O impacto da crise econômica espanhola na mão de obra imigrante
Introdução
Durante a segunda metade da década de 1990, a Espanha passou da sua condição
histórica de país emissor de mão de obra para a de um país de destino para
milhões de imigrantes chegados, principalmente, do Marrocos, de países latino-
americanos e do Leste Europeu. No período aproximado de dez anos, boa parte
desses imigrantes encontrou trabalho no setor de serviços, especialmente na
construção civil, um dos setores mais dinâmicos da economia espanhola que
vigorou até o início da crise econômica, em 2008.
Durante o período de piora no quadro econômico, de aumento do desemprego e
crescente empobrecimento dos trabalhadores assalariados, é justamente o grupo
dos imigrantes que tem a situação mais dramática, com elevadas taxas de
desemprego e, como consequência direta, a necessidade de driblar a situação das
mais variadas maneiras. Quando se esgotam todas as estratégias para tal fim,
eles optam pelo retorno aos seus países.
Contexto da atual situação econômica da Espanha
A crise econômica que eclodiu em 2008 e seus desdobramentos durante os anos
posteriores provocaram um êxodo de mão de obra espanhola para outros países. O
binômio "crise e austeridade" deu lugar a taxas de desemprego nunca antes
vistas e ao aumento alarmante da pobreza na Espanha. De acordo com os dados da
EPA (Encuesta de Población Activa) do quarto trimestre de 2013, a taxa de
desemprego no país chegava a 26,03%, com mais de 5,9 milhões de desempregados
(Tabela_1). Enquanto a taxa de desemprego dos nacionais espanhóis se situava em
24,30%, a relativa à população estrangeira alcançava 36,31%, ou seja, mais de
12 pontos percentuais de diferença.
TABELA 1 Taxas de atividade e de desemprego, segundo segmentos da população
Espanha – out.-dez. 2013. Em porcentagem
População Taxa de atividade Taxa de desemprego
Total nacional 59,43 26,03
Homens 65,90 25,31
Mulheres 53,31 26,87
Total espanhóis 57,27 24,30
Total estrangeiros 73,31 36,31
Fonte: Instituto Nacional de Estadística.
A reforma trabalhista de 2012 teve forte impacto negativo sobre o emprego,
aumentando a destruição de postos de trabalho. Para cada décimo de queda no
PIB, a eliminação de empregos no conjunto dos trabalhadores aumentou 186% em
2012 em comparação com 2009 (LAGO_PEÑAS,_2013).
Entre 2008 e 2009 perderam-se três milhões de postos de trabalho. A taxa de
desemprego na Espanha é a mais alta da União Europeia e a taxa de desemprego
entre jovens menores de 25 anos é a segunda depois de grega (ROCHA,_2012). Não
obstante, o desemprego aumentou em todas as faixas etárias durante o período
2008-2012, golpeando com maior intensidade a população estrangeira e,
sobretudo, as pessoas sem qualificação profissional.
TABELA 2 Evolução das taxas de desemprego Países da Zona Euro – 2009-2014. Em
porcentagem
Países 2009 2010 2011 2012 2013 2014
Zona Euro 9,5 10,1 10,1 11,3 12,0 11,2
Alemanha 7,8 7,1 5,9 5,5 5,3 4,8
Áustria 4,8 4,4 4,2 4,3 4.9 5,6
Bélgica 7,9 8,3 7,2 7,6 8,4 8,5
Chipre 5,4 6,3 7,9 11,9 15,9 16,4
Eslováquia12,1 14,5 13,7 14,0 14,2 12,5
Eslovênia 5,9 7,3 8,2 8,9 10,1 9,7
Espanha 18,0 20,1 21,5 26,01 26,03 23,6
Estônia 13,5 16.7 12,3 10,0 8,6 6,4
Finlândia 8,2 8,4 7,8 7,7 8,2 9,0
França 9,1 9,3 9,2 9,8 10,3 10,2
Grécia 9,5 12,6 17,7 24,3 27,3 26,0
Holanda 3,7 4,5 4,4 5,3 6,7 7,2
Irlanda 12,0 13,9 14,7 14,7 13,1 10,2
Letônia 17,5 19,5 16,2 15,0 11,9 10,6
Luxemburgo 5,1 4,6 4,8 5,1 5,8 5,9
Malta 6,9 6,9 6,5 6,4 6,5 5,8
Portugal 10,6 12,0 12,9 15,9 16,5 13,3
Fonte: Eurostat.
Um aspecto central do desemprego é o sistema de proteção aos desempregados. O
número médio de beneficiários do sistema de proteção do governo espanhol
aumentou durante o biênio 2009-2010, atingindo o máximo nesse último ano. Já em
2011 começou a diminuir devido, principalmente, ao vencimento do prazo de
direito ao recebimento dos benefícios sociais. Da mesma forma, registrou-se
aumento progressivo do número de beneficiários do serviço assistencial,
superando o número daqueles que recebiam o benefício contributivo em 2011. No
que se refere à taxa de cobertura, segundo dados do Serviço Público de Emprego,
houve um crescimento nos primeiros anos da crise até atingir o máximo em 2010.
Posteriormente, iniciou-se uma queda contínua desta taxa até 66,5% em 2012,
devido, sobretudo, ao aumento do número de pessoas com o direito ao benefício
já esgotado. Trata-se, portanto, de um fenômeno grave ao comprovar que uma boa
parte dos desempregados deixou de receber as ajudas sociais (ROCHA;_ARAGÓN,
2012).
Diante desse contexto, não é de se estranhar o aumento da pobreza na Espanha,
demonstrado, entre outros, pelo fato de que 476.000 famílias tinham todos os
seus membros desempregados em 2012. Entre 2004 e 2011, a taxa de pobreza
cresceu três pontos percentuais e chegou a 21,8%, levando-se em conta que o
marco de limite da pobreza diminuiu, o que implica que os pobres são ainda mais
pobres, embora seu número e proporção sobre o conjunto da população avancem
mais lentamente no tempo (FUNDACIÓN_1º_DE_MAYO,_2012).
Os lares com dificuldades para atravessar o mês passaram de 26,2% em 2011 para
31,85% em 2012. Além do crescimento da pobreza, outros indicadores davam
visibilidade à deterioração social, que afeta algo tão básico como a
alimentação. Entre 2010 e 2011, o consumo de alimentos reduziu-se em 0,7%
acompanhado da piora na qualidade da alimentação. Tome-se como exemplo o
consumo de frango, porco, vaca ou cordeiro, que foi substituído por outras
carnes menos elaboradas. Também diminuiu o consumo de produtos como azeite,
ovos, leite e frutas frescas (ESPANHA,_2012). Igualmente, a denominada pobreza
energética impediu que 10% dos lares espanhóis se mantivessem com temperaturas
adequadas durante os meses de inverno em 2010. Essa porcentagem disparou para
54% no caso de lares de pessoas idosas. A pobreza energética afeta a saúde e
proporciona o aparecimento de doenças respiratórias, como asma e bronquite, e
cardiovasculares. Estimam-se, como causa de morte prematura, entre 2.300 e
9.300 óbitos, o que supera o número de vítimas de acidentes de trânsito em
2011. A crise aumentou este tipo de pobreza e elevou sua incidência entre as
pessoas desempregadas (ASOCIACIÓN_DE_CIENCIAS_AMBIENTALES,_2012).
Muitos são os diagnósticos sobre a atual situação que preveem em até duas
décadas o tempo necessário para recuperar o bem-estar de 2008, ano prévio à
crise econômica. Ou seja, as consequências da grande recessão podem ser
comparadas com o período da Guerra Civil, quando os níveis salariais dos anos
1930 só se recuperaram duas décadas mais tarde.
Para compreender o fenômeno das migrações na Espanha, é necessário analisar o
papel central desempenhado pelo mundo do trabalho. A tradição espanhola como
país de refúgio e asilo é escassa. Ademais, as migrações reestruturam as forças
de trabalho e o mercado laboral em todos os países onde têm ocorrido com maior
incidência ao longo da história.
Os aspectos de caráter trabalhista ou econômico, como podem ser tipificados os
deslocamentos de mão de obra em busca de emprego para fugir da pobreza, foram
decisivos na Espanha tal como admitia Consuelo Rumí, secretária de Estado de
Inmigración y Emigración:
Neste começo de século, as migrações são fundamentalmente econômicas,
sua ordenação precisa ter como eixo central as demandas dos mercados
de trabalho [...]. A dimensão laboral é, portanto, um elemento
central que estava desprezado e agora se tornou o eixo principal da
política de imigração (RUMI,_2006, p. 28).
A situação da economia explica a chegada ou o êxodo de migrantes como fator de
atração ou de expulsão. A oferta de emprego gerada torna-se atrativa, da mesma
forma que a recessão reduz a oferta de emprego, estimulando o êxodo para outros
países. Nesse caso, os trabalhadores enfrentam dificuldades para manterem seus
postos de trabalho, chegam menos imigrantes e alguns abandonam o país.
Paralelamente a isso, como vem ocorrendo, emigram os trabalhadores nativos. No
entanto, convém considerar também os perfis sociológicos e culturais dos
trabalhadores e suas expectativas quanto ao estilo de vida a que aspiram.
Assim, se o fator econômico é decisivo, outros incentivos também influem na
chamada nova mobilidade. Por exemplo, no caso de determinado grupo de
trabalhadores altamente qualificados, como os pesquisadores, há fatores como a
procura de entornos diferentes: mais saudáveis, menos congestionados de
população, com baixos índices de criminalidade, que tragam mais qualidade de
vida, que favoreçam a realização pessoal e a ascensão social ou que disponham
de melhores infraestruturas para a atividade investigadora. No entanto, este
grupo de motivações ganha destaque em países desenvolvidos ou em situações de
crescimento econômico; mas inclusive nesses casos também existe um componente
econômico (ALAMILLOS, 2012) que pode ser ilustrado com o seguinte exemplo,
extraído da imprensa especializada: dois jovens espanhóis emigram para a
Finlândia aproveitando um programa de voluntariado europeu para jovens entre 18
e 30 anos. Satisfeitos com a experiência de morar num ambiente totalmente
diferente, decidem estabelecer-se no país porque na Espanha estavam
desempregados (ESPAÑOLES_EN_FINLANDIA,_2010).
Levando-se em conta a centralidade do trabalho nos movimentos migratórios a
partir de um ponto de vista explicativo, é preciso acrescentar que também
exercem influência fatores como a existência de uma cultura de emigração ou a
capacidade dos governos para condicionar, por meio de suas políticas, as
decisões dos que desejam se deslocar.
O período em que a Espanha se tornou um país de acolhida de imigrantes é
relativamente curto: da segunda metade da década de 1980, coincidindo com a
entrada do país na Comunidade Econômica Europeia, até 2007. Esse ano marca um
divisor de águas nessa curta história que pode ser dividida em três etapas.
A fase inicial começa, como mencionado anteriormente, na metade dos anos 1980 e
termina pouco antes do começo do século XXI. Naquela altura, a imigração
representava apenas 2,5% da população e não chegava a um milhão de pessoas. A
segunda etapa denomina-se década prodigiosa da imigração e vai de 1999 até
2008.
Vejamos alguns dados: em 2009 o número de pessoas nascidas no estrangeiro
beirava os 6,5 milhões, que conviviam com 40,3 milhões de nativos. A proporção
de imigrantes chegava a quase 14% da população. O ritmo de chegadas alcançou o
apogeu entre 2001 e 2004, embora em termos absolutos as entradas de 2007 foram
as mais numerosas. Foi um período de crescimento sustentado e imprevisto da
população imigrante, que finalizou com a eclosão da crise econômica. Dadas suas
características, a economia espanhola foi muito intensiva em força de trabalho,
além de predominante em setores de elevada absorção de imigrantes, como a
construção civil, o serviço doméstico, o cuidado de pessoas dependentes, a
hotelaria, a agricultura intensiva, a colheita de frutas e verduras.
A terceira fase inicia-se em 2008, quando a chegada de imigrantes ia diminuindo
e a população imigrante já estabelecida enfrentava o período de crise, fazendo
uso de diferentes estratégias.
Efeitos da crise sobre a imigração
Os efeitos da crise sobre a imigração começam a se manifestar a partir do
último trimestre de 2008 com o aumento do desemprego, a queda da população
imigrante, a perda das permissões de trabalho e residência – ocasionada por
desemprego prolongado – e a entrada de imigrantes na economia informal. De
acordo com a EPA (Encuesta de Población Activa) do segundo trimestre de 2008, a
taxa de desemprego entre os estrangeiros da União Europeia era de 15,3% e a da
dos extracomunitários correspondia a 17%. Nesse momento, a taxa de desemprego
dos cidadãos espanhóis era de 9,3%. Quatro anos mais tarde, as taxas de
desemprego tinham aumentado para 29,7% no caso dos estrangeiros comunitários,
38,7% entre os extracomunitários e 22,7% entre os espanhóis. Ou seja, enquanto
a taxa de desemprego da população espanhola cresceu 13,3 pontos percentuais
nesse período, a dos estrangeiros comunitários aumentou 14,4 pontos e a dos
extracomunitários ampliou-se em 21,7%, demonstrando que os trabalhadores
estrangeiros, quer de um grupo, quer de outro, são os mais castigados pela
crise e recessão.
É importante destacar o primeiro trimestre de 2009. Nesse período, o desemprego
atingiu a marca de 16% entre a população espanhola e de 28% entre os
estrangeiros. Tal momento é importante porque o seguro-desemprego alcançou a
marca de um milhão de desempregados entre os imigrantes e representa o ponto de
partida para o aumento da taxa de desemprego entre a população imigrante. Por
outro lado, esse período permite constatar a rapidez da destruição de emprego
entre os imigrantes, já que tal destruição afetou de maneira intensa e
primeiramente os trabalhadores temporários e a temporalidade do trabalho dos
imigrantes é duas vezes superior à dos espanhóis. Como consequência, chama
atenção a redução da taxa de temporalidade desde 2007 – quando era de 32% –
entre os grupos tanto de imigrantes quanto de espanhóis não porque a situação
do desemprego tenha melhorado, mas sim porque a diminuição e a destruição de
emprego em tempos de crise afetam de maneira imediatamente o emprego
temporário.
Para uma visão mais ampla a respeito dos efeitos da crise sobre a população
imigrante, tomemos os dados do INE (Instituto Nacional de Estadística) do censo
de 1º de janeiro de cada ano. Em 2008, a população total na Espanha era de
46.157.822, aumentando, quatro anos mais tarde, para 47.265.321, ou seja, um
acréscimo de pouco mais de 1.107.000 pessoas. Entretanto, em 2013, a população
retraiu-se para 47.059.533, o que significa uma redução de 205.788 pessoas com
relação ao ano imediatamente anterior. Esta queda no número de habitantes deve-
se, principalmente, ao decréscimo da população estrangeira, que, em 2008,
chegava a 5.268.762 pessoas, passando para 5.736.258 em 2012 e 5.520.133 em
2013. Em termos regionais, entre 2008 e 2012, aumentou o número de estrangeiros
procedentes da União Europeia, África, América do Norte, América Central e
Caribe. No oposto, diminuiu o da América do Sul. Nesse mesmo período, entre as
dez primeiras colônias extracomunitárias, aumentou o número de nacionais
procedentes da Ucrânia, Marrocos e República Dominicana. Houve diminuição do
número de nacionais da Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia e Equador.
Finalmente, o número de estrangeiros de nacionalidade peruana permaneceu
estável. O balanço do conjunto é a redução da população registrada procedente
da América do Sul, região de onde vinha o maior número de imigrantes.
Fluxos de emigração
Se, em vez do Censo, for utilizada a série 2010-2011 do estudo Flujos de
emigración e inmigración por país de nacimiento, elaborado pelo Instituto
Nacional de Estatística (INE), observa-se que nesse primeiro ano emigraram
363.476 pessoas cujo país de nascimento não era a Espanha. No entanto,
imigraram 442.130 pessoas, o que significa que o saldo migratório de
estrangeiros, segundo o país de nascimento, foi positivo em 78.654 pessoas. Já
em 2011, emigraram 445.271 (sem contar os espanhóis de nascimento) e imigraram
429.205, representando desta vez um saldo migratório negativo de 16.066
pessoas. Os fluxos também coincidem com o Censo no sentido de que são os países
da América do Sul (Argentina, Bolívia, Colômbia, Brasil e Equador) os que
oferecem saldos migratórios negativos.
Esta diminuição deve-se a três motivos:
* a população da América do Sul obtém a nacionalidade espanhola por
residência com certa facilidade depois de dois anos de residência legal,
enquanto outras nacionalidades precisam esperar até dez anos;
* há pessoas que retornam para os seus países graças ao sistema de retorno
com capitalização ou retorno humanitário. Embora as pessoas que escolham
tais programas de retorno voluntário não sejam muitas, há os que retornam
por sua própria conta. Apesar do número reduzido, os imigrantes são o
grupo majoritário que abandona a Espanha nesse período;
* além dos elementos anteriormente citados com relação à população latino-
americana, um terceiro fator que deve ser levado em conta é a violência
com a qual o desemprego penetra na população imigrante. Segundo a EPA,1
em 2011, 32,2% dos estrangeiros estavam desempregados, contra 21,6% dos
espanhóis. A taxa de desemprego entre o conjunto da população imigrante
era de 32,2% no geral, enquanto entre a população de origem africana
subia para 50,5% também em 2011.
Fuga de mão de obra para o exterior
Como se vê, à medida que a crise vai avançando, diminuem as chegadas e aumentam
as saídas. A maioria dos que saíram do país era composta por estrangeiros que
vieram para a Espanha num período de forte imigração, que vai de 1998 a 2007.
Muitos tinham obtido a nacionalidade espanhola e, nesse grupo, os mais
numerosos eram os latino-americanos, que, como já mencionado, obtêm-na com
certa facilidade após dois anos de residência legal. A nacionalidade é um
recurso de primeira magnitude que se ativa em determinados momentos e permanece
latente em outros.
Tanto no fluxo de entrada como no de saída, o protagonismo dos estrangeiros é
destacado, enquanto os espanhóis, e entre eles os nascidos na Espanha, têm uma
relevância quantitativa muito baixa. Na análise dos dados do INE, constata-se
que o número de nativos que emigram começa a aumentar de forma contínua desde
2004, quando a economia e o nível de emprego ainda se encontravam em forte
crescimento. Tal como visto anteriormente, entre 1º de janeiro de 2009 e 1º de
janeiro de 2013, o número de espanhóis que residem no estrangeiro aumentou em
459.557 pessoas. No entanto, durante esse mesmo período, o número de espanhóis
de nascimento aumentou apenas em 39.912 pessoas. Atentando-se na já mencionada
série 2010-2011 dos fluxos de emigração e imigração por país de nascimento,
observa-se que, nesse primeiro ano, dos 403.012 que emigram para o estrangeiro,
apenas 39.539 são espanhóis. Já em 2011, 62.469 espanhóis de nascimento saíram
para o exterior, de um total de 507.740.
Os dados demonstram dois fenômenos. Em primeiro lugar, a emigração, em sua
maioria, é um fenômeno dos imigrantes estrangeiros que retornam para os seus
países de origem ou então optam por ir para um terceiro país em busca de
emprego devido à crise. Em segundo lugar, entre os estrangeiros, o saldo
migratório negativo só ocorre a partir de 2011, o que demonstra uma grande
capacidade de resistência diante da crise, apesar de ser o grupo mais
vulnerável à situação de desemprego.
Por outra parte, em novembro de 2012, o INE oferecia projeções de população
para o período 2012-2052. A propósito disso, o demógrafo Joaquín Recaño
afirmava que "a chave e a grande incógnita é a emigração [...]. Instalou-se um
nível de emigração dificilmente sustentável". Segundo Recaño, é possível que os
dados estejam inchados em parte pela limpeza do Censo, quando os estrangeiros
devem atualizar suas inscrições e, ao não fazerem, são apagados do sistema
(NOGUEIRA,_2012). Neste sentido, é importante observar que, desde há algum
tempo, os dados do Censo podem ser utilizados pela Polícia e que, por outro
lado, o recenseamento não surte nenhum efeito sobre o acesso aos sistemas
educativo e de saúde para os imigrantes irregulares. Por esta razão, é
primordial que os imigrantes renovem sua inscrição no Censo ou não façam uma
inscrição inicial nos mesmos.
O fato de uma porcentagem superior de imigrantes do que de espanhóis emigrar
nesta situação de crise econômica tem a ver com pelo menos três fatores:
* apenas uma pequena parte dos imigrantes em situação social de desemprego
contribuiu com tempo suficiente para ter direito a receber o seguro-
desemprego;
* a importância das redes de relações não é um fenômeno constante, mas sim
variável, que depende das sociedades e das diferentes circunstâncias
históricas. Neste contexto, parece claro que o capital constituído pelas
relações sociais é muito importante, sobretudo, se os envolvidos são
pessoas que estão em situação de imigração, tendo inclusive mais
importância do que quando as pessoas enfrentam outras circunstâncias. No
entanto, atualmente é evidente que as redes sociais formadas por
imigrantes dentro da Espanha não são muito extensas e nem contam com uma
rede familiar com recursos suficientes para sustentar ou dar apoio a
pessoas adultas desempregadas.
* é fundamental o impacto brutal do desemprego sobre as populações
imigrantes. É preciso considerar que a situação laboral dos imigrantes
sempre se caracterizou pela temporalidade e instabilidade dos empregos.
No entanto, tal temporalidade pode repercutir de forma diferente,
dependendo da situação (de crise ou de crescimento econômico).
No primeiro caso, em que o número de empregos é abundante, o efeito da
instabilidade e da temporalidade, que implica uma rotatividade dos postos de
trabalho, faz com que os períodos livres entre um trabalho e outro sejam
curtos, sendo possível se falar de uma situação de pleno emprego. Já a situação
de crise traz consigo uma diminuição da oferta de emprego, tornando mais longos
os períodos entre a realização de um trabalho e de outro.
Desse modo, os períodos de desemprego se ampliam e, inclusive, adquirem um
caráter de permanência ou semipermanência. Portanto, torna-se necessário
analisar a situação de emprego/desemprego desses imigrantes, pois os fenômenos
migratórios são absolutamente incompreensíveis sem uma compreensão do mercado
de trabalho.
Os imigrantes chegados à Espanha encontraram emprego em setores de atividade
com postos de trabalho não ocupados por trabalhadores nativos e, portanto,
havia uma demanda de mão de obra. Entre 1996 e 2007, a economia espanhola criou
quase 8 milhões de empregos, passando de 12,6 milhões de ocupados em 1996 para
20,5 milhões no segundo trimestre de 2007. Isso representa mais de 40% do
emprego gerado em todos os países da OCDE nesse mesmo período.
A mão de obra estrangeira desempenhou papel fundamental neste período de
bonança econômica. No final de 2001, o número de afiliados à Seguridade Social
estava em torno de 600.000, algo menos de 4% dos trabalhadores inscritos no
sistema. No final de 2007, o número de afiliados estrangeiros havia aumentado
para quase 2 milhões – 10,3% do total de inscritos. Apesar da crise econômica,
no começo de 2010, o número de estrangeiros era de 1,9 milhão (10,5% do total
de afiliados). Ou seja, a chegada e o emprego dos imigrantes não trouxeram
consigo uma diminuição da quantidade de trabalhos ocupados pelos espanhóis. Ao
contrário, os imigrantes aumentaram a força de trabalho disponível, trazendo
consigo um crescimento do emprego em geral. Em 2005, a criação de emprego era
de 3,1%. Tal fato, somado ao crescimento da população de trabalhadores,
permitiu reduzir o número de desempregados cuja média era de 9,2%. Outro efeito
da chegada dos imigrantes foi a inclusão das mulheres no mercado de trabalho
formal, que aumentou de maneira excepcional.
Entre 1995 e 2005, a força de trabalho feminina cresceu 12%, chegando a 51,2%
em 2005. De acordo com o relatório da Oficina da Presidência do Governo de
2006, 30% deste crescimento deveu-se à imigração e ao emprego de mulheres
imigrantes no trabalho doméstico. Entre 2003 e 2006, o papel das mulheres
imigrantes no trabalho doméstico contribuiu com 50% do crescimento do nível de
emprego feminino nativo pelo efeito das redes globais de cuidados. Juntamente
com os fluxos de capital, informação e mercadorias, produzir-se-iam circuitos
internacionais de cuidadoras que garantiam o cuidado dos filhos das imigrantes
em seus países de origem, sob a tutela de outras mulheres que recebiam uma
remuneração das mães enquanto estas se encontravam na Espanha cuidando de
outras crianças, pessoas idosas ou dependentes (HERRERA_MOSQUERA,_2012).
Entre 1994 e 2004, a população espanhola ampliou-se em 4,17 milhões de pessoas
(10,7%). Destes novos habitantes, 79,4% eram imigrantes. Tal crescimento
demográfico foi fundamental para o aumento de 3,6% do PIB (1,5% mais elevado do
que a média dos países da União Europeia). Sem este incremento demográfico, o
PIB não apenas teria ficado estancado, mas também teria sofrido uma queda anual
de pelo menos 1%. Em 2006, a Oficina Econômica da Presidência do Governo, assim
como relatório emitido pelo Banco da Espanha2 ou de outras agências nacionais e
estrangeiras, oferecia uma série de dados interessantes. Primeiramente, a
quantificação da contribuição dos imigrantes ao crescimento econômico desde
2000 até 2006 representava 3,5%. Concluiu-se que em torno de 50% dos imigrantes
eram contribuintes do tesouro público. Em 2006 a quantia ascendia a 4,784
bilhões de euros, o que representava cifras de superávit. Ou seja, não se pode
explicar a geração de riqueza na Espanha sem a imigração. Ademais, o aumento do
trabalho feminino nativo tem um vínculo muito estreito com a chegada de
mulheres estrangeiras na Espanha.
O papel da imigração dentro do mercado de trabalho pode ser explicado com um
termo confuso como o da flexibilidade. Quando os analistas não são mais
precisos, referem-se à flexibilidade em termos de contratação: fluidez dos
contratos, que às vezes têm um caráter ambíguo quando não são puramente verbais
ou inexistentes. Referem-se também às condições de trabalho, ao salário e à
mobilidade geográfica e funcional. Com frequência, entende-se por flexibilidade
o mesmo que temporalidade. Se tomarmos tal característica como fator
fundamental da flexibilidade, é difícil entender as queixas sobre a falta de
flexibilidade quando a temporalidade é um elemento estrutural do mercado de
trabalho espanhol (aproximadamente 35% dos contratos têm esta característica).
No entanto, a temporalidade dos contratos não é igualitária nos diversos grupos
de imigrantes. Ou seja, trata-se de um fenômeno que tem caráter diferencial. Em
2006, a taxa de contratos indefinidos era de 66,2% entre o total de
trabalhadores, mas correspondia a 42% entre os estrangeiros. Por sua vez, a
taxa de contratados temporais era totalmente diferente: 33,8% no total da
população trabalhadora e 58% entre os estrangeiros. Nesse caso, os imigrantes
provenientes da África se destacam de maneira muito chamativa, apresentando uma
taxa de temporalidade de 69,47%, mais de 10 pontos percentuais superior àquela
para os demais continentes, embora tal situação possa ser explicada pelos tipos
de ocupações desempenhados pelos imigrantes africanos, normalmente ligadas à
agricultura e à construção, dois setores marcados pela elevada temporalidade
das suas atividades.
Se analisarmos a nacionalidade das origens, entre os dez países de onde
procedem mais imigrantes, destaca-se o Marrocos, com uma taxa de 67,84% de
temporalidade. Tanto os dados por continente como por nacionalidade são
inexplicáveis se não for considerado outro fenômeno estrutural de discriminação
racial em relação aos imigrantes.
Os imigrantes presentes em setores fortemente afetados pela crise sofreram de
modo mais direto as suas consequências em forma de desemprego. A taxa de
desemprego sofre influência da crise, mas não restam dúvidas de que houve um
impacto muito forte na taxa de temporalidade. Por esta razão, os grandes
perdedores no mercado de trabalho foram, fundamentalmente, os africanos
subsaarianos e também os marroquinos. Estes últimos apresentavam uma taxa de
desemprego de 44,6% no começo de 2009. Geralmente é um contingente formado por
mão de obra masculina empregada na construção, agricultura e em postos sem
qualificação do setor de serviços. Os imigrantes latino-americanos registravam
taxas de desemprego entre 25% e 30%, que são mais elevadas do que aquelas
referentes aos nativos, mas consideravelmente inferiores às dos africanos. A
explicação de tal situação é, em parte, porque esse grupo é formado em sua
maioria por mulheres, que têm uma taxa de atividade mais elevada do que as
mulheres africanas. As latino-americanas encontram emprego nos serviços
domésticos e também na esfera do cuidado e atenção a pessoas, setor este que,
como se sabe, sofreu menor impacto da crise do que os demais.
A título de conclusão, é necessário assinalar que, após vários anos de crise, a
taxa de desemprego aumentou drasticamente entre os imigrantes. Entre 2008 e
2012, foram eliminados 727.000 postos de trabalho entre os estrangeiros.
Tomando-se como base a variação da taxa de desemprego em 2008 e 2012, a
diferença é muito elevada. De acordo com a EPA, em 2008 a taxa de desemprego
entre a população imigrante era de 22,9%, o que por si só já representava mais
do que o dobro daquela referente aos nativos (10,2%). Em 2012, essas taxas
tinham aumentado para 36% e 22,9%, respectivamente. No primeiro trimestre de
2013, as mesmas taxas eram de 39,2% e 25,1%. Nota-se, portanto, que a taxa de
desemprego continua sendo superior no caso dos trabalhadores estrangeiros.
Entre a população imigrante, a elevada temporalidade do emprego faz com que o
desemprego neste grupo seja muito mais alto. Perante isso, o único sistema de
sobrevivência consiste em tentar arranjar trabalho no que for possível. O
aumento do desemprego ao logo dos quatro anos de crise implica um período maior
entre a demissão de um emprego e a contratação por outro empregador. Portanto,
o desemprego torna-se crônico com repercussões econômicas e sociológicas muito
importantes. No entanto, é possível que o caráter crônico do desemprego dos
imigrantes traga consigo a percepção, por parte dos nativos, de que já não
jogam nenhum papel importante na economia espanhola como ocorria no período
pré-crise.
Nos nove últimos anos multiplicou-se por mais de seis o número de pessoas
estrangeiras ativas na Espanha, proporcionando uma taxa de atividade de 77%,
que é pelo menos 20 pontos percentuais superior à da população espanhola, que
ronda os 57%. Com estas taxas de atividade é possível explicar que, embora a
taxa de desemprego seja mais alta entre os imigrantes, a proporção de pessoas
em idade de trabalhar sobre a população total é maior do que na população
espanhola. Apesar disso, os salários dos imigrantes são bem menores do que os
dos espanhóis.
De acordo com a Encuesta de Estructura Salarial de 2010, do INE, o ganho médio
anual por trabalhador para a população espanhola era de 23.535,39 euros e, para
os originários da América Latina, caía para 14.649,79 euros. Isso significa que
o salário da população espanhola era 66% mais elevado do que o da população
imigrante latino-americana. Os baixos salários também implicam uma participação
importante dos imigrantes na economia informal. Embora não se conheça a
dimensão exata das atividades econômicas informais, estimativas muito variadas
quantificam-na entre 20% e 23% do PIB.
As áreas em que há maior concentração de mão de obra imigrante na economia
informal são agricultura, construção, alguns setores da indústria manufatureira
(têxtil, calçado e brinquedos) e, sobretudo, os serviços – restauração,
limpeza, trabalho doméstico e tarefas de cuidados. Os trabalhos nestes setores
constituem o único acesso a um posto de trabalho para imigrantes sem documentos
exigidos para o exercício profissional na Espanha. Também há outros imigrantes
que, mesmo dispondo de permissão de trabalho formal, acaba realizando tarefas
informais, o que demonstra a precariedade das suas condições de trabalho, não
contribuindo, portanto, para o sistema de Seguridade Social e, portanto, sem
direitos.
Numa situação de precariedade e desemprego, a taxa de risco de pobreza para as
pessoas maiores de 16 anos de nacionalidade estrangeira, em 2011, era de 25,8%
no caso dos que procediam da União Europeia. Para os extracomunitários, essa
taxa disparava para 44,2%, segundo os dados definitivos da Encuesta de
condiciones de vida (INE,_2014). A mesma pesquisa indicava que 33,2% das
pessoas de nacionalidade estrangeira de mais de 16 anos e procedentes de países
comunitários tinham dificuldade ou muita dificuldade para atravessarem o mês.
No entanto, se eram imigrantes extracomunitários, mais da metade estava nessa
situação (50,7%) (Tabela_3).
TABELA 3 Taxas de risco de pobreza, segundo grupos populacionais 2004-2013. Em
porcentagem
Grupos populacionais 2013 2012 2011 2010 2009 2008 2007 2006 2005 2004
Total 19,3 21,0 21,0 20,4 19,2 19,5 18,7 19,2 19,2 20,6
População espanhola 16,5 18,5 19,0 18,7 17,8 17,9 17,6 18,2 18,6 20,2
População estrangeira (UE) 35,1 31,2 25,8 25,2 28,2 28,6 27,3 23,0 24,4 20,4
População estrangeira (resto do 47,8 46,0 44,2 38,3 31,6 34,7 30,4 31,9 28,9 30,3
mundo)
Fonte: INE – Instituto Nacional de Estatística (www.ine.es).
Como consequência deste contexto, em 30 de abril de 2011 foi publicado o
Regulamiento de Extranjería, que parece não levar em conta a situação de crise
e como esta influencia diretamente no trabalho, salários, ou na vida dos
imigrantes. Chama a atenção que, diante de uma conjuntura tão complexa como a
que a Espanha está atravessando atualmente, reforça-se a falta de flexibilidade
em vez de oferecer mecanismos para evitar uma situação de irregularidade,
problema acarretado pela falta de trabalho e de seguro-desemprego.
Pouco depois das eleições gerais de 2011, o governo afirmou que "era necessário
limitar o seguro social para tentar desencorajar a imigração irregular e
incentivar a circulação e o retorno com possibilidade de regresso" (RODRÍGUEZ-
PINA;_PABLOS,_2011).
Como se observa, o desemprego gerado desde o início da crise tem afetado com
muito mais intensidade a população imigrante. No entanto, o retorno aos seus
países de origem ou uma nova emigração não se produziu de maneira imediata. O
processo foi ganhando dimensão mais tarde, com o agravamento da situação gerada
pela crise. Desse modo, os imigrantes vêm utilizando diversas estratégias para
driblar a crise e a situação de penúria em que se encontram. Por exemplo, a
incorporação ao mercado de trabalho de mais membros da família que estavam
inativos até então ou alternando longas temporadas em seus lugares de origem e
no de destino enquanto recebiam o seguro-desemprego, aproveitando a vantagem do
euro em relação às moedas nacionais dos seus respectivos países, especialmente
os que procediam de países mais próximos, como Marrocos ou Romênia, de onde
provêm as maiores colônias de imigrantes presentes na Espanha na atualidade.
Outra estratégia teve a ver com uma espécie de retrocesso nas condições de
moradia de certas famílias de imigrantes ao alugarem suas casas a terceiros,
passando para a condição de inquilinos em casas mais baratas, ou então alugando
quartos da residência atual para outras famílias diante da queda brusca da
renda familiar (ARANGO,_2009).
O aumento do retorno de imigrantes aos seus países de origem é algo muito
recente e ocorre apenas em virtude do agravamento da situação de crise
econômica na Espanha. O programa Previe – Programa de Retorno Voluntario de
Inmigrantes desde España, atendido por ONGs, deu cobertura a 1.800 pessoas em
2008, enquanto no final de 2013 havia 2.000 pessoas em lista de espera.
Previamente, em 2007, tinha atendido 1.200 pessoas. O Ministerio de Trabajo e
Inmigración iniciou, em 2008, um segundo programa que contabilizava 7.000
retornos um ano depois.
Esgotadas todas as estratégias de resistência e os recursos acumulados após
anos de trabalho, os imigrantes então começaram a empreender o caminho do
retorno, ao mesmo tempo que os espanhóis também começavam a emigrar em busca de
oportunidades. Porém, essa diáspora trará efeitos negativos sobre a recuperação
econômica pelos efeitos que provoca sobre a demografia e o consumo. Emigra a
população jovem e preparada, o que significa envelhecimento demográfico, bem
como a perda de certas pautas de consumo. Apesar da imagem de consumidores de
serviços sociais, a contribuição dos imigrantes à economia formal foi superior
ao seu gasto. O custo sanitário representa 5% e o de pensões, 1%. Sem a
contribuição dos imigrantes, a economia espanhola não teria crescido entre 1998
e 2007 no ritmo em que ocorreu. A chegada de imigrantes permitiu passar de 39
milhões de habitantes para 45 milhões. Tal crescimento não foi resultado do
investimento empresarial ou estrangeiro, mas sim do aumento do consumo como
consequência do incremento da população (DE_SEBASTIÁN,_2007).
A recuperação econômica exigirá a contratação futura de trabalhadores
estrangeiros. Portanto, o recrutamento de novos imigrantes implicará custos
econômicos e sociais que poderiam ser poupados se a política migratória fosse
encarada como uma perspectiva de médio prazo. Desse modo, poder-se-ia recorrer
a trabalhadores imigrantes entre os já residentes na Espanha. Ou seja, fomentar
o retorno massivo de imigrantes poderia provocar mais prejuízos do que
benefícios para a economia do país (MARTÍNEZ_VEIGA_et_al.,_2006).
Conclusões
A imigração teve um efeito positivo sobre a economia e a geração de emprego na
Espanha durante o período em que o país se tornou um polo de atração de mão de
obra, sobretudo dos países latino-americanos e também do Leste Europeu, que
representam as maiores comunidades de estrangeiros residentes no país.
Os níveis de desenvolvimento do recente passado do país não teriam sido
possíveis sem o enorme avanço demográfico que possibilitou a chegada de milhões
de trabalhadores estrangeiros. Em linhas gerais, sua presença não prejudicou o
mercado de trabalho local. Pelo contrário, aumentou o número de contribuintes
da Seguridade Social e permitiu ainda mais a entrada de mulheres no mercado
laboral. As mulheres imigrantes ficaram responsáveis, na sua maioria, pelos
trabalhos domésticos e cuidado de crianças, idosos e pessoas com algum tipo de
incapacidade, o que sempre foi tradicional na cultura mediterrânica. O efeito
da imigração sobre o conjunto da economia espanhola deve ser entendido de
maneira positiva, já que sua contribuição econômica foi muito maior do que os
gastos sociais que representa.
Os imigrantes formam o grupo social mais castigado pela crise econômica que se
instalou na Espanha a partir da segunda metade dos anos 2000, que trouxe como
consequência mais imediata a destruição dos seus postos de trabalho,
especialmente devido ao elevado índice de temporalidade. Outra consequência da
crise sobre os imigrantes foi tê-los tornado um grupo vulnerável, no qual a
taxa de risco de pobreza e as dificuldades para sobreviver com um salário
mensal são bastante elevadas.
Um dos fatores que explicam a elevada taxa de desemprego entre a população
imigrante, em muito superior à média entre os cidadãos nativos, é a alta
temporalidade dos seus empregos, principalmente em setores que têm sido
castigados pela crise econômica, como é o caso da construção civil.
Os trabalhadores imigrantes que chegaram à Espanha massivamente a partir da
segunda metade da década de 1990, etapa de rápido crescimento econômico, formam
o grupo que mais está deixando o país. Uma parte deles já obteve a cidadania
espanhola, mas o elevado índice de desemprego provocado pela grande recessão os
força ao retorno para os seus países de origem ou então para outros países, uma
vez que a nacionalidade espanhola lhes dá direito de procurarem emprego nos
demais países que formam a União Europeia.
1EPA – Encuesta de Población Activa é um estudo estatístico que visa recolher
dados sobre o mercado de trabalho na Espanha, sendo utilizado para calcular a
taxa de desemprego em todos os países da União Europeia.
2Banco de España – entidade reguladora da supervisão bancária e econômica na
Espanha que, até a entrada em vigor da moeda comum europeia (euro), também
tinha competências sobre política monetária no país. Corresponde, em parâmetros
econômicos e regulatórios, ao papel desempenhado pelo Banco Central do Brasil.