Preto no branco?: mensuração, relevância e concordância classificatória no país
da incerteza racial
INTRODUÇÃO
A pergunta sobre raça/cor no censo brasileiro estabelece e institucionaliza
categorias que podem se tornar um critério para diferenciação social, para
estruturar relações raciais, definir identidades e esclarecer o que se entende
popularmente por cor ou raça. A definição de fronteiras raciais também é
importante para a implementação de políticas públicas que utilizam a variável
raça como critério de inclusão. Regras informais de interação social observadas
em posições de classe também contribuem para a codificação da raça/cor e para a
atribuição de privilégios e direitos (Telles, 2004:222). O problema,
entretanto, éque essasregras, normas, ideias e crenças têm importantes
consequências no mundo real, sobretudo quando as categorias raciais utilizadas
variam ao longo do tempo e do espaço, dependendo de ideologias, práticas
raciais, mobilidade social e respostas estatais a demandas sociais e políticas
(Carvalho, Wood e Andrade, 2003; Graham et alii, 1990; Jenkins, 2008; Nobles,
2000; Omi e Winant, 1994; Skidmore, 1993). A variável raça/cor funciona,
portanto, como sinalizador, catalisador visível para a exclusão social e para o
pertencimento de classe. Um sinalizador que serve tanto para implementar
políticas públicas quanto para reificar distinções raciais e sustentar
estereótipos sobre comportamentos, crenças e experiências de populações
particulares (Noymer, Penner e Saperstein, 2011).
No fim de 2001, por exemplo, várias ações afirmativas foram criadas para
combater a discriminação e aumentar a participação de negros1 em órgãos
públicos, ministérios e universidades. Mais especificamente, decretos foram
estabelecidos para garantir que pelo menos 20% de todas as posições
administrativas no Ministério da Agricultura e 30% do orçamento ministerial
fossem alocados para comunidades majoritariamente negras. Em 9 de outubro de
2001, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro anunciou que 40% das admissões
nas universidades estaduais seriam reservadas para pretos e pardos. Em dezembro
desse mesmo ano, o Ministério da Justiça e o Supremo Tribunal Federal ordenaram
que pelo menos 20% dos consultores, funcionários e empregados fossem negros.
Ações afirmativas também foram aprovadas para prover
vintebolsasanuaisparaestudantesnegrosnoInstituto Rio Branco. Em 24 de março de
2002, o Ministério do Trabalho decretou que 20% do orçamento do Fundo de Amparo
aos Trabalhadores (FAT) fosse direcionado a profissionais negros. Em maio de
2002, o então presidente Fernando Henrique Cardoso assinou o Programa Nacional
de Ações Afirmativas, propondo a adoção de mecanismos que promovessem a
melhoria de "populações em desvantagem", mas não implementou cotas nem metas
específicas (Htun, 2004; Telles, 2004:72).
Atualmente, 70 das 98 universidades públicas do Brasil adotam pelo menos um dos
13 tipos de ação afirmativa para o preenchimento de vagas2. Dessas 70,
aproximadamente 57% (40 universidades) adotam medidas de inclusão racial que
abrangem cotas, bônus e acréscimo de vagas para negros. Essa modalidade de ação
afirmativa só é menos prevalente do que a que beneficia alunos oriundos de
escolas públicas ' medida adotada em 59 das 70 universidades federais e
estaduais do Brasil. Em termos de potencial inclusivo, entretanto, apenas 9,3%
das vagas disponíveis nos vestibulares estão reservadas para candidatos pretos
e pardos pelo regime de cotas fixas (Feres Júnior, Campos e Daflon, 2011:70-
77). Supostamente, essas medidas seriam adotadas com base na informação sobre
cor ou raça autodeclarada. Contudo, a ampla variabilidade racial e as
diferentes mensurações de raça/cor fazem com que o critério baseado na
autodeclaração seja, pelo menos, questionável.
A autodeclaração de raça/cor tem sido o método oficial de classificação racial
no Brasil desde 1950 (Telles, 2002). Diferentemente dos Estados Unidos, onde a
cor é definida por ascendência, no Brasil baseia-se predominantemente na
aparência3. Defato, aPesquisaSocialBrasileira (PESB, 2002) mostra que 42% dos
entrevistados utilizam a cor da pele como principal critério de inclusão em
dada categoria, enquanto 35% o fazem por causa da cor do pai, da mãe ou de
ambos. Esse resultado é corroborado pelos dados de uma pesquisa recente
realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2011), na
qual 82,3% das pessoas entrevistadas em seis unidades da federação responderam
que utilizam a cor da pele como principal critério para definir sua cor ou
raça. Já o critério "origem familiar e antepassados" foi a opção escolhida por
47,6% dos entrevistados.
Em tese, a autoclassificação racial seria um processo mais reflexivo,
envolvendo socialização pessoal, ao passo que a categorização feita por
terceiros envolveria percepções de status, localização geográfica e noções
relativas de cor (Cohen, 1994; Erikson, 1968:89). Entretanto, o sistema de
classificação oficial inclui a autopercepção do entrevistado e do
entrevistador. Este, muitas vezes, marca a cor do entrevistado por assumir que
a resposta é óbvia, por se sentir desconfortável para realizar a pergunta ou
por não considerar a pergunta tão importante (Telles, 2004). Além disso, o
respondente é responsável pela declaração de cor de todos os residentes do
domicílio, e essa declaração pode não corresponder à cor na qual os membros
dessa casa se autoclassificariam. O sistema classificatório do censo utiliza,
assim, uma combinação entre autodeclaração e percepção do entrevistador.
Os resultados produzidos por sistemas de classificação racial dependemdoesquema
classificatórioutilizadoetambém de quem realizaa classificação (Bailey, 2008;
Bailey e Telles, 2006; Telles e Lim, 1998). Pessoas diferentes podem
classificar o mesmo indivíduo de maneiras distintas, e, mesmo que a
classificação seja feita pela mesma pessoa, variações podem existir, dependendo
da situação, da formulação e da interpretação da pergunta. Apesar dos
significados sociais de raça/cor serem socialmente compartilhados, a inclusão
em categorias predefinidas não é algo fixo. Isso é particularmente verdade no
Brasil, onde a classificação racial tende a ser ambígua e volátil. A maneira
como as pessoas classificam umas as outras e se autoidentificam é muitas vezes
contraditória, variando de acordo com a situação social (Sansone, 2003; Simões
e Jeronymo, 2007). Aclassificação racial no Brasil, portanto, "está longe de
ser uma ciência exata" (Telles, 2004:88).
Diferentemente da variável sexo, a variável raça, além de apresentar múltiplas
categorias, não possui uma fronteira bem-definida que permita a identificação
inequívoca dos beneficiários de cotas raciais, atualmente adotadas em quase
dois quintos das universidades públicas brasileiras. Assim, políticas raciais
puras ainda carecem de pontos de corte e de limites raciais capazes de definir
a inclusão em uma ou em outra categoria (ibidem:262).
Concordância Racial no Brasil
Apesar de ser um entre vários, a autoclassificação, mais do que qualquer outro
critério de categorização racial, é o mais aceito no Brasil e também em outras
partes do mundo. Cientista s políticos, sociólogos e economistas, em
particular, raramente questionam a origem dos dados de raça, assumindo que a
variável é essencialmente constante4.Sociólogos concordam que raça é uma
construção social permeada de inconsistências, mas raramente questionam ou
criam soluções para incorporar essas ambiguidades em análises sociais e tornar
a evidência racial mais informativa e (estatisticamente) confiável5. Pesquisas
recentes, por exemplo, demonstram que a desigualdade entre renda e saúde
depende das medidas unidimensionais e multidimensionais de raça empregadas
(Saperstein, 2006; 2008; 2011; Saperstein e Sykes, 2008).
Pouco se sabe sobre a concordância entre classificações raciais no Brasil.
Ainda não conhecemos o percentual de pessoas que se classificam (e são
classificadas) em uma mesma categoria racial quando diferentes métodos de
classificação, contendo as mesmas categorias, são utilizados, por exemplo.
Quatro estudos investigaram como a categorização racial mudaria caso os dados
de raça/cor fossem coletados utilizando metodologias distintas daquela imposta
pelo IBGE. Telles e Lim (1998) mediram a desigualdade de renda entre brancos,
pardos e pretos, e constataram que brancos ganham 26% a mais que pardos quando
a classificação racial é feita pelo entrevistador e 17% a mais que pardos
quando a cor é autodeclarada. Já a desigualdade racial entre pretos e pardos
permanece praticamente inalterada: pretos ganham 13% a menos que pardos quando
são classificados pelo entrevistador e 12% a menos quando declaram a própria
cor. Assim, de acordo com essa pesquisa, dependendo de como se implementa a
categorização racial, a desigualdade de renda entre brancos e pardos muda
significativamente.
Em outro estudo, Bailey e Telles (2006) investigaram como a adoção dos termos
"moreno" e "negro" alteraria a distribuição de raça/cor da população em
comparação com as categorias do IBGE. Os autores mostram que 40% dos
brasileiros escolhem o termo "moreno", especialmente os mais jovens, os com
menos anos de estudo e as pessoas que vivememáreas
compoucosbrancos.Emparticular, 13% dosbrancos, 60% dos pardos e 38% dos pretos
preferem se classificar na ampla categoria dos "morenos". Os autores também
demonstram que o termo "negro" é mais prevalente entre as pessoas com maior
statussocioeconômico e que se autodeclaram "pretas" na classificação oficial do
censo. Mais recentemente, Bailey (2009) utilizou dados da PESB 2002 para
investigar como o formato dicotômico ' preto ou branco ' afetaria a
identificação de beneficiários de políticas raciais específicas e as
trajetórias futuras de classificação. O autor mostra que aproximadamente metade
dos pardos opta pela categoria "branco" quando as opções de resposta se
restringem apenas aos termos preto ou branco. O formato dicotômico aumenta a
participação dos brancos de 49% para 67%.
Simões e Jeronymo (2007) utilizaram os dados da região metropolitana de Belo
Horizonte, coletados em 2005, para comparar medidas de classificação racial
alternativas àquelas utilizadas pelo IBGE. Os autores utilizaram quatro
medidas: a) autoclassificação espontânea; b) raça observada (controlada pela
raça do entrevistador); c) percepção da ancestralidade (raça dos pais e avós);
e d) autoclassificação e observação do fenótipo (cor da pele, tipo de cabelo).
Os resultados encontrados indicaram "divergências significativas tanto
internamente ao critério de autoclassificação quanto entre autoclassificação e
raça observada" (ibidem:119).
Em 2008, o IBGE (2011) levou a campo a Pesquisa das Características Étnico-
Raciais da População (PCERP). Além de mostrar que, para mais de 60% das pessoas
entrevistadas, a cor ou a raça tem influência em suas vidas, a pesquisa mostra
o tamanho da discordância classificatória regional existente quando acor ou
araçasão autodefinidasetambém definidas pelo entrevistador. Todas as unidades
da federação nas quais a PCERP foi conduzida possuem elevado grau de
discordância entre os sistemas de auto e heteroclassificação raciais. Apenas
21% das pessoas autodenominadas pretas, por exemplo, são classificadas nessa
mesma categoria pelos entrevistadores. No caso dos pardos, esse percentual é
igual a 54,2%; e, no caso dos brancos, o percentual de concordância entre os
dois sistemas eleva-se para 91%, apesar de no Distrito Federal ser bem mais
baixo (68,5%) (IBGE, 2011:Tabela 2.10)6.
Diante da ambiguidade e da multiplicidade racial brasileira, seria possível
então traçar uma linha divisória entre as fronteiras definindo a cor ou a raça
dos brasileiros? Seria possível definir a linha divisória entre beneficiários
(não seriam beneficiados?) e membros do grupo dominante na ausência de regras
claras de distinção racial? Apresente investigação expande os estudos
realizados por Telles, Lim, Bailey, Simões e Jeronymo ao considerar duas novas
possibilidades de categorização racial nunca antes medidas no Brasil: a
ascendência e a percepção racial do entrevistado segundo fotografias. Além
disso, ainda não existem estudos combinando diferentes classificações raciais
para estimar intervalos de confiança estatística por raça/cor para a composição
populacional.
Os resultados deste artigo demonstram a extensão da ambiguidade das medidas de
raça/cor no Brasil com base na construção de intervalos de confiança
estatística para linhas de separação racial combinando múltiplos esquemas de
classificação. A estimação de tais linhas mostra o grau de interseção entre
esquemas classificatórios alternativos e gera os insumos necessários para a
criação de um potencial esquema de categorização ampliado, combinando
diferentes modos de percepção racial. Por fim, para ilustrar a incerteza
envolvida no processo de classificação racial, apresentamos as probabilidades
preditas de potenciais universitários se classificarem ou serem classificados
como brancos ou pretos, considerando a cor de seus pais e outros determinantes
relevantes em diferentes esquemas de classificação.
A seção seguinte descreve a base de dados utilizada. Em seguida, na terceira
seção, são apresentados os resultados, que estão organizados em três partes. A
primeira mostra a distribuição proporcional da população por cor, de acordo com
metodologias alternativas (autoclassificação, entrevistador, fotografias e
ascendência), e apresenta intervalos de confiança estatística para essas
distribuições. A segunda avalia a concordância entre metodologias distintas de
categorização racial quando três (branco, pardo ou preto) ou duas (branco ou
preto) opções de classificação são oferecidas. A terceira parte dos resultados
apresenta a probabilidade de classificação entre os termos branco ou preto
segundo características individuais e o tipo de metodologia utilizada. A quarta
seção discute a relevância dos resultados encontrados tendo em vista a
crescente adoção de políticas raciais específicas no Brasil. A seção seguinte
encerra o artigo.
BASE DE DADOS
A análise proposta utiliza a Pesquisa Social Brasileira (PESB), realizada pela
Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2002. A pesquisa segue o modelo do
General Social Survey (GSS) norte-americano e do British Social Attitudes
(BSA). A PESB realizou 2.362 entrevistas com adultos acima de 18 anos em 102
municípios, cobrindo todos os estados brasileiros. Os municípios com menos de
20 mil habitantes nas regiões Norte e Nordeste foram excluídos para reduzir os
custos da amostragem. Como o interesse deste artigo é analisar diferentes
formasdeclassificação(entrebranco, pardoepretoouentre branco enão branco), as
pessoas classificadas como amarelas ou indígenas (0,9% da população) foram
excluídas da análise. A amostra da PESB é probabilística e representativa do
território nacional.
Esta análise se vale do terceiro módulo da PESB 2002, que investiga as relações
raciais e a concepção de raça/cor do brasileiro. Esse módulo é o único a captar
a cor, conforme percepções individuais, usando: (1) categorias raciais
predefinidas seguindo o formato utilizado pelo IBGE; autoclassificação segundo
fotografias7; (3) classificação de acordo com a percepção do entrevistador; e
(4) ascendência ou cor dos pais. Nesse último caso, a cor do(a) filho(a) segue
a cor do ascendente direto mais escuro. Cerca de 80% dos entrevistados tiveram
sua cor coletada, em todas as metodologias investigadas, tanto no formato
tricotômico quanto no dicotômico. A PESB, em particular, investiga a
classificação racial considerando somente as alternativas "branco" ou "preto".
Esta pesquisa é a primeira a permitir a investigação da concordância e a
estimação de intervalos de confiança para a declaração de cor segundo
metodologias distintas. É, assim, particularmente útil para informar e
contribuir para o debate sobre cotas e outras políticas raciais específicas no
Brasil.
Resultados
Os métodos e os resultados são apresentados e discutidos em três partes: a
primeira apresenta a distribuição da população por cor e raça utilizando
diferentes esquemas de classificação racial. A segunda discute a concordância
racial entre esses esquemas quando são oferecidas três ou duas opções de
escolha para a cor. A terceira parte apresenta as probabilidades de um
indivíduo hipotético, com perfil universitário, classificar-se como branco ou
preto em função de sua ascendência e do tipo de método utilizado na coleta.
Distribuição da População por Cor/Raça
De acordo com o critério de autoclassificação do censo demográfico brasileiro
de 2000, entre cada 100 pessoas havia 53 brancas, 39 pardas, 6pretas,
0,4amarela e0,45indígena(Ruggles et alii, 2004). Essa composição é similar à
dos dados do Datafolha, coletados em 1995, quando o mesmo esquema
autoclassificatório foi utilizado (Bailey e Telles, 2006; Telles e Lim, 1998).
Quando apenas três opções aparecem para a auto-classificação, essa composição
muda para 56% branca, 33% parda e 11% preta, segundo os dados do Datafolha. Já
de acordo com a PESB, a população em 2002 era 49% branca, 39% parda e 12%
preta. Alternativamente, usando um sistema de autoclassificação aberto baseado
nos mesmos dados, 43% da população se classifica como branca, 15% como parda e
apenas 3% como preta (Bailey, 2008). Nos dados do Datafolha, esses números são
iguais a 42%, 6% e 5% para brancos, pardos e pretos, respectivamente (Bailey e
Telles, 2006). Quando a população é classificada pelo entrevistador, a
composição racial muda para 56% branca, 31% parda e 13% preta (Telles e Lim,
1998).
Assim, vê-se que a distribuição da população por cor varia segundo a
metodologia utilizada na coleta, as opções disponíveis para a escolha dos
entrevistados (ou entrevistador), o período de coleta, a base de dados e a
amostra utilizadas. É preciso, portanto, controlar esses fatores de variação
para que se tenha um efeito puro do modo de coleta da informação sobre cor. A
Figura_1 faz isso ao apresentar os intervalos percentuais de brancos, pardos e
pretos em cada uma das metodologias de coleta da PESB 20028.

Essa figura mostra que, no esquema utilizado pelo IBGE (método 1), a maioria da
população (entre 47% e 54%) se autoclassifica branca, enquanto uma proporção
entre 33% e 40% se autoclassifica parda, e entre 11% e 16% preta. A informação
sobre cor coletada segundo a autoclassificação em fotografias (método2) e
segundo a opinião do entrevistador (método 3) possui valores percentuais
similares em cada categoria de cor. De modo geral, os entrevistadores tendem a
subestimar o número de brancos e a superestimar o de pardos em relação à cor
auto declarada. Já a autodeclaração a partir de fotografias tende a apresentar
números intermediários se comparada às outras duas metodologias. Nos métodos de
coleta 2 e 3, o intervalo de confiança para o percentual de brancos varia entre
44% e 50%; o de pardos, entre 39% e 46%; e o de negros, entre 9% e 14%.
Portanto, nas metodologias 2 e 3, o percentual de brancos é ligeiramente menor,
e o de pardos ligeiramente maior do que no caso da metodologia empregada pelo
IBGE (1). A diferença mais significativa ocorre na comparação por ascendência
(4). Quando os entrevistados são forçados a adotar a cor do ascendente direto
mais escuro, tal como é feito no sistema de classificação americano, a maioria
da população se torna parda (entre 47% e 54%), o que reflete não apenas a
elevada proporção de casais racialmente heterogâmicos e com filhos na população
do Brasil (43%) como também apreferência por cores mais claras por parte desses
casais, já que, quando a regra baseada na ascendência não é adotada, a maioria
se torna branca. A Figura_1 também mostra a estabilidade percentual da
categoria dos pretos. Percebe-se que a adoção de um ou outro método tende a
afetar mais a classificação entre branco ou pardo do que entre pardo ou preto.
Independentemente da metodologia utilizada, a proporção de pretos permanece
estável, com intervalos de confiança variando entre 10% e 15%. Isso sugere que
as principais trocas reclassificatórias advindas de mudanças na coleta de dados
ocorrem entre pardos e brancos, enquanto pretos apresentam maior certeza quanto
sua cor. Contudo, será que a proporção de pretos permaneceria a mesma se o
entrevistador e os entrevistados fossem obrigados a escolher sem a alternativa
pardo como opção?
A Figura_2 responde a essa pergunta apresentando a distribuição da população
por cor quando as opções de escolha se restringem apenas aos termos branco ou
preto. Mostra que, caso aqueles que se classificaram como pardos no esquema do
IBGE fossem submetidos a uma escolha dicotômica, a proporção de brancos se
elevaria para um valor entre 64% e 70%, o que corresponde a um aumento de 17
pontos percentuais em relação à metodologia tricotômica. Essa proporção é
ligeiramente superior no esquema dicotômico com fotografias (68% e 71%). Nos
esquemas 7 e 8, somente a proporção de pretos se altera, já que representa a
soma simples do número de pretos e pardos encontrados nos esquemas 3 e 4. Essa
lógica de agrupamento (pardos + pretos) é similar àquela defendida por
ativistas do movimento negro e utilizada por certas instituições como critério
de inserção e de concessão de benefícios. O problema de agrupar pretos e pardos
de forma não espontânea em um a única categoria'denominada"negros"'é que o
agrupamento forçado se mostra inconsistente ao que seria observado caso os
entrevistados escolhessem livremente pela cor branca ou preta9. Essa
inconsistência fica clara quando se compara a proporção de autodeclarados
pretos nas formas de coleta 5 e 6 com a proporção forçada de pretos nas
metodologias 7 e 8. Quando a escolha pela categoria "preto" ocorre por
autodeclaração (5) e via fotografias (6), a população branca representa a
maioria. Quando a proporção de pretos é calculada por agrupamento (pardos +
pretos), os brancos se tornam a minoria da população.
[/img/revistas/dados/v55n1/a07fig02.jpg]
CONCORDÂNCIA E RECLASSIFICAÇÃO RACIAL
Esta seção apresenta a concordância entre modos de coleta da informação racial
no Brasil segundo dois esquemas categóricos. No primeiro modo de classificação,
utilizam-se três opções: branco, pardo ou preto; no segundo, apenas duas:
branco ou preto. O reagrupamento induzido em apenas duas categorias permite
investigar o tamanho da "válvula de escape" (Degler, 1986) do grupo racial
intermediário em diferentes metodologias de classificação. Em particular, o
esquema dicotômico permite investigar se apopulação de fato se divide tal como
é assumido pelo Estado, por alguns acadêmicos e por movimentos institucionais:
brancos de um lado, pardos e pretos de outro.
Consistência no Formato Tricotômico
A Figura_3 ilustra a proporção de indivíduos classificados entre as
coresbranca, parda e preta segundo a metodologia do IBGE e ilustra ainda a
proporção consistentemente classificada (ou que se classifica) em todas as
metodologias. Metade (27+19+3) dos entrevistados se classifica ou é
classificada da mesma maneira, isto é, de modo independente da metodologia
utilizada na coleta ou na construção da variável raça/cor. Mais precisamente,
54% [27/(27+23)] das pessoas que se classificam como brancas no formato do
IBGE, 51% [19/(19+18)] das que se classificam como pardas e apenas 23% (3/13)
das que se classificam como pretas mantêm a mesma cor em todas as outras
metodologias utilizadas; seja ela baseada na autodeclaração, em fotografias, na
opinião do entrevistador, seja na ascendência. Ignorando-se a metodologia
baseada na ascendência (4), a consistência sobe para 65% (23+36+6). Isso
representa 72% dos brancos, 43% dos pretos e 62% dos pardos que se classificam
no formato tricotômico do IBGE.
[/img/revistas/dados/v55n1/a07fig03.jpg]
Para avaliar a concordância entre os métodos de coleta da variável cor, uma
alternativa interessante é a estatística Kappa, elaborada por Cohen (1960). A
Figura_4 apresenta intervalos estatísticos de 95% de confiança para a
concordância entre pares de métodos de coleta. Segundo Landis e Koch (1977), o
grau de concordância não aleatória entre observadores ou medidas repetidas da
mesma variável categórica pode ser interpretado de acordo com uma escala de
seis níveis: valores abaixo de zero indicam concordância ruim; 0 a 0,2,
concordâncias baixíssimas; 0,21 a 0,4, concordâncias baixas; 0,41 a 0,6,
concordâncias moderadas; 0,61 a 0,8, boa concordância; 0,81 ou mais,
concordância quase perfeita10.
[/img/revistas/dados/v55n1/a07fig04.jpg]
A Figura_4 mostra que a pior concordância ocorre entre a metodologia baseada na
ascendência (4) e as demais, com o coeficiente Kappa variando entre 0,39 e
0,54. Já a maior concordância ocorre entre a metodologia do IBGE e a baseada em
fotografias. De acordo com a escala sugerida por Landis e Koch (1977), essas
são as únicas medidas que apresentam boa concordância, entre 0,61 e 0,69. As
outras comparações apresentam concordância apenas moderada11.
Consistência no Formato Dicotômico
Quando são oferecidas apenas as opções "preto" ou "branco", a consistência da
medida racial aumenta para 52%, dos quais 30% são brancos e 22% pretos. Quando
a opção baseada na ascendência (8) não é considerada, a concordância aumenta
para 65%. Desses, 42% se classificam consistentemente como brancos, enquanto
23% se classificam em todas as metodologias como pretos. Brancos, portanto,
apresentam maior consistência taxonômica em sua medida de cor do que os pretos
(Figura_5).
[/img/revistas/dados/v55n1/a07fig05.jpg]
Elaboração do autor com base na PESB 2002. Nota: As fatias brancas (mais as
hachuradas da mesma cor) correspondem ao percentual de brancos (67%); as fatias
cinza (mais as hachuradas da mesma cor), ao percentual de pretos (33%). As
fatias hachuradas representam o percentual cuja cor foi declarada de maneira
consistente entre metodologias.
A comparação entre as Figuras_3 e 5 revela a porcentagem de pardos que se
reclassificaram como pretos ou brancos quando "forçados" a escolher entre os
dois termos. Dos 37% que se classificaram como pardos no formato tricotômico,
quando puderam escolher apenas entre duas opções, 20% se reclassificaram como
pretos e 17% como brancos. Ou seja, uma vez que o indivíduo se autodenominou
pardo, em uma autorreclassificação, há 17% de probabilidade de ele vir a se
declarar branco e 20% de passar a se declarar preto. Caso os termos preto e
pardo fossem substituídos pela categoria negros, a maioria dos pardos (20/37 =
54%) migraria para a categoria mais escura. Se calcularmos as probabilidades
compostas de um indivíduo ser pardo no esquema tricotômico e depois se declarar
branco ou preto, os números são: 7% (0,37x0,2) de probabilidade de ser pardo e
de se reclassificar como preto, e 6% (0,37x0,17) de probabilidade de ser pardo
e depois se reclassificar como branco. A evidência mostra, portanto, que pretos
e pardos pertencem a categorias distintas, uma vez que praticamente a metade
dos pardos (17/37 = 46%) se considera branca no formato dicotômico. A válvula
de escape dos pardos parece, assim, "vazar" de maneira homogênea quando há
apenas duas opções de classificação, confirmando, desse modo, a evidência
encontrada por Bailey (2009). Agrupar pardos e pretos em um único grupo
violaria, portanto, identidades raciais individuais que, caso fossem escolhidas
de maneira espontânea, seriam construídas de forma distinta.
Em termos de concordância entre as quatro medidas de classificação racial, a
Figura_6 mostra que apenas os métodos baseados na reclassificação de pardos e a
autoclassificação baseada em fotografias (métodos 5 e 6) concordam
satisfatoriamente, apresentando valores de Kappa superiores a 0,6. Todas as
demais comparações apresentam concordânciabaixa ou moderada,com valores de
Kappa entre 0,3 e 0,6.
[/img/revistas/dados/v55n1/a07fig06.jpg]
Nota-se também que ter apenas duas opções de escolha racial diminui a
concordância entre os métodos de coleta. Todos os intervalos de confiança
apresentados na Figura_6 mostram valores abaixo daqueles observados quando três
opções de cor são oferecidas (Figura_4). Em relação às metodologias que
utilizam categorias de cor tricotômicas, há aumento na concordância apenas
entre o método de classificação pelo entrevistador (7) e o baseado na
ascendência (8). Isso ocorre porque o grupo de pretos, tanto em 7 quanto em 8,
é construído simplesmente a partir da agregação de pardos e pretos advindos dos
esquemas 4 e 5. Por causa desse modo forçado de construção, a concordância
entre o número de pessoas que se classificam como brancas e não brancas (pretas
+ pardas) tende a ser mais parecida no esquema dicotômico (entre 7e8) do que no
esquema tricotômico (entre3e4).
Branco ou Preto?
A fim de ilustrar a incerteza racial classificatória, modelos logísticos
binomiais foram construídos para determinar as probabilidades de ser branco ou
preto quando se consideram variáveis individuais e contextuais. O modelo de
regressão logístico binomial12 controla a estimativa de probabilidades pelas
seguintes variáveis explicativas: idade, escolaridade, estado civil, região
(Nordeste), área de residência (capital), cor do entrevistador segundo ele
próprio e segundoo entrevistado, padrão relativo de consumo13 e cor dos pais
declarada pelo entrevistado (branco, pardo ou preto).
A média (ou o percentual) de algumas das variáveis explicativas utilizadas no
modelo encontra-se na Tabela_1. A tabela revela o statussuperior dos brancos em
termos educacionais, de consumo e regionais. Enquanto 21,2% dos brancos
classificados pelo entrevistador (método 7) possuem ensino superior completo,
apenas 5,12% dos classificados como não brancos (pretos + pardos) possuem
educação superior. Além disso, apenas 14,48% dos brancos residem na região
Nordeste, enquanto entre os não brancos a cifra é igual a 39,78%. Cerca de 30%
dos não brancos e 25% dos brancos possuem residência em centros estaduais.
Esses percentuais são similares para aqueles que se autoclassificam (métodos 5
e 6).
[/img/revistas/dados/v55n1/a07tab01.jpg]
A vantagem de utilizar modelos baseados em características individuais é que,
além de mensurar a associação existente entre o evento de interesse e as
variáveis relevantes, eles também permitem a construção de cenários
contrafactuais que "padronizam" a análise comparativa. A padronização consiste
em assumir que os atributos individuais permanecem os mesmos, enquanto aqueles
cuja influência se deseja avaliar variam conforme o interesse do pesquisador.
Cenários contrafactuais permitem perguntar, por exemplo, qual seria a
probabilidade de ser classificado como branco ou preto assumindo que existem
diferenças apenas quanto ao tipo de método utilizado na coleta da informação
sobrecor e quanto à cor dos pais14. As probabilidades preditas de ser
classificado como branco ou preto segundo a cor dos pais e o método de coleta
encontram-se na Tabela_215.
[/img/revistas/dados/v55n1/a07tab02.jpg]
Nesse sentido, a Tabela_2 apresenta duas informações relevantes. A primeira diz
respeito à similaridade entre as probabilidades preditas pelos métodos 5 e 6.
As probabilidades de potenciais universitários se autoclassificarem brancos ou
pretos, via fotografias ou não, são basicamente as mesmas. Em contrapartida,
quando os entrevistados são classificados como brancos ou não brancos (pretos +
pardos) pelo entrevistador (método 7), as probabilidades de serem brancos são
evidentemente menores do que quando os entrevistadores escolhem "livremente"
entre os termos branco ou preto.
A segunda informação importante apresentada pela Tabela_2 diz respeito às
probabilidades de classificação dos descendentes de casais homogâmicos e
heterogâmicos. Para os casais homogâmicos brancos e pretos, não há surpresa em
observar que a maioria de seus descendentes se classifica ou é classificada
como,respectivamente,brancaepreta. O interessante é constatar que, quando os
membros do casal são pardos, a probabilidade de eles se autoclassificarem
brancos ou pretos é a mesma, variando em torno de 50%, com um intervalo de
confiança de 95% entre 38% e 61%. No caso de casais heterogâmicos, a tabela
mostra que, quando um é branco e o outro é pardo, a probabilidade de o
potencial universitários e classificar com o branco (em torno de 75%) é
expressivamente maior do que a de se classificar como preto (em torno de 25%).
No entanto, quando um dos membros do casal é pardo e o outro é preto, a
probabilidade de o filho se classificar como preto se torna maior do que a de
se classificar como branco. No método 5, essa probabilidade é de 83% no caso de
a mãe ser preta e de 78% no caso de o pai ser preto e a mãe ser parda. No
método 6, essas probabilidades são ligeiramente menores. Por fim, quando um dos
pais é branco e o outro é preto, a probabilidade de ser classificado como preto
é maior do que como branco. Estudos passados mostram que, caso a opção pardo
fosse oferecida, certamente seria a mais prevalente entre os descendentes de
casais branco/preto (Schwartzman, 2007). Entretanto, a Tabela_2 mostra que,
quando apenas as opções branco ou preto são oferecidas, a probabilidade média
de potenciais universitários se autoclassificarem pretos se aproxima de 60%
quando o pai é branco e a mãe é preta.
DISCUSSÃO
Os resultados apresentados põem em foco a confiabilidade das classificações
raciais ao mostrar a inconsistência existente entre métodos baseados na
autoclassificação, na opinião do entrevistador e na ascendência. Contudo, a
inconsistência demonstrada não invalida a autodeclaração, uma vez que esta já
está estabelecida como sistema dominante de classificação racial e sua
reprodução permite a comparação de dados ao longo dos anos. A autodeclaração é
ainda a única forma de não violar identidades, respeitar preferências e
continuar permitindo que a cor seja "socialmente construída" e leve em conta
grande parte das complexidades individuais, coletivas e circunstanciais
envolvidas na construção da raça/cor. Enquanto demarcador de identidades, a
auto-declaração também não apresenta nenhum viés ou incongruência. Todavia,
quando utilizada, brancos se tornam a maioria. Além disso, outra dificuldade
aparece quando a cor autodeclarada passa a ser vislumbrada como sinalizador
para alocação de benefícios. Afinal, se a identificação racial for dependente
da obtenção de privilégios, o critério cor da pele torna-se infactível para
viabilizar a inclusão de categorias sociais excluídas de serviços e direitos.
Há evidência, por exemplo, demonstrando que as cotas raciais serviram de
incentivo para reforçar a identidade negra (Francis e Tannuri-Pianto, 2012; no
prelo). Quando isso ocorre, é legítimo que outras medidas potencialmente menos
enviesadas pela concessão de privilégios passem a ser cogitadas como opção. Daí
a importância de se averiguar a compatibilidade entre medidas de cor
autodeclaradas e aquelas construídas a partir de pressupostos distintos, como o
que assume que pretos e pardos poderiam ser agrupados em uma única categoria
por possuírem "características similares". Entretanto, como demonstrado, a
aceitação desse pressuposto criaria outro impasse: uma distribuição
populacional por cor de maioria negra (tanto com base no agrupamento entre
pretos e pardos segundo a classificação do entrevistador quanto pela
ascendência).
Assim, em contextos nos quais a autodeclaração direta se apresenta como um
indicador enviesado pela concessão de privilégios, é importante que se
proponham outras medidas que respeitem as preferências individuais e que sejam
concomitantemente neutras à oferta de privilégios. Nesse sentido, a
autodeclaração intermediada por fotos pode vira ser uma opção robusta por duas
razões. Primeiro porque a autodeclaração direta (métodos 1 e 5) e a realizada
via fotografias (métodos 2 e 6) possuem os maiores níveis de concordância. Isso
significa que, caso a autodeclaração direta viesse a sofrer perturbações ' por
exemplo, por causa da concessão de benefícios vinculados à cor declarada ', a
metodologia baseada em fotografias poderia ser utilizada como representativa
desde que também não fosse enviesada pelas mesmas perturbações. A razão para
acreditar que o procedimento baseado em fotos não seria igualmente afetado está
no fato de se basear em duas etapas em vez de apenas em uma. Na primeira etapa,
faz-se a classificação racial de terceiros, representados em fotografias; na
segunda, o entrevistado escolhe a foto que se parece com ele. Melhor ainda se
as duas etapas do processo de autoclassificação forem feitas em momentos
afastados temporalmente, pois o viés da cor declarada gerado pela concessão do
potencial benefício certamente seria menor. Atualmente, do total de 45
universidades que adotam procedimentos de definição racial para estabelecer
ações afirmativas raciais, três utilizam fotografias e quatro utilizam
comissões de verificação para a homologação dos candidatos (Feres Júnior,
Campos e Daflon, 2011:68).
Outro ponto a ser discutido diz respeito ao uso da cor como demarca-dor de
diferenças de escolaridade, renda, saúde, mortalidade, fecundidade ou qualquer
outra variável socioeconômica que se deseje estudar. O problema de se utilizar
a cor da pele como demarcador socioeconômico é que ela não é um indicador
estável e varia no tempo e de acordo com a metodologia utilizada na coleta.
Sendo assim, a adoção da cor para a construção de grupos e de classes de
comparação é potencialmente problemática por induzir a resultados que dependem,
em muito, de como a variável raça é construída ou entendida/interpretada. A
partir do momento em que uma ou outra forma de pertencimento racial passa a
definir grupos heterogêneos, os resultados de interesse também o serão.
Telles e Lim (1998), por exemplo, mostraram a volatilidade da desigualdade de
renda ao compararem a renda de pretos e de brancos auto-classificados com a
renda de pretos e brancos classificados segundo o entrevistador. Loveman, Muniz
e Bailey (2011) também chegaram a conclusões semelhantes ao compararem os
níveis de desigualdade de renda entre brancos e pretos a partir de metodologias
distintas de construção racial. Esses estudos demonstram que o entendimento de
desigualdade racial depende, antes de tudo, de como e de quem faz parte dos
grupos de pretos e de brancos. Ser classificado de um jeito ou de outro pode
ter algum impacto na variável de interesse, mas, à medida que o entendimento do
que vem a ser raça ou cor se altera, também mudam a análise realizada e os
resultados previamente alcançados (Zuberi, 2008:133). Por isso, aqueles que
utilizam a variável raça/cor em suas pesquisas, diferentemente dos que a
estudam, devem ter cuidado ao tratá-la como característica fixa e imutável. A
variável cor ou raça não é um fato social preexistente, mas sim um epifenômeno
que pode ser "criado, esvaziado, transformado e destruído" (Omi e Winant, 1994:
55). É preciso percebê-la como uma característica dinâmica, complexa e
multifacetada da população em vez de tomá-la como neutra e dada. Quiçá, tal
como sugerido por Zuberi e Bonilla-Silva (2008:329), deveria dar-se menos
atenção ao infamado "efeito raça" e mais atenção a como e por que o processo de
estratificação racial produz resultados diferentes entre grupos raciais. Dessa
maneira, a variável raça/cor se tornaria não uma característica descritiva ' e
erroneamente explicativa ', mas parte da solução do problema.
CONCLUSÃO
O objetivo desta pesquisa foi contrastar o que entendemos por cor/raça a partir
da comparação entre diferentes métodos de coleta que consideram três ou duas
opções de cor. O primeiro método baseia-se na autodeclaração direta, o segundo
mede a cor autodeclarada em dois estágios por meio de fotografias, o terceiro
utiliza a percepção do entrevistador, e o quarto atribui ao entrevistado a cor
do ascendente direto mais escuro, imitando assim a regra de classificação
norte-americana.
Em termos de composição populacional, as maiores diferenças são observadas
quando se compara a metodologia baseada na cor dos pais com as demais.
Amensuração pautada na ascendência é de longe a que produz maior proporção de
pardos e negros (pretos + pardos) na população. Em contrapartida, quando é dada
aos pardos a opção de se auto-classificarem brancos ou pretos, metade se
considera branca, e metade preta. Após a adesão dos pardos, a população branca
passa de 50% para 67%.
No que tange à consistência, os resultados mostram que, caso diferentes métodos
de coleta fossem utilizados para construir a variável cor, apenas metade das
pessoas teria a mesma cor em todas elas; e, se a consistência entre
metodologias não levasse em conta a classificação baseada na ascendência, a
consistência aumentaria para em torno de 65%. Em particular, as
autoclassificações raciais diretas e aquelas feitas pormeiodefotografias
sãomuito parecidas. Sendoassim, ométodo por fotos apresenta grande potencial
para substituir a autodeclaração caso a credibilidade desta venha a ser
comprometida ou enviesada pela concessão de benefícios.
Por fim, realizou-se também um exercício de simulação para calcular as
probabilidades de potenciais universitários se classificarem como brancos ou
pretos de acordo com a cor dos pais e o tipo de metodologia de coleta. Os
resultados revelaram que os descendentes de casais heterogâmicos, nos quais
pelo menos um dos membros é preto, são mais propensos a se classificarem como
pretos, mesmo quando o outro membro é branco. Quando um dos pais é pardo e o
outro é branco, há maior propensão de os descendentes se classificarem como
brancos. Quando ambos os pais são pardos, a probabilidade de se autodeclararem
brancos ou pretos é igual.
Chega-se ao fim deste artigo, portanto, considerando que é preciso ir além da
discussão sobre os condicionais e os determinantes da raça e ultrapassar as
controvérsias metodológicas envolvidas na mensuração da cor humana. Nesse
sentido, uma sugestão seria combinar as diferentes formas de mensurar a raça em
uma única variável latente ou, alternativamente, utilizar várias metodologias
taxonômicas para descompactar a complexidade do que consideramos ser a cor da
pele. A coleta de múltiplas medidas de classificação racial, em particular,
ajudaria pesquisadores a distinguirem e testarem diferentes hipóteses sobre as
causas das disparidades raciais e a gerar novas teorias para explicar por que
elas persistem (Saperstein, 2011).
O intuito deste trabalho é ainda alertar para que a variável cor não seja usada
como fator causal, mas sim como demarcador imperfeito apresentado com
ressalvas. Como sistemas de classificação racial representam a contabilidade
oficial e sistêmica de distinções sociais salientes, a variável "cor" precisa
ser utilizada considerando-se a incerteza envolvida em sua mensuração. Dados
étnicos e raciais precisam ser tratados comcuidado porcausa das circunstâncias
diversas sob as quais as informações são coletadas ou registradas, sobretudo no
caso brasileiro, em que o uso de descrições étnicas ou raciais reflete a
"aparência" e os costumes sociais em vez de origens hereditárias ou genéticas,
como já dizia Oracy Nogueira. Assim, a variável cor deve ser criticamente
estudada, e não passivamente tomada como dada para que entendamos por que
grupos raciais incertos apresentam resultados distintos.
NOTAS
1. Na maioria dos decretos ministeriais, o termo "negro" foi utilizado. A
inclusão de "pardos" no termo "negros" não é clara e supostamente foi deixada a
critério de autoidentificação.
2. As ações afirmativas hoje vigentes incluem a reserva de vagas para
indígenas, deficientes, professores da rede pública, quilombolas, nativos do
Estado, pessoas de baixa renda, mulheres, filhos de policiais, bombeiros e
refugiados políticos. Ver Feres Júnior, Campos e Daflon (2011:70) para mais
detalhes sobre essa distribuição.
3. Uma revisão completa sobre o uso da variável raça/cor em estudos
quantitativos, sobretudo nos Estados Unidos, pode ser encontrada em Muniz
(2010).
4. Veja Carvalho, Wood e Andrade (2003) para uma exceção. Esses autores sugerem
uma metodologia original para mensurar a reclassificação racial utilizando
técnicas de projeção demográfica.
5. Intervalos de confiança estatística são utilizados para descrever a
estabilidade e a consistência de estimativas amostrais. Intervalos de confiança
descrevem a margem de variabilidade dos resultados amostrais. APESB2002 mostra
que, de acordo como sistema autoclassificatório, 12% da população é preta. Um
intervalo de 95% de confiança estatística para essa proporção varia entre 10,5%
e 13,4%. Ceteris paribus,intervalos de confiança mais estreitos são mais
confiáveis do que intervalos mais largos.
6. Levando em conta que, semanticamente, os termos "pardo" e "moreno"
significam algo muito similar, as discrepâncias classificatórias entre auto e
heteroclassificação tornam-se menores. Considerando a amostra do Brasil, pela
autoclassificação, para cada 100 pessoas haveria 49 brancas, 22 morenas, 14
pardas, 7,8 negras e 1,4 preta. Já pelo sistema de heteroclassificação haveria
56 brancas, 9 morenas, 22 pardas, 8,4 negras e 1 preta. Restringindo-se a
amostra a regiões específicas do país, a discrepância classificatória semântica
entre pardos e morenos torna-se ainda mais evidente: na Paraíba, por exemplo, a
proporção de pessoas que se autodenominam "morenas" é igual a 46%; e a de
"pardas", a 11%. Quando a cor é definida pelo entrevistador, a proporção de
morenos diminui para 4%, enquanto a de pardos aumenta para 45%.
7. Essa variável foi construída em duas etapas. Primeiro perguntou-se aos
entrevistados qual era a cor (branco, pardo ou preto e branco ou preto) dos
indivíduos em oito fotografias distintas (ver Anexo_1). Em seguida, pediu-se
aos entrevistados que identificassem a fotografia que possuía um indivíduo com
a cor mais parecida com sua própria cor. (As fotos em cores estão disponíveis
na versão eletrônica. Ver http://scielo.br/dados.)
8. Intervalos de confiança de 95% para a proporção de brancos, pardos e pretos
(esquema tricotômico) e para a proporção de brancos e pretos (esquema
dicotômico) foram construídos utilizando-se a técnica bootstrapa fim de
garantir que as proporções obtidas não fossem um mero resultado de variações
amostrais e de seletividade. Em seguida, os desvios padrão e as proporções
médias encontradas no processo bootstrapforam utilizados para construir
intervalos de confiança aproximadamente normais. Ométodo bootstrapproduz
medidas estatísticas em diferentes subamostras com reposição da amostra
original utilizada. Esse método não paramétrico fornece mais robustez para os
desvios padrão e os intervalos de confiança estimados. O teorema do limite
central garante que, após um número suficientemente grande de repetições, os
intervalos de confiança estimados terão uma distribuição normal.
9. Há estudos mostrando que, se o termo "negro" fosse utilizado em vez do termo
"preto" como uma das opções dicotômicas, o resultado não se alteraria de forma
relevante (Bailey, 2008; Telles, 2004).
10. Intervalos de confiança estatística para concordância entre diferentes
esquemas de classificação racial foram construídos utilizando-se a técnica
bootstrap. Nesse caso, em vez da proporção racial, a estatística Kappa é a
variável de interesse. A concordância entre os quatro tipos de categorização
racial é medida pelo cruzamento de variáveis utilizando tabelas de contingência
e pela estatística Kappa. Tal estatística é utilizada para mensurar o grau de
concordância entre medidas alternativas e mutuamente excludentes de
classificação racial. A equação que define o Kappa de Cohen é: [/img/revistas/
dados/v55n1/a07img01.jpg], sendo Pr(a) o percentual de concordância observada
entre diferentes medidas e Pr(e) a probabilidade de concordância aleatória. A
Kappa mede quanto a concordância observada excede o esperado caso a escolha
racial fosse apenas um resultado de chance. Quando a concordância entre medidas
raciais é máxima, Kappa é igual a 1. Em contrapartida, quando as medidas são
totalmente distintas, Kappa é igual a ou menor do que zero (Gordis, 2004). Isso
ocorreria se, por exemplo, todas as pessoas que se declararam brancas fossem
classificadas como pardas ou pretas pelo entrevistador.
11. A estatística Kappa para a concordância entre a cor do entrevistador
autodeclarada e a cor do entrevistador declarada pelo entrevistado é apenas
moderada, variando dentro de um intervalo de confiança entre 0,44 e 0,51.
12. Regressões binomiais são apropriadas para a modelagem de variáveis
categóricas e para "investigar como variáveis explicativas influenciam a
probabilidade de ocorrência do evento de interesse" (Long e Freese, 2003). O
modelo logístico é apropriado para mensurar a verossimilhança de classificações
raciais e tem sido utilizado para estudar o caso brasileiro (Bailey e Telles,
2006; Schwartzman, 2007; Telles, 2002) e a reclassificação racial em Porto Rico
(Loveman e Muniz, 2007). Além disso, modelos binomiais superam várias
restrições impostas pelo popular método de mínimos quadrados ordinários (MQO).
Esses modelos, por exemplo, não pressupõem linearidade entre variáveis
dependentes e independentes, não requerem que as variáveis sejam normalmente
distribuídas e não assumem homocedasticidade do erro da regressão (Agresti,
2002; Allison, 2001; Long e Freese, 2003).
13. O padrão relativo de consumo reflete os quartis de um índice construído
segundo a posse ou a presença de bens duráveis no domicílio. O índice de
consumo é definido n Di.n segundo a equação [/img/revistas/dados/v55n1/
a07img02.jpg], sendo Diigual a 1 quando o domicílio possui o bem Didurável ou
serviço i(rádio, banheiro, empregada, aspirador de pó, máquina de lavar,
videocassete, geladeira, congelador, telefone, telefone celular, computador,
carro, internet); e 0 se o domicílio não possui o bem ou serviço i.Já Dié o
percentual de domicílios na PESB com o bem durável i;e né o número absoluto de
bens e serviços possuídos pelo domicílio. O índice é padronizado para variar
entre 0 e 1, sendo 1 o valor máximo de consumo. Em vez da variável renda, usa-
se o padrão de consumo relativo pelo fato de ele: 1) ter uma característica
mais permanente do que a renda declarada; 2) apresentar um número de
declarações maior e menos enviesado do que no caso da renda; e 3) em função de
a variável de consumo resolver em parte o problema de endogeneidade existente
entre cor declarada e padrão de renda.
14. Utiliza-se a cor dos pais por ser o principal fator associado à cor
autodeclarada pelos entrevistados. Na PESB 2002, a cor da pele dos ascendentes
é citada por 35% dos entrevistados como razão para classificar-se em dada cor/
raça. Acor da pele dos pais é a segunda razão mais citada depois da própria cor
dos entrevistados. O peso do determinismo genético sobre a cor declarada também
tem sido demonstrado em outros estudos (Loveman e Muniz, 2007; Schwartzman,
2007).
15. Para facilitar a apresentação e a discussão dos resultados, as
probabilidades de classificação entre as cores branca ou preta são simuladas
utilizando-se a abordagem sugerida por King, Tomz e Wittenberg (2000), que
utilizam simulações Monte Carlo para construir intervalos de confiança
estatística. Para se obterem estimativas comparáveis, todas as características
individuais foram fixadas e variaram-se apenas a cor dos pais e o método de
coleta (cor autodeclarada segundo fotografias ou segundo o entrevistador). Dada
a importância do debate sobre cotas universitárias, optou-se por definir um
"tipo ideal" com características fixas mais prevalentes na amostra e próximas
do perfil universitário. O "tipo ideal" adotado possui idade entre 18 e 24
anos, tem segundo grau completo, baixo padrão de consumo, é do sexo feminino,
solteira, mora fora da região Nordeste e da capital. Ao contrário da estimativa
pontual comumente apresentada na saída da regressão, na simulação Monte Carlo
os valorespreditossão extraídosde uma distribuição de coeficientes (ex.:
betas)calculados a partir de 1.000 simulações bootstraps. Os coeficientes da
estimativa encontram-se no Anexo_3.