Políticas de desenvolvimento territorial no meio rural brasileiro: novas
institucionalidades e protagonismo dos atores
O debate atual sobre o desenvolvimento rural no Brasil, e recentemente sobre o
desenvolvimento territorial, fundamenta-se, entre outros aspectos, na
observação da persistência interligada da pobreza rural e da desigualdade
social e regional, e enquadra-se na discussão mais ampla sobre o
desenvolvimento econômico e a sustentabilidade. De certa maneira, o conceito de
território (concebido como uma escala de ação adequada para empreender
políticas públicas diferenciadas) insere-se nesse contexto, refletindo as
disputas existentes entre estratégias tão distintas, como aquela que acentua o
processo de crescimento econômico com forte vocação exportadora na área
agrícola ou, ainda, outra que valorize os processos de desenvolvimento
sustentável aliado à ideia de justiça e/ou equidade social.
Assim, a análise dos obstáculos existentes para a articulação de políticas,
instituições e a construção de estratégias de desenvolvimento, bem como das
soluções encontradas para superá-los, pode ser explorada levando em conta três
componentes: (a) os programas governamentais de distintas procedências; (b) as
arenas decisórias e os espaços públicos existentes no território; e (c) o
empoderamento dos diversos atores e agências institucionais presentes nesses
espaços e seus efeitos sobre as possibilidades de articulação das políticas e
instituições, e seus reflexos no desenho de projetos estratégicos definidos
numa escala que ultrapassa a dinâmica exclusivamente local.
Este artigo busca analisar a recente experiência brasileira de implementação de
políticas de desenvolvimento territorial no meio rural, examinando os arranjos
institucionais (as novas institucionalidades) construídos para viabilizar o
desempenho de ações públicas dessa natureza. Para tanto, são destacadas as
dimensões relativas aos processos de gestão social e governança dessas
estruturas, bem como ao caráter estratégico dos atores sociais e o protagonismo
social que os mesmos exercem, ou não, na implementação das ações nesses espaços
públicos diferenciados.
Assim, o presente texto está estruturado em três partes, seguidas de algumas
considerações ao final. Na primeira delas são apresentados os programas e seus
respectivos desenhos e ossatura que servem de objeto para os nossos propósitos.
Na sequência enfatizamos a análise dos processos de gestão social dos
territórios à luz da noção de capacidade governativa para, enfim, tratarmos dos
alcances e limites dessas novas institucionalidades e da articulação
estabelecida entre os atores sociais e desses com as políticas públicas,
tomando como referência três estudos de caso desenvolvidos pela pesquisa da
qual este artigo deriva1.
A EXPERIÊNCIA RECENTE DE DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL RURAL NO BRASIL: BREVE
RESGATE
A política brasileira de desenvolvimento territorial aplicada ao setor rural, a
cargo da Secretaria de Desenvolvimento Territorial (SDT), vinculada ao
Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), acumulou um significativo conjunto
de casos, possibilitando um tratamento mais acurado dos limites e alcances
dessa experiência de intervenção pública. Com efeito, o Programa de
Desenvolvimento Sustentável dos Territórios Rurais (Pronat), também conhecido
como Territórios Rurais de Identidade, está no cerne da formação da própria
SDT, ocorrida em 2003, durante o início do primeiro governo Lula. Este programa
passou a operar de forma regulamentada em julho de 2005, quando obteve sua
chancela formal por intermédio da Portaria nº 5, de 18/07/2005.
Esta portaria, emitida pela SDT, reconhece a seleção, alteração e administração
de territórios rurais e garante suporte legal para os Territórios da Cidadania
(TC), programa adicional que começou a ser efetivamente executado em 2008.
O conceito de território adotado oficialmente diz respeito a
um espaço físico, geograficamente definido, geralmente contínuo,
compreendendo a cidade e o campo, caracterizado por critérios
multidimensionais - tais como o ambiente, a economia, a sociedade, a
cultura, a política e as instituições - e uma população com grupos
sociais relativamente distintos, que se relacionam interna e
externamente por meio de processos específicos, onde se pode
distinguir um ou mais elementos que indicam identidade e coesão
social, cultural e territorial. (Brasil, MDA/SDT, 2005d)
Segundo a SDT a abordagem territorial se justifica por vários aspectos, entre
os quais: a) o rural não se resume ao agrícola; b) a escala municipal é muito
restrita para o planejamento e organização de esforços visando à promoção do
desenvolvimento e a escala estadual é excessivamente ampla; c) a necessidade de
descentralização das políticas públicas; d) o território é a unidade que melhor
dimensiona os laços de proximidade entre pessoas, grupos sociais e
instituições, estabelecendo iniciativas voltadas para o desenvolvimento.
A intenção dos programas é garantir que os processos de desenvolvimento
envolvam múltiplas dimensões, cada qual contribuindo de uma determinada maneira
para o conjunto do território em diferentes áreas, como a econômica,
sociocultural, político-institucional e ambiental.
Na abordagem dos territórios rurais de identidade, não é incomum referir- se
também à dimensão "cultural". Isto é, os territórios rurais fundamentar- se-iam
na existência de um corpo de normas (simbólicas ou não) específicas da
sociedade local, ou seja, aproximando-se da ideia uma "identidade territorial"
(Echeverri, 2009). No entanto, a construção dessa "identidade" é atributo de
alguns territórios, mas não de todos. Entre os critérios utilizados pela SDT
para identificar os territórios rurais estão: i) conjunto de municípios com até
50 mil habitantes; ii) conjunto de municípios com densidade populacional menor
que 80 habitantes/km2; iii) maior concentração do público prioritário do MDA
(agricultores familiares, famílias assentadas pela reforma agrária,
agricultores beneficiários do reordenamento agrário, o que caracteriza maior
intensidade de demanda social); iv) conjunto de municípios já organizados em
territórios rurais de identidade; v) conjunto de municípios integrados com os
Consórcios de Segurança Alimentar e Desenvolvimento Local (Consad), do
Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), e Mesorregiões, do Ministério da
Integração Nacional.
Até o presente foram identificados 164 territórios rurais, distribuídos em
todas as regiões brasileiras, vinculados ao MDA por meio da SDT. Propostas de
novos territórios ou modificação de territórios já estabelecidos podem surgir
em instâncias locais, devendo ser remetidas aos Conselhos Estaduais de
Desenvolvimento Rural Sustentável (CEDRS) para fins de análise e manifestação,
que posteriormente as encaminha à SDT. Também nesse sentido, os projetos de
desenvolvimento para os territórios rurais surgemnos fóruns locais - os
Conselhos de Desenvolvimento Territorial (Codeters), e são apoiados pela SDT,
por intermédio do Condraf (Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural
Sustentável).
Durante o processo de identificação dos territórios rurais, o governo entendeu
que alguns territórios apresentavam-se economicamente mais fragilizados que
outros e, com isso, necessitavam de uma atenção emergencial com ações ainda
mais articuladas. A partir dessa percepção surge o Programa Territórios da
Cidadania, lançado em 2008, que tem o mesmo referencial conceitual dos
territórios rurais sendo amparado também pela mesma portaria, mas com uma
gestão bem mais complexa. Resumidamente, foi do conjunto de territórios rurais
que o governo, em geral, selecionou os territórios da cidadania. A prioridade
era atender territórios que apresentassem baixo acesso a serviços básicos,
índices de estagnação na geração de renda e carência de políticas integradas e
sustentáveis para autonomia econômica de médio prazo.
O Programa Territórios da Cidadaniaera umadas ações destinadas a reduzir as
desigualdades propostas pela Agenda Social do Governo Federal. Seu objetivo é a
"superação da pobreza e geração de trabalho e renda no meio rural por meio de
uma estratégia de desenvolvimento territorial sustentável". Especificamente, o
programa visa à promoção da inclusão produtiva das populações pobres dos
territórios, por meio do planejamento e integração de políticas públicas.
Também se propõe ampliar a participação social e garantir a universalização dos
programas básicos de cidadania. O programa abrangia, até o fim de 2008, 60
territórios, mas foi ampliado para 120 territórios da cidadania em 2009.
Segundo aMensagemao Congresso Nacional2009, este programa constituía-se "na
principal estratégia do governo para redução das desigualdades no meio rural,
por meio de integração de políticas públicas".
Os critérios utilizados na seleção dos territórios da cidadania foram: i) menor
IDH (Índice do Desenvolvimento Humano); ii) maior concentração de agricultores
familiares e assentados da Reforma Agrária; iii) maior concentração de
populações quilombolas e indígenas; iv) maior número de beneficiários do
Programa Bolsa Família; v) maior número de municípios com baixo dinamismo
econômico; vi) maior organização social; vii) pelo menos um território por
Estado da Federação (Brasil, MDA/SDT, 2007).
Enquanto o Pronat apresentava um esquema de gestão exclusivamente centrado na
SDT/MDA, vinculando os diferentes colegiados territoriais ao Ministério, o
processo de gestão do Programa Territórios da Cidadania estabelecia um tripé:
Comitê Gestor Nacional, Comitês de Articulação Estadual e os Colegiados
Estaduais. O Comitê Gestor Nacional é formado por representantes de 19 (em 2010
com 22) ministérios, sendo a coordenação geral executada pelo MDA. Este comitê
tem por atribuição aprovar diretrizes, adotar medidas para execução do
programa, avaliá-lo e definir novos territórios. A coordenação é do MDA, mas a
articulação era feita, até dezembro de 2010, pela Casa Civil e o monitoramento
do programa, realizado pelo NEAD (Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento
Rural).
Os comitês de articulação estadual são consultivos e propositivos. Procuram
articular órgãos federais, estaduais e representações das prefeituras dos
municípios envolvidos nos territórios. Visam apoiar a organização e mobilização
dos colegiados, fomentar a articulação e integração das diversas políticas
públicas nos territórios, acompanhar a execução do programa, auxiliar na sua
divulgação e apresentar sugestões de novos territórios e ações.
Os colegiados territoriais são compostos por representantes das três esferas de
governo e da sociedade em cada território. Em comparação com a composição dos
territórios rurais, amplia-se no Programa Territórios da Cidadania a estrutura
desses colegiados. Eles possuem uma coordenação executiva de composição
paritária, diferentemente da composição dos Codeters do Pronat, na qual
prevalece a participação de representantes da sociedade civil (em geral com
dois terços dos componentes dessas arenas).
Entre as atribuições dos colegiados territoriais destacam-se: i) divulgar as
ações do programa; ii) identificar demandas locais para o órgão gestor
priorizar o atendimento (de acordo com critérios, sistemas de gestão pré-
estabelecidos, especificidades legais e instâncias de participação existentes)
þ; iii) promover a interação entre gestores públicos e conselhos setoriais; iv)
contribuir com sugestões para qualificação e integração de ações; v)
sistematizar as contribuições para o Plano Territorial de Ações Integradas; vi)
exercer o controle social do programa.
Apesar de excessivamente normativa, a apresentação acima é importante para
compreendermos a mudança operada na formatação das políticas orientadas aos
territórios rurais e na maneira de pensar o processo de gestão social dos
mesmos. Essa reformulação no arranjo institucional da política (reforçando sua
dimensãopolity) temreflexos diretos na forma com que os diferentes atores se
envolvem no programa (rebatendo nos processos de participação social, na
constituição de arenas consultivas e decisórias, no acompanhamento,
monitoramento e controle público das ações implementadas etc.).
No caso dos territórios da cidadania, diferentemente dos rurais, o desafio
torna-se maior, pois envolvem diferentes ações setoriais oriundas de distintos
ministérios, cujo exercício de articulação se dará efetivamente na escala
territorial, complexificando o processo de gestão social. Muito mais que a mera
somatória de ações e dotações orçamentárias dos ministérios sobre um mesmo
espaço social, trata-se de pensar a lógica da territorialização
egovernançadepolíticas apartirdeum encontro de ações bottom-up, pelos atores
locais - agora não necessariamente agrários - com aquelas top-down, também não
necessariamente setoriais.
Antes de avançarmos nessas questões, repassemos os marcos que têm balizado o
processo de intervenção pública na área, tomando como referência a
institucionalidade operada no âmbito do Pronat2.
Na perspectiva da normatização da política ganham destaque dois processos: a
descentralização das políticas públicas e o empoderamento dos atores locais.
Ambos os atributos são identificados como centrais à lógica da ação pública, na
medida em que se supõe que sua efetiva implantação fortalecerá os processos de
participação social (aliados aos mecanismos de governança democrática e
transparência e/ou accountability da política territorial). Nesse sentido a
participação social garantiria a vigência dos princípios quemarcariam a
diferença entre a "velha" experiência de planejamento do desenvolvimento rural
(muito em voga nas décadas de 1970 e 1980, incentivada pelos programas
financiados por agências multilaterais) e a recente iniciativa de planejamento
e desenvolvimento territorial. Para tanto, o documento governamental propõe a
realização de um ciclo de gestão social, em boamedida lastreado nas policy
analysis dedicadas ao exame dos policy cycles (Flexor e Leite, 2007; Frey,
2000).
Para o que nos interessa neste trabalho, a implantação da política previa a
constituição de arenas específicas para o alcance dos objetivos propostos pelo
Pronat. É bom lembrar que a própria construção de espaços públicos para o
exercício do diálogo e a tomada de decisões, como é o caso dos colegiados
territoriais, consiste, ela própria, numa diretriz de intervenção governamental
que autores como Frey (2000) irão nomear de políticas constitutivas (ao lado
das políticas distributivas, regulatórias e redistributivas), redesenhando a os
satura público-governamental para a prática dos instrumentos de política
(policies) derivados dessa nova institucionalidade política (polity) que, por
suavez, resulta das negociações políticas (politics) que dão sustentação ao
novo arcabouço sobre o qual o programa é operado.
Assim, a implantação desses espaços no nível territorial consiste numa peça
estratégica para a prática da política de gestão social e de governança
territorial. Com efeito, as Resoluções 48 e 52 do Condraf (Brasil, MDA/Condraf,
2004 e 2005) já informavam a "efetivação e democratização" dos conselhos como
mecanismo para assegurar o processo de participação social e propor uma efetiva
política de desenvolvimento, "eliminando interferências político-partidárias e
das oligarquias locais no processo decisório" (Res. Condraf 48, alínea d das
considerações iniciais). Dessa forma, estes espaços públicos deveriam
contemplar a representatividade, a diversidadeea pluralidadedos atores
envolvidos (idem, ibidem, Art. 1º) 3, atentando para duas entre as diversas
recomendações existentes no âmbito da resolução: a) buscar a normatização dos
conselhos (especialmente na forma de leis - municipais, estaduais e/ou
federais), assegurando a continuidade das suas ações; e b) garantir que, no
mínimo, 50% das vagas dos conselhos sejam ocupadas por representantes da
sociedade civil organizada ligada à agricultura familiar (os demais 50%, ou
menos, dos postos seriam dirigidos para representantes do setor público, de
organizações para-governamentais e outros setores da sociedade civil não
relacionados à agricultura familiar).
Na proposição normativa do documento da SDT, essas arenas territoriais
comportam três espaços diferenciados, sendo que sua efetiva denominação e
funcionamento seria objeto da especificidade de cada um dos territórios
criados: plenário (com a participação de todos os representantes do colegiado),
núcleo dirigente ou diretivo, de caráter paritário e responsável pela
implementação das ações da plenária e do plano territorial, e o núcleo técnico,
com a missão desubsidiar o funcionamento das instâncias colegiadas aportando
conhecimento e expertise sobre temas e áreas indicados para tanto.
Outro instrumento correlato ao tema aqui discutido é aquele relativo ao
controle social dos processos e políticas de desenvolvimento territorial,
rebatendo diretamente na capacidade de governança das políticas públicas.
Nessa perspectiva o monitoramento e a avaliação, em especial dos Planos
Territoriais de Desenvolvimento Rural Sustentável (PTDRS), seriam os dois
instrumentos previstos pelo mecanismo de controle social. Particularmente,
merece destaque, no texto oficial, a ideia de que o controle, operado como
instrumento de gestão e governança territorial, teria principalmente o objetivo
de garantir a maior eficiência no uso dos recursos públicos, visando atingir os
indicadores de desenvolvimento programados (Brasil, MDA/SDT, 2005a).
Deve-se destacar que os instrumentos de monitoramento e de avaliação (seja na
escala do desenvolvimento territorial propriamente dita, seja na escala de
programas e projetos específicos) passem a operar a partir de processos
participativos, abastecidos por informações pertinentes e pautados por
indicadores que reflitam as aspirações e expectativas depositadas na
perspectiva do desenvolvimento do território.
Apesar do sofisticado desenho técnico-instrumental que informa o contexto no
qual se produz e implementa o processo de gestão social dos territórios, é
interessante ressaltar, para voltarmos ao documento original da SDT, que todos
esses mecanismos de política só teriam sentido com sua plena utilização pelos
atores objeto da política, o que nos leva a aprofundar o exame dessa
experiência à luzdas questões alinhavadas nos próximos tópicos.
CAPACIDADE GOVERNATIVA, GESTÃO SOCIAL DOS TERRITÓRIOS E ARRANJOS
INSTITUCIONAIS: ENTRE NORMAS E PRÁTICAS SOCIAIS
Recorrendo a Hirschman (1984), acreditamos que os mecanismos de gestão social4
e capacidade governativa5 desses espaços podem assumir configurações distintas,
tempos e movimentos específicos e processos de desenvolvimento que não obedecem
às mesmas sequências, diferenciando-se entre si, o que o autor denominou de
processo das sequências invertidas. Aqui, este tipo de afirmação implica
problematizar a linearidade do ciclo de gestão social dos territórios na medida
em que, em função das suas particularidades, a ordem e a velocidade das etapas
podem não obedecer a um mesmo sequenciamento. Isso não invalida a tentativa da
administração pública de normatizar a política de intervenção e gestão
territorial, homogeneizando procedimentos. No entanto, entre a normatização e a
prática é necessário manter certa flexibilidade, adequando tais parâmetros ao
contexto histórico, social, econômico, político e cultural no qual se firmam as
diferentes experiências de desenvolvimento territorial rural no Brasil.
Assim, as expectativas dos resultados a serem alcançados com relação ao tema
aqui tratado - gestão social territorial - presentes nos documentos oficiais
devem ser interpretadas numa perspectiva relativa, para a qual concorrerão
afirmativa e/ou contraditoriamente os diferentes móveis dos tabuleiros
territoriais. No plano oficial, particularmente em relação ao Pronat, espera-se
que a implementação da política atravesse as seguintes etapas, naquilo que foi
denominado "macroprocesso da gestão social": i) sensibilização e mobilização;
ii) visão de futuro; iii) diagnóstico; iv) planejamento; v) arranjos
institucionais; vi) organização para a execução de planos; vii) direção para a
execução dos planos; viii) monitoramento e avaliação (Brasil, MDA/SDT, 2006a,
2006b).
Um exame mais acurado sobre a práxis da gestão social territorial requer a
observação de alguns aspectos mais críticos que, à luz da experiência do
Pronat, serão tratados a seguir. Documento elaborado a pedido do Condraf, tendo
como referência uma sistematização de diversos estudos sobre
institucionalidade, gestão nas políticas e instâncias relacionadas ao
desenvolvimento rural no país (Brasil, MDA/Condraf, 2005a), apresenta tópico
relativo às "bases territoriais e institucionais das diferentes esferas de
gestão social", subdividido em quatro aspectos.
No primeiro ("abrangência e interação das ações"), constata-se que os estudos
examinados convergiram para o fato de que: a) a interação entre os diversos
atores sociais nos Conselhos Municipais de Desenvolvimento Rural (CMDRs) ainda
era bastante baixa; b) a definição das linhas de atuação (centradas em
atividades agrícolas) e a gestão dos planos de trabalho ficava a cargo da
equipe técnica dos órgãos públicos envolvidos; c) a interação observada entre
os municípios de uma determinada região dava-se mais pela competição do que
pelo estabelecimento de parcerias, como também eram precárias as articulações
entre os entes públicos das esferas municipal, estadual e federal de governo.
No segundo aspecto ("amplitude e enfoque dos debates"), as convergências
sistematizadas apontavam para o fato de que os Planos Municipais de
Desenvolvimento Rural (PMDRs) possuíam mais uma "lista de compras" do que
propriamente um projeto de desenvolvimento, além de que a atuação dos conselhos
estava primordialmente direcionada à resolução de problemas pontuais, perdendo
visão estratégica de médio e longo prazos e impedindo diagnóstico mais profundo
sobre os impactos da política nas economias locais.
No terceiro aspecto ("continuidade e descontinuidade das ações"), os documentos
analisados concordavam que as ações dos CMDRs limitavam-se ao uso dos recursos
do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf),
criando uma dependência da atuação dos conselhos frente a uma dada política
pública, que oscila de governo para governo.
Finalmente, o quarto aspecto sublinhado ("mecanismos de apoio ao funcionamento
da institucionalidade") observava a falta de infraestrutura e apoio para o
funcionamento dos conselhos e, por conta disso, sua dependência em relação às
instalações e meios oferecidos pelas prefeituras municipais.
Outros estudos ressaltam que a herança da cultura política manifestada na
centralização dos processos de tomada de decisão e no clientelismo das relações
constitui-se num obstáculo central para a conformação de um ambiente
institucional capaz de planejar o desenvolvimento territorial, coordenando e
integrando uma diversidade de atores sociais, ações estratégicas e projetos
específicos. Dessa forma, privilegiam-se os segmentos mais favorecidos e/ou
empoderados, criando-se distorções nos objetivos da política, descontinuidade
de ações e a centralização das decisões em poucos agentes. Muitas dessas
antigas práticas não foram eliminadas e são transpostas para os territórios,
segregando municípios e grupos sociais que não têm força representativa (Couto
e Rocha, 2006: 9).
Em parte considerável dos processos de ampliação da participação em políticas
públicas, o conflito é subestimado ou "evitado" como forma de se preservar a
"harmonia" entre os diferentes grupos que compõem a arena decisória e,
portanto, a sua estabilidade política. No entanto, o embate de opiniões e de
posições e a resolução (nem sempre possível) dos conflitos é uma etapa
constituinte e intransferível do processo participativo, e reforça a
importância de que sejam previstos e garantidos mecanismos de incentivo à
participação, que assegurem a representatividade dos grupos sociais e a
transparência dos processos decisórios.
O reconhecimento e o enfrentamento dos conflitos, mesmo aqueles existentes no
interior dos grupos alinhados com os interesses da agricultura familiar,
constituem elemento fundamental para a dimensão governativa territorial
(Hirschman, 1984). A eliminação do conflito, muitas vezes, bloqueia o
surgimento de novas dinâmicas e compromete a ampliação dos canais democráticos
de participação, na medida em que tende a privilegiar aqueles grupos sociais
que possuem posição privilegiada na estrutura de poder local. É relevante
considerar que a diferença no grau de representatividade dos variados atores
(segundo sua capacidade de articulação política e o conhecimento do
funcionamento dos processos burocráticos de acesso a recursos públicos) pode
vir a gerar formas distintas de participação e de intervenção desses grupos
sociais no processo de gestão, produzindo configurações específicas no momento
da aplicação dos recursos disponibilizados em nível territorial (Couto e Rocha,
2006:11).
Contudo, não se pode deixar de reconhecer o êxito que a política da SDT logrou
na ampliação da visibilidade de certos grupos sociais (particularmente aqueles
que já estavam organizados em entidades de representação) que até então não
eram considerados (ou apenas marginalmente) nos processos de desenvolvimento
rural e territorial. Os investimentos realizados em capacitação de lideranças e
nas atividades de mobilização contribuíram para a ampliação dos canais de
acesso à informação. Adicionalmente, a política territorial conferiu o efetivo
reconhecimento dessas populações como público estratégico para o
desenvolvimento territorial, dando-lhes mais visibilidade e elevando seu
capital político, uma vez que se tornam mais capazes de influenciar a condução
das políticas de desenvolvimento.
A experiência do Território da Borborema (na Paraíba) pareceu-nos ilustrativa
da mudança operada pela gestão da política territorial na aplicação dos
recursos existentes: de uma situação inicial na qual os mesmos se concentravam
no grupo de atores articulados pelo polo sindical para outra, mais distribuída,
onde foi contemplado adicionalmente o fórumde assentados e os atores mais
próximos à região do semiárido (Bonnal e Piraux, 2007; Delgado e Zimmermann,
2008b).
Favareto (2008), entre outros autores, tem defendido uma mudança substancial no
arco de atores que devem ser incorporados à dinâmica territorial evitando o
risco que o empoderamento de atores mais organizados signifique uma apropriação
desproporcional dos recursos financeiros. Oautor afirma, ainda, que a
consolidação de um projeto efetivamente territorial não pode se restringir a um
projeto eminentemente agrícola. Essas questões talvez fiquem mais evidentes no
caso da experiência dos Territórios da Cidadania do que nos Territórios Rurais
de Identidade. A ampliação de atores, segundo o autor, incluiria aqueles mais
desorganizados e próximos à base do público preferencial de políticas do MDA,
como também os segmentos não rurais e o empresariado local. Aqui é preciso ter
um pouco de cautela, visto que os processos políticos implicam uma certa
construção de campos hegemônicos, como evidenciaremos no tópico seguinte, e é
quase impossível pensarmos na emergência de propostas territoriais consensuais
com arco tão diferenciado de interesses. Nesse sentido, se a necessidade de
reconfigurar os campos de poder se faz presente, é preciso avaliar bem os
instrumentos disponíveis para tanto (como o fortalecimento das organizações
locais) e o perfil de atores estratégicos com os quais se irá desenvolver o
processo de gestão. Dar visibilidade a atoresmais vulneráveis para os quais se
espera umacesso ao conjunto de políticas (e recursos) é bem diferente de
atribuir espaços mais significativos a um grupo de atores historicamente
caracterizados por posturas conservadoras quanto às esferas de governança
democrática e cuja atuação tenha se dado primordialmente na base de
concentração de ativos (políticos, econômicos, fundiários).
Por outro lado, nunca é demais relembrar que a vigência dos processos e
políticas de gestão territorial deve comportar uma recuperação da bagagem
histórica sobre os quais os mesmos se assentam, o caráter ati-vo da
participação dos atores e, em particular, da própria intervenção do Estado.
Brandão (2007: 49-50) ajuda-nos a avançar sobre esse ponto:
a necessidade da "territorialização" das intervenções públicas é
tomada como panaceia para todos os problemas do desenvolvimento.
Assevera-se, de forma velada ou explícita, que todos os atores
sociais, econômicos e políticos estão cada vez mais plasmados,
"diluídos" (subsumidos), em um determinado recorte territorial. Na
verdade, parece existir uma opção por substituir o Estado ("que se
foi"), por uma nova condensação de forças sociais e políticas
(abstrata) que passa a ser chamada de território. Muitas vezes estão
ausentes ou 'mal abstraídas' questões estruturais. Propugnam-se
receitas genéricas, descurando, por exemplo, das especificidades de
um contexto de país subdesenvolvido, continental, periférico e com
uma formação histórica da escala local bastante peculiar. Lança-se
mão de repertórios de boas práticas bem catalogadas, fruto de um
esforço de pesquisa de criação de inventários de experiências de
desenvolvimento territorial. O território passa a ser visto como o
grande elemento repositório, condensador e, ao mesmo tempo, regulador
autômato de relações, dotado da propriedade de sintetizar e encarnar
projetos sociais e políticos. [...] À ação pública caberia apenas
animá-lo e sensibilizá-lo, construindo confiança e consenso
duradouros. É bom lembrar que tal consenso surge como pressuposto e
não como propósito a ser construído. Negligencia-se, claramente, o
papel, porexemplo, do Estado na provisão de infraestrutura, tanto
hard, quanto soft, que penso, ainda são importantes fatores de
estruturação de dinâmicas. [...] O território que deveria ser visto
como ambiente politizado, em conflito e em construção é posto como
ente mercadejado e passivo, mero receptáculo. O que é fruto de
relações sociais aparece como relação entre objetos. Há uma
coisificação e o território parece ter poder de decisão, transformado
em sujeito coletivo.
Ou seja, é preciso pensar a dinâmica territorial de forma não autárquica, mesmo
que se valorize os procedimentos de desenvolvimento endógeno dessas
experiências. Isso implica uma gestão e governança mais complexa intra e
interterritórios, bem como entre os diferentes níveis por onde circulam os
atores.
Assim, o processo de governança e gestão social carrega dois aspectos que devem
ser melhor examinados quanto aos limites e alcances que tal perspectiva assume
no desenvolvimento territorial: a) é preciso pensar sob qual arranjo
institucional a experiência de gestão se desenvolve. Se a perspectiva ofertada
é aquela que enfatiza a política territorial como uma política de combate à
pobreza, os instrumentos e as práticas relativas à gestão social assumirão
certamente uma performance muito diferente quando a ênfase estiver centrada na
construção de cadeias produtivas dispostas em "arranjos" locacionais
determinados; b) o outro ponto crucial para definir o funcionamento da gestão
territorial refere-se à forma pela qual foram mobilizados os atores e
escolhidos os segmentos sociais participantes. Isso implica, necessariamente,
tratar o tema da gestão sob a emergência das novas institucionalidades das
políticas públicas, em especial aquelas evidenciadas pelo Programa Territórios
da Cidadania, tarefa à qual nos dedicaremos a seguir.
GESTÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS DE DESENVOLVIMENTO RURAL NO CONTEXTO DAS NOVAS
INSTITUCIONALIDADES TERRITORIAIS. ANÁLISE COMPARADA DOS TERRITÓRIOS DA
CIDADANIA INVESTIGADOS
A pesquisa de campo operada no estudo que deu origem a este artigo foi
realizada em três Territórios da Cidadania: Baixo Amazonas no Pará, Borborema
na Paraíba e Noroeste Colonial no RioGrande do Sul. De modo geral, em cada um
desses territórios buscou-se compreender (1) a caracterização socioeconômica do
meio rural e da estrutura de poder prevalecente; (2) as experiências políticas,
sociais e institucionais locais que precederam à criação do território e que
influenciaram a sua conformação institucional; (3) as características assumidas
pela institucionalidade territorial, suas potencialidades e limites; (4) os
atores sociais participantes na institucionalidade e na gestão da política
pública territorial, comdestaque para a consideração dos projetos territoriais
apresentados e aprovados pelo colegiado territorial; e (5) a existência ou não
de protagonismo social no território e as características assumidas pela
dinâmica institucional no mesmo6.
As Novas Institucionalidades Territoriais
Comecemos com um esclarecimento conceitual. Por novas institucionalidades
estamos entendendo o conjunto de instituições (regras de funcionamento, normas
existentes - explícitas e implícitas - e organizações colegiadas) criadas pelos
programas federais para conduzir a gestão social, a governança e a escolha dos
projetos estratégicos da política territorial, com a participação de
representantes do Estado e da sociedade civil7. Esta nova institucionalidade
territorial é, então, uma aproximação ao que foi chamado, na literatura
recente, de "espaços públicos de participação", nos quais as decisões sobre a
abrangência do conceito de público e sobre as políticas públicas - em geral
setoriais, mas não apenas - não se restringem exclusivamente ao âmbito dos
atores ou agentes estatais, mas são efetivadas através de sua inter-relação com
atores da sociedade civil representados nesses espaços8.
Note-se que esta perspectiva tem como objetivo democratizar a gestão e o
controle da política pública - não sendo coincidência que ganhou importância
política no Brasil com a redemocratização do país a partir da metade da década
de 1980 - na medida em que não circunscreve o público simplesmente ao estatal
e, com isto, reconhece que decisões sobre ação e política públicas podem ser
tomadas conjuntamente em espaços públicos, precipuamente criados para tal e com
regras de funcionamento estabelecidas, no qual participam representantes do
Estado e da sociedade civil9. Visa também melhorar a qualidade da ação e da
política do Estado, na expectativa de que a criação de espaços e de mecanismos
públicos que permitam maior interação dos gestores estatais com os usuários da
ação e da política estatais, na perspectiva tanto de sua implementação como de
seu controle, tenderá a estimular aobtenção de resultados mais qualificados.
Os Territórios da Borborema/PB e do Baixo Amazonas/PA foram criados
originalmente no Programa Territórios Rurais de Identidade e foram
posteriormente incluídos no Programa Territórios da Cidadania. O Território do
Noroeste Colonial/RS já nasceu como Território da Cidadania sem ter existido
previamente como território rural de identidade, o que trouxe, em nossa opinião
algumas consequências para o protagonismo social neste território, como veremos
mais adiante.
No Pronat duas grandes esferas sociais estão privilegiadamente contempladas na
institucionalidade territorial estabelecida: o Estado e a sociedade civil. De
modo geral, as organizações pertencentes a essas esferas e que estão envolvidas
na composição dos colegiados são aquelas reconhecidas como tendo influência no
território, tais como prefeituras, movimentos sociais, sindicatos, ONGs,
agências governamentais estaduais e federais, conselhos, entre outros. A
porcentagem de membros da sociedade civil e do Estado varia conforme os
colegiados, mas a maior parte das experiências existentes é ou de paridade
entre ambos ou de composição dois terços sociedade civil e um terço poder
público.
É importante lembrar, como assinalamos anteriormente, que a abordagem
territorial para as políticas de desenvolvimento rural foi adotada, a partir de
2003, pela recém-criada SDT/MDA do primeiro governo Lula, em substituição à
política dos governos anteriores que tinha o município como seu marco de
referência principal. Esta mudança foi particularmente impactante pela extinção
do Pronaf Infraestrutura e Serviços, programa que canalizava recursos a fundo
perdido paramunicípios selecionados e que era implementado pelas prefeituras
com a supervisão e o controle feitos pelos Conselhos Municipais de
Desenvolvimento Rural (aos quais se acrescentava o adjetivo Sustentável em
alguns municípios), os conhecidos CMDRs, criados para tal fim10.
A extinção do Pronaf Infraestrutura e Serviços e a canalização dos recursos que
dispunha para a política territorial reduziram o montante de financiamentos
recebido pelos municípios anteriormente contemplados pelo programa, fazendo com
que prefeituras e CMDRs perdessem poder com a mudança de política, o que
induziu muitos prefeitos municipais a resistireme se oporem à nova política
territorial e deixou os CMDRs deslocados e fora de lugar emdecorrência da
transição para a nova institucionalidade territorial.
No caso do Programa Territórios da Cidadania, oficializado em2007, a
institucionalidade territorial está fundamentalmente composta, como nos
territórios rurais de identidade, por representantes do Estado e da sociedade
civil, com uma composição de participação que se assemelha a deste último. No
entanto, como informamos no primeiro tópico, há uma diferença importante. Nos
territórios da cidadania, a distribuição entre os participantes do Estado e da
sociedade civil deve ser, em princípio, paritária, de modo que sua orientação
exige uma composição ampliada emrelação ao que são os colegiados formados nos
territórios rurais de identidade. Ou seja, nos territórios da cidadania a
recomendação é de que a presença do Estado seja maior do que nos territórios
rurais de identidade, e que se expresse por meio da participação mais intensa
de representantes das três esferas de governo (federal, estadual e municipal).
Esta orientação é coerente com os objetivos gerais do programa, que pretende a
superação da pobreza rural e a conquista da cidadania em territórios
selecionados, por meio da mobilização de diferentes ministérios setoriais e
agências governamentais no sentido de planejarem suas ações para que as
políticas públicas incidentes nesses territórios sejam implementadas de forma
articulada e integrada.
Em termos concretos nos territórios da cidadania que investigamos, não obstante
as dificuldades existentes para a sua execução, a importância e o volume de
recursos anunciados pelo programa provocaram uma nova mobilização em torno da
política territorial, especialmente pelas prefeituras municipais que passaram a
demonstrar ummaior interesse em participar da institucionalidade territorial.
Em contraposição, a exigência de paridade de participação com osmembros do
Estado assustou inicialmente os representantes da sociedade civil, em função da
rejeição anterior e do novo "oportunismo" demonstrado por muitos prefeitos,
além do risco de que a institucionalidade territorial pudesse assumir um
contorno eminentemente governamental. No entanto, foi possível perceber na
pesquisa de campo que, apesar de continuarem a existir, esses temores
reduziram-se com o passar do tempo frente a um problema central da dinâmica
institucional que é o reconhecimento de que, sem a participação, a compreensão
e o envolvimento dos atores governamentais, a política territorial não tem
condições de avançar, de modo que sua presença no colegiado e nas demais
instâncias da institucionalidade territorial significa um desafio e um
aprendizado indispensáveis para a melhoria da qualidade e da efetividade da
política territorial.
O Território da Cidadania da Borborema/PB surgiu como território rural em 2003,
participando do Programa Territórios Rurais de Identidade da SDT/MDA. Em 2008,
transformou-se em Território da Cidadania. A institucionalidade territorial na
Borborema fundou-se inicialmente na existência do Fórum de Desenvolvimento
Territorial Sustentável da Borborema, denominação assumida neste território
pelo colegiado territorial, sua instância mais importante de deliberação acerca
da política territorial, emparticular por meio da aprovação de projetos de
desenvolvimento territorial a serem financiados com recursos da SDT/MDA.
Ao longo da evolução do Pronat, o Fórum foi estruturado em um Núcleo de
Coordenação, com o objetivo de articular atores e organizações no processo de
desenvolvimento territorial e na elaboração e na implementação do PTDRS, um
Núcleo Técnico, estruturado em grupos temáticos, que apoia tecnicamente o Fórum
e o Núcleo de Coordenação, e uma Plenária Geral, de que participam todos os
membros do Fórum e que é seu órgão máximo de decisão. Por fim, existe o cargo
de articulador ( a) territorial, criado e financiado pela SDT/MDA para
fortalecer a articulação territorial e assumido por uma das organizações locais
que fazem parte do Fórum. De modo geral, os atores territoriais (nos três
territórios estudados) consideramo apoio administrativo, técnico e financeiro
dado a esta figura muito insuficiente para dar conta de todas as tarefas
envolvidas no processo de articulação territorial.
No Fórum de Desenvolvimento Territorial da Borborema, estão fundamentalmente
representadas as esferas sociais do Estado e da sociedade civil, não existindo
na representação da sociedade civil organizações ou associações que expressem
os interesses dos atores do mercado. Isto ocorre tanto no período emque
predominava o Programa Territórios Rurais de Identidade, quanto após a criação
do Programa Territórios da Cidadania. Na verdade, os membros do Fórum podem ser
agrupados emtrês grandes grupos: (1) a representação do Estado, através das
prefeituras municipais e de outras agências governamentais (como Empresa
Estadual de Assistência Técnica e Extensão Rural - Emater; Empresa Brasileira
de Pesquisa Agropecuária - Embrapa; Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária - Incra; universidades; Banco do Nordeste etc.); (2) a representação da
sociedade civil, na qual se destacam os sindicatos de trabalhadores rurais
(principalmente ligados aoPolo Sindical da Borborema); outros movimentos
sociais e organizações de agricultores (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra - MST; Movimento dos Pequenos Agricultores - MPA; Fórum dos Assentados;
movimentos agroecológicos e de agricultores experimentadores etc.); e
organizações não governamentais, como a Assessoria e Serviços em Projetos de
Tecnologia Alternativa - AS-PTA, associações etc.; e (3) a representação de
espaços públicos municipais de participação, basicamente os CMDRs de vários
municípios, que como tal não fazem parte nem do Estado, nem da sociedade civil
estrito senso. A grande diferença do Fórum nos dois períodos é a de que no
território da cidadania a representação do Estado foi ampliada, especialmente
por meio de uma "bancada" mais numerosa de prefeitos.
O Território da Cidadania do Noroeste Colonial/RS, como já destacamos, foi
criado em 2008 para fazer parte do Programa Territórios da Cidadania. Surgiu,
portanto, como um território da cidadania sem ter passado pela experiência
prévia de território rural de identidade, o que atesta sua breve existência e a
pouca experiência dos atores locais com o manejo e as exigências da política
territorial. Uma singularidade importante deste território, em relação aos
demais territórios existentes no país, é que foi instituído em um contexto no
qual já existia, desde o início da década de 1990, uma institucionalidade
regional concebida pelo governo estadual, com base na divisão do Estado do Rio
Grande do Sul em conselhos regionais de desenvolvimento, os coredes11. Na
região que estamos considerando foi criado originalmente o Corede Noroeste
Colonial, incluindo 32 municípios pertencentes a duas subregiões com
características socioeconômicas distintas, problemas específicos e
diversidadede atores sociais, as chamadas "regiãode Ijuí" e "região Celeiro".
Como consequência de antigas reivindicações, em especial dos representantes da
região Celeiro, emjaneiro de 2008 o Corede original foi desmembrado em dois: o
atual CoredeNoroeste Colonial (na "região de Ijuí", com 11 municípios) e o novo
Corede Celeiro (na "região Celeiro", com 21 municípios).
Apesar disso, a configuração que o Território da Cidadania Noroeste Colonial
assumiu (com 34 municípios) ao final do ano de 2008, quando foi escolhido para
fazer parte do Programa Territórios da Cidadania do Governo Federal,
representou um novo reagrupamento dos dois Coredes "sub-regionais" e uma certa
"volta ao passado" coma retomada da composição do Corede Noroeste Colonial
vigente até o início de 2008, acrescido de dois municípios, Cruz Alta e Boa
Vista do Cadeado, situados em outro corede. Dentre as razões aparentes para
isso, a mais importante parece ser a de que este foi o arranjo político
considerado indispensável para garantir a criação de um território da cidadania
na região Noroeste Colonial - onde não existia previamente um território rural
de identidade - viabilizando sua participação no Programa Territórios da
Cidadania do Governo Federal.
Dado o número reduzido de territórios da cidadania que foram criados no Rio
Grande do Sul, a necessidade de formular rapidamente uma proposta politicamente
forte para apresentar ao Conselho Estadual do Programa parece ter sido uma
condicionante importante para a configuração assumida pelo Território da
Cidadania do Noroeste Colonial. Além disso, provavelmente teria sido impossível
obter um território da cidadania para a "região de Ijuí" e outro para a "região
Celeiro". Ao juntar as duas sub-regiões, a proposta de território perdeu
em"identidade social", mas ganhou em poder de barganha político, pois
conseguiu, desta forma, incluir vários segmentos do público prioritário do MDA,
tais como agricultores familiares, indígenas, ribeirinhos e pescadores
artesanais e assentados de reforma agrária, que se localizam em uma ou outra
das regiões (em alguns casos em ambas).
No caso deste Território, a institucionalidade criada segue o modelo padrão
adotado, que consta de um órgão máximo, o Codeter, assessorado por um núcleo
técnico e por grupos setoriais ou temáticos, com o objetivo de apoiar as
reflexões sobre a elaboração e a avaliação de projetos territoriais,
especialmente em uma circunstância na qual há um excesso de demanda por
projetos diante da oferta disponível de recursos para financiá-los. A estrutura
institucional é complementada pelo cargo de articulador territorial ligado a
uma das organizações que fazem parte do Codeter.
Assim como noTerritório da Borborema, no Território do Noroeste Colonial a
composição do Codeter está dividida entre as esferas do Estado e da sociedade
civil, que predominam completamente. Na representação do Estado estão presentes
agências federais, estaduais e municipais (Incra, Emater, bancos públicos,
Companhia Nacional de Abastecimento - Conab, Fundação Nacional do Índio - Funai
etc.); associações municipais das regiões Ijuí e Celeiros (Amuplan e
Amuceleiro), que congregam prefeitos das duas regiões; universidades e outras
organizações ligadas ao setor público. Entre os membros da sociedade civil
incluem-se movimentos sociais (sindicais, de sem terra, dos pequenos produtores
da agricultura, de povos indígenas, de mulheres etc.), além de cooperativas e
associações de pequenos produtores, entre outros.
Existem ainda, como membros do Codeter, o que chamamos de instituições
híbridas, compostas por representantes do Estado e da sociedade civil, e que no
Noroeste Colonial são, principalmente, os Conselhos de Segurança Alimentar e
Nutricional (Conseas) municipais.
Quando contrastamos a composição do Codeter e do Corede original (de 2003), as
principais diferenças estão ligadas ao fato de que no Corede observa-se: 1) a
maior importância da participação de instituições de ensino, em especial da
Unijuí; 2) a existência de membros natos no Conselho; 3) a não obrigatoriedade
da paridade entre poder público e sociedade civil; e 4) a relevância que as
duas associações demunicípios da região, a Amuceleiro e a Amuplan,
fundamentalmente dominadas pelos prefeitos, têm na composição dos membros do
Corede. Note-se, ademais, que, à diferença do que ocorre no Codeter, há também
no Corede presença de representantes de deputados federais e estaduais com
domicílio eleitoral na região e dos partidos políticos com peso regional e uma
expressiva participação de instituições híbridas, principalmente de conselhos
municipais setoriais, que congregam tanto membros do poder público como da
sociedade civil.
A pesquisa de campo realizada no Território deixou clara uma cisão, por assim
dizer, na avaliação que diferentes atores fazem da atuação e das expectativas
emrelação ao Corede e aoCodeter.Algumas entrevistas realizadas com
representantes do poder público e de instituições privadas (aí incluída, por
simplicidade, a Unijuí), embora reafirmem as limitações do Corede original para
liderar estratégias regionais e formular projetos estratégicos para a região e
ser controlado por interesses ligados principalmente à região de Ijuí, tendem a
destacar sua contribuição na busca de uma institucionalidade intermediária (aos
governos estadual e municipais) capaz de sobrepor-se aos meros interesses
municipais fragmentados. Ademais, segundo eles, o Corede abriga um público mais
amplo de grupos econômicos, sociais e políticos e trata também de forma mais
abrangente as temáticas regionais (daí o papel de destaque desempenhado pelas
universidades dentro dele). Esses atores conhecemmuito pouco o Território
daCidadania recém- criado e destacam que, enquanto o Corede se enquadra
nosmoldes da democracia representativa, o Codeter faria parte de um processo de
democracia participativa, comsua ênfase num públicomuito específico e na
participação de pessoas e demovimentos sociais emdetrimento das instituições
oficiais.
Por outro lado, apesar das disputas existentes, é igualmente claro que o
Território da Cidadania é visto pelos representantes da sociedade civil como
uma conquista sua. As principais lideranças do Codeter não fazem parte do
Corede, são outras pessoas, representantes de movimentos sociais, de pequenas
cooperativas de agricultores familiares e de algumas agências estatais (como a
Emater), por meio de técnicos com capacidade de diálogo com os movimentos
sociais. Em geral fazem parte de um público commais contato com as políticas
doMDA - assentados, agricultores familiares, indígenas, ribeirinhos - e que não
se sentia representado no Corede. Talvez seja possível dizer, mesmo correndo o
risco de sermos mal interpretados por ambos, que houve, por umlado, uma
tentativa das organizações mais ativas da sociedade civil de neutralizar a
participação de prefeitos e de universidades na construção do Codeter e, por
outro, prefeitos e universidades também não se interessaram pela criação do
Território da Cidadania, pouco participando nas discussões para a construção da
proposta.
Além disso, a relação do Território da Cidadania com os Coredes é muito fraca,
as informações obtidas sugerem a existência de uma oposição inicial à sua
criação pelo Corede Noroeste Colonial (região de Ijuí) e uma posição mais
favorável por parte do Corede Celeiro. Tudo indica que as organizações da
sociedade civil que lideraram a criação do Território e do Codeter não tiveram
interesse em fazer com que o Corede e suas principais lideranças tomassem parte
neste processo.
Numa breve síntese da estrutura do Codeter Noroeste Colonial, especialmente
quando comparada com a estrutura do Corede preexistente, cabe sublinhar as
seguintes características, em particular: 1) a criação de um território da
cidadania numa região onde não existia previamente território rural de
identidade; 2) a rapidez com que a proposta de território teve de ser
concebida, de modo que, entre outros aspectos, a criação do Codeter foi
acompanhada pela quase simultânea definição e aprovação de projetos
territoriais, tendo em vista viabilizar seu financiamento através dos recursos
inicialmente disponibilizados pelo programa federal; 3) o envolvimento das
organizações da sociedade civil na criação e na implementação do Colegiado; e
4) a composição paritária do Codeter emrelação às representações do Estado e da
sociedade civil, o que é uma exigência do Programa Territórios da Cidadania do
Governo Federal.
Sem desmerecer o experimento representado pelo Corede, suas características são
diversas das do Codeter, além de se tratar de uma institucionalidade criada
pelo governo estadual, condicionada pela dinâmica política dos governos
estaduais, e que não se enquadra rigorosamente na atual abordagem territorial.
Os atores do Território Noroeste Colonial têm de lidar com políticas federais -
do MDA e do Programa Territórios da Cidadania - sem uma experiência prévia com
essas políticas no âmbito territorial. Ademais, como os atores principais que
puxam a dinâmica do Codeter não têm uma participação relevante nos Coredes,
pouco lhes serviu essa experiência como aprendizagem para uma convivência que,
apesar de competitiva e conflitiva, temde ser capaz de viabilizar
comportamentos e decisões que tendam a servir a interesses comuns e não
simplesmente a objetivos particulares.
A experiência dos territórios rurais de identidade, iniciada em 2003, tem
propiciado, apesar de suas inúmeras dificuldades, uma vivência indispensável
para os atores territoriais, obrigando-os a refletir sobre estratégias
territoriais, a conviver com as diferenças existentes tanto no interior da
sociedade civil quanto na relação com o Estado e a esforçar- se para
transformar os colegiados territoriais em instituições relevantes para a tomada
de decisões estratégicas acercado futuro do território e não apenas para
atender os interesses fragmentados dos diferentes atores que deles fazem parte,
como é muito comum.
No caso do Noroeste Colonial, a falta desse aprendizado prévio acirrou os
conflitos e as desconfianças já existentes entre os movimentos da sociedade
civil e estimulou cada um a buscar atender seus interesses específicos e a dar
continuidade ao trabalho que já vinha realizando anteriormente, a fazer
alianças basicamente com esses objetivos, sem grande preocupação com a
formulação de projetos estratégicos e de caráter efetivamente territorial. Na
ausência desse aprendizado, a característica de programa governamental mais
tradicional, de "cima para baixo", que o Programa Territórios da Cidadania
ainda não conseguiu superar, aguçou uma "caça" por recursos governamentais a
serem apropriados pelas diferentes organizações e movimentos, cada uma tentando
garantir seu quinhão empregando seu poder de barganha político para tal.
O Território da Cidadania do Baixo Amazonas/PA está situado na região do Baixo
Amazonas/PA que tem tradição como unidade político- administrativa de
planejamento e de intervenção dos governos estadual e federal, em diferentes
contextos políticos. Mais recentemente foi escolhida como Território Rural de
Identidade no programa de mesmo nome da SDT/MDA e posteriormente foi
transformada em Território da Cidadania.
No Baixo Amazonas (BAM) a mobilização social é antiga. Foi iniciada nos anos
1970 por meio da organização sindical associada à Fetag (Federação dos
Trabalhadores da Agricultura) do Pará, com apoio dos movimentos eclesiais de
base. Nos anos 1980 ganhou fôlego coma criação de projetos para a região que
visavam fortalecer a agricultura familiar local. Na época foram discutidos
temas como agroecologia, sistemas agroflorestais, processamento e
comercialização direta de alimentos, sendo que grande parte dessas discussões
foi desenvolvida com apoio de organizações não governamentais que atuavam no
entorno, muitas delas de natureza ambientalista. O novo contexto dos anos 1990,
em que passaram a coexistir antagonicamente um projeto neoliberal para a
economia e a sociedade brasileira e um projeto democratizante voltado ao
alargamento do conceito de público e à democratização dos espaços públicos,
obrigou governo e sociedade civil a debaterem prioridades para a região, o que
contribuiu para que osmovimentos sociais existentes se fortalecessem e novos
movimentos e organizações fossem criados.
De maneira sintética e utilizando as observações contidas no relatório do
Projeto Diálogos (CIRAD/IPAM, 2009:12-14), é indispensável destacar que uma das
características distintivas da região do Baixo Amazonas/PA é a coexistência
(conflituosa) de diferentes projetos de desenvolvimento, que são defendidos por
atores econômicos, sociais e políticos distintos e que representam basicamente
os grupos formados por: a) empresas mineradoras, madeireiros e grandes
produtores de grãos (os sojeiros); b) ribeirinhos, pescadores e outras
comunidades tradicionais e suas organizações, como indígenas e quilombolas; c)
pequenos produtores rurais e agricultores familiares; e d) setores
ambientalistas e conservacionistas.
Um dos projetos de desenvolvimento é o das empresas de mineração, de
madeireiros e de sojeiros que objetivam explorar os recursos naturais para
exportação direta ou através de seu beneficiamento industrial. Sua relação
principal é com as empresas internacionais e nacionais do agronegócio, com as
agências governamentais e com os políticos regionais e nacionais. Defendem uma
concepção de desenvolvimento que privilegia a criação de infraestrutura,
principalmente de redes de comunicação (estradas, ferrovias) e portos. De forma
simplificada, o desenvolvimento ocorre, segundo eles, através de uma sequência
de encadeamentos que se inicia com a apropriação privada das terras e sua
exploração comercial, e que gera uma correspondente necessidade de um leque
amplo e variado de serviços, cuja oferta, por sua vez, gera empregos,
principalmente nas cidades.
Outro projeto é o das comunidades ribeirinhas, dos indígenas, quilombolas e dos
pescadores da várzea, cuja relação comos recursos naturais é muito particular,
na medida em que seu modo de vida depende categoricamente desta relação, o que
torna a preservação do meio ambiente uma variável crucial em sua equação de
reprodução social. Em contextos em que os processos de modernização são
intensos, como os que a região do BAM/PA está vivenciando, os projetos destes
grupos de garantir a sustentabilidade de seus sistemas de produção e de
preservar seus modos de vida tradicionais, mesmo que reelaborados pelas novas
gerações, confrontam-se com as necessidades criadas pelo acesso à modernização,
tanto em termos de serviços, como de aumento de rendamonetária, o que tende a
pressionar o uso dos recursos naturais.
Um terceiro projeto de desenvolvimento é o dos agricultores familiares que
procuram, premidos pela inserção nos mercados, pela necessidade de redução de
custos monetários e pela grilagem de terras, uma forma de associar a produção
agrícola e pecuária ao uso sustentável dos recursos que, simultaneamente,
permita sua reprodução social ao longo do tempo e proporcione melhorias nas
condições de vida de suas famílias. Também no caso deste projeto, a relação com
o agronegócio e com o Estado é definidora de sua possibilidade de se constituir
como uma proposta viável e alternativa ao modelo de modernização predominante
defendido pelo agronegócio e amparado pelas principais agências governamentais.
O quarto projeto de desenvolvimento é o dos setores ambientalistas e
conservacionistas que propõem ações voltadas para a conservação e o manejo
sustentável dos recursos naturais, do ambiente e das paisagens e para a
preservação dos povos e das culturas tradicionais locais. De acordo com este
projeto, se o processo de conservação e de preservação de recursos, de
tradições e de modos de vida for razoavelmente bem sucedido, abrem-se condições
naturais favoráveis ao desenvolvimento do ecoturismo e do turismo rural, como
atividades geradoras de emprego e renda para as populações e mesmo para os
empreendimentos comerciais locais.
Como é fácil perceber, os quatro projetos comportam conflitosmais ou menos
intensos entre os atores do Território, pois as propostas que defendem afetam
desigualmente as condições do meio ambiente e os grupos sociais existentes,
tanto em termos de quem arca com os custos, como de quem se apropria dos
benefícios de sua implementação.
Além disso, os projetos também estão associados a uma dimensão de futuro para a
região do BAM/PA e mesmo para toda a região amazônica. A disputa pela
implementação dos diferentes projetos é intensa, embora nenhum deles possa ser
ainda considerado "vencedor" e portador do futuro da região. Entretanto, é
indiscutível a ocorrência de alguns processos - como construção de grandes
obras de infraestrutura, expansão da pecuarização e da lavoura de exportação
etc - que podem restringir ou comprometer as possibilidades futuras de alguns
desses projetos, principalmente em relação à conservação e/ou exploração da
floresta amazônica. Note-se, em contraposição, que são perceptíveis as
possibilidades de convergência entre os três últimos projetos, demodo que é
provável que possam ser construídas alianças políticas entre seus principais
protagonistas emtorno de um projeto comum, mais robusto politicamente e com
maior capacidade de disputa em relação às proposições oriundas das empresas
nacionais e internacionais de mineração e do agronegócio, dos pecuaristas e dos
sojeiros.
A institucionalidade criada para o Território do Baixo Amazonas/PA não é
distinta da dos dois outros territórios de que estamos tratando.O órgão máximo
desta institucionalidade é o Codeter, concebido como uma instituição de
articulação, cooperação e deliberação, por parte dos diferentes atores que o
compõem, de ações territoriais que garantam o desenvolvimento sustentável do
Baixo Amazonas/PA. É composto de uma plenária, de um núcleo diretivo e de um
núcleo técnico, além da função de articulação territorial.
Como acontece nos outros dois territórios, osmembros do Codeter são oriundos
basicamente do Estado e da sociedade civil. Nesta última sobressai a atuação da
Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado do Pará (Fetagri), dos
sindicatos de trabalhadores rurais a ela ligados, do Sindicato dos
Trabalhadores na Agricultura Familiar (Sintraf) de Santarém vinculado à
Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf) Brasil, do Centro
de Estudos, Pesquisa e Formação dos Trabalhadores do Baixo Amazonas/PA(CEFT-
BAM), onde está localizada a função de articulação territorial, e do Instituto
de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), além de outros movimentos sociais
(pescadores, quilombolas, indígenas e mulheres), associações e cooperativas e
ONGs. Entre osmembros do Estado destacam-se a Unidade Regional do BAM da
Secretaria de Agricultura do Governo Estadual (Sagri) e a Emater, além de
outras agências e bancos do governo federal (Embrapa, Instituto Brasileiro de
Meio Ambiente - Ibama, Incra, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Banco
da Amazônia etc), universidades, prefeituras, câmaras e secretarias de
agricultura municipais. Embora tenham acento no Colegiado, nem todas as
prefeituras participamativamente domesmo. Repete-se aqui a tendência de
resistência à participação na institucionalidade territorial por parte da
maioria dos prefeitos, como ocorre, aliás, nos outros territórios investigados.
Aparentemente, o Codeter do BAM/PA possui uma especificidade em relação aos
demais pelo fato de que entre seus membros existe uma organização
representativa do setor empresarial regional que é o Sindicato Rural de
Santarém (Sirsan), organização dos grandes produtores rurais e criadores de
gado do município. Sua presença efetiva tem sido praticamente nula até
agora,mas, segundo o articulador territorial, há indícios do interesse em fazer
parte do Codeter oriundos não apenas da associação comercial e de organizações
coletivas de pecuaristas, mas também de empresas privadas, como mineradoras (de
bauxita, por exemplo) e a própria Cargill, que possui um terminal no porto de
Santarém. Esta é uma situação bastante controversa, mas, se for concretizada, o
Codeter BAM vai passar a contar com membros não apenas representantes do
governo e da sociedade civil, como é a prática nos territórios existentes no
país, mas também do mercado, o que pode significar uma experiência única no
campo dos territórios da cidadania no país. Caso se concretize, este será
umnotável desafio para o Colegiado, que refletirá, também, um aparente
reconhecimento da importância do Programa Territórios da Cidadania pelo setor
privado regional, bem como a disposição de, pelo menos, segmentos da sociedade
civil local de "sentar" com representantes do setor privado no Codeter, numa
tentativa de legitimar e fortalecer o mesmo, buscando relativizar a prática
generalizada das grandes empresas e associações do setor empresarial de "falar
direta e exclusivamente com o governo e com os políticos".
Atores e Protagonismo Social nos Territórios Investigados
Quando consideramos a dinâmica territorial da perspectiva da participação dos
atores e do protagonismo social, as experiênciasdos três territórios
investigados mostram trajetórias muito diversas, cuja comparação é bastante
interessante e rica tanto do ponto de vista metodológico, quanto da
complexidade histórica, política, econômica, social e cultural da realidade dos
territórios criados no Brasil por meio de programas do governo federal12.
No caso do Território da Cidadania da Borborema/PB, as particularidades da
dinâmica e do protagonismo social territorial estão profundamente relacionadas
com as experiências sociais e institucionais ocorridas na região da Borborema,
a partir da década de 1990, por três razões principais.
Primeiro, porque a renovação do sindicalismo dos trabalhadores rurais, que
começou a se consolidar na região por volta do início dos anos 1990, a partir
dos municípios de Lagoa Seca, Remígio e Solânea, e que levou à criação do Polo
Sindical da Borborema em 1998, consolidou progressivamente a perspectiva
política de atuar coletivamente, em rede, numa escala regional - superando o
isolamento representado pela ação restrita ao âmbito municipal - articulando
sindicatos de diversos municípios das regiões da Borborema e do Cariri, com
diferentes ambientes agroecológicos. Essa estratégia de atuar coletivamente, em
rede, numa escala regional representou um acúmulo de aprendizado e de
experiência para omovimento sindical e para as representações dos agricultores
familiares participantes do Polo Sindical que os colocou numa posição
diferenciada para participar e influenciar na dinâmica institucional, uma vez
deslanchada a política territorial da SDT.
Segundo, porque a experiência do agreste paraibano representou a oportunidade
de articulação domovimento sindical com organizações não governamentais,
especialmente a AS-PTA, voltadas para a construção de propostas metodológicas,
de formação e de intervenção na realidade local tendo em vista a busca de
modelos alternativos de desenvolvimento rural, baseados no reconhecimento da
força e da diversidade produtiva e cultural da agricultura familiar, na
valorização do conhecimento e da capacidade de inovação desses agricultores, e
na sustentabilidade ambiental, econômica, cultural e social da atividade
agrícola e do desenvolvimento rural.
Essa articulação/parceria iniciou-se em 1993 nosmunicípios de Lagoa Seca,
Remígio e Solânea e foi progressivamente amadurecendo o intento de ampliar a
escala dos processos sociais e das redes de inovação para toda a região do
agreste da Paraíba. Para tanto, mostrou-se indispensável a existência de um
ator regional com capacidade para coordenar política e metodologicamente o
processo de ampliação, garantindo, ao mesmo tempo, que fosse assumido como um
projeto dos agricultores familiares regionais. Esse ator passou a ser o Polo
Sindical da Borborema e seu objetivo é a construção de um projeto comum de
desenvolvimento local baseado na agroecologia.
A realização do I Seminário da Agricultura Familiar do Compartimento da
Borborema, em 2001, lançou as bases desse projeto, que passou a ser conhecido
também como Projeto de Transição Agroecológica ou de Agricultura Familiar
Agroecológica. O ponto que merece destaque adicional neste contexto é que a
capacidade de manter, amadurecer e consolidar essa articulação entre movimento
sindical e organizações não governamentais do tipo da AS-PTA, demonstrada pela
experiência do agreste paraibano, além de permitir a construção de uma
identidade agroecológica comumentre importantes segmentos da agricultura
familiar, tornou o Polo Sindical da Borborema portador privilegiado de um
projeto de desenvolvimento rural local sustentável bastante legitimado em
diversos segmentos da sociedade e da economia locais, o que reforçou a sua
importância estratégica na institucionalidade e na dinâmica econômica e social
do novo Território da Borborema.
Terceiro, porque a determinação do movimento sindical de atuar regionalmente e
de formular e implementar um projeto concreto de desenvolvimento rural
alternativo e sustentável para a região da Borborema e do Cariri esteve desde o
início inseparavelmente associada à decisão de influenciar de formamais
permanente as políticas públicas, existentes ou a serem criadas, para a
agricultura familiar do semiárido paraibano, ou seja, de não abrir mão do
reconhecimento da importância decisiva da parceria como Estado, e de que essa
parceria deveria se efetivar através do desenho e da execução de políticas
públicas diferenciadas para a agricultura familiar regional.
Na concepção do movimento sindical não bastava atuar regionalmente, nem era
suficiente esboçar um projeto de desenvolvimento rural sustentável para o
semiárido estadual. Era fundamental, além disso, articular-se com as políticas
públicas existentes e influenciar e participar na formulação e na execução de
novas políticas públicas, sem o que seria impossível amadurecer e legitimar a
proposta política do Polo Sindical e avançar com experiências concretas e
abrangentes de projetos estratégicos que viabilizassem a implementação
progressiva do projeto de transição agroecológica. Uma ideia central era: "não
se pode abrir mão da presença do Estado".
Em nossa avaliação, os três elementos acima assinalados dão uma qualidade
diferenciada aos movimentos sociais da região e atribuem-lhes capacidade de
iniciativa e de protagonismo indispensável para a implementação da abordagem
territorial, tanto do ponto de vista da democratização da governança
territorial, quanto da formulação de projetos estratégicos de desenvolvimento
rural sustentável.
Como consequência, no Território da Cidadania da Borborema, o protagonismo
social territorial foi conduzido por organizações da sociedade civil,
especialmente pelo movimento sindical, associado à proposta ou projeto de
transição agroecológica ou de agricultura familiar agroecológica, entendido
como referência norteadora das ações e concepções relativas ao desenvolvimento
rural no território, inclusive, e muito significativamente, para orientar o
Codeter na escolha dos projetos territoriais a serem financiados com recursos
da SDT/MDA e considerados como projetos estratégicos para o desenvolvimento
rural.
Por outro lado, no caso da Borborema, a abordagem territorial tem enfrentado
oposição nos governos municipais e estadual, o que tem dificultado sobremaneira
a concretização dos projetos estratégicos aprovados pelo Codeter, dada a
inexistência de um marco jurídico para o território. Esta situação coloca
desafios para o desenvolvimento territorial que dificilmente serão enfrentados
sem a participação mais ativa do governo federal e do MDA. Nesta perspectiva, é
interessante considerar o Programa Territórios da Cidadania de uma outra ótica:
como o mesmo pode contribuir para fortalecer o protagonismo social territorial,
corrigir os equívocos e omissões resultantes deste processo, especialmente
relacionados com os atores estatais, e enfrentar os obstáculos concretos
existentes para a consolidação da abordagem e da institucionalidade
territoriais? Poder responder de alguma forma a essas questões, ou a parte
delas, pressupõe a necessidade urgente de avançar no enraizamento do programa
nos atores e na institucionalidade territoriais.
O Território da Cidadania Noroeste Colonial do RS foi criado, como vimos, em
uma região onde preexistia uma institucionalidade de governança regional ligada
ao governo estadual, a dos coredes.Na verdade, a criação do território foi uma
iniciativa de organizações da sociedade civil que se sentiam marginalizadas
pelo Corede e que juntaram forças para tentar participar do Programa
Territórios da Cidadania no Rio Grande do Sul. De modo a conseguir sua
incorporação foi necessário atender aos requisitos do programa, entre os quais
está a presença significativa do público prioritário atendido pelas políticas
do MDA (agricultores familiares, indígenas, ribeirinhos, quilombolas etc). Para
tanto, o Território da Cidadania Noroeste Colonial praticamente recriou o
antigo Corede Noroeste Colonial (acrescido do município de Cruz Alta), que
havia sido desmembrado posteriormente porque não conseguia dar conta das
importantes diferenças socioeconômicas que existem entre as duas sub-regiões
norte (Celeiro) e sul (Noroeste Colonial) artificialmente incluídas no Corede
Noroeste Colonial original e no novo Território da Cidadania.
Com este problema de origem, que unificou em um dois territórios com
características socioeconômicas diversas e com presença diferenciada de atores
sociais, e sem qualquer experiência prévia de aprendizado da abordagem
territorial - ao contrário de outros territórios da cidadania que foram
previamente territórios rurais de identidade - nossa pesquisa verificou o que
podemos chamar de ausência de protagonismo social no território, pela
inexistência de atores que liderem hegemonicamente a implantação da
institucionalidade territorial e que estejam aptos a construir uma proposta de
desenvolvimento rural para a região capaz de atrair a composição de uma base
social e política significativa de apoio a esta proposta.
O que observamos foi uma enorme fragmentação das organizações da sociedade
civil local, com visões e propostas muito diversas sobre o diagnóstico, os
problemas e as soluções para o território (ou para os dois territórios
diferentes que existem na região), e com enorme desconfiança umas das outras.
Algo muito distante do que podemos chamar de uma coalizão de atores com
capacidade de liderar a implementação da institucionalidade e da política
territoriais. Como consequência, apesar da dedicação e da boa vontade de muitas
pessoas envolvidas no processo, a ação coletiva das organizações e movimentos
sociais assemelha-se muito ao modelo de "caça às rendas" (rent seeking), no
qual cada uma das sub-regiões e cada uma das organizações ou movimentos tenta
garantir a sua parte nos recursos financeiros à disposição do Codeter, na
justificativa de que o projeto que apresenta é "estratégico" porque reflete o
seu diagnóstico sobre a realidade territorial, que é o único "correto".
O resultado é o acirramento dos conflitos e divergências existentes entre essas
organizações, enfraquecendo a possibilidade de construção tanto da legitimidade
política do novo arranjo institucional do território como de uma estratégia
conjunta que viabilize enfrentar, a partir dos diferentes recursos
disponibilizados pelo programa, os desafios do combate à pobreza e às
desigualdades regionais e da melhoria das condições econômicas e sociais dos
agricultores familiares e das populações tradicionais aí residentes.
Esta situação de inexistência de protagonismo social no território agrava- se
ainda mais porque o governo estadual existente em 2009 era hostil à abordagem
territorial e os governos municipais, de modo geral, ou são contrários ou
indiferentes ou cautelosos emrelação à questão territorial, especialmente em um
ambiente de fragmentação e de conflito entre as organizações e movimentos da
sociedade civil. Além disso, os prefeitos locais expressam uma sensação de
perplexidade e de fragilidade frente à "decadência" ambiental e econômica do
meio rural, especialmente na região Celeiro. Neste contexto, é preciso
reavaliar a atuação do governo federal e do MDA, que não pode fugir à
necessidade de formular uma política pró-ativa frente a esta questão crucial da
construção de protagonismo social nos territórios, discutindo e definindo que
papel pode e deve ocupar neste processo. A mesma observação se aplica, e talvez
com ainda maior veemência, ao Programa Territórios da Cidadania.
No Território da Cidadania do Baixo Amazonas/PA foi possível verificar que os
movimentos sociais, em especial o movimento sindical, tiveram historicamente um
papelmuito importante na difusão da ideia de território. Da mesma forma que na
Borborema, também aqui o movimento sindical "não deu as costas para o Estado",
pelo menos a partir de certo momento, em seu reconhecimento da relevância das
agências estatais e das políticas públicas, como atesta, por exemplo, a
reconhecida importância que teve a Fetagri para impedir a extinção da Emater/PA
no auge dos tempos neoliberais.
Com a eleição de uma governadora do Partido dos Trabalhadores (PT), Ana Julia
Carepa, muitos militantes de movimentos e organizações sociais foram chamados a
participar do governo estadual. Este foi o caso da unidade regional da Sagri. A
observação do Codeter e as entrevistas com diferentes atores sociais locais
deixaram claro que a unidade regional da Sagri é o ator que lidera o
protagonismo social no território do BAM/PA.
Este protagonismo é possível porque a Secretaria assumiu a abordagem
territorial como um instrumento fundamental de sua ação política e ganhou
legitimidade frente ao Codeter e aos atores que o compõem, pois (1) desempenha
um papel central para a garantia de viabilização dos projetos territoriais, por
sua condição de ente federativo, que lhe permite contornar o obstáculo da
ausência de um marco jurídico territorial e (2) é portadora de uma proposta de
desenvolvimento rural para o território, voltada para os agricultores
familiares e para as populações tradicionais, baseada na abordagem dos arranjos
produtivos locais (APLs), que se transformou na linguagem comum utilizada por
todos os atores sociais (governamentais e da sociedade civil) do Codeter e que
tem viabilizado a comunicação, o diálogo e a articulação desses diferentes
atores em torno da proposta de desenvolvimento rural baseada nos APLs. Ademais,
essa proposta tem sido progressivamente utilizada para orientar, pelomenos
emparte, a escolha de projetos (estratégicos) pelo Codeter, a partir dos
recursos federais disponíveis.
Como nos outros dois territórios analisados, também no caso do BAM/PA o poder
público municipal não é muito simpático à política territorial, embora o
envolvimento dos prefeitos tenha, demodo geral, aumentado nos territórios com a
criação do Programa Territórios da Cidadania. No entanto, também neste aspecto
o protagonismo da Sagri tem se manifestado pela tentativa de formulação de uma
estratégia - que já está sendo experimentada - segundo a qual os municípios são
incorporados à política territorial não apenas pormeio da participação das
prefeituras, mas também pela reativação dos Conselhos Municipais de
Desenvolvimento Rural, que passam a ser peças-chave e interconectadas da
institucionalidade territorial não simplesmente porque seus representantes têm
assento no Codeter mas porque os projetos municipais para seremenviados ao
Codeter devem ser aprovados primeiro pelos conselhos municipais.
Um desafio adicional que o protagonismo social territorial vai ter de enfrentar
no caso do Território da Cidadania do BAM/PA é de como fazer frente à
existência, mencionada anteriormente, de outros projetos de desenvolvimento
para a região ligados às grandes empresas multinacionais e do agronegócio, que
se chocam frontalmente coma proposta de desenvolvimento rural baseado na
agricultura familiar e nas populações tradicionais (ancorada na abordagem dos
APLs), e de como se posicionar diante de outras medidas de política do governo
federal como, por exemplo, a construção de grandes obras de infraestrutura
(barragens hidrelétricas) que vão impactar significativamente o meio ambiente e
a socioeconomia da região do BAM e afetar as possibilidades e os rumos da
proposta do Codeter. Em nossas entrevistas ouvimos muito pouco acerca dessas
iniciativas por parte dos atores do Codeter, o que é preocupante se significar
o seu desconhecimento e refletir um certo isolamento do Colegiado em relação a
movimentos econômicos e políticos mais amplos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A política de desenvolvimento territorial no meio rural representou um avanço
considerável, isto é, uma inovação institucional, ao implementar um formato
mais adequado à ampliação da capacidade de participação social dos atores no
processo de diálogo, negociação, desenho e planejamento de políticas públicas,
incrementando aquilo que poderíamos denominar como um dos atributos da
capacidade governativa e da gestão social dos processos de desenvolvimento. É
certo que esse acúmulo apresentou-se de forma completamente desigual nas
diversas experiências existentes, tanto no que tange ao seu grau de cobertura
(a capacidade de inclusão dos mais diferentes atores locais), como no que se
refere ao seu grau organizacional (a forma pela qual se deu a constituição
efetiva dos espaços e procedimentos utilizados nas diferentes etapas do ciclo
da gestão social) e ao seu grau de efetividade social (a representatividade e o
alcance dos resultados alcançados com as ações operadas pela política - tanto
em relação aos instrumentos adotados como em relação à forma como os mesmos
foram empregados).
Pareceu-nos que a diversidade das situações e das soluções encontradas em cada
caso, mal grado a existência de procedimentos normativos padronizados, revelou-
se um instrumento rico de canalização da energia social acumulada, construída
e/ou reconvertida, em prol de projetos que, de uma maneira ou de outra,
obtiveram algum estatuto territorial, buscando ultrapassar os limites dos
interesses circunscritos a grupos específicos e/ou a determinados municípios.
Essa autonomia relativa dos atores presentes no território permitiu a
emergência de proposições asmais diversas, moldando e readaptando a
normatividade excessiva das ferramentas administrativas desenhadas para o
programa.
A criação dos territórios colaborou para estabelecer as condições necessárias à
instauração de um diálogo constante entre diferentes atores sociais locais que
até então tradicionalmente não "se falavam". Esse processo contribuiu para que
os conflitos existentes entre os distintos atores que constituem o território
fossem melhor explicitados e "trabalhados", estimulando-os a implementarem
ações conjuntas, em diálogo ou não com o Estado, orientadas para o
desenvolvimento. Essa experiência permitiu, em diferentes circunstâncias,
construir e legitimar uma nova institucionalidade operacional que intenta
viabilizar a discussão, comparação e seleção de projetos concretos e coletivos
de desenvolvimento local, ultrapassando os interesses eleitorais ou
oportunistas de algumas prefeituras.
Contudo, são diversos os desafios que a política de desenvolvimento territorial
enfrenta no Brasil. Ainda que algumas experiências do Pronat tenham sido bem
sucedidas, e outras do Programa Territórios da Cidadania estejam em curso, são
numerosos os casos em que os resultados têm sido modestos e reduzidos: em
vários territórios os fóruns ou colegiados não se fazem representativos de
todos os segmentos sociais da agricultura familiar local ou, ainda, os
colegiados, em lugar de representarem espaços propícios à participação
ampliada, figuram muito mais como estruturas impostas por determinadas
políticas públicas para que os atores locais acessem recursos federais. Dessa
forma, esses espaços não raro acabam excluindo de sua dinâmica os segmentos
menos articulados e mais carentes, reproduzindo a mesma estrutura preexistente
de poder local e privilegiando alguns segmentos em detrimento de outros. Ainda
são recorrentes os casos em que a abordagem de "desenvolvimento" sugerida
limita-se, emsuamaioria, a projetos setoriais e produtivos, excluindo de sua
formulação a articulação da agricultura familiar com outros importantes
segmentos sociais.
Há, contudo, uma clara necessidade de melhorar a forma como o Estado atua nas
instâncias territoriais, fortalecendo o processo de "profissionalização" da
atividade de gerenciamento territorial, corroborando para uma burocracia mais
robusta nessas instâncias. É preciso não confundir aumento de participação e
controle social dos atores com desresponsabilização das funções que deveriam
ser típicas de Estado (em particular, mobilizar os atores mais frágeis, dotar a
escala territorial de infraestrutura e recursos necessários para seu
funcionamento, dispor de funcionários com disponibilidade de tempo para o
encaminhamento e execução das ações e dos projetos territoriais etc.). Isso
fica evidente, por exemplo, no papel estratégico delegado aos articuladores
territoriais. Por outro lado, um aumento da burocracia qualificada não exclui -
e não deveria excluir - a efetiva participação dos atores no processo de tomada
de decisão das ações territoriais.
Em quase todos os territórios existentes, a institucionalidade territorial não
contempla a presença de atores representativos da esfera social do mercado. Em
cada caso aparecem razões particulares para explicar essa situação, mas, de
modo geral, os atores da sociedade civil têm dificuldade em aceitar a
participação dos representantes do mercado, os quais, por sua vez, também não
demonstram interesse em participar. Esta situação configura um enorme e
importante desafio para a política territorial, o qual não se enfrenta
simplesmente reafirmando a obviedade abstrata de que os atores domercado têm de
estar presentes nestas institucionalidades, sem examinar as situações concretas
de cada território, sua história, a força política e os projetos de
desenvolvimentode que são portadores seus diferentes atores sociais e as
possibilidades de cooperação entre eles. Partimos da ideia de que a
sustentabilidade do desenvolvimento territorial depende de uma adequada
combinação das esferas do Estado, da sociedade civil e do mercado na
institucionalidade e na dinâmica territoriais. Mas, seguindo Offe (2001),
também acreditamos que as combinações possíveis de serem obtidas em cada caso
concreto dependem de deliberações democráticas construídas processualmente são,
como tal, questões de política e, portanto, passíveis de controvérsia e de
contestação.
A instância primordial de articulação das políticas e do exercício da gestão
social é o colegiado. Porém, como fortalecer o codeter? Primeiramente, pelo
reconhecimento, por parte do governo, destas arenas como espaços de
planejamento, execução e avaliação das políticas públicas. Segundo, garantindo
o permanente funcionamento e capacitação dessas estruturas, o que confere maior
legitimidade/qualidade aos codeters e às ações dos seus membros. Terceiro,
estimulando a base social local a atuar nesses espaços. Na medida emque são
arenas (razoavelmente) abertas, elas não se constituem num lócus de disputa dos
diferentes segmentos e de projetos estratégicos que estão acostumados a operar
emcircuitos mais restritos e controlados. O desafio é tornar esses fóruns
visíveis e legítimos diante dos projetos e ações que perpassam as esferas
locais e regionais (Delgado et alii, 2008). E quarto, criando condições para
que seus membros fortaleçam sua capacidade propositiva e de interação frente
aos atores do mercado, reconhecendo que o território é também um mercado e que
há implicações inevitáveis que derivam dessa constatação.
Neste artigo destacamos também a importância e as características particulares
que assume o protagonismo social nos territórios, dependendo da história, da
identidade social, das especificidades dos atores existentes nos mesmos, entre
outros elementos empíricos relevantes para cada caso considerado. Não obstante,
em nossa análise observamos quepara a existência de protagonismo social é
indispensável: (1) a presença de atores com capacidade de construção de
coalizões ou de hegemonia que, embora defendendo interesses próprios, consigam
a cooperação (ou a aliança) de outros atores, demodo a liderar a difusão
coletiva da abordagem territorial e a implantação de sua institucionalidade; e
(2) que esses atores sejam portadores de "ideias" e de propostas de
desenvolvimento rural para o território que possam tanto "unificar", por assim
dizer, a linguagem comum dos atores territoriais, facilitando a capacidade de
comunicação e de cooperação entre eles, como orientar, progressivamente, a
formulação e a aprovação de projetos estratégicos coerentes com essas propostas
de desenvolvimento.
Como não há garantia de que um território possua atores com capacidade de
viabilizar os requisitos necessários ao protagonismo social, esta é uma
dimensão à qual os programas governamentais, emespecial os territórios da
cidadania, deveriam dedicar mais atenção, o que requer uma maior interação do
programa com os atores e a institucionalidade territoriais.
Em suma, uma experiência com o calibre da política territorial existente no
contexto brasileiro recente apresenta janelas de oportunidade para inovações
institucionais e mecanismos de governança e gestão participativa que não devem
ser desprezadas. O acúmulo observado até o momento confere à escala
supramunicipal umespaço importante no desenho e implementação de políticas que,
se por um lado não eliminam as iniciativas municipais, por outro revelam a
capacidade que determinados projetos possuem em atingir uma esfera mais ampla,
garantindo sua continuidade à medida que legitima suas ações no lastro de
atores sociais envolvidos, dispondo de certa autonomia em relação aos humores
da política local.
NOTAS
1. Para uma exposição detalhada dos resultados gerais da pesquisa e dos estudos
de caso mencionados consultar Delgado et alii (2008), Delgado e Zimmemann
(2008a, 2008b, 2009, 2010) e Leite et alii (2009).
2. Como é sabido o Pronat não é a única experiência de territorialização de
políticas públicas no contexto brasileiro recente. Os trabalhos de Senra (2007)
e Araújo (2007) abordam de forma bastante apropriada esse tema.
3. Segundo o primeiro parágrafo da referida Resolução: "I - por
representatividade entende-se que a base das organizações sociais esteja
representada por essas entidades; II - a diversidade é a representação dos
diferentes atores sociais que atuam no processo de desenvolvimento rural
sustentável, sejam jovens, mulheres, quilombolas, agricultores familiares
ligados a diferentes comunidades e/ou arranjos produtivos, pequenos
empreendedores etc.; III - a pluralidade pressupõe que as diferentes
organizações (associações, sindicatos, cooperativas etc. ) de uma mesma
categoria estejam representadas, assim como todas as concepções de
desenvolvimento rural sustentável".
4. Segundo documento da SDT, a gestão social é entendida como uma "certa
maneira de gerir assuntos públicos, nesse caso em particular as políticas e
iniciativas voltadas para a promoção do desenvolvimento das áreas rurais. Para
que ela ocorra de maneira eficaz, deve se apoiar em sistemas descentralizados,
baseados em forte participação, com maior fluidez e densidade de informação, de
estabelecimento de parcerias e de articulações em rede. Em desenvolvimento
territorial isso requer a construção de pactos de concertação social [...], o
detalhamento do pacto em um plano de desenvolvimento negociado, a construção de
institucionalidades que representem espaços de compartilhamento do poder e das
responsabilidades e, finalmente, mecanismos de controle social sobre as ações
previstas no plano" (Brasil, MDA/SDT, 2005b: 11).
5. Preferimos utilizar a ideia de governança não como uma maneira de fazer um
bom governoa partir da criação de um ambiente social e economicamente
apropriado para tanto, como foi amplamente divulgado por agências
multilaterais, mas sim nos aproximando da noção de capacidade governativa,
defendida por Santos (1997: 4), segundo o qual, em vez de ficar restrito a
questões específicas associadas aos aspectos gerenciais administrativos do
Estado, busca-se compreender o jogo de relações entre os diferentes atores
operando num determinado contexto e os arranjos político-institucionais daí
derivados.
6. Foram produzidos quatro relatórios na pesquisa sobre este assunto, Delgado e
Zimmermann (2008a, 2008b, 2009 e 2010), organizados de forma a tratar dos cinco
temas enumerados acima. Para a elaboração dos mesmos foram utilizados
documentos, livros, ensaios, artigos, teses e dissertações acadêmicas relativos
aos territórios e aos temas tratados, além de informações estatísticas. Este
levantamento bibliográfico e estatístico completou as informações originais
obtidas por meio de entrevistas com atores sociais relevantes realizadas pela
equipe do OPPA/CPDA em pesquisa de campo. Foi possível concretizar, ao todo,
entrevistas com cerca de 72 participantes da institucionalidade e da política
territorial nos três territórios, incluindo articuladores (e ex-articuladores)
territoriais, representantes de movimentos sociais (sindicais, de mulheres, sem
terra, quilombolas, pescadores, indígenas etc), de ONGs, de sindicatos rurais
patronais, do poder público municipal (prefeitos, secretários e técnicos), do
poder público estadual (secretários e técnicos), de agências do governo
federal, de agências e de bancos governamentais, de membros do colegiado
territorial (e suas comissões) e de outros colegiados existentes, de comissões
municipais de desenvolvimento rural, de representantes de associações de
produtores rurais e de associações comerciais municipais, de dirigentes de
cooperativas agrícolas, de empresas multinacionais e de dirigentes e
pesquisadores de universidades regionais.
7. Isto não significa que a participação dos representantes do mercado está, em
princípio, vedada nos espaços públicos de participação. As empresas privadas de
modo geral não participam diretamente nesses espaços. Tendem a ser
representadas por associações de empresários ou por outros tipos de associações
que, como associações, fazem parte da esfera da sociedade civil. A questão da
combinação da participação dos atores do Estado, do mercado e da sociedade
civil na institucionalidade dos territórios pesquisados é um tema polêmico,
sobre o qual voltaremos mais à frente.
8. Ver a respeito Dagnino (2002), Dagnino et alii (2006) e Avritzer (2002).
9. Certamente é possível dizer que o lugar que os atores da sociedade civil -
que surgem e se consolidam no país de maneira autônoma apartir da década de
1970-desempenharam na democratização brasileira deu-lhes a capacidade de
reivindicar a criação e a participação nos espaços públicos mencionados acima e
consagrados pela Constituição de 1988. Por outro lado, a importância central
dos atores do mercado no projeto de modernização implementado pelo Estado
autoritário acirrou a desconfiança e a oposição à sua participação nesses
espaços.
10. Note-se que a demanda por esta substituição ganhou ampla legitimidade
pública, em função das diferentes avaliações realizadas, por pesquisadores,
técnicos e organizações sociais, das limitações da escala municipal para a
realização de experiências sustentáveis de desenvolvimento rural. Outra
discussão, menos consensual, diz respeito à forma e ao ritmo com que foi feita.
11. Existe uma razoável literatura sobre a experiência dos coredes. Chamamos
atenção aqui para Bandeira (2007) e Veiga (2006).
12. Entendemos protagonismo social territorial como um processo através do qual
determinados atores sociais existentes no território agem coletivamente como
portadores da abordagem territorial e como impulsionadores principais da
implementação tanto da institucionalidade como do desenvolvimento territorial.