A Outra face do horário gratuito: partidos políticos e eleições proporcionais
na televisão
Em toda campanha eleitoral, a mesma trama se repete: centenas de candidatos -
alguns relativamente famosos; a maioria, ilustres desconhecidos - se acotovelam
no Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral - HGPE em busca de um lugar ao sol
nas campanhas para as eleições proporcionais (para os cargos de vereador,
deputado estadual ou deputado federal). Diferentemente do que se passa com o
uso do HGPE nas campanhas majoritárias (em especial para o cargo de
presidente), o uso da televisão nas campanhas proporcionais tem sido
escassamente investigado. Qual é a lógica que preside a distribuição do tempo
entre os candidatos? A que interesses ela atende? Que estratégias comunicativas
são empregadas? Qual é o impacto efetivo dessas campanhas na decisão do voto?
Quase nada tem sido feito para responder a essas questões. Dentre o pouco que
existe sobre o assunto, podemos destacar o artigo "Estratégias de Campanha no
Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral em Eleições Proporcionais", de
Schmitt, Carneiro e Kuschnir (1999). Os autores defendem que o HGPE se
apresentaria como um fator de fortalecimento dos partidos políticos, uma vez
que permitiria a eles constituir "listas partidárias informais". Bem entendido,
isso significa supor três coisas: 1) que os partidos distribuem desigualmente
os recursos comunicativos do HGPE (tempo, sobretudo) entre os candidatos; 2)
que a propaganda política na televisão tem um impacto eleitoral significativo;
3) e que, por conseguinte, o HGPE permite aos partidos efetivamente favorecer a
eleição de alguns candidatos em detrimento de outros.
Tal como os autores, acreditamos que o HGPE se apresenta como um fator de
fortalecimento dos partidos políticos, uma vez que faz todos os candidatos
dependerem deles para obter acesso ao rádio e à televisão durante as campanhas
eleitorais. A sugestão de que isso ocorreria por causa do impacto eleitoral do
HGPE, contudo, parece-nos duvidosa, ao menos quando se aplica ao caso das
eleições proporcionais. Os autores a sustentam por meio de correlações
estatísticas entre o total de votos recebidos pelos candidatos nas eleições de
1994 para deputado federal, no Estado do Rio de Janeiro, e de 1996 para
vereador, no município do Rio de Janeiro, e a quantidade de tempo de que eles
dispuseram no HGPE. Todavia, a constatação de uma correlação positiva entre os
dois fatores não basta para sustentar a interpretação dos autores. Essa
correlação significa necessariamente que os candidatos que tiveram mais tempo
no HGPE conseguiram, em conseqüência, mais votos; ou, em uma leitura
alternativa, que candidatos que, supunha-se, obteriam mais votos foram capazes
de conseguir dos partidos mais tempo no HGPE?
Para escapar ao dilema, é preciso recorrer a outros dados, além daqueles
apresentados pelos autores. Propomos aqui que a análise da distribuição
espacial dos votos dos candidatos pode fornecer pistas importantes para lidar
com a questão. Sustentamos que o HGPE só pode ser considerado elemento
significativo da explicação da votação de um candidato nos casos em que esta se
distribui de modo relativamente homogêneo pelo território no qual se realiza a
eleição. Uma alta taxa de concentração dos votos em algumas regiões, em
detrimento de outras, constitui uma forte evidência de que outros fatores têm
mais influência nos resultados eleitorais do que o HGPE, e que este constitui
um elemento menor para explicar a votação de um candidato.
Com base nisso, propomo-nos a analisar a hipótese de que o HGPE representa uma
oportunidade de os partidos constituírem listas informais entre seus candidatos
tendo em vista dois aspectos: 1) a premissa de sua eficácia como instrumento de
comunicação política no âmbito das eleições proporcionais, de tal modo que uma
maior quantidade de tempo oferecido aos candidatos deveria resultar na
conquista de mais votos por eles; 2) a análise das estratégias utilizadas pelos
partidos, considerando a distribuição do tempo no HGPE entre os candidatos.
Interessa-nos, em particular, investigar se tal distribuição segue uma lógica
fundamentalmente eleitoral (a maximização dos votos para o próprio partido ou a
hierarquização das chances de cada candidato de ganhar as eleições) ou se
obedece a outro(s) princípio(s). Para tal, examinamos os dados relativos à
eleição de 2004 para o cargo de vereador no município do Rio de Janeiro. Antes,
contudo, devemos considerar algumas questões mais gerais, relativas ao
relacionamento entre candidatos proporcionais e partidos políticos no Brasil,
tendo em vista as características do sistema eleitoral brasileiro e do modelo
de propaganda política na televisão vigente no país.
PARTIDOS, CANDIDATOS E PROPAGANDA NA TELEVISÃO
A análise do impacto eleitoral da propaganda política na televisão sobre as
eleições proporcionais, bem como das estratégias utilizadas pelos partidos
políticos em relação à divisão dos recursos para a propaganda política no meio
televisivo (tempo, sobretudo) entre os candidatos, apresenta desafios
particularmente complexos no Brasil, dadas as características particulares de
seus sistemas partidário, eleitoral e de seu modelo de propaganda política na
televisão. Trata-se, em especial, de considerar criticamente três argumentos
bastante difundidos que incidem sobre o nosso tema:
1) que o sistema partidário brasileiro é frágil, estruturado em torno de
partidos pouco representativos e cuja identidade ideológica é pouco definida;
2) que as características do sistema eleitoral brasileiro conspiram contra a
coesão dos partidos políticos, uma vez que fomentam a disputa intrapartidária
entre os candidatos às eleições proporcionais;
3) que a crescente centralidade dos meios de comunicação eletrônicos (de modo
particular, a televisão) tem favorecido um novo estilo de fazer política,
bastante centrado na personalidade dos políticos, em detrimento dos partidos
políticos.
FRAGILIDADE DOS PARTIDOS POLÍTICOS BRASILEIROS
É bastante difundido, tanto no meio acadêmico quanto entre o público leigo, o
argumento de que o Brasil apresenta um sistema partidário frágil, estruturado
em torno de partidos insuficientemente coesos, indisciplinados, ideologicamente
inconsistentes e pouco representativos em relação aos interesses da sociedade.
Não cabe, dentro da proposta deste artigo, avaliar esse argumento em detalhes,
mas sublinhar algumas formas pelas quais ele afeta o nosso objeto de
investigação. Em especial, cabe destacar o caráter fortemente normativo que
assumem algumas versões do argumento, bem como apontar alguns limites que se
apresentam para a análise a partir daí.
Um exemplo particularmente expressivo de crítica dos partidos políticos
brasileiros a partir de um viés fortemente normativo é fornecido pela análise
que Mainwaring (2001) faz acerca deles. Segundo esse autor, os partidos catch-
all brasileiros1 "são fracos; oficialmente seus organismos internos dispõem de
amplos poderes, mas na prática são pobres em recursos e pessoal; têm pouca
função em campanhas eleitorais, fraca presença no Congresso, raramente se
reúnem e são pouco profissionalizados" (ibidem:180). O autor sugere que tais
características se explicam fundamentalmente pelo individualismo dos políticos
brasileiros e pelas lutas internas que se travam nos partidos2. Em termos mais
amplos, caracteriza os arranjos institucionais brasileiros como particularmente
hostis à manutenção de um governo democrático, uma vez que combina "partidos
fracos, um sistema partidário frouxamente institucionalizado, um sistema
partidário altamente fragmentado, que é polarizado no âmbito das elites, e
presidencialismo" (1995:392).
O diagnóstico e o prognóstico apresentados por Mainwaring sobre o sistema
partidário, os partidos políticos e a democracia no Brasil têm sido matizados
por outros autores. Em alguns casos, eles dão conta de um quadro menos severo
do que aquele apresentado por esse autor. Carreirão e Kinzo (2004), por
exemplo, indicam que, entre 1989 e 2002, a proporção de eleitores com
preferência partidária oscilou em torno de 40% e 50% do total, o que, por
certo, não é uma cifra das mais notáveis, mas tampouco é insignificante. Além
disso, as taxas de identificação partidária dos principais partidos teriam
conservado uma expressiva estabilidade ao longo do período. Do mesmo modo,
diversos autores têm dado conta de que os partidos brasileiros apresentam um
nível considerável de disciplina nas votações no plenário, bastante superior
àquele suposto pela afirmação de Mainwaring (Santos, 2002; Pereira e Mueller,
2003). Nicolau (1996) contesta a proposição de que o alto nível de fragmentação
partidária que caracteriza a situação brasileira implique necessariamente uma
ameaça à democracia.
Para além do conteúdo específico das afirmações de Mainwaring, faz-se
necessário considerar com a devida cautela alguns dos pressupostos que orientam
sua análise. Chama a atenção, em particular, o fato de os modelos teóricos
utilizados pelo autor para tratar dos partidos e do sistema partidário
brasileiros terem sido desenvolvidos fundamentalmente para dar conta da
realidade dos países da Europa Ocidental (Montero e Gunther, 2002) e apresentar
um forte caráter normativo (Daalder, 2002). Resulta daí que a análise julga o
sistema partidário brasileiro pelo que ele não poderia ser, dadas as
circunstâncias particulares de seu desenvolvimento histórico e, desse modo,
deixa de considerá-lo efetivamente pelo que ele é.
Sistema Eleitoral e Sistema Partidário
Tem sido bastante recorrente a idéia de que o sistema eleitoral brasileiro
constitui um elemento fundamental para explicar a fragilidade do sistema
partidário brasileiro. Dois aspectos, em especial, têm sido destacados a esse
respeito: o sistema de representação proporcional com listas abertas e a adoção
de distritos multinominais, alguns de grande magnitude.
O sistema de representação proporcional tem como objetivo garantir a maior
correspondência possível entre a proporção de votos recebidos por um partido e
a quantidade de cadeiras a que ele terá direito no Parlamento. Na maior parte
dos países que adotam sistemas de representação proporcional, a eleição opera
por meio de um sistema de listas fechadas, no qual os votos dos eleitores
determinam o número de vagas a que cada partido tem direito, mas cabe aos
partidos, e não aos eleitores, determinar quem irá ocupá-las. No sistema
brasileiro de listas abertas, o eleitor pode votar diretamente no candidato
(ou, alternativamente, na legenda), e os candidatos eleitos são aqueles que
obtêm mais votos dentro do próprio partido, dentro do número de vagas
conquistadas por este (Ames, 2003). Tais normas estimulariam um comportamento
eleitoral individualista tanto por parte dos eleitores quanto dos candidatos.
Os eleitores seriam estimulados a um voto personalista nos candidatos,
independentemente de seu partido. Os candidatos, por sua vez, seriam forçados a
disputar as cadeiras em jogo não apenas com os candidatos dos partidos
adversários mas também com os do próprio partido (ibidem; Mainwaring, 1995;
2001).
Essas tendências individualistas seriam reforçadas pela magnitude dos distritos
eleitorais brasileiros - que, no caso das eleições para a Câmara dos Deputados,
variam entre 8 e 70 representantes; no caso das Assembléias Legislativas
estaduais, entre 24 e 94 representantes. Em tais circunstâncias, o vínculo
entre os eleitores e seus representantes se torna mais frágil e, ao mesmo
tempo, o nível de competição entre os candidatos de um mesmo partido se torna
maior.
É preciso alguma cautela para evitar tomar esse argumento de maneira demasiado
determinista. Dizer que as regras do jogo estimulam um comportamento
individualista por parte dos candidatos e eleitores não é o mesmo que afirmar
que tais agentes políticos necessariamente ajam dessa forma. Samuels (1997),
por exemplo, sugere que o PT** foi capaz de institucionalizar sua legenda de
modo bastante eficiente e forjar laços sólidos entre seus representantes
eleitos e entre estes e seus eleitores. Em particular, o partido fez do voto de
legenda um instrumento central de sua estratégia eleitoral. Isso não quer
dizer, é claro, que não exista uma disputa interna entre os candidatos de um
mesmo partido. Essa disputa de fato ocorre em virtude do número determinado de
candidatos eleitos. O que queremos mostrar é que a afirmação de que a disputa
intrapartidária enfraquece o partido como ator político e como uma unidade
institucional é simplista, não devendo ser tomada como verdade sem uma prévia
avaliação caso a caso.
Mídia Eletrônica e Partidos Políticos
Finalmente, tem sido freqüentemente sugerido que o papel central dos meios de
comunicação eletrônicos na vida política atual é inversamente proporcional à
importância dos partidos políticos. No limite, esse argumento aponta para a
direção de uma substituição dos partidos pelos meios de comunicação no tocante
a algumas funções clássicas da vida política, particularmente à intermediação
do contato entre os cidadãos e seus representantes no governo, e entre os
candidatos e eleitores nas campanhas eleitorais. Essa situação foi descrita, em
diferentes termos, como a emergência de uma democracia de público no lugar de
uma democracia de partidos (Manin, 1995) ou como o advento de uma política
centrada no candidato (Wattenberg, 1991).
Tais circunstâncias proveriam um terreno fértil para o desenvolvimento de
formas individualistas de ação política, baseadas na construção de imagens para
consumo público, produzidas com o auxílio de consultores profissionais, em
detrimento de formas coletivistas de atuação, sustentadas pela ação concreta
das bases partidárias e pelo compromisso efetivo dos partidos com doutrinas
políticas e/ou plataformas eleitorais específicas. Esse processo verificar-se-
ia de forma particularmente intensa no Brasil não apenas em função da
fragilidade histórica dos partidos brasileiros mas também em função das
características fortemente media centric da sociedade brasileira, bastante
dependente da televisão (Lima, 1994).
Aqui também se faz necessária uma boa dose de cautela. Em primeiro lugar,
quando considerado mais detidamente, o argumento da substituição é bem menos
convincente do que parece à primeira vista. Mais do que descrever uma
transformação efetiva da forma de fazer política em alguma parte do mundo, ele
reflete uma mudança no foco privilegiado da análise, o qual se deslocou dos
países da Europa Ocidental (paradigmáticos do ponto de vista dos estudos sobre
os partidos políticos) para os Estados Unidos (o modelo por excelência da
profissionalização da atividade política). Além disso, ao enfocar a
substituição de partidos pelos meios de comunicação de massa, impede a análise
sobre os modos como eles coexistem no tempo (Albuquerque, 2005).
Especificamente no que diz respeito ao caso brasileiro, parece plausível que,
pelo menos sob alguns aspectos, o uso dos meios de comunicação eletrônicos se
converta em um fator de fortalecimento dos partidos políticos, e não o
contrário. Isso é particularmente verdadeiro em relação à propaganda política
na televisão. Afinal, é aos partidos, e não aos candidatos tomados
individualmente, que a legislação eleitoral brasileira concede tempo gratuito
na televisão. Desse modo, os partidos se convertem em mediadores indispensáveis
do acesso dos candidatos à televisão. Resta saber quais são as conseqüências
concretas disso dos pontos de vista das campanhas eleitorais e dos partidos
políticos. Trata-se, em particular, de averiguar a pertinência do argumento de
Schmitt, Carneiro e Kuschnir (1999) sobre o uso do HGPE como recurso para a
construção de uma lista partidária informal.
Metodologia
Nossa análise tem por objeto o uso da propaganda política na televisão na
campanha eleitoral de 2004 para vereador no município do Rio de Janeiro. Nessa
ocasião, 1.110 candidatos, de 27 partidos, disputaram as 50 vagas disponíveis
para a Câmara de Vereadores local. A opção pela análise de uma eleição de
âmbito municipal se fez em nome da simplicidade: o município fornece um
distrito menor e mais coeso do que aquele que serve de base às eleições
estaduais e federais (em ambos os casos as unidades federativas servem como
distritos). A escolha da eleição de 2004 se justifica não apenas por se tratar
do pleito mais recente mas também pela grande disponibilidade de dados sobre o
pleito, tanto no que diz respeito à votação - o Tribunal Superior Eleitoral -
TSE divulgou, em seu site, dados relativos à votação dos candidatos em cada uma
das zonas eleitorais - quanto ao material veiculado no HGPE na televisão -
gentilmente cedido pelo Laboratório de Pesquisas em Comunicação Política e
Opinião Pública - Doxa/Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro -
Iuperj.
A análise empírica realizada neste artigo tem por objetivo coletar e relacionar
três tipos de dados, relativos a: 1) a distribuição espacial dos votos dos
candidatos no município; 2) a correlação entre a quantidade de votos obtidos
pelos candidatos e a distribuição do tempo no HGPE, independentemente do
partido político dos candidatos; 3) a distribuição do tempo no HGPE entre os
candidatos de um mesmo partido e sua ordem de votação no interior do partido.
A análise da distribuição espacial da votação dos candidatos visa verificar o
equilíbrio dos votos dos candidatos em diferentes regiões do município. As
unidades de análise adotadas foram as subprefeituras em que a cidade foi
dividida em 1993. As dez subprefeituras então existentes eram as seguintes: 1)
Centro; 2) Zona Sul; 3) Zona Norte; 4) Grande Méier; 5) Leopoldina; 6) Ilha do
Governador; 7) Central; 8) Barra da Tijuca; 9) Bangu; 10) Campo Grande. Como
regra geral, verificou-se uma expressiva correspondência entre as áreas
compreendidas pelas subprefeituras e pelas zonas eleitorais. Apenas 8 de um
total de 96 zonas eleitorais abrangiam bairros pertencentes a diferentes
subprefeituras. Nesses casos, procurou-se identificar, com base na lista dos
locais de votação, qual a subprefeitura dominante na composição de cada zona
eleitoral.
Pudemos, assim, elaborar um quadro aproximado do peso relativo de cada
subprefeitura no eleitorado do município. Centro e Ilha do Governador são as
subprefeituras que apresentam menor número de eleitores (cada uma delas
corresponde a aproximadamente 4% do eleitorado do município), enquanto a
subprefeitura Central apresenta a maior quantidade de eleitores (cerca de 18%).
As demais subprefeituras correspondem a algo entre 7% e 13% do total de
eleitores (Figura_1). Embora tais cifras estejam longe de configurar uma
distribuição equilibrada, pode-se dizer, ao menos, que são da mesma escala de
magnitude. A criação de novas subprefeituras - tais como a do Complexo do
Alemão, Complexo da Maré, a subdivisão da Zona Sul - mudou esse quadro e levou
a que o vínculo entre as subprefeituras e as zonas eleitorais se tornasse mais
frágil; daí a opção pelas subprefeituras originais.
Em uma situação de perfeito equilíbrio, a proporção dos votos obtidos por um
candidato em cada subprefeitura seria idêntica ao peso desta no eleitorado do
município; desse modo, ele obteria 4,1% de seus votos no Centro; 12,4% na Zona
Sul; 7,1% na Zona Norte etc. Contudo, seria pouco sensato esperar que, em uma
situação real, o perfil de votação dos candidatos refletisse exatamente esses
valores. Assim, temos de trabalhar com critérios aproximados na análise do
equilíbrio da distribuição de votos dos candidatos. Definir parâmetros de
aproximação, nesses termos, é necessariamente definir padrões ideais de
equilíbrio. Dado que não se referem ao mundo real, mas a condições ideais, tais
parâmetros são necessariamente arbitrários. Assim, e em nome da simplicidade,
consideramos a votação de uma subprefeitura relativamente equilibrada quando
ela se situa no intervalo entre a metade e o dobro de seu peso no eleitorado
total do município. Desse modo, por exemplo, um candidato terá uma votação
relativamente equilibrada na Zona Sul quando a proporção de votos obtida por
ele nessa subprefeitura corresponder a algo entre 6,2% e 24,8% do total de
votos obtido por ele.
Esses dados dizem respeito a uma medida de equilíbrio relativa a cada
subprefeitura, tomada individualmente. Nossa análise, por outro lado, diz
respeito à distribuição dos votos de um candidato ao longo de todo o município,
isto é, por meio de todo o conjunto das subprefeituras. Assim, estabelecemos
três faixas de distribuição dos votos, às quais denominamos votação
equilibrada, votação desequilibrada e votação concentrada. A votação
equilibrada se caracteriza quando, em até duas subprefeituras, a votação de um
candidato se situa fora das margens que definem o equilíbrio. Quando isso
acontece entre três e cinco subprefeituras, o perfil de votação do candidato se
caracteriza como desequilibrado; quando ocorre em mais de cinco subprefeituras,
como concentrado. Acreditamos que uma forte influência do HGPE na votação de um
candidato é bastante plausível quando se tem uma distribuição equilibrada dos
votos, menos provável no caso de votação desequilibrada e bastante improvável
em votação concentrada.
Obviamente, a análise da distribuição dos votos não dá conta de tudo. É bem
verdade que ela permite, com alguma segurança, afastar a possibilidade de que
um candidato com perfil de votação concentrado seja eleito primordialmente sob
influência do HGPE. Contudo, o mesmo não ocorre com o caso inverso. Um perfil
de votação equilibrado não é necessariamente um produto da influência do HGPE.
Para que tal inferência possa ser levantada, é preciso que exista uma
correlação significativa entre a quantidade de votos obtida por um candidato e
a exposição do candidato no HGPE.
Essa exposição foi classificada tendo em vista seu tempo médio por programa.
Para fins de análise, distinguimos cinco níveis de exposição: uma exposição
forte é caracterizada por uma exposição média de 20 segundos ou mais por
programa; a exposição média é situada no intervalo compreendido entre 10 e 20
segundos; a pequena exposição se situa entre 5 e 10 segundos médios por
programa; e abaixo disso teríamos uma exposição inexpressiva. O quinto nível é
constituído pelos candidatos que não tiveram acesso ao HGPE.
A hipótese de uma influência significativa do HGPE na votação dos candidatos
seria favorecida caso ficasse comprovado que os candidatos mais votados das
eleições tivessem, tendencialmente, maior exposição no HGPE. Ainda assim, tais
dados não seriam conclusivos: seria necessário cotejá-los com a distribuição
espacial dos votos. Dessa forma, uma forte evidência de influência
significativa do HGPE somente aconteceria no caso de candidatos cuja votação
expressiva coincidisse com um nível significativo de exposição no HGPE, na
forma do tempo médio ou da freqüência e cujo perfil de distribuição de votos no
município fosse relativamente equilibrado.
O terceiro conjunto de dados tem por objeto a correlação entre a votação dos
candidatos e o grau de sua exposição no HGPE, considerado de uma perspectiva
intrapartidária. Os parâmetros de avaliação são os mesmos utilizados no item
anterior, mas sua ordenação leva em conta as listas de candidatos de cada
partido em particular, e não do conjunto dos candidatos. Os partidos escolhidos
para análise foram os seguintes: PFL, PSDB, PT, PMDB, PL, PP, PTB, PPS e PDT.
Distribuição dos Votos
A análise da distribuição dos votos dos candidatos no município permitiu
identificar exemplos dos três padrões de distribuição de voto a que nos
referimos anteriormente. Um exemplo extremo do perfil concentrado é oferecido
pela votação do candidato Jorge Pereira, do PT do B. Entre as dez
subprefeituras, sua votação ficou fora dos parâmetros que definem o equilíbrio
para a nossa análise em nove. De fato, 83,4% dos votos obtidos pelo candidato
foram conquistados na subprefeitura da Ilha do Governador. Esse é o maior
percentual de concentração de votos em uma única subprefeitura entre todos os
vereadores eleitos. É bem verdade que um número considerável de outros
candidatos atingiu índices de concentração próximos aos de Jorge Pereira. A
candidata Lucinha, do PSDB, por exemplo, obteve 80,6% de seus votos na
subprefeitura de Campo Grande; Nadinho de Rio das Pedras conquistou 76,7% de
seus votos na subprefeitura da Barra da Tijuca; e Leila do Flamengo obteve
81,9% de seus votos na Zona Sul3. De fato, entre os 50 vereadores eleitos, 14
conquistaram pelo menos dois terços de seus votos na região correspondente a
uma única subprefeitura. O que mais chama a atenção, no caso de Jorge Pereira,
é que sua votação é fortemente concentrada em uma das subprefeituras com menor
número de eleitores (aproximadamente 4% do eleitorado do município). Dito de
outro modo, o peso da subprefeitura da Ilha do Governador é 22,9 vezes maior no
perfil de votação do candidato do que no município do Rio de Janeiro. Por outro
lado, sua votação é quase nula em um grande número de subprefeituras.
A votação da vereadora Liliam Sá (PL) fornece um exemplo de votação
desequilibrada. Em quatro subprefeituras, sua votação ficou fora dos parâmetros
que definem o equilíbrio. Em um caso, isso acontece para cima: a Zona Sul, com
cerca de 12% dos eleitores, respondeu a 46% dos votos da candidata. Isso
significa que o peso da subprefeitura na cartela de votação da candidata
corresponde aproximadamente ao triplo do que a subprefeitura tem no município.
Nos outros três casos, a votação foi inferior aos parâmetros mínimos do
equilíbrio: na região Central, a votação da candidata correspondeu a cerca de
40% do peso da subprefeitura no eleitorado do município; na Ilha do Governador
e em Campo Grande, esse índice foi de aproximadamente 20% (Tabela_2).
Finalmente, Édson Santos, do PT, apresenta um caso de votação equilibrada. Sua
votação ficou dentro da faixa de equilíbrio em nove das dez subprefeituras. A
subprefeitura de maior peso relativo na cartela de votação do candidato é o
Centro, com pouco mais de 6% de seus votos: ele é cerca de 60% superior ao peso
da subprefeitura no eleitorado do município. A única subprefeitura na qual a
votação do candidato escapou aos parâmetros que definem uma votação equilibrada
foi Campo Grande. O candidato obteve aí 4,9% de seus votos totais, o que
configura um índice relativo de 40% em relação à participação da subprefeitura
no eleitorado (Tabela_3).
A análise da distribuição dos votos dos candidatos pelo município indica uma
predominância de um perfil de votação concentrado entre os candidatos a
vereador do Rio de Janeiro. Esse perfil corresponde a 28 entre os 50 vereadores
eleitos (56% do total). Outros 14 vereadores (28%) tiveram um perfil de votação
desequilibrado e 8 apresentaram um perfil equilibrado (16%).
Entre os vereadores mais votados, o perfil de concentração de votos é ainda
mais pronunciado do que entre o conjunto dos eleitos. Dos 10 vereadores mais
votados, 7 tiveram uma votação concentrada; 2, uma votação desequilibrada; e
apenas 1 teve um perfil equilibrado. Essas proporções se mantiveram
praticamente constantes no conjunto dos 20 mais votados: 13 tiveram votação
concentrada, 4 desequilibrada e 3 equilibrada.
Em seu conjunto, os dados relativos ao perfil de distribuição dos votos dos
candidatos indicam que, como regra geral, o HGPE não desempenhou um papel de
relevo na obtenção de votos pelos candidatos a vereador do Rio de Janeiro. O
alto índice de concentração dos votos dos candidatos eleitos (e particularmente
dos mais votados entre eles) indica que o esforço de campanha tradicional
permanece muito mais importante para a eleição dos vereadores do que o uso da
televisão.
EXPOSIÇÃO DOS CANDIDATOS NO HGPE
O segundo conjunto de evidências analisadas aqui se refere ao cruzamento dos
dados relativos à quantidade de tempo a que cada candidato teve direito no HGPE
e a quantidade de votos obtida por ele nas urnas.
À primeira vista, elas parecem sugerir um vínculo significativo entre os dois
tipos de dados. Entre os 1.110 candidatos que concorreram às eleições, 980
obtiveram algum tempo na televisão, e 130 não. Todos os 50 vereadores eleitos
obtiveram tempo na televisão. Entre os 50 candidatos que obtiveram maior tempo
na televisão, metade foi eleita. A proporção de eleitos subiu para 60% entre os
20 candidatos que obtiveram mais tempo na televisão. Entre os 10 candidatos com
mais tempo na televisão, nada menos do que 8 foram eleitos. Seriam tais dados
uma evidência da eficácia eleitoral do HGPE?
É preciso cautela antes de subscrever tal interpretação. Para começar, as
regras eleitorais brasileiras tornam possível que a lista dos candidatos
eleitos apresente divergências importantes em relação à dos candidatos mais
votados. As vagas na Câmara são distribuídas em primeiro lugar para os partidos
(ou para as coalizões de partidos), tendo em vista o somatório de todos os
votos atribuídos a seus candidatos e à(s) legenda(s). Para obter sua vaga, é
necessário primeiro que um partido atinja o coeficiente eleitoral. Caso isso
não aconteça, o candidato não será eleito, mesmo que sua votação individual
seja significativa. Cyro Garcia, por exemplo, obteve a qüinquagésima maior
votação individual entre os candidatos a vereadores, com 16.122 votos, mas não
foi eleito porque seu partido falhou em obter o coeficiente eleitoral. No
extremo oposto, a candidata Senhorita Suely foi eleita apesar de ter obtido
apenas 6.827 votos, impulsionada pelo grande número de votos de legenda
recebidos por seu partido, o Prona.
O caso de Senhorita Suely ilustra ainda um segundo problema. É tremendamente
difícil avaliar o impacto do HGPE no que concerne ao voto de legenda. De fato,
ela foi a candidata que obteve, com folga, a maior quantidade de tempo na
televisão: 1.407 segundos no total, em uma média de 40,2 segundos por programa
(o segundo candidato com mais tempo na televisão foi Fernando Gusmão, do PC do
B, que obteve 1.048 segundos no total). O resultado das eleições, porém, indica
que, se o HGPE teve algum impacto positivo na eleição de Senhorita Suely, este
se deu antes por vias indiretas (voto de legenda) do que pelo apoio direto a
seu nome.
Um terceiro problema que a justaposição das listas de vereadores eleitos e de
candidatos contemplados com mais tempo no HGPE esconde se refere à
significância da diferença entre a quantidade de tempo obtida pelos diversos
candidatos. É muito fácil apontar que alguns candidatos obtiveram mais tempo do
que seus adversários; porém, o quanto essa diferença é significativa? Ter mais
tempo significa ter tempo suficiente para ser notado pelo público? Aparecer na
televisão significa necessariamente obter algum tipo de destaque?
A princípio, as condições gerais da campanha no HGPE não parecem
particularmente favoráveis para que um candidato se destaque: afinal, nada
menos do que 976 candidatos obtiveram algum acesso à televisão durante a
campanha. Desses, 9 obtiveram uma média superior a 20 segundos por programa; 12
obtiveram entre 10 e 20 segundos (seriam 13 candidatos, caso incluíssemos
Didier Pereira, do PCO, mas decidimos excluí-lo do cálculo diante do fato de o
registro de sua candidatura ter sido negado); e 65 obtiveram entre 5 e 10
segundos. Os demais 890 candidatos contaram com menos de 5 segundos por
programa. Para fins práticos, consideramos o primeiro grupo de candidatos como
tendo grande destaque no HGPE; o segundo, um médio destaque; o terceiro, um
pequeno destaque; e o quarto, nenhum destaque. A Tabela_4 contempla os
candidatos com grande destaque no HGPE, e a Tabela_5 os candidatos com médio
destaque.
Em análise das eleições proporcionais de 1994 e 1996, Schmitt, Carneiro e
Kuschnir (1999) constataram, respectivamente, uma correlação da ordem de 0,53 e
0,50 entre a quantidade de votos obtida por candidato e o tempo com que cada um
contou no HGPE. A aplicação do coeficiente de Pearson ao conjunto dos
candidatos que concorreram à eleição de 2004 resultou em uma correlação da
ordem de 0,61 (n = 1.100) ainda mais expressiva do que aquela encontrada pelos
autores. Contudo, devemos considerar esse índice com alguma cautela em face da
natureza de nossa amostra. Dos 1.100 candidatos que concorreram às eleições,
cerca de 92% se situam na faixa de "nenhum destaque" ou não obtiveram tempo
algum na televisão; por outro lado, a enorme maioria dos candidatos obteve
votação pouco expressiva - por exemplo, 700 candidatos (cerca de 63% do total)
obtiveram menos de mil votos. Nessas circunstâncias, é bem possível que o
coeficiente exprima um alto grau de correlação entre uma baixa exposição no
HGPE e uma votação pouco significativa, que resultaria simplesmente do fato de
haver muitos candidatos que satisfazem a ambas as condições.
Uma tal correlação tem pouco valor do ponto de vista do argumento aqui
considerado. Nosso objetivo é verificar se os candidatos que contaram com mais
tempo na televisão também obtiveram votações mais expressivas, e não
estabelecer uma correlação entre votações inexpressivas e uma fraca presença no
HGPE. Assim, calculamos o coeficiente de correlação de Pearson em uma amostra
mais reduzida, constituída pelos candidatos que obtiveram uma exposição grande,
média ou pequena no HGPE, isto é, por aqueles que contaram com pelo menos 5
segundos de tempo médio diário na televisão (a amostra incluiu candidatos
situados no intervalo de 5 a 40 segundos por dia). O índice de correlação
resultante foi de 0,17 (n = 86), bem menos expressivo do que o da amostra
geral.
Quando projetamos nosso argumento sobre as faixas propostas, constatamos que
apenas 12 dos vereadores eleitos tiveram grande ou média exposição no HGPE.
Entre os demais, 25 se situaram na faixa que identificamos como de pequeno
destaque. É nessa faixa que encontramos a maioria dos vereadores que obtiveram
votações expressivas: 5 entre os 10 vereadores que lideraram a votação e 15
entre os 25 mais bem votados; outros 13 vereadores se localizaram na faixa de
nenhum destaque.
O conjunto dos dados apresentados sugere que o impacto eleitoral do HGPE sobre
as eleições parlamentares é bastante limitado. Naturalmente, é possível
identificar evidências dessa influência em um ou outro caso isolado. É o que
ocorre, por exemplo, com Édson Santos, candidato que obteve grande destaque nos
programas do HGPE (foi o quinto candidato com mais tempo na televisão) e
garantiu uma votação considerável (foi o quarto candidato mais votado) e,
sobretudo, bem distribuída ao longo de todo o território do município. Essa,
porém, é a exceção, e não a regra. O conjunto dos dados apresentados sugere que
sua presença nesses programas reflete cálculos cuja lógica é fundamentalmente
partidária, antes de eleitoral.
Distribuição do Tempo e Resultado Eleitoral: Uma Perspectiva Intrapartidária
O terceiro conjunto de dados que analisamos se baseia na distribuição do tempo
entre os candidatos no interior dos partidos políticos. Trata-se, em primeiro
lugar, de tentar identificar alguns traços básicos das estratégias dos partidos
políticos no que concerne à distribuição do tempo entre seus candidatos e, em
segundo lugar, de verificar se existe alguma correlação entre a quantidade de
tempo obtida por candidato e sua ordem de votação dentro do partido.
Para começar, analisaremos os casos do PFL e do PMDB, dois partidos que
dispuseram de uma quantidade razoável de tempo no HGPE e que adotaram
estratégias semelhantes na distribuição do tempo entre seus candidatos. O PFL
contou com um tempo diário médio de 3 minutos e 29 segundos, e teve 65
candidatos a vereador na eleição de 2004, dos quais apenas 1 contou com tempo
na televisão; no PMDB, o tempo diário médio foi de 2 minutos e 56 segundos, e
os candidatos foram 60, 3 dos quais não obtiveram tempo no HGPE. Em ambos os
casos, verifica-se uma distribuição relativamente equilibrada do tempo entre os
candidatos. Grosso modo, podemos identificar dois grupos de candidato: um com
pequeno destaque na distribuição do tempo no HGPE e outro com nenhum destaque.
Nos dois partidos, o grupo com pequeno destaque respondeu por um pouco menos de
um terço do total dos candidatos com acesso à televisão (20 em 64, no PFL, e 17
em 57, no PMDB). Todos os demais candidatos tiveram direito, em média, a pelo
menos 5 segundos por programa, o que os situam na faixa de "nenhum destaque"4.
Não obstante as estratégias tenham sido semelhantes, os dois partidos se
diferenciaram nitidamente em seus desempenhos eleitorais: enquanto o PFL
conseguiu eleger 14 vereadores, o PMDB elegeu apenas 6. Todos os vereadores
eleitos pelo PMDB se encontram na faixa de pequeno destaque. Desses, o que mais
obteve tempo foi Silvio Ferraz, com uma média de 8,3 segundos por dia; e o que
menos obteve foi Jefferson Reis, com 5,2 segundos em média. Entre os vereadores
eleitos do PFL, todos, com exceção de um - Nadinho de Rio das Pedras, que
obteve uma média diária de 3,4 segundos -, se situaram na faixa de pequeno
destaque. Dos 20 vereadores da faixa de pequeno destaque do PFL, 13 foram
eleitos. Dentro da faixa, o candidato do PFL que obteve mais tempo foi
Alexandre Cerruti, com 9,1 segundos por programa; e o que obteve menos foi
Berthaldo Soares, com 5,1 segundos. É importante ter em vista que, dentro dessa
faixa, a maioria dos candidatos que não foi eleita obteve votações expressivas.
Os 20.552 votos de Jorge Braz, do PMDB, e os 18.620 votos de Cláudio
Cavalcanti, do PFL, teriam assegurado sua eleição caso eles tivessem disputado
por outras legendas.
Grandes rivais da política nacional na época, bem como nos dias de hoje, o PT e
o PSDB recorreram a estratégias eleitorais parecidas. O PT, que contou com 3
minutos e 27 segundos diários, apresentou 63 candidatos, dos quais apenas 1 não
obteve espaço no HGPE; no PSDB, com 2 minutos e 59 segundos diários, foram 70
candidatos, dos quais 3 ficaram de fora do HGPE. Ao contrário do que ocorreu
com o PMDB e o PFL, a divisão do tempo nos dois partidos aponta para uma forte
estratificação. No PT, Édson Santos ocupou sozinho a faixa de grande exposição
no HGPE, com uma média de 25,3 segundos; 5 candidatos ocuparam a faixa de média
exposição (entre 10 e 14,7 segundos por programa); e 9 ocuparam a faixa de
pequena exposição (com um tempo médio aproximado de 9,2 a 9,9 segundos). Entre
os demais candidatos, nenhum chegou a atingir um tempo médio de 2 segundos por
programa. Sozinho, Édson Santos respondeu por cerca de 11,6% do tempo total do
PT. Somados, os seis candidatos com grande e média exposição obtiveram cerca de
42,2%5. No PSDB, três candidatos obtiveram grande exposição no HGPE: Lucinha
(27,6 segundos por programa em média); Luiz Carlos Ramos (22,5 segundos por
programa) e Luiz Antônio Guaraná (21,9 segundos por programa). O tempo
destinado a Lucinha correspondeu a 14,7% do total usado pelo partido. Os três
candidatos situados na categoria "grande exposição" ocuparam juntos 38% do
tempo total do PSDB. Nenhum candidato obteve média exposição e quatro tiveram
pequena exposição, com um tempo médio por programa situado entre 6,7 e 7,4
segundos. Os demais obtiveram exposição inexpressiva. Os resultados obtidos na
votação foram igualmente semelhantes. O PT elegeu três vereadores, e o PSDB
quatro. Nos dois partidos, todos os candidatos com grande exposição no HGPE se
elegeram. Os demais vereadores eleitos se situam na faixa de exposição
imediatamente inferior (dois vereadores com média exposição no PT e uma
vereadora com pequena exposição no PSDB).
Os demais partidos contavam com um tempo consideravelmente menor do que os
"quatro grandes" da política nacional. Entre os partidos que analisamos, o PTB,
com 1 minuto e 17 segundos diários, foi o que adotou a estratégia mais radical
de distinção na distribuição do tempo no HGPE. Cristiane Brasil, filha do
deputado federal Roberto Jefferson (que participou diretamente da campanha da
filha no HGPE), líder do partido no Rio de Janeiro na época, obteve uma média
de 29,9 segundos por programa no HGPE (a terceira maior exposição entre todos
os candidatos nas eleições de 2004 e o correspondente a 36,4% de todo o tempo
usado pelo partido). Dois outros candidatos - Charbel Zaib e Renato Moura -
tiveram uma pequena exposição, e os demais receberam uma exposição
insignificante. Cristiane Brasil foi eleita (com 13.315 votos), mas o vereador
mais votado do partido foi Renato Moura (14.419 votos), cujo tempo médio por
programa foi de apenas 5,5 segundos.
No PL (1 minuto e 3 segundos por dia), a candidata Liliam Sá foi a única que
desfrutou de tratamento diferenciado: ocupou sozinha a faixa de média
exposição. Ela teve direito a 16,6% do tempo total do partido e, como vimos,
foi eleita. Todos os demais candidatos ocuparam a faixa de nenhum destaque.
Dois desses candidatos também foram eleitos: a Pastora Márcia Teixeira, que
contou com uma média diária de 2,3 segundos, e Adilson Soares, cujo tempo médio
diário foi inferior a um segundo.
O PDT também adotou uma política de destaque diferenciada para alguns
candidatos, embora de modo menos pronunciado do que o PTB e o PL. Dois
candidatos se destacaram na faixa de média exposição: Brizola Neto, com 16,7
segundos, e Pedro Porfírio, com 12,4 segundos por programas em média. Esses
números são bastante expressivos quando se considera que o partido contou
somente com 51 segundos diários no HGPE. Um candidato ocupou sozinho a faixa da
pequena exposição, com 6,2 segundos. Os demais 61 candidatos que tiveram tempo
no HGPE obtiveram uma exposição irrisória. Além de Brizola Neto, dois outros
candidatos foram eleitos, ambos na faixa da exposição inexpressiva: Sami Jorge
teve direito a um tempo médio de 1,9 segundo por programa, e Nereide Portugal
obteve apenas 0,4 segundo por dia.
No PP (1 minuto e 25 segundos diários), Wilson Leite Passos, o único candidato
da faixa de média exposição, não foi eleito. Dois candidatos ocuparam a faixa
de pouco destaque e ambos foram eleitos.
O PPS adotou uma estratégia semelhante à usada pelo PFL e pelo PMDB, dividindo
o tempo em duas faixas próximas (pouco e nenhum destaque). Contudo, dado que
ele dispunha de muito menos tempo no HGPE (49 segundos diários), a faixa
superior foi ocupada por apenas um candidato, Stepan Nercessian (eleito).
Aplicamos o coeficiente de Pearson para mensurar a correlação entre número de
votos e quantidade de tempo no HGPE entre os candidatos dos quatro grandes
partidos: PFL, PMDB, PT e PSDB. Em todos os casos, obtivemos resultados
expressivos. No PFL, o coeficiente resultante foi de 0,78 (n = 64); no PT, de
0,80 (n = 63); no PMDB, de 0,82 (n = 60); e no PSDB, de 0,89 (n = 70). Seria
essa uma evidência de um tal impacto eleitoral do HPGE que permitiria supor,
como o fazem Schmitt, Carneiro e Kuschnir (1999), a existência de uma "lista
partidária informal"? Se considerássemos exclusivamente os dados de partidos
que, como o PT e o PSDB, adotaram estratégias fortemente estratificadas de
distribuição do tempo na televisão, talvez ficássemos tentados a imaginar que
sim. Contudo, o fato de encontrarmos resultados semelhantes para o PMDB e o PFL
enfraquece essa hipótese, visto que esses partidos adotaram uma abordagem muito
mais homogênea na divisão do tempo entre seus candidatos.
Em resumo, quando consideramos os candidatos de um mesmo partido político,
parece existir uma correlação positiva entre o tempo atribuído aos candidatos
no HGPE e o número de votos que eles obtêm. Contudo, essa correlação parece
dizer menos respeito ao destaque obtido por candidato do que à ordem da
distribuição do tempo entre eles. A regra funcionou do mesmo modo tanto nos
partidos que adotaram estratégias fortemente diferenciadas na distribuição do
tempo quanto naqueles que adotaram um formato mais homogêneo. Os candidatos
mais votados tendem a estar situados nas faixas mais altas da distribuição de
tempo, seja nas faixas de grande e médio destaque, como no PT e no PSDB, seja
na faixa de pequeno destaque, como no PFL e no PMDB. Com base nisso, é razoável
propor que a distribuição do tempo no HGPE acompanha a correlação de forças
dentro dos partidos políticos e que esta, mais do que a distribuição do tempo
no HGPE, explica a diferença na votação dos candidatos.
CONCLUSÃO
Este artigo procurou examinar a hipótese, apresentada por Schmitt, Carneiro e
Kuschnir (1999), de que o HGPE constitui um recurso por meio do qual os
partidos organizam "listas partidárias informais". Argumentamos que essa
proposição pressupõe pelo menos três afirmações: 1) que os partidos distribuem
desigualmente seu tempo no HGPE entre os candidatos; 2) que o HGPE tem um
impacto substantivo sobre o voto em eleições proporcionais; 3) que uma
distribuição desigual do tempo no HGPE pode se traduzir, portanto, em uma
votação diferenciada para candidatos de um mesmo partido.
Nossa análise indicou que os partidos de fato distribuem desigualmente o tempo
entre seus candidatos, embora se valham de estratégias muito diferentes para
tal. Em alguns casos, um pequeno número de candidatos (ou mesmo apenas um
candidato) é grandemente privilegiado em detrimento de todos os demais; em
outros, a distinção é menos acentuada, visto que todos os candidatos se situam
nas faixas de pouco destaque ou de nenhum destaque.
Por outro lado, a proposição de que o HGPE tem impacto efetivo sobre a votação
parece bastante frágil à luz das evidências que examinamos. Para começar, o
perfil de distribuição de votos dos candidatos sugere que a maioria deles foi
eleita com base em um esforço de campanha local, antes de ser como conseqüência
da influência da televisão. A comparação do grau de destaque dos candidatos no
HGPE com a votação obtida por eles tampouco traz evidências sólidas do impacto
da propaganda política na televisão sobre a campanha para vereador. Chama a
atenção o fato de os candidatos mais votados não ocuparem, em sua maioria, as
faixas de grande e de médio destaque, mas se concentrarem sobretudo na faixa de
pequeno destaque na distribuição do tempo no HGPE.
Em seu conjunto, as evidências nos obrigam a rever - ou pelo menos a modular -
a proposição de que a distribuição do tempo no HGPE atende primariamente a uma
estratégia eleitoral por parte dos partidos. É bem verdade que o peso do
cálculo eleitoral parece maior em alguns partidos do que em outros: maior no
caso de partidos como o PT e o PSDB, que adotaram estratégias baseadas em
"puxadores de votos", do que em partidos como o PMDB e o PFL, que pulverizaram
o tempo entre diversos candidatos de tal modo que nenhum deles chegou sequer a
ter um destaque "médio" no HGPE. Ainda assim, mesmo no caso do PT e do PSDB, a
explicação sobre o caráter eleitoral da escolha parece ter fôlego curto, pois,
a rigor, a estratégia de puxadores de votos não funcionou: para puxar votos, os
candidatos teriam de ter obtido uma votação consideravelmente superior ao
quociente eleitoral, o que só aconteceu no caso de Lucinha, do PSDB. Contudo, o
caráter fortemente concentrado dos votos da candidata sugere que o HGPE
desempenhou um papel de pouco relevo em sua votação.
Sugerimos, então, que é preciso mudar o foco da análise sobre as estratégias
dos partidos no que concerne à divisão do tempo no HGPE entre seus candidatos.
Mais do que refletir uma estratégia eleitoral consistente e unificada dos
partidos políticos, a distribuição do tempo entre os candidatos às eleições
proporcionais resulta de um arranjo que visa conciliar os interesses das
facções e lideranças políticas dos partidos políticos. Garantir a ordem
intrapartidária constitui, assim, um objetivo primário da distribuição do tempo
entre os candidatos, tanto ou mais do que conquistar os votos do eleitorado.
NOTAS
1. Cabe observar que o autor usa o conceito de "partidos catch-all" de modo um
tanto impreciso para designar partidos sem identidade ideológica claramente
delimitada. Tal uso se afasta claramente da definição original dada por
Kirchheimer (1969) ao termo, que tem em vista um conjunto bastante preciso de
transformações, o qual teve lugar no âmbito de alguns países da Europa
Ocidental, em um contexto de expansão do consumo de massa e apagamento das
antigas fronteiras entre as classes sociais. Ao contrário de Mainwaring (2001),
Kirchheimer não se vale do termo catch-all para sublinhar a oposição entre
partidos com sólida identidade ideológica e partidos ideologicamente frouxos,
mas sim para destacar a aproximação entre os partidos burgueses e os partidos
de massa na disputa pelo crescentemente importante centro político.
2. Essa explicação é pouco satisfatória, visto que Mainwaring não apresenta
qualquer explicação para que os políticos brasileiros adotem tal comportamento,
o que sugere que a crítica elaborada pelo autor é de cunho fundamentalmente
moral. Tal impressão é reforçada diante de afirmações como a que segue: "Dizer
que os partidos catch-all brasileiros têm um objetivo único é discutível porque
os políticos não se orientam por interesses coletivos. A maioria se preocupa
antes de qualquer coisa com sua própria carreira política, de modo que é
questionável falar da existência de um objetivo coletivo, quanto mais de um
objetivo consensual" (2001:217).
3. A importância da base local para esses dois últimos candidatos é tão
evidente que se reflete na própria escolha do nome com o qual eles registraram
suas candidaturas.
4. É importante deixar claro que estamos lidando com um valor médio, o que pode
encobrir algumas diferenças significativas nas estratégias de apresentação dos
candidatos. Entre os candidatos que classificamos na categoria "nenhum
destaque", alguns efetivamente apareceram muito pouco nos programas; outros
apareceram em poucas ocasiões, mas, quando isso ocorreu, contaram com um tempo
de exposição razoável.
5. No caso do PT, a ordem de apresentação dos candidatos no programa reproduziu
fielmente a hierarquia relativa à divisão do tempo na televisão. Como regra,
Édson Santos abria os programas, seguido pelos candidatos da faixa de média
exposição. O último bloco era ocupado pelos candidatos da faixa de exposição
pequena ou insignificante.