (Mape) surgiu em São Paulo, em 1973,
formado por artistas plásticos, escritores e jornalistas vinculados aos
movimentos contra-culturais e preocupados com a poluição urbana. O Mape se
apropriou de estratégias expressivas e simbólicas dos novos movimentos sociais
europeus e recorreu especialmente à linguagem artística como forma de
expressão, organizando vernissages, happenings literários e atos lúdicos. O
perfil de seus membros, sem expertise técnica na área, fez com que o Mape se
mantivesse distante dos cargos públicos ambientais e se voltasse mais
intensamente para a sociedade civil, inclusive para a mobilização em prol da
Redemocratização.
Também em São Paulo se formou a Associação Paulista de Proteção Natural (APPN),
em 1976, tendo por membros profissionais liberais e pequenos empresários, com
experiência associativa ou política anterior. A APPN nasceu como um protesto
comunitário, reativo, contra uma obra governamental que impactava a área de
residência de vários de seus ativistas: a construção de um aeroporto
internacional na região sudoeste da Grande São Paulo. Por meio de estratégias
de mobilização convencionais, como abaixo-assinados, a APPN mobilizou moradores
da área potencialmente afetada e, como a Universidade de São Paulo (USP) estava
ali situada, professores universitários de esquerda, que estabeleceram uma
conexão com o MDB18. Assim, o protesto local ganhou uma nacionalização não-
intencional, sendo encampado pelo movimento pela Redemocratização. Nesse
sentido, a APPN sedimentou o vínculo, até então tênue, entre o ativismo
ambientalista e os protestos políticos contra o governo autoritário.
Em cada um desses contextos de micromobilização, indivíduos isolados se
constituíram como pequenos grupos de ativistas ambientais e emergiram
diferentes gêneros de identidades coletivas como "ambientalistas"19: os
técnicos, baseados em vínculos profissionais entre cientistas naturais, já
incorporados à burocracia de Estado por profissão, e os políticos, de formação
humanística e conectados com o movimento pela Redemocratização.
FRAMES AMBIENTALISTAS Vários analistas dos movimentos sociais ressaltam que
toda ação coletiva depende das habilidades dos ativistas de construir
interpretações acerca da conjuntura em que estão imersos e, por meio delas,
transformar descontentamento em mobilização. "Frames" são esses instrumentos
cognitivos e guias para a ação que permitem aos ativistas questionar uma dada
situação social antes não problemática, atribuir responsabilidade a grupos ou
autoridades por tal estado de coisas e apresentar estratégias para alterá-lo20.
Há dois frames típicos do ativismo ambientalista, segundo Diani. O
"conservacionista" define o meio ambiente exclusivamente como mundo natural
selvagem, vendo qualquer intervenção nele como questão técnica, restrita aos
cientistas naturais. Já o frame "ecologia política" inclui o mundo urbano na
definição do problema ambiental. As causas da degradação ambiental são
atribuídas ao desenvolvimento capitalista e ao estilo de vida moderno. Daí se
deriva uma crítica sociocultural à sociedade capitalista, jogando a discussão
sobre meio ambiente para dentro da arena política.
O movimento ambientalista brasileiro obedece a essa disjuntiva. As variações de
experiência e de percepções da EOP sobre a Redemocratização levaram os grupos
de ativistas ambientalistas a desenvolver dois frames distintos: um
conservacionista, outro socioambientalista.
A FBCN havia difundido no Brasil o conservacionismo clássico. No conteúdo,
adotou uma visão biocêntrica da relação sociedade-natureza. O meio ambiente
seria a natureza selvagem, a ser preservada da ação deletéria dos grupos
sociais por meio de parques nacionais e reservas ambientais. Na forma, o
discurso é cientificista: os especialistas das ciências naturais seriam
autoridades incontestáveis na definição de problemas e de políticas ambientais.
Dos dois ângulos, o conservacionismo segrega a questão ambiental de qualquer
dimensão social e a apresenta como apolítica21. Embora a EOP da
Redemocratização e mudanças de conjuntura internacional tenham constrangido a
FBCN a incorporar em seu discurso o "manejo" de recursos naturais em áreas
florestais já habitadas por populações tradicionais, o cerne de seu
conservacionismo pouco se alterou, mantendo seu epicentro na preservação da
fauna e da flora.
O socioambientalismo apenas emergiu com o processo de Redemocratização, adotado
por praticamente todas as associações formadas nos anos 1970. Nesse frame, a
definição do problema ambiental passa das ciências naturais para as humanas,
com ênfase na relação entre processos sociais e naturais. O humanismo da
contracultura é incorporado, sob a forma de demanda por uma "ética
ecológica"22. A própria idéia de meio ambiente é redefinida como relação entre
grupos sociais e recursos naturais. Essas dimensões sociais foram incorporadas
de diferentes maneiras pelos ativistas brasileiros. A Agapan enfatizava
questões rurais, como os agrotóxicos, enquanto o Mape criticava a degradação
causada pela expansão da sociedade de consumo23 e a APPN a associava ao "modelo
brasileiro de desenvolvimento"24. Nesses dois últimos sentidos, o discurso
ambiental incorporou a crítica ao processo de industrialização em curso no país
nos anos 1970 e demandou alterações no estilo de vida urbano-industrial. Assim,
o novo frame associou fortemente os problemas ambientais com causas políticas e
econômicas. Por isso, o chamamos aqui de sociambientalismo.
Os dois frames, o conservacionista e o socioambientalista, passaram desde então
a conviver em concorrência. O fato de um ou outro ganhar ascendência em cada
uma das fases de formação do movimento ambientalista brasileiro dependeu dos
itens sob debate na agenda pública e da habilidade dos ativistas de vinculá-los
às diferentes estruturas de oportunidades políticas.
A FORMAÇÃO DO MOVIMENTO AMBIENTALISTA BRASILEIRO
Ao reunir ativistas e construir identidades peculiares, os grupos
ambientalistas formados ao longo dos anos 1970 fizeram parte do trabalho de
construção de um movimento ambientalista no Brasil. Entretanto, o processo só
pôde se completar quando os grupos se coordenaram entre si e uma ação
efetivamente coletiva surgiu. Isso porque um movimento social não é um mero
conjunto de ativistas, mas "redes de interação informal entre uma pluralidade
de indivíduos, grupos e/ou organizações, engajados em conflitos políticos ou
culturais, com base em identidades coletivas compartilhadas"25. Os grupos
seguem suas próprias rotinas de mobilização, interagindo intensivamente entre
si em momentos nos quais questões cruciais adentram a agenda pública. Em EOPs
peculiares, desafios apresentados por oponentes ou oportunidades excepcionais
para introduzir itens na agenda pública fortalecem os laços entre grupos e uma
mobilização conjunta acontece. Nas EOPs em que vários grupos se organizam para
expressar publicamente seus descontentamentos, um ciclo de protestos se
configura26.
Para efetivamente se constituir como um movimento social, os grupos
ambientalistas brasileiros, até então independentes, tiveram de resolver três
sucessivos problemas de coordenação de sua ação coletiva: criar uma rede
conectando-se entre si; definir estratégias de mobilização e desenvolver um
frame comum. Cada um desses problemas foi resolvido em meio a três distintas
estruturas de oportunidades políticas: o processo de Redemocratização, a
Constituinte e Rio-92. Em cada uma delas, ciclos de protesto surgiram e os
grupos ambientalistas tiveram de definir um conjunto mínimo de padrões de
formas de pensar e agir comuns.
CICLO DE PROTESTOS PELA REDEMOCRATIZAÇÃO As primeiras coalizões entre grupos
ambientalistas brasileiros se constituíram em fins dos anos 1970. Uma
incipiente rede ambientalista surgiu sob a forma de campanhas conjuntas em
torno de temas com possibilidade de engate no debate público mais amplo. O
frame socioambientalista, ao atribuir as causas dos problemas ambientais ao
"modelo brasileiro de desenvolvimento" implementado pelo regime autoritário,
conectou imediatamente as mobilizações ambientalistas com a campanha pela
Redemocratização.
Esse foi o caso da Campanha em Defesa da Amazônia, no final de 1978, em
oposição aos planos do governo federal de realizar contratos de exploração da
Floresta Amazônica com empresas internacionais. Liderada pela APPN, e
vinculando também à Agapan e ao Mape, a campanha ganhou o apoio do MDB e se
transformou em Movimento em Defesa da Amazônia, abrangendo dezoito estados e o
Distrito Federal27. A outra grande coalizão no mesmo estilo foi a Campanha
contra a Utilização de Energia Nuclear, pouco mais tarde, em 1980, nas quais se
engajaram as mesmas associações da campanha anterior, adensadas agora de
associações ambientalistas menores recém-surgidas como a Oikos (1982) e o
Grupo Seiva de Ecologia (1980). O assunto atraiu um espectro maior de aliados
dentre os membros do movimento pela Redemocratização: movimento estudantil,
movimentos sociais populares, movimentos culturais, cientistas, políticos,
artistas e religiosos28. A terceira campanha de articulação do movimento foi o
Adeus Sete Quedas, em 1982, contra a hidrelétrica de Itaipu. Liderada pelo
Mape, a mobilização incluiu a Agapan, a APPN e outras associações menores, como
a Seiva de Ecologia, e o Coletivo Verde (1985), formado por ex-exilados
políticos influenciados pela contracultura.
Em todas essas campanhas, a existência de aliados na arena social e na política
favoreceu as primeiras conexões relativamente estáveis entre grupos antes
autônomos, configurando uma rede de ativismo ambiental. Essas mobilizações
tanto motivaram a formação de novas associações ambientalistas29 quanto
suscitaram um debate em torno do melhor formato organizacional para a coalizão
emergente.
O Mape propôs uma federação ambientalista nacional, articulando as várias
pequenas associações ambientalistas. Assim surgiu a Assembléia Permanente de
Defesa do Meio Ambiente de São Paulo (Apedema), em 1983, visando manter o
ativismo no plano da sociedade civil. Já a APPN investiu em aprofundar a
articulação da rede de associações ambientalistas com o MDB. Todavia, os
conflitos internos em torno da partidarização da questão ambiental acabaram por
cindir a associação em pequenos grupos. A Agapan, por sua vez, procurou
projetar seu principal ativista, José Lutzenberg, à condição de liderança
nacional. Essa estratégia acabou sendo a mais bem-sucedida. Isso porque a
Agapan, no frame e nas estratégias de ação, era transversal ao movimento,
abarcando em seu discurso todo o espectro temático do movimento, desde o
conservacionismo da FBCN, até temas urbanos e contraculturais, e todas as
estratégias de mobilização, desde os lobbies e acesso à burocracia do Estado
dos conservacionistas até manifestações públicas e lúdicas, preferidas pelos
demais grupos. Por essas razões, a Agapan adquiriu centralidade na rede do
ativismo ambientalista da década de 1970 e Lutzenberg tornou-se o broker entre
a tradição conservacionista e os novos grupos socioambientalistas.
Assim, em meados dos anos 1980, estava configurada a primeira coalizão estável
entre grupos de ativistas. As campanhas conjuntas indicam o estabelecimento de
um campo ambiental, com liderança e agenda própria. Além disso, havia agora um
frame dominante. O conservacionismo da FBCN ficou na sombra. A agenda da
Redemocratização ajudou a consolidar a abordagem politizada da questão
ambiental: o socioambientalismo.
CICLO DE PROTESTOS DA CONSTITUINTE O período final da Redemocratização
configura a segunda EOP relevante para a formação do movimento ambientalista
brasileiro. Se na EOP anterior apenas coalizões tópicas em torno de temas
específicos nos permitem falar de um movimento ambientalista, a perspectiva de
uma Constituinte impôs a formação de coalizões mais estáveis, como forma de
incluir temas ambientais na nova Constituição.
Por não serem instituições, movimentos sociais precisam inventar ou se
apropriar de organizações e canais de elocução para levar a cabo sua expressão
coletiva. Essas "estratégias de mobilização" incluem desde bases mais estáveis
para o ativismo, como as associações, partidos, sindicatos e instituições
públicas, até estratégias informais, como eventos de protesto, redes e
campanhas30. A nova estrutura de oportunidades políticas colocou como problema
de ação coletiva, para a recém-constituída rede ambientalista, a definição da
estratégia de mobilização mais adequada para inserir a temática ambiental na
agenda política. Isso porque o processo de Redemocratização culminara em
eleições gerais para uma Assembléia Constituinte, abrindo para o movimento a
escolha entre manter as mobilizações no plano da sociedade civil ou organizar
um partido próprio e ingressar na arena institucional, como vinham fazendo
vários movimentos sociais.
No momento de convocação de uma Constituinte, coalizões entre os grupos
ambientalistas se formaram em torno de diferentes estratégias. Primeiro, a
desmobilização que acompanhou o fim da transição democrática levou parte dos
ativistas ambientalistas a converter seus grupos de protesto em associações
profissionalizadas, com atuação especializada. A SOS Mata Atlântica se
constituiu em 1986 sob essa égide, combinando ativistas de agrupamentos
anteriores, como a APPN e a FBCN, com grupos empresariais até então alheios à
questão ambiental. Esse perfil mais especializado fez com que a SOS, assim como
a FBCN, a Agapan e outras associações conservacionistas recém-constituídas,
preferissem restringir sua relação com as instituições políticas ao lobby ou
apoio a candidaturas de qualquer partido que encampasse propostas verdes. Já os
grupos voltados para mudanças no estilo de vida, como o Mape e a Seiva de
Ecologia, preferiam manter manifestações no âmbito da sociedade civil e lançar
candidaturas avulsas de ativistas ou de simpatizantes do movimento
ambientalista, sem vinculação com nenhum partido. A terceira possibilidade era
lançar ou apoiar candidaturas dentro dos partidos de esquerda já organizados. A
Oikos, uma dissidência da APPN, investiu nessa alternativa. A quarta via, nunca
antes aventada, era formar partido próprio como canal de representação política
do movimento ambientalista. O Coletivo Verde, no Rio, uma facção do Mape e
grupos menores do ABC paulista e de Santa Catarina, eram favoráveis a um
partido verde.
Nem todas essas alternativas se mostraram viáveis, porém. No final de 1985,
definiu-se que as candidaturas à Constituinte só poderiam ser partidárias.
Assim, a perspectiva de participar diretamente do processo constituinte, sem
aval de um partido, desaparecia. Os ambientalistas então se dividiram diante
das alternativas remanescentes. A coalizão liderada pelo Coletivo Verde
encaminhou a criação do Partido Verde, em janeiro de 1986, reunindo ativistas
isolados de pequenas associações, especialmente do Rio de Janeiro. A partir daí
o PV liderou uma pequena coalizão, que lançou candidaturas próprias. Em
contrapartida, outra coalizão se formou em torno da estratégia de apoiar
candidaturas de diferentes partidos, desde que comprometidos com uma agenda
ambiental mínima, composta pela agregação de temas socioambientalistas e
conservacionistas, com pitadas de contracultura, numa "Lista Verde"31. Assim,
no início de 1986, formou-se a primeira tentativa de formalização de uma rede
ambientalista nacional, a Coordenação Interestadual Ecológica para a Assembléia
Constituinte (CIEC).
Foi esta a estratégia mais bem-sucedida. Fábio Feldman, principal ativista da
Oikos e defensor da Lista Verde, foi o único candidato apoiado pelo movimento a
se eleger. Mesmo numa arena eminentemente institucional, como o Parlamento, as
associações sobrepujaram o partido como forma mais eficaz de vocalização do
movimento. Nesse sentido, o processo eleitoral em torno da Constituinte
consolidou a estrutura associativa como forma mais eficiente de mobilização
ambientalista que a partidária.
Além disso, a Assembléia Nacional Constituinte abriu canais de influência para
movimentos sociais e grupos de interesse. A Constituinte funcionou, ao longo de
1987 e 1988, sem um projeto preliminar e com uma estrutura descentralizada de
subcomissões. Isso permitiu aos grupos sociais organizados pressionarem para a
criação de subcomissões sobre assuntos de suas pautas. A sociedade civil podia
também participar por meio de "Iniciativas Populares": 30 mil assinaturas
possibilitavam enviar uma emenda à Assembléia Constituinte diretamente, sem a
mediação de um deputado. Essas duas vias de participação no processo político
foram mobilizadas pelos ativistas ambientalistas. De um lado, as articulações
de Fábio Feldmann no parlamento resultaram na formação da subcomissão de Saúde,
Segurança Social e Meio Ambiente, sob jurisdição do Comitê de Ordem Social. De
outro lado, estratégias informais de mobilização, como abaixo-assinados, se
mostraram tão ou mais eficientes do que uma estrutura partidária própria, o
Partido Verde, como caminho para introdução de temas ambientalistas no debate:
os grupos ambientalistas conseguiram incluir 3 das 83 Iniciativas Populares
aceitas na Constituinte32.
Durante o funcionamento da subcomissão, Feldman se consolidou como um broker
entre as duas arenas de mobilização ambiental: a da sociedade civil e a da
negociação institucional no Congresso. Essa combinação de estratégias resultou
na proposição de um capítulo exclusivo sobre a questão ambiental na
Constituição.
Todavia, a influência de grupos organizados da sociedade civil na elaboração do
texto constitucional foi freada pela reação de um bloco de deputados e
senadores de partidos de centro e direita. O "Centrão" obstou a aprovação de
projetos de legislação à esquerda. Na área ambiental, bloqueou a proibição
total de uso da energia nuclear e a criminalização de condutas ambientalmente
incorretas.
Tais obstáculos levaram os grupos ambientalistas a convergirem, sedimentando
coalizões nacionais entre si e ampliando alianças para fora do movimento. Sob
liderança de Feldman, surgiu a Frente Nacional de Ação Ecológica, bloco
parlamentar de apoio às propostas ambientalistas, repetindo a estratégia
pragmática da Lista Verde33. A estratégia da Frente foi estimular a pressão
direta das associações ambientalistas sobre os parlamentares, promovendo
visitas a projetos de preservação e manejo ambiental. Assim, conseguiu apoio
para assegurar os pontos conservacionistas do capítulo sobre meio ambiente na
Constituição de 1988.
O ciclo de mobilização da Constituinte teve desdobramentos importantes para o
processo de formação do movimento ambientalista brasileiro.
Do ponto de vista das estratégias de mobilização, a Constituinte ratificou as
associações em detrimento do partido como principal maneira de coordenar a ação
coletiva ambientalista. O processo eleitoral e o bloqueio do Centrão
evidenciaram os limites da opção partidária do PV e, mesmo, de uma aliança
política exclusivamente à esquerda. Além disso, ao consolidar novos
instrumentos legais, como a ação civil pública, a Constituição abriu às
associações civis a oportunidade de encaminhar demandas diretamente às
instituições públicas, sem ter de recorrer a partidos. Finalmente, tendo sido
mais influentes como "ambientalistas" do que como políticos profissionais
durante a Constituinte, os ativistas vislumbraram o poder simbólico da
expertise técnico-científica que se tornou, daí por diante, sua maneira
preferencial de legitimar reivindicações na arena política.
Quanto aos frames de ação coletiva, a Constituinte começou com uma agregação
temática, com dominância socioambientalista, expressa na Lista Verde. Todavia,
as negociações lideradas pela Frente Nacional de Ação Ecológica deram relevo
aos temas conservacionistas, mais palatáveis para deputados não-ambientalistas,
basicamente a proteção a ecossistemas, que virou o cerne do capítulo sobre meio
ambiente na Constituição34.
Em suma, a EOP da Constituinte foi decisiva na formação do movimento
ambientalista na medida em que consolidou vínculos e compromissos entre grupos
de ativistas. A existência de um inimigo comum e a necessidade de encontrar
aliados forçaram os grupos a suplantar suas diferenças. Ao menos
momentaneamente, as identidades de grupo se esmaeceram em favor de uma
identidade comum. Foi o que lhes deu capacidade de influenciar na regulação
legal de questões ambientais na Constituição e sedimentou a aliança nacional de
grupos até então dispersos.
O CICLO DE PROTESTOS DA RIO-92 A decisão da Organização das Nações Unidas (ONU)
de sediar sua segunda Conferência Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento
no Brasil em 1992 alterou mais uma vez a estrutura de oportunidades políticas
para a rede de ativistas e se tornou evento decisivo na efetivação de um
movimento ambientalista brasileiro. A Rio-92 trouxe um novo problema de
coordenação da ação coletiva: a construção de um frame capaz de aglutinar os
grupos ambientalistas.
A EOP da Rio-92 era, em princípio, desfavorável aos grupos ambientalistas. A
vitória de Collor nas eleições presidenciais de 1989 fechara as agências
estatais aos grupos ambientalistas dos anos 1980, usualmente alinhados com a
esquerda. Sem acesso à burocracia ambiental e na vigência da normalidade
democrática, vários desses grupos desapareceram ou profissionalizaram suas
associações. De uma maneira ou de outra, distanciaram-se da arena política. O
governo Collor ainda tentou atraí-los, nomeando José Lutzenberger, o líder
ambientalista dos anos 1970, para a presidência da Secretaria Especial do Meio
Ambiente. Lutzenberger, porém, perdera o status da década anterior. Saíra da
Agapan e pouco se engajara nas mobilizações em torno da Constituinte, rompendo
assim suas conexões com os grupos antigos sem ter constituído relações com os
novos. Sem apoio do movimento e sem experiência partidária, não conseguiu se
sustentar na arena política: ficou à margem das decisões na preparação da
Conferência e abandonou o cargo antes de seu início.
O alijamento dos ativistas em relação ao governo nacional e o formato
"participativo" da Conferência incentivaram a rede ambientalista a outra vez
investir nas associações como forma de coordenação da ação coletiva e a buscar
aliados no âmbito da sociedade civil, e não no Estado.
Durante os preparativos para a Rio-92, as coalizões formadas na Constituinte
tentaram nova articulação nacional do movimento. A Frente Nacional de Ação
Ecológica, liderada pela SOS Mata Atlântica, rearticulou grupos
conservacionistas, enquanto o PV formou o movimento Pró-Rio 92, de feições
socioambientalistas, incluindo membros do PT, grupos comunitários locais,
movimentos sociais populares e, mesmo, setores do empresariado35.
Da mesma maneira que, na Constituinte, nenhuma das coalizões pôde se impor por
si mesma, dado o escopo limitado de seus frames, a Frente se circunscrevia à
seara conservacionista, enquanto o Pró-Rio não ultrapassava os limites do
socioambientalismo. Tais tônicas exclusivas não coadunavam com a agenda da ONU
para a Rio-92, sistematizada no Relatório Brundtland, que incluía ambas as
temáticas.
A agenda da Conferência, mais do que a simples agregação de temas
socioambientalistas e conservacionistas, propugnava uma nova maneira de definir
a questão ambiental. A noção de desenvolvimento sustentável, propondo novas
tecnologias para manejo racional dos recursos naturais, vinha apresentada como
forma de conciliar desenvolvimento e preservação ambiental. Já a idéia de
biodiversidade enfocava a manutenção do patrimônio genético de todas as formas
de vida, inclusive das populações humanas habitando áreas de preservação.
A nova estrutura de oportunidades políticas compeliu os grupos ambientalistas a
buscarem aliados para fora da rede estritamente ambientalista como meio de
complementar sua agenda.
A SOS Mata Atlântica adotou a estratégia mais consoante com a nova EOP ao
formar uma nova coalizão nacional com 1,1 mil associações, metade delas sem
ativismo prévio em questões ambientais36. Assim surgiu o Fórum Brasileiro de
ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, em 1990, o
centro aglutinador e principal estrutura de mobilização da rede ambientalista
durante a Rio-92.
A composição do Fórum pôs em questão a tônica conservacionista da agenda do
movimento resultante da Constituinte. Os movimentos sociais traziam agendas
marrons, criticando a desigualdade social, a distribuição iníqua dos impactos
ambientais e o modelo global de desenvolvimento econômico. Em alternativa,
propunham um novo padrão de modernização: o "desenvolvimento sustentável".
Assim, esses novos aliados contribuíam para um reavivamento do
socioambientalismo, reconectando a questão ambiental com a problemática do
desenvolvimento, no espírito do Relatório Brundtland.
Isso não significou, contudo, o retorno à dominância do frame
socioambientalista no interior da rede nacional. A nova coalizão era liderada
pela SOS Mata Atlântica, grupo a meio caminho entre o conservacionismo e o
socioambientalismo, que, como broker, orquestrou a convergência entre os dois
frames originalmente contrastantes.
De uma parte, o frame socioambientalista foi matizado, movendo-se em direção ao
conservacionismo. De fato, a noção de desenvolvimento sustentável
compatibilizou a defesa simultânea de proteção ambiental e de desenvolvimento
socioeconômico, visando a redistribuição de recursos. No entanto, embora a
dimensão macroeconômica dos problemas ambientais tenha permanecido, a ênfase na
questão urbana, típica do sociambientalismo dos anos 1970, se deslocou para as
condições de vida de grupos sociais vivendo em interação com o ambiente natural
no campo ou na floresta37.
De outra parte, o frame conservacionista foi redefinido com a substituição da
noção de ecossistema pela de biodiversidade. Por meio dela, a proteção do
habitat foi dilatada para incluir grupos sociais em interação com áreas
florestais, desde que com estilos de vida de "baixo impacto ambiental". Os
patrimônios genético e cultural de comunidades indígenas e de populações
tradicionais, como grupos extrativistas, tornaram-se objetos de preservação
ambiental. As florestas, tema típico do conservacionismo clássico, foram
revalorizadas como lócus da biodiversidade. Essa inclusão de dimensões não-
urbanas da pauta marrom diferenciou esse novo frame da tradição
conservacionista38.
Esse duplo processo de matizamento e conciliação gerou, pela primeira vez, um
frame comum a todo o movimento: o neoconservacionismo. A polissemia das noções
de desenvolvimento sustentável e de biodiversidade permitiu que grupos com
agendas em princípio divergentes pudessem dar tônica própria às mesmas
categorias. Abarcando as questões sociais, típicas da pauta marrom, e os temas
verdes da agenda global, o neoconservacionismo se tornou uma língua franca para
todos os grupos do movimento ambientalista, dos pioneiros dos anos 1970 aos
conversos em 1992. Portanto, o novo frame consolidou coalizões, até então
restritas a dimensões estratégicas, em torno de significados. O novo frame se
materializou na Agenda 21, documento resultante da Rio-92. Aí, itens da agenda
ambiental global, como proteção das florestas (cap. 11) e da diversidade
biológica (cap. 15), foram combinados a tópicas socioambientais, como a
capacitação de grupos socialmente vulneráveis para a obtenção de meios de
subsistência sustentáveis (cap. 3).
Para estabelecer-se, o neoconservacionismo teve de fazer dois expurgos na
agenda socioambiental dos anos 1970. A tônica política foi substituída por uma
abordagem técnica da questão ambiental, formulada por especialistas das
associações profissionais dos anos 1990. E o estilo de vida urbano deixou de
ser o foco do ativismo, como fica patente na concentração da atuação das
grandes associações ambientalistas dos anos 1990, SOS e Instituto
Socioambiental (ISA), em áreas florestais. Nesse sentido, o movimento
ambientalista brasileiro caminhou rumo a uma profissionalização e conseqüente
despolitização da questão ambiental - processo similar ao europeu39.
O outro impacto do ciclo de mobilização da Rio-92 sobre o movimento foi a
solidificação de uma nova estratégia de mobilização. As lideranças individuais
dos anos 1970 e 1980 foram substituídas por coalizões relativamente duradouras
entre associações. Essas redes de ativismo, policêntricas e horizontais, como a
Rede Mata Atlântica (1992), Aguapé - Pantanal, Rede de Educação Ambiental
(2002), Rede Cerrado de Ongs (1992) e o Grupo de Trabalho Amazônico (1992),
tornaram-se o meio preferencial de articulação do movimento e de expressão de
demandas nos anos 1990 em três sentidos: como base logística de grandes
campanhas temáticas; como meio de receber e gerir financiamentos governamentais
e internacionais; e como canal de lobby e pressão na formulação e implementação
de políticas públicas nacionais.
Com as redes, o ativismo ambientalista brasileiro pôde, simultaneamente,
ampliar seu raio de ação e se especializar em temas e áreas geográficas. Assim,
o movimento ganhou uma estrutura simultaneamente descentralizada e
institucionalizada.
A EOP da Rio-92 constituiu, portanto, a terceira etapa do processo de formação
do movimento ambientalista brasileiro. Nesse momento, resolveu-se o problema de
coordenação de significados entre grupos distintos, com a configuração de um
frame comum ao movimento um todo. Nesse sentido, sua resultante foi a
consolidação de um movimento ambientalista nacional.
CONCLUSÃO
Procuramos aqui explicar a formação do movimento ambientalista brasileiro
recorrendo a uma síntese conceitual entre a Teoria do Processo Político e a
Teoria dos Novos Movimentos Sociais, ainda pouco explorada nos estudos sobre os
movimentos sociais brasileiros e latino-americanos. Analisando articuladamente
as dimensões político-institucionais e as simbólicas intervenientes na
constituição de um movimento ambientalista no Brasil, argumentamos que ela se
explica por duas dinâmicas: a interação dos grupos de ativistas com as
estruturas de oportunidades políticas e a articulação deles entre si.
Do primeiro ângulo, três estruturas de oportunidades políticas foram decisivas.
A EOP da Redemocratização incentivou a organização de grupos de protestos na
sociedade civil, encaminhando a conversão de simpatizantes ambientalistas em
ativistas. Mas, para que esses grupos autônomos se convertessem em um
movimento, foi preciso que respondessem conjuntamente a questões relativas à
coordenação da ação coletiva suscitadas por duas outras EOPs. A Constituinte
compeliu os ativistas a escolherem entre diferentes estratégias de mobilização
disponíveis e os levou a convergirem para uma coalizão de associações, em vez
de um partido, como forma prioritária de apresentar suas reivindicações na
esfera pública. Já a Rio-92 impingiu à coalizão de associações a negociação de
um único frame, cujo significado pudesse ser compartilhado pelo movimento como
um todo. Assim, o conceito de EOP nos permitiu identificar os elementos
peculiares a cada uma das diferentes conjunturas que efetivamente influíram na
construção do que Jasper chamou uma "identidade de movimento".
De outra parte, a reconstrução dos contextos de micromobilização evidenciou que
os ativistas não se mobilizaram em torno da questão ambiental em função de sua
extração social, como argumentam as Teorias dos Novos Movimentos Sociais.
Diferentes gêneros de experiência social e política fomentaram identidades
coletivas ambientalistas. A articulação estratégica e simbólica entre esses
grupos autônomos de ativistas numa mesma rede de ativismo não foi automática,
como resultante da adesão a mesmos valores, como defende Viola. Negociações em
torno de significados e formas de ação foram cruciais para que a conexão se
viabilizasse. O próprio significado da "questão ambiental" foi continuamente
transformado pelos grupos de modo a facilitar alianças. Mudanças nos frames
foram requisitadas pelas estratégias dos agentes diante de cenários políticos
também cambiantes. Foi como adaptação a novas EOPs que os dois frames
inicialmente independentes socioambientalismo e conservacionismo
convergiram para o neoconservacionismo. Foi essa a interpretação da questão
ambiental mais passível de ser compartilhada por todos os ativistas
ambientalistas, viabilizando uma ampla aliança entre grupos. Essa conexão
dependeu ainda do recurso a mesmas estratégias de mobilização. O uso desse
conceito nos permitiu evidenciar conexões entre grupos ambientalistas tanto no
plano das formas duradouras de organização, como associações, partidos e redes,
quanto no nível mais frouxo das ligações eventuais em manifestações,
candidaturas eleitorais e lobbies. E, mais importante, evidenciou como mudanças
de estratégias estiveram concatenadas com mudanças nas EOPs, não sendo,
portanto, resultado da simples volição dos agentes.
Analisando a formação dos grupos e a negociação de frames e estratégias de
mobilização, procuramos mostrar como a resolução de sucessivos problemas de
coordenação da ação coletiva resultou numa identidade coletiva compartilhada.
Isso não significa o desaparecimento das diferenças e conflitos entre os
grupos, mas aponta seu sucesso em superar divergências rotineiras em EOPs
decisivas. Quando lograram se apresentar como uma coalizão robusta, os
ativistas conseguiram incluir a temática ambiental na agenda pública. Nesses
momentos, sedimentaram sua identidade como "movimento ambientalista
brasileiro".
[1] Este artigo é uma versão resumida de "The formation of the Brazilian
environmental movement", publicada no IDS Working Paper, n. 259, em novembro de
2005, e resulta do projeto Trajetórias dos Ativistas
Ambientalistas Brasileiros, desenvolvida no Cebrap entre abril de 2003 e
dezembro de 2004, no âmbito do Development Research Centre on Citizenship da
Universidade de Sussex, que junto com The William and Flora Hewlett Foundation
financiou a pesquisa. Agradecemos os comentários de Ian Scoones, Lisa Thompson
e Peter Houtzager e o auxílio de nossa assistente de pesquisa, Adriana dos
Santos.
[2] O Estado de S. Paulo, 25/7/1982.
[3] Caso, respectivamente, de Viola, Eduardo. "Movimento ecológico e
heterogeneidade política". Lua Nova, v. 3, n. 4, São Paulo, Cedec, abr.-jun.
1987, e de Antuniassi, Maria Helena. Movimento ambientalista
em São Paulo: análise sociológica de um movimento social urbano. São Paulo:
Ceru, 1989.
[4] Argumentos presentes, respectivamente, em Cardoso, Ruth. "A trajetória dos
movimentos sociais". In: Dagnino, Evelina (org.). Anos 90: política e sociedade
no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1994; Boschi, Renato Raul.
A arte da associação. Política de base e democracia no Brasil. Rio de Janeiro:
Iuperj, 1987, e Ottmann, Götz. "Movimentos sociais urbanos e
democracia no Brasil. Uma abordagem cognitiva". Novos Estudos Cebrap, n. 41,
mar 1995.
[5] Alvarez, Sônia, Dagnino, Evelina e Escobar, Arturo (orgs.). Cultura e
política nos movimentos sociais latino-americanos. Novas leituras. Belo
Horizonte: Editora UFMG, 2000.
[6] Por exemplo, Dagnino, Evelina (org.). Sociedade civil e espaços públicos no
Brasil. São Paulo: Paz e Terra, 1994.
[7] Alonso, Angela e Costa, Valeriano. "Ciências sociais e meio ambiente no
Brasil: um balanço bibliográfico". BIB - Revista Brasileira de Informações
Bibliográficas em Ciências Sociais, Anpocs, n. 53, 2002, pp. 35-78.
[8] Síntese formulada, por exemplo, por Diani, Mario. Green networks. A
structural analysis of the Italian environmental movement. Edimburgo: Edinburgh
University Press, 1995.
[9] A pesquisa consistiu em entrevistas diretivas com lideranças, coleta de
informações na imprensa diária e nos arquivos e sites de onze associações que
tomaram parte em campanhas e eventos de protesto ambiental no Brasil dos anos
1970 ao início dos 1990: FBCN (Fundação Brasileira para a Conservação da
Natureza), Agapan (Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural), Mape
(Movimento Arte e Pensamento Ecológico), APPN (Associação Paulista para
Proteção Natural), Oikos - Amigos da Terra, PV (Partido Verde), Funatura
(Fundação para Natureza), SOS Mata Atlântica, Greenpeace-Brasil, WWF-Brasil e
ISA (Instituto Socioambiental).
[10] Tarrow, Sidney. Power in movement - Social movements, collective action
and politics. Nova York: Cambridge University Press, 1998, p. 20.
[11] Kriesi, Hanspeter. New social movements in Western Europe. A comparative
analysis. Minneapolis: The University of Minnesota Press, 1995.
[12] Kinzo, Maria D. G. Oposição e autoritarismo. Gênese e trajetória do MDB,
1966-79. São Paulo: Idesp/Vértice, 1988; Sallum Jr., Brasílio.
Labirintos: dos generais à Nova República. São Paulo: Hucitec, 1996.
[13] Boschi, op. cit.
[14] Gamson, Willian. "The social psychology of collective action". In:
Mueller, Carol McClurg e Morris, Aldon D. (eds.). Frontiers in Social Movement
Theory. New Haven / Londres: Yale University Press, 1992.
[15] Jasper, James. The art of moral protest. Culture, biography, and
creativity in social movements. Chicago: The University of Chicago Press, 1997,
p. 86.
[16] Por exemplo, nos Conselho Florestal Federal, Serviço Florestal do
Ministério da Agricultura, Parque Nacional de Conservação de Itatiaia, Museu
Nacional, Departamento de Pesquisas Florestais e Conservação da Natureza do
IBDF (Urban, 2001).
[17] Bones, Elmar & Hasse, Geraldo. Pioneiros da ecologia. Breve história
do movimento ambientalista no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Já Editores,
2002.
[18] Antuniassi, op. cit., p. 26.
[19] A distinção entre "técnicos" e "políticos" é de Sainteny, Guillaume.
"Logiques d'engagement et logiques de rétribution au sein de l'ecologisme
français". Cahiers Internationaux de Sociologie, vol. CVI, jan.-jun. 1999.
[20] Benford, Robert & Snow, David. "Framing processes and social
movements: an overview and assessment". Annual Review of Sociology, n. 26,
2000, pp. 611-39.
[21] "[...] a gente estava mais preocupado em salvar animais, criar áreas
protegidas; [...] algumas reservas deveriam ficar sem o uso [...] pelo homem
[...] para proteger a biodiversidade" (membro da FBCN, entrevista, 12/8/2004).
[22] Lutzenberger apud Bones & Hasse, op. cit., p. 187.
[23] "[...] padrões culturais-comportamentais uniformizadores [...] criam-se
assim economias cada vez mais centralizadoras, de capital intensivo, com
utilização de tecnologia bruta, pouca absorção de mão-de-obra e desordenada
exploração dos recursos naturais, satisfazendo a máxima do: USE E JOGUE FORA"
(Boletim Peco, Mape, n. 1, 1978).
[24] "O que nós vemos atualmente é um crescimento econômico louco, erroneamente
chamado desenvolvimento, que viola a natureza em todos os sentidos [e] mesmo ao
homem. [ ] E isto para uma fração da humanidade que se beneficia com este
crescimento material, que tem roupas, casa e comida." ("Nós alcançamos o fim?",
Manifesto da APPN, 1975 ).
[25] Diani, op. cit., p. 13.
[26] Tarrow os define como "seqüências escalonadas de ação de maior freqüência
e intensidade do que o normal, que se estende através de vários setores e
regiões da sociedade. [E] Envolvem novas técnicas de protestos e novas formas
de organização [...]" (Tarrow, Sidney. "Struggling to reform: social movements
and policy change during cycle of protests". West. Soc. Pap, n. 15, Ithaca,
Cornell University, 1983, p. 36). .
[27] Evento típico dessa campanha foi um ato público em São Paulo em 15 de
janeiro de 1979, que atraiu cerca de 1,5 mil pessoas e gerou uma "Carta Aberta
à Nação Brasileira", contra a internacionalização da Amazônia, e em defesa da
preservação do estilo de vida das comunidades tradicionais que lá viviam.
[28] A mobilização mais significativa foi a passeata "Enterro das Usinas
Atômicas", em memória das vítimas de Hiroshima e em intenção das potenciais
vítimas brasileiras, reunindo aproximadamente 1,2 mil pessoas (Urban, Teresa.
Missão quase impossível. Aventuras e desventuras do movimento ambientalista no
Brasil. São Paulo: Petrópolis, 2001).
[29] Em 1985, o país contava com cerca de 400 grupos ambientais em
funcionamento (Viola, Eduardo. "O movimento ambientalista no Brasil 1971-1991:
da denúncia à conscientização pública para a institucionalização e o
desenvolvimento sustentável". In: Goldenberg, Mirian (ed.). Ecologia, ciência e
política. Rio de Janeiro: Revan, 1992, p. 57).
[30] Kriesi, op. cit., p. 152.
[31] Os temas socioambientalistas eram a reação à degradação ambiental do
estilo vida urbano ("humanização e despoluição das cidades - saneamento básico
e reaproveitamento do lixo") e rural (problemas de saúde causados por
agrotóxicos); os contraculturais giravam em torno do pacifismo ("fim da
indústria armamentista") e da democratização das relações sociais ("fim de
todas as formas de discriminação racial, sexual, religiosa ou ideológica"). O
conservacionismo se restringia à "preservação da fauna nacional" e à "defesa
dos ecossistemas brasileiros". Havia ainda um bloco replicando a agenda do
movimento pela Redemocratização: descentralização política e econômica; poder
local; democratização da imprensa etc.
[32] Duas tratavam de reservas indígenas, contando com apoio de movimentos
sociais ligados à Igreja. A terceira proibia o uso, mesmo pacífico, de energia
nuclear.
[33] A Frente foi criada em junho de 1987, por 71 associações ambientalistas,
inclusive a FBCN, 9 senadores e 82 deputados de esquerda e centro-esquerda, mas
também com apoio de parlamentares liberais e conservadores (Jornal da Tarde, 9/
6/1987).
[34] Foram aprovadas medidas de proteção da Floresta Amazônica, da Mata
Atlântica, da Serra do Mar, do Pantanal e da Zona Costeira, e da diversidade
genética do país e a proibição parcial do uso de energia nuclear (O Estado de
S. Paulo, 26/5/1988).
[35] SOS, Oikos e Cedi. "UNCED 1992 e as ONGS brasileiras", apud Santos, Selene
S. C. Herculano, Entre o heroísmo e a cidadania. Rio de Janeiro: Tese de
doutorado, IUPERJ, 1994, anexo 1.
[36] Landin, Leilah. A invenção das ONGs: do serviço invisível à profissão sem
nome. Rio de Janeiro: Museu Nacional/UFRJ, 1993, p. 66-67.
[37] "[...] você não tem como expandir o sistema sem considerar as populações
tradicionais; as terras indígenas têm o dobro da extensão das unidades de
conservação no Brasil, [...] você não pode ignorar elas [sic] numa estratégia
de conservação [...] a gente usa a questão ambiental, do desenvolvimento
sustentável, com fins que são, na verdade, sociais" (membro do ISA, entrevista,
31/8/ 2004).
[38] "[...] começou-se muito na proteção de espécies, a proteção de espécies
mudou para proteção de habitat e agora a proteção de habitat inclui o manejo
sustentável dos recursos naturais e o bem-estar da população que está lá.
[...], não se pensa mais simplesmente em passar uma cerca e não ter pessoas,
mas em como tratar as pessoas no meio ambiente [...]; então é uma gradação
[...]" (membro do WWF-Brasil, entrevista, 31/8/ 2004).
[39] Rootes, Christopher (ed.). , n. 79, novembro, 2007 (no