Adorno e Beckett: aporias da autonomia do drama
Quando Theodor W. Adorno escreveu seu ensaio sobre "Fim de partida", sua
intenção era polêmica. Na virada dos anos 1960, o teatro de Samuel Beckett era
apropriado pela moda existencialista francesa e se transformava rapidamente em
ilustração da ausência de sentido da condição humana na era da Guerra Fria.
Destruição, guerra e absurdo metafísico eram as palavras-chave desta primeira
recepção, cristalizada e difundida no influente livro de Martin Esslin, "Teatro
do absurdo" (1961), onde Beckett compõe o panorama do novo teatro europeu ao
lado de dramaturgos ' Ionesco, Adamov, Genet ' com quem ele não tinha muito a
ver. Não foram poucos os que tentaram encontrar um sentido universal por trás
da rotina aparentemente sem propósito dos quatro personagens confinados a um
lugar descrito apenas como "refúgio" ou "abrigo". Nas primeiras resenhas,
referências ao desespero e à falta de esperança em um mundo pós-apocalíptico
eram um lugar-comum no intuito de caracterizar a sobrevida de Hamm, Clov, Nagg
e Nell como uma situação terminal.1
Ao mobilizar "Fim de partida" contra esta primeira recepção, a necessidade
mesma de explicar e encontrar sentido, juntamente com outros pressupostos da
metafísica existencialista, é colocada em questão. Como a prosa de Kafka,
também um objeto da atenção de Adorno, "Fim de partida" evidenciaria o caráter
obsoleto de qualquer interpretação definida como recondução da configuração
artística a uma ideia de sentido. Não haveria muito a encontrar por trás da
peça, nenhuma visão de mundo transmitida por seu autor, nenhuma mensagem a ser
decifrada por seu público. Hermética tanto diante do sentido metafisicamente
assegurado quanto da representação de uma história efetiva para além da
circunscrição do palco, "Fim de partida" exigiria outros critérios de
interpretação. No contexto da recepção da peça, o mérito do ensaio de Adorno se
mostra no fato de ele ter deixado em segundo plano as referências históricas ou
filosóficas exteriores à peça, para insistir na historicidade do material
empregado em sua produção. Atento à articulação interna do drama, sua
interpretação se aproximou do exame mais concreto e filológico da materialidade
da obra. Esta deveria responder pelas questões últimas, não o contrário.
Mimetizando seu objeto, Adorno encontrava os critérios da crítica na obra
mesma, a qual eliminara as referências externas mais óbvias para se concentrar
no conflito entre os personagens.
Diante dos debates atuais sobre teatro, o ensaio de Adorno adquire novamente
uma posição polêmica. Como será discutido ao longo desse trabalho, Adorno
compreende a experiência teatral prioritariamente a partir do drama, ou seja,
do texto teatral, conferindo à encenação um papel secundário, uma espécie de
reservatório dos elementos ilusionistas do teatro. Uma das tendências fortes da
teoria teatral contemporânea, em parte aglutinada em torno do debate provocado
pelo livro de Hans Thies Lehmann, "Teatro pós-dramático", é, por sua vez, a
ênfase em uma experiência teatral na qual o drama não tem primazia alguma
perante outros elementos que entram em conjunção na realização de um
espetáculo. O drama estaria aqui abalado como representação de um conflito cujo
traço estilístico central seria a contraposição de personagens por meio do
diálogo. Além disso, na economia do espetáculo, o texto propriamente dito não
seria mais o eixo centralizador, mas tão somente um elemento dentre outros ' a
cenografia, a iluminação, a música ou a presença física do ator ' na composição
do que se chama de "materialidade da cena". Sob muitos as aspectos, a ênfase na
situação teatral ou em um teatro do real, como o defende Lehmann, se traduz no
tratamento insuficiente, senão ingênuo, de conceitos-chave da estética teatral
como mimèsis, representação e autonomia. Nesse contexto, o caráter extemporâneo
do ensaio adorniano poderia ter algo a dizer aos atuais debates a respeito da
alegada superação do teatro dramático. Chamar a atenção para os motivos que o
levaram a conferir tal primado ao texto dramático em detrimento de sua
encenação, como será feito a seguir, permitirá discutir as aporias de uma
compreensão da experiência teatral calcada em uma rigorosa concepção de
autonomia da arte.
• • •
Na estética de Adorno, a primazia do drama perante sua encenação, assim como da
partitura musical em relação à execução, só se justifica no contexto de uma
compreensão mais ampla do conceito de obra de arte. A desconsideração deste
dado poderia sugerir a antipatia deste autor pelo componente, por assim dizer,
mais vivo da experiência estética. Pelo menos desde a década de 1930, a relação
com o receptor é um elemento lateral de seu exercício crítico, tal como ele
escreve a Horkheimer em 1938: "minha tese era a de que a teoria social da arte
não deve trabalhar com as origens e com a psicologia do artista e nem
primariamente com o efeito e com a recepção das obras de arte, mas com sua
técnica própria enquanto instância representativa da sua produção" (Adorno;
Horkheimer, 2004, p. 30). Embora o estudo da recepção das obras de arte não
seja o ponto forte de sua reflexão, Adorno dedicou alguma atenção não só à
questão da escuta musical, mas também a avaliar tendências de interpretação.
Suas críticas à execução de peças de Bach com instrumentos de época como uma
forma de historicismo musical o comprovam.2 A ideia mesma de experiência
estética, no sentido da relação da obra de arte com seu receptor, não merece,
contudo, um tratamento mais aprofundado. Diante disto, não são só os esforços
de formular uma concepção de experiência estética a partir da Teoria estética
que sofrem da falta de material de trabalho.3 As críticas à estética adorniana
pela desconsideração do receptor, que o desqualificariam como referência de
avaliação de fenômenos artísticos como a performance, o happening e a
instalação, correm, por sua vez, o risco de perder de vista o mais interessante
de seu trabalho: a consideração do objeto artístico propriamente dito, não do
ponto de vista do processo produtivo, mas da coisa mesma produzida (cf.
Rebentisch, 2003, pp. 101-145).
É assim que o primado dado por Adorno ao drama deve ser situado no interior do
processo que confere à obra de arte o estatuto de coisa produzida: o movimento
de autonomização da obra de arte em relação ao mundo empírico, cuja
complexidade caberia ao conceito de aparência (Schein) circunscrever. O
conceito de autonomia não se refere aqui somente ao esforço da obra de arte em
negar finalidades externas a ela, como as do mercado, em vista do
desenvolvimento de sua lógica imanente, fenômeno este analisado por Adorno em
reflexões que vão da música nova à indústria cultural. A autonomia circunscreve
também a objetivação da obra de arte como artefato. "Na medida em que as obras
de arte são obras, elas são coisas em si mesmas, objetivadas em virtude de sua
própria lei formal" (Adorno, 1997, pp. 152-153). A defesa da autonomia depende
do conceito de obra de arte: por um processo imanente de formalização, ela
adquire este caráter paradoxal de coisa que a liberta do domínio do produtor e
a disponibiliza à apropriação alheia, seja pelo mercado, seja pelo receptor ou
ainda pelo intérprete ou encenador, como nos casos da partitura e do drama. A
obra de arte é aqui um objeto como qualquer outro, socialmente produzido e
alienado de seu produtor. Não é de estranhar que a noção mesma de fetichismo
não seja exclusividade de suas análises dos produtos da indústria cultural, mas
também perpasse sua reflexão sobre o processo de racionalização da obra de
arte, ou seja, a conquista de autoconsciência pelo material artístico à medida
que se liberta da obrigatoriedade de seu uso tradicional. Não é o caso de
desenvolver esta questão aqui, mas apenas de salientar a dialética inscrita na
autonomia da obra de arte: sua diferença em relação ao mundo empírico é
indissociável de um processo social que confere a ela o caráter de coisa
produzida. Não reconhecer a superioridade do texto perante sua execução
equivaleria a desconhecer a dialética atuante na produção do drama e da
partitura.
Que no drama a encenação seja considerada a coisa mesma e não o texto
impresso, que na música seja o som vivo e não as notas na partitura,
atesta a precariedade do caráter de coisa na arte, sem que, por isto,
a obra seja liberta de sua participação no mundo das coisas.
Partituras não são só quase sempre melhores que as execuções, mas
também são mais que apenas indicações para as execuções; este mais é
a coisa mesma. De resto, os dois conceitos de coisa da obra de arte
não são incondicionalmente separáveis. (Adorno, GS 7, p. 153)
A objetivação da obra implica tanto esta participação no mundo das coisas
quanto a reação a ela, uma tendência imanente graças à qual a obra busca
distinguir-se do mundo empírico e afirmar sua autonomia. "A diferença das obras
de arte em relação à empiria, seu caráter de aparência, se constitui nesta
empiria e na tendência contra ela" (Adorno, GS 7, p. 158). Nomear esta
diferença de aparência explicita a dialética entre a obra de arte e o mundo
empírico: no caso de obras literárias, a diferença entre a obra e a realidade é
imprescindível à simulação de realidade. Em outras palavras, a diferença é
imprescindível à apresentação verossímil de uma possível realidade da qual vive
o ilusionismo artístico. Uma das apresentações mais acessíveis a esta questão
foi dada por Adorno ao comparar a reação do que ele entende por romance
contemporâneo ' o romance europeu das primeiras décadas do século XX ' ao
romance tradicional, ou seja, ao romance realista do século XIX cujo apogeu
estaria no romance puro de Flaubert.
O romance tradicional […] deve ser comparado ao palco italiano do
teatro burguês. Essa técnica era uma técnica de ilusão. O narrador
ergue uma cortina e o leitor deve participar do que acontece, como se
estivesse presente em carne e osso. A subjetividade do narrador se
afirma na força que produz essa ilusão e […] na pureza da linguagem
que, através da espiritualização, é ao mesmo tempo subtraída do
âmbito da empiria, com o qual ela está comprometida. (Adorno, GS 11,
p. 60)
Como indica a referência ao palco italiano, o romance tradicional seria
caracterizado por uma relação não problemática com o caráter de aparência ou de
ilusão ' aqui os termos são sinônimos ' da obra de arte. Assim como na
construção da cena autêntica valorizada por teóricos do teatro ilusionista como
Diderot, também no romance tradicional o desafio reside em apagar os rastros do
processo de formalização da obra. O material heterogêneo, assim como a reflexão
de natureza intelectual, capaz de desviar a atenção do material narrativo para
o trabalho de composição, é extirpado. Como a tela da pintura realista, a
escrita romanesca também deve ser transparente.
O romance contemporâneo, por sua vez, se caracteriza pelo esforço de voltar-se
contra o encobrimento de seu caráter de aparência, explicitado agora pelo
próprio narrador como a "mentira da exposição". A reflexão é reintroduzida
neste novo romance, mas não de maneira externa, alheia à constituição formal da
obra. Ao contrário, agora sua função é imanente à forma, reformulando o papel
convencional do narrador frente à sua narrativa. Ele sai dos bastidores,
abandona os disfarces da onisciência e da onipresença e se apresenta ao leitor
na figura daquele que busca, "como um atento comentador dos acontecimentos,
corrigir sua inevitável perspectiva. A violação da forma é inerente a seu
próprio sentido" (idem). Tal como o realce da textura da tela ou a queda da
quarta parede, a explicitação do narrador não é mais um defeito de
formalização, mas uma tendência inscrita no processo mesmo de conscientização
do material artístico. A indistinção entre comentário e ação é lembrada como
uma violação da forma imanente à forma do romance proustiano, por exemplo, o
qual tateia incessantemente seu negativo ao fazer da composição do romance um
de seus fios condutores. A forma refletida como conteúdo é o protesto contra o
caráter de aparência da obra de arte.
Certamente este protesto implica novos problemas de composição. À medida que a
explicitação da aparência revela a artificialidade do gesto instaurador da obra
de arte ' a tomada da palavra pelo narrador ', início e fim não demarcam mais
os limites da diferença entre o mundo empírico e a obra fechada sobre si mesma,
mas se revelam como instantes tênues e arbitrários de passagem entre esses dois
âmbitos. Novamente Proust evidencia o problema ao confundir, no início de seu
romance, as figuras do herói e do narrador. "O início da Recherche proustiana
deve ser interpretado como a tentativa de driblar o caráter de aparência:
conduzir sorrateiramente ao interior da mônada da obra de arte sem a
instauração violenta da imanência de sua forma e sem a simulação de um narrador
onipresente e onisciente" (Adorno, GS 7, p. 156).
Ao violar a totalidade da forma, como Proust revelando ao leitor a junção entre
o início e o fim de seu romance, o realce da "mentira da exposição" também
prejudica o uso das convenções formais na composição da obra de arte. Não só
sua instauração se torna uma demarcação artificial, mas também o final é
privado daquela necessidade capaz de arrematar a obra como totalidade fechada
sobre si mesma. Adorno está aqui apontando para um problema central da peça de
Samuel Beckett, "Fim de partida": a questão do fim, de como encaminhar o
encerramento do jogo, trabalhado explicitamente como tema ao longo de toda
peça.
Uma vez separada da convenção, é certo que nenhuma obra de arte foi
mais capaz de terminar convincentemente; os finais tradicionais, por
sua vez, só são convincentes por também simular como totalidade da
forma a convergência temporal entre os momentos individuais e o ponto
final. Em muitas obras modernas que alcançaram grande audiência, a
forma foi mantida artificialmente aberta porque elas queriam dar
forma ao fato de que a unidade da forma estava vedada a elas. A má
infinitude, o não poder terminar, torna-se expressão e princípio de
método livremente escolhido. A peça de Beckett, que, ao invés de
concluir, se repete palavra por palavra, reage a isto. (Adorno, GS 7,
p. 221)
Segundo estas colocações, Beckett teria lidado com o problema do fim
convincente ao incorporá-lo como um tema. Ao invés de preparar sua resolução, o
conflito entre Hamm e Clov se transforma num artifício para ensaiar e
desacreditar tentativas de desenlace. É assim que sua irresolução pode ser
vista como um sinal da conquista imanente pelo drama da consciência de seu
caráter ilusório. Como se vê, Adorno não recorre a uma explicação metafísica da
condição humana, muito menos a acontecimentos históricos cifrados, mas procura
investigar a construção dramática da peça a partir da situação histórica do
material artístico. Questões de conteúdos não se dissociam dos problemas
formais, mas se iluminam reciprocamente. Diante deste estado da questão, não há
possibilidade de progresso ou desenvolvimento tal como no drama do século XIX '
a curva da ação dramática em vista da peripécia e da resolução ' mas o
contraponto não resolvível de temas que impulsionam e suspendem o progresso da
ação. Nas falas de Hamm, por exemplo, o desejo de que as coisas cheguem ao seu
fim é contraposto ao cuidado extremo com os detalhes ínfimos de sua própria
sobrevivência. Falas como "está quase acabado" ou "algo segue seu curso", que
se repetem ao longo do texto como temas musicais, explicitam a tendência da
forma à resolução ao mesmo tempo que apontam, na ausência de desenvolvimento,
para a impossibilidade de o conflito resolver-se, impedindo que o drama se
feche como unidade de uma multiplicidade.
Tal diagnóstico permite então a Adorno caracterizar esta estranha configuração
do drama. Se as convenções tradicionais diziam que o conflito entre os
personagens, exposto formalmente no diálogo, encaminharia a ação, primeiro,
para a intensificação do conflito e, depois, para sua resolução, conferindo
unidade ao conjunto, "Fim de partida" faz uso destes termos sem sua função
originária. O conceito de drama ganha então um novo sentido.
Qual é a razão de ser das formas quando desaparece sua tensão com
aquilo que não lhes é homogêneo sem que por isso o progresso do
domínio estético do material possa ser freado? Fim de partida escapa
dessa dificuldade ao transformá-la em coisa sua, tornando-a seu tema.
[…] Os constituintes do drama aparecem após sua morte. Exposição,
complicação (Knoten), ação, peripécia e catástrofe retornam como
elementos decompostos de uma autópsia da forma dramática. […] Aqueles
elementos constituintes naufragam juntamente com o sentido que
outrora fazia parte do drama; Fim de partida estuda, como num tubo de
ensaio, o drama da época atual, a qual não tolera mais o que
constitui o drama. (Adorno, GS 11, p. 303)
Este emprego das formas artísticas no momento em que elas se encontram
desprovidas de sua função originária foi expressamente conceituado por Adorno
como paródia. O conceito aponta para as ruínas do drama apropriadas por "Fim de
partida", mas não é só o distanciamento histórico em relação ao material
artístico herdado da tradição que está em causa. "Fim de partida" não
corresponderia a uma apropriação arbitrária de materiais desprovidos de seu
caráter vinculante, de sua Verbindlichkeit, um fenômeno detectado por Adorno já
na década de 1920 em seus primeiros escritos sobre o expressionismo.4 A peça
não teria surgido de um cardápio de formas e convenções passadas
disponibilizadas livremente ao gosto de seu autor. Ao contrário, sua
formalização seria indissociável da conscientização imanente à configuração
artística do caráter obsoleto de seu próprio material.
Elas [as categorias dramáticas] são todas parodiadas. Mas não se
zomba delas. De maneira enfática, a paródia se define pela utilização
de formas na época de sua impossibilidade. Ela demonstra essa
impossibilidade e transforma deste modo as formas. As três unidades
aristotélicas são conservadas, mas o drama mesmo perece. Assim como
ocorre com a subjetividade, cuja representação póstuma é Fim de
partida, também o herói é abandonado; da liberdade só se conhece
aquele reflexo impotente e ridículo de decisões que não são nada.
Também nisso as peças de Beckett são herdeiras dos romances de Kafka
[…] Aquilo que impede a dramatização dos romances de Kafka se torna
sua responsabilidade. (Adorno, op. cit., pp. 302-303)
A paródia caracteriza os diferentes matizes do conflito entre Hamm e Clov: a
impossibilidade de terminar, a ausência de um desenlace capaz de conferir
unidade e sentido retrospectivo à ação transcorrida. De modo geral, ela resulta
do processo de racionalização imanente à arte moderna. No caso específico de
Beckett, este processo se desdobra na apropriação do "material artístico mais
avançado", localizado por Adorno, de modo bastante polêmico, nos romances de
Kafka, um autor que Beckett nunca reconheceu como próximo.5 Cabe aqui uma
observação à parte. É evidente que Adorno sustenta esta questão da "paródia do
drama" com o conceito de material artístico, desenvolvido por ele em seus
trabalhos sobre Schönberg (também citado nestas mesmas páginas do ensaio sobre
Beckett), em especial na "Filosofia da Nova Música". A pertinência da
transposição deste conceito para a análise da literatura e do teatro é uma
questão que permanece em aberto dado o tratamento fornecido por Adorno ao
problema. Mesmo na "Teoria Estética", quando aborda "o conceito de material", a
referência continua sendo Schönberg, como se deduz da afirmação de que o
conceito de material só assumiu forma consciente na década de 1920. Embora a
referência a este conceito seja pertinente à análise do drama, na medida em que
material significa "tudo com que o artista trabalha", uma abordagem mais
rigorosa de seu progresso, tal como feito na música, está ausente do trabalho
de Adorno sobre Beckett. Ele limita-se à disponibilização das convenções
dramáticas e à referência ao romance kafkiano como o material mais avançado.
Referências a T. S. Eliot e James Joyce como fontes deste material são
mencionadas de passagem na abertura do ensaio, mas não recebem nenhum
desenvolvimento. A história do drama, por sua vez, aparece numa breve menção à
crise do drama naturalista de Ibsen. Ainda que a tese da paródia do drama seja
muito elucidativa, o encaminhamento dado à questão do progresso do material
artístico em Beckett é bastante lacunar quando comparado ao que ele desenvolveu
no campo da música.
Ao aproximar Beckett e Kafka por meio do conceito de material, Adorno retoma
tanto seus debates da década de 1930 com Benjamin quanto seu ensaio "Anotações
sobre Kafka", escrito ao longo de toda a década de 1940. Em ambos os casos,
Adorno defendeu, contra Benjamin, a impossibilidade de se afirmar o caráter
cênico das parábolas de Kafka, uma tese que traria, na opinião de Adorno, a
malfadada influência de Brecht sobre seu amigo.6 Sem entrar nos meandros destas
interpretações de Kafka, cabe apenas ressaltar os motivos da resistência de
Adorno ao pretenso caráter cênico da obra de Kafka, pois são eles que a
aproximam de "Fim de partida". Tais motivos ordenam-se em torno de uma tese a
respeito da história do drama: ele é expressão de condições objetivas para o
exercício da liberdade pelo herói: "o drama é possível apenas onde a liberdade
é visível, mesmo que ela seja o resultado de uma luta; todo outro tipo de ação
é fútil. Os personagens de Kafka são atingidos por um mata-moscas, antes de
começarem a se movimentar" (Adorno, 1998a, p. 280). O drama não sobrevive sem a
liberdade do herói. Daí resulta a opção de Adorno por caracterizar a obra de
Kafka como épica. Os problemas aqui não são menores. Se a obra de Kafka é
épica, ela não apresenta, porém, o desenvolvimento não problemático da forma do
romance, pois o romance kafkiano é, na visão de Adorno, um herdeiro do
expressionismo. Ele não fala do mundo, mas da "subjetividade completamente
alienada". Daí seu caráter paradoxal: "Épica expressionista é um paradoxo. Ela
narra aquilo que não se deixa narrar, o sujeito inteiramente voltado sobre si
mesmo e ao mesmo tempo privado de liberdade, um sujeito que na verdade não
existe enquanto tal", mas que é transformado em coisa e levado "a uma
objetividade que se exprime através da própria alienação" (Adorno, op. cit., p.
262). É com esta concentração expressionista do mundo ao "eu" que Adorno indica
uma explicação do hermetismo dos romances de Kafka. "O princípio hermético é o
princípio da subjetividade completamente alienada" (Adorno, op. cit., p. 258).
Seria justamente este "princípio hermético" o "material mais avançado" lembrado
por Adorno no ensaio sobre Beckett. Apropriado por "Fim de Partida", tal
"princípio" resultaria no paradoxo que eleva a peça aos olhos de Adorno:
Beckett teria empregado na construção de seu drama um material contrário à
configuração da ação dramática, ou seja, a subjetividade alienada que priva o
herói do exercício da liberdade.
É, finalmente, esta discussão a respeito da historicidade do material artístico
que permite a Adorno vincular o drama de "Fim de partida" ' a impossibilidade
de terminar ' a um diagnóstico de época mais abrangente, a saber, ao tema
adorniano do enfraquecimento do sujeito no capitalismo tardio. O fim do drama,
sua conversão em paródia de si mesmo, pode ser lido então como cifra de um
processo histórico e artístico. Clov não abandona o refúgio, de modo a conferir
sentido retrospectivo ao conflito com Hamm, por não dispor das condições de
exercício da liberdade disponíveis ao herói do drama burguês. A resolução da
ação não é uma constelação possível diante da situação histórica atual do
drama. Também é por meio desta posição que Adorno articula sua contraposição às
duas linhas de interpretação que marcaram a recepção inicial da peça: a
representação da guerra nuclear e o absurdo existencialista.
Contra as leituras de "Fim de partida" como drama da era nuclear, Adorno lembra
como a natureza é referida por Clov após espiar pelas janelas do refúgio: "não
há mais natureza". Em termos adornianos: a história não surge na figura da ação
dos homens, muito menos como representação de eventos históricos, mas cifrada
na paisagem, como termo de um processo de dominação da natureza que extirpou o
próprio homem.
O fato de que todos os homens estão mortos é sorrateiramente
contrabandeado. […] A fase da completa reificação do mundo, que não
deixou nada além do que foi feito pelo homem, é indistinguível da
catástrofe permanente e de mais um processo catastrófico causado
pelos homens, em que a natureza foi extinta e após o qual nada mais
cresce. (Adorno, GS 11, pp. 285-286)
Embora bastante eloquente, o argumento é insuficiente para evitar que a peça
seja reduzida a um drama da guerra nuclear, uma vez que esta poderia muito bem
ser a última estação do processo de dominação da natureza. A catástrofe final
seria incomensurável à relação entre consciência histórica e experiência
individual e, por isto, impronunciável pelos personagens, mas acessível ao
crítico atento ao progresso da dominação da natureza. Do mesmo modo como sempre
desconfiou da possibilidade de um drama sobre o fascismo, Adorno parece
precaver-se apenas contra a representação da magnitude do conflito, reforçando
a impossibilidade de transpor seu caráter anônimo à ação de personagens
dramáticos.
Todo pretenso drama da era atômica seria o escárnio de si mesmo,
simplesmente porque seu enredo já falsificaria de modo reconfortante
o horror histórico do anonimato ao transpô-lo em personagens e ações
humanas, fitando talvez pasmo os figurões que decidem se o botão deve
ou não ser apertado. A violência do indizível seria imitada pela
vergonha de mencioná-lo. Beckett o mantém nebuloso. (Adorno, GS 11,
p. 286)
O que permite a Adorno afastar "Fim de partida" de um drama temático,
interpretável à luz das circunstâncias históricas imediatas é esta menção à
"nebulosidade". À luz do diagnóstico do enfraquecimento do sujeito, esta
indeterminação é uma consequência da dificuldade de apreensão da realidade
histórica pela conformação artística. Uma vez que a produção de uma obra de
arte também é uma relação entre sujeito e objeto, o enfraquecimento do sujeito
como instância idêntica a si mesma, autônoma e plena de significado afeta o
tratamento dos materiais que se apresentam a ele. Mais que a natureza dos
conflitos históricos no capitalismo tardio, o que determina o "tabu sobre a
história", que pesa sobre "Fim de partida", é esta incomensurabilidade entre o
curso da história e a capacidade individual de apreendê-la e transformá-la em
consciência e experiência histórica.7
O tema da "nebulosidade" tem estreita conexão com a questão do realismo em
Beckett. Enquanto a recepção inicial desta peça se cindia entre as referências
históricas e biográficas palpáveis e as categorias universais de cunho
metafísico, diversos estudos ' Marjorie Perloff, Ian Kott, Fábio de Souza
Andrade ' têm buscado reavaliar a referencialidade da peça a estratos de
significação exteriores a ela.8 Ainda que a gênese dos textos revele uma
estratégia de apagamento das referências externas imediatas, é inegável que os
materiais cênicos e a linguagem empregados por Beckett estão embebidos de
mediações históricas. Deste modo, a discussão do realismo é encaminhado por
Adorno por meio de uma tendência à indistinção entre interior e exterior, entre
materialidade cênica e representação. O realismo seria enviesado, de segunda
ordem. A história não aparece como objeto de representação, mas por meio de
seus vestígios, como o "cinza" referido por Clov do alto de sua escada quando
mira o exterior com a luneta.
O descompasso entre o curso da história e a capacidade individual de
transformá-lo em experiência subjetiva teria minado as chances de sucesso de um
realismo de primeira ordem. A ironia do argumento é que esta nebulosidade não é
uma arma apenas contra a tese do drama da era nuclear, mas também contra a
interpretação do "não há mais natureza" de Clov como termo final do processo de
dominação da natureza. O mérito de sua interpretação parece assim estar muito
menos neste vínculo entre dominação da natureza e declínio do sujeito do que na
explicação da impossibilidade de um realismo artístico como uma "aporia da arte
contemporânea". Em outras palavras, a incomensurabilidade entre material e
subjetividade vedaria a reconciliação com os objetos necessária ao realismo.
A realidade não reconciliada não tolera na arte nenhuma reconciliação
com o objeto; o realismo, que não alcança de modo algum o caráter de
experiência subjetiva, silencia a seu respeito, é só uma mímica da
reconciliação. A dignidade da arte não se mede hoje pelo modo como
ela escapa desta antinomia com sorte ou perícia, mas pela maneira
como ela a suporta. Nisto, Fim de partida é exemplar. A peça acata
tanto a impossibilidade de ainda se apresentar e trabalhar materiais
na obra de arte como era costume no século XIX quanto a evidência de
que os modos subjetivos de reação, que substituíram a reprodução na
mediação da lei formal, não são algo primeiro e absoluto, mas algo
último, posto objetivamente. Todo o teor da subjetividade, a qual é
necessariamente hipostasiante, é rastro e sombra do mundo, do qual
ela recua a fim de não servir à aparência e à adaptação demandadas
por ele. (Adorno, GS 11, pp. 291-292)
A exemplaridade de "Fim de partida" perante esta aporia consistiria na
elaboração de uma zona de indiferença entre interior e exterior, entre os
materiais sem os quais a subjetividade não conseguiria expressar-se e uma
espiritualidade que os apagaria. O material não possui sentido próprio e também
não se autonomiza em símbolos da interioridade do indivíduo ' como na passagem
do drama naturalista para o simbolismo do último Ibsen ', pois este não é mais
um complexo autocentrado de sentido. Com isto, as fronteiras entre
interioridade e exterioridade ficam borradas: as situações da interioridade se
confundem com as do mundo físico. Nesta zona de indiferença, as situações
cotidianas que compõem a peça se autonomizam face aos contextos racionais,
históricos e psicológicos que as caracterizariam num drama realista. Elas se
transformam no "negativo da realidade dotada de sentido", um negativo obtido
não da apreensão da realidade, mas do próprio destino da forma dramática.
A tese da paródia do drama indica assim a dificuldade de ainda se sustentar uma
concepção de obra de arte como unidade imanente de sentido. As conexões
imanentes ' sentido de palavras e frases, a conexão significativa entre partes
e todo ' se referiam a um teor metafísico que se apresenta objetivamente no
conjunto do artefato, garantindo a unidade da "estrutura estética do
significado" (Cf. Adorno, GS 11, p. 282). A crise desta concepção de obra de
arte já havia sido detectada por Adorno, novamente, em Kafka, especialmente na
tendência das parábolas kafkianas à alegoria, em virtude da ausência de um
sentido imanente à figuração a ser buscado na interpretação: "os momentos
individuais de uma obra de arte remetem, em virtude da força que os conecta,
para além deles mesmos: a totalidade dos momentos converge em um sentido. Nada,
porém, seria mais inadequado no que diz respeito a Kafka" (Adorno, 1998a, p.
240).9 A mesma tese reaparece na análise de "Fim de Partida", em que ideia e
configuração também não se unificam como na obra de arte clássica ou simbólica.
"A ideia da conformação estética como unidade de ideia e aparência é tão mais
ilusória quanto menos os acontecimentos forem supostos em si mesmos como plenos
de sentido" (Adorno, GS I-1, p. 282).10
Com isto, Adorno constrói um sólido argumento contra a recepção existencialista
de Beckett, difundida nos anos 1960 com o rótulo de "teatro do absurdo". Na
contramão do que vem sendo exposto até aqui, tal recepção não passaria da
restauração de um sentido metafísico decaído, agora sob a forma de uma ausência
positivada, de um sem-sentido elevado à posição de chave explicativa. Ao chamar
a atenção para o atestado de óbito da metafísica tradicional, da qual ainda
viveria o existencialismo, Adorno procura realçar o impacto do curso da
história sobre toda ordenação preestabelecida, à qual a arte ainda poderia
recorrer como fonte de sentido positivo. O papel desempenhado por Beckett na
última seção da "Dialética negativa", as "Meditações sobre a metafísica", não é
de modo algum gratuito. A exemplaridade de "Fim de partida" não consiste,
porém, de modo algum, numa mera eliminação do sentido como referência da obra
de arte, mas, como Adorno afirma na "Teoria estética", em colocá-lo em questão,
desdobrando sua história. Em outras palavras, Beckett teria imposto às
categorias dramáticas a experiência da dissolução de sentido.
Diante da dificuldade crescente para a subjetividade objetivar-se na linguagem
historicamente constituída dos materiais, o sentido imanente da obra se torna
um tema do fazer artístico. Mas a emancipação das obras em relação a uma noção
metafísica de sentido só é esteticamente significativa quando coloca em questão
a ideia de sentido autoevidente. Em outras palavras, elas devem enunciar a
ausência de sentido com a mesma determinação com que outrora o organizavam por
meio de sua lógica interna. É possível então sustentar que "Fim de partida"
lida de modo consequente com esse problema ao tematizar a impossibilidade de
terminar. A ação dramática não chega a termo pois lhe faltaria a referência da
totalidade, da qual depende a junção de partes e todo em um nexo de sentido. "O
pouco, que é ao mesmo tempo tudo, seria que talvez algo se modificasse bem aí.
Este movimento, ou seu adiamento, é a ação. Ele certamente não é mais explícito
que o 'algo segue seu curso', repetido como um tema, tão abstrato
como a forma pura do tempo" (Adorno, GS 11, pp. 313-314). Como o tempo foi
privado da promessa de resolução que marcou a história da ação dramática como
um desenvolvimento em direção ao desenlace, a ação perde o telos que a impelia
à resolução. O fim não aponta para a libertação de Clov, mas, dada a simetria
entre início e fim da apresentação, para a tendência à repetição do círculo
temporal esvaziado. O tableau suspende o conflito numa imagem. "O pêndulo da
dialética suspende-se", afirma Adorno (GS 11, p. 314), citando o conceito de
"dialética em suspensão" de Benjamin.
Cabe aqui uma consideração a respeito da evocação desse termo benjaminiano. Os
longos debates da década de 1930 ensinam que Adorno nunca cita Benjamin apenas
para retomá-lo. Aqui, a diferença é marcante: a imobilização do curso abstrato
do tempo não pode mais ser simplesmente interpretada como uma figura da
esperança. A distância entre os dois autores torna-se ainda mais interessante
caso lembre-se de que o conceito foi cunhado por Benjamin em seus estudos sobre
o teatro épico de Brecht. O conceito de "dialética em suspensão" procurava dar
conta dos elementos libertadores descobertos por Benjamin nos mecanismos de
interrupção da ação. Esta permitia decompor a cena em seus elementos
constituintes, de modo que ela fosse explicitada como um arranjo artificial e,
portanto, historicamente transformável. Suas objeções a Benjamin na época, bem
como sua crítica posterior ao teatro brechtiano, salientam o enfraquecimento
desta possibilidade transformadora inscrita na ideia de interrupção. O curso
recente da história não teria apenas privado a ação de seu telos, mas também a
interrupção de sua dimensão emancipadora. Esta teria migrado para um exercício
de negação fundado na observação da legalidade interna do objeto. No caso de
"Fim de partida", seu potencial crítico estaria no enfrentamento deste processo
de esfacelamento dos pressupostos da forma dramática. A arte manteria seu
potencial crítico neste "estudo, como num tubo de ensaio, do drama da época
atual, a qual não tolera mais o que constitui o drama" (Adorno, GS 11, p. 303).
Não é à toa que Adorno conclua o ensaio aproximando "Fim de partida" da
descrição feita por Proust da morte de Bergotte. Consciente da proximidade da
própria morte, Proust iniciou um registro minucioso do avanço de sua doença de
modo a incorporá-la na descrição da morte do escritor preferido de seu
narrador. Beckett, que escreveu uma monografia sobre Proust nos anos de
juventude, teria apresentado um diálogo semelhante com o fim. A irresolução de
"Fim de partida" afirma que a morte não é uma demarcação nítida entre a vida e
sua extinção. A vida não tem mais em seu término o telos que a coroa como um
percurso dotado de sentido. Como na história do caçador Grachus de Kafka, a
morte é apenas a convivência cotidiana com um processo em desintegração.
Os textos de Benjamin sobre o teatro épico, por sua vez, para não mencionar os
textos do próprio Brecht, destoam da reflexão teatral de Adorno por recusarem
tal primazia do drama. É certo que Brecht introduziu modificações profundas na
dramaturgia, de modo a extrair as cenas do curso da ação e conferir a elas um
caráter episódico, independente de um todo previamente traçado. O cerne da
reflexão sobre o teatro épico está, contudo, na colaboração entre esta
dramaturgia e um conjunto sofisticado de técnicas de encenação. "A encenação,
diz Benjamin, não significa mais a interpretação virtuosística do texto, mas
seu controle rigoroso. O texto não é mais o fundamento da encenação, mas a
tabela onde seu rendimento é registrado em novas formulações" (Benjamin, GS II-
2, p. 520). O processo de encenação não conquista só independência perante o
texto, mas também prioridade. Nada mais distante da estética de Adorno. Não se
trata aqui de comparar ambos, mas de localizar o papel conferido por Adorno à
encenação. Como nota de rodapé a esta questão, vale apenas dizer que o trabalho
de Beckett como diretor de teatro se aproxima muito desta posição defendida por
Benjamin. Seria então possível supor que sua encenação de "Fim de partida" para
o Schiller Theater de Berlim em 1967, cuja análise exige um outro ensaio, daria
margem a interpretações distintas daquela empreendida por Adorno (cf.
Gontarski, 1992).
Foi visto acima que o privilégio concedido por Adorno ao drama decorre do
processo de objetivação da obra de arte, o qual seria responsável tanto por
distingui-la da "empiria" quanto por despertar nela a revolta contra esta
distinção. Autoconsciente de seu caráter de aparência, a obra denuncia a
mentira que cerca sua instauração como um domínio distinto da realidade. O
interessante da "Teoria estética" de Adorno reside em não concluir desta aporia
da aparência a necessidade de eliminá-la do âmbito da arte. A aparência é
indissociável do caráter de objeto da obra de arte. Daí decorre que Adorno nem
abandone o conceito de obra de arte, nem veja com bons olhos práticas
artísticas que buscariam devolver a arte ao fluxo da vida real, libertando-a de
seu caráter de coisa. Ainda que Adorno tenha se dedicado a elaborar uma teoria
da reprodução musical, onde propõe uma sofisticada relação dialética entre
notação musical e performance, sua posição é restritiva à compreensão de
fenômenos como o happening, a performance, a instalação e mesmo a aproximação,
nas últimas décadas, entre o teatro e estas práticas artísticas. A "Teoria
estética" teria dificuldades em transitar por terrenos em que a arte rejeita o
caráter de objeto ou exige a presença do receptor para se configurar como
experiência estética. Diante da teoria do teatro contemporâneo (a teoria do
teatro pós-dramático), contudo, a apego de Adorno ao conceito de aparência
ainda tem algo a dizer. Ele permite pensar as práticas teatrais atuais sem
abandonar o conflito entre representação e situação teatral. Em outras
palavras, sua severidade é necessária contra a apologia da situação teatral que
reduz o teatro ao que Hans-Thies Lehmann definiu como a "percepção afetiva e
sensível de um momento de vida inscrito na participação real-corporal do
espectador" (Cf. Lehmann, 2005, p. 189). Os elementos corporais e materiais da
experiência teatral não exigem necessariamente a dissolução completa da
representação ou da mimèsis, mas, justamente ao provocar outras formas de
teatralidade, os inserem em uma nova relação com as práticas teatrais.
É neste momento que "Fim de partida" se mostra atual, pois é justamente este o
seu problema: a relação entre o drama e o teatro. Retomar o modo como Adorno
apresenta a questão, esquivando-se da consideração da peça como teatro, pode
encaminhar a discussão. Se sua reflexão a respeito da paródia do drama ilumina
a tendência anti-ilusionista inscrita em "Fim de partida", ela pouco influi no
ilusionismo como critério de composição do espetáculo. Em outras palavras, sua
abordagem do teatro é, de modo geral, limitada por compreender a encenação
simplesmente como o componente ilusionista do teatro. Se a obra é uma
construção racional que, segundo seu próprio conceito, busca refletir sobre seu
caráter de aparência, ela será tanto mais verdadeira quanto mais for capaz de
incorporar, como uma necessidade imanente, esse seu "outro", indicado por
Adorno como o não conceitual, o ilusionista, ou ainda, o mimético. O elemento
heterogêneo é imanente a elas (Adorno, GS 7, p. 138). É justamente este o
"papel" conferido por Adorno à encenação, ao componente "vivo" do teatro.
A camada pré-artística da arte é simultaneamente a recordação de seu
traço anti-cultural, de sua desconfiança da antítese em relação ao
mundo empírico, a qual deixa intocado o mundo empírico. Obras de arte
significativas almejam, contudo, a incorporar aquela camada hostil à
arte. Onde ela falta, por suspeita de infantilidade […], no drama sem
ilusão que apagou o último resquício da magia do cenário, a arte
capitulou. Mesmo sobre Fim de partida de Beckett a cortina se ergue
prometetora; peças teatrais e práticas de encenação que a abandonam
saltam sobre sua sombra com um truque desamparado. O momento ali em
que a cortina se levanta é, porém, a expectativa da aparição. Mesmo
querendo exorcizar o colorido do circo, as peças de Beckett, cinzas
como o instante após o pôr-do-sol e o fim do mundo, são fiéis a ele
ao serem encenadas sobre o palco; e sabe-se o quanto seus anti-heróis
foram inspirados pelos clowns e pelas comédias-pastelão. Sua
austeridade também não implica de modo algum abrir mão de todo
figurino e cenário: o ajudante Clov, que em vão gostaria de partir,
veste-se como um viajante inglês, a colina de areia em Dias felizes
iguala-se às formações do oeste americano. (Adorno, GS 7, pp. 126-
127).
Consequências importantes para a interpretação de "Fim de partida" decorrem
desta concepção de obra de arte como dialética de mimèsis ' a ilusão ' e
construção racional: se a racionalidade artística está na objetivação da arte
em obra, todos os elementos mais próprios à tradição da encenação teatral se
tornam o "outro" da forma racional. A obra de arte autônoma incorpora a
dialética entre ilusão e realidade como um momento de sua formalização. No caso
do teatro, ela acolhe os mecanismos ilusionistas de encenação em sua estrutura
racionalizada. Adorno parece não levar em conta que a encenação também sofreu
algo comparável a este "processo de racionalização" encontrável no drama.
Elementos como o vestuário, a cortina e o palco italiano, para ficar naqueles
mencionados por ele, não são explicáveis somente como o componente mimético
acolhido pela obra racionalizada, mas também se transformam ao longo da
história do teatro e estabelecem relações diferenciadas com o efeito
ilusionista. Contra Adorno, vale aqui o lembrete de Brecht: na história do
teatro, a exigência de naturalidade (o ilusionismo) variou segundo o grau de
desenvolvimento técnico. Ela não se impôs a Shakespeare como se colocaria a
Goethe (Brecht, 1967, p. 300). Do mesmo modo, foi a transformação das técnicas
de encenação ' incorporando elementos das técnicas do rádio e do cinema ' que
tornou possível algo como a formulação, pelo mesmo Brecht, de técnicas de
encenação com função anti-ilusionista.
Algo semelhante ocorre com sua interpretação do vínculo entre Clov e a tradição
de humor físico do clown e das comédias-pastelão. Tal relação é possível
somente a partir de uma forma de racionalidade ' a obra de arte autônoma '
capaz de acolher seu outro sem causar-lhe violência. É assim que a obra de arte
racionalizada rememora a pré-história humana como o animal primitivo recalcado
pela civilização. O viés freudiano do argumento de Adorno transforma o humor
físico na exposição da regressão da subjetividade a um estado genético
primitivo, ou seja, a seu limite físico. Retomando implicitamente suas objeções
à valorização por Benjamin da gestualidade do teatro épico, Adorno não vê o
clown por meio da interação entre o corpo humano e a técnica teatral, mas pela
regressão do indivíduo à existência biológica, algo que ele já havia exposto em
seu ensaio sobre Kafka: o gesto é um elemento pré-linguístico, signo da revolta
de uma experiência recalcada pela redução da linguagem ao conceito.11 A obra de
arte autônoma, por sua vez, assim como o ensaísmo filosófico, seriam formas de
racionalidade capazes de acolher o elemento mimético do pensamento. Este, pela
dialética entre conceito e exposição; aquela, pela dialética de aparência e
construção racional. Em sua defesa rigorosa da autonomia do drama, o clown e,
no limite, a própria presença física do ator no palco permanecem intocados pela
racionalização dos materiais artísticos. Adorno não leva em conta nem a
construção do movimento corporal pela técnica teatral, nem as transformações da
tradição do clown pelo cinema silencioso. De modo geral, todos estes elementos
servem à composição de uma invariável ilusionista que a arte mais avançada não
pode abolir sob o risco de perda da dialética entre mimèsis e racionalidade.