A Política Externa Independente em ação: a Conferência de Punta del Este de
1962
Introdução1
Em 22 de janeiro de 1962, Ministros das Relações Exteriores dos Estados-membros
da Organização dos Estados Americanos (OEA) reuniram-se sob os auspícios do
Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar) para considerar "as
ameaças à paz e à independência política dos Estados Americanos"2. A
Conferência focava-se na situação política do governo de Cuba, cujo líder Fidel
Castro declarara adesão ao marxismo-leninismo, e nas alegadas ações contra
países vizinhos. Após dez dias de discussões, em 31 de janeiro, Cuba foi
suspensa da Junta Interamericana de Defesa e da OEA, sendo que esta última
decisão não contou com votos favoráveis dos maiores Estados latino-americanos.
Desde então, as decisões da VIII Reunião são debatidas por políticos,
diplomatas e estudiosos da ciência política, sem, todavia, proceder-se a
análise pormenorizada. Em certo sentido, continua sem resposta a pergunta do
embaixador Teixeira Soares (1980: 154): "que mérito teve a Conferência de Punta
Del Este?".
O problema cubano representou capítulo determinante das relações hemisféricas.
Nele, incluía-se o tratamento de temas como as relações Estados Unidos América
Latina, a solidariedade continental, o problema do comunismo e o princípio da
não-intervenção. O sistema interamericano, representado pelo Tiar e pela OEA,
foi obrigado a lidar, de um lado, com a possibilidade de instalação de modelo
de governo fundamentado em ideologia distinta daquela do bloco ocidental, sem
ferir princípios da não-intervenção ou mesmo da autodeterminação (citado, por
exemplo, por Roberto Campos em suas memórias); de outro, com uma revolução que
patrocinava guerrilhas pelo continente, além da ameaça (ainda que improvável),
de intervenção extracontinetal, sem que se estabelecesse o precedente de
intervenção em Estados americanos.
Nesse intrincado jogo de interesses que dividiu as repúblicas americanas, teve
destaque a posição brasileira. A delegação, liderada por Francisco Clementino
de San Tiago Dantas, opôs-se às sanções contra Cuba e, junto com Argentina,
México, Chile, Bolívia e Equador, absteve-se da resolução que suspendia o
governo cubano da OEA. San Tiago Dantas tornou-se uma das principais figuras da
reunião, defendendo firmemente a inoperância e ilegalidade de sanções, cujo
resultado (na visão de San Tiago), seria a consolidação da influência
soviética.
A Conferência de Punta Del Este, ao mesmo tempo, teve grande repercussão na
política brasileira. Poucas vezes a opinião pública brasileira mobilizou-se em
assuntos de política internacional como o fez em janeiro de 1962. Nas palavras
de Alceu Amoroso Lima (1962), em artigo da época: "[...]Tenho, como todo mundo,
o pensamento voltado para Punta Del Este. Ali começa hoje (quando escrevo essas
linhas), a jogar-se o destino da instituição internacional mais antiga dos
nossos tempos: a Organização dos Estados Americanos, órgão do pan-americanismo,
idealizado por Bolívar em 1826, e laboriosamente edificado em quase século e
meio de ingentes esforços".
Se não há dúvida da importância da reunião de Punta para as relações
hemisféricas em geral, e para a política externa brasileira em especial,
permanecem pouco estudadas as razões que levaram o governo brasileiro a se
posicionar da forma como o fez em 1962. Muitos autores comentaram-nas
brevemente, mas ainda restam algumas perguntas a serem respondidas: "a posição
brasileira fundou-se apenas em defesa do respeito às regras da OEA? Quais as
razões políticas para esse ponto de vista? Por que o Brasil se absteve e não
votou contra a suspensão? Qual a relevância de Punta para a política externa
brasileira? Tratou-se de exemplo de ação da 'política externa independente'"?
O objetivo do presente trabalho é apontar elementos que permitam compreender as
razões pelas quais o governo brasileiro tomou a decisão de abster-se na VIII
Reunião de Ministros das Relações Exteriores, à luz de sua relação com os
Estados Unidos e a América Latina, em meio à Guerra Fria. Como se verá, a VIII
RMRE constituiu um ponto de convergência entre desdobramentos da Guerra Fria na
América Latina, e projetos e constrangimentos específicos da política
brasileira; tem-se, dessa forma, a possibilidade de se verificar como o país
lidou com um problema de política externa, mas que afetava diretamente os
desenvolvimentos internos, as pressões e os limites de uma atuação
internacional dentro de um sistema específico.
A conjuntura internacional
Guerra Fria e a América Latina
Em janeiro de 1962, a Guerra Fria e a estrutura internacional decorrente da
confrontação bipolar já definira contornos específicos à realidade
internacional, que se desenvolveram especialmente a partir de 1947. Existem
divergências quanto ao momento de seu início, mas autores como Aron (1975) e
Walker (1993), dentre outros, destacam 1947 como o ponto em que a disputa
adquire contornos mais claros. Aron (1975: 74), destaca que o termo deve ser
entendido como a fase de tensão entre os aliados (que combatiam o Nazismo), que
se desenrola desde o fim da Segunda Guerra Mundial e que adquire contornos mais
nítidos em 1947, com a Doutrina Truman; a ruptura aprofunda-se na Conferência
de Paris, na discussão do Plano Marshall, e com a situação dos países da Europa
Oriental. A partir desses episódios, resumidamente, a confrontação amplia-se em
casos como o Bloqueio de Berlim, em 1948, com a bomba soviética e a vitória do
comunismo na China, em 1949.
A Guerra da Coréia ampliou o campo de confrontação bipolar para além da Europa:
"foi o incidente coreano que lhe deu (à Guerra Fria) uma dimensão militar e uma
extensão planetária" (Aron, 1975: 76). Estabeleceu, na década de 1950, padrão
de relacionamento caracterizado por fases mais tensas, períodos de relaxamento
ou "coexistência pacífica". A morte de Stalin e o fim da Guerra na Coréia, em
1953, provocaram certa diminuição na tensão bipolar, mas nos anos subseqüentes,
destaca-se principalmente a corrida armamentista. As duas superpotências
adquiriram bombas de hidrogênio e novos vetores de lançamento, o que ampliou
suas possibilidades de second strike e estabeleceu a chamada "destruição mútua
assegurada", ou MAD. Episódios como o lançamento do Sputnik, em 1957,
estabeleceram a percepção na administração, de que os Estados Unidos estariam
perdendo a disputa tecnológica3. Assim, no fim dos anos 50, a conjuntura
internacional desenvolvia-se em um sistema já bem estabelecido entre leste-
oeste, com aparente vantagem para o bloco soviético.
Com a eleição de Kennedy, buscou-se superar a União Soviética, cujo governo de
Kruschev se aproveitava da conjuntura favorável para pressionar os Estados
Unidos em casos como o do U-2, em 1960, e na questão de Berlim. Desde o governo
Eisenhower, havia pressão para o estabelecimento de um estatuto definitivo
sobre a capital alemã, mas é com Kennedy que a tensão se elevará, em momentos
como o de Checkpoint Charlie, em 1961, quando tanques americanos e soviéticos
se posicionaram frente à frente e uma guerra parecia iminente.
Havia também um novo elemento na confrontação bipolar: a Revolução Cubana. Seus
movimentos iniciais também se deram anteriormente à administração Kennedy, mas
foi a partir de 1961, que adquiriu contornos específicos da Guerra Fria. Junto
com Berlim, a questão cubana tornou-se o principal problema dos norte-
americanos no início da década de 1960, especialmente por se tratar de uma
ameaça muito próxima fisicamente e que modificava os contornos da geografia da
confrontação bipolar. Tratava-se de mais um elemento percebido como derrota ou
desvantagem que os norte-americanos deveriam tratar com urgência. Cuba, assim,
estava no centro da Guerra Fria.
A revolução de Fidel e seus desdobramentos, porém, continham também elementos
específicos das relações interamericanas: marcava-se principalmente pela
relação entre Estados Unidos e América Latina, cujas tendências históricas
foram desenvolvidas nos séculos XIX e XX, e que adquiriram contornos
específicos com a Guerra Fria.
Deve-se destacar que relações interamericanas anteriores à 1945, foram marcadas
por constantes intervenções diretas dos Estados Unidos, principalmente na
região caribenha, além de atuações indiretas, pressões econômicas ou
favorecimento de determinados grupos políticos. A doutrina Monroe adquiriu
novos contornos com o chamado Corolário Roosevelt e, nas primeiras décadas do
século XX, países como Haiti, Costa Rica, República Dominicana e Panamá
sofreram constantes intervenções. Cuba talvez seja o país de mais destaque: sua
independência teve atuação direta dos Estados Unidos, que adquiriram controle
direto sobre o país pela Emenda Platt. Entre 1906 e 1922, ocorreram cinco
intervenções na ilha; mesmo quando os marines não desembarcavam, Cuba
permanecia em grande medida controlada, o que se manteve até a revolução em
1959.
Ao mesmo tempo, a partir de 1889, com a I Conferência Interamericana, os
Estados Unidos buscaram meios de cooperação. O objetivo inicial concentrava-se
principalmente no comércio, mas a pressão dos latino-americanos direcionou as
relações hemisféricas para aspectos políticos. Foram realizadas reuniões no
México (1901), Rio de Janeiro (1906), Buenos Aires (1910), Santiago (1923), e
Havana (1928), que tratavam de assuntos como medidas relacionadas à paz, adoção
de regras de arbitragem e relacionamento diplomático.
Os resultados foram, contudo, limitados, especialmente em razão das
desconfianças contra os norte-americanos, que se recusavam a aderir ao
princípio da não-intervenção. Essa adesão ocorreu apenas na conferência de
Montevidéu, em 1933, que iniciou nova aproximação interamericana liderada por
F. D. Roosevelt. Tratou-se da Política de Boa-Vizinhança, que durante a década
de 1930, tinha como um de seus objetivos reforçar a segurança no continente
contra as novas ameaças que surgiam, com destaque para a ascensão do
nazifascismo. A aproximação foi reforçada em Buenos Aires, em 1936 (Conferência
Interamericana de Consolidação da Paz), e em Lima, 1938; nesta, em meio às
crescentes tensões na Europa, estabeleceu-se mecanismo de consultas que seria
determinante na condução das relações interamericanas durante a guerra.
Talvez o grande exemplo de cooperação americana se deu na Segunda Guerra
Mundial. Não só ocorreram diversas conferências (1939, 1940, 1942 e 1945), as
quais contribuíram para o estabelecimento de uma posição comum (salvo a
Argentina), mas se colocou em prática os mecanismos acordados, como no
fornecimento de matérias-primas para os Estados Unidos ou na utilização de
bases brasileiras como ponta de lança para a África.
A Conferência de Chapultepec, em 1945, marcou mais um passo na consolidação da
parceria regional, visto que se estabeleceu o mecanismo de defesa coletiva das
Américas, posteriormente institucionalizado no Tratado Interamericano de
Assistência Recíproca (Tiar), 1947, e na Organização dos Estados Americanos
(OEA), 1948. Quando do advento da criação desses institutos, a guerra já
terminara, mas ainda se mantinha como o principal elemento organizador das
relações regionais.
Em certa medida, havia entre os Estados Unidos e as demais nações, visões
diferentes sobre a cooperação (os norte-americanos viam os latinos apenas como
fornecedores de matérias-primas), as quais eram eclipsadas pela urgência da
guerra. Com o fim do conflito, divergências começaram a surgir. Esperava-se a
continuidade da "Política de Boa-vizinhança", o que não ocorreu devido à
crescente tensão entre Estados Unidos e União Soviética. O imediato pós-guerra,
assim, marcou-se tanto por iniciativas de cooperação importantes (como o Tiar e
a OEA), quanto por um progressivo distanciamento de aspirações e interesses
entre os países americanos; não se tratava de divergência profunda que causasse
ruptura, mas foi responsável pelos problemas no relacionamento posterior.
A Guerra Fria deu nova configuração às relações interamericanas, especialmente
com a Guerra da Coréia. Inicialmente, a região perdeu importância estratégica.
Os Estados Unidos desviaram todos seus esforços para outras regiões, o que
criou insatisfações entre os latino-americanos. Perkings (1961: 4),
diagnosticava que, da perspectiva da segurança nacional, a América Latina
encontrava-se em segundo plano. Segundo o autor, três razões justificavam essa
visão: 1) os países da região permaneciam livres por mais de um século; 2) as
repúblicas sentiam-se parte da civilização ocidental; 3) existiam fortes laços
econômicos com os EUA.
É importante destacar que, em relação ao confronto mundial, a maioria dos
governos latino-americanos apoiava os Estados Unidos, como se observou na IV
Reunião de Ministros das Relações Exteriores de 26 de março a 7 de abril de
1951, em Washington, convocada para tratar da defesa comum contra as atividades
do comunismo internacional. Em meio ao conflito coreano, os membros da OEA
votaram uma resolução que considerava o comunismo forma de ameaça à paz.
Posteriormente, ao longo da década de 1950, a política externa norte-americana
desenvolveu a percepção de que o comunismo na região constituía ameaça real.
Essa constatação moldou grande parte das iniciativas em relação à América
Latina, fossem elas relacionadas à segurança ou ao desenvolvimento econômico.
Foi determinante, também, para criar sérios erros de interpretação que
confundiram revoltas nacionais com avanços da infiltração comunista. Isso se
dava em razão do tipo de ameaça que se figurava no hemisfério ocidental: não se
tratava de possibilidade de interferência direta da União Soviética no
hemisfério ocidental, como se dava ao longo da Cortina de Ferro na Europa, mas
sim, o perigo da organização de grupos (apoiados ou não pela URSS), que
ameaçassem internamente a estrutura política de Estados da região. Assim, a
agenda de segurança para o hemisfério era mais anti-subversiva do que anti-
soviética4.
Em dois casos (anteriores à Cuba), esses elementos estiveram claros: em 1952,
na Bolívia, e em 1954, na Guatemala. Em 1952, ocorreu revolução na Bolívia
liderada por Paz Estenssoro. Após uma guerra civil que terminou em 1949,
Estenssoro foi eleito em 1951 mesmo exilado na Argentina o que provocou a
renúncia do presidente Mamerto Urriolagoitia e a ascensão da junta militar, com
o propósito de impedir a posse de Estenssoro. Em 9 de abril, ocorreram
insurgências em várias cidades bolivianas, com inúmeros mortos e feridos. Após
intensos combates entre 9 e 11 de abril, a junta é derrubada e Paz Estenssoro
chega ao poder. Dentre suas principais medidas, determinou a encampação de
minas de estanho e iniciou programa de reforma agrária. A situação boliviana
mobilizou atenções sobre suas reformas econômicas, principalmente dos Estados
Unidos, interessados em proteger seus interesses comerciais e de suas empresas,
e temerosos de possível infiltração comunista.
A base de apoio de Paz Estenssoro agrupava elementos de diferentes tendências
ideológicas, tanto de direita, como de extrema esquerda conforme telegrama da
embaixada brasileira em La Paz (Moniz Bandeira, 1998: 108 ) o que motivou maior
cautela por parte do governo dos Estados Unidos, na tentativa de evitar que o
governo boliviano se radicalizasse. Bandeira cita outro memorando do embaixador
brasileiro em La Paz, para quem o não reconhecimento poderia enfraquecer o
governo revolucionário e deixar o país, em pleno coração da América, vulnerável
ao comunismo internacional. A resolução do caso contou com importante mediação
brasileira e a intervenção do irmão do Presidente Eisenhower, Milton
Eisenhower, que percorrera a região em viagem de observação. Sua opinião no
caso destacava a necessidade do Departamento de Estado não confundir qualquer
movimento social com marxismo, toda reforma agrária com comunismo ou
antiamericanismo com posição pró-soviética.
A moderação no caso boliviano, porém, não se refletiu no episódio seguinte,
ocorrido na Guatemala. Medidas semelhantes de nacionalização foram adotadas no
governo de Juan José Arévalo (1945-1950), o que levou seus inimigos a tentar
caracterizá-lo como comunista. Conforme relata Gaddis Smith (1994: 72), em
1949, o Departamento de Estado iniciou uma guerra diplomático-econômica de
baixa intensidade contra a Guatemala. Em 1951, Jacob Arbenz assume a
presidência e amplia as políticas de Arévalo, principalmente o programa de
reforma agrária que entrou em conflito com interesses da companhia norte-
americana United Fruit.
Independentemente das causas, as atitudes de Arbenz foram vistas por muitos
como indícios de infiltração comunista na América Central, especialmente pelo
governo dos Estados Unidos, e motivaram a convocação da X Conferência
Interamericana, realizada em Caracas, em 1954. Na reunião aprovou-se a chamada
"Declaração de solidariedade para a preservação da integridade política dos
Estados americanos contra a intervenção do comunismo internacional", cuja
cláusula primeira condenava "as atividades do movimento comunista
internacional, por constituírem intervenção nos assuntos americanos". O texto
ainda recomendava a convocação de Reuniões de Consulta previstas no Tiar para
tratar de possíveis ameaças.
A resolução foi aprovada pela grande maioria dos participantes (Guatemala votou
contra, e México e Argentina se abstiveram), mas, ao mesmo tempo em que
condenava o comunismo, a resolução reforçou a necessidade de respeito ao
princípio da não-intervenção, outra preocupação central para os latino-
americanos, mesmo antes da construção da OEA. A Declaração de Solidariedade,
assim, concluía de forma a dar razão àqueles que viam na atitude dos governos
latino-americanos uma clara definição de "Comunismo, não! Intervenção Ianque,
também não!" (Ferreira, 1985). Há que se ressaltar o precedente jurídico
fundamental que constituiu a reunião em Caracas: definiu-se o comunismo
internacional como ameaça à paz e à segurança hemisférica, incluindo-o dentre
os eventos que justificariam a convocação de reunião de consulta do Tiar. A
Reunião de Caracas será um dos pilares para a convocação da VIII Reunião de
Consulta de 1962.
O caso da Guatemala terminou com a derrubada de Arbenz em 1954, a qual,
contudo, desgastou o prestígio norte-americano ao reforçar desconfianças contra
o "imperialismo" do norte. Ao mesmo tempo, estabeleceu modelo de ação para o
governo dos Estados Unidos em eventos posteriores e, possivelmente, influenciou
a operação da CIA, que culminou com a derrota na Baía dos Porcos em Cuba, 1961.
Segundo Seyom Brown (1994: 106), a invasão da Guatemala a partir de Honduras,
por Castillo Armas, financiada pela CIA, estabeleceu um modelo de ação para
tratar de casos de subversão. O precedente de sucesso pode ser relacionado,
dentre outros, à ação na Baía dos Porcos, em Cuba, 1961.
A viagem de Nixon à América Latina e a criação da Operação Pan-Americana (OPA)
são os últimos pontos a se destacar. Nos fins da década de 1950, a insatisfação
dos latino-americanos contra as atitudes norte-americanas ficou patente na
visita do vice-presidente, Richard Nixon. Houve protestos em quase todos os
locais visitados e algumas tentativas de agressão, principalmente em Caracas.
Assim, em 1958, Juscelino Kubitschek enviou carta ao presidente Eisenhower, na
qual propunha revisão nas relações hemisféricas e nos ideais do pan-
americanismo. Conforme a análise de Alexandra de Mello e Silva (1992: 219), a
OPA foi relevante ao relacionar o subdesenvolvimento à infiltração comunista.
Mesmo sem o sucesso do projeto, a OPA serviu de inspiração para a Aliança, para
o Progresso de Kennedy e, talvez o mais importante, reforçou a visão latino-
americana sobre a ameaça comunista (relacionada ao desenvolvimento).
De forma resumida, portanto, é possível descrever o relacionamento dos Estados
Unidos com a América Latina nos seguintes pontos: a) discrepância entre a
preocupação com segurança e a contenção do comunismo por parte dos norte-
americanos, e a aspiração ao desenvolvimento por parte dos latino-americanos;
b) os Estados Unidos confundiam o nacionalismo nascente na região com
infiltração comunista, o que os levava a apoiar ditadores impopulares. Por sua
vez, a América Latina ressentia profundamente o apoio norte-americano às
companhias multinacionais e conseqüentes intervenções, como no caso da
Guatemala, que reforçavam a desconfiança contra o "imperialismo" do norte; c)
em decorrência desses dois pontos, os países latino-americanos, apesar de
posicionar-se contrários à ameaça comunista e apoiar os EUA no confronto
mundial, defendiam a aplicação do princípio da não-intervenção nas relações
hemisféricas (essa diferenciação será fundamental para se compreender a posição
de alguns países em relação à Cuba).
Tem-se, assim, exemplos de expectativas e desconfianças nas relações regionais
que perfazem o quadro político anterior à revolução liderada por Fidel Castro,
verdadeiro ponto de inflexão. Pode-se dizer que os eventos descritos até aqui
representam acontecimentos preliminares, que formaram as visões e os modelos de
ação que influenciariam o tratamento da questão do comunismo no continente. Os
desenrolares da Revolução cubana, por sua vez, obrigaram o sistema
interamericano a "enfrentar um problema da Guerra Fria"5.
A Revolução Cubana
Muito já foi escrito sobre a revolução liderada por Fidel Castro, iniciada em
1959, e que resultou, dentre outras questões, na VIII RMRE em Punta del Este,
em 1962. O que importa destacar no presente é a reação das Américas no caso e o
que motivou a reunião aqui estudada. O ponto central, assim, é a relação entre
Cuba e os comunistas. Conforme os exemplos anteriores demonstraram, os Estados
Unidos reagiam, na América Latina, às reformas ou revoluções nacionalistas,
confundindo-as muitas vezes com ameaças de subversão.
O início da revolução cubana repetiu em certa medida o caso da Guatemala, com
encampações e estatizações que provocaram atritos com o governo norte-
americano. Inicialmente, foi vista de forma positiva por grande parte dos
países da região (mesmo nos Estados Unidos, segundo Kaplan{1968: 259}). As
ações posteriores do governo revolucionário, todavia, criaram desconfianças
sobre os rumos do movimento. Em 1960, apesar das suspeitas, documentos do
Conselho de Segurança Nacional (memorando de 21 de junho de 1960, CIA
Historical Review Program), demonstram que os norte-americanos não podiam
confirmar se Castro era comunista ou não.
A indefinição era contrastada com os crescentes contatos entre autoridades
cubanas e soviéticas, que culminou com a visita de Anastas Mykoyan em fevereiro
de 1960, e o posterior convênio de venda de açúcar (reação aos cortes dos
Estados Unidos). Em 1960, portanto, além dos atritos esperados entre um governo
revolucionário latino-americano e os norte-americanos, tem-se a presença da
União Soviética. As relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba são
rompidas em 3 de janeiro de 1961, ano em que ações mais diretas ganharam vulto.
A ação na Baía dos Porcos foi séria derrota à administração Kennedy e provocou
a declaração de Fidel sobre o caráter socialista da revolução, primeiro ponto
importante na definição.
Há que se ressaltar que, durante todo o ano de 1961, os norte-americanos e
alguns governos latino-americanos (como a Colômbia), buscaram convocar reunião
de consulta para tratar da questão, mas havia resistência da maior parte dos
governos, especialmente dos grandes Estados: Brasil, México e Argentina. Após o
fracasso da Baía dos Porcos, a opção por uma resposta coletiva tornou-se
necessária para os Estados Unidos. Volta-se, assim, para a relação do resto do
hemisfério com Cuba.
Na América Latina, a mudança de simpatia para apreensão advinha especialmente
das atitudes do governo revolucionário em relação aos países próximos a Cuba.
Desde o início do movimento, as forças revolucionárias planejavam ultrapassar
os limites da ilha caribenha, espalhando-se pela América Latina. Moniz Bandeira
(1998: 192), relata que o próprio Che dissera que o futuro de Cuba estava
relacionado à ampliação da revolução, e o método mais eficiente seria a luta de
guerrilhas.
Cuba transformou-se, assim, em foco de irradiação de atividades guerrilheiras
que provocaram instabilidade nos Estados da região, governados por ditaduras ou
não. Os documentos da CIA6, de 1960 e 1961, mostram crescentes infiltrações
guerrilheiras em grande parte dos países da América Central, no Equador, Peru e
Colômbia. Foram esses Estados os principais promotores das tentativas de
convocação da reunião de consulta. Até dezembro de 1961, contudo, não se logrou
a aprovação de uma RMRE.
A situação modifica-se completamente com a declaração de Fidel Castro, de 2 de
dezembro de 1961, sobre sua vinculação ao marxismo-leninismo, a qual colocava
Cuba diretamente no bloco soviético. A convocação de uma reunião de consulta
tornou-se praticamente inevitável. Com a guerrilha avançando sobre países da
América Latina, o governo da Colômbia havia pedido ao Conselho da OEA, em 10 de
novembro de 1961, uma Reunião de Consulta prevista no Tiar. A convocação foi
votada apenas em 4 de dezembro, subseqüente à declaração de Fidel. Aprovada por
14 votos a favor, 2 contra (Cuba e México), e cinco abstenções (Equador,
Bolívia, Brasil, Chile e Argentina), a resolução estabelecia uma RMRE para 10
de janeiro de 1962, com o objetivo de analisar ameaças à paz e à independência
política dos países americanos.
Iniciava-se a preparação para a VIII Reunião de Ministros das Relações
Exteriores, prevista inicialmente7 para 10 de janeiro de 1962, em Punta Del
Este, Uruguai. A América Latina caminhou dividia para a reunião que assentaria
a forma de tratamento do comunismo na região.
A reunião de janeiro de 1962 e as principais decisões
A preparação para a VIII RMRE foi marcada por grandes movimentações, em
antecipação à reunião em si. Noticiava no Jornal do Commercio, em 10 de
dezembro de 1961, que a futura conferência indicava possível rompimento com
Cuba, sem, contudo, haver um consenso entre os membros da OEA. Alguns dias
depois, o Diário de Notícias (de 19 de dezembro de 1961), ressaltava como as
propostas ainda estavam se construindo, com o exemplo da delegação Colombiana,
que o jornal indicava se limitar a pedir a Cuba o fiel cumprimento dos tratados
vigentes.
A busca por sanções era patrocinada principalmente pelos Estados Unidos e os
vizinhos da ilha, além de outros países que também sofriam com ações
guerrilheiras supostamente patrocinadas por Cuba. Propunha-se tanto sanções
econômicas e diplomáticas, quanto a possibilidade de uma ação armada; esta,
porém, foi rapidamente descartada.
De outro lado, um grupo de países, liderados por México e Brasil8, mostrava-se
contrário às sanções e advogava uma solução negociada. A posição brasileira
exemplifica as razões desse grupo, estabelecida principalmente na alocução do
Ministro San Tiago Dantas aos chefes de missão diplomática no Brasil, em 12 de
janeiro de 1962. No documento, o chanceler admite que a evolução do regime
revolucionário significava um profundo distanciamento de Cuba com os princípios
americanos. Concordava, assim, com a necessidade de tratamento da questão.
Afirmava, todavia, que "Qualquer ação internacional em relação a Cuba, daí
resultante (da declaração do marxismo-leninismo de Fidel), para ser legítima e
eficaz deve estrita observância aos princípios e normas de direito
internacional e não pode deixar de ser orientada pelo propósito construtivo de
eliminar os riscos eventuais, que a presença de um regime socialista no
Hemisfério venha a apresentar [...] Fórmulas intervencionistas ou punitivas,
que não encontram fundamento jurídico, e produzem, como resultado prático,
apenas o agravamento das paixões e a exacerbação das incompatibilidades, não
podem esperar apoio do governo do Brasil".
Em seu discurso, San Tiago desqualifica todas as possibilidades de sanção. A
busca pela solução diplomática traduzia-se no que ficou conhecido como o
projeto de "Finlandização de Cuba", ou seja, na sua transformação em Estado
neutro, a partir de um "tratado de obrigações negativas". Essa proposta esteve
presente em toda a reunião e tornou-se o centro da posição brasileira.
Percebe-se, então, que em grande medida a reunião se iniciara antes mesmo da
data marcada, com posições não muito flexíveis. Limitava-se seriamente as
possibilidades de um consenso e criava-se a necessidade de novas idéias. Há que
se ressaltar que não existia, nos discursos, referências diretas à suspensão de
Cuba da OEA.
Marcada para 22 de janeiro, a Conferência iniciou-se efetivamente no dia 23, a
pedido da delegação brasileira. De acordo com o Correio da Manhã de 23 de
janeiro de 1962, esse adiamento foi aprovado por unanimidade, para que as
delegações tivessem mais um dia de consultas sem protocolo. Revela-se a
intensidade dos contatos diplomáticos e, em certa medida, as dificuldades de
consenso.
No dia 23, reuniram-se, assim, as delegações para a primeira sessão plenária no
Hotel San Rafael, em Punta Del Este. Após a eleição do presidente e vice-
presidente da conferência, tratou-se de questões protocolares (credenciais,
caráter público das reuniões e comissão de estilo) e, por fim, marcou-se a
primeira sessão para o dia seguinte, dia 24. Os principais temas da VIII RMRE
foram discutidos na Comissão Geral, que teve nove sessões, sem contar os
encontros extraordinários, muitas vezes restritos apenas aos chanceleres e que
buscavam solucionar os impasses.
Os discursos refletiam a já estabelecida divisão. Patrocinadora da reunião,
merece destaque o discurso da Colômbia que, nas palavras de Jose Joaquin
Caicedo de Castilla, pode ser visto como síntese da posição dos países latino-
americanos que defendiam sanções. O chanceler colombiano abriu a conferência e
se pronunciou a favor de medidas contra Cuba. Com o propósito de preservação do
sistema interamericano, ressaltou a necessidade de respeito ao princípio da
igualdade e não-intervenção; exatamente esses princípios que justificariam a
necessidade de sanções. Segundo Castilla, mesmo que a revolução cubana fosse
aplaudida inicialmente, os rumos adotados desviavam-se dos ideais hemisféricos.
O constante patrocínio cubano a mecanismos subversivos constituía o
descumprimento do princípio da não-intervenção. Assim, a natureza do regime
cubano e o patrocínio às guerrilhas justificavam a reunião de consulta e a
adoção de sanções, na sua proposta, a ruptura de relações diplomáticas,
consulares e econômicas, além da criação de um comitê de vigilância.
Pronunciando-se no mesmo dia de Castilla (24 de janeiro), o chanceler
brasileiro, Francisco Clementino de San Tiago Dantas, representava o grupo que
discordava de medidas punitivas. Em seu discurso, estabeleceu como os
principais objetivos da reunião a preservação da unidade do sistema regional, a
manutenção de seus princípios e o fortalecimento da democracia. Buscar a
solidariedade continental não significava, contudo, a unanimidade a qualquer
custo, ou sacrifício dos outros dois elementos. Na conjuntura da Guerra Fria
característica permanente da realidade internacional seria necessário encontrar
uma nova forma de convivência com o Oriente (aqui se percebe claramente os
princípios da PEI) e, na luta pela democracia dentro dessa realidade, seria
necessário favorecer a preservação, robustecimento ou mesmo a "recuperação" de
instituições.
Em específico no caso de Cuba, não se negava que a adoção do comunismo era um
problema para as relações hemisféricas, mas o melhor seria reaproximá-la do
sistema, e não adotar medidas que levariam à opção ao bloco soviético. San
Tiago sugere a criação de um tratado de obrigações negativas, dentro do já
mencionado projeto de "Finlandização". No mesmo sentido, retoma o discurso de
12 de janeiro, e critica a possibilidade de sanções em razão de sua ineficácia.
Nos discursos de Caicedo Castilla e San Tiago Dantas percebe-se a utilização
dos mesmos conceitos, mas com interpretações diferentes sobre as possibilidades
de ação. Os dois pronunciamentos revelam a permanência da divisão entre as
nações latino-americanas e o impasse na reunião. Para muitos, novas fórmulas
seriam necessárias.
No dia seguinte, na terceira sessão da Comissão Geral, pronuncia-se o
secretário de Estado norte-americano, Dean Rusk, e uma nova possibilidade é
levantada. Segundo Moniz Bandeira (1998: 365), o presidente Kennedy havia
indicado na imprensa que poderia modificar a posição norte-americana, o que se
refletiu no discurso do secretário de Estado.
Compartilhando, em parte, a visão de Castilla e San Tiago, Rusk afirma que os
Estados Unidos simpatizavam com as aspirações de liberdade política e progresso
social do povo cubano. Inaceitável era a filiação ao marxismo-leninismo e o
auxílio aos propósitos soviéticos, situação condenada previamente, na reunião
de San José da Costa Rica, em 1960 (VII RMRE). O secretário de Estado
exemplifica esse apoio cubano pelas votações nas Nações Unidas, nas quais Cuba
havia sistematicamente posicionado-se com o bloco soviético. Postula, então:
"Impulsado por esa fé marxista-leninista, el régimen de Castro se ha dedicado,
no a luchar por la democracia dentro del Hemisferio ni siquiera en Cuba, sino a
pervertir y corromper esa lucha para servir los intereses del comunismo
internacional".
Rusk procura, assim, demonstrar a incompatibilidade do governo revolucionário,
o que justificaria as seguintes medidas: reconhecimento da incompatibilidade;
exclusão do regime de Castro da participação de órgãos e organismos do sistema
interamericano, encomendando-se, ao Conselho da OEA, relatório que mostrasse a
melhor maneira de dar rápido cumprimento à decisão; interrupção da venda de
armas; criação de série de medidas defensivas, individuais e conjuntas, contra
as diferentes formas de agressão política e indireta que se dirigiam contra o
hemisfério. Dean Rusk termina seu discurso com referência à Guerra Fria: esta
não se restringiria à contenda entre Estados Unidos e União Soviética; tratava-
se de luta de todos, contra a tirania e pela liberdade. Especificamente, à
reunião, nuestra misión actual no es la de permitir que um tiranuelo que há
surgido entre nosotros nos aparte de estas grandes tareas, sino más bien
ponerlo em su lugar y proseguir esta gran empresa em la que todos estamos
empenados.
Tem-se, portanto, três discursos exemplificativos das posições adotadas pelos
países americanos na VIII Reunião de Ministros das Relações Exteriores. A
posição cubana constituiria quarta vertente, representada pelo ministro Osvaldo
Dorticós Torrado, que se pronuncia na tarde do dia 25 de janeiro. O discurso
reflete a posição do governo de Castro durante toda a reunião, e nega a
legalidade e a legitimidade das possíveis medidas que viriam a ser tomadas.
As discussões continuam por mais cinco dias. No dia 30 de janeiro, a nona
sessão da Comissão Geral inicia os procedimentos de votação dos dez projetos de
resolução que haviam sido apresentados. Os projetos tratavam desde a celebração
de eleições livres e reforma do estatuto da Comissão Interamericana de Direitos
Humanos, até as medidas mais controversas, relacionadas à Junta Interamericana
de Defesa e a participação do governo de Cuba em órgãos e organismos do sistema
interamericano. A referência à suspensão do governo cubano da OEA (e não apenas
de órgãos, conforme o discurso de Rusk), ocorrerá na plenária final, por meio
de emenda.
As reuniões da Comissão Geral terminam, assim, com a divisão entre os latino-
americanos (o Haiti já mudara sua posição), sem as sanções inicialmente
elaboradas, mas com a alternativa da suspensão. Na própria nona sessão, San
Tiago expusera a ilegalidade da medida, por não estar prevista no art. 8º do
Tiar. Sua argumentação foi apoiada por outros cinco países e todos se
abstiveram na votação.
Chega-se à questão da suspensão de Cuba da OEA. A autoria do projeto em si não
é clara. Mesmo que fosse cogitado antes da reunião, os discursos não faziam
referências à ele. Dean Rusk oficializa a possibilidade, mas Caicedo de
Castilla (1970: 296), afirmou que a idéia foi colombiana. Arthur Schlesinger Jr
(1965: 716), porém, indica que a proposta foi colocada pelos argentinos. A
posição argentina era próxima à brasileira, mas havia urgência na busca por
soluções intermediárias, principalmente por razões internas. Mesmo assim, no
final, a Argentina manteve-se ao lado de Brasil e México.
O projeto de suspensão de Cuba da OEA (e da Junta Interamericana de Defesa),
avançou sobre propostas como o tratado de obrigações negativas, mesmo com as
alegações brasileiras, dentre outras, de que a medida seria ilegal. Para
aprová-la, necessitava-se de maioria de 2/3, o que só foi conseguido com a
mudança de posição do Haiti. Aqui também há uma controvérsia: diz-se que o
Haiti mudou de posição por pressão norte-americana, que oferecia financiamentos
em troca dos votos. Schlesinger Jr. afirma que foram os haitianos quem
chantagearam os Estados Unidos. De qualquer forma, a posição haitiana foi
modificada e a suspensão aprovada.
Há que se destacar que apenas a suspensão da OEA não conseguiu unanimidade. A
declaração de incompatibilidade entre o regime cubano e os princípios do
sistema, assim como a suspensão da JID, dentre outros, foram aprovados por
unanimidade. A maioria dos países afirmaram posteriormente o sucesso da reunião
e rogaram-se vitória sobre as outras propostas.
De uma certa forma, a reunião foi relativamente satisfatória. Sem qualquer
incompatibilidade com a defesa da posição brasileira, a suspensão de Cuba
possivelmente foi solução necessária para a manutenção da solidariedade
continental. O sistema fora construído antes da Guerra Fria e, em 1962, era
obrigado a tratar de um tema que não havia previsto. Houve um processo de
adaptação à realidade internacional sem grandes prejuízos (mesmo que a solução
tenha sido ilegal em relação ao Tiar), e estabeleceu-se bases mais sólidas para
novas eventualidades. Apenas em 1964, votou-se sanções contra Cuba e modificou-
se a Carta da OEA para prever a suspensão, mas Punta del Este tornou-se a base
do sistema interamericano, por exemplo, no caso da crise dos mísseis de outubro
de 1962. Criou-se mecanismos de ação na Guerra Fria; talvez esse tenha sido um
dos méritos da VIII RMRE.
Em buscas das razões brasileiras
O problema ao projeto de suspensão de Cuba apontado em discursos de San Tiago
Dantas, durante a reunião, foi sua ilegalidade. O Brasil questionara a própria
convocação da conferência e, quando surgiu a proposta, mostrou-se inflexível na
sua condenação. Do ponto de vista jurídico-institucional, a reunião de Punta
del Este foi convocada legalmente, em razão dos precedentes estabelecidos na X
Conferência Interamericana (1954), e na VII RMRE (1960). A natureza do regime
cubano não poderia justificar sanções de qualquer forma, mas o patrocínio de
guerrilhas na América Latina abria a possibilidade de punição. Não havia
previsão no Tiar a suspensão de um país, o que tornou o ato de suspensão de
Cuba contrário à letra do tratado. A reflexão jurídica, assim, favorece a
posição que o Brasil adotou.
Não explica, todavia, as razões que levaram a um posicionamento que condenou
qualquer medida contra a ilha, que se manteve coerente nos discursos e propôs
medidas alternativas na busca por uma solução negociada, mas que não votou
negativamente à suspensão do governo de Fidel Castro, preferindo a abstenção.
Oliveiros Ferreira (1985: 212), e Adolf Berle Jr (1962:103), oferecem elementos
a partir dos quais parte este exercício de compreensão da política externa do
evento. Segundo Ferreira, "para o Brasil, não era apenas o problema jurídico
que estava em jogo. Era também a questão de afirmar posição que não discrepasse
da de Quadros, para não dar a impressão de subserviência aos Estados Unidos".
Berle, por seu turno, afirma que "a crucial fact was that several of the six
governments abstaining from voting on the resolution excluding the Castro
regime from the Inter-American councils did so not because of inherent
disagreement, but because their internal situation was such that their
governments felt they could not act".
A participação brasileira na VIII RMRE deve ser entendida como a intersecção
entre um projeto de política externa claramente delimitado no governo Jânio
Quadros, que definiu uma linha política para o caso cubano em 1961, e que foi
mantido por Goulart no início de 1962, mais exigências do quadro político
doméstico após a crise da renúncia, caracterizado pela radicalização política.
Assim, a Política Externa Independente (PEI), teve em Cuba um desafio concreto
e a utilizou, possivelmente, como vitrine de atuação. Sua liberdade de
movimento, porém, estava seriamente limitada pela controvérsia interna.
Formulada pelo presidente Jânio Quadros e seu chanceler, Afonso Arinos, a PEI
adquiriu essa designação posteriormente, já na gestão de San Tiago Dantas.
Mesmo assim, convencionou-se denominar todo o período com a expressão "Quadros-
Goulart" , devido à continuidade que se pôde observar. Os princípios
fundamentais da PEI foram publicados em artigo de Quadros para a Foreign
Affairs de agosto de 19619.
O presidente Jânio Quadros destaca a dimensão e a força do crescimento
populacional e do potencial econômico do país, e afirma que o Brasil deixara de
seguir uma linha subsidiária para perseguir efetivamente seus interesses. O
principal desses interesses centrava-se no desenvolvimento econômico; este
orientava a política externa, a partir da busca por se tornar independente da
Guerra Fria, aproveitando assim todas as oportunidades que fossem oferecidas.
Reafirma a ligação brasileira com o mundo ocidental, com a prioridade da
democracia (fala da associação brasileira ao bloco ocidental), o reconhecimento
da legitimidade da luta pela liberdade econômica e política. Não deixa de
reconhecer que o socialismo não interessa aos países latino-americanos, mas,
dada a pobreza que assolava a região, ele poderia avançar. Percebe-se, assim, a
relação que o autor faz entre o desenvolvimento econômico e o enfrentamento da
ameaça comunista, retomando, de certa forma, o argumento central da OPA.
O princípio de ação retirado dessa definição consistia em impedir que a
confrontação ideológica afetasse as possibilidades de crescimento que o país
tanto necessitava. Conforme afirmou a Mensagem ao Congresso Nacional de 196110:
"O Brasil só pode ver a causa ideológica condicionada por seu caráter nacional
e seus interesses legítimos. O grande interesse brasileiro, nesta fase
histórica, é o de vencer a pobreza, o de realizar efetivamente seu
desenvolvimento. O desenvolvimento e a justiça social são da essência mesma dos
ideais democráticos".
Salienta Clodoaldo Bueno (2002: 310), que a política de Jânio Quadros, mesmo
que possuísse um importante componente regional, partia de uma concepção
universal e se caracterizava essencialmente por seu pragmatismo. Buscava
promover os interesses nacionais, adotando uma posição independente (e não
neutralista, segundo o presidente), perante outras nações, sendo que um dos
elementos fundamentais caracterizava-se pela busca por desenvolvimento dentro
de um quadro internacional específico. A Guerra Fria separava as nações em
blocos, o que limitava a margem de ação, principalmente em relação aos
mercados; por exemplo, o Brasil ficava limitado majoritariamente à Europa e aos
Estados Unidos. O termo "independente", portanto, talvez possa ser utilizado
tanto como uma afirmação da ruptura com linhas anteriores da Política Externa
Brasileira, quanto como uma declaração em relação à Guerra Fria, de
"independência" da disputa ideológica.
Poucos eventos conjugaram os desafios da PEI como Cuba. Conforme apontado na
primeira parte do presente trabalho, no início da década de 1960, Cuba era
(junto com Berlim), elemento de grande tensão da disputa ideológica entre
Estados Unidos e a União Soviética. Para um país que buscava a independência
ideológica, a atuação nesse caso seria praticamente uma "vitrine",
principalmente para os países do bloco oriental.
Havia, também, as variáveis regionais e as tendências históricas do
relacionamento interamericano, que inspiravam a busca pela não-intervenção e
soluções negociadas contra ações intervencionistas, as quais poderiam abrir
precedentes (talvez até contra atitudes como a PEI). Finalmente, tinha-se a
diplomacia entre Brasil e Estados Unidos, sobre a qual se buscava imprimir um
relacionamento mais igualitário (e não mera oposição), mas cujas repercussões
no Brasil, dividiam a opinião pública. Assim, a questão cubana possivelmente
consistiu num dos maiores testes da PEI, o que destaca a importância da VIII
RMRE.
A construção da política de Jânio Quadros em relação à Cuba iniciou-se ainda na
campanha presidencial, em visita que o então candidato fez, junto com Arinos em
1960. Segundo as considerações deste (2001: 129), a questão passaria pela
revitalização da ONU e da OEA, com a reintegração de Cuba ao sistema, processo
cuja mediação brasileira poderia ser útil. Já nesse momento, Arinos tratava de
se evitar "jogar" os cubanos para o bloco oriental.
Até 1961, as relações das Américas com Cuba ainda não haviam entrado em fase
mais aguda. O governo JK via a Revolução Cubana sob o prisma da Operação Pan-
Americana e o relacionamento com os Estados Unidos. Nas reuniões
interamericanas, principalmente na VII RMRE (em 1960) na qual se condenou o
comunismo sem referências diretas a Cuba em tendência mais próxima aos Estados
Unidos. Não assumiu, contudo, apoio completo ao governo Eisenhower, defendendo,
dentre outros, o princípio da não intervenção e a busca por uma solução
pacífica11.
Foi no governo Jânio Quadros que o Brasil construiu um plano mais elaborado
para o tratamento do tema. Com a radicalização do conflito, ocorreram várias
gestões do governo norte-americano, fosse para pressionar por uma reunião de
consulta, ou um posicionamento contrário a Castro, fosse para pedir a ajuda
brasileira em uma solução negociada12. De uma dessas consultas (25 de abril),
resultou memorando de 2 de maio de 1961 (Arinos, 2001: 179), do chanceler para
o presidente, no qual se aprofunda a questão e se define linhas de ação.
O chanceler afirma que, dada a capacidade de os Estados Unidos conseguirem
apoio de outros governos para uma reunião de consulta, o Brasil não deveria
deixar de comparecer, principalmente em razão de sua importância no continente.
Em questão, encontravam-se, na visão do ministro, duas teses aparentemente
antagônicas: a solidariedade continental e a não-intervenção. O ponto mais
sensível talvez fosse a posição norte-americana, que parecia ao chanceler
decidida à ação diplomática e jurídica (sanções), até porque uma intervenção
sem cobertura legal lhe criaria uma situação extremamente grave (como de fato
ocorreu com a Baía dos Porcos).
Com esse pressuposto, afirmou-se que duas linhas de ação eram possíveis ao
Brasil: na primeira, evitar-se-ia a condenação do comunismo, mas o resultado
não seria profícuo, visto que isolaria o país no continente, além de efeitos
danosos com relação à opinião pública interna. Por outro lado, a possibilidade
de apoiar uma intervenção em Cuba poderia afetar a linha de independência da
política externa, que tinha como pontos fundamentais o apoio ao princípio da
não-intervenção e à luta anticolonialista. Acreditava-se, assim, que "com
habilidade e boa-fé", o país conseguiria entrosar as regras de direito e manter
uma defesa coerente da solidariedade interamericana. Diante da constatação de
que caso Cuba radicalizasse sua posição, os Estados Unidos interviriam, disse
Arinos (Arinos Filho, 2001: 175): "Então, nós nos oporíamos à intervenção em
Cuba, feita a pretexto de prevenir a América contra a intervenção do comunismo
internacional. Mas, ao mesmo tempo, nós concordaríamos com todas as medidas
preventivas que visassem evitar os riscos que o comunismo traria a certos
países mais expostos da América do Sul [...], os quais, realmente, ficarão em
sérios apuros, caso se consolide, em Cuba, um fidelismo comunista. Faríamos
algo como o cordão sanitário que cerca a Alemanha oriental".
Esse posicionamento permaneceu durante todo o governo de Jânio Quadros13, tanto
na condenação ao episódio da Baía dos Porcos, quanto na tentativa do Brasil de
auxiliar as partes a chegarem a um acordo, como ocorreu no episódio relatado
por Roberto Campos, entre Che Guevara e o embaixador norte-americano, na
Conferência de Punta Del Este de agosto de 1961, poucos dias antes da renúncia
do presidente.
A política desenvolvida por Jânio Quadros foi mantida na solução
parlamentarista do governo de João Goulart. O programa de governo apresentado
pelo presidente do Conselho de Ministros, Tancredo Neves, à Câmara dos
Deputados14, mantinha as linhas da PEI, lideradas agora pelo chanceler San
Tiago Dantas. A continuidade fica patente na conhecida reunião da "Casa das
Pedras". Reuniram-se diplomatas, políticos e especialistas, grande parte
nomeados ainda no governo Jânio, para discutir diversos assuntos da agenda
externa, principalmente Cuba. Na mesma linha do memorando de Afonso Arinos,
Vasco Leitão da Cunha propôs o que ficou chamado de projeto de "Finlandização"
de Cuba, consubstanciada no tratado de obrigações negativas. Isso não
significava a aceitação de um regime comunista (as autoridades brasileiras
condenavam-no unanimemente); centrava-se na garantia cubana de não contrair
alianças militares, limitar suas compras de armas e abster-se de propaganda
política nos vizinhos (criando uma situação semelhante a da Finlândia). San
Tiago Dantas aprovou o plano imediatamente, cujas linhas gerais foram expressas
na alocução de 12 de janeiro de 1962.
Em Punta del Este, assim, o Brasil, em grande medida, manteve posição coesa, a
partir de planos elaborados ao longo de 61. O Brasil buscava uma forma de
atuação internacional que, ao mesmo tempo em que defendia valores como a
democracia ocidental, permitia o contato e negociação com outros blocos. A
independência significava a diminuição da influência do confronto ideológico na
formulação da política externa. Isso constituiu ponto essencial para a posição
brasileira na VIII Reunião.
Houve, porém, contradições. Se, por mais que fosse ideal, o tratado de
obrigações negativas encontrava resistência nos próprios cubanos o que
inviabilizava-o por que manter o posicionamento e não aceitar medidas mais
enérgicas? Por outro lado, se se vislumbrava a possibilidade de aplicação do
tratado e a mediação entre Cuba e o hemisfério, por que houve abstenção, e não
se votou contra a resolução que suspendia o governo revolucionário?
As respostas a essas indagações possivelmente se encontram no segundo ponto de
influência da política externa brasileira para a época, a questão interna.
Desde o início da Revolução Cubana, em 1959, a visão dos atores domésticos
dividia-se, em grande medida, pela própria polarização no país. Segundo
Skidmore (2000: 18), no fim da década de 1950 e início dos anos 1960, o Brasil
viu-se em profunda crise institucional, "resultante do fracasso em criar
instituições e processos políticos que pudessem canalizar e dirigir as rápidas
mudanças sociais e econômicas que transformaram o Brasil, desde 1930". O
governo de Jânio enfrentou graves problemas, políticos e econômicos, os quais
podem ser relacionados, por exemplo, aos motivos que levaram à criação da PEI.
A própria execução da PEI, especialmente no caso de Cuba, causava
controvérsias. José de Brito Cruz (1989: 70), afirma que um dos objetivos da
PEI era de âmbito interno, de cooptar setores da esquerda para um governo
originário de uma coalizão conservadora. Não era possível, porém, desconsiderar
a oposição anticomunista, o que o próprio chanceler Arinos revela em memorando
(2001: 128), elaborado após a visita do embaixador Cabot.
Talvez seja importante retomar as considerações iniciais sobre a PEI. Mesmo que
Jânio buscasse cooptar a esquerda, é mais provável pelos discursos que a
política externa buscava efetivamente isolar-se da disputa ideológica,
favorecendo interesses nacionais, com qualquer dos blocos. O resultado mais
imediato, porém, foi principalmente a oposição dos dois lados. Um dos eventos
mais reveladores dos problemas internos da PEI foi o episódio da condecoração
de Che Guevara. Provavelmente, resultado de uma intermediação de Jânio entre
Cuba e a Santa Sé, ocorreu pouco antes da renúncia e atraiu ainda mais atenção
para a questão cubana.
Tem-se, em seguida, a crise da posse e as questões da ascensão do presidente
João Goulart. Mais uma vez, conforme Brito Cruz (1989: 71), o governo Goulart
nasce sobre o "signo da suspeição ideológica". A continuidade da linha adotada
por Jânio, assim, torna-se mais difícil, especialmente às vésperas da VIII
RMRE. Mesmo setores mais moderados entram no debate, como foi o caso da carta
publicada por quatro ex-chanceleres, a qual pedia medidas mais enérgicas em
relação ao governo Castro. Mario Gibson Barbosa (1992), relata que a proposta
brasileira tinha o apoio de vários setores da esquerda, mas ele se tornava
incômodo por polarizar a questão.
As pressões internas são observadas claramente nas instruções do Conselho de
Ministros à delegação brasileira. O documento afirma que o Brasil não votaria
sanções contra Cuba, pois essas medidas apenas serviriam "para agitar a opinião
pública e radicalizar ainda mais a política interna do Brasil". Tanto os
relatos de Arinos e Gibson Barbosa, quanto reportagens da época (por exemplo,
artigo do Correio Paulistano de 20 de janeiro), demonstram a clara influência
dos eventos internos na posição brasileira em Punta del Este.
Talvez o principal efeito das pressões domésticas tenha sido o de limitar as
opções da delegação e não modificar sensivelmente a linha de ação traçada ainda
no governo Jânio. O Brasil manteve uma posição consistente com os princípios da
PEI e ganhou a simpatia de diversas delegações e setores da imprensa ocidental,
como o caso do New York Times e The Economist. O apego inflexível ao Direito,
porém, pode tanto significar a consistência do respeito brasileiro às regras
interamericanas, quanto a tentativa de utilizar-se de argumentos neutros, sobre
os quais nenhuma posição ideológica poderia se sobrepor. Assim, se é possível
que a posição contrária à suspensão de Cuba tenha se dado pelo respeito às
normas, especialmente do chanceler brasileiro, pode ser que buscasse se isolar
da decisão; conforme o relato de Oliveiros Ferreira no início deste trabalho, a
questão jurídica não era impossível de ser resolvida.
A abstenção brasileira sobre suspensão de Cuba da OEA refletia, de certa forma,
a necessidade de minimizar controvérsias internas. Ao mesmo tempo, aprovou-se a
suspensão cubana da Junta Interamericana de Defesa. Essas duas votações
possivelmente indicam o desejo de atender às reivindicações diversas, da
esquerda (abstenção à suspensão), e da direita (sim na suspensão da JID). Não
se pode esquecer, conforme Gibson Barbosa, que o presidente Goulart chegou a
mudar de posição em razão da pressão norte-americana, mas a modificação não se
concretizou devido à recusa do chanceler em atender a ligação, pouco antes da
sessão final.
Na volta ao Brasil, San Tiago enfrentou problemas (em debates na Câmara), e
provavelmente sua atuação em Cuba influenciou negativamente a sua indicação a
primeiro-ministro. Mesmo assim, a política adotada somente foi alterada com o
golpe de 1964.
A posição brasileira em Punta del Este pode ser entendida, assim, como o
resultado de um projeto de política externa traçado em razão das necessidades
do país dentro de uma conjuntura internacional específica, no qual destacava-se
o problema cubano. Cuba conjugava diversos elementos da realidade internacional
e tornava-se uma espécie de vitrine para a demonstração do novo posicionamento
do país. Era necessário encontrar uma solução negociada, dentro dos princípios
da PEI, mas elementos domésticos limitavam a participação nacional. O resultado
da VIII RMRE, mesmo sem a prevalência completa da visão brasileira, foi
relevante na concretização dos princípios e idéias contidos nos discursos que
instituíram a PEI e na revelação dos seus limites domésticos e internacionais.
Conclusão
No presente trabalho se procurou analisar a posição brasileira na VIII RMRE, a
qual, dentre outras medidas, suspendeu o governo de Fidel Castro da OEA. Para
tanto, procedeu-se à contextualização da questão e o caminho percorrido até a
aprovação e início da conferência, em janeiro de 1962. Em seguida, analisou-se
a reunião, seus argumentos e resultados. Com todos os elementos gerais
estabelecidos, estudou-se a política externa brasileira. Cabe, talvez, voltar
ao questionamento inicial do embaixador Teixeira Soares, sobre o mérito da
reunião.
Uma visão positiva da VIII RMRE é possível tanto do ponto de vista do sistema
(que favoreceu a suspensão), quanto da posição brasileira: a conferência
atingiu resultados satisfatórios, a partir de uma visão do contexto da Guerra
Fria (sua escalada na região), e a necessidade de manutenção da solidariedade
continental; exatamente essa questão do conflito global interferindo no plano
regional (ou mesmo doméstico), que o Brasil buscava superar, neutralizando o
conflito ideológico, por exemplo, pela "Finlandização" de Cuba. Portanto, a
política externa brasileira traduzida na proposta de Punta del Este, talvez
fosse a mais eficaz para a América Latina, por afastar-se do conflito
ideológico e abrir espaço para o tema do desenvolvimento. Como isso não foi
possível, o resultado foi satisfatório se observado dentro da conjuntura
mundial. Nesse sentido, talvez seja possível afirmar que o resultado da VIII
RMRE foi um second best.
Há também a relação entre o evento e as mudanças na política externa
brasileira. A reunião demonstrou a força e os limites da PEI. Talvez este tenha
sido, em relação à política externa brasileira, o maior mérito da Conferência
de Punta del Este de janeiro de 1962.