DUNS ESCOTO E A VERDADE NAS COISAS: UM ESTUDO DE "QUESTÕES SOBRE A METAFÍSICA"
VI, Q.3
I
As "Questões sobre a Metafísica" estão entre as obras de mais difícil
estabelecimento e datação produzidas por João Duns Escoto (c. 1265-1308).1 Não
que seus outros trabalhos apresentem qualquer facilidade no que tange à edição
crítica ou localização com respeito ao corpus textual legado pelo autor, pelo
contrário. Ainda assim, fica muita clara, pela leitura da introdução à edição
crítica publicada como parte dos "Opera philosophica"2 de Duns Escoto, toda a
problemática envolvida na consideração das lições sobreviventes dessas
"Questões sobre a Metafísica". Com efeito, embora não haja dúvidas acerca da
autenticidade desse texto, quanto mais nos aproximamos da própria época do
Doutor Sutil, mais discordantes se tornam suas fontes manuscritas – tanto no
que diz respeito a diferenças na organização das questões, como no que tange
mesmo a disparidades na ordenação dos parágrafos dentro das próprias questões.
Some-se a isso o fato de que o próprio Duns Escoto parece ter revisto por
diversas vezes essa obra, removendo e adicionando-lhe excertos – o que, aliás,
não é de modo algum incomum na obra do Doutor Sutil – e temos aquilo que os
editores denominam "chaos metaphysicum de Duns_Escoto"_(1997-2006,_Vol._3,_pp.
xxxii-xxxvii).
Se essa situação caótica tornou dificílimo o trabalho de estabelecimento
crítico do texto das "Questões sobre a Metafísica", pôde-se por outro lado
extrair dela uma conclusão relevante: um texto com diversas revisões e adições
(a que se somam remissões constantes às mais diversas obras de diferentes
períodos da carreira de Duns Escoto) não pode ser fruto de um único período.
Embora já se tenha buscado caracterizar essas questões como originárias do
período inicial da produção do Doutor Sutil (op. cit., p. xlii), os editores
dos "Opera philosophica" defendem que o aparente texto final (em todo caso, o
texto que sobreviveu para nós como versão definitiva) dessas questões foi
produzido no decorrer de toda a atividade de João Duns Escoto e nos foi legado
em estado inacabado em razão da morte prematura do autor (daí, por exemplo, o
fato de as questões não chegarem ao fim da "Metafísica" de Aristóteles, mas
terminarem no livro IX).3 Disso podemos retirar uma importante observação
metodológica. Não expressando um pensamento característico de qualquer período
preciso do pensamento do Doutor Sutil, as "Questões sobre a Metafísica" foram
sempre revistas por Duns Escoto à medida que iam se modificando seus
posicionamentos com respeito a temas filosóficos e teológicos. Se for assim,
não há nada que nos impeça de ler essas questões à luz das outras obras
produzidas por ele – sejam elas de juventude (como seus comentários lógicos) ou
aquelas mais tardias (como seus comentários às "Sentenças"). De fato, somos
convidados a isso, pois seu próprio autor parece ter se esforçado para manter a
coerência doutrinária entre as "Questões sobre a Metafísica" e seus trabalhos
tardios, sem no entanto modificar aquilo nelas que, sendo característico de
suas obras de juventude, ele ainda tomasse como válido.
Essa observação é de interesse para nós na medida em que muitos dos temas
abordados nas "Questões sobre a Metafísica" se tornam mais compreensíveis
quando lidos à luz das obras lógicas de juventude (os chamados parva logicalia,
produzidos por Duns Escoto por volta de 1295), dos comentários às "Sentenças"
elaborados a partir de 1295,4 das "Questões quodlibetais" e, finalmente, do
"Tratado sobre o primeiro princípio", datados respectivamente de 1306-7 e 1308.
Isso é particularmente patente no tema que animará o presente trabalho, a
saber, a noção de verdade – e, em particular, de "verdade na coisa" –, tal como
Duns Escoto o desenvolve em "Questões sobre a Metafísica" VI, q. 3 (1997-2006,
Vol. 4, pp. 57-84).
Feita essa rápida introdução à nossa base textual, podemos nos voltar agora
para esse trecho em particular das "Questões sobre a Metafísica" e ver como
Duns Escoto desenvolve uma complexa noção de verdade a partir da distinção das
possíveis acepções desse termo. Como notaremos, toda a – por assim dizer –
doutrina da verdade de Duns Escoto está centrada no estabelecimento da relação
entre a verdade na própria coisa (veritas in re) e a verdade no intelecto
(veritas in intellectu). Ainda que tal relação seja a chave para a resolução
dessa terceira questão do livro VI da obra que ora lemos, não será meu objetivo
aqui esgotá-la. Antes, pretendo centrar meu estudo unicamente no primeiro caso
da verdade – a saber, na "verdade na coisa" –, pois ele já compõe por si só um
campo demasiado vasto de reflexão. Como veremos, não é possível compreender sem
remissão a outras obras de Duns Escoto a maneira como ele aí desenvolve sua
concepção de verdade. Antes, porém, de nos concentrarmos na "verdade na coisa",
vejamos o contexto em que o Doutor Sutil apresenta essa noção.
II
A questão colocada por Duns Escoto e que se torna a ocasião para um extenso
tratamento da noção de verdade como parte da discussão sobre o livro VI da
"Metafísica" é "se o ente verdadeiro deve ser excluído da consideração do
metafísico" (Duns_Scotus,_1997-2006, Vol. 4, p. 57).5 o primeiro passo para
responder a essa questão é estabelecer o que, precisamente, é considerado pelo
metafísico. Para tanto, devemos voltar por um momento para a primeira questão
desse mesmo livro.
Aí, em meio à discussão sobre a suficiência da divisão da ciência especulativa
em três ciências – a saber, física, matemática e divina ou metafísica –, Duns
Escoto se volta para o complexo problema do estabelecimento de um objeto comum
da metafísica. Vale a pena citar a passagem em que ele resume sua posição
quanto ao tema:
[...] pode-se abstrair um comum de todos os especuláveis reais – a
saber, o ente [ens], de cuja comunidade se falou em outro lugar. Isso
que é comum possui paixões próprias segundo o Filósofo, IV da
"Metafísica", tais quais todos os transcendentes denominativos, como
bom, uno, verdadeiro, ato e potência etc. Portanto, há uma ciência
possível do ente quanto a tais paixões. E é necessária, pois nosso
conhecimento procede 'dos comuns aos próprios', pelo I da "Física".
Porém, o ente é um objeto real, o que é patente, pois: é dito in quid
das coisas; é um objeto propriamente especulável, pois acerca do ente
enquanto ente não há naturalmente uma especulação que dirija a outra
operação que não a especulação; e suas paixões podem ser apontadas
nele a partir de princípios cognoscíveis pela via dos sentidos.
Portanto, temos um sujeito (subiectum) primeiro que possui todas as
condições supracitadas. (Duns_Scotus,_1997-2006, Vol. 4, pp. 19-20)6
Esse outro lugar a que Duns Escoto nos remete ao citar a "comunidade" do
conceito de ente é a sua famosa discussão sobre esse conceito desenvolvida na
terceira distinção do primeiro livro de duas das versões dos seus comentários
às "Sentenças", a "Lectura" e a "Ordinatio". Em poucas palavras, o ente surge
em ambas como um conceito maximamente comum, que – após ser abstraído a partir
de conceitos de espécies especialíssimas obtidos pelos sentidos – pode ser
predicado univocamente de tudo, seja como predicado essencial (in quid), seja
como predicado denominativo (como um acidente ou in quale).7 No entanto, para
encontrarmos uma clara nomeação da ciência que diz respeito ao ente, devemos
nos voltar para o prólogo da "Ordinatio", onde Duns Escoto diz que cabe
precisamente à metafísica o estudo do ente em comum – do ente enquanto ente –
e, portanto, das paixões do ente (passionum entis),8 pois a uma dada ciência
cabe justamente o estudo das paixões ou propriedades de seu sujeito primeiro.9
Ora, como vemos, essa é exatamente a ciência a que Duns Escoto se refere no
trecho destacado acima, pois ela precisamente se volta especulativamente (isto
é, sem qualquer finalidade prática, mas tendo por fim unicamente o próprio
conhecimento)10 para o ente enquanto ente (em comum, sem referência a qualquer
acidente ou propriedade em particular), dito essencialmente ou in quid das
coisas (por exemplo, em proposições do tipo "um homem é um ente") e obtido por
abstração a partir dos sentidos. As "paixões do ente" a que Duns Escoto se
refere são aqueles conceitos ou disjunções exclusivas (ambos ditos, também,
"transcendentes") que se convertem com o ente – por exemplo, "todo bom é ente"
e "todo ente é bom" ou ainda "todo ente é ato ou potência" e "todo ato ou
potência é ente".11 À metafísica, então, cabe considerar o ente em geral e,
para tanto, se voltar para essas propriedades que dizem respeito a todo e
qualquer ente.
Sendo assim, quando o Doutor Sutil, em "Questões sobre a Metafísica" VI, q. 3,
se pergunta se a consideração da verdade diz respeito ao metafísico, ele está,
de fato, se perguntando se a verdade é uma paixão do ente (ou, o que é o mesmo,
se a verdade se converte com o ente, tal que ambas as proposições "todo ente é
verdadeiro" e "todo verdadeiro é ente" sejam verdadeiras). Ao que parece, a
resposta deverá ser positiva, pois no próprio excerto traduzido acima
"verdadeiro" (verum) surge como uma paixão do ente. A questão, porém, não pode
ser tão facilmente resolvida, uma vez que, como vimos, o ente e suas paixões
são predicados essencialmente (in quid) das coisas reais, ao passo que
"verdadeiro" se diz também do próprio conhecimento. Assim, para responder à sua
questão, caberá a Duns Escoto distinguir entre duas acepções de "verdadeiro":
de uma maneira, "verdadeiro" é dito de coisas reais independentes de qualquer
intelecto, de outra, "verdadeiro" diz respeito somente ao conhecimento. Assim,
antes de solucionar a questão, "cumpre primeiramente distinguir sobre o
'verdadeiro'. De fato, há uma verdade nas coisas e uma verdade no intelecto"
(Duns_Scotus,_1997-2006, Vol. 4, p. 65).12 Fique claro desde já que não
chegaremos a estudar aqui a resposta que o Doutor Sutil apresenta para a
questão, pois nos limitaremos agora a ver os poucos parágrafos que ele dedica à
"verdade na coisa".
III
Seguindo uma estratégia bem característica da filosofia escolástica, a
descrição da maneira pela qual se pode dizer que há verdade nas próprias coisas
reais passa pela fina distinção entre diversos significados do termo "verdade"
quando dito com referência às coisas mesmas. Para ser mais preciso, o Doutor
Sutil distingue seis conceitos (conceptus) que podem ser expressos pela locução
"verdade na coisa" (veritas in re). Ressalte-se que essa mesma locução expressa
os seis casos equivocamente (aequivoce). Em outras palavras, ela significa cada
um desses seis casos propriamente (não metaforicamente) e primeiramente, isto
é, sem estabelecer qualquer relação de dependência ou anterioridade entre cada
um dos seus significados.13 Veremos, mais adiante, que o caráter equívoco dessa
locução não é tão óbvio quanto se faz parecer de início. Por ora, notemos
somente que, nessa etapa da questão, Duns Escoto estabelece todos os possíveis
significados daquela locução sem dar privilégio a qualquer um deles. De fato, o
problema não está em estabelecer um possível "correto" uso de "verdade na
coisa", mas em enumerar seus possíveis significados para, ao fim da questão,
mostrar quais deles dizem respeito ao metafísico e quais não. Como foi dito,
entretanto, não chegaremos a ler essa solução; antes, nosso interesse será
estudar mais atentamente aqueles seis significados independentes da "verdade na
coisa".
Em primeiro lugar, devemos notar que esses seis significados se dividem em duas
maneiras pelas quais há verdade nas próprias coisas. Por um lado, há três modos
pelos quais algo é dito verdadeiro por comparação àquilo que o produziu (per
comparationem ad producentem); por outro lado, há três modos pelos quais algo é
dito verdadeiro por comparação àquele que o conhece, ou melhor, que o intelige
(per comparationem ad cognoscentem sive intelligentem).14 Notemos que essa
distinção não se confunde com aquela, mais geral, que separa a "verdade na
coisa" da "verdade no intelecto", pois nesses dois gêneros de "verdade nas
coisas" o que há é uma distinção entre relações diversas entretidas por uma
coisa com outras coisas. Nesse caso, uma mesma coisa real possui relações [i]
para com aquilo que a produziu e [ii] para com aquilo que a conhece
intelectualmente. Assim, esse segundo caso não se confunde com a "verdade no
intelecto", pois ele diz respeito àquela verdade que é dita de uma coisa real
na medida em que ela se relaciona com um intelecto sem, entretanto, deixar de
ser tomada como algo real e essencialmente independente deste intelecto que a
conhece. Para além de destacar a diferença entre a "verdade na coisa por
comparação ao intelecto" e a "verdade no intelecto", é igualmente relevante
destacar que os dois casos da "verdade na coisa" – [i] por comparação ao que a
produziu e [ii] por comparação ao intelecto que a conhece – são
fundamentalmente distintos. Isso porque, nos diz Duns Escoto:
[...] se por impossível Deus produzisse o semelhante, o igual e o
semelhante que o imita e não inteligisse, haveria o primeiro modo
tripartido sem o segundo; e o contrário, se houvesse outro Deus que
inteligisse a criatura sem que a produzisse. (Duns_Scotus,_1997-2006,
Vol. 4, p. 66)15
Em outras palavras, é plenamente possível produzir algo sem o inteligir e, o
que parece mais claro, inteligir algo sem o ter produzido. Em termos técnicos,
"uma é a relação [habitudo] para com o que produz e outra aquela para com o que
intelige, ainda que sejam o mesmo aquele que intelige e aquele que produz"
(ibidem).16 Ou seja, não é impossível que se diga de uma mesma coisa que ela é
verdadeira por comparação àquilo que a produziu sem qualquer referência àquilo
que a conhece – e o mesmo vale para o contrário. De fato, como vimos, a locução
"verdade na coisa" é dita equivocamente em cada um desses modos.
Feitas essas observações preliminares, podemos nos voltar mais atentamente para
o primeiro caso, isto é, para a "verdade na coisa por comparação àquilo que a
produziu". Como era dito há pouco, esse gênero de verdade na coisa se divide em
três que são, igualmente, independentes entre si e dos quais o termo "verdade"
é dito também equivocamente.17 Além disso, já ficou claro pelas últimas
passagens destacadas, que o "produtor" a que Duns Escoto se refere aqui não é
senão Deus mesmo. Antes, porém, de desenvolver essa última afirmação, vejamos
como o Doutor Sutil descreve os três modos pelos quais uma coisa é dita
verdadeira por comparação àquilo que a produz:
[...] verdade é dita ou absolutamente, a conformidade do produzido ao
produtor; ou determinadamente, uma conformidade tal segundo
adequação; ou, determinadamente de um terceiro modo, a conformidade
segundo imitação. (Duns_Scotus,_1997-2006, Vol. 4, p. 65)18
Ainda que "verdade" seja dita equivocamente desses três casos, Duns Escoto
admite que o primeiro modo parece – mas, "só parece", "videatur" (ibidem) – ser
comum ao segundo e ao terceiro, embora ele não desenvolva essa tese. Em todo
caso, essa "verdade dita absolutamente" (veritas absolute) parece ser
simplesmente a formulação geral da própria "verdade na coisa por comparação
àquilo que a produziu". Essa formulação geral, no entanto, introduz as
condições nas quais algo produzido é dito verdadeiro. Isso ocorre, a saber, na
medida em que aquilo que foi produzido se conforma (conformitas) àquilo que o
produziu. Sendo assim, os dois outros casos "parecem" surgir como determinações
(veritas determinate) desse primeiro caso, nas quais são explicitados
diferentes modos pelos quais algo produzido pode se conformar àquilo que o
produziu.
Destarte, no segundo caso, algo é verdadeiro enquanto se conforma a seu
exemplar segundo uma adequação (secundum adaequationem). Já nesse ponto começa
a ficar claro o papel central que Deus, como notamos há pouco, possui nessa
"verdade na coisa por comparação àquilo que a produziu". Na rápida explicação
desse segundo modo fornecida por Duns Escoto, se afirma que esse segundo modo
se encontra no Filho de Deus (isto é, na segunda pessoa da trindade) que é, ele
próprio, verdade e "suma similitude do princípio" – summa similitudo principii
(Duns_Scotus,_1997-2006, Vol. 4, pp. 65-6); esse princípio, aliás, é o próprio
Pai, primeira pessoa da trindade una que é Deus. Ora, a similitude que está em
jogo nesse segundo caso é, ao que parece, algo como uma similitude por
identidade, pois sendo o Filho de Deus consubstancial ao próprio Deus, ele é
semelhante a este último ao se adequar completamente a ele e, enfim, ao ser o
próprio Deus.19 Pois bem, se o segundo modo de "verdade na coisa por comparação
àquilo que a produziu" diz respeito à verdade determinada própria daquilo que
se assemelha por adequação (ou, como vimos, como que por identidade) a seu
produtor e princípio, o terceiro modo será aquela verdade determinada daquilo
que se assemelha não por adequação, mas por imitação (imitatio). Esse terceiro
modo é a verdade que a criatura possui em si por comparação ao seu criador, uma
vez que essa "imitação" se distancia da adequação. De fato, longe de ser uma
"suma similitude do princípio" produtor, a imitação é antes uma assemelhação
defeituosa ("assimilatur; defective tamen") daquele exemplar donde provém a
criatura (Duns_Scotus,_1997-2006, Vol. 4, p. 66).
Assim, desse primeiro modo, há verdade nas coisas de acordo com a relação que
elas entretêm com o próprio Deus enquanto seu produtor. Em termos absolutos,
elas são verdadeiras por se conformarem a Deus. Mais determinadamente, é
preciso distinguir dois casos. Isso porque a segunda pessoa da trindade se
assemelha a Deus adequando-se completamente a seu princípio, compartilhando sua
própria essência; de fato, ela é a própria verdade, pois é a mais perfeita
semelhança do princípio. O mesmo não vale, entretanto, para as criaturas, que
são verdadeiras ao se assemelharem imperfeitamente ao exemplar divino a partir
do qual foram criadas; estas, com efeito, são verdadeiras ao imitarem (sem,
portanto, se adequarem a) Deus, o que por si só já inclui o caráter defeituoso
dessa verdade. Como vemos, o horizonte para que qualquer coisa seja dita
"verdadeira" dessa primeira maneira – isto é, por comparação ao princípio
produtor – é a determinação de Deus como produtor e princípio das coisas
verdadeiras, sejam elas pessoas da trindade ou as criaturas. Quando, porém, nos
voltamos para o segundo modo da "verdade nas coisas", perdemos de vista esse
horizonte e não mais será o caso de considerarmos as coisas a partir da relação
que elas entretêm com Deus como seu princípio produtor.
IV
A partir de agora, o problema será compreender de que maneiras uma mesma coisa
pode ser tomada como verdadeira "por comparação àquele que a intelige". Assim,
desse ponto em diante, será dada cada vez mais ênfase à consideração da relação
entre criaturas – isto é, entre coisas criadas e intelectos criados. Além
disso, como já dissemos algumas vezes, Duns Escoto distingue aqui três modos
pelos quais se diz que há "verdade nas coisas"; da mesma maneira, aqui também
essa locução significa equivocamente os três modos. E, no entanto, mais uma vez
os três casos "parecem" estar relacionados, embora o próprio Doutor Sutil não
seja de maneira alguma explícito sobre uma possível relação entre eles. Dito
isso, vale citarmos a formulação completa desse segundo significado de "verdade
na coisa":
[...] por comparação ao intelecto, uma coisa é dita verdadeira
triplamente. Em primeiro lugar, porque é manifestativa de si
(manifestativa sui) – quanto a si (quantum est de se) – a qualquer
intelecto que possa conhecer a manifestação. Em segundo lugar, porque
é assemelhativa do intelecto assemelhável (assimilativa intellectus
assimilabilis), que não é senão um intelecto criado. Em terceiro
lugar, porque, feita essa manifestação ou assemelhação, a coisa é no
intelecto tal como o conhecido no cognoscente (sicut cognitum in
cognoscente). (Duns_Scotus,_1997-2006, Vol. 4, p. 66)20
Esse pequeno trecho é capital para a compreensão de toda a doutrina da
intelecção de Duns Escoto, pois aqui se encontram as bases da caracterização do
objeto de intelecção, seja no que diz respeito ao seu papel causal na produção
do conhecimento ou, o que é mais fundamental, no que tange à determinação do
objeto como termo do conhecimento intelectual. Esse duplo caráter da coisa
enquanto objeto de conhecimento intelectual – e, portanto, enquanto coisa
verdadeira – ficará claro em uma leitura mais cuidadosa da passagem.
Seguindo a ordem proposta por Duns Escoto, atentemos primeiramente para a
maneira pela qual uma coisa é verdadeira por comparação ao intelecto justamente
por poder se manifestar a este último. De saída, é interessante notar que, para
o Doutor Sutil, uma coisa não é verdadeira desse primeiro modo por se
manifestar em ato ao intelecto, mas por "poder" se manifestar a um intelecto.
Ou seja, uma coisa real é verdadeira não por já ter atualmente se manifestado,
mas por ser manifestativa de si (manifestativa sui). Assim, essa verdade diz
respeito não exatamente a uma relação atual entre uma coisa enquanto objeto de
conhecimento e o intelecto, mas à "possibilidade" que algo possui de se dar a
conhecer a um intelecto, isto é, à "potência" que essa coisa possui de
estabelecer uma relação com um intelecto de maneira a ser conhecida por este
último. De fato, qualquer coisa real continuaria a ser manifestativa de si,
mesmo que não houvesse um intelecto que a pudesse conhecer:
mesmo se não houvesse qualquer intelecto, ainda assim qualquer coisa
seria naturalmente apta (esset nata) a se manifestar segundo o grau
da sua entidade (secundum gradum suae entitatis). E essa é a notícia
pela qual uma coisa é dita conhecida da natureza (nota naturae) – não
porque a natureza a conheça, mas porque seria naturalmente apta
(esset nata) a ser conhecida, quanto a si (quantum est de se), mais
perfeitamente ou menos perfeitamente, por uma manifestação (maior ou
menor) própria. (Duns_Scotus,_1997-2006, Vol. 4, pp. 66)21
Como se vê pela passagem, essa potência para se manifestar é explicada por Duns
Escoto como uma "aptidão natural (nata esse)" da coisa a se manifestar a um
intelecto – ainda que não houvesse intelectos – de maneira a ser por ele
conhecida. No entanto, já era dito no trecho anterior e se repete aqui que cada
coisa se manifesta, de acordo com essa aptidão natural, "quanto a si" (quantum
est de se). Mas o que isso pode querer dizer? A meu ver, tão obscura quanto
essa expressão pareça ser no contexto, ela é importante por dois elementos que
adiciona à descrição da aptidão natural a se manifestar a um intelecto que cada
coisa possui. Por um lado, a expressão "quanto a si" destaca que cada coisa se
manifesta a seu próprio modo ou, tecnicamente, "segundo o grau da sua entidade"
(secundum gradum suae entitatis) de tal maneira a ser conhecida mais ou menos
perfeitamente (perfectius aut minus perfecte cognosci), de acordo com a maior
ou menor aptidão para se manifestar a um intelecto providenciada pela sua
própria natureza mais ou menos cognoscível. Por outro lado, a expressão "quanto
a si" introduz uma noção de quantidade (quantum) que não deve ser desprezada;
pelo contrário, é exatamente por um estudo da quantidade que Duns Escoto
termina por delimitar aquela noção de grau de entidade.
Para compreender como isso ocorre, devemos nos voltar para o já citado "Tratado
sobre o primeiro princípio". Ainda no início desse opúsculo, Duns Escoto
retorna à noção de "paixão do ente", que já vimos acima, ao afirmar que uma
dessas paixões que acompanham qualquer ente é uma "ordem essencial" (ordo
essentialis), que não é senão "uma relação de comparação dita do anterior com
respeito ao posterior e o contrário, tal que, a saber, o ordenado se divida
suficientemente por anterior e posterior" (Duns_Scotus,_2009, pp. 2-4).22 Em
outras palavras, todo ente – pelo fato mesmo de ser – é posto em uma ordenação
que o relaciona aos demais entes, sendo anterior a uns e posterior a outros.
Porém, é preciso avançar na distinção, pois há uma "ordem essencial de
eminência" (ordo eminentiae) e uma "ordem essencial de dependência" (ordo
dependentiae) (Duns_Scotus,_2009, p. 4). Esta última se resolve nas relações de
causalidade23 – voltaremos a ela adiante. Por ora, nos concentremos na
primeira, pela qual "o anterior é dito eminente e o posterior é aquilo que é
excedido (quod est excessum). Para que se diga brevemente: aquilo que for mais
perfeito e nobre segundo a essência é, aqui, anterior" (ibidem).24 Ou seja,
pela ordem de eminência (em que estão implicados todos os entes, ressaltemos
novamente), é eminente e anterior aquilo que for mais perfeito ou nobre de
acordo com sua essência, excedendo aquilo que for menos perfeito ou nobre.
Enfim, temos aqui uma hierarquia de perfeição essencial que perpassa tudo o que
há, organizando tudo segundo uma maior ou menor perfeição essencial.
Ora, essa maior ou menor perfeição pela qual cada coisa se localiza nessa
hierarquia dos entes surge, em "Reportatio parisiensis" I-A, como o seu grau de
perfeição e de entidade (gradus entitatis et perfectionis), que se confunde e
se identifica com a própria essência de cada coisa. Assim, cada coisa é tão
perfeitamente (ou, ainda, é um ente tão perfeito) quanto pode ser de acordo com
sua própria essência. Portanto, também será de acordo com o grau de entidade e
de perfeição próprio que cada coisa será eminente com relações aos menos
perfeitos e será excedida pelos mais perfeitos na ordem do mundo. A esse "grau
de entidade e perfeição" essencial de cada coisa, Duns Escoto dá o nome de
"grandeza" (magnitudo) e, preferencialmente, de "quantidade de virtude"
(quantitas virtutis) ou "quantidade virtual'(quantitas virtualis) (Duns_Scotus,
2004-2008, vol. 2: 285-6).25 Em "Quodlibet", q. 6, Duns Escoto irá explicar que
essa grandeza ou quantidade essencial não deve ser confundida com a quantidade
categorial:
[...] de algum modo, a quantidade convém a todo ente de qualquer
gênero e, por conseguinte, embora "grande e pequeno" (magnum et
parvum) sejam, segundo ele <i.e. Aristóteles>, paixões próprias da
quantidade, não obstante, eles são, tomados metaforicamente
(translative accepta), transcendentes (transcendentia) e paixões de
todo ente. (Duns_Escoto,_1968: 209)26
Nessa passagem, Duns Escoto opõe dois usos de "grande e pequeno" e, portanto,
de "quantidade". Um primeiro uso é aquele que, segundo ele, Aristóteles
descreve como próprio – esse é, a saber, o uso categorial de quantidade e
"grande e pequeno" como acidentes de uma substância. No entanto, o próprio
Aristóteles afirma que há um uso metafórico (translative) desses termos, pelo
qual eles podem ser predicados de qualquer ente, de tal maneira que todo ente
possua essa quantidade metafórica pelo próprio fato de ser – essencialmente e
não como acidente. Pois bem, Duns Escoto identifica esse "grande e pequeno"
metafóricos de Aristóteles com algo que Agostinho denomina "grande em bondade e
virtude ou perfeição ('magnum' bonitate et virtute vel perfectione)", em
oposição ao "grande em massa ('magnum' mole)".27 Com isso, o Doutor Sutil faz
equivaler a oposição que ele lê em Aristóteles, entre "quantidade propriamente
dita" e "quantidade metafórica transcendente", àquela que ele encontra em
Agostinho, entre "grande em massa" e "grande em bondade e virtude ou
perfeição", respectivamente. Ora, está claro que aquela quantidade virtual que
determinava a ordem de eminência de cada coisa de acordo com seu grau de
entidade e perfeição é essa quantidade transcendente, que não é senão uma
paixão do ente – isto é, algo de acordo com o qual qualquer ente, pelo próprio
fato de ser tal como é, pode ser dito grande ou pequeno e, assim, maior ou
menor do que qualquer outro em entidade.
Com isso, podemos finalmente voltar às "Questões sobre a Metafísica", pois
agora compreendemos que, ao afirmar que cada coisa é manifestativa ao intelecto
"quanto a si", Duns Escoto está não só determinando que cada coisa é
naturalmente apta a se manifestar de acordo com seu grau de entidade próprio,
mas principalmente de acordo com uma grandeza ou quantidade (quantum) próprios,
que determinam aquele grau de entidade. Quanto mais perfeita por essência uma
coisa for, mais manifestativa de si de acordo com sua quantidade virtual ela
será e, assim, mais perfeitamente poderá ser conhecida pelo intelecto a que se
manifestar. E é por essa manifestação essencial que há "verdade na coisa por
comparação ao intelecto" de um primeiro modo.
Estamos agora em posição de nos voltarmos para o segundo modo, a saber, aquele
modo de "verdade na coisa" pelo qual ela é dita verdadeira ao ser
"assemelhativa de um intelecto assemelhável, que não é senão um intelecto
criado".28 Essa última ressalva, pela qual o "intelecto assemelhável" é
explicado com sendo necessariamente "um intelecto criado" nos dá uma pista para
a compreensão daquilo que Duns Escoto entende por "assemelhativo". Isso porque,
de saída, já está claro que uma coisa não pode assemelhar a si o intelecto
divino que está sempre em ato, de maneira que a possibilidade de uma coisa
assemelhar um intelecto a si pressupõe um intelecto em potência para ser
assemelhado a ela. Ou seja, a relação entre a coisa assemelhativa e o intelecto
assemelhável se explica em uma relação entre um ativo e um passivo,
respectivamente.
Essa posição surge em uma complexa passagem, para a qual proporei uma
interpretação tentativa: "Porém, ser assemelhativo diz uma razão de ativo com
respeito ao assemelhável. E ela se segue ao ser manifestativo ou ao ser
distinto (disparatum), sem possuir uma ordem para com aquele <i.e. (pareceme),
para com o intelecto assemelhável>" (Duns_Scotus,_1997-2006, Vol. 4, p. 67).29
Embora não seja tão claro, nessa passagem o Doutor Sutil parece descrever as
condições para que uma coisa seja capaz de assemelhar a si um intelecto: a
saber, ela deve [i] ser manifestativa de si (de acordo com seu grau de
perfeição na ordem essencial de eminência, como vimos acima) para esse
intelecto; e [ii] ser distinta daquilo que ela assemelha a si (caso contrário,
ela seria idêntica ao intelecto e, portanto, não caberia assemelhá-lo a si,
pois eles já seriam o mesmo). Essa última condição exclui precisamente o
intelecto divino que, sendo idêntico à essência divina, é igualmente idêntico
àquilo que ele conhece.30 Em outras palavras, um intelecto assemelhável deve
ser distinto da coisa conhecida e, portanto, deve possuí-la somente em potência
e não em ato. Dessa maneira, uma coisa é assemelhativa de um intelecto
assemelhável por, ao assemelhar este último a si mesma manifestando-se a ele,
deixar de ser nele apenas em potência e passar a ser em ato no intelecto:
[...] sempre o assemelhativo e a assemelhação (assimilativum et
assimilatio), com respeito ao intelecto passivo, precedem aquilo que
é ser no intelecto (hoc quod est esse in intellectu), pois aquele ser
é posterior por natureza ao próprio ato de inteligir (actus
intelligendi). (Duns_Scotus,_1997-2006, Vol. 4, p. 67)31
Ora, voltando ao "Tratado sobre o primeiro princípio", vimos que são duas as
ordens essenciais: uma de eminência e outra de dependência. A primeira, já está
claro, redunda no caráter manifestativo da coisa com relação ao intelecto. Pela
segunda, no entanto, entra em jogo não tanto uma ordenação de perfeição e sim
de necessidade de uma coisa com relação a outra, pois por ela "se diz anterior
aquilo de que algo (aliquid) depende e posterior o que depende [...]. O
anterior segundo natureza e essência é o que ocorre ser sem o posterior e não o
contrário" (Duns_Scotus,_2009, p. 4).32 Esse é justamente o caso que vemos
aqui, pois uma coisa pode ser assemelhativa sem que haja um ato de inteligir
essa coisa, porém este último não pode ocorrer sem que haja uma tal coisa
assemelhativa. Dito de outra maneira, segundo a ordem de dependência, a coisa
assemelhativa é naturalmente anterior e a própria assemelhação do intelecto
pela coisa – de fato, o próprio ato de conhecimento pelo qual a coisa passa a
ser no intelecto – é naturalmente posterior (Duns_Scotus,_1997-2006, V. 4, p.
67).
Podemos ir adiante nessa linha interpretativa, pois já foi afirmado aqui que
essa "ordem essencial de dependência" se resolve em relações causais.33 Nesse
caso, fica patente que o caráter manifestativo da coisa e o caráter
assemelhativo se distinguem, porque pelo primeiro a coisa é verdadeira ao se
dar a conhecer de acordo com sua localização na ordem de eminência dos entes
pelo seu grau de entidade, enquanto que pelo segundo ela é verdadeira ao causar
no intelecto o ato pelo qual ela própria é inteligida.34 e, se duns Escoto
afirma que "ser assemelhativo" se segue a "ser manifestativo", isso se deve a
ser mais fundamental para a caracterização de uma coisa como objeto de um
intelecto sua capacidade de se manifestar por sua quantidade essencial de
perfeição (ou, o que é o mesmo, por sua quantidade virtual) do que sua
capacidade de causar um ato de intelecção. De fato, como o Doutor Sutil afirma
na "Reportatio parisiensis":
o objeto do intelecto pode possuir uma dupla relação (habitudinem)
para com o próprio intelecto: uma, tal como o motivo ao móvel [...].
Ele possui outra relação (habitudinem) como o que termina o ato da
potência (tamquam terminantis actum potentiae) – e essa é a condição
universal no objeto (seja que ele mova a potência ou não), pois a
todo objeto convém terminar o ato de sua potência. (Duns_Scotus,
2004-2008, Vol. 2, p. 383)35
A relação descrita aqui como "do motivo ao móvel" é, precisamente, aquela
relação pela qual uma coisa, enquanto objeto de intelecção, move o intelecto
para o próprio ato de inteligir ela própria – ou seja, aqui o objeto é tomado
como causa da intelecção ou, o que vimos ser o mesmo, como assemelhativo do
intelecto a si. Porém, não é esse caráter causal ou assemelhativo que determina
uma coisa como objeto do intelecto, pois antes de tudo ela deve terminar esse
ato de intelecção – isto é, ela deve ser o próprio termo do ato de intelecção.
Assim, é plenamente possível que algo seja termo de um ato de intelecção sem
ser, no entanto, causa desse ato; isso ocorre na intelecção que Deus possui das
criaturas.36 Mas o que seria esse "termo" do ato de uma potência?
Primeiramente, se estamos falando em "termo" ou "terminar", é preciso que
esteja em jogo uma relação. Assim, um objeto é termo do ato de inteligir – ou
termina o ato de inteligir – ao entreter com este intelecto em ato uma relação.
Porém, como a passagem acima afirma, essa relação que funda a compreensão da
coisa como objeto do intelecto não pode ser uma relação causal de dependência.
Resta que ela seja aquela relação que toma a coisa a partir de seu grau de
entidade ou quantidade virtual – isto é, a partir da ordem de eminência pela
qual uma coisa é manifestativa de si. Portanto, uma coisa só se caracteriza
propriamente como objeto do intelecto ao se manifestar a ele, pois só ao se
manifestar ela estabelece com este último uma relação pela qual seja,
propriamente, termo do ato de intelecção (que ela deverá, além disso, causar
por assemelhação do intelecto a si, no caso dos intelectos criados). Porém, que
relação fundamental para a caracterização da coisa como objeto do intelecto
seria essa?
A resposta surge quando nos voltamos para aquele terceiro (e último) modo pelo
qual uma coisa é dita verdadeira "por comparação ao intelecto" – a saber,
quando, "feita essa manifestação ou assemelhação, a coisa é no intelecto tal
como o conhecido no cognoscente".37 Como se vê, nesse terceiro caso, a coisa
não é verdadeira por poder manifestar seu grau de entidade a um intelecto nem
por poder assemelhar causalmente este último a si, mas por precisamente "ser no
intelecto" após manifestar-se a ele (sendo a assemelhação necessária somente no
caso dos intelectos criados, como foi dito). Ora, esse "ser no intelecto" (esse
in intellectu) não é senão "uma relação de razão fundada no objeto inteligido
para com o ato" (Duns_Scotus,_1997-2006, vol. 4: 67),38 isto é, para com o ato
de inteligir. Ora, se "ser no intelecto" não é senão uma certa relação que a
razão estabelece entre aquela coisa enquanto objeto de intelecção e o próprio
ato de intelecção, podemos dizer que, do terceiro modo da "verdade na coisa por
comparação ao intelecto", uma coisa é verdadeira por possuir com o intelecto
uma relação tal que ela "seja no intelecto". E a relação entretida nesse caso é
explicitada por Duns Escoto, pois a coisa será no intelecto "tal como o
conhecido no cognoscente (sicut cognitum in cognoscente)".39 Longe de ser um
exemplo, essa expressão aponta para uma caracterização técnica do tipo de
relação que está em jogo nesse "ser no intelecto" que a coisa possui ao se
manifestar, assemelhando a si um intelecto criado.
Se nos voltarmos para "Questões sobre a Metafísica" V, q. 12-14, vemos a
maneira pela qual o Doutor Sutil distingue os modos dos relativos. O termo
"modo" (modus) é importante aqui, porque, "embora as relações, como outros,
tenham distinções específicas por diferenças próprias, já que [estas] estão
escondidas de nós, tomamos a distinção delas <i.e. das relações> por
fundamentos" (Duns_Scotus,_1997-2006, Vol. 3, pp. 622-623).40 ou seja, o que
temos aqui é a distinção de modos dos relativos de acordo com seus fundamentos
e não, propriamente, de espécies do gênero "relação". Feita essa ressalva, são
três esses modos. O primeiro se funda sobre algo da categoria da quantidade,
dando origem a relações de multiplicação, proporção ou medida numérica, por
exemplo;41 ele não vem ao caso para nós. O segundo modo se funda em coisas das
categorias da ação e da paixão ou em princípios ativos e passivos de quaisquer
outros gêneros;42 esse é o modo de relação implicado na ordem essencial de
dependência entre os entes e é estabelecido entre a coisa e o intelecto quando
aquela assemelha este último a si por causalidade. O terceiro modo, finalmente,
se funda em coisas de quaisquer gênero, "pois qualquer coisa é inteligível
(quia quaelibet res est intelligibilis)" (Duns_Scotus,_1997-2006, Vol. 3, pp.
637-638). Esse, com efeito, é o modo de relação entretido pelo objeto de
conhecimento e o intelecto que o conhece. Para ser mais preciso, ele é o modo
de relação "do mensurável à medida (mensurabilis ad mensuram)" (Duns_Escoto,
1968, pp. 459-461), embora essa "medida" "não seja tomada aqui como uma medida
quantitativa, mas de perfeição; de outra maneira, não diferiria do primeiro
modo" (Duns_Scotus,_1997-2006, Vol. 3, p. 637)43 dos relativos. Para ser mais
preciso:
algo ser medido (mensurari) é o intelecto se certificar por outro
acerca de sua quantidade determinada – tal que ser medido comporta
uma relação (respectum) com o intelecto, ao qual se dá a certeza (cui
fit certitudo), e com a medida, pela qual se dá a certeza (per quam
fit certitudo). (Duns_Escoto,_1968, p. 459-460)44
Assim, fica claro que a relação pela qual aquela quantidade de entidade ou de
perfeição que a coisa possui na realidade passa a ser no intelecto como uma
coisa inteligida – ou no cognoscente como o conhecido – é uma relação do
terceiro modo dos relativos, isto é, uma relação do mensurável (o intelecto em
potência para receber a manifestação da coisa através ou não de uma
assemelhação) à medida (o outro distinto, ou seja, a própria coisa considerada
a partir do seu grau de entidade e perfeição). Esse "ser no intelecto" é aquilo
que, em outras obras, Duns Escoto denominará também como "ser diminuído" ou
"ser representado", pois esse objeto não é senão a própria coisa – isto é, o
próprio grau de entidade da coisa –, não em um ser real fora do intelecto, mas
em um ser inteligido, diminuído e relativo (secundum quid), quando comparado à
coisa real absoluta.45 Agora compreendemos que uma coisa, para se caracterizar
como objeto do intelecto, deve ser termo do ato de intelecção não como sua
causa (pois a assemelhação que se dá por causalidade não é fundamental no ato
de intelecção), mas como a medida do ato de conhecimento intelectual, isto é,
como aquilo que determina, ao se manifestar, a quantidade virtual ou a
quantidade de perfeição do próprio ato do intelecto. Essa identidade –
lastreada pela quantidade virtual da coisa – entre o ser real e o ser
inteligido da coisa manifestativa é o que fundamentalmente garante a esta
última seu caráter verdadeiro por comparação ao intelecto que a conhece.
V
De fato, como dizíamos acima, aquela pequena passagem de "Questões sobre a
Metafísica" VI, q. 3, fornece uma doutrina da intelecção completa. Vemos agora
que ela estabelece toda uma fundamentação do conhecimento intelectual
verdadeiro como conformação entre intelecto e coisa conhecida em termos das
relações entretidas por esse intelecto com seu objeto de conhecimento.46
Decerto, a leitura dessa passagem deveria ser complementada pelo estudo da
"verdade no intelecto", que nem mesmo chegamos a abordar. Ora, nem mesmo
chegamos a levantar todos os problemas postos unicamente pela própria distinção
entre as duas verdades na coisa. Com efeito, vimos que, para além dessa
"verdade na coisa por comparação ao intelecto que a conhece", há uma outra
"verdade na coisa por comparação ao princípio produtor" e, apesar de Duns
Escoto afirmar que a expressão "verdade na coisa" é dita equivocamente em cada
um desses casos (de fato, em cada um dos três casos que se distinguem naqueles
dois), eles "parecem" possuir uma importante ordenação entre si. Aliás, o
próprio Doutor Sutil o admite, pelo menos no que diz respeito aos três casos do
primeiro modo de verdade na coisa, isto é, com respeito ao princípio produtor.
Os dois modos de verdade determinada na coisa – a saber, por adequação (no
Filho de Deus) e por imitação (na criatura) – "parecem" ser formulações mais
particulares da verdade dita absolutamente, que não é senão a mera expressão de
que é verdadeiro algo que se conforma àquilo que o produziu (o que decerto
ocorre nos outros dois casos). Da mesma maneira, quando nos voltamos para a
"verdade na coisa por comparação ao intelecto que a conhece", notamos que Duns
Escoto se utiliza por vezes de um caso para explicar o outro. Assim, embora o
caráter manifestativo da coisa independa de seu caráter assemelhativo, o
contrário não ocorre; da mesma maneira, o "ser no intelecto" provém daquela
manifestação da coisa e, no caso de intelectos criados, da assemelhação do
intelecto a essa coisa. Em outras palavras, embora o uso equívoco da expressão
"verdade na coisa" devesse pressupor usos completamente independentes da
expressão, eles "parecem" estar mais relacionados do que Duns Escoto estaria
pronto a admitir.
Por que essa relutância? O que vimos até agora não foi certamente suficiente
para responder a essa pergunta. De fato, não estou certo de que essa questão
seja claramente respondida por Duns Escoto. Talvez, um passo inicial para
resolver esse problema seja ver se o primeiro caso de verdade na coisa (por
comparação ao produtor) se relaciona ao segundo caso de verdade na coisa (por
comparação ao intelecto que a intelige); se eles se relacionarem, deveremos ver
como ocorre essa relação. Em outras palavras, devemos responder à pergunta:
seria a verdade que se funda na relação entre a coisa e seu criador uma
condição necessária para a verdade que se funda na relação entre a coisa e o
intelecto criado que a conhece? Uma rápida leitura da obra do Doutor Sutil
parece sugerir que não, pois ainda que Deus não conhecesse e, assim, não
houvesse criado uma coisa, não obstante um intelecto criado poderia conhecê-la.
Ou, como é dito em "Reportatio parisiensis" II-A:
se, por impossível, o intelecto divino não fosse (non esset
intellectum divinum), nem por conseguinte a rosa na mente divina,
ainda assim, se o intelecto criado permanecesse, conheceria a rosa
não existente. (Duns_Scotus,_1639, Vol. 11.1, p. 245b)47
No entanto, quando nos voltamos para o livro I da "Lectura" e da "Ordinatio",
há indicações de que as relações entretidas pela criatura com seu criador não
são de maneira alguma irrelevantes para a justificação da verdade do
conhecimento intelectual humano.48 Certamente, não será mais esse o lugar de
resolver essa questão. Com essas observações finais, pretendo somente apontar
problemas que restaram da nossa exposição e a maneira pela qual, mais uma vez,
o caminho para sua resolução aponta para o fato de que a coerente compreensão
das "Questões sobre a Metafísica" reclama uma leitura atenta das demais obras
de Duns Escoto.
1Poucos são os dados que possuímos atualmente acerca da vida de Duns Escoto.
Para uma tentativa de reconstrução de sua biografia, cf. J._Sheppard,_2002, pp.
291-323. Um bom resumo das informações atuais relativas à biografia do Doutor
Sutil e à datação de suas obras pode ser encontrado em T._Williams,_2003, pp.
1-14.
2Duns_Scotus,_1997-2006, Vol. 3, pp. vii-lii.
3Cf. op. cit., pp. xlii-xlvi.
O estabelecimento textual dos comentários às "Sentenças" de Duns Escoto põe,
muito provavelmente, tantos problemas quanto as "Questões sobre a Metafísica".
Antes de tudo, porque o próprio Doutor Sutil produziu três versões bem
diferentes desse comentário: a "Lectura", a "Ordinatio" e a "Reportatio
parisiensis". Em resumo, a "Lectura" parece ser a primeira versão do
comentário, produzida ainda em Oxford, a partir de 1295; a "Reportatio", como
seu nome indica, seria o comentário parisiense, produzido entre 1302 e 1305;
por fim, a "Ordinatio" parece ter sido pretensamente a versão final do texto
que, iniciada por volta de 1300, permaneceu inacabada. Para além disso, a
"Reportatio" possui várias versões, tendo uma única versão do livro I sido
revista por Duns Escoto (a saber, a chamada "Reportatio parisiensis" I-A). Por
fim, devemos somar a essas versões as notas de Guilherme de Alnwick, secretário
de Duns Escoto, aos livros I e II de seus comentários, conhecidas como
"Additiones magnae". Sobre esse complexo cenário, cf. A._B._Wolter,_1996: 37-
57. Decerto, o mais técnico e profundo estudo a respeito é a introdução ao
primeiro volume dos "Opera omnia" de Duns_Escoto_(1950-,_Vol._1,_pp._3*-329*).
5"utrum ens verum debeat excludi a consideratione metaphysici".
6"[...] ab omnibus speculabilibus realibus potest unum commune, scilicet ens,
abstrahi, de cuius communitate alibi dictum est. Hoc commune habet proprias
passiones, secundum Philosophum, IV "Metaphysicae", cuiusmodi sunt omnia
transcendentia denominativa, ut bonum, unum, verum, actus et potentia etc.
Igitur de ente est aliqua scientia possibilis quantum ad tales passiones. Et
est necessaria, quia cognitio nostra procedit "a communibus ad propria", ex I
"Physicorum". Ens autem est obiectum reale. Quod patet, quia de rebus dicitur
in quid; et est obiectum proprie speculabile, quia circa ens in quantum ens non
est nata esse speculatio directiva in aliqua alia operatione a speculatione; et
passiones eius ex principiis cognoscibilibus via sensus de ipso ostendi
possunt. Igitur habemus unum subiectum primum quod habet omnes condiciones
praedictas".
7Cf. Duns_Scotus,_1950-, Vol. 16, pp. 223-281 ("Lectura") e 1950-, Vol. 3, pp.
1-123 ("Ordinatio"). O Doutor Sutil estuda a distinção entre predicação in quid
e predicação in quale em "Qq. sobre a Isagoge", q. 12 (cf. Duns_Scotus,_1997-
2006, Vol. 1, pp. 57-59). A pequena explanação aqui apresentada não faz,
certamente, justiça à complexidade e sutiliza que a discussão sobre o conceito
de ente adquire na obra de Duns Escoto. Com efeito, a bibliografia sobre o tema
é imensa. Assim, destaco a seguir os principais trabalhos a respeito: E.
Gilson,_1927: 89-149; C._Shircel,_1942; E._Gilson,_20052 [1952], pp. 84-115; L.
Honnefelder,_1989; R._Cross,_2001, pp. 7-41; W._Pannenberg,_2007: 139-180; e O.
Boulnois,_2013, pp. 261-311.
8Cf. Duns_Scotus,_1950-, Vol. 1, pp. 129-131.
9Cf. Duns_Scotus,_1997-2006, vol. 1: 14. Cf. tb. Duns_Scotus,_1950-, Vol. 1, p.
96; e 2004-2008, vol. 1: 4. Sobre as diferenças entre as caracterizações da
ciência fornecidas por Duns Escoto em cada um dos seus comentários às
"Sentenças", cf. S._Marrone,_2009.
10Sobre a diferença entre um conhecimento puramente intelectual ou especulativo
e um conhecimento prático, ver Duns_Scotus,_1950-, Vol. 1,pp. 155-160. Sobre
essa passagem, cf. O._Boulnois,_1998, pp. 131-142; e M._B._Ingham,_M._Dreyer,
2004, pp. 117-132.
11Cf. Duns_Scotus,_1950-, Vol. 4, pp. 205-207. O estudo clássico sobre os
transcendentes (isto é, o ente e suas paixões) em Duns Escoto continua sendo A.
B._Wolter,_1946.
12"Et primo distinguendum est de 'vero'. Est enim veritas in rebus et veritas
in intellectu".
13As principais fontes para o estudo da noção de equivocidade, analogia e
univocidade em Duns Escoto são as "Qq. sobre as Categorias" e as "Qq. sobre os
Elencos" (respectivamente, 1997-2006, Vol. 1, pp. 267-311 e Vol. 2, pp. 301-
362). Os principais estudos contemporâneos sobre o tema são G._Pini_2002a e
2002b.
14Duns_Scotus,_1997-2006, Vol. 4, p. 65.
15"Nam si per impossibile Deus esset productivus similis et aequalis et similis
imitantis et non esset intelligens, esset primus modus tripartitus sine
secundo; et e converso, si esset alius Deus intelligens creaturas et non
producens".
16"[...] habitudo ad producentem et ad intelligentem alia et alia est, licet
idem sit intelligens et producens".
17Duns_Scotus,_1997-2006, Vol. 4, p. 65.
18"Primo modo: aut dicitur veritas absolute, conformitas producti ad producens;
aut determinate, conformitas talis secundum adaequationem; aut tertio modo
determinate, conformitas secundum imitationem".
19Essa é certamente uma descrição muito superficial da doutrina da trindade de
Duns Escoto. São fontes privilegiadas para seu estudo as diferentes versões da
segunda distinção do livro I de seus comentários às "Sentenças" –
principalmente: "Ordinatio" e a "Reportatio parisiensis" (respectivamente,
1950-, Vol. 2, pp. 245-378; e 2004-2008, Vol. 1, pp. 141-186. Cf. tb. R._Cross,
1999, pp. 61-71). Esse livro de Cross, aliás, merece ser destacado como o único
estudo contemporâneo de grande envergadura sobre a teologia do Doutor Sutil.
20"Secundo modo, scilicet per comparationem ad intellectum, dicitur res vera
tripliciter. Primo, quia sui manifestativa – quantum est de se – cuicumque
intellectui potenti manifestationem cognoscere. Secundo, quia est assimilativa
intellectus assimilabilis, qui non est nisi intellectus creatus. Tertio, quia
facta manifestatione vel assimilatione, res est in intellectu sicut cognitum in
cognoscente".
21"[...] si nullus esset intellectus, adhuc quaelibet res secundum gradum suae
entitatis esset nata se manifestare. Et haec notitia est qua res dicitur nota
naturae, non quia natura cognoscat illam, sed quia propter propriam
manifestationem – maiorem vel minorem – nata esset, quantum est de se,
perfectius vel minus perfecte cognosci".
22"Accipio autem ordinem essentialem non stricte – ut quidam loquuntur,
dicentes posterius ordinari, sed prius vel primum esse supra ordinem – sed
communiter, prout ordo est relatio aequiparantiae dicta de priori respectu
posterioris et e converso, prout scilicet ordinatum sufficienter dividitur per
prius et posterius".
23"[...] dependens aut est causatum et illud a quo dependet est eius causa; aut
dependens est causatum remotius alicuius causae et illud a quo dependet est
causatum propinquius eiusdem causae" (Duns_Scotus,_2009, p. 4).
24"Primo modo, prius dicitur eminens et posterius quod est excessum. Ut
breviter dicatur: quidquid est perfectius et nobilius secundum essentiam, est
sic prius". Sobre a caracterização da ordem essencial como uma "paixão do
ente", cf. W._Kluxen,_2009, pp. 136-7.
25O comentador contemporâneo responsável por ter chamado a atenção para a
importância da noção de quantidade virtual para a doutrina da intelecção e da
ciência de Duns Escoto é Dominique_Demange_(2004; 2007).
26"[...] quantitas aliquo modo convenit omni enti cuiuscumque generis, et, per
consequens, licet 'magnum et parvum' secundum eum sint passiones propriae
quantitatis, tamen translative accepta sunt transcendentia et passiones totius
entis"
27Para toda essa comparação entre Aristóteles e Agostinho, cf. Duns_Escoto,
1968: 209-210. Como apontado pelo editor, a passagem de Aristóteles a que Duns
Escoto remete é "Metafísica" V, cap. 13, 1020a23-6, embora não seja possível
precisar a tradução desse texto por ele utilizada – isso, pelo menos, no que
diz respeito às "Questões sobre a Metafísica" (Duns_Scotus,_1997-2006, Vol. 3,
pp. xlviii-l). Já a passagem de Agostinho é "Da Trindade" VI, cap. 8, n. 9;
CCSL, Vol. 50, p. 238.
28Cf. acima, nota 20.
29"Esse autem assimilativum dicit rationem activi respectu assimilabilis, et
sequitur naturaliter esse manifestativum vel esse disparatum non habens ordinem
ad ipsum".
30Isso porque o único objeto de intelecção de Deus é sua própria essência, de
maneira que todos os outros objetos de conhecimento não o são senão
secundariamente, sendo conhecidos através daquela essência, como Duns Escoto
explica em "Reportatio parisiensis" I-A (2004-2008, Vol. 2: 383-385). Para um
estudo sobre o tema e uma maior enumeração de fontes na obra do Doutor Sutil,
cf. R._Cross,_1999, pp. 48-55.
31"Sed semper assimilativum et assimilatio respectu intellectus passivi
praecedit hoc quod est esse in intellectu, quia illud esse est posterius natura
ipso actu intelligendi [...]".
32"Secundo modo prius dicitur, a quo aliquid dependet, et posterius, quod
dependet. Huius prioris hanc intelligo rationem quam et Aristoteles 5o
Metaphysicae testimonio Platonis ostendit: Prius secundum naturam et essentiam
est quod contingit esse sine posteriori, non e converso".
33Cf. nota 23, acima.
34Embora não seja este o lugar de desenvolver esse caráter causal do processo
de conhecimento, é importante destacar que Duns Escoto o elabora muito
pausadamente em "Lectura" e "Ordinatio" (respectivamente, 1950-, vol. 16: 325-
406 e Vol. 3, pp. 201-357). A melhor introdução ao tema é o comentário de
Gérard Sondag a essa passagem da "Ordinatio", em G._Sondag,_1993. Para uma
discussão crítica acerca da posição de Sondag, cf. G._B._V._de_Paiva,_2012.
35"[...] obiectum intellectus ad ipsum intellectum potest habere duplicem
habitudinem: unam sicut motivi ad mobile [...]. Aliam habitudinem habet tamquam
terminantis actum potentiae, et haec est condicio universalis in obiecto, sive
moveat potentiam sive non, quia omni obiecto convenit terminare actum suae
potentiae".
36Cf. nota 30, acima.
37Cf. nota 20, acima.
38"[...] nam non est <i.e. esse in intellectu> nisi relatio rationis fundata in
obiecto intellecto ad actum".
39Cf., mais uma vez, a nota 20.
40"[...] quamvis relationes, sicut alia, habent distinctiones specificas per
proprias differentias, tamen quia latent nos, accipimus distinctiones earum per
fundamenta, ex quibus innotescit distinctio relativorum sive relationum,
scilicet effective sive materialiter".
41Cf. Duns_Scotus,_1997-2006, Vol. 3, p. 624.
42Cf. Duns_Scotus,_1997-2006, Vol. 3, pp. 635-636.
43"[...] dicitur quod non accipitur ibi mensura quantitativa, sed perfectionis;
alias non differret a primo modo".
44"[...] aliquid mensurari est intellectum de eius quantitate determinata per
aliud certificari, ita quod mensurari importat respectum ad intellectum, cui
fit certitudo, et ad mensuram, per quam fit certitudo".
45Duns Escoto se volta para essas denominações do objeto em "Lectura",
"Ordinatio" e "Reportatio parisiensis" (respectivamente, 1950-, Vol. 17, p.
471; 1950-, Vol. 6, pp. 288-290; e 2004-2008, Vol. 1, p. 213). Sobre o tema,
cf. P._King,_2004, pp. 65-88; O._Boulnois,_1999, pp. 88-105; Demange,_2007, pp.
212-218; e D._Perler_2001, 2002, pp. 185-251 e 2003 (especialmente, neste
último, o capítulo sobre Duns Escoto). Sobre a curiosa história do surgimento
da expressão 'ens diminutum', cf. A._Maurer,_1950, pp. 216-222.
46Segundo Peter King, Duns Escoto tende a descrever a noção de conhecimento
intelectual a partir da metafísica das relações principalmente nas suas obras
mais tardias (cf. o item 4 do, já citado, P._King,_2004).
47"[...] si, per impossibile, intellectus divinus non esset, nec per consequens
rosa in mente divina, adhuc si intellectus creatus maneret, cognosceret rosam
non existentem".
48Cf. Duns_Escoto,_1950-, Vol. 16, pp. 281-309; e Vol. 3, pp. 123-172.