Projeção de poder e intervenção militar pelos Estados Unidos da América
Introdução
A atuação internacional dos Estados Unidos da América admite diversas formas de
relacionamento e intervenção. Uma das mais destacadas e únicas dessas
alternativas de ação internacional reside em sua capacidade militar, isto é, na
possibilidade de intervenção armada no desenrolar de um relacionamento político
em escala mundial. Ainda que se possa querer tomar como indicador dessa
capacidade de intervenção o acervo do poder dos Estados Unidos em termos
gerais, a possibilidade de ação armada exige que se considere a dimensão
propriamente tática, isto é, do uso da força no combate. Essa dimensão exige
que se considere a organização humana, material e cognitiva pela qual se
articulam unidades militares capazes de ação combatente, e como se sustentam
essas capacidades ao longo do tempo.
Na medida em que se reconhece o papel único da capacidade militar dos Estados
Unidos, essa questão se destaca das demais. Por um lado, o que os Estados
Unidos são e não são capazes de fazer em termos combatentes, a que alcances
desde suas posições de tempo de paz, e em que escala de tempo se torna uma
variável chave, decisiva para quaisquer considerações de segurança. Por outro
lado, quanto de força os Estados Unidos podem colocar em campo num determinado
alcance, e num determinado tempo, é o insumo para a consideração adequadamente
informada das possibilidades de recurso à força, seja na esperança do apoio dos
Estados Unidos, seja em termos de avaliar a possibilidade de resistência à sua
ação. Dada a centralidade da questão da segurança, e da possibilidade de
recurso à força, no sistema internacional, a apreciação da capacidade de
intervenção dos Estados Unidos e as especificidades de sua projeção de poder
são essenciais para a consideração plena das Relações Internacionais, em
particular para quaisquer estudos ou análises de Política Internacional.
Nos últimos vintes anos, os Estados Unidos da América vêm re-arranjando a sua
estrutura militar em resposta à mudança da percepção política dos cenários de
possível emprego de força. O resultado desse processo foi o aumento paulatino
de sua capacidade de intervenção militar. Esse aumento resultou de uma política
de segurança nacional (national security policy; mais recentemente, por motivos
retóricos, a national security strategy) que visava dar conta de crises
regionais em áreas do mundo de seu interesse, de maneira pronta e decisiva. O
principal resultado desse processo foi o estabelecimento de uma Força de
Deslocamento Rápido (Rapid Deployment Force' RDF), originalmente pensada para a
questão de resposta a uma crise anti-soviética no Golfo Pérsico, mas que
evoluiu para um arcabouço de uso mais amplo ao longo do tempo. É por meio desse
enquadramento que os Estados Unidos têm pensado, preparado e feito a projeção
de força desde o fim da Guerra Fria1.
Este artigo tem como objetivo delinear sobre a estrutura dos Estados Unidos da
América para intervenções militares como instrumento para projeção de seu poder
no sistema internacional. Inicia-se pela apresentação do modelo conceitual que
se adota para a análise do objeto do artigo ' as forças de deslocamento rápido.
Em segundo lugar, delineia a evolução histórica recente da capacidade de
intervenção militar dos Estados Unidos e a Estratégia de Segurança Nacional
(national security strategy) dos Estados Unidos na década de 1990. Em terceiro
lugar, o artigo aborda as forças de deslocamento rápido (RDF), que constituem o
principal conjunto de unidades combatentes para o papel de intervenção militar,
considerando seus aspectos logísticos (a condição de possibilidade de criação,
deslocamento e sustentação da força numa dada área de operações) e táticos (em
termos do arcabouço humano, material e cognitivo, em particular, doutrinário,
que orienta a existência de unidades militares específicas). Por fim, o artigo
encerra com algumas observações sobre a utilidade da noção, e os contornos das
necessidades, de forças de deslocamento rápido (rapid deployment forces) como
parte coerente da política brasileira de defesa.
Enquadramento conceitual
Parte-se da definição de conceitos da relação entre projeção de poder e
intervenção militar para a posterior análise dessa dinâmica sustentada pelos
Estados Unidos.
A primeira definição a se fazer é que intervenção militar é invariavelmente
guerra, ou seja, sempre é uma questão de política internacional resolvida por
meio do uso da força como forma de um ator dobrar a vontade de um outro.
Existem diversas formas de projeção de poder no sistema internacional por um
ator sobre outro ou sobre vários atores, sejam eles diplomáticos, comerciais ou
militares. Intervenção militar, por sua vez, é uma forma de projeção de poder
em que o objetivo político determina as metas, magnitude e duração de objetivos
de engajamentos e operações de combate ' conceito de tática ' e a combinação de
vários desses para um objetivo bélico que atenda ao propósito político de um
ator ' conceito de estratégia.
Uma intervenção militar, dentre as várias formas que pode assumir a guerra,
requer obrigatoriamente o exercício da força de maneira física e presencial no
território estrangeiro. Essa especificidade dá-se porque o objetivo político é
apenas satisfeito pela conquista, sendo nesse caso a execução de uma estratégia
militar persistente. O objetivo político pode ser ainda a coerção continuada no
tempo para acúmulo de recursos de barganha na mesa de negociações ou devido a
um objetivo que não é possível de ser destruído apenas ou simplesmente por
bombardeios a longa distância. Nesse caso, tem-se uma estratégia militar
incursiva.
Portanto, uma intervenção militar exige sempre uma expedição militar ou
operação expedicionária. Isso se dá pelos aspectos políticos e estratégicos
apontados, mas também por ser invariavelmente uma operação ofensiva. Tendo,
como conseqüência, a propriedade intrínseca das desvantagens táticas e,
principalmente, logísticas das formas de guerra em ataque em relação às formas
de guerra em defensiva. Tal efeito denomina-se expedicionariedade e é objeto de
análise em um artigo específico.
De qualquer maneira, essas colocações conceituais são satisfatórias para a
melhor compreensão das análises que este artigo propõem e que se inicia por um
breve resumo histórico da evolução da capacidade de intervenção militar dos
Estados Unidos.
Evolução histórica
Após o término da Guerra do Vietnã, os Estados Unidos iniciaram a revisão de
sua orientação estratégica na Guerra Fria. Desde o fim da II Guerra Mundial,
tendo a União Soviética como contraste bipolar, os Estados Unidos entendiam a
Europa Ocidental e o Extremo Oriente como as áreas em maior risco de
confrontação. Por isso, deslocaram grande parte de suas forças para essas
regiões. Com isso, julgavam ter o bloco ocidental/capitalista em segurança
desde que a União Soviética não oferecia grande ameaça em termos navais. Outra
conseqüência foi os Estados Unidos terem retrocedido em suas capacidades
intervencionistas em países do Terceiro Mundo, substituindo-os por mecanismos
de contra-insurgência, principalmente por meio de auxilio em termos de
armamentos, treinamento e expertise militar a forças armadas de países aliados
ou amigos.
Entretanto, o número de regiões em tensão aumentou na proporção que o Império
Britânico era desconstruído no Oriente Médio, África e Ásia e ficavam sujeitas
à influência do bloco socialista.2
Em 1979, a administração Carter apontou diretivas para que forças militares
fossem organizadas para contingências em regiões remotas que pudessem
fragilizar o equilíbrio de poder mundial. Em resposta, o Pentágono propôs a
criação de um combinado de tropas das quatro forças singulares ' Exército,
Marinha, Força Aérea e Corpo de Fuzileiros Navais ' para deslocamento rápido,
sob a supervisão direta da Junta de Chefes de Estado-Maior (Joint Chiefs of
Staff ' JCS).
Ainda em 1979, o equilíbrio regional do Oriente Médio foi comprometido, sob os
olhos norte-americanos com a queda do Xá do Irã. Tão grave quanto foi a invasão
soviética ao Afeganistão no mesmo ano.
Em 1980, em regime de urgência, foi criada uma força-tarefa de forças
integradas de deslocamento rápido (Rapid Deployment Joint Task Force' RDJTF).
Em 1983, o RDJTF alcançou o status de um comando unificado de combate pleno
denominado Centcom (Central Command' Comando Central). Ele possui como
delimitação geográfica: Egito, Sudão, Djibouti, Etiópia, Somália, Quênia,
Afeganistão, Bahrain, Irã, Iraque, Kuwait, Omã, Paquistão, Yemen, Qatar, Arábia
Saudita e Emirados Árabes3.
O principal cenário de combate do sistema RDF, durante a década de 1980, era
responder a uma invasão soviética ao Irã (Plano Nacional de Guerra 1002)4. A
partir de 1988, houve uma mudança de orientação para um conflito de alta
intensidade contra o Iraque. Essa mudança foi baseada na vertiginosa diminuição
das forças soviéticas por Gorbachev e em decorrência da constatação pelos
Estados Unidos de que a maior preocupação dos lideres árabes era o governo de
Saddam5. Esse cenário persistia mesmo após a guerra contra o Iraque em 1990-
1991.
Entretanto, desde meados da década de 1980, houve também a atuação de forças de
deslocamento rápido dos Estados Unidos em outras regiões do globo, como:
Filipinas, Camboja, Kosovo, Moçambique, Haiti, Angola, Panamá, Nicarágua e El
Salvador. A partir de então, forças de deslocamento rápido passaram a ser uma
atribuição funcional ' organização de forças para ações de contingência ' dos
comandos unificados de combate de atribuição geográfica dos Estados Unidos :
Pacífico, Sul, Europeu e Norte, além do Central.
A Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos na década de 1990
A Estratégia de Segurança Nacional (National Security Strategy) dos Estados
Unidos durante o governo Clinton (1993-2000)6 orientou o engajamento dos
recursos de poder em assuntos internacionais de maneira a permitir o
alargamento da comunidade internacional formado por países estáveis, orientados
pela lógica de mercado e constituídos por regimes democráticos7.
Os meios militares ' assim como os diplomáticos e econômicos ' seriam
empregados com o objetivo de moldar o ambiente internacional para concretização
dessa orientação governamental.
As forças armadas dos Estados Unidos realizavam a consecução dessa política
mediante três orientações estratégicas. Primeiro, elas atuavam de forma a
promover a estabilidade de regiões de importância para os Estados Unidos e
países aliados ou amigos. Segundo, buscavam prevenir conflitos e ameaças,
limitando a difusão de tecnologias militares, combatendo ameaças transnacionais
e provendo a garantia de proteção a países aliados ou amigos. Buscavam, ainda,
em terceiro, moldar o ambiente internacional detendo agressões e coerções em
regiões-chave do mundo8.
Em termos das forças armadas, essa estratégia nacional orientou o planejamento
e preparo para dois conflitos regionais de grande intensidade (Major Regional
Conflict' MRC) em duas regiões do mundo: no Golfo Pérsico e na Península
Coreana. A possibilidade de emprego militar ainda era prevista na conduta de
operações de contingência para contenção e resolução de crises que gerassem
desdobramentos negativos aos Estados Unidos e seus países aliados e amigos,
onde quer que eles tivessem lugar9. Essa adequação das forças é constantemente
apontada como preparo para todo o "espectro de intensidade de conflitos".
Por isso, o aparato militar dos Estados Unidos sustentava uma capacidade de
projeção de força intercontinental sem igual. Unidades militares eram
posicionadas permanentemente em bases terrestres fora dos Estados Unidos,
deslocadas e disponibilizadas em alto mar e ocasionalmente deslocadas para
exercícios, treinamento combinado ou interações com outras forças militares10.
É dessa forma que eles têm sustentado o seu sistema de forças de deslocamento
rápido.
As forças de deslocamento rápido são um real instrumento de política de
segurança e externa dos Estados Unidos. Como se estabelece essa
instrumentalização política do sistema RDF e os planejamentos de ação militar
de cada uma das forças que o integra são tratados no item a seguir.
As Forças de Deslocamento Rápido dos Estados Unidos
Essas unidades militares foram organizadas a partir da última década da Guerra
Fria, a fim de conter crises na região do Oriente Médio, África e Sudoeste
Asiático que pudessem ameaçar o bloco ocidental dentro do contexto de confronto
bipolar. O sistema RDF originou a criação do Comando Unificado Central (US
Central Command ' Centcom). Esse possuía a atribuição estratégica de coordenar
operações de forças integradas numa ampla região do globo ' da porção oriental
do continente africano ao Afeganistão11. No entanto, a demanda por rápida ação
armada pelos Estados Unidos na América Central (Panamá, em 1989), região do
Pacifico (Filipinas, em 1990) e Europa (ex-Iugoslávia, várias vezes na década
de 1990) elevou forças de deslocamento rápido a um conceito de integração de
forças com capacidades específicas e uma atribuição funcional de todos os
comandos unificados de combate. Cada comando unificado de combate de atribuição
geográfica dos Estados Unidos ' Pacífico, Sul, Europeu e Norte, além do Central
' também são responsáveis pela integração e coordenação das unidades mais
capacitadas a deslocarem unidades combatentes para contingências em suas
respectivas regiões intercontinentais de atuação12.
Essas unidades são designadas a partir das quatro forças singulares dos Estados
Unidos: Corpo de Fuzileiros Navais, Marinha, Exército e Força Aérea,
classificadas em três categorias de capacidades. Uma primeira categoria de
unidades de resposta rápida de uma semana: as Unidades Expedicionárias de
Fuzileiros, Capacitadas a Operações Especiais [Marine Expeditionary Forces
(Special Operations Capable)' MEU(SOC)] do Corpo de Fuzileiros Navais (US
MarineCorps) e as Brigadas em Prontidão da 82ª Divisão Aeroterrestre (82nd
Airborne Division Ready Brigade ' DRB) do Exército dos Estados Unidos.
A segunda categoria de forças de contingência é formada por divisões13
inteiras, capazes de deslocamento entre trinta a sessenta dias: a 3ª Divisão de
Infantaria Mecanizada, a 10ª Divisão de Montanha, o 2º Regimento de Cavalaria
Blindada e a 101ª Divisão de Assalto Aéreo do XVIII Corpo-de-Exército
Aeroterrestre14. Dentro dessa categoria, incluem-se ainda as três Forças
Expedicionárias de Fuzileiros Navais (Marine Expeditionary Forces' MEF). Uma
MEF, por sua vez, é capaz de deslocar um destacamento de vanguarda ' Marine
Expeditionary Force (Forward), MEF(Fwd) ' para enfrentamento de crises entre
sete e quinze dias, sendo uma alternativa de força intermediária entre as duas
categorias mencionadas.
A terceira e última categoria do sistema RDF é formada pelas alas aéreas
expedicionárias (Aerospace Expedicionary Wing' AEW) da Força Aérea e os grupos
de batalha de porta-aviões (Aircract Carriers Battle Groups' CVBG) da Marinha
dos Estados Unidos para apoio logístico, transporte e apoio de fogo15. A Força
Aérea dos Estados Unidos tem rápida capacidade de resposta no atendimento do
transporte estratégico das tropas e equipamentos do US Marine Corps e do XVIII
Corpo, assim como a disponibilização de esquadrões de caças para escolta desse
deslocamento aéreo num prazo de dias.
Entretanto, o deslocamento de grupos de aviões de combate para apoio a
operações de contingência no estrangeiro depende da existência de pistas de
pouso, munição, suprimento e combustível em países aliados ou amigos. Na Guerra
do Golfo de 1990-1991, a Força Aérea foi capaz de deslocar em trinta e seis
horas o 1º Esquadrão Tático de Combate composto por quarenta e oito caças F-15C
da Base Aérea de Langley, na Virgínia, para aeroportos na Arábia Saudita.
Entretanto, esse foi um caso atípico devido a exercícios conduzidos um mês
antes conjuntamente com a Força Aérea Saudita, sendo mantido secretamente
setenta e dois aviões de reabastecimento aéreo KC-135. Além disso, os
aeroportos da Arábia Saudita ofereciam toda a infra-estrutura e logística
necessária especificamente para as aeronaves norte-americanas16.
Os CVBGs cooperam provendo aviões de combate, apoio de fogo naval e de mísseis.
Seu deslocamento para uma costa de uma área em crise leva um tempo
relativamente longo de duas semanas ou mais. Esses agrupamentos navais
geralmente são posicionados em áreas oceânicas e sua aproximação a litorais
depende de um cuidadoso plano de reconhecimento e deslocamento em escalão dos
navios de combate que os compõem. Na Guerra do Golfo de 1990-1991, os primeiros
navios de combate da Marinha dos Estados Unidos posicionaram-se para o embargo
naval ao Iraque quatorze dias após a notificação17.
A seguir, é conduzido um estudo mais detalhado do sistema de forças de
deslocamento rápido dos Estados Unidos, segundo suas condições de possibilidade
logística e aspectos táticos.
Considerações logísticas sobre Forças de Deslocamento Rápido18
As forças de deslocamento rápido são formadas por soldados profissionais e
condicionadas dentro do mais alto nível de treinamento. Elas são habilitadas
nas várias formas de armas combinadas, como também na capacidade de forças
integradas.
A mobilidade estratégica e a sustentação das forças de deslocamento rápido dos
Estados Unidos envolvem tanto meios aéreos e navais como um sistema logístico
híbrido de forças pré-dispostas19.
Os meios aéreos são os mais capazes de deslocamento rápido. No entanto, essa
capacidade passa a ser constrangida em proporção ao tempo que as operações são
prolongadas. Isso decorre da capacidade de carga dos meios aéreos ser mais
limitada, o que resulta numa força deslocada com uma quantidade de suprimento
orgânico insuficiente para longos períodos de operação e, por isso, dependente
de re-abastecimento. Outro aspecto importante dos meios aéreos de transporte é
o seu rápido desgaste devido a pausas, necessariamente, cada vez mais longas
para manutenção das aeronaves. Com o acúmulo de horas de vôo, é necessária uma
revisão cada vez mais cuidadosa e extensa de peças hidráulicas, turbinas e até
fuselagem devido à fadiga de material.
Como resultado, com exceção de operações de segurança de pequeno porte, forças
deslocadas por meios aéreos requerem a disponibilidade de bases logísticas
terrestres avançadas protegidas para composição e sustentação das forças
deslocadas. Essas condições de possibilidade logística são próprias da 82ª
Divisão Aeroterrestre e da 101ª Divisão de Assalto Aéreo (sendo que nessa,
apenas a 1ª Brigada é aerotransportável e o restante de suas forças deve seguir
em navios).
A mobilidade de forças por meios navais possui um tempo de resposta mais
limitado, mas um potencial de sustentação muito maior. Por outro lado, o apoio
tático e logístico possível de ser provido pela Marinha dos Estados Unidos
possibilita uma menor dependência em bases terrestres e, quando necessárias,
uma maior capacidade de composição, proteção e sustentação das mesmas. A
utilização desses meios logísticos é prevista em cenários de média intensidade
ou de guerra contra o Iraque ou Coréia do Norte.
A maior parte do material bélico das demais unidades do XVIII Corpo é
transportada por meios navais. Uma variação importante são as MEU(SOC)s do US
Marine Corps. Elas são dispostas num sistema de rotação permanente em alto-mar
nas regiões dos hemisférios ocidentais e orientais.
O terceiro sistema logístico para projeção de força dos Estados Unidos é o
sistema de forças pré-dispostas em bases avançadas. As tropas e o material
bélico leve são deslocados por meios aéreos a partir dos Estados Unidos e o
material bélico pesado transportado por meios navais a partir de esquadrões
navais pré-dispostos em bases navais avançadas ou em bases terrestres de países
aliados ou amigos. Esse sistema permite a união tanto das características de
responsividade dos meios de mobilidade aérea, mas mantendo uma capacidade de
transporte e de sustentação das forças deslocadas por meios navais. Por isso,
associado a um custo mais acessível, possibilita restrições menos severas ao
poder combatente por meio de uma maior liberdade na composição força-combatente
em função dos cenários de conflito20.
Apesar de o Exército dos Estados Unidos possuir a maior parte de suas forças
movidas e sustentadas por meios aéreos e navais, ele possui disponível material
bélico para uma brigada de divisão pesada como a 3ª Divisão de Infantaria
Mecanizada ou o 2º Regimento de Cavalaria em bases terrestres na região do
Benelux, Itália, Kwait, Coréia do Sul e na base naval de Diego Garcia no Oceano
Índico; além de unidades de apoio na base naval de Guam no Pacífico.
O Corpo de Fuzileiros Navais possui o mesmo sistema logístico. É pré-disposto
material bélico suficiente para uma MEF(Fwd) por meio de esquadrões de navios
de pré-disposição marítima (Maritime Prepositioning Ships' MPS) em bases navais
avançadas no Mar Mediterrâneo, Guam no Oceano Pacífico e Diego Garcia no Oceano
Índico. Na Noruega, desde a década de 1970, possui equipamento para
constituição de uma MEF(Fwd). A Força Aérea possui instalações para bases
expedicionárias no Qatar, Kuwait e Arábia Saudita. Possui ainda navios
carregados com munições para seus aviões de combate no Mediterrâneo e em Diego
Garcia.
Essa disposição de material bélico, além de ser orientada a resposta de crises
em qualquer parte do globo, é uma forma de reestruturação do aparato bélico dos
Estados Unidos no pós-Guerra Fria. A disposição de material bélico do Exército
conjuntamente com as duas divisões que estão dispostas na Europa, por exemplo,
substituem os dois Corpos-de-Exército blindados que existiam lá até o fim da
década de 1980. O mesmo pode se dizer sobre o kit para formação de uma MEF(Fwd)
na Noruega.
Essas condicionantes logísticas não são um fim em si mesmas. Elas são
gerenciadas a fim de respaldar as capacidades táticas necessárias ao
cumprimento das atribuições estratégicas das forças de deslocamento rápido. Os
cenários de aplicação tática das unidades que as conformam são apresentadas a
seguir.
Considerações táticas sobre Forças de Deslocamento Rápido
A atribuição de cenários de conflitos a unidades militares é bastante clara
dentro do sistema RDF. As alas aéreas da Força Aérea e os grupos de batalha de
porta-aviões da Marinha possuem atribuições de apoio tático e logístico; e o
XVIII Corpo Aeroterrestre e o Corpo de Fuzileiros Navais, a atribuição
principal das operações terrestres.
A força do Exército dos Estados Unidos para operações de contingências é o
XVIII Corpo Aeroterrestre. Os cenários de ação em cenários de baixa intensidade
são operações de segurança pela 82ª Divisão Aeroterrestre, principalmente por
meio das DRBs21.
Em caso de operações de média intensidade, as outras unidades do XVIII Corpo
podem ser dispostas tanto com a função de reforço de tropas já deslocadas, como
de vanguarda do contingente de contra-golpe em mobilização e formação e de
condução de uma campanha terrestre independente. Em cenários de alta
intensidade, o XVIII Corpo como um todo tem a função de contenção a uma força
invasora a um país amigo ou aliado, cuja contra-resposta será por meio do
reforço de divisões ou Corpos-de-Exército blindados do Exército dos Estados
Unidos22.
O Corpo de Fuzileiros Navais é uma organização única dos Estados Unidos com
função de operações aero-anfíbias em qualquer tipo de contingência, em
integração com as unidades do XVIII Corpo do Exército, com forças armadas de
países aliados ou independentemente. Sua principal unidade de deslocamento
rápido são as MEU(SOC)s (Marine Expeditionary Units, Special Operations Capable
' Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais)23. Em situações de crises, o US
Marine Corps pode enviar ainda uma MEF(Fwd) (Marine Expeditionary Force,
Forward' Força Destacada Expedicionária de Fuzileiros Navais). Ela é empregada
em cenários de baixa intensidade para reforço de uma MEU(SOC)s ou DRB ou como
única unidade de resposta rápida. Em cenários de média intensidade uma MEF(Fwd)
pode ser a vanguarda dos contingentes do XVIII Corpo de uma ou mais MEFs
(Marine Expeditionary Force' Força Expedicionária de Fuzileiros Navais). As
MEFs são aplicadas na resolução de crises de média intensidade e como força de
contenção ao lado do XVIII Corpo Aeroterrestre.
Numa perspectiva de ação integrada, essas forças são orientadas à resolução de
contingências. As principais contingências consideradas são: garantir o
cumprimento de acordos e soluções diplomáticas, como cessar-fogo ou eleições
livres; obtenção e controle de objetivos físicos chave como portos, aeroportos,
áreas industriais e centros políticos, negando seu uso pelo inimigo; controle
de áreas urbanas; operações constabulares; proteção e resgate de cidadãos
norte-americanos; contenção de guerras civis ou conflitos sub-regionais; prover
ajuda humanitária e assistência em caso de desastres24.
Um outro cenário de atuação de forças de deslocamento rápido é atuar como força
de contenção a invasões ou agressões a países aliados ou amigos dos Estados
Unidos no Golfo Pérsico e na Península Coreana. Assim, as forças de
deslocamento rápido não são preparadas ou orientadas a conduzirem qualquer dos
dois conflitos regionais de grandes proporções (Major Regional Conflict' MRC).
Elas são designadas a efetuarem um primeiro combate de contenção. Tal
atribuição tem a denominação de halt-phase("alto de parada") ou half-war(meia
guerra). Sendo que o enfrentamento propriamente dito será conduzido na
composição com outras unidades das forças armadas dos Estados Unidos25. Na
Guerra do Golfo em 1990-1991, o XVIII Corpo e a I MEF atuaram com o VII Corpo
Blindado, disposto, na época, na Alemanha.
Apesar dos cenários de MRC, a resposta a contingências de baixa intensidade é o
mais freqüente cenário de emprego de RDF. Com isso, as principais unidades do
sistema de forças de deslocamento rápido são as MEU(SOC)s do US Marine Corps e
as DRBs da 82ª Divisão Aeroterrestre (ver gráfico_1 a seguir). Uma MEF(Fwd) ou
uma brigada de Exército podem ser deslocadas em até uma semana dependendo da
disponibilidade de material pré-disposto por meio de esquadrões marítimos.
As MEU(SOC)s e as DRBs são as unidades de deslocamento mais rápido, por isso
mais capazes de aproveitar a fase de uma contingência em que existe a
oportunidade de fazer frente a uma força inimiga antes que ela tenha tomado
posições consolidadas. Esse planejamento visa a aumentar as chances de sucesso
tático de uma unidade de deslocamento rápido, principalmente em cenários de
halt-phase, não cedendo ao inimigo a vantagem tática de uma posição defensiva.
Por outro lado, as MEU(SOC)s e DRBs são capazes de entrada forçada por meio de
suas respectivas capacidades de assalto anfíbio e aeroterrestre26. Em cenários
em que não existe a disponibilidade de bases aéreas e portos, sob o poder de
defesas inimigas, essas capacidades são o único recurso27.
Considerações finais
A apresentação dos contornos políticos, logísticos e táticos das Forças de
Deslocamento Rápido dos Estados Unidos corresponde ao desenho geral de sua
capacidade de intervenção armada em escala mundial. Atende, assim, aos
propósitos de informar e orientar com relação aos requisitos, possibilidades e
limites da intervenção armada de parte dos Estados Unidos. Além disso, porém, é
oportuno que se reconheça como o esforço dos Estados Unidos e de suas forças
armadas produziu, igualmente, uma referência para os que se disponham a
considerar as necessidades militares da resposta rápida.
Uma expressão sintética das metas da política de defesa nacional na Gestão
Quintão (1999-2002) corresponderia à posse de forças de resposta rápida,
marcadas pelas qualidades da versatilidade, sustentabilidade e
interoperabilidade28. O problema colocado pelo Ministro da Defesa é, mantidas
as proporções, o mesmo problema dos Estados Unidos. Num sentido muito
pragmático, pode mesmo ser um problema comum a todas as política de defesa.
Trata-se da construção, e sustentação no tempo, de capacidade militar de
resposta pronta a uma determinada contingência em que o uso de força armada
possa ser oportuno ou útil.
A experiência da Força de Deslocamento Rápido dos Estados Unidos serve, assim,
para apontar ainda uma possível agenda de pesquisa, em prol da identificação
dos requisitos, prioridades, necessidades e alternativas para a constituição
das forças armadas brasileiras para o Século XXI. Trata-se de identificar a
utilidade da noção de forças de deslocamento rápido, enraizando-a e
emprestando-lhe especificidade para a situação logística, e as demandas táticas
brasileiras, como insumo para o processo de tomada de decisão e subsídios para
a formulação da Política de Defesa.
Notas
1 A fonte descritiva mais completa de RDF é ESHEL, David. The US Rapid
Deployment Forces. New York: ARCO, 1985. Um registro pessoal de sua criação
está presente em QUILAN, David. The role of the Marine Corps in Rapid
Deployment Forces. Washington: National Defense University Press, 1983. As
discussões mais atuais encontram-se em MATSUMARA, John et al. Lightning over
water. Santa Monica: RAND, 2000; GRITTON, Eugene et al. Ground forces for a
rapid employable joint task force. Santa Monica: RAND, 2000; e Congressional
Budget Office. Moving US forces: options for strategic mobility. Washington:
Congress of United States, 1997.
2 ESHEL, David. US Rapid Deployment Forces.New Yoirk: ARCO, 1985, p. 55-61 e
QUILAN, David. The role of the Marine Corps in Rapid Deployment Forces.
Washington: National Defense University Press, 1983.
3 ESHEL, David. US Rapid Deployment Forces.New Yoirk: ARCO, 1985, p. 55-61 e
HINES, Jay. "From Desert One to Southern Watch: the Evolution of US Central
Command". Joint Forces Quarterly. Washington. Spring, 2000, p. 42-49.
4 Esse plano se baseava na contenção das forças soviéticas nas Montanhas
Zagros, na fronteira entre o Irã e a União Soviética, aplicando as forças de
deslocamento rápido conjuntamente com aviões de ataque da Força Aérea dos
Estados Unidos. Esse plano é detalhado em BLACKWELL, James. Thunder in the
desert. New York: Bantam Books, 1991, p. 81-82.
5 HINES, Jay. "From Desert One to Southern Watch: the Evolution of US Central
Command". Joint Forces Quarterly. Spring, 2000, p. 42-49.
6 Anualmente, o Executivo dos Estados Unidos produz documentos quanto à
estratégia de segurança nacional e à disposição de suas forças em relação a
ela. As considerações políticas e estratégicas realizadas nesta dissertação são
baseadas no último documento executivo da administração Clinton: COHEN,
William. Annual report of Department of Defense to the President and the
Congress. Washington: Office of Secretary of Defense, 2001.
7 COHEN, William. Annual report to the President and the Congress. Washington:
Office of Secretary of Defense, 2001, p. 4
8 COHEN, William. Annual report to the President and the Congress. Washington:
Office of Secretary of Defense, 2001, p. 4.
9 COHEN, William. Annual report to the President and the Congress. Washington:
Office of Secretary of Defense, 2000, p. 8-9.
10 COHEN, William. Annual report to the President and the Congress. Washington:
Office of Secretary of Defense, 2000, p. 5-7 e p. 20-21.
11 HINES, Jay. "From desert one to southern watch: the evolution of US Central
Command". Joint Forces Quarterly. Spring, 2000, p. 42-49.
12 Cabe explicitar que a estrutura integrada de comando e planejamento militar
dos Estados Unidos possui dois canais funcionais. A Junta de Chefes de Estado-
Maior (Joint Chiefs of Staffs ' JCS) tem a função de planejamento integrado, a
outra parte da estrutura é composta por comandos unificados (Unified Commands).
Esses coordenam a ação integrada em regiões específicas do globo, já citadas,
ou de integração em atividades específicas, como o de transporte, forças
especiais e armamento nuclear. Ver COHEN, William. Annual report to President
and the Congress. Washington: Office of the Secretary of Defense, 2001, p. 29-
39. A estrutura integrada de comando e planejamento tem como atribuição a
elaboração de planos de ação para as diversas ações militares. Na realidade da
guerra moderna, quase que invariavelmente essas ações exigiram a coordenação de
duas ou todas as forças singulares por meio de um conjunto de aparatos que
permita a ação integrada das forças aéreas, navais e terrestres Essa
coordenação não é simples e exige a prática de um planejamento integrado. Não
apenas para propiciar doutrina, mas também treinamento e projeto de força
convergentes. Da mesma forma, também avança a implementação de programas que
não são específicos de nenhuma força, porém que agregam ao aparato bélico
nacional como um todo (tecnologia nuclear, por exemplo).
13 Divisão é a maior organização tática de um exército. No caso dos Estados
Unidos, uma divisão é treinada a combater como um time de armas combinadas e
são capazes de conduzir batalhas e engajamentos independentemente, por um tempo
significativo. O Exército dos Estados Unidos possui dez divisões ativas: quatro
da Europa, uma na Coréia do Sul, uma no Havaí e seis nos Estados Unidos. Dessas
seis, quatro constituem o XVIII Corpo, o que reflete o seu papel prepoderante
em tempos ausentes de conflitos de alta intensidade. Ver
www.globalsecurity.org/agencies/army.htm.
14 ESHEL, David. The US Rapid Deployment Forces. New York: ARCO, 1984.
15 ESHEL, David. The US Rapid Deployment Forces. New York: ARCO, 1984
16 BLACKWELL, James. Thunder in the desert. New York: Bantam Books, 1991, p.
93-95.
17 BLACKWELL, James. Thunder in the desert. New York: Bantam Books, 1991, p.
95-96.
18 Logística é dinâmica relacionada aos requerimentos materiais da força, a
saber: suprimentos disponíveis e esperados, organização e administração,
transporte e linhas de abastecimento. A logística é a dinâmica mais crítica
para qualquer força e a mais susceptível a erros. Ela é também a que conecta a
sociedade e às forças armadas no contexto industrial da guerra contemporânea.
Logística é, portanto, uma série de bens e serviços que resultam não apenas na
materialização das forças, mas que proporcionam a capacidade suficiente para o
emprego dessas segundo os ditames políticos e as características próprias dos
meios. CREVELD, Martin van. Suppliyng war. New York: Cambridge Press, 1977, p.
1-4; e DINIZ, Eugenio & PROENÇA Jr., Domício. Política de defesa no Brasil.
Brasília: Editora da UnB, 1998, p. 66-67.
19 A descrição mais detalhada do sistema de mobilidade dos Estados Unidos está
em COHEN, William. Annual report to the President and Congress. Washington:
Office of the Secretary of Defense, 2001, p. 63-67. A discussão sobre a
mobilidade estratégica e sua sustentação em cenários intercontinentais
encontra-se em US CONGRESSIONAL BUDGET OFFICE. Moving US forces: options for
strategic mobility. Washington: US Congress, 1997.
20 Ver BETAQUE, Norma (org.). Naval expeditionary logistics. Washington:
National Research Council, 1998.
21 Operações de segurança resumem-se à tomada e retenção de objetivos físicos
ou áreas limitadas. Pode ser tanto para finalidade de uma missão ou para
abertura de entrada forçada para forças em uma campanha terrestre ou aérea. US
Army. FM 90-26 Airborne Operations. Washington: Department of Army, 1990,
capítulo 1, (www.globalsecurity.org).
22 COHEN, William. Annual report to the President and the Congress.
Wasshington: Office of the Secretary of Defense, 2001, p. 61.
23 COHEN, William. Annual report to the President and the Congress. Washington:
Office of the Secretary of Defense, 2001, p. 62-63.
24 US Marine Corps. MCDP-3: Expeditionary Operations. Washington: HQ/USMC,
1998, p. 37-38.
25 GRITTON, Eugene et al.Ground forces for Rapidly Joint Task Deployment
Forces. Santa Monica: Rand, 2000, p. XX e HINES, Jay. "From Desert One to
Southern Watch: the Evolution of US Central Command". Joint Forces
Quarterly.Spring, 2000, p. 42-49. Para uma fonte oficial, ver: COHEN, William.
Annual report to Congress. Washington: Office of the Secretary of Defense,
2001, p. 22-23.
26 GRITTON, Eugene et al. Ground forces for Rapidly Joint Task Employable
Forces. Santa Monica: Rand, 2000, p. 14-18.
27 US Marine Corps. MCDP.3: Expeditionary Operations. Washington: HQ/USMC,
1998, p. 40-41 e US Army. FM 90-26: Airborne Operations. Washington: Department
of Army, 1990, capitulo 1, (www.globalsecurity.org).
28 QUINTÃO, Geraldo Magela. Pronunciamento do Ministro da Defesa quando da
sessão de abertura do Seminário Diálogo Brasil-Alemanha. Rio de Janeiro: Centro
de Estudos das Américas/UCAM, Grupo de Estudos Estratégicos/Coppe/UFRJ, 21 a 23
de Setembro de 2001. Uma versão desse texto está em: QUINTÃO, G. M. et al.
Segurança e Soberania. Rio de Janeiro, Fundação Konrad Adenauer, 2002.