Discursos em disputa: uma leitura alternativa acerca dos dilemas da ação
internacional na Somália durante a década de 1990
Introdução
O artigo aborda, por meio de uma análise discursiva, os dilemas experimentados
pelos agentes internacionais nas operações de paz levadas a cabo na Somália nos
anos 1990. Informado por uma abordagem pós-colonial, o artigo argumenta que o
discurso dominante sobre as operações de paz na Somália concentrou suas
críticas nas falhas técnicas de tais operações, silenciando sobre a gramática
de desqualificação da diferença que continua orientando a produção de
conhecimento sobre os somalis e a intervenção política no país a despeito do
fim do colonialismo formal (ver Costa_2006). De fato, o entendimento de
"colonialismo" por parte dos pensadores pós-coloniais não se refere apenas às
experiências históricas do imperialismo ocidental no mundo não europeu, mas diz
respeito a um conjunto continuado de práticas por meio das quais o Ocidente
continua mantendo seu domínio e seu controle sobre os povos outrora colonizados
(ver Darby_e_Paolini_1994).
O trabalho visa a evidenciar as narrativas temporais divergentes empregadas
pelos atores internacionais (Estados Unidos e Nações Unidas) vis-à-vis o
"Outro" somali. Uma vez identificadas essas construções discursivas em disputa,
argumenta-se que os principais dilemas vivenciados no curso das operações
empreendidas pela ONU e pelos Estados Unidos na Somália não foram de natureza
técnica, concernente a problemas de coordenação entre as principais forças
envolvidas, como usualmente se argumenta. Diferentemente, argumenta-se que
existiu uma disputa de natureza política entre os Estados Unidos e as Nações
Unidas. Tal disputa, amparada por duas concepções discursivas distintas acerca
da temporalidade somali, conduziu, por sua vez, a duas visões divergentes
acerca da "exceção" somali. Essa disputa era de suma importância para os dois
principais atores envolvidos (Estados Unidos e ONU), já que por meio dela
buscava-se definir quem, entre eles, se constituía como a autoridade soberana
no país dito "falido".
Somália: um "Estado em ruínas"
O discurso das Nações Unidas sobre a Somália a partir de 1991, quando o ditador
Siad Barre foi deposto, a representava, ecoando o discurso presente nos tempos
coloniais, como uma "falta". Em julho de 1992, Boutros-Ghali (S/24343, par. 24
apud Boutros-Ghali 1996, 174, grifo meu) representou a situação da Somália da
seguinte forma:
Somalia is today a country without central, regional or local
administration, and without services: no electricity, no
communications, no transport, no schools and no health services.
Throughout the country, there are incredible scenes of hunger,
disease and dying children. [...] The absence of food is both the
cause and the result of lack of security.
Segundo consta no discurso da ONU, o colapso do Estado somali e a guerra civil
subsequente conduziram a uma falência generalizada de todas as instituições,
todos os serviços e toda a infraestrutura do país; o que significa que o
esforço de reconstrução teria de ser feito a partir das ruínas de um país.
Lauderdale_e_Toggia_(1999) nos mostram que a principal referência usada para
analisar a extensão da crise somali foi sua condição de "statelessness"
avaliada pela falta de uma autoridade política central, evidente no país desde
a queda de Barre. Na ausência de tal autoridade, a Somália foi vista como um
espaço de caos e perigo, conforme consta na seguinte passagem do artigo de
Keith Richburg publicado no The Washington Post em setembro de 1992:
Just over 30 years after it officially became an independent nation,
Somalia essentially has ceased to exist. The land mass on world maps
that defines the horn of Africa is now a dangerous and chaotic place
of clan-based warfare [...].
Como consequência da condição somali de "statelessness", duas imagens foram
largamente utilizadas para representar a Somália pós-Barre; a de uma Somália
"anárquica" e a de uma Somália imersa num "estado de natureza hobbesiano".
Discursando desde a sala Oval da Casa Branca, no dia 4 de dezembro de 1992, o
presidente Bush, por exemplo, colocou: "There is no government in Somalia. Law
and order have broken down. Anarchy prevails." 1 Nesse sentido, o colapso do
Estado somali teria resultado numa situação de anarquia entendida não apenas
como ausência de governo, mas como caos e desordem. Por outro lado, a metáfora
do "estado de natureza" também se revelou recorrente no período pós-Barre. Em
outubro de 1992, num artigo publicado no The Washington Post, Charles
Krauthammer disse:
Somalia has no government. It is in a Hobbesian state of nature. It
desperately needs to be taken over and run by some outside power so
that its suffering people can be afforded the minimal human decencies
of food, medicine and personal safety.2
A imagem do "estado de natureza hobbesiano" sugere a ideia de um ambiente
natural, não domesticado, violento e, ademais, temporalmente anterior ao Estado
moderno. De acordo com Walker (2006), a narrativa hobbesiana do contrato social
dá legitimidade ao Estado moderno ao projetar os problemas do homem para outro
tempo e lugar (o estado de natureza), pensado como a negação do protótipo do
homem liberal moderno. Segundo Walker (2006), a narrativa hobbesiana nos mostra
como os indivíduos podem amadurecer. Para tanto, faz-se necessário que eles se
submetam às estruturas modernas de autoridade; na ausência destas, o que resta
é um ambiente natural, não domesticado. Desse modo, na medida em que a Somália
é caracterizada como inserida num "estado de natureza hobbesiano", os somalis
são deslocados para fora da história e, por consequência, desprovidos da
possibilidade de vida política, já que, na modernidade, como nos mostra Walker_
(1993), a prática política efetiva e progressiva é impensável fora das
fronteiras do Estado soberano. O presente, o Estado moderno, se torna a norma,
enquanto o passado ou o "Outro" espaço-temporal dos Estados modernos se torna a
exceção (Walker 2006).
Ambas as noções - de "anarquia" e de "estado de natureza" - sugerem uma
"ausência", a do Estado soberano que, caso existisse, poderia vir, segundo o
discurso da ONU, a corrigir a situação de destruição, de fome e de guerra que
vinha assolando a Somália desde a queda de Barre.
Segundo a literatura dominante sobre o colapso dos Estados africanos no pós-
Guerra Fria, a principal característica do colapso estatal, comum às diferentes
experiências do fenômeno, refere-se à perda do monopólio dos meios legítimos de
violência e, na medida em que isso acontece, tais sociedades já não podem ser
entendidas como "Estados" segundo a definição clássica de Max Weber (ver
Ignatieff_2003). A perda do controle sobre os meios coercitivos nos é
apresentada como a principal razão da violência e instabilidade dessas
sociedades. De acordo com o discurso dominante, os indivíduos dependem de
Estados centralizados para se sentirem seguros. A visão do Estado centralizado,
detentor do monopólio do uso legítimo da força, se torna, de acordo com a
literatura dominante, uma condição compulsória para o fornecimento daquela que
é considerada a benesse política principal: a segurança. Esse discurso nos
impede de imaginar qualquer organização política razoável alternativa ao
Estado, já que nos condiciona a pensar que na ausência do Estado, nós sempre
vamos estar sujeitos à violência anárquica reinante no "estado de natureza
hobbesiano". De acordo com o discurso da ONU, o colapso do Estado somali teria
resultado no colapso de toda forma de autoridade, sem a qual a Somália estaria
condenada à anarquia perpétua.
No marco do discurso da ONU, com o colapso do Estado somali, o poder
coercitivo, antes centralizado pelo Estado, foi pulverizado entre diferentes
atores que passaram a impor o terror e a impedir a entrega da ajuda humanitária
através do país. Esses atores violentos aparecem, muitas vezes, no discurso,
como os únicos agentes a povoar uma Somália "vazia", "destruída" e "faminta".
Boutros-Ghali_(1996) ilumina a sua preocupação advinda dessa proliferação dos
meios coercitivos numa Somália arrasada quando diz:
I have earlier drawn attention to the absence of any civil society
and the breakdown of law and order in Mogadishu, which has been
compounded by the proliferation of arms among civilians. Banditry,
looting and reckless firing have complicated all efforts to bring
humanitarian assistance to the people of Somalia [...]. (S/23693,
par. 77, apud Boutros-Ghali 1996, 130, par. 77).
Desse modo, a Somália encontrava-se, segundo Boutros-Ghali, completamente
vulnerável diante de grupos armados que proliferavam no país na esteira do
colapso da autoridade política central.
A guerra civil na Somália teria gerado não apenas a destruição física e
institucional da Somália, mas, também, a grave ameaça da "fome generalizada"
(ver S/23693, 11-12, par. 12 apud Boutros-Ghali 1996, 123). A falta de
segurança teria gerado a falta de comida que, por sua vez, teria acirrado o
problema da insegurança, resultando num círculo vicioso difícil de ser rompido.
Segundo Boutros-Ghali (S/24343, par. 25, apud Boutros-Ghali 1996, 174):
"Breaking the vicious cycle may be the key to resolving the complex and
inextricably linked social and political problems in Somalia."
Diante desse espectro de ameaças interconectadas, de fome e conflito, as
operações de paz da ONU/Estados Unidos3 foram representadas como operações
voltadas para a "salvação" do povo somali vitimado pelos seus próprios
compatriotas, capazes de trazer-lhes um futuro de esperança. De acordo com o
discurso da ONU, a necessidade de "salvar" o povo somali dos seus rivais
internos foi se tornando mais evidente na medida em que a ajuda humanitária
internacional se tornou alvo cada vez mais frequente de ataques armados e em
que cresceu a percepção entre os somalis de que as Nações Unidas estariam
decididas a abandonar a política de cooperação e "invadir" o país (Boutros-
Ghali 1996).
Para Boutros-Ghali (1996), enquanto a segurança não fosse restabelecida na
Somália, o esforço humanitário correria o risco permanente de reveses. E,
assim, a partir da constatação feita pelo Secretário-Geral acerca da
inabilidade do contingente da ONU de minar o poder das facções somalis4, bem
como acerca da deterioração da situação da Somália para além da necessidade de
um tratamento de peacekeeping (UNOSOM I), inicia-se a segunda etapa da
operação, doravante com o envio massivo de tropas de peace-enforcement dos
Estados Unidos. Tais tropas compunham a UNITAF (1992-1993), conhecida pela
alcunha "Operação Restaurar a Esperança" (ver Boutros-Ghali 1996).
ONU: construindo a exceção somali
O Secretário-Geral respondeu à crise somali por meio da defesa da criação de
uma operação de enforcement, autorizada pelo Conselho de Segurança e levada a
cabo por um grupo de Estados-membros. Segundo Boutros-Ghali (1996), os Estados
Unidos rapidamente se prontificaram a assumir o comando dessa operação. De
acordo com o Secretário-Geral, o propósito da operação deveria ser o de
resolver o problema de segurança imediato da Somália e, para tal fim, ela
deveria buscar desarmar todas as gangues irregularmente armadas e transferir o
controle de armas pesadas das facções somalis para a esfera internacional
(Boutros-Ghali 1996). Para tal fim, o Conselho de Segurança adotou a resolução
794, autorizando os Estados-membros a usarem todos os meios possíveis para
estabelecer um ambiente seguro a fim de garantir a provisão de ajuda
humanitária na Somália. A utilização inédita do capítulo VII da Carta,
inicialmente concebido para deter atos de agressão contra Estados soberanos,
foi possível graças à representação da situação da Somália como uma exceção.
Sem deixar de mencionar o impacto do caso somali para a segurança
internacional, argumenta-se que a autorização do uso da força na Somália foi
informada pela excepcionalidade da condição de falência do Estado somali.
Boutros-Ghali (1996) produziu a naturalidade da transição de uma operação de
peacekeeping para uma operação de peace-enforcementmediante três construções
discursivas principais: (i) a construção da situação somali como uma situação
única, sui generis, demandando, por conseguinte, respostas excepcionais; (ii) a
ideia de que o consentimento das partes somalis não podia mais ser requisitado
dada a excepcionalidade da situação de falência estatal somali; e (iii) a
construção de um inimigo interno armado e pouco confiável capaz de sabotar
qualquer missão humanitária que não contasse com o respaldo do capítulo VII da
Carta da ONU.
A singularidade da crise somali foi produzida a partir da constatação, acima
referida, da falência do Estado somali. No "100-Day Programme for Accelerated
Humanitarian Assistance for Somalia", de 6 de outubro de 1992, Boutros-Ghali
(1996 195, par. 2, grifo meu) colocou:
The situation in Somalia isunique. There is no functioning
government. The country's infrastructure, administration, and power
and water systems, as well as communications, has been largely
destroyed or has ceased to function. Clan, sub-clan and factional
fighting continues.
Na resolução 794, de dezembro de 1992, que autorizou as Nações Unidas a se
valerem do capítulo VII da Carta para cumprir o seu mandato na Somália,
aparece: "Recognizing the unique character of the present situation in Somalia
and mindful of its deterioring, complex and extraordinary nature, requering an
immediate and exceptional response" (S/RES/799, apud Boutros-Ghalin1996, 214,
grifo meu). Em março de 1993, num relatório do Secretário-Geral propondo que o
mandato da UNOSOM II cobrisse todo o país e incluísse os poderes conferidos
pelo capítulo VII da Carta, Boutros-Ghali (S/25354, par. 100, apud Boutros-
Ghali 1996, 255, grifo meu) voltou a enfatizar o caráter único da situação
somali:
It was the uniqueness of the situation in Somalia that led to the
adoption of resolution 794 (1992) by the Security Council. While the
emergency operation launched by the international community in the
form of UNITAF has achieved, to a considerable extent, the immediate
objective of making sure humanitarian assistance reaches the needy, I
must emphasize that the unique features of the situation continue to
prevail. There is still no effective functioning government in the
country. There is still no disciplined national armed force.
Por meio dessa citação, fica evidente que, para Boutros-Ghali (1996), as
características únicas da situação somali não residiam na fome vivenciada por
grande parte da população somali, mas, sim, nas condições consideradas
geradoras dessa fome, isto é, na ausência de um governo funcional e na
consequente descentralização dos meios coercitivos nas mãos de grupos armados
que aterrorizavam um país onde a lei e a ordem haviam colapsado.
Por outro lado, ao qualificar o Estado somali como "não existente", o discurso
dominante deslegitimou as autoproclamadas "autoridades" nacionais e, logo,
criou as condições de possibilidade para que a Somália fosse disciplinada de
fora por meio de uma operação de peace-enforcement. Tal ação, ademais, passou a
ser concebida como o único curso de ação possível para uma Organização que,
como a ONU, se apresentava como "salvadora" dos somalis. Na medida em que os
discursos da ONU apontavam para a não existência do Estado somali ou para, no
máximo, a existência de um "Estado em ruínas", eles produziam a impossibilidade
de se aplicar sobre esses discursos o princípio da soberania e da não
intervenção. Afinal, como nos mostra Cynthia Weber (1995), quando as práticas
estatais não se encaixam no entendimento intersubjetivo do que seja o Estado, a
interferência nos seus assuntos "internos" raramente é denominada intervenção.
Desse modo, ao não dispor dos sinais identificadores de um Estado e, portanto,
ao ser vista como uma ausência, as únicas alternativas que se impunham à
Somália eram, na percepção da ONU, a de reconstruí-la ou de relegá-la à
anarquia.
Vale ressaltar, ainda, que a ONU construiu a necessidade de utilização do
capítulo VII a partir da produção de um inimigo interno com acesso a armas e
pouco disposto a cooperar com os esforços humanitários da Organização (ver S/
24868, apud Boutros-Ghali 1996, 209). Para fazer frente aos repetidos ataques
por parte de tal inimigo, revelava-se necessário, segundo Boutros-Ghali, o
recurso ao capítulo VII da Carta da ONU.
Estados Unidos e a temporalização da diferença na intervenção na Somália
O aspecto central da UNITAF foi o fato de seu comando ter sido delegado aos
Estados Unidos que, por conseguinte, também contribuíram, sobremaneira, para a
produção dos somalis, embora de uma forma não inteiramente congruente àquela
pela qual o discurso da ONU os produzia.
A percepção de que os Estados Unidos deveriam ter uma participação mais ativa
na Somália foi expressa pelo presidente Bush após o embaixador norte-americano
no Quênia, Smith Hempstone, ter lhe apresentado, em maio de 1992, um relato
dramático das condições de devastação e fome de um campo de refugiados somalis
por ele visitado na fronteira entre o Quênia e a Somália (ver Tripodi_1999;
Kansteiner_1996). Todavia, foi somente a partir do final de junho de 1992 que o
alerta da fome na Somália foi acionado nos Estados Unidos, uma vez que o apuro
da população somali começou a ganhar destaque na cobertura da mídia. As
reportagens da CNN chamando a atenção para a fome nas áreas do sul e do centro
da Somália foram reforçadas a partir de julho de 1992 por diversos artigos da
jornalista Jane Perlez no New York Times que, desde Boidoa, no sul agrícola da
Somália, estimularam outras mídias a cobrir a mesma estória (Kansteiner_1996;
Peterson_2000; Sahnoun_2005).
Segundo o presidente Bush, a fome na Somália não se explicaria pela falta de
comida no país, uma vez que os Estados Unidos estariam enviando toneladas de
comida para lá. No discurso proferido no dia seguinte à aprovação da resolução
794, o presidente Bush disse que durante muitos meses antes de julho os Estados
Unidos estavam ativamente engajados num esforço de ajuda internacional massiva
voltado para amenizar o sofrimento dos somalis (Bush_1992). Segundo o
presidente: "[A]merica has sent Somalia 200,000 tons of food, more than half
the world total". Todavia, continua Bush, no verão de 1992, o sistema de
distribuição colapsou, já que os comboios que saíam dos portos da Somália
estavam sendo bloqueados e, assim, impedidos de alimentar o interior do país.
A insuficiência dessa operação vai ser justificada por Bush a partir de
argumentos aparentemente similares àqueles usados por Boutros-Ghali para
justificar a necessidade de substituir a UNOSOM pela UNITAF, isto é, invocando
um inimigo potente capaz de obstruir qualquer esforço humanitário promovido
pelos agentes externos. O presidente norte-americano recorre a uma estória para
representar o tom dramático da situação de insegurança vivenciada pelos somalis
nos meses que precedem ao estabelecimento da UNITAF:
Imagine 7,000 tons of food literally bursting out of a warehouse on a
dock of Mogadishu, while Somalis starve less than a kilometer away
because relief workers cannot run the gauntlet of armed gangs roving
the city. Confronted with these conditions, relief groups called for
outside troops to provide security so they could feed people.
E, logo a seguir, Bush conclui acerca da necessidade de apoio militar para
garantir a entrega segura de alimentos para os somalis quando diz: "It's now
clear that military support is necessary to ensure the safe delivery of the
food Somalis need to survive" (Bush 1992, grifo meu).
Como nos mostra Sahnoun (2005, 53), o governo dos Estados Unidos utilizou a
alta porcentagem de comida roubada - dizia-se que em torno de 80% - para
justificar a "Operação Restaurar a Esperança". Esses dados, segundo De_Waal_
(1997,_183), foram pela primeira vez apresentados numa carta de Ismat Kittani
para Boutros-Ghali, que seria apresentada na reunião do Conselho de Segurança
de 25 de novembro de 1992, ou seja, pouco tempo depois5 que Kittani havia
chegado a Mogadíscio para substituir Sahnoun, como Representante Especial do
Secretário-Geral. Nessa carta, Kittani não só informou que 2 milhões de somalis
estavam enfrentando fome, mas também que de 70% a 80% da comida que chegava no
país estava sendo desviada (apud De_Waal_1997,_183). Apesar da origem desse
dado não poder ser rastreada, ele foi produzido como uma "verdade" e repetido
pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, pelo Secretariado da ONU e,
poderíamos acrescentar, pela mídia internacional (ver De_Waal_1997,_183). Em
dezembro de 1992, por exemplo, a jornalista Jane Perlez reproduziu essa
porcentagem noNew York Times: "United Nations officials acknowledge the
possibility that 80 percent of United Nations food that has moved through
Mogadishu, the main port, has disappeared through theft, ambushes and
extortion". Apesar de sistematicamente empregada, tal porcentagem, como
denuncia De_Waal_(1997,_183), estava em total desacordo com aquela apresentada
por Sahnoun apenas um mês antes, em outubro, quando se estimou que em torno de
15% a 40% da ajuda estava sendo perdida. O consenso em torno dos 80% foi
contestado apenas por poucos. Além de Sahnoun, De Waal cita Dominique Martin,
da ONG internacional Médicos Sem Fronteiras, que também colocou em dúvida esses
dados quando disse: "nobody could seriously claim that such a large proportion
was not getting through" (apud De_Waal_1997,_183).
Ainda que caracterizados como uma "ficção" por De_Waal_(1997,_184), tais dados
contribuíram para criar as condições de possibilidade para a UNITAF não apenas
porque o número de famintos decorrentes de tais roubos se revelou intolerável,
mas também porque denunciaram o poder daqueles que estavam impedindo que a
ajuda chegasse aos seus destinatários. Dado o poder atribuído a tais grupos, só
uma ação militar autorizada pelo capítulo VII da Carta da ONU se revelaria
eficaz. Por outro lado, tais dados também contribuíram para produzir a ajuda
externa como abundante de tal sorte que o problema da continuidade da fome não
pudesse ser atribuído à falta de generosidade ou às falhas operacionais dos
atores internacionais. O problema se devia, de acordo com tal discurso,
exclusivamente à ação de gangues armadas que eram, conforme colocado por Bush,
responsáveis pelo desperdício de enormes quantidades de comida.
Conforme observado por Peterson_(2000,_44), o seguinte raciocínio se tornou
distintivo da fome na Somália: "The problem was not always lack of food, but
the inability to get it to the hungry". Segundo o senso comum sobre a situação
somali, o problema da fome não derivava da falta de comida, que era provida
pelas agências internacionais de forma abundante, mas do roubo de
aproximadamente 80% dessa comida por parte dos somalis. Tal visão, contudo,
contrastava com aquela apresentada por Sahnoun que, em 1992, criticou a
burocracia da ONU por complicar sobremaneira os esforços das agências de ajuda
de alimentar os necessitados (ver Sahnoun 2005, 18). Para Sahnoun, se a ajuda
humanitária tivesse ocorrido no nível esperado tanto por trabalhadores
humanitários como pelos somalis, ela teria contribuído para uma atmosfera
propícia ao diálogo e ao compromisso. Mas, segundo o Representante Especial do
Secretário-Geral, pelo fato de o programa de assistência da ONU ter sido
deveras limitado e lento, ele se tornou contraproducente, pois suscitou a luta
pela comida escassamente fornecida, introduzindo novos pontos de animosidade e
violência. Para Sahnoun, o que estava gerando o conflito não era a abundância,
mas, sim, a escassez de comida que estava chegando aos necessitados, não devido
ao fato de grande parte do seu montante estar sendo desviado pelos somalis, mas
devido à incompetência da burocracia da ONU (Sahnoun 2005, 18).
O discurso de Bush, por sua vez, simplificava a complexidade da sociedade
somali, ao dividi-la entre culpados e vítimas. Enquanto a origem do conflito
somali não era mencionada em tal discurso, as causas da reprodução e da
intensificação da fome na Somália foram localizadas nas gangues armadas que
vinham obstruindo a entrega da ajuda humanitária. Curiosamente, contudo, existe
um silêncio recorrente nos discursos de Bush acerca da necessidade,
sistematicamente enfatizada por Boutros-Ghali, de desarmar tais gangues.
Sugere-se aqui que tal silêncio se deveu à ideia, amplamente veiculada na mídia
norte-americana, de que o problema da Somália não residiria nas armas per se,
adquiridas, sobretudo, das superpotências durante a Guerra Fria, mas, sim, no
encontro dessas armas modernas com ódios clânicos ancestrais. Nesse sentido, o
problema de tal visão não estaria localizado, primordialmente, na condição
estrutural de ausência de governo na Somália e na consequente descentralização
dos meios coercitivos, mas, sim, no caráter violento da cultura clânica somali
inalterável desde os tempos pré-modernos. Logo, a ausência de governo seria o
agravante e não a causa do conflito.
O mesmo embaixador Hempstone, que havia alertado Bush para a situação
deplorável dos somalis, advertiu o Departamento de Estado, no dia 6 de dezembro
de 1992, por meio de um telegrama,6 a não se envolverem no impasse somali. Para
Hempstone_(1992), os Estados Unidos deveriam abster-se de enviar tropas e de
sofrer baixas nas mãos de "natural-born guerrillas". Nas palavras do embaixador
(1992, grifo meu): "Somalis, as the Italians and British discovered to their
discomfiture, are natural-born guerrillas. They will mine the roads. They will
lay ambushes. They will launch hit and run attacks. They will not be able to
stop the convoys from getting through. But they will inflict—and
take—casualties". A ideia de que os somalis seriam "guerreiros naturais" foi
corroborada pelo ativista de direitos humanos, John Drysdale, na fase final do
envolvimento da ONU na Somália, quando disse: "Somalis know all about tactics,
and are natural fighters. It is second nature to surround and ambush
effectively" (apud Peterson_2000,_77, grifo meu).
Hempstone volta a empregar, tal como nos tempos coloniais, adjetivos
pejorativos (traiçoeiros, assassinos, agressivos) para caracterizar a natureza
dos somalis. A partir dessa naturalização do conflito, Hemsptone não prevê
qualquer solução de curto prazo para esse conflito, mas um envolvimento
indeterminado no país. Tendo constatado que o problema da Somália exigiria uma
atuação deveras duradoura e dispendiosa por parte dos Estados Unidos, Hempstone
se posiciona a favor da inação se valendo das duras palavras: "Leave them
alone, in short, to work out their own destiny, brutal as it may be".
Ainda que o presidente Bush não tenha seguido o conselho de Hempstone de deixar
a Somália à sua própria sorte, ele optou por um envolvimento limitado por meio
do qual os Estados Unidos seriam guiados pelo propósito humanitário mínimo de,
apenas, alimentar os somalis. O objetivo era o de garantir um ambiente seguro
para a distribuição de ajuda humanitária para que a Somália pudesse vencer a
fome (Tripodi_1999). Bush declarou: "Our mission has a limited objective: to
open the supply routes, to get the food moving, and to prepare the way for a
U.N. peacekeeping force to keep it moving. The operation is not open-ended. We
will not stay one day longer than is absolutely necessary." Por conseguinte, a
operação passou a ser produzida como uma operação apolítica, técnica; voltada
para um objetivo único: o de alimentar a população somali a fim de "salvar
vidas".
O discurso acerca da imutabilidade do conflito somali criou as condições de
possibilidade para esse envolvimento pontual por parte dos Estados Unidos, cujo
foco exclusivo era o de garantir o acesso do faminto à comida e, daí, garantir
a sua mera sobrevivência física. Nesse sentido, os Estados Unidos se propunham
a lidar apenas de uma forma emergencial com os efeitos do conflito, e não com
as causas deste. O discurso acerca da imutabilidade do conflito somali criou as
condições para a tamanha hesitação por parte do governo Bush de se envolver na
Somália, pois, como Robin Wright_(1993) argumentou no Los Angeles Times, "most
analysts agree that there is virtually no chance that mediators can end the
clan rivalries that date back to the nomadic origins of the clan themselves".
Diante desse quadro, o desafio de reconstrução do Estado somali foi deixado
para a UNOSOM II que substituiu a UNITAF por meio da resolução 814, de março de
1993. Como nos mostra Tripodi_(1999), a posição de Boutros-Ghali divergiu da
posição de Bush desde o início, já que o Secretário-Geral insistiu na
necessidade de uma força internacional voltada para a tarefa de desarmar as
facções somalis e de promover o "nation-building". Todavia, tais demandas não
foram acolhidas pelo Secretário de Defesa, Dick Cheney, para quem o
desarmamento ativo não deveria ser parte da UNITAF (Tripodi_1999). Essa disputa
de visões entre os Estados Unidos e a ONU foi o que permitiu que os primeiros
tivessem considerado a operação um sucesso, já que, segundo o discurso
dominante sobre a UNITAF, ela conseguiu, de fato, "vencer" a fome somali.
O desarmamento não foi perseguido pelos Estados Unidos justamente devido à
crença discursivamente construída de que a militarização do país durante a
Guerra Fria não era um problema em si, já que o que explicava o conflito somali
era o fato de armas modernas terem caídos nas mãos de somalis movidos por
animosidades ancestrais. De acordo com a antropóloga Besteman_(1999,_4), o
discurso dominante representa o conflito somali como dando continuidade a"Stone
Age ancestral clan rivalries, but with Star Wars military technology". Scott
Peterson, jornalista do jornal London's Daily Telegraph, apresenta uma visão
informada por tal lógica quando diz que foi o "coquetel perigoso" formado pela
mistura de demandas medievais por vingança com armas modernas e eficientes que
gerou a "doença" somali (Peterson 2000, 6-7). Krauthammer, em dezembro de 1992,
também expressa essa ideia quando declara num artigo do The Washington Post:
"The United States and the Soviet Union shipped M-16s and AK-47s to every
corner of the Earth. Yet only in Somalia have the guns been used for cruelty
beyond barbarism: stealing food from the mouths of starving children".
Assim, ora destacando a natureza violenta dos somalis ora destacando o caráter
violento da cultura clânica somali, argumenta-se que o discurso dos Estados
Unidos atribuía ao conflito uma dimensão meramente endógena, e, ao fazê-lo,
relacionava o conflito a um passado pré-moderno, temporalizando a violência que
passava a ser vista como símbolo do atraso da sociedade somali.
A representação do conflito somali como um conflito pré-moderno contribuiu para
o seu entendimento como intratável e, consequentemente, para a atitude distante
dos Estados Unidos em relação a ele, bem como para a sua retirada prematura. A
culpa pelo conflito somali acabou sendo atribuída, portanto, unicamente a
fatores endógenos relacionados ao atraso do modo de vida somali e, mais
especificamente, a facções e líderes hostis que, por estarem embebidos nessa
cultura violenta, eram tidos como resistentes aos múltiplos esforços de paz
intentados pelos agentes externos.
Da fase emergencial para a fase de reabilitação
Poucos meses após o envio da UNITAF, em maio de 1993, o novo Governo Clinton
anunciou que o objetivo da missão havia sido cumprido. O presidente Clinton
representou a missão da UNITAF como bem-sucedida ao ter cumprido seu objetivo
de "salvar vidas". O presidente considerou, seis meses após o envio da UNITAF,
que a situação de emergência vivenciada pela Somália encontrava-se encerrada e
que, a partir de então, deveria ser iniciado o período de reabilitação do país,
a ser liderado pela ONU. No discurso do dia 7 de outubro de 1993, Clinton
afirmou sobre esse momento divisor de águas: "Our troops created a secure
environment so that food and medicine could get through. We saved close to one
million lives. And throughout most of Somalia, everywhere but in Mogadishu,
life began to return to normal." 7
Ainda que a consideração de Clinton acerca da normalização da vida somali a
partir da decretação do fim da situação emergencial não seja necessariamente
correta, tal consideração articulou-se como uma "verdade política" sobre a
Somália e possibilitou a criação da segunda fase da operação voltada para a
reconstrução política e econômica da Somália. A "verdade" do fim da situação
emergencial foi contestada, por exemplo, por Mark_Bradbury_(2000), para quem a
Somália continuava numa situação de desastre crônico mesmo depois da operação.
A fixação desse momento, amparada por estatísticas confirmando uma alteração
positiva das taxas de mortalidade da população somali, contudo, permitiu ao
presidente Clinton decretar finalizada a operação emergencial, de exceção, e
considerar o país pronto para uma segunda etapa de desenvolvimento e
reconstrução. Do mesmo modo que as estatísticas relativas ao desvio de comida
tiveram uma participação no envolvimento norte-americano na Somália, agora as
estatísticas produzidas contribuíram para que a Somália fosse considerada
normalizada e pronta para a etapa de reabilitação, legitimando o fim da UNITAF.
De fato, para Bradbury_(2000), um dos discursos compartilhados pela ONU, pelas
ONGs e pelos doadores internacionais é o de que a ajuda deve ser temporária até
que a normalidade seja restabelecida e que se possa dar início à fase do
desenvolvimento. A definição do momento da transição da fase emergencial para a
de desenvolvimento, contudo, é de natureza política. Nesse sentido, quem
determina o momento divisor de águas dessa transição é aquele que se investe do
poder soberano que, no caso em questão, foram os Estados Unidos. Essa decisão,
por sua vez, tem uma série de efeitos sobre as populações que vêm sendo
normalizadas por tais práticas. Bradbury (2000, 335), por exemplo, chama a
atenção para o perigo de que a decretação prematura do fim da situação
emergencial crie as condições para a redução e cortes na ajuda humanitária.
À separação entre uma operação emergencial e a seguinte, de reconstrução,
também foi agregada outra separação, entre uma operação dita "apolítica" e
outra, dita "política". A substituição da UNITAF pela UNOSOM II em março de
1993 foi produzida como uma passagem de uma operação técnica para outra de
natureza política. Nesse sentido, a separação entre técnica e política foi
artificialmente produzida por meio da diferenciação entre essas duas operações.
Tal separação, por sua vez, criou as condições de possibilidade para que os
Estados Unidos, diante do insucesso da UNOSOM II, proclamassem a vitória da
técnica sobre a política e, desse modo, a vitória da operação por eles liderada
em detrimento da operação conduzida pelas Nações Unidas. De fato, no ambiente
pós-UNOSOM II, algumas das lições aprendidas a partir do envolvimento no
conflito somali aconselhavam que as operações subsequentes assumissem,
exclusivamente, um caráter técnico, sem buscar um envolvimento na política do
país alvo da operação de paz. Todavia, qualquer tentativa de separar o técnico
e humanitário do político é artificial e arbitrária. A UNITAF não pode ser
considerada uma operação meramente técnica, já que ela não estava apenas se
envolvendo num "mundo lá fora", chamado "Somália", com o fito de resolver um
problema bem específico, qual seja, o de "salvar vidas". No curso da sua ação,
a UNITAF estava, ao contrário, produzindo esse "mundo" de conflitos e fomes
ancestrais. Os agentes envolvidos nessa operação ajudaram a construir esse
"mundo" por meio de práticas discursivas que produziram não apenas as
"vítimas", mas também os "culpados" pela situação de fome na qual a Somália se
encontrava. Além disso, a UNITAF produziu a situação de normalidade somali no
preciso momento em que determinou que o seu trabalho de "salvar vidas" fora
cumprido com louvor.
Um dos principais embates vivenciados no curso da operação da ONU e dos Estados
Unidos na Somália não foi um problema de ordem técnica, relativo à coordenação
das forças desses atores, como frequentemente se alega, mas um problema de
natureza política. Tal problema se referiu a uma disputa entre eles acerca de
quem seria a autoridade soberana na Somália e quem, portanto, poderia decretar
a exceção e a normalidade das condições do país. Ou seja, a definição da
situação de exceção ou de normalidade num dado contexto tem um papel
importante, já que o agente que o faz se investe e se constrói como o ator
soberano naquele espaço8. A disputa entre esses dois atores sobre quem seria a
autoridade soberana na Somália, por sua vez, mostra com enorme clareza que as
decisões sobre a normalização dos corpos e espaços somalis eram tomadas por
outros, alhures, enquanto os próprios somalis continuavam desprovidos de voz e
vida política.
Assim, mesmo reconhecendo como exitosa a missão liderada pelos Estados Unidos
na Somália, Boutros-Ghali fez questão de recordar, em março de 1993, que a
excepcionalidade da situação somali não dizia respeito à situação emergencial
de fome vivenciada pelos somalis, mas, sim, à situação de ausência de um Estado
centralizado no país e, por consequência, de ausência de uma força armada
centralizada.
De fato, como nos mostra Bolton_(1994), durante a UNITAF existiu uma série de
atritos entre os Estados Unidos e a ONU em função dos diferentes objetivos
buscados por esses atores. Segundo Bolton, o objetivo do Governo Bush na
Somália era claro: "The Bush administration sent U.S. troops into Somalia
strictly to clear the relief channels that could avert mass starvation" (Bolton
1994,_56). Nesse sentido, Bush teria resistido todas as tentativas da ONU de
ampliar o escopo da missão, seja para desarmar as várias facções somalis, seja
para reconstruir a nação somali (ver Bolton_1994). Bolton_(1994,_60-61) nos
conta que no mesmo dia em que as forças dos Estados Unidos entraram na Somália
(9 de dezembro), o Secretário-Geral disse a uma delegação de Washington que ele
queria que a coalizão desarmasse as facções somalis e que, além disso,
desativasse as minas terrestres, estabelecesse uma administração civil e
começasse a treinar a polícia somali. O objetivo de Boutros-Ghali era,
portanto, o de colocar um fim à situação de excepcionalidade na qual a Somália
se encontrava caracterizada pela falta de uma autoridade central com o
monopólio do uso legítimo da força, conforme fica claro na passagem onde ele
diz: "I must emphasize that the unique features of the situation continue to
prevail. There is still no disciplined armed force". (S/25354, par. 100, apud
Boutros-Ghali 1996, 255).
Da mesma forma que foi essa situação única que havia autorizado uma resposta
excepcional - o uso do capítulo VII da Carta -, tal resposta vai continuar
sendo demandada pelo Secretário-Geral já que a excepcionalidade somali
continuaria em vigor no momento de finalização da UNITAF e de início da UNOSOM
II. Nesse sentido, Boutros-Ghali insistiu desde a fase inicial da operação, e
continuou a insistir após a finalização do mandato da UNITAF, que o objetivo da
ONU na Somália não deveria ser apenas o de conter o conflito e alimentar os
somalis necessitados. Embora notadamente importante, "salvar vidas" não deveria
ser um fim em si mesmo, mas, apenas, o primeiro passo adotado para que a
Somália pudesse retornar a sua condição de normalidade, ou seja, para que ela
pudesse se reestabelecer como um Estado centralizado.
Ainda que o Governo Clinton tenha prestado apoio à UNOSOM II e tenha, por
conseguinte, se comprometido com o esforço da ONU de "nation-building", os
Estados Unidos, durante a maior parte do seu envolvimento na Somália,
consideraram que a normalização foi atingida uma vez que as altas taxas de
mortalidade foram diminuídas. A ONU, diferentemente, nunca considerou a
situação somali normalizada, visto que, até o momento da sua saída, a Somália
não havia conseguido ter tido sucesso em estabelecer um Estado centralizado
sobre todo o seu território.
A decisão dos Estados Unidos de transferirem a competência da operação para a
ONU tão logo que a situação foi tida como normalizada refletiu, em grande
medida, a visão depreciativa acerca dos somalis e dos seus modos de vidas. Tal
visão sugeria a incapacidade de modernizar povos que viveram desde sempre
guerreando. A ONU, diferentemente, trabalhava com a possibilidade de que os
somalis pudessem, com o tempo, e com a ajuda internacional, evoluir na escala
temporal transferindo as velhas lealdades aos clãs que, segundo a ONU, teriam
reemergido com a queda de Barre, para um Estado centralizado. Segundo o
Secretário-Geral, foi com a queda do governo Barre que as lealdades clânicas
tradicionais teriam vindo à tona, fragmentando a nação somali e dando início à
guerra civil somali. Para que as rivalidades em curso nesse momento fossem
superadas, a direção proposta pela ONU era clara: a construção de um Estado
centralizado.
Considerações finais
O presente artigo buscou analisar o discurso daqueles atores que tiveram um
maior envolvimento nas operações de paz conduzidas na Somália no pós-Guerra
Fria, os Estados Unidos e as Nações Unidas. Após analisarmos uma série de
discursos, tanto das Nações Unidas como da mídia e do mundo político norte-
americano, concluímos que os somalis continuaram sendo, contemporaneamente,
representados como "não modernos" e "violentos". Notamos, contudo, a
coexistência de duas narrativas divergentes de representação da diferença. Por
um lado, verificamos o emprego de uma retórica que sugeria sinais de imobilismo
e de congelamento da sociedade somali por parte da mídia e de determinados
líderes norte-americanos. Conforme argumentamos, tal construção rígida da
diferença criou as condições de possibilidade para a limitação do mandato da
UNITAF, autorrepresentada como uma operação pontual voltada, unicamente, para
salvar os somalis da fome. Argumentamos que o combate à fome foi visto como o
único curso de ação possível uma vez que, segundo o discurso dominante, essa
fome foi produzida como derivada de um conflito sem sentido que remontava a
tempos imemoriais. O objetivo mínimo estabelecido pela UNITAF, contudo, foi
questionado pela ONU, cujos discursos sugeriam a possibilidade de transformar a
Somália "tradicional" em um Estado moderno detentor do uso legítimo da força. A
centralização da violência foi narrada pelo Secretário-Geral, Boutros-Ghali,
como a solução para o problema da desordem somali, o que explica a importância
por ele atribuída ao desarmamento das gangues somalis. Nesse sentido, num mesmo
tempo, pudemos observar, a partir dos discursos analisados, a operação de duas
construções discursivas de temporalidade em disputa.
Essa disputa era, conforme visto, de suma importância para os dois principais
atores envolvidos (Estados Unidos e ONU), já que por meio dela buscava-se
definir quem, entre eles, constituía-se como a autoridade soberana no país dito
"falido".
A denúncia pós-colonial da tendência à depreciação da diferença articulada no
discurso dos atores ocidentais na linha de frente das "novas" operações de paz
contribui, por sua vez, para desestabilizar a alegada natureza inédita,
progressiva, humanitária e inclusiva de tais operações. Conforme visto, mesmo
após a extinção do colonialismo formal, os agentes de tais operações continuam
recorrendo a uma série de adjetivos pejorativos e de metáforas, a exemplo do
estado de natureza, que legitimam no plano político uma relação assimétrica
entre o Ocidente e os seus "Outros".