Ativismo Homossexual Indígena: Uma Análise Comparativa entre Brasil e América
do Norte
Em 27 de julho de 2008, a repórter Kátia Brasil, da Agência Folha, publica uma
reportagem intitulada “Índios gays são alvo de preconceito no Amazonas”:
Entre os índios ticuna, a etnia mais populosa da Amazônia brasileira,
um grupo de jovens não quer mais pintar o pescoço com jenipapo para
ter a voz grossa, como a tradição manda fazer na adolescência, nem
aceita as regras do casamento tradicional, em que os casais são
definidos na infância. Esse pequeno grupo assumiu a homossexualidade
e diz sofrer preconceito dentro da aldeia, onde os gays são agredidos
e chamados de nomes pejorativos como “meia coisa”. Quando andam
sozinhos, podem ser alvos de pedras, latas e chacotas. Três ticunas
da aldeia Umariaçu 2, na região do Alto Solimões, em Tabatinga (1.105
km de Manaus), contaram para a Folhacomo é a vida dos homossexuais
indígenas na fronteira com a Colômbia e o Peru [...].
Marcenio Ramos Guedes, 24, e seu irmão, Natalício, 22, pintam o
cabelo e as unhas e fazem as sobrancelhas. Trabalham como dançarinos
em um grupo típico ticuna que se apresenta nas cidades da região.
Marcenio diz que brigava muito com o pai e que saiu de casa aos 15
anos. “Fui para Tabatinga trabalhar como ‘empregada doméstica’. Eu
fazia comida, passava roupa, lavava.” Ao voltar para casa, uma
construção de madeira com dois cômodos, onde mora com quatro dos sete
irmãos e os pais, Marcenio resolveu cuidar dos afazeres domésticos. O
grupo de dança foi criado em 2007, com apoio da família. “Não sofro
discriminação por dançar, todo mundo respeita, assiste. Sofro
preconceito [de outros jovens] na aldeia. Se falo alguma coisa,
querem me bater, jogar pedra, garrafa.”
Natalício diz que tem medo de andar sozinho. “Vou sempre com um
colega”, afirma [...].
O cientista social e professor bilíngue (português e ticuna) de
história Raimundo Leopardo Ferreira afirma que, entre os ticunas, não
havia registros anteriores da existência de homossexuais, como se vê
hoje. Ele teme que, devido ao preconceito, aumentem os problemas
sociais entre os jovens, como o uso de álcool e cocaína. “Isso [a
homossexualidade] é uma coisa que meus avós falavam que não existia”,
afirmou.
Longe dali, em Sandstone, Minnesota, naquele mesmo ano, ocorreria entre 28 de
agostoe 1o de setembro o XX Encontro Intertribal de Representantes Gays,
Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros de Comunidades Nativas. Ao contrário da
realidade ticuna relatada na reportagem acima, as preocupações dos mais de
3.000 representantes de 36 etnias presentes ao encontro eram o centro das
atenções. Após a abertura do evento, o então candidato democrata à Presidência,
Barack Obama, enviara aos presentes uma mensagem de apoio, à qual Richard
LaFortune, representante da instituição que organizava o evento (Two Spirit
Press Room), responde: “Nós recebemos bem a expressão de apoio do senador
Obama, que certamente não esperávamos. É totalmente apropriado para nossos
participantes tribais terem-na ouvido de um candidato à Presidência dos EUA,
porque os participantes do encontro representam Nações Soberanas e nós sempre
fomos conhecidos como líderes entre nossas culturas”.
Notam-se certamente algumas diferenças entre as duas situações aqui retratadas
(em Tabatinga e em Sandstone), em termos não apenas da mobilização do movimento
indígena em torno de demandas específicas – em especial estratégias de combate
a DST/HIV, saúde mental e preconceito, a exemplo do caso norte-americano – como
do statusque os indígenas homossexuais gozam em suas próprias comunidades.
Enquanto aqui os Tikuna (e como veremos adiante, entre os Guarani, Krahó e
outros povos indígenas no Brasil) são descritos como percebendo a
homossexualidade como algo indigno, os representantes homossexuais indígenas
norte-americanos fazem questão de salientar seu papel de “líderes tradicionais
em suas culturas”. Mais que isso: enquanto no Brasil a homossexualidade
indígena é apresentada como sendo vista pelos indígenas enquanto “perda
cultural”, os povos indígenas norte-americanos a teriam em conta, como veremos,
de marcador de autodeterminação e estratégia de combate ao discurso
colonizador.
Nosso objetivo não será um estudo que busque levantar quais etnias possuem
práticas homossexuais, como elas representam essas práticas, ou mesmo um estudo
da sexualidade indígena nesta ou naquela etnia. Um trabalho nesse sentido teria
que recuperar e examinar as noções hegemônicas sobre o que seria
homossexualidade e/ou lançar mão de uma arqueologia da sexualidade, buscando
compreender como os povos indígenas interpretariam essas noções. Pesquisas
nessa direção trariam contribuições óbvias para o desenvolvimento da Disciplina
e ainda estão por ser realizadas no país, certamente sendo enriquecidas pela
vasta literatura sobre corporalidade e gênero ameríndios desenvolvidas ao longo
das últimas décadas. À exceção de algumas obras e pequenos trechos que
mencionam en passanta prática homossexual entre povos indígenas no país – ainda
que pululem referências à prática em conversas informais entre etnólogos –, o
assunto ainda é, via de regra, pouco trabalhado na antropologia brasileira, no
movimento indígenae mesmo no que diz respeito às políticas públicas
empreendidas no país. Este trabalho, ainda que aponte algumas direções nesse
sentido, não busca preencher totalmente essa lacuna.
A proposta é, ao contrário, buscar recuperar justamente os aspectos que
tornaram possível, no contexto norte-americano, o surgimento de uma identidade
two-spiritpautada num discurso de tradicionalidade pan-indígena e marcadamente
política, enquanto que, no Brasil, a homossexualidade indígena ainda padece de
uma cegueira ontológica, tanto por parte dos etnólogos quanto, eventualmente,
dos próprios indígenas – questão por si só, interessante. O que se percebe,
nesses novos contextos, é a produção de novas formas de convívio e reflexões no
campo da alteridade; zonas de interstício (fronteiras) marcadas por serem
espaços de redefinições das identidades dos grupos envolvidos nesses processos,
os quais não podem ser vistos como meras contingências do contato ou
oportunismo por parte de determinados grupos.
Com isso em mente, o trajeto aqui traçado será, em primeiro lugar, situar –
ainda que brevemente – o campo de estudos sobre o tema no Brasil. Em seguida,
apresentaremos uma revisão da bibliografia disponível sobre o tema nos últimos
anos para, então, descrevermos o processo de transformações na identidade
homossexual indígena na América do Norte, culminando no surgimento do movimento
two-spirit. Finalmente, buscaremos apontar algumas considerações e direções que
venham a responder por que no Brasil a homossexualidade indígena não alcançou a
mesma visibilidade – entre analistas e indígenas – que logrou na América do
Norte.
Não coadunamos, por exemplo, com a afirmação de que os indígenas brasileiros
seriam algo que, em nossos termos, poderíamos denominar de “homofóbicos”. Em
primeiro lugar, uma assertiva nesse sentido seria obviamente problemática, por
apenas fazer sentido dentro de uma lógica de heteronormatividade coerente com o
sistema de valores ocidental. Além disso, a título de exemplo, a descrição que
Clastres traz de Krembegi, a ser apresentada na próxima seção, apenas reforça a
tese de que práticas homossexuais por si sós não parecem chocar os indígenas.
Como escreve Gilley_(2010:41), tratando do assunto, se para os indígenas
homossexuais a homofobia não é vista como um valor “tradicional”, para seus
opositores a homossexualidade também não o seria.
Uma discussão retomando as diversas categorias utilizadas para descrever as
práticas homossexuais em povos indígenas será feita adiante, mas desde já nos
parece importante estabelecermos que, embora sejamos da opinião de que a
ausência de um movimento two-spiritaos moldes da América do Norte no Brasil não
se deva a uma “homofobia nativa” dos indígenas brasileiros, temos por certo que
essa ausência seja reflexo de – e se reflita em – relações de poder específicas
estabelecidas não apenas dentro das aldeias mas no âmbito do que denominamos há
pouco de “zonas de interstício”. Há, supomos, algo que permita que a dinâmica
descrita por Gilley possa operar na América do Norte que, caso exista por aqui,
escapa aos indígenas e antropólogos.
O argumento que buscar-se-á defender nas páginas seguintes – e sigo aqui o
argumento de alguns intelectuais e escritores two-spirit–éo de que a
atualização dessa identidade não pode ser compreendida fora do contexto pós-
colonial. Assim, para compreendermos a emergência, ou não, de movimentos
indígenas homossexuais, faz-se necessário buscar entendê-los não apenas
enquanto demandas de gênero ou sobre o corpo mas, sobretudo, como fenômenos
políticos relacionados à forma como sua relação com o Estado, com os próprios
indígenas e com a sociedade envolvente se mantém. A emergência de movimentos
homossexuais a partir, muitas vezes, de um discurso tradicionalista diz-nos
algo sobre relações de poder e políticas de identidade.
As ponderações do ativista cherokee Qwo-Li Driskill vão nesse sentido:
David Eng, Judith Halberstam e Muñoz questionaram: “o que os estudos
queer têm a dizer sobre império, globalização, neoliberalismo,
soberania e terrorismo? O que os estudos queer nos dizem sobre
imigração, cidadania, prisões, bem-estar, luto e direitos humanos?”
Enquanto esses movimentos em estudos queer têm criado teorias
produtivas, elas não têm se voltado para as complexas realidades
coloniais dos povos nativos nos Estados Unidos e Canadá. Buscando
responder aos questionamentos postos acima especificamente dentro de
contextos nativos, as críticas two-spiritapontam aos estudos queer a
responsabilidade de examinar o colonialismo em curso, genocídio, a
resistência e sobrevivência das nações e pessoas nativas. Além disso,
elas desafiam os estudos queer para complexificar as noções de
nacionalismo e diáspora ao prestar atenção às circunstâncias
específicas das nações indígenas para as bases territoriais nas quais
Estados Unidos e Canadá têm colonizado. Para levar essas questões
além, gostaria de perguntar o que as críticas two-spiritpodem nos
dizer sobre esses mesmos temas. Além disso, o que as críticas two-
spiritpodem nos dizer sobre nacionalidade, diáspora, colonização e
descolonização? O que elas podem nos dizer sobre nacionalismos
nativos, tratados de direitos, cidadania e não cidadania? O que elas
podem nos dizer sobre internatos, biopirataria, o Allotment Act,o
Removal Act,o Relocation Act,eo Indian Act? Como elas podem informar
nossa compreensão dos papéis da misoginia, homofobia, transfobia e
heterossexualidade na colonização? O que elas têm a nos dizer sobre
restauração da linguagem nativa, conhecimento tradicional e
sustentabilidade? O que as críticas two-spiritpodem nos ensinar sobre
sobrevivência, resistência e continuidade? (Driskill,_2010:86-87,
tradução livre).
Assim, nosso fio condutor será vislumbrar justamente o que o ativismo
homossexual indígena nos permite perceber sobre as relações de poder subsumidas
às políticas indigenistas e aos movimentos indígenas. Vejamos.
OLHARES SOBRE HOMOSSEXUALIDADE INDÍGENA NO BRASIL
É relativamente bem conhecido o capítulo intitulado “O arco e o cesto”, em A
Sociedade contra o Estado, no qual Pierre Clastres reflete sobre Krembegi, um
índio Guayaki homossexual. Esse interessante personagem, encontrado por
Clastres durante seu período de campo no Paraguai, na década de 1960, era, nos
dizeres do autor,
na verdade um sodomita. Ele vivia com as mulheres e, à semelhança
delas, mantinha em geral os cabelos nitidamente mais longos que os
outros homens, e só executava trabalhos femininos: ele sabia “tecer”
e fabricava, com os dentes de animais que os caçadores lhe ofereciam,
colares que demonstravam um gosto e disposições artísticos muito
melhor expressos do que nas obras das mulheres. Enfim, ele era
evidentemente proprietário de um cesto [em contrapartida ao arco,
epítome da masculinidade] [...]. Esse pederasta incompreensível vivia
como uma mulher e havia adotado as atitudes e comportamentos próprios
desse sexo. Ele recusava, por exemplo, tão seguramente o contato de
um arco como um caçador o do cesto; ele considerava que seu lugar
natural era o mundo das mulheres. Krembegi era homossexual porque era
pane[ou seja, tinha azar na caça]. [...] para os próprios Guayaki ele
era um kyrypy-meno(ânus-fazer amor) porque era pane. (Clastres,_2003:
126)
O autor lhe reservaria ainda um capítulo em outra obra, Crônica dos Índios
Guayaki, intitulado “Vida e Morte de um Pederasta”, no qual parte do argumento
acima fica mais claro:
Homem=caçador=arco; mulher=coleta=cesta: dupla equação cujo rigor
regula o curso da vida Aché. Terceiro termo, não há, nenhum terceiro-
espaço para abrigar os que não são nem do arco nem da cesta. Cessando
de ser caçador, perde-se por isso mesmo a qualidade de homem, vira-
se, metaforicamente, uma mulher. Eis o que compreendeu e aceitou
Krembegi; sua renúncia radical ao que é incapaz de ser – caçador –
projeta-o de imediato do lado das mulheres, ele está em casa entre
elas, ele se aceita mulher. [...] A lei maior com que se medem todas
as sociedades é a proibição do incesto. Krembegi, porque é kyrypy-
meno, acha-se no exterior dessa ordem social. Vê-se então cumprir-se
até seu termo final a lógica do sistema social ou, o que dá no mesmo,
a lógica de sua inversão: os parceiros de Krembegi são seus próprios
irmãos. “Picha kybai(subentendido kyrypy-meno) meno-iã: um homem
kyrypy-menonão faz amor com seus aliados”. Injunção exatamente
contrária àquela que rege as relações entre homens e mulheres. A
homossexualidade não pode ser senão “incestuosa”, o irmão sodomiza o
irmão e, nessa metáfora do incesto, confirma-se e reforça-se a
certeza de que precisamente o incesto não poderia ser cumprido (o
verdadeiro: aquele de um homem e de uma mulher) sem pôr à morte o
corpo social. (Clastres,_1995:212-216)
Interessante notar que, apesar de surgirem na literatura antropológica
brasileira algumas referências à figura de Krembegi (como por exemplo Barbosa,
2004; e Stolze_Lima,_2011); isso ocorre em autores que buscam discutir aspectos
gerais da obra de Clastres, sem que seja dada, na maioria dos casos, uma
atenção mais detida ao que postula o autor nos trechos citados acima no tocante
especificamente à homossexualidade indígena–o que particularmente causa
estranheza, dadoo foco na corporalidade e na formação da pessoa ameríndia na
antropologia brasileira das últimas décadas.
Aliás, trata-se de dizer claramente que a temática “homossexualidade indígena”
não foi tratada mais intensa e extensamente pela etnologia brasileira, na mesma
proporção em que se deu o acúmulo de conhecimento (e teorias) sobre povos
indígenas no país – ainda que surjam, aqui ou lá, menções a práticas em algumas
etnografias, como Gomes_(1956), Mélo_(1973), a coletânea organizada por Kenneth
Kensinger, em 1984; por exemplo. Mais recentemente temos o capítulo escrito por
Mott na coletânea intitulada “Sexualidade e saúde indígena”, organizada por Ivo
Brito, no qual resgatam-se diversas fontes seiscentistas com referências à
temática.
Contudo há, na bibliografia disponível sobre a temática, um trabalho que pode
representar um bom ponto de partida. Trata-se de texto recentemente publicado
na Revista de Antropologia, sobre as “vivências e valores referentes aos
relacionamentos homossexuais de pessoas das etnias Guarani Nhandeva, Kaiowá e
Terena, na região de Dourados, Mato Grosso do Sul” (Cancela_et_al.,2010:199).
Os autores, após longa discussão sobre seu percurso metodológico, realizam um
levantamento da escassa literatura sobre o tema, fazendo referência aos
escritos de Mott (que retomarei no parágrafo a seguir), Clastres, já citado
aqui, e ao livro de Trevisan_(1986) – no qual ele traça algumas considerações
sobre práticas homossexuais entre os Krahó. Para Cancela et al., há nessa
literatura uma perspectiva de homossexualidade indígena enquanto algo aprendido
a partir dos não-indígenas: a homossexualidade seria, portanto, “uma
experiência afetivo-sexual anômala advinda do pós-contato, como uma expressão
colonialista da economia de corpos e desejos controláveis pelo dominador”
(2010:217). A partir daí, os autores trazem os percursos de dois entrevistados,
Sebastião e Raimundo, identificados como homossexuais, concluindo seu artigo
com a afirmação de que este tema mereça maiores aprofundamentos e pesquisas
posteriores. O texto assim se divide entre o relato da experiência etnográfica
e a história de vida desses dois personagens, sem que haja um maior
aprofundamento na análise, em si, das categorias que os próprios autores
trazem.
Gostaria, porém, de retroceder no texto de Cancela et al., em particular em sua
análise sobre o termo tibira(2010:212ss.). Segundo os autores, Mott associaria
esse termo à “presença de ‘práticas homossexuais’/‘índios gays’/‘índios
homossexuais’ entre os indígenas”, sendo que entre os Tupinambá os índios
gaysseriam chamados de tibirae as lésbicas de çacoaimbeguira. A expressão advém
de tevi(e suas possíveis variações), palavra que os povos de línguas tupi-
guarani da região usam para referir-se às nádegas (Canese_e_Alcaraz,_2000).
Contudo, o excelente trabalho de Chamorro sobre a corporalidade Guarani nos
trará novas informações. Escreve a autora que
La homosexualidad masculina es registrada por Montoya como Ava aky,
hombre no maduro, que em la jerga castellana equivale a “amujerado”.
Otra denominación es Ava kuñaeko, “hombre com modos de mujer”. Entre
los tupinambá, la práctica de la homosexualidad era aparentemente una
conducta normal. Los indios-hembra, según el estudio de Ronald
Raminelli montaban tiendas públicas para servir como prostitutas. La
expresión che atukupe rupi che moangaipa, “pecó conmigo por detrás”,
puede ser tanto una referencia a la práctica de sexo anal entre
heterosexuales u homosexuales masculinos. Ya kuimba’e ojoehe ojomenõy
kuimba’e oñomenõse refieren al acasalamiento entre varones, traducido
por Montoya como “pecado nefando”. Tevi, “ano”, es otro término en
base al cual se denomina la homosexualidad masculina y femenina, como
en ava tevíro, “hombre somético”, ambotevíro, “lo hago un somético”,
che mbotevi, me torna somético, y kuña tevíro, mujer
somética.Curiosamente, Gabriel Soares, entre otros, registró que el
término tibiraera aplicado a líderes espirituales que siendo hombres
“servían de mujer” en los actos sexuales. […] Según Ronald Raminelli,
algunas mujeres “esquivaban contactos carnales con los hombres,
viviendo un estricto voto de castidad. Dejaban, por consiguiente, las
funciones femeninas y pasaban a imitar a los hombres, ejerciendo los
mismos oficios de los guerreros: ‘Usan los cabellos cortados de la
misma manera que los machos, y van a la guerra con sus arcos y
flechas’. Cada hembra guerrera poseía una mujer para servirla, ‘con
quien dice que está casada, y así se comunican y conversan como
marido y mujer’. (Chamorro,_2009: 237-238, ênfases nossas)
Os trechos negritados acima em nada lembram a descrição que os autores
anteriormente citados trazem da homossexualidade entre indígenas no Brasil.
Clastres traz Krembegi como síntese do antissistema Guayaki, enquanto Cancela
et al.deixam claro, em seu texto, como parte da literatura e dos próprios
entrevistados entende essa prática como algo advindo do contato, indo ao
encontro da reportagem da Folha de S. Paulo, com a qual abrimos este trabalho.
Entretanto, o trecho acima traz uma série de referências a uma realidade que
simplesmente não aparece na etnologia brasileira, no tocante ao papel
espiritual desses indivíduos – ao contrário das inúmeras referências ao tema no
contexto norte-americano. É o que veremos a seguir.
HOMOSSEXUALIDADE INDÍGENA NA AMÉRICA DO NORTE
A literatura acumulada a partir do contexto etnográfico norte-americano pode
nos apontar desafios e direções às quais, dada a parca produção acadêmica sobre
o tema produzida sobre povos indígenas no Brasil, não temos voltado a devida
atenção. Mais que uma vasta produção sobre o tema, o contexto norte-americano
revela também vários textos escritos pelos próprios indígenas, como alguns dos
que veremos adiante.
No que tange à produção bibliográfica, da década de 1980 até aqui inúmeros
livros foram escritos sobre o tema, revelando uma produção relativamente
consolidada ao longo dos últimos trinta anos: The Spirit and the Flesh: Sexual
Diversity in American Indian Culturefoi escrito por Walter Williams, em 1986.
Vinte anos depois, o mesmo autor editaria Two-Spirits: A Story of Life with the
Navajo, um livro de ficção histórica ambientado na década de 1860. Outro livro
– Men as Women, Women as Men: Changing Gender in Native American Cultures,
publicado em 1998, escrito por Sabine Lang – explora as diversas atitudes das
diferentes culturas indígenas norte-americanas frente aos “homens-mulheres” e
“mulheres-homens”, à luz das perspectivas de gênero dessas sociedades,
incluindo mitologias nativas. A mesma autora virá a participar da edição,
juntamente com Sue-Ellen Jacobs e Wesley Thomas do livro Two-Spirit People:
Native American Gender Indentity, Sexuality and Spirituality(1997). O livro,
que inclui vários de seus 21 capítulos escritos por indígenas autoidentificados
como “two-spirit”, busca situar os vários aspectos da discussão relacionados ao
tema até então, buscando situar conceitos como “berdache”, “two-spirit” e
homofobia em povos nativos, por exemplo.
Outro autor que se destaca pela produção sobre o tema é o ativista Will Roscoe.
Em 1984 ele é chamado pela organização Gay American Indian para coordenar um
projeto intitulado The History Project of Gay American Indians, que culminaria,
em 1988, com a publicação do livro Living the Spirit: A Gay American Indian
Anthology. O livro é um compêndio de textos (inclusive poemas e pinturas) de
indígenas das mais diversas etnias (Sioux, Mohawk, Navajo, entre outros)
dividido em duas partes: “Artists, Healers and Providers: The Berdache
Heritage” e “Gay American Indians Today: Living the Spirit”. Apesar de haver
sido escrito antes da adoção do termo two-spirit, o livro já deixa claro, desde
seu prefácio (escrito por Randy Burns, indígena Paiute, que funda em 1975
juntamente com Bárbara Cameron, uma Lakota Sioux, a associação Gay American
Indian, primeira do gênero nos Estados Unidos), a agenda de lutas do movimento
daquele momento para frente:
Indígenas gayse lésbicas eram especiais em várias tribos. Temos
raízes aqui na América do Norte. Ao mesmo tempo, os gaysnativo-
americanos enfrentam uma dupla opressão– tanto racismo quanto
homofobia. [...] Como gays, nossas necessidades de saúde não são
levadas a sério pelo governo. Como indígenas, percebemos
frequentemente que os programas de AIDS negligenciam importantes
diferenças culturais e falham em atingir qualquer povo indígena.
Muitas agências sequer possuem estatísticas para os índios que
atendem, ou nos incluem na categoria “outro/desconhecido”. (Roscoe,
1988:2-5; tradução livre; ênfases no original)
Assim, alguns dos principais pontos que viriam a marcar o movimento two-
spiritseriam, justamente, a luta contra o racismo e homofobia, a busca por
políticas eficazes de combate à AIDS, a articulação de uma rede de movimentos
two-spirite, finalmente, o fortalecimento de uma identidade ligada a um
discurso tradicionalista pan-indígena.
É necessário entender, no tocante à AIDS, que até 1990 o Centro de Controle de
Doenças (CDC) dos Estados Unidos ainda não tinha uma categoria separada para
indígenas, tendo sido criado naquele ano o National Native American Aids
Prevention Center (NNAPC) – no siteda organização (www.nnaapc.org) há diversos
materiais voltados diretamente ao trabalho junto a indígenas two-spirit, como a
cartilha Safe and Caring Schools for Two-Spirit Youth: A Guide for Teachers and
Students. Mesmo esse material reproduz o discurso de tradicionalidade em torno
do two-spirit:
Pessoas two-spirittêm uma longa história entre os povos indígenas no
Canadá. Antes do primeiro contato com colonizadores Europeus, a
maioria dos povos indígenas reconhecia a importância dos indivíduos
two-spirite a responsabilidade especial concedida a eles pelo
Criador. Às vezes eram videntes, curandeiros ou líderes em suas
comunidades. [...] Apesar disso, o impacto da colonização tem tido
longa duração: suprimindo as tradições e papéis two-spirit e deixando
gerações de pessoas two-spiritsofrendo de várias formas de
discriminação e estigma. (Genovese_e_Rousell,_2011:2; tradução livre)
Retomando nosso levantamento da literatura two-spirit, é fácil notar como os
autores vão gradativamente assumindo a assunção de que a prática seja não
apenas tradicional, mas diretamente ligada ao mundo espiritual.
Nesse sentido, em 1991, Will Roscoe publica o livro The Zuni-ManWoman: We’wha
and the Zuni third gender role. O livro trata da vida de We’wha, um(a) lhamana
(termo traduzido como “3o gênero” ou “two-spirit”, pelos pesquisadores) Zuni,
que exercia papel de mediador(a) e embaixador(a) dos Zuni. We’wha, como bem
descreve Roscoe, foi membro de uma comissão que visitou o presidente norte-
americano Grover Cleveland, em 1886, tendo passado seis meses em Washington sem
que ninguém, inclusive o presidente, percebesse que aquela índia havia nascido
homem. Roscoe defende assim, em seu livro, que os two-spiritnão sejam apenas
homens travestidos de mulheres (ou vice-versa), mas uma síntese única entre os
dois universos, não sendo nem uma coisa, nem outra. Anos depois Roscoe
desenvolveria seus argumentos sobre terceiro gênero em seu livro Changing Ones:
Third and Fourth Genders in Native North America, publicado em 1998. No livro,
Roscoe faz um apanhado de práticas classificadas por ele como berdache(ver
sobre isso adiante) em mais de 150 etnias, mas centra seu foco de análise em
três estudos de caso: um(a) Crow que lutou na batalha de Rosebud (1876), um(a)
Navajo chamado/a Hastiin Klah e uma guerreira Crow com três esposas.
Também na década de 1990 temos a publicação do livro escrito por Richard C.
Trexler, intitulado Sex and Conquest: Gender Construction and Political Order
at the Time of European Conquest of the Americas(1995). O livro possui uma
estrutura e argumentação bastante dissonantes daquela levantada até aqui.
Trexler passa em revista, nos seus primeiros capítulos, as práticas
homossexuais na Europa mediterrânea à época da “conquista” europeia, bem como
as narrativas de cronistas (como Cabeza de Vaca, Lopez de Gomara, entre outros)
de práticas sexuais entre os nativos. Contudo, o autor argumenta que a prática
do berdache(ver adiante) teria como função servir sexualmente aos homens, de
modo a evitar o estupro de mulheres. Dessa forma, os berdachesteriam também
papel econômico e político, operando sistemas de trocas entre famílias
proporcionando jovens “noivas” temporárias aos homens jovens. O argumento,
contudo, não parece ter feito eco entre os pesquisadores – ao contrário, cada
vez mais a literatura parece dar voz às reivindicações do movimento two-spirit.
Exemplo disso é o livro editado por Lester B. Brown, intitulado Two Spirit
People: American Indian Lesbian Women and Gay Men(1997). A obra se divide em
três partes (“Identity”, “Social services” e “AIDS and American Indians”) que
são, de certa forma, resultado das preocupações do movimento two-spirità época,
como mostramos há pouco. O livro peca, contudo, por trazer em certas passagens
uma visão bastante genérica e ideologizada das sexualidades indígenas, chegando
a afirmar, por exemplo, que os indígenas norte-americanos possuem “crenças
muito simples sobre sexualidade humana e tais crenças foram baseadas em suas
experiências” (1997:7, tradução livre).
Entretanto, os livros mais recentemente organizados sobre a temática vão em
outra direção. Ao longo dos últimos anos, como veremos, surge uma literatura
mais madura sobre o tema, da mesma forma que se multiplicam os textos escritos
por indígenas two-spirit.
Dentre os livros mais recentes, merece destaque Becoming Two-spirit: Gay
Identity and Social Acceptance in Indian Country, escrito por Brian Joseph
Gilley_(2006). O livro baseia-se em cinco anos de trabalho de campo do autor
entre nativos two-spirite busca responder “por que os homens two-spirittentam
conciliar uma divisão forçada em seus mundos sociais e como eles atingem seu
senso de quem são, em meio às ideias contemporâneas de identidade e cultura
indígenas” (2006:4, tradução livre). Assim, ao longo de seus sete capítulos,
Gilley trata da criação das redes de formação e consolidação do movimento two-
spiritfrente ao movimento LGBT (majoritariamente formado por brancos) e ao
movimento indígena (marcadamente homofóbico). Dessa forma, o autor analisa esse
duplo movimento (o qual vai, como vimos, no sentido da “dupla opressão”, nos
termos de Randy Burns), descrevendo de que forma o movimento two-spiritinterage
com as comunidades nativas, confrontando a homofobia e o legado colonial. A
narrativa de Gilley, nesse sentido, descreve
como a identidade two-spiritatravessa fronteiras da sexualidade e
indianidade, ao contrastar a assimilação de “índios gays” à
“responsabilidade tradicional” two-spirità herança nativa, ou
envolvendo-se na “conscientização gay da comunidade” a fim de não
incorporar os desejos do movimento LGBT não indígena por diversidade,
mas de atrair os gaysNativos para os espaços Nativos (Morgensen,
2008:2078, tradução livre).
De fato, parte considerável da literatura mais recente sobre o tema trata não
mais (ou pelo menos não somente) de discutir a terminologia mais adequada para
a descrição do fenômeno – boa parte da literatura da década de 1990, produzida
no mesmo momento em que se (re)configuravam as redes e identidades two-
spiritgiravam, como vimos até aqui, em torno dessa questão. O movimento agora
vai, justamente, em outro sentido: em se caracterizar a assunção da identidade
two-spirittambém como um movimento anticolonial. Isso vai ao encontro de nosso
argumento, de que não se possa entender o surgimento da identidade two-
spiritsem que se compreenda, também, a dinâmica do próprio movimento indígena e
das políticas públicas voltadas para esses povos. Dessa forma, a negativa dos
indígenas two-spiritao rótulo de “gays” vai nesse sentido: mais do que o
combate à heteronormatividade, há o entendimento de que essa
heteronormatividade esteja enquadrada em um discurso e práticas colonialistas –
o movimento LGBT, dessa forma, por se construir nesse contexto, não teria
condições de representar as demandas indígenas.
Entretanto, como vimos, o movimento two-spiritpossui ainda outro desafio: a
homofobia indígena. Temos desenvolvido até aqui o argumento de que essa é a
principal diferença entre o movimento homossexual indígena brasileiro (ou a
falta dele) e o norte-americano. Enquanto aqui o fenômeno é encarado como
“vício advindo do contato”, lá o movimento two-spirittenta desconstruir essa
visão justamente reafirmando uma tradicionalidade pan-indígena subsumida a essa
prática.
Morgensen, em sua análise do livro de Gilley, argumenta nesse sentido, ao
afirmar que os two-spirit“também atravessam as fronteiras da indigeneidade –
aparência, percentual de sangue, registro – por diversas vezes marcando sua
construção ou reforçando seus efeitos marginalizantes, [...] explora[ndo] como
o embranquecimento coloca a identidade nativa em debate” (2008:2078). Ou seja,
mais do que simplesmente operar no âmbito de políticas nativas de gênero, o
fenômeno nos diz – e muito – sobre as políticas indígenas de identidade,
etnicidade, de construção da tradição e de fronteiras etc. Trata-se de buscar
sair da condição de invisível tanto no que diz respeito às demandas dos
movimentos indígenas quanto nos LGBT (cf. Gilley,_2006:5-6).
Muito do que foi dito aqui é o argumento de Morgensen, em livro intitulado
Space between Us: Queer Settler Colonialism and Indigenous Decolonization
(2011). O autor tem dedicado seus estudos à forma como o racismo e o
colonialismo estruturaram as políticas LGBT nos Estados Unidos e Canadá. Neste
livro, Morgensen trabalha justamente com a relação entre a história colonial,
do movimento LGBT e do movimento two-spirit, focando sua análise no ativismo
two-spiritenquanto movimento pela descolonização indígena.
Morgensen também participou da organização, em 2011, do livro Queer Indigenous
Studies: Critical Interventions in Theory, Politics and Literature, juntamente
com Brian Joseph Gilley, Qwo-Li Driskill (two-spiritcherokee) e Chris Finley
(membro do Colville Confederated Tribes, Washington). O livro, em suas
primeiras páginas, aponta uma série de questões as quais buscará responder:
Como uma geração anterior de estudos antropológicos e gayse lésbicos
definiam o conhecimento acadêmico sobre gênero, sexualidade e povos
indígenas? Como antigas descrições foram substituídas por décadas de
organização e escrita indígena LGBTQ2 [Gays, Lésbicas, Bissexuais,
Travestis, Transgêneros, Transexuais, Queer e Two-Spirit]? Como nós
compreendemos as culturas e políticas que os indígenas LGBTQ2 criam,
incluindo a reivindicação de identidades como fa’afafine, asegi, e
takatapui? Como a atual teoria em estudos queere indígenas informam
nosso trabalho, da promoção da teoria queerde uma “crítica sem
sujeito”, aos esforços dos estudos indígenas em centralizar os
conhecimentos indígenas e investigar criticamente o colonialismo?
(Driskill_et_al.,_2011a:2, tradução livre)
Os autores buscarão, assim, ao longo dos doze capítulos que compõem o livro,
responder a essas questões, unindo two-spirit critiquese queer indigenous
critiques(ibidem:22), por entenderem que ambas se complementem: o queerna
crítica à heteronormatividade, o two-spiritenquanto crítica ao projeto
colonial.
Na verdade, a opção por trazer aos estudos two-spirità teoria queercontém, em
si mesma, uma crítica aos usos acadêmicos do termo two-spirit– em especial após
a publicação de Two-Spirit People, em 1997, sobre o qual já tratamos. Driskill
et al.(2011:13ss) criticam o livro de Jacobs, Thomas e Lang, por ele não
refletir a mudança nos métodos de produção de conhecimento nos estudos nativos,
bem como pelo fato de que vários colaboradores do livro organizado por Jacobs,
Thomas e Lang.haverem simplesmente substituído o termo berdache(como veremos,
isso seria algo equivalente a “pederasta” ou “sodomita”) por two-spirit, como
se fossem equivalentes. Além disso, Driskill e os demais criticam o fato de
que, naquele livro, Jacobs e seus colaboradores teriam deixado em segundo plano
as contribuições dos autores indígenas, dando especial atenção aos
colaboradores acadêmicos – reproduzindo, assim, a lógica de dominação.
Dessa maneira, vários estudiosos do assunto que teriam tomado o livro de
Jacobs, Thomas e Lang como referência acabaram colocando o uso do termo two-
spiritem xeque, sem perceber que isso ia diretamente de encontro às demandas
dos ativistas two-spiritque buscavam, justamente, um termo que agregasse uma
identidade pan-indígena, mais do que – como queriam os antropólogos –
acentuasse especificidades locais e/ou culturais. Dessa forma, à medida que o
ativismo two-spiritse distanciava da academia, se aproximava da literatura e
das teorias queer, justamente pelo fato de que a
teoria queernão é um quadro de referência singular, conceitual ou
sistemático, mas sim uma coleção de compromissos intelectuais com as
relações entre sexo, gênero e desejo sexual. Se a teoria queer é uma
escola de pensamento, então ela é uma escola com uma visão bastante
heterodoxa de disciplina. O termo descreve um leque bastante diverso
de práticas e prioridades críticas: leituras da representação do
desejo pelo mesmo sexo em textos literários, filmes, música e
imagens; análise das relações de poder sociais e políticas da
sexualidade; críticas do sistema sexo-gênero; estudos de
identificação transexual e transgênero, de sadomasoquismo e de
desejos transgressivos. (Spargo,_2006:8-9)
Assim, a opção pela teoria queerno lugar da antropologia reflete um desejo – e
possivelmente a necessidade – de se obter maior visibilidade da (e na) própria
produção two-spirit, inclusive artística.
Isso nos ajuda a entender por que esse livro foi lançado em conjunto com aquele
organizado por Driskill, Daniel Health Justice (Cherokee), Deborah Miranda
(two-spiritda nação Ohlone/Costonoan-Esselen) e Lisa Tatonetti (2011b),
intitulado Sovereign Erotics: A Collection of Two-Spirit Literature. O livro
pretende dar continuidade aos propósitos de Living the spirit, consistindo
basicamente numa coletânea de textos de autores two-spirit. À medida que esses
autores vão se aproximando da teoria queer e se distanciando do debate
antropológico sobre a questão, é notável como gradativamente os textos sobre o
tema passam a figurar em coletâneas organizadas por indígenas e/ou
pesquisadores da área de literatura. Exemplo disso é o número do periódico GLQ:
A Journal of Lesbian and Gay Studiesintitulado “Sexuality, Nationality,
Indigeneity: Rethinking the State at the Intersection of Native American and
Queer Studies”, organizado em 2010 por Daniel Health Justice (um dos
organizadores da obra anterior), em conjunto com Bethany Schneider e Mark
Rifkin. Apesar de alguns artigos tratarem de heteronormatividade e colonialismo
em uma perspectiva histórica, parte considerável do volume é composto por
histórias de vida e análises de obras literárias e filmes, partindo da teoria
queer.
Além dessas obras, mais uma reforça a recente aproximação dos estudos two-
spiritcom a teoria queer(até aqui, foram pelo menos quatro obras nos últimos
dois anos, como vimos): o livro de Mark Rifkin intitulado When did Indians
become Straight? Kinship, the History, and Native Sovereignty.Como o autor
relata, seu livro
demonstra como o imperialismo americano contra os povos nativos ao
longo dos últimos dois séculos pode ser compreendido como uma forma
de torná-los “hetero” [straight, no original, cujo significado é
tanto de “heterossexual” quanto “em ordem”, “correto”, “direito”] –
ao inserir os povos indígenas em noções anglo-americanas de família,
lar, desejo e identidade pessoal. (Rifkin,_2011:9, tradução livre)
Como vemos, até aqui, mais uma vez surge a questão das identidades indígenas
fora do esquema heteronormativo colonial como uma forma de resistência
política. Contudo, Rifkin oferece-nos em seguida uma explicação de por que o
foco dos estudos sobre a temática se voltou, gradativamente, para as obras
artísticas desses indígenas, a partir da teoria queer: “Seus trabalhos
enfatizam o papel desempenhado pela ‘sexualidade’ nativa em formas tradicionais
de identificação política e tomada de posição enquanto também localizam a
violência em curso nos EUA em suas tentativas de traduzir a vida social nativa
em termos euro-americanos” (2011:9)
Dessa forma, o autor trata em seu livro dos textos escritos por nativos a
respeito das mudanças na política indigenista nos Estados Unidos entre os
séculos XIX e início do XX, comparando-os com os textos de autores
queercontemporâneos – nativos ou não. No percurso, alguns conceitos como
soberania, heteronormatividade, parentesco e raça serão desenvolvidos a partir
das teorias queer. Como Gilley irá notar, a análise de Rifkin demonstra a
“intrusão capilar de ideias assentadas nos conceitos fundamentais sobre os
quais muitas atividadesa nível nacional baseiam suas reivindicações por
soberania. Dessa forma, o autor nos lembra que a soberania é um conceito
seletivo, excludente e hétero” (Gilley,_2012:572; tradução livre). A questão,
dessa forma, passa a ser novamente (ainda que não necessariamente à luz da
Antropologia) a relação política mantida entre o Estado – desde sua formação
até os dias de hoje – e os povos indígenas, bem como a própria trajetória que
tornou possível a formação de uma identidade two-spirit vis-à-visa própria
trajetória do movimento indígena.
Trata-se, como vimos, de algo mais além da assunção de uma identidade
individual pautada em hábitos sexuais, mas de uma demanda anticolonial pautada
em um discurso tradicional pan-indígena. O que os vários escritos aqui trazidos
nos permitem perceber é que o eixo de discussões se desloca do conceito de two-
spiritem si (em princípio visto apenas como uma alternativa politicamente
correta para berdache) para a expressão dessa identidade, já assumida e
ostentada. Nesse sentido trataremos de, na próxima seção, expor brevemente os
caminhos que foram trilhados até chegar-se ao two-spiritpara depois retornarmos
com algumas considerações em face ao que foi exposto até o momento.
DE MUREJADOA TWO-SPIRIT: EMERGÊNCIA DE UMA IDENTIDADE
Nesta seção apresentaremos brevemente alguns dos termos até aqui utilizados –
como two-spirite berdache, por exemplo – e de que maneira as mudanças de
terminologia corresponderam, quase sempre, a uma mudança na perspectiva das
práticas homossexuais indígenas na América do Norte cada vez mais próxima de
uma crítica ao colonialismo. Dessa maneira, em um primeiro momento temos termos
como mujeradoe joyas, passando a berdache, gay, terceiro gênero e, finalmente,
two-spirit. Deixo claro desde já que os termos não são, de forma alguma,
sinônimos entre si: sua compreensão passa necessariamente pela compreensão do
momento pelo qual os povos indígenas passavam frente ao agente colonial e, mais
à frente, em relação aos movimentos LGBT e indígena.
Com esse intuito tomaremos como ponto de partida o artigo de Roscoe publicado
no GLQem 19951. Nele, o autor parte de uma pergunta aparentemente simples,
feita por um índio Zuni quando o autor passava pelo Novo México. Sabendo que
Roscoe alguns anos antes havia publicado o livro sobre We’wha, Alex Seotewa,
liderança Zuni, lhe pergunta: “Você acha que We’wha era homossexual”? O
questionamento serve como desencadeador da análise, feita por Roscoe, sobre até
que ponto a expressão “homossexualismo” se adequa à descrição do que era
We’wha, por exemplo. Mais que isso, a esta segue-se, inevitavelmente, outra
pergunta: os indígenas homossexuais hoje podem evocar uma identidade two-
spirit? A questão é, por si só, complexa e depende de desnaturalizar a própria
noção de homossexualidade como compreendida no ocidente, enquanto categoria que
somente viria a surgir no século XIX, como bem demonstra Foucault em seu
primeiro volume de História da Sexualidade.
Se nosso próprio conceito de homossexualismo não é unívoco, por que as práticas
dos povos indígenas, compreendidas por nós, hoje, como “homossexuais”, seriam?
Roscoe fará assim um levantamento da vasta literatura de cronistas com
referências ao tema – nesse sentido, recuperar os escritos de Luiz Mott no
contexto brasileiro poderia ser bastante interessante, em um estudo comparativo
– a fim de mostrar como o uso de diversas categorias em variados momentos da
colonização norte-americana revela uma heterogeneidade nas práticas levadas a
cabo pelos agentes coloniais.
Da mesma forma, os povos indígenas também demonstram dinamismo na forma como
classificam, eles mesmos, as práticas homossexuais. Um exemplo disso é dado por
Roscoe, a partir de sua própria experiência, ao afirmar (1995:198) que em 1987
a expressão Zuni lha’maou lhamanaainda era utilizada para referir-se a pessoas
como We’Wha, enquanto um novo termo – lhalha– era utilizado para referir-se a
homossexuais. Anos depois, em 1993, o autor soube que ‘e’tsawak’i(garota-
garoto) era usado para referir-se aos two-spirittradicionais, enquanto
lha’mapassou a ser utilizado para designar “gay”. O autor sintetiza seu
argumento da seguinte forma:
De fato, uma revisão da extensa literatura de contato – relatos de
exploradores europeus, comerciantes, missionários e assim por diante
– sugere que os intercâmbios culturais entre os conceitos nativos e
branco de sexualidade seguiram conforme os modelos de Sahlins
previam. Os papéis two-spirit eram tanto reproduzidos
quantotransformados.No que se segue, virei esboçar essa “conjuntura
da estrutura” em dois cenários distintos: na fronteira norte-
americana, onde europeus e two-spiritsse encontraram cara-a-cara; e
na Europa, onde aqueles que liam os relatos sobre two-spiritscriaram
um vasto discurso sobre eles que eventualmente contribuiu para os
discursos médicos e políticos sobre homossexualidade no final do
século XIX. (Roscoe,_1995:197, tradução livre, negrito nosso, itálico
no original)
Neste ponto, uma coisa chama a atenção: o fato de que em diversos relatos os
two-spiritsdescritos mantêm o papel de mediadores. A noção, na etnologia
brasileira, não é tão estranha assim. Remeto aqui à clássica análise de Roberto
DaMatta sobre o mito timbira de Auké,eà sua assunção de que, nos mitos, os
jovens e as mulheres exerçam, note-se, papel de mediadores: “a categoria mulher
parece ficar situada numa área onde é possível a sua conexão com o plano da
natureza. A categoria mulher, portanto, estaria situada entre homens e animais,
donde sua ambiguidade, isto é, sua capacidade de, em certas circunstâncias,
organizar ou desorganizar relações sociais” (DaMatta,_1970:94).
Deixo o trecho acima a título de provocação para pesquisadores interessados em
investigar de que forma a homossexualidade indígena pode se articular com as
perspectivas indígenas de gênero à luz de suas cosmologias, noções de pessoa,
corpo, parentesco etc. É possível que o homossexual (ou, pelo menos, o
homossexual masculino) acabe incorporando a ambiguidade feminina ou, por outro
lado, que seja, ele mesmo, um elemento ambíguo.
Alguns textos citados anteriormente sobre Krembegi deram já alguns passos nessa
direção, mas, para os fins deste trabalho, especificamente, nos interessam as
eventuais consequências desse papel de mediador assumido pelo two-spirit no que
diz respeito às relações interétnicas. Lembremos, novamente, do que diz
LaFortune respondendo a Barack Obama, no encontro em Tombstone: “nós sempre
fomos conhecidos como líderes entre nossas culturas”. O papel, justamente, que
figuras como We’wha (Zuni, 1850-1896) e Hastíín Klah (Navajo, 1867-1937)
desempenham reforça nosso argumento de que a compreensão da assunção da
identidade two-spiritpassa, necessariamente, pela compreensão das políticas
interétnicas – por isso, voltemos a Roscoe.
O autor dedica boa parte de seu artigo (1995:201ss) a fazer uma exegese dos
termos utilizados por cronistas e autores diversos (padres, comerciantes,
aventureiros etc.) para referirem-se à homossexualidade indígena, por entender
que esses termos deem pistas sobre a influência das categorias nativas e
europeias umas sobre as outras. Ele destaca num primeiro momento que esses
termos são quase sempre derivados da palavra francesa berdache, da espanhola
mujer, do inglês hermaphroditee da palavra de origem nativa, joya. Vejamos o
que ele nos diz sobre cada uma dessas categorias.
Berdache(e suas variações, como la berdach, berdash, bundosh, broadashetc.)
seria utilizado desde o século XVII, tendo sido adotado por vários
antropólogos, como vimos, para referir-se à prática. O termo provém do persa
para prisioneiro ou escravo jovem, sendo incorporado por diversas línguas
europeias vindo a significar o parceiro mais jovem em uma relação homossexual
com acentuada diferença de idade. Aos poucos o termo caiu em desuso na Europa,
continuando a ser utilizado nas colônias e, com a etimologia da expressão se
perdendo, os estudiosos seguiram utilizando-o.
Jáa expressão mujerado, bem como suas variações (hombres mugeriegos, amejerado,
mojara, mujereroetc.), pode ser traduzida como “afeminado”, sendo utilizada
principalmente entre os séculos XVII e XVIII, chegando contudo até o século XX.
Outro termo ao qual nos apresenta Roscoe é joya, utilizado entre o final do
século XVIII e início do XIX, relacionado etimologicamente a povos nativos da
Califórnia Central. Como o autor aponta, apesar dessa expressão ser tributária
de um termo nativo, ainda assim é possível perceber em seu uso relações de
poder. Segundo ele (ibidem, 203), em censos promovidos por órgãos oficiais ou
missões, o termo joyaaparecia ao lado de homens que realizavam ações usualmente
femininas, como a confecção de potes, por exemplo. Nesse caso, seus nomes eram
algo como “Juan Amujerado”, refletindo justamente a perspectiva europeia de
configurar os two-spiritscomo desviantes, marginais – o mesmo se pode dizer
quando do uso da expressão hermaphroditee suas variações, utilizadas entre os
séculos XIX e XX, sendo já reflexo de uma perspectiva classificatória pautada
em termos médicos, como veremos adiante.
Relevante, para os fins deste trabalho, é a pergunta feita por Roscoe nesse
momento de seu texto: “Qual foi o impacto desses termos nos conceitos de
sexualidade e gênero mantidos pelos nativos e europeus que deles se
utilizavam?” (ibidem:204). Um dos efeitos, sustenta o autor, seria a percepção
de que cada um desses casos de variação de gênero seria parte de um problema
“indígena” genérico, mas apenas característico deste ou daquele grupo. Isso
criou uma situação interessante:
Quando os nativos começaram a se comunicar com os europeus, muitos
deles já tinham um conceito pan-tribal da condição de terceiro
gênero. De fato, a assunção de que os papéis de terceiro gênero era
um fenômeno universal levou alguns nativos a buscar – e encontrar –
tais papéis em pessoas do mundo branco. Na década de 1930, os velhos
Navajo comentaram com o antropólogo Willard Hill, “deve haver muito
mais travestis [nádleehé] entre os brancos que entre os Navajo porque
tantas mulheres brancas usam calças” (ibidem:205, tradução livre,
ênfase nossa).
Entretanto, não foram apenas os indígenas que gradativamente tomavam
consciência da prática enquanto fenômeno, pela disseminação desses termos
genéricos: o discurso europeu também. Dessa forma, em um primeiro momento o
discurso europeu produziu descrições pautadas em uma perspectiva moral da
diversidade cultural (a prática, condenada pela Igreja, era vista como clara
prova da inferioridade dos nativos); em seguida, da monstruosidade (a partir do
uso de categorias como hermafroditismo e sodomia); um discurso histórico-
filosófico; e, no século XIX, a partir das Ciências Sociais e da Medicina – com
autores como Cornelius de Pauw, por exemplo, questionando sobre as eventuais
causas do hermafroditismo em nativos americanos (Roscoe, 212ss). Dessa forma,
Roscoe consegue fazer de forma bastante convincente uma exegese dos diversos
autores–e seus usos– que se debruçaram sobre a problemática, traçando um
roteiro detalhado desde as descrições do século XVI até as mais recentes,
demonstrando como essas perspectivas, polívocas de ambos os lados, entrecortam-
se continuamente. Como aponta o autor, “não há papel two-spirit ‘puro’ nem
categoria ocidental ‘pura’ de homossexualidade; após cinco séculos de contato,
uma se refere à outra” (ibidem:217).
As diversas categorias em jogo – berdache, gay, mujeradoetc. – são produtos
híbridos de um processo histórico, frutos de interações em uma zona de
fronteira com símbolos e identidades sendo constantemente ressignificados e
renegociados. Exemplo claro disso é, justamente, a assunção da identidade two-
spiritpor indígenas norte-americanos a partir, principalmente, de 1990.
Naquele ano, por ocasião da Third Native American/First Nations Gay and Lesbian
Conference, em Winnipeg, estudiosos, indígenas e ativistas resolveram
substituir o termo berdachepor two-spirit– preferência ratificada quando da
realização pela American Anthropological Association, em 1993, da conferência
Revisiting the North American Berdache, Empirically and Theoretically.Contudo,
a escolha pela expressão two-spirit, proveniente da expressão ojibwa niizh
manitoagpossui implicações-chave para a investigação a que me proponho.
Como escrevem Jacobs et al.,
A decisão pelos nativos americanos (indígenas dos Estados Unidos) e
daqueles das Primeiras Nações (povos indígenas do Canadá) que
participaram da conferência de Winnipeg e da seguinte em usar a
identidade two-spiritfoi deliberada, com uma clara intenção de se
distanciar dos não indígenas gayse lésbicas. Parece-nos uma
coincidência interessante que esse distanciamento marcado tenha
acontecido num momento em que os governos dos Estados Unidose Canadá
estavam apenas começando a responder à epidemia da AIDS na comunidade
gay. Muitos homens nativo-americanos urbanos tentaram voltar para
casa em suas reservas para passar seus últimos anos com suas famílias
antes de morrer por complicações da infecção pelo HIV. Cada um de nós
ouviu histórias pessoais de homens que não eram bem-vindos em “casa”
porque eles tinham “doença de gaybranco” e que homossexualidade não
era parte da cultura tradicional. Usando a palavra two-spirit,
enfatiza-se o aspecto espiritual da vida e minimiza-se a
personahomossexual (1997:3, tradução livre).
A fim de entender esse movimento parece importante situarmos que tipo de
articulação tornou possível, dentro do movimento homossexual indígena norte-
americano, sua própria existência.
Roscoe_(1998:100ss) traça um panorama dos caminhos que levaram a essa
articulação – advinda tanto das lutas pelos direitos homossexuais em San
Francisco (Califórnia) quanto das lutas indígenas na América do Norte, bem
como, posteriormente, pelas demandas surgidas com o aparecimento da AIDS.
Roscoe situa como marco dessa luta justamente a fundação, como apontamos
anteriormente, da GAI (Gay American Indian), em 1975. Segundo os índios por ele
ouvidos ao longo de seu trabalho, a articulação que levou à criação dessa
organização apenas foi possível após a ocupação de Alcatraz por ativistas
indígenas, em novembro de 1969: o movimento Red Powerdeu aos grupos indígenas –
inclusive aqueles marginalizados, como os homossexuais – coragem para
organizarem-se e enfrentarem o aparato pós-colonial. Até então,
os indígenas homossexuais eram vistos como párias, mesmo pelos indígenas; e
como resultado da ação colonial (que incluía práticas como conversão forçada,
integracionismo sexual, corte de seus cabelos como forma de humilhação e,
eventualmente, assassinatos). O discurso que então as lideranças indígenas
proferiam era, majoritariamente, no sentido de que a homossexualidade refletia
todas as atitudes encaradas pelo discurso heteronormativo ocidental de que a
homossexualidade corresponderia à depravação. O que o editor da revista
indígena Akwesasne Notesescreve ao jornal gay RFDem larga medida lembra a
reportagem com a qual abrimos este artigo: “Não queremos receber suas
publicações, pois elas encorajam um tipo de comportamento o qual nossos anciãos
não consideram normal e é uma decadência de nossa forma de vida” (Roscoe,_1998,
102).
Assim, como Roscoe descreve nas páginas seguintes, entre as décadas de 1970 e
início de 1980 a GAI cresceu em número de participantes sendo, no entanto, até
1985, a única associação do gênero na América do Norte. Contudo, em 1987, um
dos fundadores do grupo foi diagnosticado com AIDS, sendo o primeiro filiado a
receber o diagnóstico. A comunidade indígena homossexual tomara consciência de
que a doença não era restrita aos não indígenas, sendo que a GAI funda o
Indians AIDS Project, em 1988, para atendimento dos indígenas na região de San
Francisco. Da mesma forma, é criada em 1987 a American Indian Gays and Lesbians
(AIGL) em Minneapolis, com vistas a criar uma infraestrutura, baseada nos
valores tradicionais, aos nativos gays, chegando a representar membros de até
30 diferentes etnias. Mais tarde o grupo participaria da formação do Minnessota
American Indian AIDS Task Force, do National Indian AIDS Media Consortium,
entre outros. Outra organização, fundada em Toronto em 1989 (a Gays and
Lesbians of the First Nations) também viria a trabalhar com assuntos
relacionados a HIV/AIDS, vindo a ter, em 1992, mais de 300 membros ativos de 16
povos Inuit e indígenas, vindo inclusive a patrocinar o Two Spirits Softball
Team. Também em 1989 foi fundado o WeWah and BarCheeAmpe na cidade de Nova
Iorque, também voltado para assuntos relacionados à AIDS, participando da
implantação do projeto American Indian Community House, em 1990, e, em 1991,
sediando a Two spirits and HIV: A Conference for the Health of Gay and Lesbian
Native Americans (Roscoe,_1998:103). O autor aponta ainda outras organizações
fundadas nesse período: a Nichiwakan, em Winnipeg; a Tahoma Two Spirits, em
Seattle; a Vancouver Two-Spirits; e a Nations of the Four Directions, em San
Diego, além de outras em Washington DC e Nashville.
Uma das dificuldades encontradas por estas organizações, já mencionada aqui,
foi a completa falta de dados concernentes à AIDS entre indígenas, o que
somente viria a mudar com a criação do National Native American AIDS Prevention
Center, citado aqui. Em 1997 havia 1.677 casos oficiais de índios infectados
com AIDS nos Estados Unidos –a título de comparação, havia no Brasil em 2001,
conforme dados da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), 50 indígenas com
diagnóstico confirmado de AIDS (Brito,_2011).
Contudo, como resultado indireto desse percurso, Roscoe_(1998:107-108) sinaliza
que a luta contra a AIDS significou também a luta contra a homofobia, tornando
possível que vários indígenas homossexuais despontassem como lideranças, bem
como vários índios diagnosticados com a doença retornaram às suas comunidades.
Mais que isso: crescia também a consciência de tradições de gêneros
alternativos, não apenas pela memória oral, mas livros que buscavam retratar
essas realidades – como Living the Spirite The Spirit and the Flesh, ambos
tratados aqui. Assim, as organizações homossexuais indígenas começaram a ter
como bandeira de luta recuperar o papel “tradicionalmente sagrado” dos two-
spiritsem suas culturas (1998:108-109).
Em 1988 a AIGL organiza o The Basket and the Bow: A gathering of Lesbian and
Gay Native Americans, em Minneapolis – chamo a atenção para o nome do encontro,
se comparado ao clássico capítulo escrito por Clastres sobre o assunto. O
encontro daria origem aos encontros internacionais que ocorrem anualmente,
reunindo two-spirits do Canadá e Estados Unidos. Todos esses acontecimentos
levaram a uma redescoberta das práticas então descritas como berdache, sendo
que, por motivos já expostos aqui, o movimento resolve abraçar o termo two-
spirit, com organizações como a Gays and Lesbians First Nations, de Toronto,
mudando seu nome para 2-Spirited People of the 1st Nations.
Nas palavras de Sue Beaver (Mohawk):
Acreditamos que existam interiormente espíritos tanto de homens
quanto de mulheres. Nós nos achamos muito privilegiados. O Criador
fez seres muito especiais ao criar os two-spirits. Ele deu a certos
indivíduos dois espíritos. Somos pessoas especiais, e isso foi negado
desde o contato com os europeus (...). O que os heterossexuais obtêm
no casamento, nós alcançamos dentro de nós mesmos. (Roscoe,_1998:109,
tradução livre)
Na verdade, mais do que a adoção de termos como gay, gênero alternativo,
berdacheetc., o termo two-spiritrecuperava um papel tradicional e, mais que
isso, sagrado – diferentemente dos demais termos. Além disso, ao fazê-lo,
tomava-se uma postura anticolonial, por não mais aceitar as categorias
ocidentais de classificação de determinadas práticas: a identidade two-
spiritassim tornava-se símbolo de uma identidade pan-indígena.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Recuperemos até aqui alguns dos pontos levantados. Inicialmente, temos um
fenômeno que ao longo da história colonial sempre foi reprimido e
invisibilizado: as práticas homossexuais indígenas em suas mais diversas
formas. Contudo, como também pudemos perceber, mais que isso, tais práticas
devem ser compreendidas enquanto processos, sendo que ao longo dos últimos
séculos as diversas perspectivas sobre essas práticas foram se modificando, na
medida em que se transformavam e se rearticulavam (internamente, inclusive)
conceitos como indianidade, identidade, masculinidade, feminilidade,
autenticidade, entre outros. Temos, também, visões diversas entre analistas
sobre o tema, que oscilam entre a visão particularista – como parte dos textos
escritos por antropólogos trazidos aqui, os quais defendem que essas práticas
somente podem ser compreendidas dentro das lógicas culturais nas quais se
inserem – até teóricos queere ativistas, que a apresentam como identidade comum
a diversos povos, fortalecendo uma identidade pan-indígena e transformando sua
visibilidade em demanda anticolonial.
O que percebemos foi, ao mesmo tempo, a existência de diversas perspectivas dos
próprios indígenas sobre o assunto, também oscilando entre a visão de que tais
práticas sejam fruto do contato com a sociedade não indígena, bem como aqueles
que, ao contrário, veem sua invisibilidade como fruto desse contato. De certa
forma, isso diz respeito às estratégias dos próprios movimentos indígenas
frente às reinterpretações de sua identidade e ao próprio capital simbólico
utilizado por eles enquanto instrumento de luta. A existência de um movimento
homossexual indígena, por exemplo, aos moldes apontados até aqui certamente vai
de encontro às perspectivas que colocam os indígenas como artefatos do passado,
a-históricos, da mesma forma que, dito de forma simples, também não se enquadra
nos estereótipos utilizados pelos próprios movimentos indígenas visibilizarem
suas demandas – como de indígenas enquanto guerreiros, por exemplo.
Ora, até aqui nosso percurso parece levar à conclusão de que o surgimento de
uma identidade two-spiritfaça sentido enquanto uma das possíveis “estratégias
políticas surgidas em situações coloniais de extrema complexidade e
diversidade, e na qual os atores sociais indígenas estão engajados em relações
de poder desmedidamente assimétricas” (Baines,_1997:68). Nesse sentido, o autor
lança mão de um conceito, ao nosso ver, chave: o de etnogênese.
Da mesma forma, Repetto, que define movimentos indígenas em Roraima como algo
surgindo em resposta aos diversos atores sociais por ele analisados,
caracterizando-se como movimentos que “questiona[m] o sistema histórico de
dominação” (2008:106). Isso remete ao que foi adiantado de nosso argumento, de
que movimentos indígenas homossexuais são fruto de uma demanda coletiva que diz
respeito a relações de poder. Mais que isso, cabe aqui fazer uma ponte com um
conceito de etnogênese, ao qual chamamos a atenção acima.
A respeito desse conceito, escreve Baines que ele remeteria
a processos de reconstrução étnica, mesmo que esse processo não seja
verbalizado em termos de uma identidade “indígena”, em situações de
contato inter-étnico marcadas pelo lugar subordinado vivenciado por
essas populações frente ao Estado-nação. [...] Aqui vale ressaltar
que uso o conceito de invenção social da tradição não no sentido de
inautenticidade, mas no sentido de um processo dinâmico e criativo
(Wagner, 1981). [...] As tradições reinventadas representam uma
resposta criativa a contextos coloniais.(1997:68-69, ênfases nossas)
Dessa forma, mais que uma “simples” reconfiguração de grupos étnicos
[re]pensados a partir de uma herança comum amparada por um eventual vínculo
histórico ou genealógico com alguma sociedade précolombiana, a etnogênese
enquanto assunção por um coletivo de uma diferença é, antes de tudo, um ato
político. Tal qual escreve Repetto_(2008), esses coletivos [re]inventados
buscam questionar determinado sistema histórico de dominação. Diversos autores
parecem corroborar esse ponto de vista.
Hill, por exemplo, escreve que o termo “não é apenas um rótulo para a
emergência histórica de povos culturalmente distintos, mas um conceito
abrangendo as lutas simultaneamente culturais e políticas desses povos para
criar identidades duradouras em contextos gerais de mudança radical e
descontinuidade” (1996:1, tradução livre).
Sobre o processo de etnogênese vai nesse sentido também Miguel Bartolomé:
Recuperar uma identificação estigmatizada pela discriminação social
não é um processo pessoal ou social simples, isento de conflitos
existenciais. Não se trata de um romantismo nostálgico, do qual só se
esperam resultados gratificantes, mas da adoção deliberada de uma
condição tradicionalmente subalterna, à qual se pretende imprimir uma
nova dignidade. Isto pressupõe uma atitude contestatória e de desafio
diante da sociedade majoritária em que se gestou o preconceito. Mas
também envolve uma capacidade de simbolização compartilhada, por meio
da qual antigos símbolos se ressignificam e adquirem o papel de
emblemas, capazes de serem assumidos como tais por uma coletividade
que encontra neles a possibilidade de construir novos sentidos para a
existência individual e coletiva.(2006:57-58, ênfase nossa)
Isso vai ao encontro da perspectiva de Repetto, que encara, no surgimento de
novos movimentos culturais, “a cultura como verdadeira arena de luta, onde a
orientação dos conflitos está vinculada às orientações culturais e redefinições
da mesma” (2008:108).
Os paralelos com as ponderações que até aqui viemos fazendo, em especial no
tocante à etnogênese e aos movimentos indígenas como uma crítica não apenas
conjuntural, mas a toda uma estrutura de poder é evidente: o surgimento dessa
demanda na América do Norte nos diz, segundo penso, bastante sobre a
organização das políticas indigenistas no Canadá e Estados Unidos mas, também,
sobre como se organizam os movimentos indígenas naqueles países. Tal qual
Repetto aponta nas organizações indígenas de Roraima (Repetto,_2008:107), na
América do Norte os movimentos indígenas (e, nesse caso específico, o movimento
two-spirit) também teriam desenvolvido respostas criativas no sentido de
legitimarem seus questionamentos tanto nas arenas governamentais quanto no
campo das relações interétnicas. Cria-se, assim, um homossexualismo indígena,
ao contrário da situação brasileira, na qual se fala, quando muito, em
indígenas homossexuais. No Brasil, ao que tudo indica, o movimento indígena não
teria buscado instrumentalizar demandas específicas dos indígenas homossexuais
justamente por ser o fenômeno ainda entendido como demanda individual, ligada à
opção sexual – e, como vemos, às vezes interpretada como sinal de perda
cultural.
Torna-se assim a cultura uma arena de conflitos: os indígenas homossexuais
norte-americanos saem da condição de duplamente marginalizados (enquanto
indígenas e homossexuais) – inclusive dentro de sua cultura – em busca da
legitimação de suas demandas. A forma como fazem isso é paralela àquela pela
qual opera a etnogênese: a emergência de uma coletividade distinta, a partir de
demandas culturais e políticas, [re]criando identidades e ressignificando
símbolos vistos como “tradicionais” (e o próprio conceito de tradição, em si),
reposicionando-se diante de sua história.
A resposta criativa dada pelo movimento two-spiritnorte-americano foi voltar-se
para dentro de si mesmo. O ponto-chave aqui – e foi o que se buscou aqui
demonstrar lançando mão do conceito de etnogênese – são as condições que
tornaram possível a [re]invenção de uma identidade pan-indígena negando-se e
afirmando-se ao mesmo tempo, para além de categorias como homossexuale
indígena, e superando dicotomias como macho xfêmea, secular xsagrado, indivíduo
xcoletividade. Mais do que uma “invenção indígena da tradição”, ou de uma
“tradição indígena da invenção” (cf. Fausto,_2006:28-29), tratar-se-ia,
sobretudo, de processos que põem em relação todos esses conceitos,
reorganizando-os, bem como desconstroem essas dicotomias, tendo como pano de
fundo uma crítica à própria situação colonial.
Em alguma medida, o olhar comparativo entre as realidades brasileira e norte-
americana pode nos levar a certo conjunto de questionamentos que merece ser
enfrentado de forma mais arguta. Penso que as diferenças entre as situações
aqui expostas vão além dos processos de formação dos movimentos indígenas, das
políticas indigenistas e das etnologias no Brasil e nos EUA. Nesse sentido, há
algumas hipóteses que merecem ser levadas em consideração como fatores
explicativos para a diferença entre as realidades encontradas nestas duas
situações. Vejamos.
Primeiramente, à exceção do texto de Graciela Chamorro_(2009) citado neste
artigo, não há, na literatura que alude às práticas homossexuais entre povos
indígenas no Brasil qualquer menção a um papel sagrado exercido por essas
pessoas em suas culturas. Autores como Baldus_(1937); D’Abeville_(1945);
Gandavo_(1858); Gregor_(1985); Léry_(1941); Magalhães_(1876); Métraux_(1948);
Murphy (1955); Ribeiro_(1997), Rosário (1839); Sousa_(2000); Thevet_(1944);
Wagley_(1977) citam práticas homossexuais observadas entre diferentes povos
indígenas no Brasil, sem apontar, contudo, qualquer correlação entre a
“sodomia”, o “pecado nefando” ou a homossexualidade com um statussagrado dessas
pessoas em seus grupos étnicos2. Tal omissão pode dever-se a pelo menos três
fatores: (a) simplesmente a uma falta de relação direta entre homo/bi/trans/
sexualidade, papel social e/ou estatuto ontológico em povos indígenas no
Brasil; (b) a uma forma mais rígida de controle sobre as sexualidades
indígenas, em primeiro lugar por meio do Poder Pastoral exercido pelos
jesuítas3, chegando até o Poder Tutelar (Lima,_1995), levado a cabo pelo
Serviço de Proteção aos Índios (SPI) e, posteriormente, pela Fundação Nacional
do Índio; e (c) tal ausência pode dever-se, ainda, à cegueira epistemológica em
torno da temática, uma vez que a noção ocidental de “gênero” não dá conta das
perspectivas indígenas de pessoa e de suas implicações sobre as diversas formas
de sexualidade indígena.
Em segundo lugar, a formação tanto dos movimentos LGBT quanto indígenas no
Brasil e na América do Norte seguiram (e seguem) direções bastante diversas, de
forma que o movimento two-spiritdeixa gradualmente de se caracterizar como um
“movimento social”, passando a caracterizar-se como um “grupo social” (Giley,
2006:29), de modo que tem sido cada vez mais frequente os homossexuais não
indígenas nos Estados Unidos assumirem-se como two-spirit, apesar da
resistência dos indígenas em aceitar isso – Giley_(2006), por exemplo, cita a
presença de lésbicas veganas nas reuniões two-spirite o desconforto que isso
causa nos indígenas presentes. Tais limites da identidade two-spiritreforçam as
diferenciações entre indígenas e não indígenas, mais do que entre
heterossexuais e não heterossexuais: nesse sentido vai a aceitação, por parte
dos two-spiritsentrevistados por mim até aqui ao longo de meu trabalho de campo
(realizado nos Estados Unidos entre fevereiro e agosto de 2014), da extensão da
ideia de dois espíritos para os indígenas brasileiros e não aos homossexuais,
de modo geral. Tal diferenciação se deve basicamente a dois fatores: a assunção
de que a identidade two-spirittranscenda a sexualidade, sendo antes uma
condição ontológica; além disso, em torno da ideia de two-spiritestá, como
busquei deixar claro neste texto, uma forte crítica ao colonialismo.
Assim, para entendermos as diferenças entre os dois contextos – brasileiro e
norte-americano –, devemos compreender, entre outras coisas, que a formação e
consolidação do movimento homossexual no Brasil e nos EUA surge no advento da
pandemia de AIDS, encontrando, contudo, dois ambientes institucionais bastante
distintos: no Brasil, ocorre no contexto de redemocratização do país, sendo em
certa medida incorporado na luta contra a doença e se tornando canal na
implementação das políticas públicas de prevenção, combate e tratamento; nos
Estados Unidos, por outro lado, surge no contexto do governo republicano de
Ronald Reagan, de modo que os movimentos LGBT surgem como contraponto ao
discurso conservador implementado pelo governo.
No caso brasileiro isso gerou algumas consequências – e o digo à luz da
comparação entre entrevistas4 com ativistas LGBT do Centro-Sul do país com
aqueles da Amazônia Legal: o movimento brasileiro tem sua agenda muito mais
voltada para questões localizadas em grandes centros urbanos, bastante atrelada
a um discurso branco e de classe média (em que pese a cada vez maior
resistência de feministas e ativistas negras na formação de uma agenda
própria). Além disso, uma pauta especificamente indígena para questões
relativas à homoafetividade perpassaria temas como DST/AIDS e saúde mental,
questões sobre as quais o movimento LGBT buscou se desvincular. Com relação aos
movimentos indígenas, uma análise detida das agendas nos Estados Unidos e no
Brasil certamente merece espaço e aprofundamento os quais não disponho aqui,
mas penso ser possível pensarmos em termos de um modelo centrado na ideia de
“soberania” e outro, baseado na de “gestão”, respectivamente. Assim, a formação
do Estado norte-americano fez com que, até a Guerra Civil naquele país, os
povos indígenas fossem tratados como Nações, gerando não apenas uma
fragmentação nas políticas indigenistas (baseadas em tratados e atos), mas da
própria organização indígena, de modo que não há ummovimento indígena, pois a
própria categoria de indígenaé problematizada – não há o “indígena”, pois isso
seria aceitar as categorias coloniais, havendo em vez disso as naçõesCherokee,
Navajo, Apache etc.5 No Brasil, por outro lado, é frequente a menção não à
“soberania” indígena mas à “gestão” indígena – de seu território, de seus
recursos naturais, de sua mão de obra etc. Nesse sentido, a discussão em torno
das sexualidades indígenas não encontra espaço na agenda indígena brasileira,
focada na autonomia de sua gestão, ao contrário das agendas das nações
indígenas norte-americanas, centradas na ideia de soberaniacomo contraponto ao
colonialismo.
Com relação ao próprio espaço acadêmico para reflexões sobre o tema, não penso
que seja necessário destacar aqui as diferenças na produção indígena produzida
nas academias norte-americana e brasileira–a leitura deste artigo deixa claro o
amplo conjunto de textos e reflexões já bastante amadurecidas escritas por
autores indígenas norte-americanos. No Brasil, por outro lado, tem-se ainda
pela frente o desafio não apenas de se buscar consolidar espaços para a
produção dos acadêmicos indígenas, mas sobretudo de se garantir que tais
espaços operem a partir de agendas próprias. Dessa maneira, uma agenda em torno
de estudos sobre sexualidades indígenas deve não apenas levar em conta a
cosmologia e a ontologia dos povos indígenas, mas também os processos e
relações de poder a partir dos quais o tema é percebido pelos diversos atores
envolvidos – incluindo, evidentemente, a própria comunidade antropológica.