A demografia ambiental e a emergência dos estudos sobre população e consumo
Introdução
Nas últimas três décadas, as concepções sobre o meio ambiente evoluíram
bastante com a multiplicidade de preocupações que passaram a ser incorporadas à
temática. A noção de impacto ambiental amadureceu, não mais se limitando às
consequências físicas da atuação humana, passando a considerar, também, os
aspectos sociais, econômicos e culturais nas diversas escalas de análise. Se
nos anos 1970, sobretudo após a Declaração de Estocolmo (1972), as atenções
praticamente restringiram-se aos desafios criados pelo aumento dos níveis de
poluição e contaminação, atualmente, os problemas ambientais têm sido pensados
de maneira mais ampla.
As Ciências Sociais se atrasaram na incorporação das questões ambientais em
seus respectivos temas de pesquisa e apenas na última década os estudos
sistemáticos sobre população e ambiente ganharam mais fôlego. Assim, no
universo das abordagens interdisciplinares, a participação da Demografia nesse
tipo de discussão tem sido crescente, oferecendo novas ferramentas e
perspectivas para o tema (FREIRE_DE_MELLO;_HOGAN,_2007; MARANDOLA_JR.;_HOGAN,
2007; SATHLER,_2012).
As dimensões humanas devem assumir papel de destaque na literatura sobre as
mudanças ambientais. O ser humano é multidimensional e pode ser estudado no
plano individual e familiar, sendo parte de uma população que vive um dado
contexto social e cultural. O ambiente é multiescalar e as análises devem estar
atentas para as transformações ambientais locais, regionais e globais ao longo
do tempo (HOGAN_et_al.,_2010). Segundo Hogan_et_al._(2010,_p.14), "a relação
entre estas dimensões e escalas expressa a natureza da questão ambiental: uma
população busca no ambiente a reprodução e a sustentabilidade de sua vida".
No centro das principais discussões ambientais da atualidade, os problemas
gerados pelos desequilíbrios entre consumo, ambiente e população merecem a
atenção das abordagens que privilegiam as dimensões humanas. O consumo, e tudo
o que gira em torno desta prática, vem se consolidando como importante base de
sustentação de um modelo de desenvolvimento hegemônico global (FREIRE_DE_MELLO;
HOGAN,_2007; UNEP,_2010). As Ciências Sociais e a Demografia têm contribuído,
cada vez mais, nas discussões sobre os impactos do consumo nas mudanças
ambientais contemporâneas.
Diante disso, o presente artigo traz uma discussão sobre população, ambiente e
con-sumo, com base em bibliografia selecionada, tendo em vista a carência na
sistematização destes estudos na literatura brasileira recente e objetivando
estimular a referida discussão no âmbito da Demografia brasileira, por
considerá-la fundamental no momento atual, como evidenciado pelo importante
debate sobre o tema entre David Lam e Stan Becker, em número recente da
Demography.
A metodologia dessa revisão privilegiou a identificação dos conceitos e debates
mais relevantes, com base nas seguintes perguntas de pesquisa: quais são os
principais desafios da consolidação de uma demografia ambiental, sobretudo
diante das diversas possibilidades analíticas que a Demografia oferece para a
questão ambiental? Quais são os caminhos ainda não trilhados para a
consolidação da demografia ambiental? Qual é a inserção das Ciências Sociais
nas discussões sobre consumo e ambiente? Como a Demografia tem contribuído
nestes debates? O aumento populacional necessariamente implica aumento imediato
do consumo no planeta?
Assim, o primeiro tópico explora um conjunto de textos selecionados,
privilegiando - mas não restrito apenas a - a produção brasileira recente, que
discutem como a demografia ambiental, apesar de todas as dificuldades e dos
caminhos ainda não trilhados, tem sido um campo fértil para o desenvolvimento
de estudos sobre população, consumo e ambiente nos círculos acadêmicos. Também
é apresentada uma revisão das abordagens das Ciências Sociais sobre o consumo,
investigando como estes estudos têm incorporado a questão ambiental. Ao final,
o texto explora a inserção do tema - consumo e ambiente - na Demografia,
revelando a superação de velhos paradigmas e o surgimento de novos desafios.
Tendo em vista o caráter interdisciplinar do tema, a revisão não se restringiu
aos trabalhos publicados dentro da Demografia, buscando contribuições de vários
campos do conhecimento que, se bem articulados, enriquecem as discussões e
contribuem para a consolidação da demografia ambiental
População, espaço e ambiente: rumo à consolidação de uma demografia ambiental
Atualmente, um novo campo dentro da Demografia e dos estudos de população, que
Daniel Hogan denominou, no Brasil, de demografia ambiental, está dedicando mais
atenção às relações entre população e ambiente. Paralelamente ao aumento
significativo do consumo no planeta, os componentes da dinâmica demográfica se
comportaram com bastante dinamismo durante o último século em diversas partes
do globo. Estas transformações demográficas foram acompanhadas de mudanças
ambientais gravíssimas e ainda existe muito para entender sobre as relações
entre as variáveis populacionais e o ambiente.
A partir dos anos 1980, a difusão global de casos de contaminação ambiental e
suas consequências para a saúde e a vida humana motivaram o desenvolvimento de
estudos sobre população e ambiente (HOGAN_et_al.,_2010).
Já na década de 1990, os estudos passaram a incorporar, sobretudo, as
preocupações ambientais com o crescente aumento da emissão de gases de efeito
estufa e a poluição do ar (BONGAARTS,_1992; BIRDSALL,_1992; O'NEILL_et_al.,
2001), as mudanças na cobertura e no uso do solo e o desmatamento (BILSBORROW;
DELARGY,_1991; BILSBORROW;_STUPP,_1997) e as relações entre desastres
ambientais e a migração (ANDERTON_et_al._1994; HUNTER,_1998).
No entanto, a Demografia demorou a incorporar as questões ambientais e apenas
recentemente este campo de pesquisa tem se tornado mais abrangente. Na década
de 1990, alguns estudos ofereceram evidências que buscaram explicar as
dificuldades da Demografia no estabelecimento de uma linha de pesquisa sólida
para tratar as questões ambientais (DAVIS,_1991; KEYFITZ,_1992; PEBLEY,_1998).
Davis_(1991) argumenta que muitos pesquisadores investiram elevado tempo em
pesquisas voltadas para a criação de mecanismos para frear o crescimento
populacional, visto como fator que exerce grande pressão sobre os recursos
naturais. Paradoxalmente, também existe o argumento de que as causas centrais
dos problemas ambientais não são demográficas, ressaltando a importância das
instituições sociais, da eficiência dos mercados, do nível tecnológico e da
distribuição de renda.
Por outro lado, Keyfitz_(1992) ressalta que o excesso de peso dado a estes
temas pode levar muitos cientistas sociais à interpretação errônea de que as
questões populacionais têm pouco ou nenhum impacto nas transformações
ambientais.
Outro elemento que distancia a Demografia dos estudos ambientais é a
dificuldade de diálogo dos estudiosos da população com outras áreas, a exemplo
da Biologia, Bioquímica, Agronomia e Climatologia. Como ressalta Pebley_(1998),
na década de 1990, a carência de dados longitudinais locais para o estudo dos
impactos ambientais também agravou esta situação.
As abordagens mais recentes sobre população e ambiente têm incorporado novos
aspectos, buscando refletir sobre as relações entre as transformações
demográficas (envelhecimento populacional, estrutura etária e distribuição
espacial) e questões como qualidade e disponibilidade de água, geração de lixo,
biodiversidade, paisagem, desastres naturais, entre outras (RCEP,_2011).
O trabalho de Hogan_et_al._(2010) destaca algumas questões emergentes que
passaram a ser incorporadas: as transformações na estrutura etária da população
e as mudanças na composição domiciliar (menores unidades com maior consumo
energético); a cidade como forma de organização espacial da população;
população e consumo; e população e ambiente no contexto das mudanças
climáticas. Por fim, os autores também destacam que a valorização do espaço nos
estudos sobre população e ambiente é uma característica presente nos trabalhos
produzidos no país.
Embora haja um aumento nas pesquisas que exploram questões relacionadas aos
componentes da dinâmica populacional e as alterações ambientais de maneira
isolada, no Brasil os estudos interdisciplinares que buscam investigar a
relação entre estes temas ainda são incipientes.
Se, no passado, as discussões em torno do impacto do estoque populacional sobre
o ambiente ganharam destaque, atualmente, Harper_(2011) revela que ainda existe
carência em abordagens que considerem as implicações de outras variáveis
demográficas, como densidade populacional e composição da população, sobre o
ambiente.
A comunidade científica não pode cessar os esforços em busca do fortalecimento
dos estudos sobre população, espaço e ambiente, já que ainda existe muito
espaço a conquistar. Diante disso, cabe o seguinte questionamento: quais são os
caminhos ainda não percorridos para a consolidação da demografia ambiental?
Existem várias possíveis respostas para esta pergunta, embora a maior parte
delas aponte para a necessidade de aprofundamento e consolidação de iniciativas
já percebidas na comunidade científica, mesmo que de maneira tímida, por
demógrafos e não demógrafos.
Para que a demografia ambiental se torne mais influente e robusta, deve-se, em
primeiro lugar, garantir o seu crescimento dentro da própria Demografia, com a
ampliação de abordagens interdisciplinares que envolvam, cada vez mais, a
participação de profissionais também de outras áreas do conhecimento. Além
disso, espera-se que a demografia ambiental se valorizará quando mais e mais
pesquisadores não demógrafos identificarem na Demografia ferramentas
importantes para a complementação de suas abordagens, devendo, portanto, ser
estimulada dentro e fora do campo tradicional da Demografia.
Este não é um caminho fácil de ser percorrido, embora existam algumas
estratégias que mereçam ser discutidas. Cabe aos demógrafos e às associações
(Iussp, Alap, Abep, PAA, entre outras) trabalhar em prol de uma maior
incorporação de análises demográficas nos grandes relatórios sobre mudanças
ambientais, sobretudo aqueles realizados pelo IPCC, ONU e Banco Mundial. Isso
traria maiores possibilidades de crescimento da demografia ambiental, tendo em
vista que estes estudos, de certa forma, servem de referência para toda a
comunidade científica internacional, balizando abordagens e indicando campos de
pesquisa promissores.
Outra possibilidade é a ampliação do levantamento de dados e informações com
base em recortes geográficos mais favoráveis aos estudos sobre população e
ambiente, a exemplo de bacias hidrográficas, biomas, domínio morfoclimáticos e
áreas de vulnerabilidade socioambiental.
Ainda, cabe reforçar a estruturação de base de dados e garantir a multiplicação
de plataformas interativas que permitem a integração de dados espaciais,
demográficos e ambientais. As montagens de bancos de dados secundários devem
considerar estas possibilidades de integração, o que reduziria boa parte das
limitações existentes e, também, a necessidade de esforços para a
compatibilização de bases cartográficas.
Ademais, a Demografia deve estar sempre atenta às grandes discussões ambientais
globais, a exemplo das possibilidades de adaptação às mudanças climáticas
globais e suas repercussões sobre as populações com maior nível de
vulnerabilidade. Também não se pode perder de vista que boa parte dos problemas
que ameaçam a saúde e a vida acontece localmente ou regionalmente. Se os
problemas ambientais contemporâneos passam por um entendimento multiescalar, a
demografia ambiental também deverá criar novas possibilidades analíticas em
sintonia com a natureza destes problemas.
Estas iniciativas devem ser multiplicadas em prol de uma demografia ambiental
mais influente e participativa, que ofereça alternativas mais acuradas para a
mitigação e adaptação aos principais problemas ambientais nas suas diversas
escalas. Segundo Hogan_et_al._(2010,_p._96), "já está na hora de assumirmos uma
demografia ambiental, que contribua de forma sistemática para a compreensão e
construção de um mundo sustentável". Segundo os autores, "esse é um esforço
coletivo para o futuro que agrega à reflexão ambiental um olhar propriamente
demográfico". Nesse sentido, as repercussões negativas do consumo estarão
presentes nesse esforço constante em busca da consolidação de uma demografia
ambiental.
O papel das Ciências Sociais nos estudos sobre consumo e ambiente
O movimento ambientalista vem sistematicamente ganhando força e encontrando
espaço em todas as esferas da vida social (HOGAN_et_al.,_2010).
Se a Rio 92 foi um importante marco para o aumento das preocupações ambientais,
nos últimos anos, todos os esforços que culminaram na conferência Rio+20 e no
5º relatório (AR-5) do International Panel on Climate Change (IPCC,_2013)
demonstraram que a sociedade, de forma geral, evoluiu bastante nas discussões
ambientais. Nesse contexto, ganham destaque o maior volume de publicações
científicas na área e a incorporação dos temas ambientais por outros campos do
conhecimento.
A literatura sobre população, consumo e ambiente tem destacado o papel
desempenhado pelos estilos de vida e padrões de produção e consumo a eles
relacionados, tendo em vista as mudanças ambientais contemporâneas (FREIRE_DE
MELLO;_HOGAN,_2007; FREIRE_DE_MELLO,_2009).
O aumento do nível de crítica e questionamento, tanto científico quanto social,
sobre o modo de vida centrado na utilização intensiva de combustíveis fósseis
parece evidente, uma vez que os modelos de crescimento econômico e de
desenvolvimento vigentes têm se mostrado insustentáveis (STERN_et_al.,_1997;
PRINCEN_et_at.,_2002; k94; MYERS,_2003; HOLDEN,_2004).
Atualmente, a produção de bens e serviços é extremamente dependente do
crescimento da demanda por consumo. A capacidade intelectual e inventiva da
espécie humana tenta adequar a natureza às suas crescentes demandas por energia
e matérias-primas, para a satisfação de padrões de produção e consumo cada vez
mais intensivos, embora não exista equilíbrio nesta relação conflituosa entre
homem e natureza. Os estilos de vida e as escolhas deles derivadas impactam
diretamente o ambiente, gerando estímulos que provocam a reação dos diferentes
setores produtivos para satisfazerem as necessidades e demandas existentes
(FREIRE_DE_MELLO;_HOGAN,_2007; FREIRE_DE_MELLO,_2009).
Durante o século XX, em especial após a Segunda Guerra Mundial, o consumo em
massa se desenvolveu e consolidou de forma global, criando e disponibilizando -
a custos financeiros decrescentes, mas a custos ambientais e sociais crescentes
- uma gama de produtos e serviços jamais experimentada (FREIRE_DE_MELLO;_HOGAN,
2007; FREIRE_DE_MELLO,_2009; KUMAR,_2013).
O problema com que nos confrontamos no momento é que estilos de vida e padrões
de consumo - e, consequentemente, de produção - com grande potencial de
degradação ao ambiente vêm se consolidando como hegemônicos em grande parte das
economias e sociedades (KEMPF,_2008). A multiplicação do consumo não estimulou,
na mesma proporção, soluções baseadas em formas sustentáveis de interação com
os recursos naturais do planeta.
O geógrafo norte-americano Robert Kates recupera uma definição de consumo,
desenvolvida pela Royal Society of London em conjunto com a U.S. National
Academy of Sciences no final da década de 1970 que, apesar de já ter mais de 40
anos, aponta caminhos interessantes na busca de um melhor entendimento da
questão, associando o consumo humano à transformação de materiais e energia.
Este processo pode gerar desequilíbrios caso o consumo torne os materiais e a
energia menos disponíveis para o futuro, ou afete negativamente os sistemas
biofísicos de modo a ameaçar a saúde e o bem-estar das populações (FREIRE_DE
MELLO;_HOGAN,_2007). Por sua vez, Kates_(2000) esclarece que existem lacunas
teóricas e empíricas nos estudos sobre o consumo, diante de dificuldades
conceituais básicas e de escassez de fontes de dados (KATES,_2000).
De maneira geral, consumo pode ser entendido como a principal forma de
interação entre os seres vivos e o ambiente. Sendo assim, a vida é, em
essência, consumo, seja por meio do uso do solo como substrato e fonte de
nutrientes, seja pela utilização de combustíveis fósseis como fonte de energia
ou pelas demais formas de relacionamento do homem com o ambiente (FREIRE_DE
MELLO;_HOGAN,_2007; FREIRE_DE_MELLO,_2009).
As diferentes espécies animais e vegetais têm que interagir com o ambiente e os
recursos disponíveis para poderem se desenvolver, alterando-os e, até mesmo,
destruindo-os completamente ao longo do processo de interação (PATERSON,_2006).
O consumo por si só não é algo mal e que deve ser combatido, mas, ao se tornar
um fim em si mesmo, seja como objetivo principal dos indivíduos ou como medida
fundamental do sucesso individual, transforma-se em ameaça forte e agressiva ao
ambiente e, consequentemente, aos seres vivos que dele dependem. A consolidação
de uma cultura e de um modo de vida baseados essencialmente na capacidade de
consumir dos indivíduos é algo que deve fazer soar os alertas (GARDNER_et_al.,
2004).
No século XIX, Marx, Weber e Durkheim abordaram o consumo de forma quase sempre
periférica às suas discussões centrais. Segundo Carrabine_(2010,_p._50-51), o
consumo é concebido, por exemplo, como "uma instância do 'fetichismo da
mercadoria' induzido pelo capitalismo na tradição marxista. É entendido como
fator de estratificação social baseado em exibições instrumentais de riqueza e
prestígio", na tradição weberiana, ou como consequência do "industrialismo
moderno que era o gerador de desejos de consumo patologicamente insaciáveis que
corroem a base moral da ordem social", na tradição durkheimiana.
Entre os autores que contribuíram de forma efetiva para tornar o consumo um
verdadeiro campo de conhecimento e pesquisa, é importante destacar Thorstein
Veblen, economista e sociólogo norte-americano, conhecido por ser um dos
fundadores da New School for Social Research e por popularizar o termo consumo
conspícuo no livro The theory of the leisure class, publicado em 1899, que, de
certa maneira, orientaria e enviesaria os estudos sobre o tema ao longo dos
séculos seguintes e que se baseava na ideia de que os indivíduos utilizam o
consumo e a exibição - muitas vezes ostensiva - de bens e posses materiais como
forma de "indicar ou realçar o próprio prestígio aos olhos dos demais"
(JOHNSON,_1997, p. 51).
Talcott Parsons, sociólogo norte-americano responsável pelo desenvolvimento da
teoria do funcionalismo estrutural, defendia a ideia, fortemente baseada em
Weber e Durkheim, de que sociedade se estrutura em diferentes partes, cada uma
com funções próprias e únicas que, coordenadas, promovem a estabilidade social.
Assim, a noção de prestígio seria central nos sistemas de estratificação social
(PARSONS,_1960). Dessa forma, o consumo conspícuo se materializa, por exemplo,
quando indivíduos da chamada, por Veblen, "classe ociosa" demarcam seu
posicionamento social superior "demonstrando que possuem tanto que podem dar-se
ao luxo de desperdiçar em enorme escala" (JOHNSON,_1997, p. 51).
Esta ideia ainda permeia e influencia fortemente algumas análises
contemporâneas sobre consumo e ambiente, que invadiram e ganharam espaço dentro
do pensamento sociológico ao longo das décadas de 1980 e 1990. Segundo Johnson_
(1997,_p._52), "comportamento, gosto e preferências pessoais têm consequências
sociais, cujo significado e alcance se situam muitas vezes além da consciência
que temos deles".
A emergência e consolidação das questões ambientais observadas ao longo da
segunda metade do século XX fizeram com que ocorresse uma mudança significativa
na percepção e na abordagem dada pelas Ciências Humanas e Sociais ao tema do
consumo. O ramo da Sociologia dedicado ao estudo do consumo, ao passar a
desafiar algumas das premissas básicas da disciplina, promoveu mudanças nos
usos do termo, que passou a não se restringir às conceituações reducionistas e
francamente negativas, relacionadas intensamente com as ideias de destruição,
desperdício e exaustão.
Esse movimento das Ciências Sociais foi incisivamente marcado por uma série de
estudos fundamentais sobre o consumo,1 que se contrapunham às ideias fomentadas
no século XIX que caracterizavam o consumo como algo negativo, socialmente
inútil e que deveria, portanto, ser depreciado, principalmente por ser uma
atividade predominantemente feminina (McCRACKEN,_2003).
Coincidentemente, isso ocorreu no mesmo momento histórico da adoção por vários
governos ao redor do planeta de políticas neoliberais e da ascensão e
consolidação do ideal da liberdade de escolha como a aspiração central da vida
individual, social, econômica e política dos indivíduos e das sociedades
(CARRABINE, 2010).
A argumentação destes novos teóricos do consumo, segundo Carrabine_(2010,_p.
50), destacava a necessidade de se abandonar as "antigas preocupações dos
teóricos do século XIX, que identificavam a produção industrial e a posição de
classe como fonte básica dos propósitos e antagonismos da sociedade", buscando
demonstrar, de forma clara e coerente, que são as relações sociais que
estruturam "a aparente individualidade de tais escolhas, desejos e
significados".
Essa ressignificação do consumo dentro da Sociologia não quer dizer que, antes
da década de 1980, os teóricos haviam abordado o tema de uma única forma. Muito
pelo contrário, as acepções foram as mais diversas. Entretanto, Carrabine_
(2010,_p._50) revela que "o tema permaneceu às margens de uma teoria social
mais ampla".
No entanto, mesmo após duas décadas de evolução nos estudos sobre consumo e
ambiente, a socióloga Sara Curran e o geógrafo Alex de Sherbinin (2004) afirmam
que, apesar de a questão do consumo estar fortemente conectada às relações
população-ambiente, as duas literaturas ainda têm seguido caminhos diferentes,
com algumas poucas e significativas exceções (FREIRE_DE_MELLO;_HOGAN,_2007;
FREIRE_DE_MELLO,_2009).
Além disso, os autores identificam três áreas predominantes de pesquisa nas
Ciências Sociais sobre a temática consumo/ambiente, com grandes possibilidades
de diálogo com a demografia: pesquisas dedicadas à mensuração e análise do
consumo no nível de domicílios, nas quais o foco vem passando das estatísticas
de consumo nacionalmente agregadas para as análises no nível de domicílio;
pesquisas sobre estimativa, cálculo e análise de pegadas ecológicas e
contabilidade de fluxos de materiais, que agregam principalmente pesquisadores
das áreas biológicas e físicas - com alguma participação de cientistas sociais
- e voltadas para o desenvolvimento de índices como a pegada ecológica,
procurando demonstrar sua validade e capacidade de predição; e pesquisas
direcionadas para análise de valores, atitudes, comportamentos e estilos de
vida, majoritariamente conduzidas por cientistas sociais que tentam identificar
e entender a influência dos valores e atitudes no comportamento do consumidor,
assim como o papel desempenhado pelo consumo nos processos de aumento de
consciência ambiental e de mudanças de atitude (CURRAN;_DE_SHERBININ,_2004, p.
108).
Curran_e_De_Sherbinin_(2004) indicam que muitos estudos voltados para
mensuração e análise do consumo dos domicílios têm como ponto de partida a
utilização da variável "energia per capita",2 atribuindo tal popularidade a
algumas vantagens que esta métrica possui em relação a outras mais complexas.
Ainda, além dos domicílios, existem outras unidades de consumo na sociedade,
como, por exemplo, a administração pública e as corporações (CURRAN;_DE
SHERBININ,_2004).
O segundo grupo de estudos dedica-se à estimativa, ao cálculo e à análise de
pegadas ecológicas e contabilidade de fluxos de materiais. O termo, cunhado por
Mathis Wackernagel e William Rees no final dos anos 1980 (ecological
footprint), quantifica, de maneira razoavelmente simples, os recursos naturais
necessários para a manutenção de determinado estilo de vida por meio do
atendimento às necessidades e às demandas de consumo derivadas deste estilo de
vida. Trata-se do somatório de todas as componentes do consumo relacionadas à
geração de impactos ambientais (WACKERNAGEL;_REES,_1988).
No caso das nações mais industrializadas, boa parte dos materiais necessários à
manutenção do status quo não está disponível localmente, o que leva à
necessidade da busca e apropriação destes recursos em outras regiões do
planeta, expandindo suas pegadas e a amplitude de seus impactos ambientais,
levando-a do nível local ou regional para a escala global.
Curran_e_De_Sherbinin_(2004) atribuem a rápida difusão e popularização da
análise da pegada ecológica ao fato de ela ser uma metodologia relativamente
simples de inventário, contabilidade e incorporação das externalidades
(ambientais e sociais) das atividades humanas, bem como por ampliar o foco da
análise ao reconhecer e incorporar que não só as atividades produtivas, mas
também o comércio e os serviços implicam consumo de recursos e insumos. Os
estudos de pegada ecológica, ao apontarem a importância desempenhada pelo
comércio global contemporâneo na geração de impacto ambiental, também estimulam
práticas mais justas e menos impactantes, a exemplo do fair trade. Segundo
Spaargaren_(2000a, 2000b, 2003), essas práticas representam uma possibilidade,
cada vez mais real e concreta, de mudança dos padrões de produção e consumo.
Os estudos voltados para a contabilidade de fluxos de materiais (material flow
accounting - MFA e material and energy flow accounting - MEFA),3 nada mais são
do que análises do consumo baseadas na premissa de que sustentabilidade é um
problema da interação sociedade-natureza ao longo do tempo. Esta abordagem
busca traçar os fluxos socioeconômicos de materiais e energia, avaliando as
mudanças em processos e padrões relevantes nos ecossistemas relacionados com as
intervenções nos sistemas naturais, aumentando a utilidade destes sistemas para
os objetivos econômicos. Objetiva responder às seguintes questões: quais
mudanças as atividades socioeconômicas causam nos sistemas naturais? Quais
forças socioeconômicas estão por trás destas mudanças e como elas podem ser
influenciadas? Como as mudanças nos sistemas naturais impactam a sociedade?
Como a sociedade pode lidar com as mudanças que ela própria provocou? (HABERL,
2004; FREIRE_DE_MELLO;_HOGAN,_2007).
O terceiro grupo de estudos sobre consumo/ambiente trabalha com análises de
valores, atitudes, comportamentos e estilos de vida.4De acordo com esta
abordagem, o comportamento do consumidor é determinado por uma série de
fatores, tais como valores pessoais, nível educacional e disponibilidade de
renda, que interferem tanto nas preferências de consumo dos indivíduos quanto
na determinação do grau e da intensidade com que os indivíduos podem
efetivamente consumir. De maneira geral, conforme Wilk_(1998), os valores
individuais variam em função de três causas básicas: diferenças entre gerações;
mudanças nas condições durante o ciclo de vida do indivíduo; e influências
externas sazonais como eventos pessoais e sociais de grande impacto sobre o
indivíduo (FREIRE_DE_MELLO;_HOGAN,_2007; FREIRE_DE_MELLO,_2009).
Os trabalhos sobre estilo de vida vêm crescendo em número e importância nas
análises das relações de consumo. Os estilos de vida podem ser agrupados em
clusters baseados em semelhanças e, com isso, oferecer meios para a
identificação, por exemplo, dos pontos de alavancagem da mudança que seriam
mais relevantes para cada cluster ou dos clustersque produzem os impactos
ambientais mais significativos e que, portanto, demandam uma maior e mais
rápida intervenção. Uma vez que os clusters de consumo são identificados,
políticas podem ser desenvolvidas de acordo com os diferentes modelos ou
teorias do consumo (WILK,_2002).
Uma limitação bastante significativa na abordagem do consumo por meio da
análise de valores, estilo de vida e cultura relaciona-se com a dificuldade de
se identificarem claramente as formas pelas quais preços, rendas e gostos
afetam o comportamento do consumidor. A pesquisa na interface população-
ambiente, ao enfatizar as conexões entre as pessoas e as mudanças ambientais,
pode contribuir significativamente para a obtenção de informações importantes
sobre a variabilidade na elasticidade das curvas de demanda, em análises
comparativas entre lugares e culturas diferentes (FREIRE DE MELLO, 2009).
As contribuições das Ciências Sociais sobre a relação consumo e ambiente
evoluíram, passando a oferecer um arcabouço teórico aplicável também a outras
áreas do conhecimento. As ideias levantadas neste tópico podem ser aproveitadas
não apenas para discussões mais substantivas dentro da Demografia, mas também
para dar suporte teórico para a aplicação de técnicas demográficas e para o uso
de ferramentas específicas dos estudos populacionais.
Tendo em vista os diversos parâmetros demográficos e domiciliares inerentes à
relação consumo-ambiente, estes estudos oferecem subsídios valiosos para a
superação de qualquer visão simplista da relação entre crescimento populacional
e degradação ambiental, como será demonstrado no próximo tópico.
População, consumo e ambiente: da bomba populacional à crise do consumo
A relação entre população e consumo e, consequentemente, a concepção do termo
pela Demografia foram fortemente marcadas pela obra clássica Essay on
population, de Thomas Malthus (1798), que estabeleceu a base lógica que
orientaria a análise demográfica fundamentada na indubitável e determinista
conexão entre crescimento populacional exagerado e suas consequências para a
humanidade. Conforme as interpretações demográficas do autor no final do século
XVIII, o crescimento populacional e a reprodução limitada dos meios de
subsistência levariam as sociedades humanas à catástrofe e ao colapso
econômico.
A concepção malthusiana traz e consolida, tanto na ciência quanto no senso
comum, a ideia de que o crescimento da população impediria o bem-estar geral,
sendo a principal causa da pobreza, da miséria e da fome, com o autor propondo
algumas soluções para impedir as catástrofes relacionadas à tão temida explosão
demográfica, com destaque para a manutenção dos salários em níveis não
superiores ao de subsistência, considerando que existiria uma relação direta
entre renda e natalidade. No entanto, a transição demográfica nos países mais
desenvolvidos, com a queda sistemática da fecundidade, afastou por algumas
décadas o "fantasma malthusiano" (ALVES,_2002, 2006).
Muitas transformações econômicas e sociais marcaram o mundo a partir de meados
do século XX. O período pós-Segunda Guerra Mundial foi caracterizado por uma
significativa melhoria das condições de vida entre as sociedades ocidentais,
marcado pela busca do Welfare State e pela disseminação de um modo de vida
baseado fortemente nos padrões de produção e consumo estabelecidos pelos
Estados Unidos e seus aliados (GONÇALVES,_2013).
Parte da tecnologia desenvolvida como esforço para vencer a guerra tornou-se
acessível a grandes parcelas das populações destes países, popularizando a
utilização de produtos e serviços (antibióticos, viagens aéreas internacionais,
serviços de comunicação, entre outros), que rapidamente passaram a fazer parte
da vida cotidiana de milhões de pessoas por todo o mundo (MINDELL,_2009).
Assim, houve uma alteração definitiva da relação entre sociedade e ambiente,
com a consolidação da sociedade de consumo como paradigma desenvolvimentista.
Tais avanços tecnológicos e científicos, especialmente na Medicina e na
Química, impactaram de forma direta a dinâmica demográfica dos diversos países.
A difusão das tecnologias de controle da mortalidade e a melhoria do padrão de
vida das populações aumentaram a expectativa de vida média (WOOD;_CARVALHO,
1988). Estas transformações surtiram efeitos também nos países até então
rotulados de subdesenvolvidos ou do Terceiro Mundo.
Após meados do século XX, os debates sobre a possibilidade de uma explosão
demográfica ganharam nova roupagem com o aumento abrupto das taxas de
crescimento populacional nos países subdesenvolvidos. A mortalidade passou a
cair nesses países em ritmo muito mais acelerado do que o observado no passado,
com a importação maciça de uma série de tecnologias médicas e sanitárias dos
países industriais (YUNES;_RONCHEZEL,_1971), enquanto a natalidade parecia
imóvel nesse ambiente de profundas transformações sociais.
A visão de que o crescimento demográfico exagerado traria consequências graves
para as populações ganhou força num dado momento histórico. Vários trabalhos
buscaram entender esta relação com base em uma perspectiva neomalthusiana.5
Autores como o norte-americano Paul Ralph Ehrlich - originalmente um biólogo
que iniciou a carreira acadêmica como entomologista, mas que se tornou famoso
na demografia ao publicar, em 1968, o polêmico livro The population bomb -
passaram a expressar em alto e bom tom suas preocupações relacionadas com o
crescimento populacional e o crescente consumo dos limitados recursos naturais
disponíveis no planeta.
A temida explosão demográfica dos países subdesenvolvidos tornou-se a principal
preocupação dos demógrafos por todo o mundo, que direcionaram suas atenções
para as altas taxas de fecundidade e a permanência de uma estrutura etária
jovem em diversos países do mundo. Os debates consideravam que o crescimento
demográfico, principalmente dos países mais pobres, seria a grande ameaça à
estabilidade política e econômica e à manutenção da pobreza no mundo. Diante
disso, os neomalthusianos defendiam políticas de controle populacional,
incentivando a adoção de métodos contraceptivos, práticas de esterilização e
aborto.
Apesar de o renascimento do malthusianismo ser fortemente relacionado ao final
dos anos 1960 e início dos 1970, já existiam, anteriormente, autores e
publicações defendendo este ideário, algumas vezes associado à defesa de teses
eugênicas. Dois livros publicados entre as décadas de 1940 e 1950 merecem
destaque: Our plundered planet, publicado por Henry_Fairfield_Osborn_Jr._
(1948),6 e Road to survival, de William Vogt (1948).7
Por outro lado, como os textos do Marquês de Condorcet já se opunham à lógica
malthusiana ainda no século XVIII (ALVES,_2002), muitas vozes levantaram-se
para contrapor-se à emergência do neomalthusianismo no século XX, como, por
exemplo, o economista norte-americano Julian Lincoln Simon. Ele defendia a
teoria, posteriormente denominada de abordagem cornucopiana, de que a
capacidade de suporte à vida humana no planeta era, essencialmente, ilimitada,
principalmente em função da habilidade dos humanos de desenvolverem tecnologias
capazes de aumentar de forma sistemática e consistente a produção de alimentos
(SIMON,_1981).
De maneira geral, a abordagem cornucopiana baseia-se na crença de que a
racionalidade econômica e a eficiência tecnológica são capazes de fornecer as
ferramentas necessárias tanto para produzir alimentos e outros itens essenciais
em abundância quanto para resolver os problemas ambientais, promovendo a
qualidade de vida das populações e garantindo, assim, a sobrevivência da
espécie humana (SIMON,_1981).
Um dos principais defensores desta abordagem é a economista dinamarquesa Ester
Boserup, autora de diversos livros, dos quais se destaca The conditions of
agricultural growth: the economics of agrarian change under population
pressure, de 1965. Nessa obra, Boserup analisa a relação entre crescimento
populacional e produção de alimentos, apontando a importância que as inovações
técnicas agrícolas têm desempenhado na história.
Outro livro dessa autora, Population and technological change: a study of long-
term trends, publicado em 1981, teve a contribuição fundamental de ampliar seu
modelo de análise para a sociedade como um todo, introduzindo na discussão
sobre a relação sociedade-ambiente o conceito de economias de escala. Ainda de
acordo com Boserup_(1981b; 1991), diversas tecnologias só podem ser utilizadas
com eficiência se a população atingir determinada densidade adequada e o
crescimento demográfico tornar possível a urbanização e o processo
civilizatório dela decorrente.
A partir da década de 1970, o número médio de filhos por mulher também começou
a diminuir, ainda que de forma discreta, nos países à época denominados
subdesenvolvidos e, com o tempo, verificou-se que o crescimento explosivo da
população, nas próximas décadas, deixaria de ser uma realidade em grande parte
dos países do mundo (MARTINE,_1993; SAWYER,_1993).
Sobretudo a partir da Conferência do Cairo (1994), os embates entre os
neomalthusianos e os anti-neomalthusianos perderam espaço. A mudança de
paradigma e a consciência da importância dos direitos sexuais e reprodutivos
ajudaram a reforçar a ideia de que o desenvolvimento seria o "melhor
contraceptivo" (ALVES;_CORREA,_2003).
A transição demográfica nos países emergentes serviu para desarmar a bomba
populacional, mesmo que, de forma geral, as populações mais pobres e em maior
situação de vulnerabilidade do mundo ainda exibam fecundidade em níveis
superiores ao de reposição (LEE,_2003; LESTHAEGHE,_2010).
Todos estes debates não vieram acompanhados de uma discussão sistemática de
cunho ambiental, embora, atualmente, fique mais fácil relacionar estes grandes
embates ideológicos que marcaram a história da Demografia com o tema. Em um
mundo aparentemente livre da explosão populacional, qual seriam as principais
preocupações da Demografia no que diz respeito aos impactos ambientais
contemporâneos? Se o ritmo de crescimento populacional tem sido freado pela
transição demográfica, os problemas ambientais no mundo não deixaram de existir
e têm incorporado uma nova gama de questões.
Apenas a partir da década de 1990, estudos passaram a apresentar com frequência
uma visão crítica à lógica malthusiana que conecta a superpopulação à
degradação ambiental em escala planetária. No Brasil, a primeira geração de
demógrafos preocupados com as intercessões entre a Demografia e a questão
ambiental buscou, inicialmente, incorporar o tema meio ambiente às discussões
entre população e desenvolvimento (HOGAN,_2007).
O livro organizado por George_Martine_(1993), População, meio ambiente e
desenvolvimento: verdades e contradições, reuniu os primeiros esforços de
pesquisadores brasileiros que há 25 anos vêm trabalhando pela consolidação da
demografia ambiental, sendo um dos mais importantes marcos na construção do
campo de discussão no Brasil.
Sawyer_(1993) argumentou que a questão do consumo aparece atrelada a estas
primeiras discussões sobre população, desenvolvimento e ambiente. Nos anos que
se seguiram, diversos trabalhos apontaram que a explosão do consumo se tornou
algo muito mais preocupante do que o crescimento exagerado da população
(JACKSON,_2006; HOGAN_et_al.,_2010; ROYAL_SOCIETY,_2012).
A análise do crescimento demográfico sempre será importante para as discussões
ambientais em todas as escalas, desde que acompanhada de uma visão crítica que
considere também outros aspectos da dinâmica demográfica, como localização
espacial, estrutura etária, padrões de fecundidade e envelhecimento
populacional (HOGAN, 1991; MARTINE,_1993; SAWYER,_1993).
A localização espacial da população e os padrões recentes de urbanização não
podem ser esquecidos nos debates sobre população, ambiente e consumo. As
grandes mudanças testemunhadas recentemente no mundo na localização espacial
das populações implicaram, necessariamente, fortes transformações nas relações
do homem com o ambiente e, também, nos padrões de produção e consumo.
Segundo Martine_(2007), a concentração urbana pode facilitar o enfrentamento
dos problemas ambientais. Na visão do autor, se, por um lado, maior
disponibilidade de terra no campo permite ganhos na produtividade agrícola e
facilita a preservação dos ecossistemas, por outro, a concentração de pessoas
nas cidades abre um leque de oportunidades para a universalização de serviços
ambientais básicos. Martine_(2007,_p._188) declara que "a densidade urbana
mostra-se favorável ao crescimento econômico, ao desenvolvimento social e à
redução da fecundidade, além de favorecer um uso mais eficiente dos recursos".
Assim, a urbanização também é responsável por importantes impactos no
crescimento populacional e na estrutura etária das populações.
As relações entre estrutura etária e as diversas formas de consumo também têm
alcançado destaque na literatura recente, se mostrando um campo de estudos
promissor. Segundo Campos_(2014,_p._18), "os padrões de consumo das sociedades
são influenciados, dentre outros aspectos, pela estrutura etária da população,
traduzida em sua composição por grandes grupos etários: crianças, adultos e
idosos". Conforme o autor, vale lembrar que a composição da população é,
inclusive, um determinante importante para sua taxa de crescimento.
Diversos estudos vêm explorando esta intercessão entre a mudança na estrutura
etária e variáveis de consumo, como os incrementos no uso de combustíveis
(GRENNING;_JENG,_1994), na demanda domiciliar por energia (O´NEILL;_CHEN,
2002), na poluição do ar (COLE;_NEUMAYER,_2004) e na demanda por automóveis
(PRSKAWETZ_et_al.,_2004), decorrentes das novas estruturas etárias marcadas
pelo envelhecimento da população.
Ojima_e_Carvalho_(2009) argumentam que, de modo geral, a transição demográfica
e a consequente redução do número médio de moradores por domicílio incentivam o
aumento nos fatores de impacto ambiental com a elevação do padrão de consumo.
Recentemente, a revista Demography publicou um debate interessante sobre
população e ambiente entre David Lam e Stan Becker, em que a questão do consumo
é destacada, apontando para a atualidade e relevância da discussão e a
crescente necessidade de a Demografia brasileira se manifestar e se envolver
com a mesma.
Com base em análises dos últimos 50 anos, período de intenso crescimento
populacional no planeta, Lam_(2011) argumenta que, apesar de todos os temores
lançados nos anos 1960 (fome, exaustão de recursos naturais não renováveis e
aumento da pobreza), a humanidade ampliou a produção de alimentos, reduziu o
preço dos recursos e diminuiu significativamente a pobreza na maior parte do
mundo em desenvolvimento. O autor apresenta uma visão otimista entre
desenvolvimento e ambiente e espera mudanças positivas até 2050.
No entanto, Becker_(2013,_p._1231) destaca que, "embora Lam aborde de maneira
breve as mudanças climáticas e a poluição, o autor não avalia vários outros
problemas ambientais que estão intimamente relacionados ao rápido crescimento
populacional". Com o incremento de quatro bilhões de pessoas no planeta, Becker
defende que a humanidade está consumindo recursos em um nível insustentável,
causando desequilíbrios ambientais sérios, a exemplo da escassez de água
subterrânea e redução do volume dos rios, utilização excessiva de combustíveis
fósseis e de recursos minerais, desflorestamento e extinção de espécies. Becker
ainda argumenta que a abordagem de Lam_(2011) refere-se ao mundo dos humanos,
negligenciando as outras espécies e demais componentes do meio natural.
Lam_(2013) justifica sua visão otimista, destacando que tendências positivas
são geralmente esquecidas, mesmo que se sobreponham a outras tendências
negativas. Embora exista consenso sobre os desafios a serem enfrentados nas
próximas décadas, o autor ressalta que, apesar de o mundo ter sobrevivido à
bomba populacional, isso não significa que este caminho tenha sido fácil ou que
não tenham aparecido novos desafios. O autor também chama a atenção para um
feito impressionante: a humanidade conseguiu adicionar quatro bilhões de
pessoas ao mundo e, mesmo assim, melhorar a maior parte das medidas de bem-
estar, o que requer trabalho duro, engenhosidade e boas instituições. Assim,
ele defende que podemos alimentar e hospedar mais três bilhões de pessoas até o
final do século, sem negligenciar os desafios ambientais que Becker_(2013)
destacou.
No debate entre David Lam e Stan Becker, assim como em diversos estudos
apresentados neste trabalho sobre população e ambiente, a questão do consumo é
fundamental. O aumento do consumo esbarra, a todo o momento, nos limites
ambientais do planeta e nas mudanças observadas na natureza. O crescimento
econômico e o aumento geral da renda vêm sendo apresentados e defendidos,
sistematicamente, como fator essencial para a expansão do acesso e do usufruto
de melhores padrões de qualidade de vida e condições mais dignas por
significativos contingentes populacionais que ainda não estão inseridos nos
circuitos globais do consumo.
A realidade é que parte significativa da população mundial é extremamente pobre
e vive em condições precárias que ameaçam a saúde e a vida, sobretudo nos
países em desenvolvimento e naqueles menos desenvolvidos. A eliminação geral da
pobreza é desejada e será um enorme ganho social caso se concretize. Não
obstante a enorme desigualdade na distribuição de riquezas no mundo, a redução
da pobreza e/ou o aumento da renda também poderão contribuir para a
intensificação dos impactos ambientais caso não existam maior equilíbrio no
acesso aos recursos naturais, mudança tecnológica ou transformações no tipo de
consumo (SATHLER,_2012).
Por outro lado, Sawyer_(2002), ao contrário das principais agências
internacionais de fomento à pesquisa sobre desenvolvimento, tem assinalado que
a redução da pobreza não necessariamente resultará em aumento automático da
degradação ambiental no mundo. Conforme o autor, muitos trabalhos sobre a
relação entre população e consumo são fortemente influenciados por uma visão
parcialmente verdadeira, mas muito simplificada, de que a degradação ambiental
é causada pelo consumo no Norte e pela pobreza no Sul.
A Demografia deve estar atenta para os novos desafios impostos pela realidade:
os efeitos da transição demográfica e das alterações na composição domiciliar
no ambiente; o impacto dos movimentos migratórios e das implicações ambientais
da urbanização e da distribuição espacial da população; o aumento do acesso ao
mercado de consumo por parte de populações antes marginalizadas; entre outras
questões emergentes que merecem a atenção da comunidade científica.
Assim, existe um grande leque de oportunidades para a produção de abordagens
reflexivas que buscam entender como as variáveis demográficas podem influenciar
os padrões e os níveis de consumo, e como a Demografia pode contribuir para a
adaptação e a mitigação dos problemas ambientais emergentes.
Considerações finais
A Demografia oferece diversas possibilidades analíticas para os estudos sobre a
questão ambiental, embora haja muito que fazer em busca de uma demografia
ambiental mais estruturada e influente nos círculos acadêmicos. Os estudos
sobre população, espaço e ambiente devem estar pautados na integração entre os
diferentes campos de conhecimento para a consolidação de uma ciência
verdadeiramente interdisciplinar, que não segmente e fragmente o conhecimento e
o entendimento da realidade.
Nesse contexto, as abordagens integradas sobre população, consumo e ambiente
ganharam fôlego nos círculos de debates ambientais, embora ainda careçam de
ampliação. De maneira geral, os estudos que lançam uma perspectiva demográfica
sobre as implicações ambientais do crescimento do consumo esbarram com a
constante necessidade de desmistificar qualquer associação simplista entre
crescimento demográfico e degradação ambiental.
O modelo de desenvolvimento em curso não consegue estabelecer uma relação
sustentável com as práticas de consumo das populações, reforçando, a cada dia,
a ideia de que estamos caminhando novamente para uma situação de catástrofe,
caso não haja alguma mudança social, econômica, tecnológica ou cultural
relevante nas próximas décadas. Assim, não obstante o enorme volume de
problemas ambientais acumulados pela sociedade e que precisam ser resolvidos, o
mundo deve se preparar para enfrentar os novos desafios advindos do aumento dos
níveis de renda e do consumo nas sociedades capitalistas.
No espírito do pensamento malthusiano/neomalthusiano, os fantasmas do passado
parecem voltar de tempos em tempos. Após a divulgação do AR-4 pelo IPCC em 2007
e, também, de que a população mundial alcançou sete bilhões em 2011, a
abordagem malthusiana foi resgatada com certa frequência por entidades não
governamentais e ambientalistas.
A incorporação de temas demográficos pela sociedade e por pesquisadores de
outras áreas do conhecimento, vez ou outra, resulta em visões simplistas que
pouco contribuem ou até atrapalham os debates sobre população e ambiente. Isso
tem acontecido recorrentemente, muito mais pela elaboração de opiniões
desvinculadas de uma revisão teórica consistente em Demografia do que,
necessariamente, pela existência de uma escola neomalthusiana influente nos
círculos acadêmicos e políticos na atualidade.
Novas abordagens que capturem as conexões da dinâmica demográfica com os
padrões de produção e consumo são cada vez mais necessárias. O momento atual é,
cada vez mais, de ação. As recentes crises financeiras, assim como os eventos
climáticos e ambientais extremos dos últimos anos, lançam novos desafios que
devem ser transpostos também para as discussões entre consumo e ambiente.
Nessa crescente busca por respostas, já existem sementes que apontam para
formas mais adequadas de desenvolvimento e de outra concepção de qualidade de
vida e felicidade, buscando formas de produção e consumo mais inteligentes,
menos exclusão e desigualdade, assim como a redução das interferências
negativas no frágil equilíbrio que garante a existência da vida.
1Ver Featherstone_(1995), Slater_(2001) e Seneett_(2006).
2Ver OECD_(2008).
3Ver Bringezu_(1997), Eurostat_(2001), Amann_et_al._(2002), Hammer_e_Hubacek_
(2002) e Hinterberger_et_al._(2003).
4Ver Wilk_(1998) e Thorgerson_e_Olander_(2002).
5Ver Ehrlich_(1968), Ehrlich_e_Holdren_(1971), Meadows_et_al._(1972), Kahn_et
al._(1976), Ehrlich_e_Ehrlich_(1990).
6Henry Fairfield Osborn Jr. - filho do paleontólogo norte-americano Henry
Fairfield Osborn, que presidiu o American Museum of Natural History por 25 anos
e ficou famoso nas primeiras décadas do século XX por defender a eugenia e a
supremacia da raça ariana - foi um biólogo norte-americano que se dedicou a
estudar e defender as causas ambientais. Seus livros Our plundered planet, de
1948,The limits of the Earth, de 1953 e Our crowded planet, de 1962, são
considerados alicerces conceituais da teoria neomalthusiana das décadas de 1960
e 1970.
7William Vogt foi um ecólogo norte-americano dedicado a defender a causa do
controle de natalidade, especialmente das populações pobres, e a estudar as
relações entre clima, população e recursos naturais na América Latina, que
lançaram as bases para a publicação de seu livro Road to survival, em que ele
defende a teoria de que os crescimentos econômico e das taxas de fecundidade
observados no período após a Segunda Guerra Mundial ameaçavam o ambiente e a
qualidade de vida das gerações futuras.