Institucionalização Partidária e Consistência Programática: A Resposta da
Esquerda a Ataques Especulativos na América Latina
A eleição de Lucio Gutiérrez, no Equador, em 2002, ilustra as barreiras
impostas pelo mercado financeiro à adoção de uma agenda de esquerda na América
Latina. Gutiérrez, um coronel da reserva que desempenhara um papel importante
no golpe que depôs o presidente Jamil Mahuad em 2000, concorreu com um discurso
"independente" de esquerda, apoiado por um pequeno partido marxista, grupos
radicais indígenas e sindicatos. Durante a campanha presidencial, Gutiérrez
criticou a dolarização da economia, prometeu aumentar os gastos do governo e
promover a redistribuição de renda. Propôs, ainda, que países da América Latina
se unissem com o objetivo de renegociar coletivamente a dívida externa da
região.
A reação do mercado financeiro à perspectiva da vitória de Gutiérrez foi
marcadamente negativa, levando a um aumento do risco soberano e à fuga de
capitais, e impondo custos relevantes à já altamente endividada economia do
país. Após a posse, todavia, Gutiérrez surpreendeu seus eleitores e aliados ao
adotar um programa econômico conservador, radicalmente oposto àquele
previamente anunciado. Essa mudança programática permitiu ao presidente
rapidamente fechar um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), no qual
se comprometeu a manter a dolarização da economia, adotar metas de inflação,
eliminar subsídios no preço do gás de cozinha, repassar serviços públicos para
concessionárias privadas e congelar salários estatais (Hurtado,_2006).
Ainda que a motivação da mudança programática de Gutiérrez tenha sido a
necessidade de ganhar a confiança do mercado de forma a atrair capital externo
em um período de forte escassez de dólares, características do sistema político
equatoriano contribuem para explicar a capacidadedo presidente de realizá-la.
Um dos sistemas políticos menos institucionalizados da América Latina, o
Equador caracteriza-se por fraca identificação ideológica entre eleitores e
partidos, baixa disciplina partidária, além de alta fragmentação e volatilidade
(Pachano,_2004). Não é incomum que partidos se formem no país com o único
propósito de garantir que um candidato independente concorra a eleições; no
entanto, tais partidos são parcos em conteúdo programático, fornecendo aos
eleitores pouca informação sobre as políticas que possam vir a ser
implementadas. Neste cenário, não surpreende que um presidente, empossado no
limiar de uma crise financeira, mude imediatamente para um programa político
pró-investidor apesar de ter sido eleito com base em promessas de implementação
de um conjunto de políticas bem diferentes. Como aponta Tommasi_(2003), as
crises tendem a pressionar os governos a focarem em horizontes de curtíssimos
prazos. Em um sistema pouco institucionalizado, os custos de fazê-lo são
relativamente baixos.
A mesma lógica, entretanto, não se aplica a um número de outros exemplos
observados na região em que candidatos de esquerda abandonaram suas promessas
de campanha em favor de programas neoliberais em sistemas partidários
considerados institucionalizados. Esse é o caso de Carlos Andrés Pérez,
candidato da Ação Democrática, eleito em 1989 na Venezuela - país apontado como
exemplo de institucionalização do sistema partidário até a metade dos anos 1990
- após uma campanha em que prometia um aumento substantivo de salários em todos
os setores da economia e uma guerra contra a pobreza, sinalizando a continuação
da agenda econômica nacionalista e protecionista do governo de seu antecessor e
correligionário Jaime Lusinchi. Empossado, no entanto, Pérez imediatamente
voltou atrás com relação ao aumento de salários, eliminou controles de preços e
subsídios, e empreendeu um amplo programa de liberalização econômica que
garantiu ao país um empréstimo do Fundo Monetário Internacional (Lopez_Maya,
2005).
Um processo semelhante ocorreu no Brasil, após uma grave crise de confiança
deflagrada no mercado financeiro pelo temor da eleição de Luiz Inácio Lula da
Silva, candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) à Presidência da República
em 2002. Mesmo sendo um partido altamente institucionalizado, com raízes na
sociedade organizada e consistente do ponto de vista programático, o PT não
impediu que Lula da Silva abraçasse um programa substancialmente diferente
daquele que historicamente defendera, e muito semelhante àquele ao qual
oferecera forte oposição durante os oito anos do governo de Fernando Henrique
Cardoso.
À luz dos casos descritos, esse artigo se propõe a testar em que medida a
institucionalização de partidos e sistemas partidários logra impedir mudanças
programáticas em resposta a repentinas saídas de capital ocorridas durante as
eleições presidenciais. A fim de examinar essa questão, codifico o conteúdo
programático de campanhas presidenciais e das primeiras iniciativas de governo
em eleições ocorridas na América Latina entre os anos de 1982 e 2006. A partir
dessa base de dados, analiso empiricamente como diferentes níveis de
institucionalização partidária afetam a consistência programática de governos
eleitos em meio a ataques especulativos. Os resultados confirmam que, em um
cenário de severa saída de capitais, o nível de institucionalização do partido
do presidente de fator representa uma barreira a mudanças programáticas.
Surpreendentemente, no entanto, a institucionalização do sistema partidário, ao
contrário de diminuir, aumenta as chances de que presidentes de esquerda recém-
eleitos abandonem promessas de campanha em favor de uma agenda neoliberal.
Este artigo está organizado da seguinte maneira: na primeira seção, analiso a
literatura sobre institucionalização partidária e de que forma esta deveria, em
princípio, promover a consistência programática de governos. Em seguida,
discuto artigos recentes de economistas políticos que tratam da reação do
mercado a eleições da esquerda, e formulo hipóteses sobre como essas respostas
deveriam influenciar o programa de governos de diferentes matizes ideológicos1.
A terceira parte apresenta uma análise empírica que testa as hipóteses traçadas
em um conjunto de 89 eleições ocorridas na América Latina, cuja conclusão
compõe a última seção.
INSTITUCIONALIZAÇÃO PARTIDÁRIA E CONSISTÊNCIA PROGRAMÁTICA
Desde a publicação da obra seminal de Mainwaring_e_Scully_(1995), muito esforço
vem sendo dedicado à determinação dos conceitos envolvidos no processo de
institucionalização de sistemas partidários, bem como no estabelecimento de
suas implicações teóricas para o funcionamento das democracias. A
institucionalização é concebida como
um processo através do qual uma prática ou organização se torna bem
estabelecida e amplamente conhecida, e atores desenvolvem
expectativas, orientações e comportamento com base na premissa de que
esta prática ou organização prevalecerá num futuro previsível
(Mainwaring_e_Torcal,_2005:4).
Em sistemas partidários institucionalizados, em que atores políticos
desenvolvem expectativas claras e estáveis sobre o comportamento de outros
atores. Espera-se, com isso, que padrões estáveis de competição eleitoral, a
presença de raízes partidárias na sociedade e o reconhecimento, pelos cidadãos,
da legitimidade dos partidos políticos e da institucionalização da organização
partidária, em oposição à criação de partidos como veículos eleitorais para
líderes personalistas, contribuam para estabelecer o que se considera "boa
representação". Esta noção pressupõe representantes que funcionam não como
"líderes que buscam realizar sua própria vontade", mas que são eleitos e
governam em resposta às preferências programáticas dos eleitores.
A maioria das análises empíricas dedicadas ao estudo da institucionalização de
sistemas partidários concentra-se em mensurar níveis de institucionalização. Em
comparação, a análise das implicações finais dessa institucionalização tem
recebido pouca atenção na literatura. Em particular, a compreensão de como e em
que circunstâncias a institucionalização do sistema partidário efetivamente
contribui para a consistência programática de atores políticos é incipiente.
Este artigo contribui para essa agenda de pesquisa examinando como a
institucionalização de partidos e de sistemas partidários, em meio a outras
características dos sistemas políticos nacionais, afetam a probabilidade de que
governantes de esquerda mantenham sua consistência programática.
Crises econômicas possibilitam oportunidades particularmente interessantes para
a análise deste tema. Não raramente a literatura que estuda respostas políticas
a essas crises minimiza a importância normativa da consistência programática,
com base na ideia de que a assimetria de informações entre eleitores e seus
representantes justifica tomadas de decisões que muitas vezes confrontam as
preferências do eleitorado. Stokes_(2001), por exemplo, argumenta que
governantes podem ser considerados ainda melhores representantes de seus
eleitores exatamente por renunciarem a suas promessas de campanha em
circunstâncias nas quais fazê-lo garantiria os melhores resultados econômicos.
Para outros autores, as crises encorajam a delegação, não apenas do Legislativo
para o Executivo, mas também dos eleitores aos seus representantes (Weyland,
1996; Tommasi,_2003). Contudo, se a delegação nos períodos de crise pode
facilitar respostas imediatas dos governantes, nota-se que no longo prazo ela
pode impor altos custos econômicos e políticos (Stokes,_2001;Tommasi,_2003;
Weyland,_2004; Zechmeister_e_Luna,_2005). Tommasi afirma: "As crises
constituem, talvez, os momentos menos propícios para a construção deliberativa
de acordos e consensos necessários para sustentar políticas de qualidade e
reformas institucionais sólidas" (2003:16; tradução livre).
Esse tema não interessa apenas aos estudiosos da América Latina. Recentemente,
países europeus em sistemas políticos consolidados tais como o da Espanha ou de
Portugal, passaram pela experiência de ver governos de esquerda abraçarem uma
agenda econômica ortodoxa em resposta a pressões especulativas, mesmo em face
de forte oposição interna e da perda de apoio do eleitorado. A fim de informar
os debates teóricos e normativos sobre crises e representação, no entanto, é
necessário, antes de tudo, determinar empiricamente como os governantes
efetivamente se comportam em tempos de crise. Levando-se em consideração a
literatura já discutida, a expectativa é de que tanto a institucionalização do
partido como a do sistema partidário criem barreiras para que presidentes
realizem mudanças programáticas em resposta a crises econômicas. Padrões
estáveis de competição eleitoral, a presença de raízes partidárias na sociedade
e o reconhecimento pelos cidadãos da legitimidade dos partidos políticos
deveriam aumentar os custos eleitorais para presidentes que decidam abertamente
abandonar seu programa de governo.
Caso tais motivações não sejam suficientes para impedir mudanças programáticas,
espera-se que partidos institucionalizados sejam capazes de vetar a iniciativa
de presidentes de adotar políticas opostas àquelas anunciadas durante a
campanha. Ao não fazê-lo, os partidos se arriscariam a perder o apoio de
ativistas e legisladores, além de eleitores comuns. Em tese, quanto mais
institucionalizado o partido, maior deveria ser o custo político imposto ao
presidente que decidisse mudar radicalmente de agenda.
ATAQUES ESPECULATIVOS E MUDANÇAS PROGRAMÁTICAS NA AMÉRICA LATINA
O comportamento do mercado financeiro durante eleições nacionais, bem como suas
consequências para o funcionamento de governos democráticos, vem adquirindo
progressiva relevância na literatura de economia política. Isso se dá na medida
em que campanhas eleitorais são o momento crucial em que candidatos revelam
seus programas econômicos e investidores reagem em proporção ao impacto
esperado destes programas sobre a rentabilidade do investimento. Programas
considerados desfavoráveis podem deflagrar desde um aumento do custo de
endividamento público até ataques especulativos capazes de impor perdas
relevantes para a economia do país. Não é surpreendente, assim, que reações
como aquelas observadas durante a eleição de Gutiérrez ou Lula da Silva em 2002
criem barreiras à implementação da agenda de governos contra os quais elas se
façam sentir.
Eleições presidenciais na América Latina são particularmente inquietantes para
investidores: características dos sistemas políticos locais, tais como a
concentração do poder político no Executivo, aumentam consideravelmente a
volatilidade de políticas econômicas, gerando incerteza. Altos níveis de
personalização, baixa institucionalização dos sistemas partidários e
politização da máquina do Estado só reforçam essa incerteza, colocando a agenda
dos candidatos presidenciais no centro das atenções de investidores durante o
período eleitoral. Relatórios divulgados por analistas durante campanhas
presidenciais na América Latina dedicam-se primordialmente a captar as
tendências políticas destes candidatos, bem como a natureza e a consistência de
seu programa econômico.
Em geral, estes relatórios avaliam positivamente a perspectiva de vitória de
governos economicamente conservadores, dos quais se espera que priorizem um bom
clima para investimento e promovam políticas favoráveis ao capital privado
(Santiso,_2005; Block,_Vaaler_e_Schrage,_2006). Dentre essas políticas,
destacam-se a redução da intervenção do Estado na economia, a redução dos
impostos e de gastos públicos (Wibbels_e_Arce,_2003) e a desregulamentação das
relações de trabalho, do comércio e de fluxos de capital. Do ponto de vista
macroeconômico, investidores tendem a favorecer uma política monetária
ortodoxa, orientada primordialmente ao controle da inflação (Oatley,_1999). Por
outro lado, investidores frequentemente reagem de forma negativa a governos de
esquerda que, ao priorizarem justiça social em relação à eficiência econômica
(Bobbio,_1994) e o emprego em relação ao controle da inflação, limitam a
rentabilidade do investimento privado. Governos de esquerda tendem a proteger o
mercado de trabalho (Botero_et_al.,2004) e a expandir o setor público no
esforço de promover o emprego. Eles também são considerados menos propensos ao
conservadorismo fiscal e mais inclinados a distribuir renda (Bobbio,_1994). Em
países menos desenvolvidos e altamente endividados, governos de esquerda
revelam-se menos comprometidos com o serviço da dívida pública (Mosley,_2003),
e mais propensos a impor controles de capital e a nacionalizar empresas
privadas.
Por todas essas razões, é plausível imaginar que investidores prefiram aumentar
sua exposição em países onde se antecipa que candidatos conservadores venham a
ser eleitos presidentes e, ao contrário, que diminuam seus investimentos
naqueles nos quais é esperada a vitória de um governo de esquerda. Numerosos
estudos de caso confirmam esse comportamento (Yantek_e_Cowart,_1986; Mauser_e
Fitzsimmons,_1991;Herron,_2000; Vuchelen,_2003; Santiso_e_Martínez,_2003).
Sabe-se, ainda, que governos com um percentual mais alto de ministros de
esquerda pagam taxas de juros mais elevadas do que aqueles em que membros
conservadores prevalecem (Mosley,_2003; Garrett,_1998; Leblang_e_Bernhard,
2000) e que ataques especulativos têm maior probabilidade de ocorrer após a
eleição de um governo de esquerda, tanto em países desenvolvidos (Leblang_e
Bernhard,_2000) quanto naqueles em desenvolvimento (Leblang,_2002). Na América
Latina, em particular, Block_e_Vaaler_(2004) mostram que agências diminuem a
classificação de risco da dívida de países que elegem governos de esquerda,
enquanto Campello_(2015) demonstra que estes governos apresentam risco soberano
mais alto do que aqueles de tendência conservadora.
Diante dessas reações pode-se esperar que, em princípio, a eleição da esquerda
deflagre algum nível de fuga de capitais. Consistentes com essa expectativa, na
amostra analisada neste artigo, ataques especulativos ocorrem com maior
frequência quando há a perspectiva de vitória de um candidato de esquerda - 63%
comparados com 37% no caso de candidatos eleitos com um discurso neoliberal.
Resta saber, no entanto, em que circunstâncias esta resposta do mercado torna-
se capaz de forçar uma "ida para o centro" de governos de esquerda recém-
eleitos. A hipótese aqui investigada é a de que em períodos de abundância de
dólares, quando a liquidez internacional é alta e os termos de troca são
favoráveis, essa resposta não restringe a agenda de governos de esquerda. Ao
contrário, é diante da escassez de dólares, quando a liquidez internacional
encontra-se baixa e os termos de troca estão francamente desfavoráveis, que a
reação do mercado se torna relevante. Confrontados com um cenário de forte
pressão cambial, governos de esquerda veem-se forçados a renunciar à sua agenda
em favor de políticas destinadas a ganhar a confiança do mercado e atrair
capital para a economia doméstica.
Neste contexto, autores notam que reformas neoliberais foram frequentemente
adotadas na América Latina com o intuito de sinalizar uma agenda pró-mercado
(Calvo, Leiderman e Reinhart, 1993; Fernández-Arias_e_Montiel,_1995). Santiso_e
Martinez_(2003:27) afirmam, explicitamente, que "a febre de reforma na América
Latina dos anos 1990 deve ser vista no contexto da necessidade urgente de novos
fluxos de capital". A mesma lógica é apontada por Drake_(1991:36), que
caracteriza as mudanças programáticas frequentemente empreendidas pela esquerda
latino-americana como um reflexo da "contradição entre o empobrecimento da
maioria da população e os imperativos da reestruturação neoliberal que
favorecem mecanismos de mercado e priorizam o pagamento da dívida externa". A
coincidência entre os fenômenos descritos por Santiso e Martínez e Drake sugere
que a lógica proposta aqui - adoção de uma agenda liberal por parte da esquerda
no intuito de atrair capital em tempos de escassez - não se encontra restrita
ao período imediatamente posterior à crise da dívida dos anos 1980, ao qual
Drake se referia, ou ao princípio dos anos 1990, como tratam Santiso e
Martínez. Argumenta-se, neste estudo, que essa lógica se verifica em períodos
de escassez de dólares em geral, quando governos estão sujeitos a uma forte
pressão para atrair capital externo no curto prazo.
Não é surpreendente, assim, que o tão debatido ressurgimento da esquerda
observado na América Latina desde o princípio dos anos 2000 (Castañeda,_2006,
2008; Levitsky_e_Roberts,_2011; Edwards,_2010; Weyland,_Madrid_e_Hunter,_2010)
tenha se dado em uma época em que os termos de troca encontravam-se francamente
favoráveis a países exportadores de produtos básicos, e as taxas de juros
internacionais atingiam mínimos históricos, atraindo o capital financeiro
internacional para países emergentes. Rápido crescimento econômico e ampla
oferta de dólares aumentaram a margem de manobra de governos de esquerda para
rejeitar as políticas econômicas ortodoxas preferidas pelo mercado (Kaufman,
2011; Murillo,_Oliveros_e_Vaishnav,_2011; Campello,_2015; Weyland,_2009).
Por fim, é importante notar que presidentes eleitos com um discurso neoliberal
recebem um mandato para promover o clima de investimento e liberalizar a
economia, e desta forma não experimentam contradição entre as preferências de
seus eleitores e do mercado. Na ausência desta contradição, não há porque
esperar que a escassez ou abundância de dólares afetem a política econômica
prevalecente. É possível que tais governos adotem medidas compensatórias em
tempos de abundância, mas eles devem, em tese, fazê-lo dentro dos parâmetros
estabelecidos pela ortodoxia macroeconômica.
A argumentação proposta até aqui se sumariza nas seguintes hipóteses. Mantidas
as demais condições fixas,
Hipótese 1:Presidentes de esquerda eleitos durante ataques especulativos
apresentam maior probabilidade de renunciar a promessas de campanha em favor de
uma agenda neoliberal.
Hipótese 2:Ataques especulativos não influenciam as escolhas programáticas de
governos eleitos com uma plataforma neoliberal.
Hipótese 3:A probabilidade de mudanças programáticas deve diminuir
proporcionalmente ao nível de institucionalização dos sistemas partidários.
Hipótese 4:A probabilidade de mudanças programáticas deve diminuir
proporcionalmente ao nível de institucionalização do partido do governo.
Em seguida, apresento uma análise empírica designada a testar as hipóteses
elaboradas.
DESENHO DE PESQUISA E ANÁLISE DE DADOS
Esta seção testa de que forma ataques especulativos ocorridos durante eleições
presidenciais afetam a probabilidade de que presidentes de ambos os espectros
ideológicos renunciem, uma vez empossados, à agenda econômica anunciada durante
a campanha. Em seguida, verifico como características do sistema político, em
particular o nível de institucionalização partidária, influenciam essa
probabilidade.
A variável dependente, neste modelo, é a mudança programática. As variáveis
explicativas capturam ataques especulativos ocorridos durante o período
eleitoral e níveis de institucionalização partidária. São também incluídas
variáveis de controle consideradas relevantes para explicar a probabilidade de
ocorrência de mudanças programáticas.
Variável Dependente: "Mudança Programática"
A fim de examinar a ocorrência de mudanças programáticas, é necessário
identificar (1) o conjunto de políticas anunciadas pelos candidatos durante a
campanha eleitoral e (2) o programa que eles efetivamente iniciaram após a
posse. Ambos foram codificados segundo o critério proposto por Stokes_(2001) no
que concerne à classificação de campanhas e programas de esquerda (estatistas)
e neoliberais (orientados ao mercado).
Foram classificadas como sendo de esquerda campanhas em que o candidato
vencedor prometeu aumentar o papel do Estado e a regulação da economia;
priorizar o aumento do emprego e do salário sobre o controle da inflação;
restringir importações e a movimentação de capitais; implementar políticas
industriais, subsídios a produtos e serviços básicos, e limitar o pagamento da
dívida externa. A campanha de Rafael Correa durante as eleições presidenciais
de 2006 no Equador ilustra um típico discurso de esquerda. O candidato revelou
intenções de renegociar a dívida equatoriana segundo o modelo argentino,
condenou a dolarização da economia e prometeu fechar a base militar americana
em Manta. Correa reafirmou durante a campanha que sua prioridade seria pagar a
"dívida social" do país, e não a dívida pública, e anunciou planos de aumentar
o papel do Estado na economia.
Foram classificadas como sendo de direita (do ponto de vista econômico) ou
"neoliberais", campanhas em que o vencedor prometeu reduzir o papel do Estado
na economia mediante privatização e desregulamentação, priorizar choques anti-
inflacionários e/ou orientar a política monetária à manutenção de metas de
inflação, eliminar subsídios e barreiras à importação e liberalizar a economia
de forma mais ampla. A campanha de Alan García, reeleito presidente do Peru em
2006, exemplifica o tom de um discurso neoliberal. O candidato prometeu
priorizar a abertura da economia, promover o investimento internacional e a
competição externa, privatizar concessões públicas, manter uma política macro
econômica ortodoxa orientada a metas de inflação e firmar acordos de livre-
comércio.
As campanhas eleitorais foram classificadas a partir de dados publicados em
jornais no ano imediatamente anterior a cada eleição presidencial, e essa
análise me permitiu ampliar a base de dados criada por Stokes de 1995 até 2006.
Os mesmos critérios foram aplicados à classificação dos programas iniciados no
primeiro ano de cada Presidência.
As informações utilizadas para codificar cada governo foram obtidas a partir de
estudos de casos (Conaghan, Malloy e Abugattas, 1990; Cuddington_e_Asilis,
1990; Wilson,_1994; Espinal,_1995;Mauceri,_1995; Babb,_1996; Hojman,_1996;
Roberts,_1996; Lander_e_Fierro,_1996; Pastor_e_Wise,_1997; Weiss,_1997; Blake,
1998; Boito_Jr._e_Randall,_1998; Cameron_e_North,_1998; Robinson,_2000), da
análise de conteúdo de coberturas jornalísticas, assim como de bases de dados
de instituições políticas. Considerando meu interesse específico em mudanças
pós-eleitorais, a codificação de artigos foi restrita àqueles publicados no
primeiro ano de mandato dos presidentes e disponíveis na base de dados Lexis
Nexis2.
A variável dependente mudança programáticaadquire valor 0quando o programa
iniciado após a posse é consistente com as promessas de campanha, e valor 1,no
caso contrário. A limitação das categorias em apenas dois grupos é, sem dúvida,
a simplificação de uma realidade em que governos adotam diferentes gradações de
programas de esquerda ou de direita. Entretanto, como Stokes_(2001:29) sugere,
a dificuldade de quantificar esses matizes "desencoraja codificações contínuas
em favor da redução das posições ideológicas a uma categoria dicotômica". As
categorias adotadas aqui capturam satisfatoriamente a mensagem básica de
campanhas presidenciais, em geral orientadas a um discurso estatista/
intervencionista ou pró-mercado/liberalizante.
Variáveis Explicativas
Ataque especulativo.A variável concebida para captar ataques especulativos foi
construída com base no índice de pressão cambial(PC) -Exchange Market Pressure-
criado por Eichengreen_et_al.(1995), baseados no trabalho de Girton_e_Roper_
(1977). O índice agrega alterações nas reservas internacionais e no câmbio,
ponderadas por sua volatilidade histórica, que, por sua vez, é medida pelo
desvio-padrão de suas distribuições. A interpretação da PC é simples: pressões
especulativas refletem-se tanto na queda de reservas (r), utilizadas pelo
governo para manter o valor da moeda, quanto na depreciação da taxa de câm-bio
(c),casoogovernooptepordeixá-laflutuar:
Eichengreen_et_al.(1995)utilizam um mesmo desvio-padrão para toda a amostra;
Leblang_(2002), por sua vez, adota um desvio-padrão para cada país.
Alternativamente, calculo aqui uma média móvel (12 meses) dos desvios-padrão.
Esta medida é mais adequada à realidade da América Latina, uma vez que ambos os
indicadores que compõem o índice mostram-se altamente voláteis nos primeiros
anos da amostra, ao passo que a volatilidade decresce significativamente ao
longo do período estudado. O uso de um desvio-padrão único, portanto,
superestimaria as crises ocorridas no início dos anos 1980 e, ao mesmo tempo,
subestimaria aquelas observadas no final dos anos 1990.
De acordo com Eichengreen_et_al.(1995), criei em seguida uma variável binária
com a finalidade de capturar a ocorrência de uma crise cambial(CC). Sempre que
a pressão cambialassume valores negativos extremos em um determinado mês -
consistente com Leblang_(2002), adotei um corte de dois desvios-padrão ao redor
da média da distribuição.
[/img/revistas/dados/v58n2//0011-5258-dados-58-2-0427-e2.jpg]
Neste modelo, a variável ataque especulativoresulta da soma dos valores de
crise cambialnos 13 meses centrados na posse de um presidente. Ela captura
ataques especulativos - saídas súbitas e significativas de capital - ocorridos
no período que vai, em média, de seis meses antes da eleição até os primeiros
seis meses do mandato presidencial.
Como discutido na seção teórica, é possível que presidentes tentem mudar seus
programas quando se defrontam com ataques especulativos, mas é mais provável
que o façam em sistemas políticos menos estruturados. As variáveis utilizadas
para capturar os níveis de institucionalização do sistema partidário e de
partidos políticos são descritas a seguir.
Volatilidade.A volatilidade eleitoral é a variável mais facilmente mensurável
e, talvez, a mais importante dimensão da institucionalização do sistema
partidário, uma vez que a "institucionalização está conceitualmente muito
próxima da estabilidade" (Mainwaring_e_Torcal,_2005:4). Enquanto a
institucionalização do sistema partidário compreende pelo menos três outras
dimensões além da estabilidade da competição intrapartidária, captada pela
volatilidade, este ainda é o fator mais utilizado em trabalhos empíricos que
procuram quantificar a noção de institucionalização. Para a amostra estudada
neste artigo, a volatilidade em eleições para o Congresso é calculada
utilizando dados obtidos a partir da Base de Dados Políticos das Américas -
Political Database of the Americas (PDBA) - e do arquivo eleitoral de Adam
Carr3.
Idade do Partido.Esta variável é usada aqui como um indicador da
institucionalização do partido do presidente. Não obstante o fato de alguns
partidos existirem por muito tempo sem alcançar um alto nível de
institucionalização, como é o caso do Partido Justicialista na Argentina, por
exemplo, entende-se que tempo de existência é uma condição necessária para a
institucionalização e, portanto, fortemente associado com ela. Dados foram
obtidos da Base de Dados de Instituições Políticas - Database of Political
Institutions (DBPI) - e também de dicionários políticos da América Latina
(Gunson,_Chamberlain_e_Thompson,_1989, 1991; Ameringer,_1992).
Variáveis de Controle
Além de níveis de institucionalização, outras características de sistemas
políticos também podem influenciar a probabilidade de que presidentes efetuem
mudanças programáticas, e por isso são incluídas como controle na análise
apresentada a seguir. Entre elas, estão os poderes constitucionais atribuídos
ao Executivo e a força do partido do governo na legislatura.
Em tese, quanto maior o poder concentrado no Executivo, mais fácil será para o
presidente realizar uma mudança programática que confronte as preferências de
outros atores políticos. Adicionalmente, uma vez que o presidente encontre
apoio no seu próprio partido para realizar mudança de programas, o Congresso
ainda pode impor um veto a tal mudança. Entretanto, a probabilidade de esse
veto acontecer é menor quanto mais forte for a presença do partido da
situação4. Com isso, espera-se que a concentração de poderes no Executivo e o
poder de seu partido no Congresso aumentem a capacidade do presidente de
realizar uma mudança programática, caso decida fazê-lo. Para capturar esses
fatores são utilizadas as seguintes variáveis:
Executivo.Esta variável reflete os poderes constitucionais do Executivo e seus
valores foram obtidos do Inter-American Development Bank/Institute for
Democracy and Electoral Assistance (IDB/IDEA) (Payne_et_al.,_2002). O índice
cobre uma escala que vai de 3 a 15, incluindo medidas de veto total, veto
parcial, poder de decreto, iniciativa exclusiva, convocação de referendo/
plebiscito, poder de definir e de descumprir o orçamento.
Legislatura.O número de cadeiras controladas pelo partido da situação na Câmara
dos Deputados foi utilizado como indicador da força do governo no Legislativo.
As fontes de consulta foram, também, o IDB/IDEA, a PDBA e o arquivo de Adam
Carr5.
Inflação.Finalmente, como a necessidade de lidar com as crises inflacionárias
constitui uma explicação amplamente aceita para a adoção de programas
neoliberais na América Latina (Weyland,_1996; Stokes,_2001;Biglaiser,_2004;
Bresser-Pereira,_2006), em tese, a hiperinflação não apenas motiva presidentes
a adotar ajustes dolorosos (Haggard_e_Kaufman,_1995; Stokes,_2001), mas também
torna o cidadão mais afeito a riscos ao colocá-lo no "domínio das perdas"
(Weyland,_1996). Com o intuito de separar os efeitos de crises cambiais e
crises inflacionárias, foi incluída a variável Inflação,que mede o logaritmo da
taxa média anual de inflação nos 13 meses centrados na data da posse dos
presidentes. Estatísticas descritivas são apresentadas na Tabela_1.
Tabela 1 Resumo das Variáveis Explicativas Incluídas na Análise
Variável MínimaMediana MédiaMáximaDesvio-padrão
Ataque especulativo 0,00 4,00 4,29 13,00 3,61
Volatilidade 3,30 18,70 22,67 62,80 14,04
Idade do partido 1,00 24,00 42,35 165,00 46,69
Executivo 3,00 7,00 7,97 15,00 3,68
Legislatura 0,00 41,40 36,05 96,00 19,06
Inflação -0,19 2,49 2,85 9,26 1,73
Fonte: Dados calculados pela autora com base nas fontes descritas na seção
"Desenho de Pesquisa e Análise de Dados" deste artigo.
Resultados
Como ataques especulativos afetam a consistência programática de governos na
América Latina? Levando-se em conta que - como se espera-o efeito desses
ataques seja diferente dependendo do matiz ideológico do candidato/presidente,
os casos de candidatos neoliberais e de esquerda são analisados separadamente.
Essa estratégia tem a vantagem adicional de evitar potencial endogeneidade nos
resultados, causada pelo fato de que um componente da variável dependente (o
conteúdo programático da campanha presidencial) pode influenciar os valores da
variável independente (ataque especulativo).
Campanhas Neoliberais
O impacto nulo de ataques especulativos em mudanças programáticas realizadas
por presidentes neoliberais é evidente uma vez que se observa que, apesar de o
tratamento variar (o valor mediano da variável ataque especulativo,nesses
casos, é de 3,73, com desvio-padrão de 3,70), os efeitos permanecem constantes
(candidatos eleitos após uma campanha neoliberal jamais realizam mudanças
programáticas). Caso nem o tratamento nem o efeito variassem, seria impossível
determinar a influência de ataques especulativos sobre governos neoliberais. Da
forma como os dados se apresentam, a evidência é consistente com a hipótese de
que ataques especulativos não têm um impacto sobre as escolhas programáticas
deste grupo (Hipótese 2).
Campanhas de Esquerda
Os resultados da análise indicam que, dentre os presidentes de esquerda,
aqueles que iniciam seu governo em meio a um ataque especulativo são os que
mais provavelmente trairão as promessas de campanha em favor de um programa
econômico neoliberal.
A Tabela_2 mostra o efeito das mudanças nas principais variáveis explicativas
(primeiras diferenças, no modeloprobit)sobre a probabilidade de que presidentes
adotem um programa distinto daquele anunciado durante a campanha. Os resultados
são consistentes com a hipótese de que ataques especulativos - saídas súbitas e
significativas de dólares da economia - aumentam significativamente a chance de
que presidentes esquerdistas adotem um programa neoliberal já no início de seu
mandato (Hipótese 1).
Tabela 2 Efeitos das Variáveis Explicativas sobre a Probabilidade de que
Presidentes de Esquerda Realizem uma Mudança Programática. Primeiras
Diferenças, Modelo probitVariável Dependente:Mudança Programática
Modelo 1 Modelo 2 Modelo 3 Modelo 4
Ataque especulativo 0,489 0,546 0,545
Erro-padrão(0,164) (0,217) (0,208)
prob. 0,003 0,012 0,009
Volatilidade -0,737 -0,790 -0,812
Erro-padrão (0,189) (0,200) (0,183)
prob. 0,000 0,000 0,000
Idade do partido -0,708 -0.747 -0,749
Erro-padrão (0,209) (0.220) (0,230)
prob. 0,001 0,001 0,001
Executivo 0,425 0,598 0,595
Erro-padrão (0,261) (0,251) (0,264)
prob. 0,104 0.017 0,024
Legislatura 0,208 0,314 0,272
Erro-padrão (0,261) (0,285) (0,290)
prob. 0,425 0,270 0,360
Inflação 0,191
Erro-padrão (0,259)
prob. 0,459
Fonte: Dados calculados pela autora com base nas fontes descritas na seção
"Desenho de Pesquisa e Análise de Dados" deste artigo.
Nota: Efeito de alterações nas variáveis de interesse sobre a probabilidade de
que governos de esquerda realizem mudanças programáticas. Parâmetros da
simulação: variação de dois desvios-padrão em torno da média para a variável de
interesse,mantidas todas as outras variáveis em seus valores médios.
Mantendo todas as outras variáveis em seus valores médios, uma mudança de dois
desvios-padrão em torno da média da variável ataque especulativoleva a uma
variação de 54,5 pontos percentuais na probabilidade de um presidente de
centro-esquerda mudar seu programa (Modelo 4). Esse efeito é estatisticamente
significativo em um intervalo de confiança de 95% (Figura_1a). De acordo com o
modelo, por exemplo, se Lucio Gutiérrez houvesse assumido o governo equatoriano
em 2002(ataque especulativo= 10) nas mesmas condições em que Rafael Correa em
2006 (ataque especulativo= 3), a probabilidade de que ele tivesse renunciado à
sua agenda de esquerda em favor de políticas neoliberais teria sido 48 pontos
percentuais inferior.
[/img/revistas/dados/v58n2//0011-5258-dados-58-2-0427-gf01.jpg]
Figura 1 Efeitos das Variáveis Explicativas na Probabilidade de que Ocorra uma
Mudança Programática. Modelo probit.Variável Dependente: Mudança Programática
O efeito da idade do partido,indicador utilizado comoproxypara o nível de
institucionalização do partido do presidente, mostrou-se consistente com as
expectativas (Hipótese 4) e estatisticamente significativo (Figura_1d),
sugerindo que a institucionalização partidária de fato constitua uma barreira
para mudanças programáticas. Quanto ao efeito da institucionalização de
sistemas partidários sobre a probabilidade de que governos de esquerda governem
com uma agenda neoliberal, os resultados sugerem um efeito oposto ao esperado
(Figura_1c). O sinal da variávelvolatilidademostrou-se negativo e
significativo, e consistente em todos os modelos observados, contrariando a
hipótese de que mudanças programáticas são menos prováveis em sistemas
partidários mais institucionalizados (Hipótese 3).
Uma possível explicação seria a de que a volatilidade eleitoral estivesse
capturando os efeitos possivelmente negativos da fragmentação do sistema
partidário em mudanças programáticas. Mantidas as outras condições, quanto mais
fragmentado for o Legislativo, mais difícil será para o presidente obter apoio
da maioria e implementar sua agenda programática. No entanto, a baixa
correlação entre estas duas variáveis (0,14) e o fato de que a inclusão da
fragmentação do sistema partidário no modelo não produziu qualquer alteração
que impactasse a probabilidade de mudanças, e tampouco qualquer resultado sobre
o efeito das demais variáveis explicativas, sugere que esse não é o caso. Outra
alternativa para um impacto potencialmente negativo da volatilidade sobre as
chances de presidentes promoverem mudanças programáticas pode derivar do fato
de que os eleitores, deparados com resultados econômicos ruins, tendem a punir
mais severamente os governantes que mudaram seus programas comparativamente
àqueles que não efetuaram mudanças (Stokes,_2001). Pode-se argumentar que os
políticos só se atrevem a trair abertamente as promessas de campanha quando
sabem que podem contar com a fidelidade dos eleitores6.
Finalmente, é importante notar que a volatilidade eleitoral é um melhor
indicador da institucionalização de sistemas partidários tão mais a
estabilidade da competição eleitoral esteja associada com a existência de
raízes partidárias programáticas estáveis na sociedade. Na ausência de vínculos
programáticos estáveis entre partidos e eleitores, como Luna_(2008) argumenta
ser o caso da América Latina, parece plausível que a estabilidade da competição
eleitoral não seja capaz de garantir a consistência programática dos governos.
Este raciocínio é coerente com a observação de Zucco_Jr._(2008) de que a
estabilidade nos padrões de competição eleitoral, por si só, produziu uma série
de benefícios políticos nas democracias latino-americanas, mas que a capacidade
dos eleitores de determinar a agenda programática dos governos não está entre
eles. A incapacidade de eleitores de influenciar a agenda pública na América
Latina vem sendo apontada por outros autores como uma das razões da baixa
qualidade da democracia em consolidação na região (Weyland,_2004).
Entre as demais variáveis, o efeito de poderes constitucionais do Executivo é
positivo e consistente (Figura_1e), compatível com a expectativa de que quanto
maiores os poderes constitucionais que o sistema político atribui ao Executivo,
maior será a probabilidade de uma mudança programática. Um aumento de dois
desvios-padrão na variávelexecutivoaumenta em cerca de 60 pontos percentuais as
chances de um presidente de esquerda mudar para um programa neoliberal
significativo a um nível de 5%. Interessantemente, a concentração de poderes no
Executivo só apresenta efeito sobre a probabilidade de mudança programática na
presença de ataques especulativos (Figuras_2a e 2b). O fato de que os
executivos fortes - e não os fracos - são aqueles que mais provavelmente
realizarão uma mudança programática na presença de um ataque especulativo
reforça a tese de que essas mudanças não são motivadas pela necessidade de
negociar com o Congresso para garantir a governabilidade e, sim, pela urgência
de ganhar a confiança do mercado e atrair dólares para a economia em tempos de
escassez.
[/img/revistas/dados/v58n2//0011-5258-dados-58-2-0427-gf02.jpg]
Figura 2 Efeitos da Variável Executivona Probabilidade de que Governos de
Esquerda Realizem uma Mudança Programática, com e sem a Presença de um Ataque
Especulativo. Modelo probit.Variável Dependente: Mudança Programática
Em comparação, o sinal da variável legislatura,que reflete a força do partido
da situação no Congresso, mostrou-se consistentemente positivo, como se
esperava, mas nunca significativo (Figura_1f). Esse resultado é consistente com
o fato de que, nos presidencialismos típicos dos sistemas políticos da região,
o partido do presidente raramente possui uma fatia significativa do Congresso e
frequentemente precisa formar uma coalizão para governar. Por fim, a inflação,
quando controlada pela ocorrência de ataques especulativos, não tem qualquer
efeito sobre a probabilidade de mudança programática (Figura_1b).
CONCLUSÃO
Este artigo investigou se e sob quais condições ataques especulativos ocorridos
durante as eleições presidenciais, no período de 1982 a 2006, afetaram a
consistência programática de presidentes latino-americanos, e em que medida
essa consistência está relacionada aos níveis de institucionalização de
partidos e sistemas partidários na região.
A hipótese inicialmente examinada foi a de que as pressões especulativas
aumentam as chances de que presidentes eleitos segundo uma plataforma de
esquerda, uma vez empossados, adotem programas neoliberais. Segundo a mesma
lógica, conjecturou-se que essas pressões não deveriam afetar o comportamento
de presidentes eleitos com um discurso neoliberal, já que nesses casos não
existem contradições fundamentais entre as preferências de seus eleitores e do
mercado. Em seguida, verifiquei se e como fatores políticos, em particular o
nível de institucionalização dos partidos e os sistemas partidários, afetam a
resposta dos governos aos ataques especulativos.
Os resultados sugerem que, dentre os governos de esquerda eleitos na América
Latina, aqueles que iniciaram seus mandatos sob fortes pressões especulativas,
e em sistemas nos quais o Executivo detém muitos poderes constitucionais, são
os mais propensos a abraçar um programa neoliberal logo após a posse. Isso
sugere que os ataques especulativos proveem a motivação,enquanto a concentração
de poderes garante a capacidadede presidentes realizarem mudanças
programáticas. O fato de os executivos fortes - e não os fracos - serem os que
mais frequentemente mudam de programa é incompatível com a hipótese de que
negociações no Congresso ou concessões à oposição sejam as principais
motivações dessas mudanças.
Embora partidosmenos institucionalizados ofereçam menores barreiras à
realização de mudanças programáticas, verificou-se que sistemas
partidáriosinstitucionalizados mostram-se incapazes de impedir que presidentes
de esquerda mudem radicalmente de agenda econômica. Ao contrário, mudanças
programáticas ocorrem com maior probabilidade quanto maior for a
institucionalização, o que contradiz as alegações de que esta promova a
consistência programática. Considerando as limitações intrínsecas aos
indicadores utilizados, e que a volatilidade eleitoral mede apenas um dos
aspectos da institucionalização dos sistemas partidários, argumentou-se que em
sistemas partidários consolidados, nos quais a conexão com eleitores não se dê
em bases programáticas, a estabilidade da concorrência partidária pode ocorrer
sem necessariamente contribuir para o fortalecimento da consistência do
programa de governo. Esta conclusão informa a literatura que trata dos efeitos
políticos da institucionalização partidária e aponta para uma interessante
agenda de pesquisa voltada para o estudo de como diferentes formas de
vinculação entre eleitores e partidos afetam a qualidade da democracia na
América Latina.
Além disso, a análise empírica desenvolvida neste artigo contribui para uma
agenda ainda recente sobre a influência de investidores em decisões de política
econômica de governos democráticos. Os resultados apresentados sugerem que, sob
condições econômicas e políticas específicas, investidores têm considerável
capacidade para influenciar as escolhas políticas dos governos. A concorrência
eleitoral institucionalizada, nestas circunstâncias, não parece suficiente para
forçá-los a implementar os programas anunciados em campanha, e com base nos
quais foram eleitos.
É importante notar que ataques especulativos constituem uma regularidade em
eleições latino-americanas, sobretudo naquelas em que há expectativas de
vitória da esquerda. Ao mesmo tempo, mostrou-se que candidatos de esquerda têm
uma elevada probabilidade de trair as promessas de campanha e mudar para
programas neoliberais quando eleitos em meio a pressões especulativas graves.
Diante dessa evidência, esta análise contribui para explicar a persistência de
políticas neoliberais na América Latina, apesar do frustrante registro em
termos de crescimento econômico e redução da desigualdade de renda sob esses
programas. O estudo chama a atenção para um mecanismo - crises de confiança
limitando a implementação de programas de esquerda -por meio do qual a
liberalização financeira, ocorrida na região desde os anos 1980, contribui para
a consolidação de sistemas democráticos em que alternância de poder não conduz
necessariamente à alternância de agendas econômicas.
Por outro lado, é importante notar que pressões especulativas tornaram-se menos
comuns durante eleições presidenciais ocorridas na América Latina a partir de
2003. Neste período, uma subida sem precedentes dos preços das commoditiese
baixas taxas de juros internacionais propiciaram um abundante fluxo de dólares
para a região, aumentando de forma substancial a margem de manobra de governos
de esquerda. Mais recursos fiscais e menor necessidade (e maior facilidade) de
atrair capital financeiro internacional permitiram a esses governos aumentar
gastos sociais e adotar políticas redistributivas e intervencionistas que
possivelmente tivessem gerado reações adversas em períodos menos favoráveis.
É preciso notar, no entanto, que uma forte queda nos preços das
commoditiesdesde seu auge, em fevereiro de 2011, e a perspectiva de aumento das
taxas de juros internacionais na esteira da recuperação da economia americana
pós-crise de 2008 sugerem que um novo período de escassez de dólares se
aproxima. Se a lógica proposta neste artigo estiver correta, este cenário seria
bastante desfavorável para a esquerda latino-americana, uma vez que depois de
uma década de bonança, esta voltaria a precisar optar entre a confiança do
mercado-comum retorno à ortodoxia e uma retração da presença do Estado na
economia - e as preferências de seus eleitores, que mostraram recompensar
generosamente as iniciativas redistributivas da década anterior.