A Rússia na ordem mundial: com o Ocidente, com o Oriente ou um pólo autônomo em
um mundo multipolar?
Introdução
Passados um pouco mais de dez anos desde a saída da Federação Russa de uma
transformação radical, corolário da queda do Muro de Berlim, da dissolução da
União Soviética e do fim da Guerra Fria, o interesse da comunidade
internacional na sua transição e na sua evolução não se esvaeceu. Continua bem
vivo e mantém-se aquecido pelo fato de que ainda há mais perguntas do que
respostas a respeito do objetivo, do caminho e do modelo da evolução da Rússia
no futuro. Uma falta de clareza, quanto ao lugar que a Rússia ocupa e pretende
ocupar no mundo contemporâneo, leva a tecer algumas considerações a respeito.
Depois do dramático período da desintegração e em meio a um complexo e
traumático processo de transição ' do estado unitário e da economia
centralizada para uma sociedade democrática de direito e economia de mercado '
aparecem sinais de uma estabilidade longamente esperada. Apesar de o PIB da
Rússia ser equivalente a uma décima parte do PIB dos Estados Unidos ou da União
Européia, ou a um terço do PIB da China ou a uma metade da economia brasileira,
de sua população ter diminuído devido ao crescimento da taxa de mortalidade e
em virtude das migrações populacionais desde a extinção da União Soviética, de
151 mil em 1990 a 147 mil em 2001, de o país ter sofrido uma dura crise
financeira em 1998, a Rússia vem apresentando nos últimos quatro anos uma
notável recuperação: 5,4% de crescimento do PIB em 1999, 8% em 2000, 5% em 2001
e 4,5% em 2002. O país pulou do quinto para o segundo lugar no mundo entre
exportadores de petróleo e derivados e prepara-se para entrar na OMC. A Rússia
paga adiantado juros e a parte de sua dívida externa para o Clube de Paris e o
FMI, antecipando os prazos estabelecidos, com expectativa de terminar os
pagamentos da dívida em oito a dez anos. O Presidente Putin mantém a aprovação
de 70% a 75% dos entrevistados nas sondagens da opinião pública russa a
respeito da situação na Chechênia. O panorama político do país caracteriza-se
pela relativa calma se comparado com a crise de 1993 ou a luta pré-eleitoral de
1996.
Nesse panorama de relativa estabilidade política e de avaliação otimista da
recuperação da economia russa, desenvolve-se uma expectativa de que a política
russa encontrou uma fórmula para sua evolução a curto e a médio prazo, está
saindo de sua pior fase, vem ganhando maior credibilidade de investidores e de
homens de negócios, mas, apesar de todo potencial positivo, ainda não conseguiu
traçar sua perspectiva política de longo prazo. Tanto essas considerações como
as observações referentes às modificações de conceitos da política externa ou
de segurança comprovam certo desempenho imediatista e demonstram uma incerteza
relativa do rumo em termos de inserção política global e em termos de
crescimento econômico e desenvolvimento. É desnecessário dizer que, depois do
fim da bipolaridade, muitos países, tanto ocidentais como asiáticos, depararam-
se diante do problema de re-ordenamento de suas estratégias e políticas. No
entanto, eles mantiveram, na sua maioria absoluta, o entrosamento
característico para a fase posterior ao desmoronamento do bloco soviético no
âmbito da UE, Otan, OCDE, UEO, Asean, OEA, OUA e outros organismos, procurando
revigorar a sua atuação nessa rede de alianças e relações. A Rússia, ao perder
uma rede substancial de alianças (Pacto de Varsóvia, Conselho de Ajuda Mútua
Econômica, tratados bilaterais de amizade e cooperação com os antigos aliados,
estruturas de relações interpartidárias e intersindicais) e ao retrair-se
geograficamente, expôs-se a uma reestruturação radical de seus vetores
políticos externos, cuja grande parte ficou sem norte, indeterminada ou sem
sentido. Não são fortuitas, portanto, as recorrências aos precedentes e padrões
da política da Rússia imperial anteriores ao período soviético e a busca do
norte por meio do repensar dos esquemas políticos e estratégicos, dos
procedimentos diplomáticos da época, inclusive por meio do estudo de estilos
dos grandes estadistas e chanceleres da Rússia pré-soviética.1 Constatada essa
perda do norte que caracteriza a política da Rússia em geral, é oportuno
observar que, depois dos longos anos de predominância na sociedade do paradigma
do messianismo universalista, o eixo do debate político nesses últimos anos vem
sendo modificado graças ao binômio ocidentalismo/orientalismo, importante tema
de discussões referentes à orientação da política externa russa no âmbito da
comunidade acadêmica e entre partidos políticos na Duma2.
Com vistas ao acima referido, a nossa intenção é, com base na construção de
várias premissas de ordem teórica, sem pretensão alguma de originalidade de
opinião, tentar traçar conseqüências para a conjuntura internacional resultante
de algumas opções que a Rússia pretende fazer ou já vem fazendo na sua política
externa.
Logo abaixo são relacionadas premissas básicas de alguns cenários da futura
inserção da Rússia na ordem mundial, ao mesmo tempo contínua e mutante, que, em
tese, poderão ser discutidas com respeito à Rússia pós-yeltsiniana. Será que
ela se voltará ao Oriente para construir seu futuro com seus grandes vizinhos
asiáticos como a China, a Índia, quiçá, o Japão? Será que a ocidentalização do
país resultará na incorporação da Rússia pelo Ocidente e na sua identificação
com os valores humanos, políticos, civilizacionais ocidentais? Será que a
Rússia tentará se consolidar como um pólo original e independente de poder, em
um mundo multipolar, sem preferências estratégicas e civilizacionais? Ou,
então, a Rússia desistirá dos velhos estereótipos baseados em analogias
históricas e ideologias saudosistas e escolherá uma opção original de sua
inserção internacional? Essas colocações básicas de cenários da futura inserção
da Rússia na ordem mundial são assuntos de comentários neste artigo com a
seguinte salvaguarda. Segundo alguns propósitos analíticos, a Rússia, guiada
por seus políticos, seria reticente e inconformada em se dirigir aos espaços
ocupados por outras civilizações. Portanto, por um lado, não irá aonde não é
desejada ou receada como aliado ou parceiro com intenções imperialistas e, por
outro, não será aceita pelos sistemas de alianças rígidas que não prevêem uma
participação russa.3 Porém, essa opção estritamente isolacionista (em termos
práticos, reminiscente do recente passado soviético) está rejeitada como uma
evolução absolutamente indesejável quase consensualmente pela sociedade e por
partidos políticos por apresentar um beco sem saída e por condenar qualquer um
dos modelos de desenvolvimento da Rússia no século XXI avaliados neste artigo.
Vetor asiático e oriental da política externa da Rússia
Ocorrida a mudança nos escalões de poder interno da Rússia depois da eleição,
em março de 2000, de Vladimir Putin como Presidente da Federação Russa, a
percepção que se obtém a partir da análise de vários sinais dados pela
diplomacia russa na Europa, nas relações com os Estados Unidos e nos avanços
conseguidos com os vizinhos europeus, asiáticos e do Oriente Extremo é que, em
primeiro lugar, a política externa russa está mais equilibrada, sobretudo pela
atenção redobrada que a Rússia de Putin tem dado à Ásia e ao Oriente, e que, em
segundo lugar, houve uma modificação visível no rumo da política externa em
comparação com a fase anterior (sobretudo o período do ex-chanceler Vladimir
Kozyrev), que se caracteriza agora pela reaproximação com a Coréia do Norte,
Vietnã, Cuba, Irã e Iraque. Essa mudança de postura tornou-se mais perceptível
desde a nomeação de Evgueni Primakov para o posto de Ministro dos Negócios
Estrangeiros da Rússia e, sobremaneira, desde o desentendimento havido entre a
Rússia e os países-membros da Otan quanto às interpretações divergentes da
intervenção humanitária da organização em Kosovo. A "ofensa" de Kosovo,
demonstrada como uma démarche para o cancelamento da visita oficial aos Estados
Unidos e para o retorno surpreendente do primeiro-ministro Evgueni Primakov à
Rússia, já em pleno vôo sobre o Atlântico, era um precedente precursor dessa
mudança de atitude.
O choque sentido pelos dirigentes russos nesse caso foi de dupla natureza:
primeiro, pelo desprestígio causado pela ingerência do Ocidente na área
considerada uma zona de interesse estratégico, devido ao alto grau de confiança
mútua nas relações russas com o regime de Milosevic; segundo, pela
desconsideração da política russa na região, cujos precedentes históricos
recuam ao final do século XIX e estão relacionados com episódios da presença
militar (na Romênia e na Bulgária) e econômica (na Iugoslávia) nos Bálcãs,
povoados pelos povos eslavos. O ressentimento, portanto, era uma das principais
razões para que os russos acrescentassem uma boa pitada de rapé nas relações
com os países da Otan e os Estados Unidos, a partir de 1999, e começassem a
explorar opções orientais.
Uma alienação da Rússia em relação ao Ocidente, que tem fundamentos históricos,
inclusive baseados no período recente da Guerra Fria e que continua sendo
tachada pelas atuais tensões nas relações russo-americanas e Rússia-Otan,
esteve na origem da proposta de uma nova política asiática da Rússia, definida
em termos do famoso triângulo estratégico de Primakov "Moscou-Délhi-Pequim"4. A
iniciativa diplomática do ex-Primeiro-ministro russo, um orientalista pela
formação e pela vivência profissional, anunciada durante sua visita oficial à
Índia, veio esbarrar contra uma série de fortes objeções e uma frieza de
aceitação tanto dentro quanto fora do país, abalando fundamentos propostos para
uma alternativa sólida na política externa russa. Em primeiro lugar, os
interesses estratégicos e políticos da Rússia, da China e da Índia, de um modo
geral, coincidindo em assuntos globais, não convergem em assuntos regionais ou
divergem em assuntos concretos. Segundo, seus valores básicos civilizacionais,
éticos e culturais são distintos. Terceiro, seus interesses econômicos nas
áreas não-conflitantes não são totalmente coincidentes. A China, "economia de
mercado socialista", define os seus interesses nacionais em termos da solução
do problema de Taiwan e da promoção comercial. A Índia, "a maior democracia
mundial", fora da preocupação com as forças centrífugas dentro de sua
federação, investe na solução do conflito indo-paquistanês por vias não
necessariamente pacíficas. A Rússia, economia ex-socialista em transição ao
mercado e ao estado de direito, envolvida na eliminação do foco da
"dissidência" chechena, está mais preocupada com o controle administrativo de
sua imensidão territorial e com a instabilidade no seu "anel de vizinhança"
caucasiano e asiático. Cada um dos países, em fases diferenciadas de
desenvolvimento econômico, poderia cooperar em assuntos comerciais, econômicos,
ecológicos, tecnológicos e de investimentos, mas está longe de criar um sistema
de parceria estratégica à laOtan como podia ter sido visto por Evgueni
Primakov. Os termos estratégico-militares de tal parceria não poderiam ser
viabilizados nem dentro da ótica de valores comuns, nem dentro de determinados
interesses políticos, nem da cooperação nas referidas áreas. O Tratado de boa
vizinhança, amizade e cooperação com a China assinado em julho de 2001, um
documento de parceria estratégica e cooperação econômica, não reflete objetivos
político-militares, não é um manifesto antiamericano e não visa criar uma
coalizão político-militar que se oponha a quem quer que seja, diferentemente do
Tratado de ajuda mútua firmado entre Stalin e Mao-Tsetung há meio século. A
venda maciça de material bélico russo à Índia não implica nenhuma parceria
estratégico-militar com a Rússia e está se realizando em função da necessidade
de uma maior autonomia militar indiana no conflito com o Paquistão e no
equilíbrio estratégico com a China. O relacionamento da Rússia com o Japão
continua embargado pela disputa territorial sobre o arquipélago de Pequenas
Curilas.
Mesmo com as fortes justificativas de que a opção oriental da Rússia não se
constituiu e provavelmente não se constituirá num vetor estratégico de longo
prazo, nada nos impede de concluir que a mudança nos escalões de poder interno
da Rússia, depois da eleição de Vladimir Putin, fez com que a parceria com o
Ocidente, iniciada, mantida e, de certo modo, privilegiada por Yeltsin, ficasse
equilibrada pelo ressurgimento de atividades bilaterais que a Rússia de Putin
tem efetuado em relação a vários países asiáticos, como a Índia, a China, o
Japão, a Coréia do Sul, o Vietnã, sem esquecer os que os Estados Unidos de
George W. Bush classificaram de o "eixo do mal": a Coréia do Norte, o Iraque e
o Irã. Deve-se fazer uma ressalva importante: essa modificação de rumo, em
comparação com o período yeltsiniano, sobretudo, com respeito aos quatro
últimos, não se transformou, no entanto, numa política de longo prazo, por não
ter uma base conceptual definida e por ter provocado críticas por ser
antiocidental5. O orientalismo, portanto, não se transformou numa opção
estratégica de longo prazo a custo de qualquer outro vetor político externo.
Vetor ocidental da política externa da Rússia
A opção ocidental na política externa russa é um vetor novo, que surge a partir
da superação da fase confrontacional da Rússia com o Ocidente de cerca de meio
século de duração. Numa flexão de sua trajetória, a opção pelas alianças e
parcerias ocidentais contribuiu para o reforço e a garantia de segurança das
posições internacionais da Rússia na etapa de sua inserção pós-soviética e pós-
bipolar nas estruturas estratégicas, econômicas e financeiras do Ocidente.
Pegando o lado econômico, não há dúvida de que a política ocidental da Rússia
obteve vantagens a partir da associação com organismos financeiros e econômicos
governados pelo Ocidente. Só que essas vantagens foram recebidas com bastante
frustração pela população que não sentiu os devidos efeitos da reforma
econômica no plano interno (cresceu a dívida externa, deflagrou-se uma crise
financeira em agosto de 1998, o PIB e a renda per capita ficaram diminutas e
investimentos escassos). Em termos do relacionamento externo com a Europa
Ocidental e os Estados Unidos, a expansão da Otan para o Leste, a intervenção
da Otan na Iugoslávia sem que houvesse a autorização do Conselho de Segurança e
a promoção dos interesses geoestratégicos do Ocidente no Cáucaso e na Ucrânia
foram recebidos com profunda amargura, associada à percepção de que os
"parceiros" ocidentais partiam do pressuposto de que a Rússia não tem
alternativa à aceitação dos interesses ocidentais, que sua debilidade estatal,
fraqueza econômica, dependência financeira do Ocidente atrapalham a atuação
independente na cena internacional.
Portanto, além de ser um vetor recente, a orientação pelo Ocidente é avaliada
por nacionalistas e comunistas russos como uma direção inviável; já pela
opinião pública em geral como uma opção questionável e não uni-direcional,
criando-se, assim, uma polêmica em torno da acepção generalizada da
ocidentalização da Rússia e com respeito à busca da "via russa"6.
O que acrescenta lenha ao debate sobre a ocidentalização é que o conceito de
coesão transatlântica do Ocidente está fragilizado pelo debate que tem ocorrido
há alguns meses nos círculos acadêmicos dos Estados Unidos e da Europa. O
surgimento de uma séria cisão dentro do Ocidente, entre os Estados Unidos e a
Europa, cuja harmonia unificadora se encontra atingida por um desacordo
fundamental, foi apontado no comentado artigo de Robert Kagan, publicado na
revista Policy Review em julho do ano passado7.
Esse argumento encontra eco nas idéias expostas por Hélio Jaguaribe a respeito
do Ocidente e elaboradas dentro do paradigma histórico-social quando ele
escreve: "Abre-se [...] um novo conflito entre o sentido de eficácia e os
valores do humanismo[...]. Desse dilema se confrontam, na cultura ocidental,
por um lado, Estados Unidos e um Japão ocidentalizado e, por outro, a Europa e
a América Latina"8.
Ao aceitar os argumentos expostos acima, podemos deduzir que dentro desse
raciocínio surge um importante dilema para a política russa atual: qual dos
Ocidentes seria mais favorável aos interesses vitais da Rússia? Onde a Rússia
preferiria lançar a sua âncora? No Ocidente hobbesiano, dominado pelas
preferências políticas hegemônicas, ou no Ocidente grociano, cuja indefinição
em termos do relacionamento com a Rússia lança dúvidas e provoca
questionamentos? No Ocidente dos Estados Unidos e da hegemonia "uni-multipolar"
ou no Ocidente da Europa unida, que traçou e envereda pela via da construção de
uma prosperidade compartilhada e solidária em condições da paz kantiana?
Talvez, a colocação do dilema, seja muito importante pelo motivo seguinte: é
que a própria posição da Rússia mudou significativamente durante a última
década. Se esse questionamento tivesse surgido há uns quinze anos a pergunta
seria: para qual dos lados a Rússia (então União Soviética) daria sua
preferência e acrescentaria seu peso? A questão que colocamos agora é: com qual
dos lados a Rússia se aliaria para não perder seu peso?
Desse ponto de vista, as relações com os Estados Unidos ou com a União Européia
devem ser vistas através do prisma de parceria estratégica com o Ocidente, que
significaria a identificação dos interesses nacionais russos com os interesses
e valores comuns da comunidade estratégica ocidental, principalmente a Otan, e
que, apesar das divergências circunstanciais, continuam sendo compartilhados.
Tal fato implicaria o reconhecimento da Rússia como parceiro importante e
levaria sua inserção nos organismos econômicos multilaterais, principalmente a
OMC, com o beneplácito do bloco ocidental9.
Porém, se aplicarmos a essa hipótese o teste das relações bilaterais russo-
americanas, ela será encarada na Rússia com bastante ceticismo, visto que,
literalmente, até há pouco tempo não havia identificação de interesses comuns
de longo prazo entre os Estados Unidos e a Rússia. Até os ataques terroristas
de 11 de setembro, talvez o único problema que cada um dos países considerava
comum dentro do paradigma de segurança nacional e se comprometia com sua
solução concertada era o fator nuclear dentro do propósito do desarmamento
nuclear paritário.
As relações da Rússia com os Estados Unidos nos anos 90 tiveram uma fase de
profundas transformações positivas, mas entraram numa trajetória descendente no
final do governo Clinton. A expansão da Otan e a insistência com que os Estados
Unidos pressionavam a Rússia a abandonar e nulificar o ABM Treaty
(Antiballistic Missiles Treaty) de 1972, avançando o plano da instalação do MDS
(Missiles Defense System), colocaram o governo de George W. Bush perante uma
opção: continuar a parceria estratégica nuclear com a Rússia baseada na
paridade, mantendo lealdade ao Tratado, em princípio obsoleto e contornável, ou
sair do Tratado, quebrando o esquema paritário, deixando a Rússia receosa de
uma iniciativa defensiva, que, por ter similitude com a SDI (Strategic Defense
Initiative de Ronald Reagan), provavelmente empurraria a Rússia para a corrida
armamentista dentro do velho esquema bipolar. Quando a renúncia unilateral
aconteceu no final de 2001, a reação de Vladimir Putin foi mais do que
reservada. Por quê? O novo líder russo entendeu, em primeiro lugar, que
qualquer concorrência na área estratégico-nuclear com os Estados Unidos
resultaria em sacrifícios catastróficos para a economia do país, a exemplo das
conseqüências da competição entre as superpotências para a União Soviética, e,
em segundo, que a configuração e o teor das ameaças para a segurança da Rússia
mudou de tal maneira que não somente os Estados Unidos desapareceram da relação
dos seus inimigos, como também a própria lista de inimigos deixou de existir10.
Essa controvérsia de caráter estratégico que resultou numa complexificação dos
problemas bilaterais, dadas as posturas desfavoráveis ou reservadas tanto dos
oponentes como dos aliados, não é a única área das divergências que carateriza
as relações entre a Rússia e os países ocidentais. Nas seguintes áreas de
importância geoestratégica e geoeconômica, vários interesses do Ocidente e da
Rússia não convergiam, eram ou poderiam ser conflitantes no futuro.
a) A expansão da Otan
A expansão da Otan em direção às fronteiras da Rússia provocou uma séria
preocupação dos militares e políticos russos de diversas orientações
partidárias. As mudanças na doutrina militar da Rússia em 2000 foram o
resultado direto da estratégia expansionista da Otan (adesão da Polônia,
República Tcheca e Hungria), exacerbada pela desconsideração com que a Rússia
foi tratada no conflito de Kosovo. Essas modificações doutrinárias, em
comparação com a versão de 1997 da mesma doutrina, permitiram uma
complementação de situações nas quais a Rússia pudesse recorrer ao uso de armas
nucleares, como por exemplo, em caso de uma agressão de envergadura com o uso
de armas convencionais contra a Rússia e que colocaria sua sobrevivência como
Estado em cheque.11 A Parceria pela Paz que incluiu a Rússia em consultas com a
Otan a partir de 1997 não afastou o pensamento de que os supostos desígnios
políticos e estratégicos dos Estados Unidos e dos aliados da Otan na Europa
visam o domínio e a substituição da Rússia na região do antigo bloco soviético
na Europa de Leste e no Cáucaso.
b) Os países bálticos
A extensão da Otan aos países Bálticos ' Letônia, Lituânia, Estônia, cuja
reintegração na União Soviética em 1940 nunca tinha sido reconhecida pelos
governos ocidentais por ser qualificada como uma anexação ' foi tratada pelos
militares e pelos políticos nacionalistas russos como um passo ao caminho da
acumulação de ameaças à segurança da própria Rússia, cujos centros industriais
e instalações militares, principalmente a cidade de São Petersburgo, estariam
vulneráveis caso uma situação de instabilidade nos Balcãs ou no Cáucaso
provocasse mudanças na concentração de forças armadas e de armamentos
convencionais nos flancos do continente europeu, uma vez que os referidos
países bálticos não são parte do Tratado de Limitação das Forças Armadas
Convencionais na Europa12. O enclave russo de Kaliningrad (antiga Köenigsberg
da Prússia Oriental), separado do mainlandrusso pela Lituânia e Letônia,
enfrenta uma situação de isolamento humanitário e econômico, uma vez estar
ligado à adesão, a partir do ano de 2004, dos três estados bálticos e da
Polônia, República Tcheka, Hungria, Eslováquia à União Européia. Enquanto isso,
os planos e ações de implantação da infra-estrutura de radares da Otan na
Letônia, em substituição das estações russas, causam comentários cáusticos dos
nacionalistas russos sobre a falta de firmeza do governo russo face à expansão
da Organização do Tratado do Atlântico do Norte para o Leste.
c) A Comunidade dos Estados Independentes
Além de concentrar na periferia vários conflitos entre e dentro das antigas
repúblicas da União Soviética, a região é uma arena de concorrência entre os
Estados Unidos e a Rússia pelo acesso aos recursos energéticos (petróleo e gás)
e pelas vias de seu transporte. Enquanto a Rússia insiste, pelas razões óbvias,
em rotas que passariam pelo território russo, os Estados Unidos se manifestam
pelas vias múltiplas e alternativas, sob pretexto das hostilidades na
Chechênia, para conseguir submeter novos produtores de petróleo na região, como
o Turcomenistão, ao controle estratégico ocidental. O dinamismo da política
externa dos Estados Unidos no Cáspio e no Cáucaso (o jogo de interesses
petrolíferos na região e o envio de conselheiros militares na Geórgia) e
recentemente a entrada do pessoal militar nos países da Ásia Central, em
conseqüência da utilização das bases daqueles países no combate às forças
armadas dos talibãs e aos campos de treinamento da Al-Qaeda no Afeganistão,
podem inquietar os dirigentes russos. A penetração política, econômica e
militar da atual superpotência na zona de interesses declarados da antiga
superpotência causa preocupação e provoca tomadas de posições. Enquanto os
Estados Unidos vêem a Ucrânia como uma pretendente à candidatura para a Otan e
avaliam tudo que possa incentivar a reintegração do espaço pós-soviético, como
por exemplo a unificação de Belarus e da Rússia como uma forma saudosista de
imperialismo russo, a Rússia cria redes e bases de suas relações futuras com o
seu "exterior próximo": em 1997-1998 funda-se uma união Rússia ' Belarus (a
república de Belarus visualizada por estrategistas como um cunho, embutido na
área de segurança da Otan); as relações econômicas com a Ucrânia vêm sendo
solidificadas com o objetivo de mantê-la neutra e afastada da Otan; instala-se
pela iniciativa da Rússia em 2000 um bloco econômico chamado de Comunidade
Econômica da Eurásia13; e, enfim, tolera-se a presença militar americana no
Uzbequistão para receber a contrapartida em termos de apoio dos Estados Unidos
à operação militar na Chechênia. Cum grano salis,pode se acrescentar que um
sólido segmento dos russos considera a campanha da defesa dos direitos humanos
na Chechênia, conduzida pelo governo americano, como uma manobra dirigida para
enfraquecer a defesa da unidade federal da Rússia e suas posições no "exterior
próximo".
d) Os Bálcãs
Por um lado, a intervenção da Otan nos Bálcãs, particularmente na antiga
Iugoslávia, foi interpretada pelos dirigentes russos como uma ingerência na
esfera de influência política russa, e, por outro, como um atentado à tradição
histórica eslava e ortodoxa realizada por meio do castigo infligido ao regime
de Milosevic e, indiretamente, por intermédio do apoio aos muçulmanos de
Kosovo. Sobretudo, a intervenção humanitária em Kosovo aconteceu em
contravenção da Ata de Fundação de Cooperação entre a Rússia e a Otan assinada
em Paris em 1997, segundo a qual os dois lados se comprometiam a evitar usar a
força contra qualquer Estado de maneira inconsistente com a Carta das Nações
Unidas. Isso não foi evitado. O que agravou a situação é que os Estados Unidos
desaprovaram ao mesmo tempo a pressão militar e humanitária da Rússia sobre a
Chechênia, tal atitude sendo considerada na Rússia como sem critério.
e) O Oriente Médio
É uma região caracterizada no passado pela confrontação entre as duas
superpotências. A situação mudou e as vias de solução do conflito israelense-
palestino passam pela cooperação multilateral (a tetrarquia dos Estados Unidos,
da Rússia, da ONU e da União Européia) e não por meio de consultas bilaterais
de então. Uma crítica às posturas de força dos Estados Unidos em relação ao
Iraque tem um caráter declaradamente expresso. Um novo divisor separa dos
Estados Unidos as posições da Rússia e de outros integrantes permanentes do
Conselho de Segurança. As divergências se referem à manutenção das sanções
contra o Iraque, à cooperação da Rússia na área tecnológica e nuclear com o Irã
e, finalmente, à respeito da Resolução do Conselho de Segurança 1441 referente
ao desarmamento biológico e nuclear do Iraque. O último plano de paz para o
Iraque, apresentado por Alemanha e França, que visa a presença dos "capacetes
azuis" no Iraque para apoiar as atividades dos inspetores da ONU, mostra quão
grande é a insatisfação dos europeus, entre eles dos russos, com os planos
emergenciais de guerra contra o Iraque elaborados pelos Estados Unidos
f) O Extremo Oriente
Nessa região os interesses estratégicos da China, da Rússia e dos Estados
Unidos não convergem, criando a situação em que a parceria estratégica
antichinesa entre o Japão e os Estados Unidos em relação ao problema de Taiwan
e o litígio russo-japonês, referente ao arquipélago de Pequenas Curilas, não
estão equilibrados pelos entendimentos político-estratégicos russo-chineses, o
que derruba perspectivas de uma diplomacia triangular14. A reunificação das
duas Coréias, processo endossado pelo Ocidente, pela Rússia e pelo Oriente,
poderá deixar de evoluir em função do aprofundamento das diferenças nas
posições dos Estados Unidos e do Japão, por um lado, e da Rússia e da China,
por outro, sobretudo quando o problema de proliferação nuclear na Coréia do
Norte começa a se agudizar, chegando a proporções de uma identificação
ideológica ("o eixo do mal").
Uma breve análise das divergências que separam as posições internacionais da
Rússia das dos Estados Unidos poderia nos levar a conclusões diametralmente
opostas. Se a Rússia se ativesse a uma posição maximalista, o vetor ocidental
de sua política externa poderia estar condenado ao fracasso, por tantas áreas
de divergência e de conflito existirem nas relações com o líder do Ocidente. Se
mantivesse uma posição minimalista, ela se aliaria ora a um, ora a outro pólo
ocidental em função do interesse nacional, motivada a salvaguardar suas
posições num jogo de contradições entre os grandes, por estar em estado de
transição e de incertezas com respeito à finalidade de seu destino nacional.
Acho que tirando essa ou aquela conclusão, estaríamos errados. A realidade e a
razão entram em conflito quando se trata da Rússia, tanto hoje como há décadas
ou séculos. Como dizia Bismarck, a Rússia nunca é tão forte ou tão fraca quanto
parece. A precisão desta observação está certa como nunca. A Rússia não tem
força bastante para renunciar ao vetor ocidental na sua política, e mesmo se
tivesse, não o faria, pois seria um suicídio político internacional. Mas ao
mesmo tempo a Rússia não é tão fraca para ser um objeto dócil e passivo da
política ocidental. Portanto, ela deixa para si uma opção.
Se passarmos novamente em revista das áreas analisadas acima, substituindo os
Estados Unidos pela União Européia, surgirá um quadro diferente. O alargamento
da União Européia para o Leste é elogiado ou tolerado pela Rússia, em contraste
à expansão da Otan. A possibilidade de admissão dos países bálticos na União
Européia aproxima a Rússia, suas potencialidades econômicas e comerciais às
suas fronteiras, abrindo perspectivas de criação do espaço econômico integrado
com a UE. A CEI, que está em formação dentro do espaço pós-soviético, seria em
grande medida beneficiada pela extensão oriental da UE desde que sejam
observadas condições de equidade e de parceria. No Oriente Médio, a Rússia e a
UE são parceiros do processo de solução pacífica do conflito e no Extremo
Oriente seus interesses não são contraditórios. O baixo perfil da política
comum de segurança e defesa (Pesc) da UE, sobretudo em relação aos conflitos
tanto intra-europeus quanto extra-europeus, e a proximidade das mentalidades
formadas durante séculos de convívio entre os russos e os europeus representam
fortes atrativos para preferenciar o vetor europeu e não meramente ocidental de
sua política externa, diminuindo a percepção de ameaças que emanam
principalmente dos Estados Unidos da América e não da Europa.
As relações da Rússia com a União Européia estão longe de serem conflitantes.
Mas a falta de contradições no momento atual não significa que essas não
apareceriam no futuro quando a Europa dos 28 se transformar num superestado
(con)federal, com a economia mais forte do mundo, a Rússia podendo criar uma
dependência econômica de alto grau em relação à União Européia, poderia ser
questionada internamente.
A identidade européia favorece a adesão da Rússia à União Européia, mas antes
de fazer esse passo, a Rússia terá que remediar e consolidar relações com os
Estados Unidos. Isso significa que ' nas condições de um desnível enorme dos
potenciais russo e americano ' a Rússia precisaria rever o sistema dos seus
interesses de política externa e de segurança a favor da priorização dos
interesses americanos com respeito aos da Rússia. Isso significaria um
distanciamento da linha política independente da Rússia na Eurásia,
característica do período da bipolaridade e do pós-Guerra Fria. Ao adotar uma
linha soberana na Eurásia, a Rússia não poderá contar com uma integração
completa na Grande Europa. O resultado seria a expansão da Otan e da União
Européia com base no transatlantismo, sem eurasismo. A opção européia da Rússia
seria um projeto, que não sairá do papel se não forem considerados os
relacionamentos russo-americano e russo-chinês. Para isso é necessário
aproveitar ao máximo a concorrência entre a União Européia e os Estados Unidos,
levando em consideração que a integração na área de segurança atrai a União
Européia aos Estados Unidos e a integração econômica os distancia. Portanto, o
imperativo político da Rússia seria transferir a cooperação com a Europa do
plano estratégico-militar para o plano econômico.
Portanto, a opção que se sugere é a seguinte: dentro da diretriz ocidental da
política externa russa, a ramificação que a Rússia preferiria é européia.
Pólo autônomo de poder num mundo multipolar?
As divergências no âmbito das relações bilaterais e multilaterais com o
Ocidente, sobretudo com os Estados Unidos acima assinaladas, bem como a falta
de receptividade das iniciativas estratégicas da Rússia pela parte da China e
da Índia no sentido da formação de uma coalizão do Oriente que pudesse
contrabalançar a hegemonia unilateral da única superpotência, levam-nos à
opinião de que a Rússia pode ser imaginada como um ator geo-estratégico de
grande peso numa área de extensão gigantesca, o heartland do planeta, onde
estão presentes simultaneamente os interesses dos maiores atores mundiais ' os
Estados Unidos, Alemanha, Grã-Bretanha, França, China, Índia e Japão. A posição
da Rússia na confluência dos caminhos da cooperação entre a Europa e a Ásia
estimula os grandes atores da ordem mundial a tentar envolver a Rússia em
esquemas ou de cooperação ou de rivalidade estratégica, política, econômica e
comercial, que passam por seu envolvimento em três principais estruturas
transregionais e transnacionais: segurança internacional, economia e comércio
globais, e redes globais.
O objetivo óbvio perseguido pelo Presidente russo consiste em fortificar e
solidificar o Estado cujo poder determine uma economia estável, fortaleça a
coesão da Federação Russa, assegure um controle eficaz sobre lavagem de
dinheiro e corrupção, previna a oligarquização e a cartelização e iniba as
atividades terroristas e de crime organizado15. Na linguagem política
internacional, esse objetivo manifesta-se na intenção, apoiada pelos
saudosistas da época da "superpotência", de solidificar a posição da Rússia nas
relações internacionais. O conceito da política externa da Rússia, recentemente
adotado, diz claramente que "a Rússia estará trabalhando para construir um
sistema multipolar das relações internacionais que reflita a realidade
multifacetada do mundo contemporâneo com a diversidade de seus interesses"16,
entendendo-se com isso que a Rússia deveria ser o tal "pólo". No entanto, entre
a solidificação da posição da Rússia nas relações internacionais e a criação de
um pólo de poder no mundo multipolar dentro do esquema traçado, com o fim de
criar um contrabalanço à posição central dos Estados Unidos da América no
sistema internacional, há um longo caminho a percorrer.
A idéia de Estado forte, sobretudo quando se trata da Rússia, é recebida com
desconfiança pelos críticos do conceito da Rússia forte, que preferem que o
complexo de inferioridade e de humilhação causado pelo processo da
desintegração da União Soviética seja curado pela prosperidade consumista,
induzida pelos capitais e investimentos ocidentais, enquanto a preocupação com
a grandeza e o poder deva estar ofuscada ou reduzida ao mínimo para que se
possa evitar o ressurgimento de ranços imperialistas na política russa. A
Rússia deveria ter optado pelo caminho da Alemanha e do Japão no pós-guerra, ou
da Turquia depois do colapso do Império Otomano, na opinião de Zbigniew
Brzezinski17, para assegurar que sua transição ocorresse sem os sacrifícios
desnecessários feitos no decorrer da reforma econômica e política na Rússia de
Gorbachev e, posteriormente, durante a "breve década" de Yeltsin.
Com essas colocações, outro dilema é enfrentado na avaliação da política russa:
almejar uma posição independente, baseada no reconhecimento de poder de primus
inter pares, ou se contentar com a condição de submissão e de dependência, sem
autonomia nas decisões. O argumento que se coloca é que, se a Rússia não se
tornar um pólo num suposto mundo multipolar, então ela será reduzida à condição
de vassalo político. Nessa contraposição, pode-se farejar uma tentativa de
chantagem, uma exploração do sentimento de orgulho nacional, um convite
provocativo a exercícios políticos como a competição entre os dois sistemas, a
concorrência e a rivalidade entre as superpotências, e a corrida extenuante aos
armamentos que custaram à Rússia enormes sacrifícios durante a Guerra Fria.
Onde está a verdade e onde está a suposição?
Pela sua condição natural, a Rússia é uma grande potência, cujo status continua
inquestionável apesar da redução drástica de seu PIB nos anos 90, o que deve
ser reconhecido pelos proponentes da "turquização" da Rússia. É um país
bicontinental gigantesco, cercado por seis regiões geo-estratégicos importantes
' Europa do Norte, Europa Central e do Leste, Bálcãs, Oriente Médio, Ásia
Central, Sul da Ásia e Extremo Oriente ', uma importante parte delas
apresentando tendências de instabilidade política ou de confrontos étnicos e
religiosos. A situação explosiva em cada uma dessas regiões precisa ser
contrabalançada pela forte e equilibrada política externa russa, baseada nos
interesses de segurança e de estabilidade interna. O próprio "exterior próximo"
apresenta uma zona de instabilidade e de conflito, que, apesar da desintegração
exangue, evoluiu para um palco de lutas intestinas, nas quais a presença das
forças armadas da Rússia (de manutenção de paz, de guarda-fronteiras ou de
preservação de integridade federal), desempenha um papel salutar de
estabilização ou de manutenção de um frágil equilíbrio. O separatismo checheno
no interior da Rússia e o radicalismo islâmico no exterior são outros fatores
que elevam o país ao ranking de aliados do Ocidente no combate ao terrorismo
internacional que é fomentado pelo radicalismo islâmico e ao mesmo tempo
desestimula o desarmamento e a pacificação à maneira alemã ou japonesa pós-
guerra.
O reverso da moeda é o seguinte. A sobrevivência da Rússia como Estado forte e
federado consiste numa compreensão clara de que o sucesso econômico da Rússia
estaria em proporção inversa ao grau de confrontação externa e interna em que
estaria envolvida. Para conseguir isso, a desistência do confronto e da
rivalidade na cena internacional, a normalização da situação na Chechênia por
meio da consolidação do federalismo18, tornam-se prioritárias para a
recuperação econômica da Rússia. A desierarquização dos assuntos da pauta da
política interna e externa, a preferência dada aos fatores econômicos,
financeiros e comerciais, a gradual substituição dos debates internos sobre
high politics pelos debates sobre low politics, são características para uma
sociedade em transição que está ultrapassando as conseqüências de sua
empolgação com a megalomania ideológica. No entanto, transformá-la num pólo
dentro de um esquema de rivalidade à l'ancienne, em detrimento de sua
recuperação econômica, da implantação do mercado, da construção de um Estado de
direito e de uma democracia representativa, significaria sacrificar o objetivo
mais imediato e mais urgente do país ' o da inserção e da integração no sistema
econômico mundial. A integração na economia mundial deve realizar-se pela
Rússia com base na compreensão de que suas necessidades estratégicas precisam
ser adaptadas aos seus interesses e capacidades econômicas.
Portanto, conciliar a vocação natural russa resultante da situação geográfica,
da responsabilidade estratégica e da riqueza natural com a necessidade de
recuperação e prosperidade econômica e de liderança na integração regional, sem
despertar suspeitas de neocomunismo e neo-imperialismo e sem entrar em
rivalidades induzidas e desnecessárias, tal seria a fórmula de consolidação da
Rússia como grande potência regional. Pode ser reduzida à seguinte sentença:
ser um pólo, sem precisar ser um.
Uma observação referente ao conceito de multipolarismo. Considerado benéfico
pelos adeptos do paradigma estruturalista, visto que admite a autonomia de
diversos centros de poder e diminui a dependência, o multipolarismo é avaliado
pelos realistas como o fundamento do equilíbrio de poder e, respectivamente,
pelos idealistas como a origem dos males relacionados com a instabilidade do
sistema internacional, resultando em crises, conflitos e guerras. Claro que no
mundo de hoje o multipolarismo não existiria desvinculado das organizações e
regimes internacionais, portanto, seria, de uma maneira geral, controlado no
âmbito da governança global, mas controlado inadequadamente e limitadamente. As
brigas entre os pólos impediriam o funcionamento dos organismos e dos regimes,
como, por exemplo, a divergência entre os membros permanentes do Conselho de
Segurança (os Estados Unidos e o Reino Unido vs. a França, junto com a Rússia e
a China), quanto à eventualidade da guerra contra o Iraque, desestabilizou as
Nações Unidas e a Otan.
Uma consideração de sérias repercussões a esse respeito é que, devido ao
desaparecimento da bipolaridade, muitos atores estatais ficariam incentivados a
adquirir armas de destruição em massa, seguindo o paradigma do dilema de
segurança. Se antigamente o bipolarismo, com seus instrumentos de coerção,
dissuasão e de controle dos aliados conseguia bloquear as tendências de
proliferação nuclear, a atual "debilitação do papel das Nações Unidas" quanto
ao controle do uso de força cria incentivos para a nuclearização ou outras
formas de armamentismo entre os pretendentes emergentes, fora da "zona de
influência norte-americana", sobretudo os que se sentem ameaçados tanto pelos
vizinhos poderosos e agressivos, como pelos próprios "grandes" que possuem
armas nucleares19.
O que se esconde por trás do debate sobre o multipolarismo é uma enorme
simplificação da ordem mundial existente. A Rússia precisa moderar suas
aspirações a um pólo autônomo num mundo multipolar, que estaria alicerçado no
seu papel central na Eurásia. Em primeiro lugar, ela será temida como uma
potência hegemônica, tanto pelo Ocidente, como pelo Oriente. Em segundo lugar,
ela deverá sacrificar sua aproximação com os dois ao mesmo tempo, se armando
num pólo estratégico autônomo, voltando a glorificar o fantasma de uma
superpotência. Em terceiro lugar, o sonho de prosperidade para seu povo poderá
ser esquecido.
O que mudou depois de 11 de setembro de 2001?
Quais, então, as saídas dos impasses do círculo vicioso dos conceitos, dos
vetores e dos ismos e as soluções a que a política externa russa deve chegar,
fortalecendo suas posições no mundo contemporâneo? O Presidente Putin achou uma
solução mágica ao propor uma mudança em caminho, surpreendendo quase todos os
políticos nacionais e estrangeiros. Ao terem ocorrido os ataques terroristas de
11 de setembro nos Estados Unidos, a Rússia elaborou e executou uma série de
medidas rápidas e eficazes na área de política externa que resultaram numa
importante abertura com a Otan, com os Estados Unidos, com a União Européia e
com vários parceiros asiáticos. Mas o progresso mais surpreendente, sem dúvida
alguma, foi realizado nas relações com o bloco ocidental e, mais
especificamente, com os Estados Unidos da América.
Primeiro. Houve um desbloqueio das relações da Rússia com a Otan que já durava
desde a crise em Kosovo em 1999. Em 28 de maio de 2002, na reunião da cúpula
entre a Rússia e a Otan realizada na Itália, foi estabelecido o Conselho Otan-
Rússia e foram instalados dois grupos de trabalho, um sobre a cooperação em
tecnologias nucleares avançadas e outro em reduções de materiais nucleares
cujos programas prevêem a eliminação de um volume de material nuclear sem
precedente na história do desarmamento, equivalente à quantidade necessária
para a fabricação de 25.000 ogivas nucleares.
Na Declaração dos Chefes de Estado e Governo dos Estados-Membros da Otan e da
Federação Russa, foram reafirmados os objetivos, princípios e compromissos
estabelecidos na Ata Fundamental das Relações entre a Rússia e a Otan de 1997,
e em particular, a determinação de construir juntos uma paz duradoura e
inclusiva na área euro-atlântica, com base na democracia e segurança
cooperativa e no princípio de que a segurança de todos os Estados da comunidade
euro-atlântica é indivisível. Uma nova era nas relações, anunciada na
Declaração, implicar-se-á consultas e decisões conjuntas sobre a avaliação das
ameaças comuns, gerenciamento de crises, não-proliferação das ADM, controle de
armamentos e medidas de construção de confiança (com base no Acordo de
Adaptação do Tratado das Forças Armadas Convencionais), busca e resgate no mar,
cooperação militar, reforma militar, emergências civis, novas ameaças e
desafios.20 A pauta do Conselho Otan-Rússia pode parecer periférica por não
tocar na essência das decisões coletivas da Otan na área estratégica, mas
dentro do contexto geral europeu e mundial, essa pauta é uma excelente
oportunidade, por intermédio da qual a Rússia pode pressionar pela solução de
problemas de segurança européia e internacional.
O Conselho não autorizou o direito de veto à Rússia sobre as decisões da Otan.
Mas a questão do veto não foi reivindicada pela Rússia uma vez que ela não
aspira transformar-se num país-membro da Otan. Em virtude de sua autonomia
militar e com base na conjuntura estratégica mundial, a Rússia não pediu
garantias da Otan em defesa coletiva. Isso significa que a Rússia continuou a
usufruir do direito soberano de providenciar sua própria segurança pelos seus
próprios meios e criar alianças com base em suas decisões autônomas, sem se
amarrar ao sistema de segurança coletiva da Otan.
As principais conclusões que se pode tirar a partir dessa nova realidade
demonstram uma invejável durabilidade das posições e convicções dos
negociadores e da liderança política russa com relação à Otan. De acordo com
Presidente Putin, a Rússia não parte do entendimento de que a expansão da Otan
é provocada pela necessidade.21 Mas ao entrar num relacionamento especial com a
Otan, mantendo a independência e a autonomia de sua política de segurança, a
Rússia conseguiu diminuir, senão eliminar, as percepções de agressividade entre
os membros do bloco ocidental. Por outro lado, as relações da Rússia com a Otan
tornaram-se um meio da influência russa sobre a transformação presente e futura
da aliança e sua inserção na arquitetura euroatlântica de segurança22.
Tudo isso não significa que a Rússia gostaria de ser e a Otan gostaria de
aceitá-la como país-membro. Os membros da organização, sobretudo os Estados
Unidos, estariam contrários à adesão da Rússia à Otan por dois motivos: a)
haveria na Otan um centro de decisão política de grande peso que poderia
desestabilizar as relações transatlânticas, baseadas na desproporcionalidade do
poderio militar dos Estados Unidos e da Europa; b) a adesão da Rússia
conduziria os Estados Unidos até as fronteiras da China, o que poderia provocar
uma reação chinesa desmesurada para proteger a sua segurança, criando uma
percepção de ameaça americano-russa no âmbito da política externa da China.
Ao mesmo tempo, não seria escusado dizer que a decisão de aproximação da
liderança russa com a aliança não encontrou críticas referentes ao aumento da
fragilidade estratégica do país face à nova fase da expansão da Otan, decidida
na cúpula de Praga do Conselho Atlântico23. No entanto, a atuação ágil da
diplomacia russa permitiu ajustar o relacionamento estratégico com a Europa
Ocidental e os Estados Unidos às novas realidades que surgiram depois de 11 de
setembro.
Segundo. A Rússia modificou de uma maneira vigorosa, e sem se dar o luxo de
hesitações, o relacionamento com os Estados Unidos, reconhecendo não somente de
jure, mas também de facto, que os Estados Unidos não representam mais uma
ameaça à Rússia. Dois principais fatos merecem ser mencionados a respeito.
Durante a Cúpula de 24 de maio de 2002 em Moscou, na Declaração Conjunta do
Presidente George W. Bush e do Presidente Vladimir V. Putin sobre o Novo
Relacionamento Estratégico entre os Estados Unidos da América e a Federação
Russa, os dois lados declararam que a era em que os Estados Unidos e a Rússia
tratavam um ao outro como inimigos ou como ameaça estratégica acabou. São
parceiros e vão cooperar para promover a estabilidade, segurança, integração
econômica e enfrentar juntos os desafios globais e ajudar a solucionar
conflitos regionais. Respeitarão os valores essenciais de democracia, direitos
humanos, liberdade de expressão e mídia livre, direito da lei e oportunidades
econômicas. Tudo isso será a fundação para a cooperação entre eles. Ao rejeitar
o modelo de rivalidade entre grandes potências, os dois presidentes
fortaleceram seus compromissos referentes ao combate do terrorismo
internacional.24
Na mesma ocasião foi celebrado o Tratado sobre as Reduções de Potenciais
Estratégicos, conhecido como o Tratado de Moscou, que ultrapassou de longe os
números das reduções, mencionados no Tratado Start II. Os limites das ogivas
instaladas de cada lado foram estabelecidos no patamar de 1700 a 2200 e deveria
ser atingido até o ano 2012. Essas reduções fixaram a meta de diminuição em
dois terços da dimensão atual dos arsenais dos Estados Unidos e da Rússia, que,
de acordo com as regras de contagem do Tratado Start I de 1991, consistem de
6000 e 5500 ogivas estratégicas nucleares respectivamente.
A reação a esse segundo fato, considerado um significativo sucesso pelos
representantes oficiais por ter confirmado palpavelmente a solidez dos novos
passos de aproximação estratégica, foi mista, de maneira que o Tratado provocou
uma censura na Duma e entre especialistas em problemas estratégicos. Segundo
eles, o Tratado deixa sem solução a implementação do cronograma de
desinstalação das ogivas, as questões de quantas unidades serão destruídas e
quantas guardadas, como elas serão armazenadas e protegidas e como será
inspecionada a implementação do Tratado. A crítica partia da suspeita de que os
Estados Unidos não se comprometeram a destruí-las, deixando dúvidas sobre a
possibilidade de guardá-las para poder reinstalá-las poucos meses depois da
expiração do Tratado em 2012.25
Desde que o Tratado não obrigou as partes a destruir as ogivas carregadas, ele
deixou a Rússia numa posição desvantajosa, forçando-a a reduzir o seu arsenal
nuclear instalado por razões econômicas, por não poder sustentar a manutenção
das ogivas nucleares em regime operacional. Isso significa que em caso de uma
mudança na situação estratégica e na percepção de ameaça, os Estados Unidos
seriam capazes de reconstituir seu arsenal nuclear rapidamente.26
Ao mesmo tempo, a posição oficial foi coerente e firme. O tratado, segundo seus
defensores, é o último documento de desarmamento da época de confronto e o
primeiro da era de cooperação e de confiança. O termo "potenciais" altera a
abordagem do problema do desarmamento, reunindo ogivas, portadores, vinculando
os sistemas ofensivo e de defesa estratégica, em referência feita à Declaração
conjunta do Presidente da Rússia e do Presidente dos Estados Unidos em Gênova
em 22 de junho de 200127 , assim permitindo uma liberdade de ação na composição
das forças nucleares de cada lado.
O argumento mais consistente que fortifica a posição de Putin insere-se na
lógica integral e complexa do processo de desarmamento, da evolução das armas
de destruição em massa e do sistema de defesa antimíssil. De acordo com o
ministro de defesa da Rússia Serguei Ivanov, o novo Tratado estabelece a
vinculação entre os armamentos ofensivos e defensivos. A Rússia está
possibilitada de conservar as Mirvs (ogivas múltiplas) existentes e futuras
porque o Tratado Start II não entrou em vigor. Isso é um importante fator de
dissuasão, sobretudo nas condições dos testes e da criação dos sistemas
antibalísticos norte-americanos. A transparência e medidas de confiança em
relação à NMD foram a forma por meio da qual a Rússia estabeleceu a cooperação
com os Estados Unidos no âmbito da defesa anti-mísseis, por via de trocas de
experiências e de informações e por meio de exercícios e pesquisas conjuntas,
em nível bilateral e multilateral, inclusive na Europa, por intermédio da
estrutura do Conselho Otan-Rússia28. O referido progresso ajudou a ultrapassar
o impasse criado pela retirada unilateral dos Estados Unidos do Tratado ABM.
Essa evolução das relações russo-americanas representou uma nova qualidade da
parceria entre os dois ex-rivais que pôs termo à psicologia bipolar da Guerra
Fria nas relações bilaterias. O Tratado sobre as Reduções de Potenciais
Estratégicos eliminou o conceito da paridade estratégico-militar entre os
Estados Unidos e a Rússia, pedra fundamental do maior confronto da Guerra Fria.
Como afirmou Putin, "Depois de 11 de setembro, muitos, bem muitos no mundo
compreenderam que a Guerra Fria acabou. Compreenderam que agora a ameaças são
outras e uma outra guerra está sendo travada, a guerra contra o terrorismo
internacional."29
Terceiro. Devemos assinalar a cooperação anti e contraterrorista entre a Rússia
e os Estados Unidos que se estabeleceu depois de 11 de setembro. Putin
propulsionou a Rússia para ser um dos mais importantes aliados dos Estados
Unidos na guerra internacional contra o terrorismo. O sinal verde dado pela
Rússia para o desembarque das tropas norte-americanas no Tadjiquistão e no
Uzbequistão aumentou significativamente a capacidade dos Estados Unidos de
conduzir as operações militares no Afeganistão contra o regime talibã e na
região asiática em geral. Graças a essa cooperação, a Rússia conseguiu obter a
qualificação pelos Estados Unidos de vários grupos separatistas chechenos como
grupos terroristas internacionais, ao ter provado a existência de vínculos
entre os combatentes da república rebelde de Itchquéria30, uma ditadura
obscurantista baseada nas leis do shariá, e Al-Qaeda, a realização de
transferências financeiras pelas organizações terroristas internacionais e a
contratação dos mercenários estrangeiros islâmicos para a guerra contra a
Rússia. A inclusão e o papel ativo da Rússia na guerra contra o terrorismo
internacional, que coincide com os objetivos estratégicos da Rússia no combate
à ameaça do fundamentalismo islâmico para sua segurança interna e integridade
territorial, definiram a importância-chave da Rússia na coalizão internacional
contra o terrorismo.
Quarto. A Rússia conseguiu o reconhecimento por parte dos Estados Unidos e da
UE da economia russa como economia de mercado, abrindo o caminho para a entrada
na OMC. A admissão da Rússia como membro de plenos direitos do G-8 a partir de
2006 e seu ingresso na OCDE nos meados da década corrente são frutos de sua
recuperação econômica e de sua modernização, que serão seguidos pela
estabilização econômica do país e pela ascensão à posição de liderança
regional, contribuindo para o status de respeitabilidade e de peso político no
sistema internacional.
A visão de Putin pode ser comparada com a de Deng Xiaoping que há mais de 20
anos concluiu que a recuperação da China a longo prazo seria fundamental para a
recuperação da sua influência internacional e para a prosperidade do povo
chinês31.
Quinto. O Grupo de Xangai, ou Organização de Cooperação de Xangai, que foi
criado em 1996 entre cinco países fronteiriços da China (Rússia, China,
Casaquistão, Quirguízia e Tadjiquistão) para aparar as arestas referentes à
delimitação das fronteiras comuns com a China, depois de 11 de setembro,
definiu-se como um organismo regional de cooperação em uma vasta gama de
assuntos, dos quais a luta antiterrorista se tornou prioritária. Além disso, a
cooperação política e econômica do Grupo ficaram atraentes a vários países da
região como Paquistão e Uzbequistão, que integraram-se ao Grupo. No momento
atual esse grupo representa um núcleo de integração regional crescente que
gradualmente preenche o vácuo de cooperação criado depois da dissolução da
União Soviética na região da Ásia Central.
Sexto. A participação do Fórum do APEC desde 1998 insere-se no contexto da
"missão eurasiática" da Rússia, realizada no âmbito da evolução do mercado
global. O atraso na inclusão das vastas regiões siberianas na economia mundial
e, sobretudo, na zona de crescimento econômico mundial mais dinâmico, que é o
APEC, impele os dirigentes russos a fazer esforços significativos na abertura
corajosa nessa direção. De acordo com as teses do Presidente Vladimir Putin
expostas na cúpula do Fórum em outubro de 2001, as direções prioritárias da
política externa russa serão: a diversificação de comércio com os países-
membros do Fórum, transferindo a ênfase dos parceiros tradicionais para
parceiros novos na região; a criação de uma nova configuração energética na
região da Ásia e Pacífico a fim de valorizar os interesses da Rússia; a
proposta de a Rússia servir de "ponte" entre a Ásia e Pacífico e a Europa,
baseada na infra-estrutura de transportes; o caminho de inovações tecnológicas
e científicas, apoiadas pelo capital humano intelectual científico russo32.
Como podemos resumir as mudanças que têm ocorrido e estão ocorrendo na política
externa russa? A conclusão à qual estou chegando é que o que ocorreu foi uma
reavaliação da base doutrinária da política externa russa depois de 11 de
setembro, que podemos resumir de maneira seguinte.
1. Houve uma clara evolução, partindo da rigidez e da ilusão do statusde grande
potência em direção a uma flexibilidade em assuntos internacionais, diminuindo
uma dependência excessiva dos dogmas conceituais, como a multipolaridade, por
exemplo. Sem abandonar o conceito multipolar, a Rússia amenizou e abrandou as
fórmulas de sua aplicação. É sintomático o que escreve Alexei Meshkov, vice-
Ministro de Negócios Estrangeiros da Rússia na véspera da cúpula Bush-Putin em
maio de 2002: "Nós, na Rússia, fizemos uma opção clara a favor do mundo
multipolar [...] Pronunciamo-nos pela formulação de atitudes multilaterais ao
problema de garantias de segurança internacional, pelas ações comuns frente às
novas ameaças e riscos [...] A nossa visão do mundo multipolar pressupõe antes
de mais nada uma cooperação entre centros de poder e não a rivalidade como já
aconteceu no passado"33. Se se levar em consideração que o papel central das
Nações Unidas na formulação da ordem mundial também foi destacado, então, é
evidente que uma mudança a favor de um flexível contexto de alianças, de um
multilateralismo baseado na cooperação com os atuais centros de poder, sem a
visível preocupação com a construção de seu status global, mas com o papel
central da ONU.
2. O que impressiona é o pragmatismo de Putin, que, ao que parece, tem que
vencer uma resistência considerável dentro dos altos escalões de poder para
tomar as decisões arrojadas e inovadoras. Essa atitude pragmática indica um
incremento de flexibilidade e uma adaptabilidade surpreendente às exigências da
etapa atual de relações internacionais. Mesmo podendo parecer táticas, as
alterações tocam na estrutura das relações construídas durante décadas,
transformando, desse modo, o pragmatismo num instrumento prático de uma rápida
e eficiente inserção internacional.
3. A opção estratégica discutida acima parece mais nítida do que antes. A
Rússia sai do patamar da discussão de exclusividade de tal ou tal orientação na
política externa, preferindo que as necessidades do momento definam sua opção
atual. Ela posiciona-se no patamar de aproveitamento de oportunidades que
surgem e podem surgir em todas as direções da política externa, preferindo uma
opção multivetorial. Citando Alexei Meshkov: "No decorrer da história da Rússia
desenrolava-se uma discussão profunda sobre qual devia ser o seu vetor
principal ' oriental ou ocidental. Agora essa opção é feita, isto é: ambos os
vetores ' tanto asiático, quanto euro-atlântico ' têm seu valor individual do
ponto de vista dos interesses nacionais, segundo uma dinamização da política
externa em todos os azimutes"34 (sublinhado pelo autor por causa da alusão de
Alexei Meshkov à política externa de De Gaulle nos anos 60 ' à tous les
azimuts).
O caráter multivetorial, a ação pragmática e a cooperação multilateral na
política externa russa, além de adaptar o relacionamento da Rússia com os
Estados Unidos, a aproximam de outros grandes atores no âmbito das novas
realidades internacionais, como o Brasil, o México, a Austrália, o Canadá e a
Indonésia, lançando bases para uma diversificação e uma integração de seus
esforços de desenvolvimento e de modernização em diversas regiões e
continentes, com grandes e médios parceiros econômicos e comerciais em variados
assuntos da agenda global e regional.
Conclusão
A realidade e a verdade são sempre mais complicadas do que podemos imaginar e
elas provocam questionamentos. O mais importante deles é: essa mudança brusca
no caminho, resultante dos acontecimentos de 11 de setembro é uma estratégia
elaborada, cuidadosamente preparada, ou é uma expediência política ou uma
espécie de oportunismo? É um caminho em direção à ocidentalização ou é um
estratagema a curto prazo de cálculo de custos-benefícios? Usando outros
termos, é um quid pro quo tático, uma consequência da incapacidade econômica de
permitir um novo ciclo de rivalidade pelo poder mundial, ou um Grand Dessein
idealista do Presidente Putin?
A explicação quid pro quo tem suficientes razões para ser mencionada. Mesmo sem
aproveitamento absoluto, Moscou conseguiu obter benefícios reais resultantes de
sua nova postura pós-11 de setembro: suas relações com os Estados Unidos e a
Otan melhoraram bastante sobre toda a agenda de segurança internacional e euro-
atlântica, seu processo de entrada na OMC recebeu incentivos da parte dos
líderes ocidentais de comércio internacional, suas tentativas de obter um
abrandamento da crítica de direitos humanos na Chechênia foram bem-sucedidas.
Portanto, os benefícios internos e externos, mesmo relativos, foram
satisfatórios. Ao mesmo tempo, a Rússia não conseguiu evitar a segunda rodada
da expansão da Otan e a retirada dos Estados Unidos do Tratado ABM.
A desmilitarização e a modernização do exército russo, que diminuiu de 1,9
milhões para 900. 000 em menos de uma década, aliviando a Rússia de um peso de
gastos improdutivos, demonstram não somente a restrição econômica à entrada num
novo ciclo de rivalidade pelo poder mundial, como também a compatibilização dos
objetivos políticos internos e externos da Rússia com as novas tendências
mundiais, como a globalização econômica, financeira e comercial, a integração
regional, a diminuição da ameaça de um conflito global e o surgimento de novos
padrões de segurança nacional e internacional.
Não acredito num Grand Desseindo Presidente Putin. Ele ainda não acumulou uma
experiência política suficiente para poder lançar um "tratado de paz perpétua"
e de reestruturação da ordem mundial. Assim como a própria Rússia não se
encontra em condições de ser uma proponente de idéias de vulto e de grandeza na
cena mundial sem ser suspeita de hegemonismo, embora as discussões em torno de
uma "via russa" se identifiquem com cenários democratizantes da evolução
mundial.
Ao mesmo tempo, gostaria de tocar nas mudanças na política dos Estados Unidos,
que provocam, de maneira objetiva e convincente, a metamorfose na política
externa russa. A constatação nos Estados Unidos de um agravamento durante os
últimos anos das relações com a Rússia e a China revelou uma perspectiva
desagradável de que os dois países poderão potencialmente se transformar em
maiores rivais do poder norte-americano. Face à previsão de que os derrotados
da Guerra Fria poderiam se sentir "traídos" pelo Estados Unidos e, portanto,
criar sentimentos antiamericanos, evoluindo posteriormente numa situação de
"conflitos inadvertentes", uma mudança de estratégia, no sentido de
reaproximação com os dois gigantes, foi insistentemente recomendada35. Na
Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos da América, o Presidente
George W. Bush refere-se especificamente aos dois países no preâmbulo do
documento com a mensagem de que "a América irá incentivar o avanço de
democracia e da abertura econômica em ambas as nações, pois essas são as
melhores bases para a estabilidade interna e para a ordem internacional"36. Com
relação à Rússia, essa proposta estratégica está baseada na mudança de
pensamento ocorrida na Rússia, no sentido de que os dois países não são mais
adversários estratégicos, que a Rússia tem avaliação realista de suas
fragilidades e entende que as atitudes da Guerra Fria não servem mais seus
interesses nacionais37. Por existir "a preocupação com a potencial
transformação da Rússia em grande potência, exercendo um papel que pode
ultrapassar a sua condição de líder regional"38, o compromisso com a integração
da Rússia numa comunidade euro-atlântica, que se estenderia ao entorno pós-
soviético, é colocado como um objetivo prioritário dos Estados Unidos da
América. Essa reviravolta na atitude norte-americana em relação à Rússia cria
condições para a parceria duradoura nas relações da Rússia com os Estados
Unidos e com os países ocidentais em geral.
É importante saber qual a perspectiva que a Rússia traça para seu futuro
político interno e externo. A política russa no contexto atual baseia-se na
previsibilidade e estabilidade de suas doutrinas, políticas e preferências
realizadas mediante o esquema de "engajamento pragmático", com base na
ampliação de cooperação multivetorial e multilateral, contando com benefícios
mistos. A participação eficaz da cooperação no âmbito da agenda global a
aproxima do Ocidente e do Oriente, dos países ricos e pobres, dos blocos
regionais e dos organismos transnacionais. A concentração na melhoria das
posições da Rússia no "exterior próximo" realça a seriedade da intenção da
Rússia de se manter como líder regional do espaço pós-soviético.
No entanto, é importante sublinhar que as fragilidades da Rússia acima
mencionadas originam-se da transição que está ocorrendo no seu sistema político
em direção à democracia, na sua economia em direção ao mercado, na sua
sociedade em direção ao Estado de direito e à sociedade civil evoluída.
Enquanto a Rússia não criou um sistema eficaz e seguro de gestão democrática
interna e de responsabilidades externas, baseadas em valores compartilhados, a
pior estabilidade é melhor do que um excelente caos. Por essa razão, a posição
da Rússia no cenário mundial depende da manutenção de estabilidade econômica,
política, federal e da continuidade de suas reformas internas.
As críticas a esse respeito tocam na reforma do Estado que é considerada
cosmética, o papel reformador de Putin sendo assim posto em dúvida. O
Presidente, dizem críticos e oponentes, daqui a pouco será dissuadido de andar
tão rápido em direção à aliança com a "hegemonia unipolar" que é capaz de minar
as posições da Rússia no "anel de boa-vizinhança", sobretudo na Ásia Central.
Ele conseguiu debilitar, mas não derrubou os oligarcas. Está tímido na reforma
econômica e não respeita os direitos da mídia. A Rússia precisa de reforma, de
governança boa e responsável, de transparência e de controlabilidade. Caso
essas mudanças não ocorram, nada acontecerá, e os grandes planos anunciados nas
cimeiras russo-européias, russo-americanas ou russo-asiáticas serão
fracassados.39 Nesse caso, "o novo autoritarismo pode ser um problema maior
para a integração russa com o Ocidente do que o novo imperialismo russo."40
Uma resposta provável a essa crítica é que, se a Rússia mudar sua política
doméstica, e se o Ocidente se alinhar aos interesses nacionais da Rússia,
então, poder-se-á dizer que a estratégia pós-11 de setembro da parte da Rússia
é uma decisão de longo prazo. Esse parece o cenário mais plausível. A Rússia
fez a sua opção no mundo contemporâneo e, em conseqüência das transformações de
fundo, a integração do país na sociedade democrática internacional é
irreversível. O país é uma jovem democracia e sua política externa é previsível
e estável. Em torno da política externa russa existe um consenso da sociedade.
O interesse nacional russo é formulado de maneira precisa:
- a criação das condições favoráveis para o desenvolvimento econômico
do País: segurança, ordem constitucional, consolidação da sociedade
civil e incentivos ao empresariado;
- a continuidade histórica: paz externa para o bem da evolução
interna;
- a construção, junto com a sociedade internacional, da ordem
democrática mundial.
O passo mais importante na direção de uma nova postura internacional foi dado.
A Rússia, ao optar pela pragmaticidade, pelo caráter multi-eixo de sua política
externa e pelo ocidentalismo de cunho europeísta, lançou bases para suas
respeitabilidade e autonomia nas estruturas políticas internacionais, sua
responsabilidade internacional, sintonizada com os objetivos da sociedade
internacional consagrados na Carta das Nações Unidas, nos documentos do direito
internacional e baseada na comunidade de interesses na construção de uma
segurança euro-atlântica e euro-asiática, do mercado único, de um mundo mais
justo e mais pacífico.
Notas
1 NAROCHNITSKAYA, Natalyia. The Russian Challenge ' A sensation in politology.
The book of Viktor Lupan. International Affairs, Moscou, 2001. N. 5, p. 87-96;
GROGORASH, Alexander Vorontsov. The first Russian Empire minister of foreign
affairs. International Affairs Moscou, 2001. N. 6, p. 85-97; YEMETS, Valentin.
Russian Empire Ministry of Foreign Affairs. International Affairs Moscou, 2001.
N. 6, p. 98-112; ANISIMOV, Evgeny. When the last "diplomatic convoy" has gone.
International Affairs, Moscou, 2000. N. 1, p. 76-86.
2 Câmara de deputados do parlamento da Rússia.
3 PUSHKOV, Alexei. Russia in the new world order: side by side with the West or
by itself? International Affairs,Moscou, 2000. N. 10, p. 33.
4 Uma proposta de parceria estratégica, anunciada em 1998 pelo então primeiro-
ministro da Rússia Evgueni Primakov. (Ver PRIMAKOV, Evgueni. Gody v bolshoi
politikje. Moskva: Sovershenno sekretno, 1999, p.198).
5 KOZYREV, Andrei. Risks: our own and those of the others. Moscow News, August,
2000. N. 30 (1048).
6 GLOBALNOYIE, Soobschestvo. Novayia sistema koordinat. Sankt-Peterburg:
Aleteia, 2000; Panarin, A.S. GLOBALNOYIE politicheskoyie prognozirovaniyie.
Moskva: Algoritm, 2000.
7 "It is time to stop pretending that Europeans and Americans share a common
view of the world, or even that they occupy the same world. On the all-
important question of power the efficacy of power, the morality of power, the
desirability of power American and European perspectives are diverging.
Europe is turning away from power, or to put it a little differently, it is
moving beyond power into a self-contained world of laws and rules and
transnational negotiation and cooperation. It is entering a post-historical
paradise of peace and relative prosperity, the realization of Kant's "Perpetual
Peace." The United States, meanwhile, remains mired in history, exercising
power in the anarchic Hobbesian world where international laws and rules are
unreliable and where true security and the defense and promotion of a liberal
order still depend on the possession and use of military might... The reasons
for the transatlantic divide are deep, long in development, and likely to
endure. When it comes to setting national priorities, determining threats,
defining challenges, and fashioning and implementing foreign and defense
policies, the United States and Europe have parted ways." (In: KAGAN, Robert.
Power and Weakness. Policy Review, jun/jul, 2002. N. 113. Disponível em: <http:
//www.policyreview.org/>. Acessado em: 08 janeiro 2003.
8 JAGUARIBE, Hélio. O que é o "Ocidente"? Política Externa, mar/abr/maio,
2002.V. 10, n. 4, p. 110-111.
9 O reconhecimento pela parte do Ocidente de que a Rússia é uma economia de
mercado foi feito em julho de 2002 pelos Estados Unidos da América e pela União
Européia, desimpedindo o caminho para a adesão da Rússia à OMC.
10 IVANOV, Igor S. "Novosti". 27 dez. 2002. Disponível em : <http://
www.ln.mid.ru>. Acessado em: 02 janeiro 2003. Entrevista concedida à Agência
RIA.
11 MANILOV, Valery. On the military doctrine of Russia. International Affairs,
Moscou, 2000. N. 5, p. 44.
12 Pelo Acordo de Adaptação do Tratado de Limitação das Forças Armadas
Convencionais na Europa, assinado em 1999 em Istanbul, a Rússia conseguiu
diminuir limitações, referentes aos flancos, impostas pelo Tratado em 1990,
quando ainda existia o Pacto de Varsóvia, bem como minimizar as consequências
militares da expansão da Otan, enfatizando a responsabilidade individual dos
países europeus, repartidos em dezenove zonas de níveis de armamentos, de não
permitir a transferência de forças armadas e de armamentos convencionais de uma
zona para outra (Ver. CHERNOV, Vladislav. Arms limitation treaty in Europe and
security of Russia. International Affairs, Moscou, 2002. N. 5, p. 26-32).
13 A Comunidade Econômica da Eurásia, estabelecida em 23 de maio de 2000,
integra Belarus, Casaquistão, Rússia, Quirguistão e Tadjiquistão, com o
objetivo de implantar a União Aduaneira e o Espaço Econômico Único entre os
cinco países-membros. Disponível em: <http://mpa.rbc.ru/ru/establishment/docs/
>. Acessado em: 08 fevereiro 2003.
14 TRIANGULAR DIPLOMACY. The New York Times, 20 julho 2001.
15 MENSAGEM DO PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO RUSSA VLADIMIR PUTIN PARA A ASSEMBLÉIA
FEDERAL DA FEDERAÇÃO RUSSA. International Affairs, Moscou, 2001. N. 5, p. 97-
111.
16 Foreign Policy Concept of the Russian Federation. International Affairs,
Moscou, 2000. N. 8-9, p.3-14.
17 Brzezinski, Zbigniew. Living with Russia. The National Interest, Fall, 2000.
N. 61, p. 11-12.
18 Trata-se da preparação do referendo, em que será discutida a constituição da
Chechênia.
19 Baluyevsky, Yury. Russian-American relations. The new model. International
Affairs, Moscou, 2002. N. 8, p. 48.
20 STAUDENMEYER, Ingrid Scoville Herbert J. Summary and Accomplishments of the
Bush-Putin Presidential Summit, maio, 2002. Disponível em: <http://
www.armscontrol.org>. Acessado em: 26 novembro 2002.
21 CONFERÊNCIA DE IMPRENSA DO PRESIDENTE V.V. PUTIN E DO PRESIDENTE G.W. BUSH
DEPOIS DAS NEGOCIAÇÕES RUSSO-AMERICANAS. Pushkin, 22 nov. 2002. Disponível em:
<http://www.ln.mid.ru/ns-osndoc.nsf/>. Acessado em: 02 janeiro 2003.
22 Grushko, Alexander. Russia ' NATO. G20 seems to start rolling. International
Affairs, Moscou, 2002. N. 7, p. 89-90.
23 SKOLKO NATO? Rossiiskaya Gazeta, 16 nov. 2002. N. 218 (3086). Disponível em:
<http://www.rg.ru>. Acessado em: 16 novembro 2002.; The NATO thanks Russia for
the Baltics.Rossiiskaya Gazeta, 09 dez. 2002. Disponível em: <http://
www.gazeta.ru>. Acessado em: 09 dezembro 2002.
24 STAUDENMEYER, Ingrid Scoville Herbert J. Op. cit. Disponível em: <http://
www.armscontrol.org>. Acessado em: 26 novembro 2002.
25 KORTUNOV, Sergei. Washinton is renouncing the ABM Treaty. International
Affairs, Moscou, 2002. N. 7, p. 68-74.
26 KUCHINS, Andrew. Explaining Mr. Putin: Russia's new nuclear diplomacy. Arms
Control Today,out, 2002. Disponível em: <http://www.armscontrol.org/act/
2002_10/kuchinsoct02.asp? >. Acessado em: 26 novembro 2002.
27 BALUYEVSKY, Yury. Op. cit. p. 55-56.
28 Ivanov, Sergei. Strategical stability at the present stage. International
Affairs, Moscou, 2002. N. 8, p. 17-20.
29 MENSAGEM DO PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO RUSSA VLADIMIR PUTIN PARA A ASSEMBLÉIA
FEDERAL DA FEDERAÇÃO RUSSA. International Affairs, Moscou, 2002. N. 5, p. 17.
30 Denominação da Chechênia em documentos oficias do governo separatista.
31 KUCHINS, Andrew. Op. cit. Disponível em: <http://www.armscontrol.org/act/
2002_10/kuchinsoct02.asp? >. Acessado em: 26 novembro 2002.
32 LOSYUKOV, Alexander. Russia and Shangai summit. International Affairs,
Moscou, 2001. N. 11, p.25-26.
33 MESHKOV, Alexei. Actual aspects of Russian foreign policy. International
Affairs, Moscou, 2002. N. 4, p.56
34 Idem, p.57
35 MCNAMARA, Robert S. & BLIGHT, G. In from the cold: a new approach to
relations with Russia and China. World Policy Journal, Spring, 2001, p. 67-77.
36 Bush, George W. A estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos da
América. Política Externa, dez/jan/fev, 2002/2003. V. 11, n. 3, p. 80.
37 Bush, George W. Idem, p. 106-107.
38 Pomeranz, Lenina. A nova estratégia e a Rússia. Política Externa, dez/jan/
fev 2002/2003. V. 11, n. 3, p. 71.
39 YAVLINSKY, Grigori. BBC, 20 nov. 2001. Entrevista concedida a Tim Sebastian.
40 Sestanovich, Stephen. Where does Russia belong? The National Interest,
Winter 2000/2001. N. 62, p.5-16.