Partidos e trabalhadores na transição democrática: a luta pela hegemonia na
esquerda brasileira
INTRODUÇÃO
A chegada do Partido dos Trabalhadores (PT), fruto direto das lutas operárias,
ao poder na eleição presidencial de 2002, em aliança tanto com forças de
esquerda quanto com setores conservadores, abriu no interior da esquerda
brasileira um debate acerca de sua identidade1. A própria trajetória eleitoral
já indicava modificações no projeto daquele que, nas duas décadas anteriores,
havia sido o elemento condutor das mais variadas demandas progressistas no seio
da sociedade brasileira.
O debate sobre as contradições e avanços ocorridos com partidos de corte
socialista em sua chegada ao poder se estende por toda a já longa tradição de
esquerda internacional. Porém nossa ideia neste artigo é, mais do que entrar em
uma análise das ações do PT enquanto partido no governo, tomarmos como foco de
análise o exato momento em que esse partido surge na política de esquerda
brasileira. Espaço de esperança para um projeto diferenciado de militância de
esquerda no Brasil, a construção desse partido abriu, à época, uma profunda
discussão acerca não só do presente e futuro dessa militância, mas, acima de
tudo, do que teria sido a sua própria trajetória no passado.
Ao surgir no campo das esquerdas, obviamente, o PT precisou disputar o espaço
para o seu desenvolvimento. A faixa na qual o PT procurou trafegar já era
ocupada por grupos políticos de maior ou menor escala. A própria construção do
PT, na verdade, em certa medida, trouxe em seu bojo a associação de muitos
desses grupos. O Partido Comunista Brasileiro (PCB), por sua tradição e peso
político, e por ter sido a referência da política de esquerda durante décadas2,
será aquele com o qual o PT travará forte disputa. De forma esquemática, pode-
se dizer que era o momento no qual, simbólica e concretamente, a "novidade"
enfrentava a "tradição".
Este artigo, portanto, visa apresentar analiticamente alguns dos argumentos que
estiveram em jogo naquele contexto, indicando de que forma os comunistas3
perceberam o advento do PT e lidaram com isso; e como o PT viu e enfrentou a
disputa com o PCB. Desta forma, poder-se-á perceber não só a visão que os
partidos tinham de si mesmos, mas também como viam seu oponente4. A análise não
poderá ser feita sem que seja levado em conta também o cenário concreto no qual
os partidos atuavam, o qual, a um só tempo, ajudavam a moldar e eram por ele
também moldados.
O DECLÍNIO DA DITADURA E A TRAJETÓRIA DA ESQUERDA EM DISPUTA
A passagem entre as décadas de setenta e oitenta é marcada no campo político
brasileiro pelo processo de flexibilização do regime civil-militar implantado
no país em 19645. Se a estratégia de distensão política proposta no governo de
Ernesto Geisel dava seus primeiros passos a partir de 1974, é no governo de
João Figueiredo, a partir de 1979, que ela se efetiva através de instrumentos
tais como a Lei de Anistia e o fim do bipartidarismo compulsório6.
No campo do movimento social, este período é marcado pelo ressurgimento do
movimento sindical brasileiro7 que, depois de muitos anos de trabalho
silencioso no interior das fábricas e de algumas tentativas mais visíveis de
contestação, reaparece em céu aberto buscando mais espaços para a conquista das
reivindicações dos trabalhadores. Obviamente que o regime não ficou impassível
ao ascenso dos movimentos sociais. Impondo-se uma estratégia de transição
"lenta e gradual", por exemplo, os militares intervieram no Sindicato dos
Metalúrgicos do ABC, presidido por Luiz Inácio Lula da Silva, o Lula, e
enquadraram seus dirigentes na Lei de Segurança Nacional (LSN).
As greves dos metalúrgicos do ABC paulista em 1978,1979 e 1980 significaram um
teste para o ressurgente movimento sindical que, independente do resultado das
mesmas, acabou sinalizando para os movimentos sociais em geral as
possibilidades de luta no interior do regime ditatorial.
Esses passos ainda tateantes no interior da transição foram testemunha de uma
luta no interior da esquerda brasileira. O ascenso do movimento sindical
brasileiro trouxe consigo a ideia de uma organização nacional que pudesse dar-
lhe maior força de ação. Além disso, no campo político, os grupos militantes na
esquerda brasileira, como os movimentos sociais, após duros anos de
clandestinidade, banimento e repressão, começaram a reorganizar-se e intentar
seu lugar ao sol.
Embora existissem diversos grupos, de diferenciados tamanhos e grau de
influência nos movimentos e no cenário mais amplo, dois grupos se destacaram
neste processo. De um lado, o PCB que, de longa data, era a referência no seio
da esquerda brasileira como setor hegemônico, seja pelo porte, seja pela
tradição (o "Partidão", como era chamado). De outro, os diversos grupos
egressos, em grande medida, da experiência da luta armada, da militância
cristã, dos setores "trotskistas", dentre outros, que fundam o PT, o qual -
surgido a partir do "sindicalismo autêntico" que aflorou das mobilizações em
fins dos anos setenta constituindo o chamado "novo sindicalismo" e formando a
Central Única dos Trabalhadores (CUT) - tornou-se rapidamente um candidato
alternativo ao PCB, quer seja no campo dos movimentos sociais, quer seja na
"grande política".
Os debates entre as concepções políticas do PCB e as do PT marcaram um fato
importante em termos da tradição de esquerda em nosso país. Se, no período pós-
1945, o PCB trafegou, de certa forma, tranquilo nas faixas sindicais e de
representação dos trabalhadores, tendo que lidar seja com grupos bastante
minoritários, seja com um Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) que não oferecia
problemas maiores em termos das disputas, de forma organizada, na base; após o
golpe, com um certo tampão colocado em toda esta disputa e a repressão fazendo
vítimas em todos os níveis e escalas, o PCB teve que lidar também com grupos
que ou não se jogaram em um contato direto com os trabalhadores ou, se o
fizeram, não tinham o grau de expressão e amplitude, conseguido pelo já então
"Partidão". Agora, o quadro se modificava sobremaneira. Os grupos representados
no interior do "novo sindicalismo" e no PT seriam adversários de envergadura e
disposição que o PCB jamais havia enfrentado. E serão estes mesmos grupos que
acabarão por superar o PCB no espaço político e sindical, conseguindo ocupar o
papel que outrora pertencia ao "Partidão".
Tendo como pano de fundo a luta contra o regime militar, as apostas eram
bastante diferentes. O PT defendia uma política de enfrentamento mais radical à
ditadura, que estivesse fortemente vinculada à demanda dos trabalhadores, e
negava a ideia de uma frente única que agregasse setores da burguesia em uma
ampla luta pela democracia8. Já o PCB advogava uma política de movimentação sem
riscos para a conquista da democracia, vendo com desconfiança qualquer
movimento mais brusco que pudesse trazer um retrocesso para o processo de
democratização. Desta forma, propunha uma política de frente ampla que, no jogo
partidário, já tinha seu instrumento: o Movimento Democrático Brasileiro
(MDB)9.
Daí que as farpas eram mútuas. Os "petistas" chamavam o "Partidão" de
"reformista" e conciliador. O "Partidão" retrucava com a acusação de que o PT
era "divisionista" da oposição contra o regime militar e "esquerdista",
condenado ao "gueto político". Se para o PT o PCB caminhava lento demais em
suas propostas e ações, correndo o risco de perder o "trem da história", para o
PCB, o PT, com suas ações radicalizantes, poderia "entornar o caldo" do
processo de redemocratização, o que teria sérios impactos na vida dos
trabalhadores. Passemos, então, ao debate propriamente dito.
AS VISÕES DO "PARTIDÃO"
A partir da análise das fontes documentais, pode-se perceber que as
considerações e análises do PCB sobre o PT soam plurívocas, cheias de
reentrâncias que indicam divergências e debates internos. Algumas das críticas
do "Partidão" são feitas de forma mais elaborada, outras nem tanto. O que está
sempre presente no discurso dos comunistas é a disputa pela hegemonia. Como
assinalado pelo seu secretário-geral à época, Giocondo Dias, ao jornalFolha de
S. Paulo, de 11 de abril de 1981 (Carone, 1982:265), "A partir da nossa
perspectiva de classe, não desejamos privilégios na dinâmica do processo
revolucionário brasileiro. Temos a experiência de que qualquer hegemonia deve
ser conquistada a cada instante, na prática cotidiana".
Claro está que isto não se referia meramente ao PT, mas deixava clara a
perspectiva do partido da busca de hegemonia na sociedade, o que obviamente
passava pela hegemonia entre os setores de esquerda. Neste quadro, o PCB
parecia não querer exclusivismos de posições. Para ele, ao que o partido não
poderia renunciar era "(...) ao nosso papel, à nossa posição e à nossa
responsabilidade na vanguarda do progresso social. Partido revolucionário,
queremos e vamos ser um grande partido de massas. Sem exclusivismos, ágeis, com
uma identidade cristalina".
A posição do partido, no interior do movimento sindical, quanto se ventila a
ideia de um "Partido dos Trabalhadores", transita do descrédito à tentativa do
adiamento das discussões, como fica indicado no discurso de Arnaldo Gonçalves,
presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santos e militante do PCB. Para
ele, seria
uma ilusão pretender construir um Partido dos Trabalhadores sob a
ditadura que aí está (...) [acho] que o momento é de fortalecimento
da frente das oposições em torno do MDB. (...) se neste partido[PT]
não podem entrar os patrões, então não poderão entrar todos os
dirigentes sindicais que são reais patrões dentro de cada uma de suas
máquinas sindicais, algumas até mesmo de fazer inveja a muito
empresário.
Gonçalves vai achar estranho o empenho de "Joaquinzão", entre outros, no apoio
à ideia de criação do partido. Para ele, o tom mais à esquerda das primeiras
resoluções para a criação de um PT deveu-se a deslizes destes nos
encaminhamentos do processo e aos acertos que precisaram fazer com os
"sindicalistas autênticos". Acha ainda que os debates acerca do PT poderiam
estar auxiliando as articulações do trabalhismo de Leonel Brizola10. Para ele,
"nesta discussão tem muita gente comendo gato por lebre".
A proposta dos militantes do PCB, coerente com sua linha política, é reforçar o
apoio ao MDB, que, dado o bipartidarismo forçado, agrupa os setores de oposição
e, entre outras coisas, serve de "fachada" para a ação dos comunistas que têm
seu partido ainda na ilegalidade, tornando-se o polo aglutinador da luta
democrática.
Percebe-se, também, que o partido começa a se preocupar com a hegemonia
política sobre os trabalhadores. Em entrevista concedida, ainda no exílio, em
20 de março de 1979, Hércules Corrêa (1980:76) analisa as perspectivas das
ações do PCB na política nacional, uma vez legalizado, assinalando que, a
partir da experiência que ele tinha, aquela de 1945, podia-se dizer que
o potencial existente é muito favorável nessa direção. Quando se
discute agora em São Paulo a criação de um Partido dos Trabalhadores,
às vezes a coisa é apresentada como sendo, de um lado, para contestar
a possibilidade de o PTB se organizar e, de outro lado, o próprio
Partido Comunista. Nesta formulação se diz o seguinte: "O Partido
Comunista não é o partido dos trabalhadores". A maioria desses
operários que estão fazendo greve nunca teve chance de ter um contato
mais direto com o Partido, de conhecê-lo.
Nas palavras de Corrêa, vê-se que a perspectiva de organização de um partido
dos trabalhadores coloca em xeque a ideia de que o PCB seria este partido como
ele mesmo se colocara historicamente. O PT é visto como um potencial obstáculo
à reorganização não só do PCB, como também do PTB. Mas Corrêa acredita que, com
a volta à normalidade democrática, ao longo dos debates, os trabalhadores
perceberiam quais organizações eram importantes para eles e se definiriam por
elas.
Na verdade, só quando a proposta do PT se concretizar efetivamente é que este
tipo de discussão se torna mais frequente e, também, mais dura. Ainda nesse
processo de consolidação, os setores vinculados ao PT, como se verá, não deixam
de replicar as críticas e acusações que o PCB lhes fazia, questionando a
posição dos comunistas de se julgarem os únicos representantes da classe
trabalhadora.
No campo mais amplo pode-se ver que o partido, de certa forma, teria uma
convivência "pacífica" com o PT. Em entrevista ao jornalEm Tempo", nº 90 de 15
a 21 de novembro de 1979, José Salles, membro do Comitê Central do partido,
assinala que
Como somos pela liberdade de organização de todas as correntes, vemos
como saudável que setores do movimento operário queiram organizar o
PT. Não vemos isto com ciúmes, nem achamos inoportuno. É a vontade
dos trabalhadores de participar na vida social (...). Nós somos
particularmente sensíveis ao esforço de organização do PT, enquanto
expressão da classe operária.
Ainda assim, Salles mantém a perspectiva de que a divisão das oposições é obra
do regime e reforça a importância do MDB. Para ele "o arbítrio impede a
organização dos partidos e tenta implodir a oposição, que se reúne no MDB (...)
a oposição é bem mais ampla que o MDB, mas insistimos que hoje ele é seu
principal instrumento".
Quanto à corrida entre PT e PCB, ele assinala que "nós vamos disputar os votos
carreados para a direita, ainda que não sejam de direita; e não vamos nos
digladiar entre nós".Mais ainda,
Nós não nos colocamos em uma posição de superioridade olímpica, a
unidade da classe operária é uma condição para o êxito da luta dos
trabalhadores. Que existem lideranças que se prestigiem lutando pela
unidade da classe operária, nós consideramos que é uma prova de
vitalidade da nossa política. Nós vemos isto com muita satisfação.
Esperamos que estas lideranças operárias acertem. Não vemos isto com
ciúmes.
Se pudéssemos agrupar as críticas feitas pelo PCB ao PT ao longo do tempo e que
articulassem os princípios ao mero conjuntural, indicaríamos como um dos pontos
de destaque a indicação de estreiteza política e ação divisionista por parte do
PT. Em junho de 1980, o jornalVoz da Unidade, órgão informativo oficial do PCB,
traz um artigo de David Capistrano Filho sob o título "O PT não é a única força
de oposição democrática", no qual, o autor, pautando-se em um panfleto de um
dos núcleos do PT-SP, busca criticar os graves erros que não se restringiriam
"a um dos bairros da capital paulista".
Ele critica os autores do panfleto por dizerem que só raramente o MDB
encaminhou reivindicações dos trabalhadores, que todos os partidos, inclusive
os de oposição, seriam de "patrões" - e com "fins eleitoreiros" - e que só o PT
seria o verdadeiro partido de oposição. Segundo o autor, "resta-nos esperar que
a direção do PT, integrada por oposicionistas combativos, desautorize os grupos
que querem dividir a frente antiditatorial usando o nome do PT". Neste caso,
portanto, Capistrano indica que o problema não seria tanto o PT, mas alguns dos
seus diversos grupos que buscariam, "usando o nome do PT", dividir a oposição.
OVoz da Unidade de1a7de agosto de 1980 publica um artigo de Paulo Cavalcanti
com o título "A hora é de unir as forças democráticas". Nele, o autor compara o
momento vivido em 1980 com aquele vivido em 1964 e retira daí o exemplo para
conclamar as forças de oposição à união. Assim como em 1964,
"(...) hoje, a situação é quase a mesma. Depois de atomizados pelo
governo, os partidos e grupos de oposição teimam em desunir-se, tendo
diante de si, não os largos horizontes da frente democrática, mas o
beco de seus apetites, como diria o poeta Manoel Bandeira. Só os
cegos não veem que a hora é de somar esforços.
O autor insiste na tese, muito usada pelos comunistas, de que foi o regime que
atomizou os partidos de oposição. Ora, se isso é verdade, e se os setores da
oposição tinham tanta coisa em comum e queriam continuar juntos, para além da
vontade do governo, por que não o fizeram e continuaram unidos sob a sigla do
Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) que sucedeu ao MDB?
A mesma direção é seguida no artigo "Por que a unidade é valor estratégico".
Funcionando quase que como um editorial doVoz da Unidade,nele vemos uma usual
defesa da posição de unidade das forças democráticas para garantir o avanço do
processo de abertura. Constatando o isolamento do regime militar, que daria
seus últimos passos, o texto assinala que, diante do quadro, começam a ser
defendidas, com certa insistência, "por alguns setores da oposição, a
perspectiva sectária de que a política de frente democrática deve ceder lugar a
uma política mais restrita, com exclusão das forças ou personalidades cujos
projetos de reconstrução da sociedade não ultrapassam os limites do
liberalismo".
Ainda que indique a correção da análise destes grupos acerca do isolamento do
regime, o PCB afirma que a conclusão a que chegam é errônea, à medida que
vislumbram
a possibilidade da iminência de um confronto radical das forças
populares com o governo. Na raiz do erro conclusivo está a confusão
que é feita entre o recente despertar do movimento de massas no país
com o que já seria uma crise revolucionária, e o descaso - que no
fundo revela a velha concepção golpista - pelo fato concreto da não-
existência hoje, no país, de forças políticas capacitadas para
liderar uma mobilização popular de porte suficiente que possa exigir
a derrubada do regime e a implementação de profundas mudanças
sociais.
O PCB vai reiterar a posição de que era necessária a consolidação de um campo
mais amplo possível de forças, o qual, através de sua unidade e ações concretas
no sentido da construção de um regime democrático, impeça "o risco de
retrocesso".
A postura do PT com relação à luta por uma Constituinte também mereceu a
atenção do PCB que, como as demais forças, defendia esta proposta. A recusa do
PT à Constituinte é considerada pelos comunistas como mais um ato de
"divisionismo". NoVoz de 21 a 27 de novembro de 1980, uma matéria de David
Capistrano Filho, intitulada "Estreiteza pode levar PT ao divisionismo", faz
uma análise do processo de luta pela Constituinte. Em seu texto vamos ver que,
de forma autocrítica, o partido assinala que havia um certo consenso entre as
forças de oposição quanto à Constituinte, porém não nas propostas de como
encaminhar o processo. Mais ainda, não havia propostas econômicas que
indicassem como solucionar os problemas do povo. Isto, "abre caminho tanto para
a demagogia populista de velhas raízes - e particularmente em São Paulo - como
para a confusa mistura de basismo, despolitização e aventureirismo que
caracterizam algumas correntes esquerdistas do presente, notadamente no PT".
O artigo assinala ainda algumas das vertentes que conformariam a visão do PT
contrária à Constituinte e indica que "no quadro atual da oposição, a
predominância no PT dessas posições estreitas leva esse partido, até sem
querer, a exercer um papel de divisão e de aumentar a confusão".
O PCB vai continuar defendendo, coerentemente com sua linha geral, o PMDB
enquanto espaço de atuação da frente oposicionista. Embora considerando válidos
os interesses agregados em torno de outros partidos de oposição, o PCB declara
em junho de 1982 que "enfraquecer o PMDB é enfraquecer a frente democrática".
Neste artigo, noVoz da Unidade, o partido avança a visão de que, em face do
processo eleitoral daquele ano, o regime estaria insuflando um partido
oposicionista contra o outro e "os diversos setores da frente democrática, se
aceitam o jogo do regime, incorporando como central a guerrilha mútua,
condenam-se, simplesmente, ao isolamento e ao fracasso".
Em junho de 1983, o Coletivo Nacional de Dirigentes Comunistas se reuniu com a
Comissão Executiva do PT - o que o jornalVoz da Unidadeconsiderou uma reunião
histórica para ambos os lados. Segundo Teodoro Mello, um dos dirigentes do PCB,
um dos motivos da reunião teria sido agradecer o esforço "petista" na
solidariedade prestada aos comunistas contra a invasão que seu semanário havia
sofrido pelas forças policiais, além de celebrar a libertação dos presos que
resultou daquela ação repressiva, bem como a luta dos comunistas pela
legalidade de seu partido. Mas também para detectar pontos de agenda comum e
articular formas de ação conjunta. Para Mello, a reunião se deveu "à grande
importância que atribuímos ao PT, à necessidade da unidade da classe operária e
do seu movimento sindical". Um dos pontos centrais da reunião foi a discussão
de uma possível articulação de campanha contra a LSN, mas também ficaram claras
as posições divergentes acerca do movimento sindical e seus encaminhamentos
como a CUT e a greve geral12.
O debate acerca da ida ao Colégio Eleitoral13 foi outro ponto que forneceu novo
incremento aos debates e críticas do PCB ao PT. Em junho de 1984, oVoz da
Unidade publica um artigo de Alon Feuerwerker sob o título "Independência ou
reboquismo?", no qual o autor considera que pouco a pouco o PT estaria sendo
colocado no dilema de ou participar do Colégio ou se isolar politicamente. O
texto traz as tensões e dificuldades internas pelas quais passava o PT
assinalando o apoio de parte de sua bancada federal à candidatura Tancredo
Neves, entendida por Aírton Soares, deputado do PT, como a possibilidade de
governo de transição. O autor indica que, caso houvesse possibilidade de
vitória dos setores democráticos, o PT tenderia a votar em Tancredo.
Em agosto de 1984, oVoz da Unidade publica uma matéria que reporta um debate
realizado na TV, pela Abril Vídeo, entre Salomão Malina, da Comissão Nacional
Provisória do PCB, e Jacó Bittar, vice-presidente nacional do PT. Ficavam
claras as distinções de posições que já vinham se explicitando. Para o PT, não
mudaria muito o quadro decidido pela via indireta, impondo depois a submissão
ao Partido Democrático Social (PDS) no parlamento. Aos comunistas, Tancredo
era, no momento e naquelas condições, quem melhor poderia representar as
transformações exigidas pela nação.
Em outubro de 1984, oVoz da Unidade indica que as tensões sobre o assunto
crescem dentro do PT e, embora diga que este seria um assunto a ser resolvido
em termos de "economia doméstica", não cabendo aos demais setores democráticos
se envolver, assinala que
assiste a todos eles o direito - e principalmente aos comunistas,
para os quais é de indiscutível relevância a afirmação de um partido
que se pretende de conteúdo operário - à preocupação pelos
posicionamentos dos companheiros petistas. E isto em razão da
importância que atribuímos ao PT, do qual é legítimo esperar soluções
que, além do doutrinarismo, favoreçam de fato a superação do atual
regime.
A carga de críticas é intensificada na matéria "Apenas bobagens". Ela está
noVoz da Unidade de 10 de novembro de 1984 e é aberta com a pergunta: "O PT
desvairou?" baseando-se em jornal do Diretório Estadual do PT-SP que, segundo
oVoz, criticaria desde Tancredo até companheiros do próprio PT. O artigo
questiona a visão "petista" de que a candidatura Tancredo e a ida ao Colégio
Eleitoral constituiriam um "pacto das elites", indicando que Tancredo, na
verdade, seria a alternativa real ao continuísmo do regime.
O PCB vai acompanhar bem de perto este processo no PT. Em sua edição de 8 de
dezembro de 1984, o jornal do PCB vai indicar a crise aberta entre o partido e
parte de sua bancada assinalando a perspectiva da saída do líder da bancada
federal do PT, Aírton Soares, que, discordando da postura do PT quanto ao
boicote ao Colégio e afastado pelo partido da liderança, poderia ir para o
PMDB. Além disso, o jornal divulga uma pesquisa feita pelo PT junto aos seus
filiados que indicavam que a maioria dos filiados seria a favor da ida ao
Colégio. Neste sentido o jornal indica que "(...) a direção do PT afasta-se não
só de seus eleitores, mas da base do partido (...). A crise do PT não interessa
às forças democráticas, em especial aos comunistas. Mas esse é o ônus de uma
posição isolacionista e sectária. E está sendo pago".
Da mesma forma, o PCB vai considerar um exemplo de sectarismo a decisão do
Diretório Nacional do PT de desligar os parlamentares que votassem em Tancredo
Neves, anúncio que foi feito uma semana antes da votação. Como se sabe, alguns
parlamentares votaram a favor de Tancredo contra Paulo Maluf, sendo desligados
do PT. Neste processo, foram desligados os deputados federais José Eudes,
Aírton Soares e Beth Mendes.
Passados estes eventos, as divergências acerca das eleições diretas fizeram com
que o PCB voltasse a criticar a postura do PT. Para o partido, a posição de
Lula e Brizola de chamarem uma campanha pelas diretas para o ano de 1986 seria
uma posição golpista como indicado na matéria "Lula e Brizola pelo golpismo"
publicada noVoz da Unidade de 6 a 12 de dezembro de 1985.
A perspectiva da estreiteza política do PT seria exposta de novo nas páginas do
semanário do PCB quando da derrota eleitoral de Fernando Henrique Cardoso nas
eleições municipais de São Paulo em 1988. Com a vitória eleitoral de Jânio
Quadros, o PCB, após cálculos e somatórios de engenharia política, assinala na
mesma edição doVoz da Unidade citada anteriormente.
O crescimento da votação do PT, embora significativo, não foi o fato
principal deste pleito. Foi uma votação obtida às custas do PMDB nos
bairros periféricos e que serviu para debilitar o apoio eleitoral a
Fernando Henrique Cardoso, cabendo ao PT, assim, parcela da
responsabilidade pela vitória de Jânio Quadros.
O PCB reconhece que errou ao não tentar buscar "travar publicamente a discussão
com o PT em torno de uma política que desembocasse na formação de uma chapa
única das forças oposicionistas"14. O partido reconhece também que a chapa do
PMDB apresentava certa estreiteza política. Assim, o candidato teve de
enfrentar problemas internos de um lado e "o divisionismo do PT" de outro.
Um outro ponto de destaque é o que diz respeito à perspectiva confrontacionista
do PT em um período em que se trafegava ou pelo menos se buscava trafegar de um
regime autoritário para um regime democrático. Por exemplo, em uma cartilha de
formação de militantes do PCB, na qual se compara o partido com algumas
agremiações de esquerda, vemos, sob o subtítulo "Alianças e divisionismo", a
caracterização do PT como:
não gosta de fazer alianças. Em todo lugar onde se sente forte, o PT
não aceita a participação de outras correntes. O resultado dessa
política de não querer se misturar, de querer ter sangue puro, é que
o PT sempre acaba caminhando sozinho. No movimento sindical, o PT
prega o pluralismo, ou seja, cada categoria pode ter quantos
sindicatos forem criados. Isto leva à divisão e ao enfraquecimento do
movimento operário. Na Constituinte, com a tese do pluralismo, o PT
perdeu. E ficou com gente como Delfim Netto, Afif Domingos, Roberto
Campos, Amaral Netto e outros inimigos da unidade e do progresso do
povo.
Na parte referente a "negociação e confronto", o partido considera que o PT
"não valoriza a negociação como forma de luta. Vai para o pau, como diz o povo.
E mais: o PT vai para o pau mesmo quando o adversário é mais forte". O texto
assinala que a perspectiva do PT em termos das "lutas salariais e do fim da
exploração" é limitada. Segundo ele, o "PT na sua pregação dá a entender que
basta a luta salarial para resolver os problemas dos trabalhadores; isso é
falso".
Em termos organizacionais e de dinâmica no movimento, o PCB vai criticar o PT
por este explicitar o que os comunistas denominavam de "espontaneísmo". Neste
sentido, três artigos de 1980 podem ser utilizados com exemplos.
Ainda que não diretamente e explicitamente voltado ao PT, parecendo mais
relacionado ao movimento grevista do ABC que pouco antes findara, o artigo de
Luiz Werneck Vianna editado noVoz da Unidade, de12 de julho de 1980, vai
indicar um pouco as visões dos comunistas acerca da questão apresentada acima.
Sob o título "Pela política, contra o basismo e o espontaneísmo", Vianna
assinala que "(...) nossos cultores da espontaneidade, ao identificarem
organização com burocratização, parecem entender que a virtude em política está
em manter bem içadas as velas para o aproveitamento dos ventos. Nem todo o
vento, porém, é o da fortuna".
A posição que o autor vai defendendo desde o início do texto é a de que "antes
de ser a arte do possível (...), a política consiste sobretudo na arte de tomar
decisões. É a vontade que disciplina o acaso". Vianna vai indicar que "a aposta
de fundo quase messiânico nos movimentos sociais tem-se associado à
subestimação da política". Isso seria o resultado do autoritarismo vigente que
garantia a reprodução deste tipo de visão. Mais ainda, o autor vê que estes
grupos, que propugnam "uma radical alteração do sistema de organização social",
trabalhariam com uma inversão de lógica segundo a qual "a elevação das tensões,
longe de ser um perigo, significaria que agora sim se pratica a política
adequada às circunstâncias".
Para Vianna, no interior desta perspectiva pode-se ver uma certa distância
quanto aos partidos, demonstrando que, devido às circunstâncias nacionais em
termos de sistema social e partidário, já teria se convertido em preconceito.
Para ele, "certas reivindicações são conduzidas como se tivessem também entre
seus objetivos demonstrar sua contestação face aos partidos, à política e aos
políticos. A autenticidade versus representação, a pureza do movimento versus a
negociação. Nada de mediação: ação direta, assembleísmo".
O resultado disso é que, devido à lógica do sistema, pressões corporativas
acabam sendo transformadas em questões políticas. Assim, "dramatizam-se todos
os conflitos mesmo os puramente de interesse. Rondamos a política do confronto,
independentemente das motivações dos atores, a não ser dos poucos à espreita de
uma hora de aventura". Para o autor, a saída seria pela política. Com isso ele
quer dizer por uma aproximação maior dos movimentos com os partidos políticos,
aproximação que reinventasse "criadoramente canais e procedimentos
democráticos".
Em seu artigo no jornalMovimento de 21 a 27 de julho de 1980, Alon Feuerwerker
vai travar um debate com Daniel Aarão Reis, que já havia escrito no mesmo
jornal avaliando positivamente o Encontro Nacional do PT. Feurwerker usa a
oportunidade para, sob o título "A Constituinte e o culto ao 'Movimento
Espontâneo'", criticar algumas das orientações "petistas". Para ele, baseando-
se em algumas considerações de Aarão Reis, o que se faz "é se dobrar à
consciência espontânea que brota naturalmente da luta econômica, aquela que só
enxerga as reivindicações imediatas, ligadas à luta sindical, seja no plano das
reivindicações salariais, seja no da liberdade sindical, do direito de greve
etc."
O autor vai criticar a posição do PT em não defender a Constituinte porque isso
seria uma conciliação com as elites. Considerando o programa do PT - que
segundo sua visão "sem dúvida que é um bom programa, apesar de incompleto" -,
ele chama a atenção ao fato de que "sua parcialidade se dá exatamente no
aspecto central que dá razão de ser a qualquer partido político que se preze, a
omissão completa em relação à questão do poder". Articulando esta crítica com a
questão da Constituinte, o autor vai dizer que o PT "nega-se a apontar o passo
concreto para chegar-se ao futuro e, neste sentido, atrasa a sua chegada".
No artigo publicado por Carlos Nelson Coutinho noVoz da Unidade, de 31 de
dezembro de 1980 a 8 dejaneiro de 1981, temos, após uma apreciação do novo
quadro partidário pós-reformulação, uma análise mais detida acerca da posição
do PT que, segundo o autor, merece "um lugar de destaque - pela originalidade
de sua proposta, de sua gênese e de suas intenções -". Mas, apesar deste
intróito generoso, o autor assinala que o PT já traria alguns vícios de origem:
1) "uma visão corporativa da ação das massas (que o leva, por exemplo, a
recusar a luta unitária pela Constituinte (...)"; 2) "uma concepção
excessivamente espontaneísta e 'populista' do processo de formação da vontade
coletiva" e 3) "sua pretensão baluartista e anti-histórica de ser o primeiro e
único partido dos trabalhadores brasileiros".
Reforçando a posição de que o PT representa "sob muitos aspectos" uma proposta
válida de organização das massas que poderia desempenhar um papel de destaque
no futuro ao lado dos demais partidos de extração operária e popular, o autor
vai indicar, contudo, que, para que isso ocorresse efetivamente, o partido
teria que se "libertar dessas tendências corporativistas e espontaneístas,
eliminando o esquerdismo que ainda marca muitas de suas formulações".
O terceiro ponto levantado por Coutinho, acerca da pretensãopetistade ser o
primeiro e único partido dos trabalhadores surgido no Brasil, também foi um dos
focos de críticas do PCB sobre o PT. Vale dizer que, na maioria de seus textos,
o PCB busca evitar este tipo de exclusivismo acerca da representação da classe
operária.
Neste particular, oVoz da Unidade de 5 a 11 de dezembro de 1980 estampa, na
primeira página, o título "Nova saudação ao PT". O jornal saúda o PT por ter
conseguido cumprir os quesitos exigidos para o registro dos partidos15. O
jornal já havia feito esta saudação quando da fundação oficial do PT. A "nova
saudação ao PT" traz partes bastante elogiosas ao PT assinalando que "os
comunistas só têm motivos para se alegrar e saudar este acontecimento". Isto
porque o PCB assinala a deficiência de organização no interior da sociedade
civil brasileira e porque, com o surgimento do PT, significaria atrair "para a
arena da luta política efetiva setores, pessoas e organizações que até ontem
estavam refratárias seja à política de massas, seja à luta política
institucional, legal, parlamentar, eleitoral, sindical, de massas etc.". O PT,
assim, seria considerado mesmo "um dique contra a 'radicalização'".
Elogia-se também a postura do PT de se engajar na luta pela legalização do PCB.
Mas os elogios acabam aí. O jornal crítica Lula por ter dito que os comunistas
tentaram "várias vezes impedir o crescimento" do PT. Negando esta atitude
alegando que o seu partido, "organização voltada para fazer política", teria
coisas mais sérias com o que se preocupar e que, em sua política haveria lugar
"- de honra até - para aliança duradoura e crítica com o PT".
O texto dos comunistas vai indicar também suas divergências com o PT. Deveria
ficar claro para o PT que os comunistas não concordariam "com a política de
desrespeito à autonomia dos movimentos sociais, de divisão e partidarização do
movimento sindical que o PT [vinha] sistematicamente promovendo. Mas, o que
fazer com cristão novo?".
Na mesma edição, em matéria interior, sob o título "Lula, o PT e os
comunistas", os comunistas estranham as declarações de Lula segundo as quais "o
partido das classes não foi criado em 1922; foi criado agora, dia 1º de
dezembro de 1980". Lula teria acrescentado que "em 1922 foi fundado um partido
'para os trabalhadores' e agora o partido 'dos trabalhadores'".
O jornal indica o reconhecimento de que o PT "expressa a consciência e os
interesses de parcela da classe operária brasileira" e de que o PT, por isso,
ocupa um lugar importante em nossa vida política, lugar que o
PCB considera "ainda não bem definido, é verdade, dada a relativa indefinição
em que se encontra o PT". Embora reconhecendo tudo isso, o PCB avalia que o PT
não necessitaria afirmar "seu caráter operário através da negação do caráter
operário do Partido Comunista Brasileiro, inclusive porque a história do PCB
(com suas lutas, seus erros e acertos) reflete em boa medida a história da
classe operária brasileira, da qual Lula é uma das autênticas expressões
modernas".
Por estas posturas de negação, o PCB considera que o PT caminha de forma
vacilante, confundindo alhos com bugalhos e reitera que "a política é a arte da
afirmação". Esta mesma perspectiva de resgatar a participação do PCB na luta
dos trabalhadores brasileiros diante da negação apresentada pelo PT pode ser
encontrada nos debates internos do PCB. Em um texto para discussão, intitulado
"Contribuição para a análise do fenômeno Partido dos Trabalhadores", elaborado
por um dos membros da Direção Estadual do PCB gaúcho em agosto de 1982, o PT é
caracterizado "pelos equívocos de suas análises, seu primarismo e infantilismo
político (...) [e] pelo estreitismo político da imensa maioria de seus
integrantes". Isto decorreria de que "(...) falta ao PT e seus militantes uma
concepção de mundo científica, proletária, que os capacite a analisar os
fenômenos econômicos, políticos e sociais mais amplamente e cientificamente
(...). Falta ao PT o marxismo-leninismo como ferramenta eficiente de análise".
Para o autor, ainda que o PT baseie-se em leituras dos clássicos marxistas,
elas se deram de forma "mal digerida", fazendo com que o "pensamento petista"
tenha seu "ponto de apoio geralmente numa gama de análises equivocadas e
simplistas". O texto indica seguidas vezes a distância entre as concepções do
PT e aquelas definidas por Lênin. Um dos pontos indicados, em termos de
organização partidária, é a crítica do PT e seus militantes ao "centralismo-
democrático", considerado por eles como "centralismo-burocrático".
Uma outra indicação do autor diz respeito ao fato de o PT produzir certas
falsificações da história. Aqui reaparece a disputa pela representação dos
trabalhadores no passado, no presente e no futuro. O autor considera que
A primeira falsificação e a mais grosseira é a tentativa de
apresentar-se como o primeiro e legítimo partido dos trabalhadores. A
história das lutas operárias inicia-se praticamente em 1978. Isto
significa esquecer a luta de classes e a própria história do nosso
País. Esquecer os mais de 60 anos de luta heróica do PCB, que teve
sua trajetória ligada às lutas da classe operária e dos setores
progressistas das camadas médias urbanas, às lutas do movimento
camponês etc. (...). Dizer que nem sempre estes partidos foramdos
trabalhadores, maspara os trabalhadores, pode ter alguma razão de
ser. Mas pouco diz para que se tente apagá-los das páginas da nossa
história.
Segundo o texto, uma outra falsificação da história seria aquela relativa à
visão do PT acerca da atuação do PCB no passado.
Nas análises petistas da história brasileira verificamos que se
procuram imputar os males do nosso povo trabalhador ao "populismo",
ao "reformismo" e à política de alianças do PCB (leia-se política
frentista). Não se fez a revolução porque se teve uma política ampla,
frentista. Se se tivesse feito uma política isolacionista, estreita,
tudo teria sido melhor (a experiência do próprio PCB demonstra
cabalmente o contrário). E lá pelas tantas desta análise o inimigo
não é mais a reação, o imperialismo, o capital, mas os setores
atrasados da massa, o "populismo", o "reformismo" e os comunistas. O
entrave para a avanço da luta dos trabalhadores é uma política ampla,
unitária.
Apesar das críticas ao PT, o texto afirma que "ninguém nega ao PT a sua
importância como partido democrático, como partido preocupado com os problemas
dos trabalhadores. O que ocorre, porém, é que o mesmo, por seus equívocos,
também tem prejudicado a luta democrática, nacional, popular, a luta dos
trabalhadores que pretende representar". O texto vai considerar mesmo o
surgimento do partido como decorrente de uma debilidade do PCB ao assinalar que
Compreendemos o surgimento do mesmo como reflexo de uma situação
econômica, política e social, que nem sempre soubemos responder. Como
resposta positiva, embora infantil e primária, da revolta de
segmentos do proletariado, das camadas médias urbanas contra a
situação de autoritarismo, de opressão, miséria e exploração presente
na sociedade brasileira. (...) Ao mesmo tempo constatamos que suas
concepções pouco têm a ver com o pensamento do proletariado
revolucionário, com o marxismo-leninismo, instrumento teórico que
guiará a libertação definitiva da classe operária e do povo.
Tomados em seu conjunto, os documentos produzidos pelos militantes do PCB
deixam claro suas discordâncias com o PT. Nas mais variadas formas os
comunistas apresentaram suas divergências e suas preocupações com as
orientações políticas defendidas e seguidas pelo PT. Obviamente, como fio
condutor das divergências estava a disputa pelo controle dos postos de direção
no movimento social e no campo político da esquerda brasileira. Em muitos casos
sente-se uma posição do PCB que diz respeito não só à sua ideia de ocupar um
lugar histórico de direção da classe trabalhadora, por ser o "partido da classe
operária", mas também de um certo direito adquirido como liderança de tantos
anos, dando a "direção correta", a "linha justa" ao movimento dos trabalhadores
em busca de suas reivindicações imediatas e históricas. Pela primeira vez na
história da esquerda brasileira surgia uma agremiação que rivalizaria com os
comunistas no que seriam seus campos privilegiados: o movimento social e a
"grande política". Se os anarquistas negavam a segunda e os trabalhistas16 não
eram páreo na primeira, o PT disputaria as duas.
Nesta disputa, o quadro externo não era lá favorável ao PCB. Por todo o mundo,
a chamada "crise do socialismo" andava à larga. Já no início dos anos 1980, o
movimento capitaneado pelo "Solidariedade", na Polônia, trazia lembranças
amargas do passado de intervenções soviéticas nos países do leste europeu, que
buscaram algum tipo de alternativa ao socialismo de Moscou. Depois, a "queda do
muro" de Berlim, em 1989, aparentava insinuar, no fechamento da década, o fim
de uma longa era. As propostas de revisão passam a vir do próprio centro, com
as políticas de Perestroika e Glasnost, do secretário geral do Partido
Comunista da União Soviética, Mikhail Gorbachev. Um espectro assombrou o mundo
comunista. Muitos partidos comunistas propuseram-se autodissolução, mudança de
nome, alteração de símbolos etc. O PT, formado, quase majoritariamente, de
grupos egressos de tradições críticas ao socialismo soviético, velejou com este
vento ao seu favor. Por seu turno, o PCB tentaria, com cada vez menos remos,
remar contra uma maré forte e adversa.
O PT E SUAS VISÕES
Um fato de enorme peso em todo o processo de disputa pela hegemonia na esquerda
brasileira, servindo de consolidação de posições já diferenciadas, vai ser a
constituição e consolidação do PT. O que até então era a luta entre um partido,
o PCB, e um conjunto de grupos e uma ideia passa a ser a disputa entre dois
partidos17.
A proposta vai tomando corpo a partir de 1978 e, no ano de 1979, são lançados
os marcos de criação e sustentação do partido que será, oficialmente, fundado
em fevereiro de 1980. Conforme já indicado, o surgimento do PT, mesmo quando em
termos de ideia, já começava a abrir os espaços para a disputa de hegemonia
entre os partidos de esquerda acerca da "verdadeira" representação dos
interesses políticos dos trabalhadores; além disso também se disputava no
interior do próprio movimento sindical, onde, a partir da criação do partido,
se coroa um quadro de separações e aproximações de posições18.
No processo de criação e organização do PT, estiveram presentes forças que
tinham seus rebatimentos no meio sindical: os chamados "sindicalistas
autênticos" organizados em torno de Lula e do Sindicato dos Metalúrgicos de São
Bernardo do Campo e que agregavam outras figuras importantes no sindicalismo
brasileiro de então, como Olívio Dutra (dos Bancários de Porto Alegre) e Jacó
Bittar (dos Petroleiros de Campinas e Paulínia); as "Oposições Sindicais", que
agregavam, grosso modo, setores militantes egressos ou não da esquerda armada e
setores da Igreja progressista. Além disso, estarão presentes parlamentares
vinculados aos setores populares do MDB; setores da intelectualidade, tendo à
frente nomes como Francisco Weffort; setores ligados aos movimentos populares,
tendo destaque, neste caso também, a participação dos setores progressistas da
Igreja.
Mais do que nos alongarmos aqui nos meandros de articulação e desenvolvimentos
do PT - o que de resto parece já ter sido alvo de um número bastante razoável
de pesquisas19 -, trataremos como esta articulação reverberou no movimento
político e sindical e quais foram os seus desdobramentos, principalmente no que
tange à relação com os comunistas.
O PT já estava presente nos discursos de Lula em 1978. Na verdade, desde seus
primórdios, a ideia de um PT causava cisões entre as posições existentes e
atuantes no meio sindical brasileiro. Ainda que lançada pela primeira vez,
publicamente, por Lula em uma conferência dos Petroleiros da Bahia, é em 11 de
dezembro de 1978 que a proposta é discutida no Sindicato dos Metalúrgicos de
São Bernardo e Diadema. Nesta reunião estiveram presentes 12 dirigentes
sindicais de várias categorias. Mesmo com a participação de nomes importantes,
tais como Arnaldo Gonçalves (Metalúrgicos de Santos), Hugo Perez (Indústrias
Urbanas de São Paulo) e Henos Amorina (Metalúrgicos de Osasco), a proposta só
conseguiu apoio imediato de Lula, Paulo Skromov (Coureiros de São Paulo), José
Cicote (Metalúrgicos de Santo André) e Jacó Bittar (Petroleiros de Campinas e
Paulínia).
Em 1979 a proposta começa a ganhar corpo e deslanchar. Isto se dá em movimentos
nada retilíneos, mas sim marcados por idas e vindas nas tensões dentro e fora
do movimento. Em janeiro de 1979, no IX Congresso dos Metalúrgicos, Mecânicos e
Eletricitários do Estado de São Paulo, realizado em Lins (SP), é lançada
formalmente a proposta do PT. Ela vinha em um texto assinado por um grupo de
trabalhadores do qual despontava o nome de Benedito Marcílio, dos Metalúrgicos
de Santo André, que mantinha vínculos com o agrupamento "trotskista"
Convergência Socialista (CS).
De certa forma, a tese recebe apoio dos mais variados setores. Neste encontro,
até mesmo Joaquim dos Santos Andrade, o "Joaquinzão", presidente do Sindicato
dos Metalúrgicos de São Paulo, vai aceitar a proposta, ainda que com uma
filosofia diferente da defendida pelos delegados de Santo André20.
Uma reunião realizada no Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, no dia 30 de
janeiro de 1979, que havia sido acertada por alguns dirigentes sindicais como a
reunião para a definição da carta de princípios do partido, acaba por ser
apenas, conforme indicado pela maioria dos dirigentes presentes, uma reunião
para organização de uma campanha nacional pela garantia do emprego e pela
equiparação do salário mínimo. Nesta maioria despontavam Arnaldo Gonçalves e
Hugo Perez - sendo o primeiro ligado ao PCB, o segundo ao Movimento
Revolucionário 8 de Outubro (MR8) e ambos identificados com a posição de defesa
do MDB como polo aglutinador da luta democrática. A posição da maioria acerca
do tema era pelo adiamento, sem data, da discussão sobre o partido.
O jornalEm Tempo nº49, de 1979, identifica três posições definidas, envolvidas
no processo. A primeira, assumida por Joaquim dos Santos Andrade. Segundo o
jornal, a posição de "Joaquinzão" era efetivar, o quanto antes - daí o apoio
maciço do grupo em Lins -, a criação do partido com corte social democrata,
como auxílio do regime. O jornal assinala declarações do representante da DRT
de São Paulo que teria dito ver "'com bons olhos a resolução de Lins' desde que
este partido não seja 'apenas dos assalariados' e não busque 'pessoas que
cometeram erros no passado'". A segunda posição seria aquela defendida por
Arnaldo Gonçalves e Hugo Perez, que "se definiria pela tolerância quanto ao
debate do partido, mas desde que fosse somente debate, e que não obstaculizasse
a unidade em torno do MDB". A terceira, representada por Lula e Jacó Bittar,
defendia o partido com um corte socialista e insistia na crítica ao MDB21.
Duas das visões referidas acima se identificavam nas lutas então em ascenso e
iam se definindo enquanto um "sindicalismo autêntico". Neste sentido, os grupos
vão se decidindo por posições diferenciadas e estabelecendo os primeiros passos
na disputa pela hegemonia política e sindical. De um lado, a posição de Arnaldo
Gonçalves; de outro, a de Lula. Pode-se dizer que, apesar de ter o MDB como
centro de defesa e ataque, as questões vão muito mais fundo em termos do
cenário das esquerdas (Santana, 1999). O PT ia abrindo espaços.
Segundo Lula, defensor do PT,
Para a burguesia é um atrevimento que nós, simples trabalhadores,
estejamos declarando que queremos um partido sem eles e distinto dos
deles. [Daí] a enxurrada de pichações que veio em cima da resolução
de Lins por toda a grande imprensa (...) vai continuar falando sobre
o Partido por todo canto, pois está convencido que a política é coisa
muito séria para ficar entregue somente ao MDB(Em Tempo, nº 49,
1979).
Lula é seguido por Jacó Bittar em suas críticas ao MDB. Segundo ele é
importante, com a deflagração do debate, romper "com a falsa unidade, meramente
eleitoreira, do MDB (... ) esta federação de oposições não é um instrumento
capaz de desgastar o sistema ditatorial que aí está a explorar e oprimir os
trabalhadores".
Assim, a proposta de um PT vai sendo definida em debates e delimitações de
fronteira, tanto no campo interno quanto no campo externo. O fato é que, devido
à sua orientação geral, o PCB se distanciava bastante dos grupos formadores do
PT. Sem sombra de dúvida, isto tinha rebatimento no meio sindical, onde as
posições já vinham se chocando. O PCB não poderia se associar àqueles grupos
considerados mais radicais, na medida em que poderia se submeter a posturas
contrárias à sua linha política mais ampla de posições cautelosas.
A participação do PCB nos debates acerca do PT vai se dar quando dele ainda
participavam forças do campo sindical conservador. Coerentemente com sua
política de "frente" contra a ditadura, organizada no MDB, o PCB buscou
constantemente esvaziar o debate acerca do PT e indicar o caminho, a seu ver,
mais correto.
Além disso, o PCB desferiu, como vimos, duras críticas ao PT. Este não ficou
impassível e retrucou. Em entrevista tempos depois da fundação do PT, Lula
disse: "Com que direito o Partido Comunista se acha partido da classe
trabalhadora? O partido da classe trabalhadora é aquele em que a classe
trabalhadora está participando dele, tem hegemonia. E ninguém me diz que é o
PC" (Morel, 1981:146).
Em outra entrevista ao jornalTribuna da Imprensa, no dia 12 de fevereiro de
1980, Lula devolve as críticas da "esquerda oficial" ao PT, dizendo:
Não é novidade o pessoal do PC ser contra o PT. Porque eles entendem
que o partido dos trabalhadores já existe desde 1922 e que eles são
os legítimos representantes da classe trabalhadora. Eu acho que
ninguém é dono da classe trabalhadora. Eles talvez pensem que, com o
crescimento do PT, nós fecharíamos as portas para as tentativas de
legalização do PC e de outros partidos (NAP, 1981:252).
Em sua quarta edição - julho 1979 -, já em pleno funcionamento do movimento
pró-PT, o jornal
Companheiro
22 tece suas críticas ao MDB, se posicionando contra os argumentos que eram
defendidos pelo PCB, segundo a matéria intitulada "Algumas dificuldades no
caminho":
Para justificar sua militância no MDB, muitos deliciaram-se por
longos anos com frases do tipo "o MDB não é o partido que queremos,
mas é o que temos". Não compartilhamos deste realismo, claro
fatalismo de quem não acredita na força transformadora da classe
operária. Julgamos um erro colocar essa força sob a direção da
burguesia liberal que é quem, na prática, controlou e controla o MDB
enquanto partido.
Nesta mesma edição, o jornal traz uma entrevista com Florestan Fernandes, na
qual ele, acerca do processo de rearticulação partidária, tece comentários
críticos a determinadas trajetórias de partidos e movimentos políticos no
Brasil e no mundo. Seu ponto de vista:
Não vou me arrogar o direito de saber o que os trabalhadores pensam
hoje a respeito do PTB, se apoiariam de novo a demagogia ou se
voltariam para um tipo de partido vinculado com interesses do
proletariado e o tipo de luta política que lhes convém. Só a prática
vai mostrar isso. (...) Acho que em termos de crítica da atuação dos
partidos políticos socialistas na América Latina pode-se dizer que
verdadeiramente só duas correntes tiveram vinculação profunda com a
classe trabalhadora: os anarco-sindicalistas e o partido comunista.
Infelizmente, a história caminhou numa direção que não favoreceu uma
atuação congruente desses partidos.
Já na edição de número cinco, o jornal traz uma entrevista com Olivio Dutra, à
época presidente do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre. Perguntado qual
seria a função de um partido dos trabalhadores, Dutra assinala que
de início, deve-se buscar a organização independente dos
trabalhadores, sendo que o partido seria uma destas formas, não a
varinha de condão que resolveria todos os problemas. [Ele] É um
partido que terá vida permanente na base da discussão democrática em
todos os locais onde houver trabalhadores. As bases é que estarão
dando a orientação para a direção do partido - que deverá ser uma
direção permanentemente modificada, rodiziada, numa vivência
democrática muito diferente das que temos aí nos partidos contra os
quais fazemos críticas.
Na verdade, esta questão espelhava bem a diferença entre o PT - pelo menos até
aquele momento - e o PCB. No caso do PT, por ter sido fruto direto do ascenso e
da articulação dos movimentos sociais, o partido se pensava enquanto uma ponta
de lança destes movimentos na arena político-institucional. Daí todo o discurso
de que o PT faria do parlamento uma mera "caixa de ressonância" para a luta dos
trabalhadores. O próprio partido se revestiria assim de uma qualidade especial:
ele viria secundariamente na lógica de ação dos movimentos, seria um porta-voz
mais que um condutor (Keck, 1991), obedeceria mais que comandaria. Já no caso
do PCB, a lógica seria inversa. Baseado na longa tradição dos partidos de corte
leninista, este partido se investiria no papel do condutor das massas. Devendo
basear suas diretivas na conjugação e articulação de fatores objetivos e
subjetivos, este partido seria o verdadeiro representante dos interesses da
classe trabalhadora. Ele, ainda que baseado nos movimentos e nas reivindicações
da classe, deveria servir como condutor e agenciador destas demandas, fazendo
com que as mesmas escapassem ao reducionismo e atingissem um grau de
generalidade que precipitasse a mudança social.
A partir de suas análises de conjuntura, os comunistas duvidavam da
possibilidade de sobrevivência do PT. Como indicava Arnaldo Gonçalves, "seria
ingenuidade" crer que, sob aquele regime militar, ainda que este estivesse se
alterando paulatinamente, se pudesse concretizar a proposta de um partido dos
trabalhadores. Mas, apesar da leitura comunista, o processo avançou
rapidamente, trazendo algumas novas perspectivas que contrariariam a sua visão.
A reformulação partidária que se inicia com a extinção do MDB e da ARENA, em
novembro de 1979, abriria o caminho da organização de outros partidos.
Conforme assinala Maranhão (1981:11),
Embora o MDB tivesse o papel de expressão dos descontentamentos nos
momentos eleitorais, ele nunca chegou a organizar efetivamente uma
representação política popular, no cotidiano das suas lutas.
Entretanto, nos anos de 1978 e 1979, o partido de oposição tendeu a
transformar-se de um "saco de gatos" que era, em uma efetiva frente
política, de luta contra o regime ditatorial. O governo passou a
temer que este partido congregasse desde os setores liberais do
empresariado descontente até as nascentes forças do movimento
operário. Por isso mesmo, aproveitou-se casuisticamente das
crescentes pressões da sociedade brasileira no sentido de uma
expressão política livre para extinguir em novembro de 1979 o MDB (e
também a ARENA) e dar início à "reformulação partidária". Sem atender
os reclamos pelo livre direito de organização de partidos, o governo
tentou dividir as forças oposicionistas através de uma lei repleta de
exigências, capazes de dificultar enormemente a organização política
dos diferentes interesses sociais.
Com a perspectiva da reformulação partidária, mesmo que esta fosse elaborada
com intuitos casuísticos e estratégicos pelo regime, abria-se a possibilidade
da proposta do PT - que ao longo de 1979, após as discussões e os impasses
iniciais, toma a forma de um Movimento Pró-PT - materializar-se em um partido
legalmente reconhecido. Para que se tenha uma ideia do avanço das articulações
e dos trabalhos de consolidação do partido, basta vermos os números deste
movimento em São Paulo onde, como indica Meneguello (1989:68), "em dezembro de
1979, o MPT compunha-se de 251 filiados e 23 núcleos formados ou em formação".
A preponderância dos sindicalistas na Comissão Nacional Provisória era bastante
sensível. Naquele momento, ela "compunha- se de 17 membros, dos quais mais da
metade eram lideranças do novo sindicalismo"(idem).
Após um sem número de reuniões e debates que percorreram o país inteiro, o
Partido dos Trabalhadores é oficialmente fundado no dia 10 de fevereiro de
1980, em reunião no Colégio Sion de São Paulo23. Os comunistas erraram na
avaliação. A aposta por setores militantes no que seria uma "ingenuidade" para
o PCB gera um partido que já nascia com relativa inserção no movimento
organizativo dos trabalhadores e que apresentava disposição para buscar sua
hegemonia. Esse mesmo partido, em curto prazo, toma o lugar histórico do PCB na
esquerda brasileira, como seu partido de referência24.
O PRESENTE CONSTRÓI O PASSADO
A própria visão do PT acerca de sua posição na história das esquerdas
brasileiras mereceria um destaque especial, e nela o PCB ocuparia um lugar
central. Aqui, poderíamos indicar que, formado por diferentes grupos com
trajetórias também distintas, o PT vai incorporar dos mesmos aquilo que eles
traziam de comum acerca do passado. Uma crítica acerba quanto às práticas
anteriores. O dado interessante é que, de certa forma, este passado não se
definia por um passado geral e pouco preciso. Ele era bem delimitado e situado
no período imediatamente anterior ao golpe de 1964. Ainda que com nuances,
estas visões definiam tal período como aquele em que ao mesmo tempo coexistiam
a manipulação das massas através do "populismo"25 e a possibilidade da
revolução socialista, perdida devido aos erros de direção do PCB.
Centrada de forma geral no período 1945-1964, as visões conformadoras da ótica
"petista" apontavam criticamente os equívocos dos comunistas em seu atrelamento
aos destinos do populismo. Os comunistas teriam definido sua postura dentro do
"pacto populista" por uma ação "reformista", pelo distanciamento das bases, por
uma forte atuação em termos das cúpulas sindicais e políticas, atraindo o
movimento dos trabalhadores para o interior da estrutura sindical corporativa-
oficial. Isto teria manietado o sindicalismo e facilitado o fato de o golpe
civil- militar não ter encontrado resistência que lhe fizesse frente.
Obviamente, ao PT e ao movimento sindical "combativo" cabia não se enveredar
pelo mesmo caminho. A história havia indicado que o mesmo era falacioso e pouco
produtivo em termos de obtenção tanto dos interesses imediatos, como dos
interesses estratégicos da classe trabalhadora. A história vai servir de palco
para o debate dos caminhos a serem seguidos no presente e no futuro.
Um fato importante é que a academia também deu sua colaboração, servindo de
elemento de destaque no processo de consolidação das referidas visões acerca do
passado. Em seu trabalho de análise crítica do processo histórico, setores da
intelectualidade vão contribuir fornecendo subsídios às disputas pela história
(Santana, 1999a). Trabalhos como os de Weffort (1973, 1978a, 1978b), acerca do
sindicalismo do pré-1964, serviram para consolidar uma visão extremamente
crítica acerca da participação dos comunistas naquela conjuntura. A construção
do passado sustentava as posições no presente. Weffort que se associou ao grupo
de fundadores do PT, acabando por ser seu secretário geral, desde meados dos
anos setenta participou dos debates sobre os rumos da esquerda brasileira e
acerca das possibilidades da criação de um partido de corte popular e
socialista no Brasil.
Conforme indicado em Santana (1999), alguns elementos importantes para a
consolidação da ideia de um "novo sindicalismo" partiram do referido autor.
Nelas também percebemos a ideia de ruptura com o passado, com a tradição de
esquerda até ali. Para Francisco Weffort, em entrevista aos "Cadernos de
Debate, História do Brasil", em 1976, o golpe de 1964 teria aberto a
perspectiva de um repensar, tanto teórico quanto político, acerca da classe
trabalhadora e sua participação na política brasileira.
O período pós-64 representa uma ruptura, ou melhor, oferece as bases
para uma ruptura, ao nível das elites intelectuais e políticas, da
imagem elitista feita sobre a classe operária. O elitismo veio à
tona, o que cria a possibilidade de se formular um ponto de vista
novo sobre o que pode vir a ser a participação da classe operária em
nossa política. (Weffort, 1976:82).
Na mesma entrevista, Weffort assinala que as massas não ficariam à margem deste
processo, já que "podem também, dentro de sua própria experiência histórica,
perceber corretamente o que significa a situação atual e acrescentar esse
conhecimento à sua experiência". Esse elitismo, "menosprezo pelas massas",
seria predominante na historiografia brasileira desde o período colonial e, "de
maneira mais sofisticada", permearia "inclusive as ideologias de esquerda".
A visão da história marcada por rupturas, contudo, não significava apenas uma
distinção entre partes, mas em grande medida vinha somada à valorização de uma
das partes em que se cindira a história, jogando-se a outra imediatamente para
o espaço do negativo, uma espécie de "anjo caído" do processo. Deste modo, as
análises realizadas sob esta perspectiva não só passaram ao largo das possíveis
continuidades e semelhanças entre os períodos nos quais dividiam a história,
como também tiveram dificuldades em perceber suas especificidades. Isto pode
ser considerado válido tanto para os "cortes" e "novidades" do "novo
sindicalismo", como para os do PT.
No caso da constituição do "novo sindicalismo", tanto a ideia da ruptura como a
da desqualificação de outros períodos produziram efeitos discursivos e
práticos, levando a uma confusão entre o que "é" e o que "deve ser". Estes
estudos tiveram forte influência sobre o movimento social, fornecendo-lhe, e
com ele adquirindo, novas dimensões, em um contexto de redefinições e disputas
(Santana, 1999). Paralelamente à gestação do "novo sindicalismo", diversos
estudos foram produzidos não só a respeito dos "novos atores", mas também
acerca dos "velhos". O intercâmbio de ideias era grande, intensificado pelo
fato de que muitos dos intelectuais produtores destes estudos duplicavam sua
jornada desenvolvendo atividades militantes.
A divergência e a disputa de posições nos campos político e sindical levaram ao
estabelecimento de uma via de mão dupla entre os militantes e o meio acadêmico.
Assim, se a identificação das correntes interpretativas com os grupos sindicais
envolvidos refletiu simpatias com tendências políticas, da mesma forma, com
suas análises, os acadêmicos contribuíram para reforçar a identidade dos grupos
uns em relação aos outros. É a partir desta relação que se estabeleceram os
marcos centrais que informaram suas visões acerca do passado e do presente,
balizando o corte entre o "velho" e o "novo", "tradição" e "novidade".
O PCB vai aparecer nestes estudos sempre acompanhado de duras críticas. O papel
desempenhado pelos comunistas e pelo movimento sindical no período 1945-64 vai
ser pesadamente criticado por Weffort (1973 e 1978a)26. A leitura do passado
apresentada pelo autor não estava desarticulada de suas práticas e projetos no
presente. A produção acadêmica de Weffort acerca do período anterior a 1964,
segundo sua própria intenção, mantém claras relações com a sua inserção e
orientação no campo político. Para ele,
a revisão crítica do passado não se refere apenas ao passado [...] o
problema que inevitavelmente se coloca em face das questões do
presente de uma esquerda perplexa e desvinculada da classe operária é
o da avaliação crítica da herança recebida. [...] Com que parte da
herança devemos ficar? (Weffort, 1978b:17-18).
Assim, os debates presentes na disputa pela hegemonia nos setores da esquerda,
na política em geral e no meio sindical em particular definiam como um de seus
campos de batalha o passado. Como bem indicou Vianna (1983:9), "os fatos não
passam de fatos, e só vêm a integrar o campo da política na medida em que
organizados e interpretados por quem é ator em política".
Estes "atores em política" vão trazer estes fatos para o interior do jogo da
política e trabalhá-los fazendo com que ganhem sentido nas disputas em curso. O
PCB que no presente se comportava se aliando aos setores "pelegos" do movimento
e que insistia nos pedidos de cautela, sempre temeroso de retrocessos, evitando
assim apoios a movimentos "mais ousados", era o mesmo do pré-64. Sua prática e
atuação indicavam isso. O passado era corroborado e ao mesmo tempo reforçava o
presente. A prática dos "herdeiros" deveria ser a negação de tudo aquilo,
indicando os novos rumos a serem seguidos pelo movimento dos trabalhadores.
Agregando-se a isso o debate das novidades apresentadas pela nova classe
operária brasileira, que nada ou quase nada a identificava com aquela "velha"
classe operária que, por desígnio próprio ou pelos engodos do "partidão", se
entregou ao cadafalso do "pacto populista", o cenário estava montado para a
encenação de uma ruptura total entre o passado e o presente. O presente, que
ainda timidamente só aceitava como ligação com o passado os movimentos de
Osasco e Contagem, começaria em 1978, nas greves do ABC. Ali se estabeleceria o
marco inicial do chamado "novo sindicalismo". Em tudo e por tudo distinto do
"velho" sindicalismo de outrora. A própria designação dos períodos já
denunciava a perspectiva "rupturista" e quase puritana. Era o "novo" contra o
"velho". Em um país onde a busca do novo vem marcada por forte conotação
positiva, pode-se perceber o poder que mesmo apenas as designações já possuem.
Se no movimento sindical este tipo de distinção disseminou-se rapidamente, no
PT se estabeleceu com caráter ainda mais generalizado, cheio de pretensões. O
partido parecia saído do nada. Praticamente nada parecia chamar à reflexão
sobre as origens de suas vertentes fundadoras. Como se seus membros, oriundos,
dentre outros, de setores da Igreja, do "trotskismo", da luta armada e até do
próprio PCB, não carregassem também fortes heranças passadas, com vínculos
passados, sendo portadores de "novidade" de per se. Oriundo apenas das grandes
greves e mobilizações mais recentes dos movimentos populares no Brasil. Em um
livro acerca da história do PT, Sader e Silverstein (1995) estampam em seu
primeiro capítulo um título bastante elucidativo: "Um país sem tradição de
esquerda".
Se podemos aceitar a falta de uma tradição de esquerda consolidada em nosso
país seria só, e apenas, no sentido de que a falta de liberdade que grassou em
nossas praças e o sectarismo interno das forças de esquerda precipitaram tal
deficiência. Mesmo assim, seria difícil aceitar esta visão e significaria
corroborar o argumento das elites. Se olhados com atenção, podemos perceber as
heranças que vão se perpetuando ao longo de nossa história em termos de
orientações e práticas. A pressa em tentar desfazer-se da tradição anterior,
negando-a de forma simplória, faz com que, ainda que lhes dando nomes
diferentes, acabemos por repetir muitos dos erros que acusamos o passado de
cometer.
O PT, assim, trouxe em si uma novidade importante para a história dos
movimentos de esquerda em nosso país - o que, de resto, também havia sido
representado pelo PCB em outro momento histórico -, porém, no afã de se
consubstanciar na alternativa política e de representação dos trabalhadores,
criticado à direita e à esquerda, o partido constituiu uma série de posições
acerca da história do movimento operário no Brasil e acerca de si mesmo neste
processo que, sem dúvida, ficam muito aquém das novidades e contribuições por
ele trazidas. De todo modo, deve-se dizer, as adequações práticas, em termos
conjunturais, de muitas de suas orientações e posições podem ser avaliadas pelo
seu crescimento ao longo de toda a década de 1980, transformando-o, já na
virada da década, no partido mais expressivo e referente da esquerda
brasileira. O mesmo não foi experimentado pelo PCB.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A disputa pela hegemonia vivida pela esquerda brasileira na passagem entre as
décadas de 1970 e 1980 trouxe como instrumentos de luta elementos concretos e
simbólicos. Naquele contexto, crítica e autocriticamente, as forças políticas
esgrimiram no sentido de avançar nos espaços de liderança e orientação do
movimento dos trabalhadores. Ali se definiria, para os anos vindouros, forças
de pensar e agir norteadoras dos passos dos trabalhadores e da esquerda
brasileira. Os argumentos utilizados pelo PCB em sua crítica ao PT e os do PT
contra o PCB, dispostos ao longo deste artigo, servem para observarmos um dos
eixos pelos quais se deu a luta pela hegemonia no interior da nossa esquerda no
período.
Com o sindicalismo voltando à tona naquela conjuntura, conjugadamente ao
processo de abertura política, os grupos de esquerda no Brasil tiveram a
possibilidade de apresentar seus projetos de intervenção política e sindical.
Na diferença entre eles ocorreu a disputa. Dela, apenas um poderia sair como
vencedor, ou seja, como partido referência da política de esquerda no Brasil. E
isso aconteceu. O PT assumiu o posto que durante muito tempo coube aos
comunistas no movimento sindical e no cenário político em geral. Pode-se dizer
que houve uma vitória da proposta do PT como forma de fazer política nos anos
1980.
O PCB, em termos de proposta, sempre se caracterizou pela insistência na
importância da luta pela unidade das forças democráticas nas diversas frentes
de luta contra o regime. Em política, a unidade não se define apenas
abstratamente. Ela tem de ser definida em termos das perspectivas imediatas
conjugadas e cotejadas às perspectivas estratégicas. Se o PCB buscou sempre
caminhar no sentido da unidade e unificação das propostas contra a ditadura,
nem por isso garantiu sua eficácia e, menos ainda, o sucesso tanto das
propostas como também de suas próprias posições no interior da aliança.
Crescentemente o partido foi perdendo influência no campo político e sindical.
Sua política de submeter sua participação no movimento operário à lógica de sua
política geral de movimentos lentos e cuidadosos fez com que, distanciando-se
dos passos da "classe em movimento", abrisse espaços para o crescimento do PT.
O PCB, longe de sua história, acabou sendo um rival de papel reduzido ante as
propostas do PT.
No que diz respeito à sua inserção no sistema político, o partido buscou
constantemente demonstrar que era confiável e poderia atuar no interior deste
sem buscar sua desarticulação. Tendo em vista sua condição de proscrição, e
lutando contra uma ditadura, a incipiência do sistema democrático na vida
política nacional e sua lógica de ação política, a conquista e a manutenção da
democracia e, a partir daí, a obtenção de mudanças estruturais na sociedade
foram a tônica da ação do partido ao longo do período. Ao mesmo tempo em que,
na maior parte do período, na luta pela redemocratização do país, tentou seguir
uma lógica política moderada e cautelosa, o PCB procurou dar conta de uma
realidade bastante dinâmica que, muitas vezes, o empurrou para longe do
movimento vivo dos trabalhadores.
Desde o golpe civil-militar e ao longo de toda a duração da ditadura, o PCB
defenderá uma atuação baseada em amplas forças sociais que, primeiro, garanta o
enfraquecimento do regime; depois, que sustente a transição e, posteriormente,
subsidie o regime democrático. Esta linha política, levada aos sindicatos, fez
com que os comunistas intensificassem e estreitassem suas alianças com os
setores mais conservadores do movimento sindical e se afastassem do polo
dinâmico que surgiria em fins dos anos setenta. Tal perspectiva levará o
partido a um enfraquecimento progressivo e a um ponto de quase nenhuma
influência no meio sindical ao fim do período. Os comunistas, que no período
pré-golpe travaram uma luta árdua contra os setores "pelegos", no pós-golpe
acabavam por atrelar seu destino aos desígnios daquele setor. Baseando-se em
sua linha política mais geral que recusava posturas de enfrentamento e tendo
seu campo político ocupado à esquerda, o PCB caminhará lenta, mas firmemente,
para a perda de sentido histórico.
Quando do reaparecimento do sindicalismo a céu aberto em fins dos anos setenta,
o PCB ainda mantinha uma certa importância no seio do movimento e, de alguma
maneira, mesmo associado aos "pelegos", ia defendendo posições em termos de
trazer os sindicatos "à luta", diferentemente de seus aliados. O fato é que
"novos atores entram em cena", propondo práticas "combativas", marcadas pelo
enfrentamento e ameaçam a soberania do "Partidão" enquanto senhor supremo da
representação da esquerda e dos trabalhadores. O partido vai buscar garantir os
seus espaços informado por uma linha política geral que o afastava dos
"combativos" e o aproximava, quase que o anexava, aos conservadores. Os
comunistas que sempre estiveram alinhados em favor de posições progressistas
para a vida sindical e associados àqueles que também compartilhavam, ainda que
minimamente, desta ideia, agora, solidificados no bloco dos conservadores,
acabavam por ir contra as forças que buscavam, ao menos à época, a
democratização e o arejamento sindical.
A perda de significação no interior do movimento sindical não foi a única. Na
arena política geral, os comunistas tinham sua inserção também restrita. Qual
seria o papel de um partido que no passado havia, de certa forma, sido
funcional na lógica de um arranjo que dependia dele no sentido do auxílio da
integração dos trabalhadores aos pactos políticos e que, agora, vivia sob
condições políticas nas quais os trabalhadores não eram pensados como
interlocutores e participantes dos arranjos e decisões? Se no passado os
comunistas haviam se identificado com os trabalhistas-progressistas até a quase
falta de delimitação entre eles, agora pareciam confundidos com os democratas e
liberais que lutavam pela conquista da democracia e por sua manutenção. O fato,
porém, é que sua situação frente aos aliados no passado lhes garantia um espaço
permissivo de ação e desenvolvimento. No novo caso, sem uma função específica
nos acordos políticos, os comunistas não tiveram seus espaços franqueados e
muito menos ampliados. O que restaria a um partido que se pretendia da classe
trabalhadora, mas que nela não tinha mais bases suficientes de sustentação, e
que como partido político visava intervir na lógica geral da política nacional,
mas que não tinha nem espaços nem condições para isso?
As posições assumidas neste período de transição foram fundamentais para a
existência do partido posteriormente. O partido vivia um dilema: por um lado,
não tinha grandes penetrações no movimento sindical e operário que lhe
sustentassem em termos de base e, talvez por conta disso, não possuía maiores
possibilidades de intervir de forma mais intensa nos rumos da política
nacional, como fizera outrora. Além disso, já havia um outro partido com forte
lastro operário e crescente participação no cenário político. Por outro, os
comunistas tinham seus símbolos e santuários em declínio em âmbito
internacional. Foi com esta questão que o PCB, no início dos anos 1990, chegou
ao seu X congresso.
No que diz respeito ao PT, parecia viver no melhor dos mundos em termos da
disputa no interior das esquerdas. O desenvolvimento do cenário político
demonstrou que o PT aumentou seu grau de influência não só no interior dos
setores de esquerda, mas também em termos eleitorais. E isso não pode ser
atribuído apenas às mudanças que o PT vai sofrendo ao longo do tempo, pois,
mesmo com pouco tempo de existência, o PT já se credenciava para a conquista de
cargos parlamentares e até mesmo de executivos municipais. O PT demarcou
contraposição às posições políticas do PCB. No decorrer dos anos 1990, o PT se
transformou no maior e mais forte partido político de esquerda no país,
tornando-se a sua referência. Neste período o partido não só cresceu em termos
parlamentares, como também intensificou a conquista de executivos municipais e
até estaduais. Além disso, ainda que em aliança com outros setores, concorreu
de forma marcante em pelo menos duas eleições presidenciais no período.
Na esfera sindical o PT consolidou sua influência ou a de seus militantes, e a
CUT se transformou no maior e mais duradouro projeto sindical de esquerda da
história do Brasil. Não se trata aqui de uma comparação pura e simples que
desconsidere o enorme peso contrário que recaiu sobre o PCB mesmo após sua
legalidade. O que pudemos demonstrar é que, com a crise pela qual passou o PCB
em fins dos anos 1980, que levou à sua extinção na entrada dos anos 1990, ele
acaba por socializar seu espólio militante entre o PT, o Partido Popular
Socialista (PPS) e os militantes que buscaram reconstruir o próprio - para
alguns um outro - PCB.
Já para o PT, abriu-se um campo largo que, a cada eleição, ampliava-se. O
partido sofreu sensíveis alterações com o passar do tempo abrindo-se para
orientações e práticas impensáveis quando de seus primórdios. Algumas delas o
assemelhariam ao PCB. Além disso, já nos fins dos anos 1980, o sindicalismo CUT
era a projeto sindical hegemônico, vindo a tornar-se também o de maior duração
ao longo de nossa história. Este sindicalismo, ao seu modo, teve também de
travar lutas internas e externas, com aliados e opositores, durante as quais
modificou seus eixos de organização e orientação. Lembre-se que, nos anos 1990,
a caminhada de PT-CUT se deu sob fortes pressões e agruras da década neoliberal
sobre a sociedade. Foi com tal trajetória que aquela geração, fundadora do PT e
da CUT, chega à Presidência da República, na figura de Lula, nas eleições de
2002. A chegada do PT ao governo abriu uma série de questões para o partido e
os sindicatos, bem como para a sua relação. Elas ainda estão a clamar por
análises mais robustas e distanciadas que perscrutem os impactos efetivos desta
importante experiência para a história da esquerda brasileira.
NOTAS
1. Deve-se dizer que este processo já se dava em menor escala, quando da
chegada de candidatos de esquerda aos legislativos e executivos municipais e
estaduais. Mas o acesso à Presidência da República deu-lhe outro escopo e
qualidade.
2. Para mais informações acerca da trajetória do PCB ver, entre outros,
Chilcote (1982), Del Picchia (1980), Frederico (1987), Gato (1979), Pacheco
(1984), Segatto (1989), Vinhas (1982).
3. Comunistas, neste artigo, diz respeito aos militantes do PCB.
4. Claro está que não pensamos tais agremiações como instituições monolíticas.
Sabemos de sua rica e divergente vida interna, bem como dosgaps existentes
entre suas formulações e a prática de seus militantes. Contudo, no horizonte
deste artigo, fomos obrigados a ficar, na maioria das vezes, com o que
uniformizava mais tais vozes.
5. Um conjunto de trabalhos pode ajudar ao leitor com referências às diversas
visões acerca do período de ditadura. Entre outros, ver Toledo (1997), Soares e
D'Araújo (1994), Aarão Reis Filho, Ridenti e Motta (2004), Araújoetalii (2004),
Fico (2004) e Fico e Araújo (2009).
6. Para mais elementos sobre a conjuntura ver, entre outros, Krischke (1982) e
Vianna (1983; 1986).
7. O movimento estudantil teve participação importante nesta conjuntura, como
por exemplo, com suas manifestações no ano de 1977 (ver Araújo, 2007). Para o
caso do movimento operário ver, entre outros, Antunes (1988) e Martins (1994).
8. Eram muito presentes, neste momento, entre as insígnias "petistas" as ideias
de que ele era um "partido sem patrão" e a de que "trabalhador vota em
trabalhador".
9. Com o Ato Institucional de número 2, em 1965, a ditadura extinguiu o
pluripartidarismo então existente impondo o bipartidarismo. Foram criados um
partido da "situação", a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), e um partido da
"oposição", o MDB.
10. De certa forma, Brizola era um elemento de desestabilização tanto para o
PCB, como se percebe na fala de Gonçalves, quanto para o PT. Representando a
memória de lutas passadas e buscando reorganizar suas forças no presente,
Brizola surgia como jogador importante, correndo em raia própria, em meio à
disputa. Não por acaso, a ditadura usou de ardis para que ele não recuperasse a
sigla PTB quando da reforma partidária.
11. Periódico de uma das tendências fundadoras do PT.
12. A proposta de uma CUT estava presente nas propostas de muitos grupos já
desde pelo menos meados dos anos 1970. Em 1981 (Menezes e Sarti, 1981),
realizou-se a I Conferência Nacional das Classes Trabalhadoras (CONCLAT). Daí
formou-se a comissão Pró-CUT. Contudo, no ano de 1982, que seria o ano de
fundação da CUT, sob a alegação de ser um ano eleitoral e que poderia dividir
os trabalhadores, o PCB e seus aliados divergirão dos setores ligados ao PT,
mas manterão a posição, adiando o congresso. Já no ano de 1983, agora sob
outras justificativas, se tenta adiar mais uma vez o conclave. Os setores
ligados ao PT, junto a outros, realizam o congresso sem a presença dos seus
adversários, fundando a CUT. Os comunistas e seus aliados criarão a CONCLAT,
depois fundarão a Central Geral dos Trabalhadores (CGT), em 1986. Rodrigues
(1997) traz uma análise detalhada da trajetória da CUT. Para dados mais gerais
sobre o sindicalismo da conjuntura ver Boito Jr.(1991).
13. Depois de derrotada a chamada Emenda Dante de Oliveira, que propunha a
eleição direta para presidente, o caminho para alguns setores de oposição,
marcadamente aqueles ligados ao PMDB, foi organizar uma chapa que concorresse
pela via indireta no interior do Congresso Nacional. Neste processo surgiram
duas candidaturas. No lado governista foi lançado Paulo Maluf. Pela oposição
foi lançado Tancredo Neves.
14. Já desde as eleições de 1982 os comunistas vão defender a ideia do voto
útil, ou seja, tentarão convencer forças políticas e eleitores de que se deve
apoiar os candidatos e partidos que tivessem, ainda que supostamente, mais
chance de ganhar as eleições. O PMDB apareceria sempre como este partido. Sobre
o PT recairia sempre a pressão de ter de ceder em prol deste.
15. Vale dizer que, se o PT conseguiu seu registro como partido, ao PCB este
direito só seria facultado em 1985. Portanto, cinco anos depois. Assim,
enquanto o PT agia como partido legal, o PCB ficava condenado ainda à
ilegalidade, com todo o peso e limites que isso impunha.
16. Não se está negando aqui a inserção dos trabalhistas entre os
trabalhadores. O que se quer dizer é que eles não puderam, porque talvez
dispusessem de outra estratégia, rivalizar com os comunistas em termos de sua
inserção na base do movimento dos trabalhadores organizados.
17. Deve-se lembrar que não foi só o PCB que divergiu e criticou o PT. O
Partido Comunista do Brasil (PCdoB) também fez várias críticas ao PT.
18. Como bem indicou Rodrigues (1991:27), "A formação do PT viria acentuar as
divergências já existentes no interior do sindicalismo brasileiro. Os
comunistas (... ) não poderiam ver com simpatia o surgimento de um outro
partido que viesse disputar com os PCs o controle do movimento trabalhista".
19. Ver, entre outros, Sader (1987), Ribeiro de Oliveira (1988), Meneguello
(1989), Gadotti e Pereira (1989), Berbel (1991), Keck (1991), Ferreira e Fortes
(2008) e Angelo e Vila (2009).
20. Como vimos na parte anterior deste trabalho, a presença deJoaquinzão foi
usada pelos comunistas para criticar os setores mais à esquerda que defendiam a
criação do PT. Quanto à proposta do PT, Henos Amorina, presidente do Sindicato
dos Metalúrgicos de Osasco, afirmara no encontro que, no prazo de dez dias, a
carta de princípios do partido estaria lançada. Porém, uma semana depois ainda
havia muita névoa em torno da proposta, podendo, entretanto, perceber-se uma
movimentação dos mais diversos setores.
21. Segundo o jornal, contudo, haveria uma outra "posição" que poderia ser
definida como a maioria. Esta "está de fato fora destas posições, desinformada,
confusa, ou mesmo entrando na onda para ver onde vai dar, como é o caso de João
Silveira, dos Metalúrgicos de Belo Horizonte e Contagem, notável pelego, que
agora se diz 'inclinado para o socialismo'".
22. Periódico de uma das tendências fundadoras do PT.
23. "Naquela reunião ficara aprovada nova Comissão Nacional Provisória do
partido, em processo de escolha por 750 líderes presentes, dentre os quais 14
parlamentares emedebistas, oito desses do Estado de São Paulo" (Meneguello,
1989:68).
24. Lembremos que nem tudo foram flores na trajetória inicial do PT. Ainda que
não tenha se tornado "inviável" como pensavam - e queriam - os comunistas, nos
seus primeiros anos de existência, já como partido, o PT teve de lidar com
algumas dificuldades. Logo nas eleições de 1982, o PT, apesar dos avanços
obtidos-já em sua primeira participação no sistema eleitoral, ganha assentos no
Congresso Nacional e a Prefeitura de Diadema -, não teve a votação expressiva
que muitos imaginavam, obrigando-o a dar conta da descrença até de alguns de
seus setores constitutivos. Isto porque, mesmo ocupando espaços, o resultado
esteve muito aquém daquilo esperado pelos militantes e pelo partido. Segundo
Meneguello (1989:194) "a constituição do PT como inovação no quadro partidário
refletiu-se nas urnas em 1982 como um fenômeno de alcance limitado. O teste
eleitoral de 1982 mostrou que o apelo classista e a ideia de inovação política,
tônicas do discurso petista, não tiveram o alcance esperado pelo partido".
Ainda que acentuasse a participação institucional-parlamentar como um ponto
secundário de sua ação, o resultado vai ter um efeito duro no partido. Segundo
Gadotti e Pereira (1989:246), "após o recém-criado partido receber uma 'ducha
de água fria' nas urnas, em 1982, o PT (...) viveu uma crise gerada por uma
frustração típica de um batismo de fogo momentâneo". O baixo rendimento do PT
serviu também para que alguns setores indicassem que aquele projeto estava
morto. Segundo Gadotti e Pereira (1989:248), "diante de tal quadro, desanimador
inclusive para muitos petistas anteriormente eufóricos quanto ao futuro do
partido, era comum ouvir, após o pleito de 1982, a seguinte constatação: 'O PT
morreu antes mesmo de ter nascido'".
25. Um conjunto de variadas visões e debates acerca do "populismo" pode ser
encontrada em Ferreira (2001).
26. As visões de Weffort, de extrema importância no campo de estudo, sofreram
já forte relativização por outras pesquisas. Um apanhado delas pode ser obtido,
entre outros, em Santana (1999a).