Características da participação das pessoas com deficiência e/ou limitação
funcional no mercado de trabalho brasileiro
Introdução
A definição sobre quem são "pessoas com deficiência" não é algo simples ou
consensual. Existe uma gama variada de situações e diferentes tipos de
impedimentos, além de discussões nos campos sociológico e econômico sobre a
caracterização da deficiência e sua relação com as políticas públicas (DINIZ,
2013). O Censo Demográfico de 2010 buscou respeitar a padronização
internacional de estatísticas sobre pessoas com deficiência, por meio da adoção
das diretrizes do chamado "Grupo de Washington" (IBGE, 2010). Deve-se notar
que, para avaliação das funcionalidades enxergar, ouvir e/ou andar, foi
solicitado que essas ocorressem com a utilização de óculos, lentes de contato,
aparelho auditivo, prótese ou bengala. Ou seja, aqueles que declaram algum
nível de dificuldade permanente para realizar tais ações o fizeram mesmo
considerando o uso desses aparelhos.
A partir dos questionamentos do Censo Demográfico, o Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) e a Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas
com Deficiência (SNDP) definiram o segmento de pessoas com "deficiência
severa", contabilizando 12,8 milhões de brasileiros em 2010 (IBGE, 2010). Além
das pessoas que declararam ter grande dificuldade permanente ou que não
conseguiam ver, ouvir ou se locomover de modo algum (mesmo após o uso de
aparelhos), foram também classificados neste grupo aqueles que declararam ter
deficiência mental ou intelectual. Dessa forma, excluem-se do universo de
"pessoas com deficiência" aquelas que declararam apenas alguma dificuldade
permanente para enxergar, ouvir e/ou caminhar/subir escadas.
A partir dessa definição, o presente artigo analisa os diferenciais
socioeconômicos e de inserção no mercado de trabalho das pessoas com
deficiência (PcD, ou "deficiência severa" na definição do IBGE). Primeiro, o
trabalho realiza uma breve discussão do contexto histórico de exclusão social a
que estiveram submetidas as pessoas com deficiência, além de mostrar um
panorama com dados do último Censo Demográfico relacionados a essa população.
Na sequência, são analisados os determinantes das diferenças de rendimentos das
PcD em relação a dois grupos populacionais: pessoas com limitação funcional
(PcLF), que correspondem àquelas com alguma dificuldade permanente para
enxergar, ouvir e/ou caminhar/subir escadas; e pessoas sem deficiência ou
limitação funcional (PsDLF). Com essas duas classificações, pretende-se
realizar uma análise mais apurada e focalizada no grupo das PcD, as quais,
possivelmente, encontram maiores barreiras e obstáculos para sua plena inserção
na sociedade e no mercado de trabalho em relação aos contingentes de PcLF e
PsDLF.
A hipótese do trabalho é a de que as PcD apresentam desvantagens em termos dos
indicadores socioeconômicos e de inserção no mercado de trabalho observados
tanto na população em geral (PsDLF) como no segmento populacional com
limitações funcionais (PcLF). Essas dificuldades seriam, em parte, devidas às
próprias limitações físicas ou mentais impostas pelas suas deficiências.
Entretanto, parte seria também atribuída às condições mais adversas em termos
de formação escolar e acesso ao trabalho, decorrentes, muitas vezes, das
barreiras e obstáculos ainda existentes na sociedade.
Para cumprir os objetivos propostos, pretende-se decompor as diferenças nos
rendimentos em duas fontes principais (BLINDER, 1973; OAXACA, 1973): impacto
das características socioeconômicas e de inserção ocupacional, que correspondem
a fatores observáveis e representam as desvantagens relacionadas a aspectos
mais vulneráveis das PcD, como menor escolaridade e inserção em ocupações mais
precárias; e impacto de fatores não observáveis, compreendendo a discriminação
e outras dificuldades e/ou diferenças não observáveis das pessoas com
deficiência no mercado de trabalho.
Contexto histórico, luta pela superação da invisibilidade e conquista da
cidadania
A longa trajetória
As sociedades sempre conviveram com a existência de indivíduos com diferentes
graus de limitação física, sensorial (visual ou auditiva) e/ou cognitiva. Desde
os primórdios de nossa história, existem registros da presença de pessoas com
deficiência nas mais variadas culturas (SILVA, 1987). O que muda ao longo do
tempo ' e recentemente ' é a "percepção social" em relação a essas pessoas,
tidas, durante muito tempo, como "desafortunadas", "inválidas" e "incapazes" de
qualquer contribuição produtiva e/ou participação social (consideradas quase
sempre um peso ou fardo individual para suas famílias).
Os arquivos da história brasileira registram referências variadas a
"aleijados", "enjeitados", "mancos", "cegos" ou "surdos-mudos". No entanto,
assim como ocorria no continente europeu (SILVA, 1987), a quase totalidade
dessas informações ou comentários está diluída nas menções relativas à
população pobre e miserável. Ou seja, também no Brasil, a pessoa com
deficiência foi incluída, por vários séculos, na categoria mais ampla dos
"miseráveis", talvez o mais pobre entre os pobres.
Figueira (2008), em linhas gerais, observa três dimensões da deficiência no
contexto histórico de formação do país: a política de exclusão ou rejeição das
pessoas com algum tipo de deficiência praticada pela maioria dos povos
indígenas; os maus-tratos e a violência como fatores determinantes da
deficiência nos escravos africanos; e a disseminação de doenças,
particularmente entre os europeus, como causadora de sequelas incapacitantes.
Observando a formação da população no Brasil Colonial, o historiador Licurgo
Santos Filho (apud FIGUEIRA, 2008, p. 56) acentua que: "tal e qual como entre
os demais povos, e no mesmo grau de incidência, o brasileiro exibiu casos de
deformidades congênitas ou adquiridas. Foram comuns os coxos, cegos, zambros e
corcundas". As condições de tratamento da maioria das enfermidades não eram
adequadas e continuariam assim por várias décadas.
Já no século XIX, a questão da deficiência aparece de maneira mais recorrente
em função do aumento dos conflitos militares (Canudos, outras revoltas
regionais e a guerra contra o Paraguai). O general Duque de Caixas externou ao
governo imperial suas preocupações com os soldados que adquiriam deficiência.
Foi então inaugurado no Rio de Janeiro, em 29 de julho de 1868, o "Asilo dos
Inválidos da Pátria", onde "seriam recolhidos e tratados os soldados na velhice
ou os mutilados de guerra, além de ministrar a educação aos órfãos e filhos de
militares" (FIGUEIRA, 2008, p. 63).
O avanço da medicina ao longo do século XX trouxe consigo uma maior atenção em
relação aos deficientes. A criação dos hospitais-escolas, como o Hospital das
Clínicas de São Paulo, na década de 1940, significou a produção de novos
estudos e pesquisas no campo da reabilitação. Nesse contexto, havia uma clara
associação entre a deficiência e a área médica, que por vezes permanece até os
dias atuais e traz dificuldades para o entendimento moderno de que pessoas com
deficiência não são doentes e/ou incapazes.
Até meados do século XX, em grande medida, as pessoas com deficiência tiveram
sua trajetória de vida definida quase que exclusivamente pelas respectivas
famílias. Paulatinamente, foi percebendo-se que esta temática não poderia ser
de responsabilidade única da família, passando a ser um "problema" do Estado.
Mas isso não enquanto uma questão geral de política pública, pois o que ocorreu
foi a transferência dessa responsabilidade para instituições privadas e
beneficentes, eventualmente apoiadas pelo Estado. Estas instituições ampliaram
sua linha de atuação para além da reabilitação médica, assumindo a educação das
pessoas com deficiência.
Percebeu-se com o tempo que, assim como acontecia em outros países, as pessoas
com deficiência poderiam estar nos ambientes escolares e de trabalho comuns a
toda a população, frequentando também o comércio, bares, restaurantes ou
prédios públicos; enfim, não precisariam estar sempre circunscritas ao espaço
familiar ou das instituições especializadas. Esta percepção está refletida na
expansão de leis e decretos sobre os mais variados temas a partir,
principalmente, da década de 1980.
Portanto, o percurso histórico das pessoas com deficiência no Brasil, assim
como ocorreu em outras culturas e países, foi marcado por uma fase inicial de
eliminação e exclusão, passando por um período de integração parcial por meio
do atendimento especializado. Gradativamente, exemplos individuais e
manifestações coletivas chamaram a atenção para o fato de que as pessoas com
deficiência não precisavam ficar restritas a uma posição secundária e tutelada
por suas famílias e pela própria sociedade.
O panorama recente
No Censo Demográfico de 2010, 45,6 milhões de pessoas declararam ter pelo menos
uma das deficiências investigadas, correspondendo a 23,9% da população
brasileira (IBGE, 2010). Parcela majoritária desta população possuía mais de 65
anos (67,7%), o que se explica pelo fato de que, naturalmente, no processo de
envelhecimento "há perda gradual da acuidade visual e auditiva e da capacidade
motora do indivíduo" (IBGE, 2010, p. 74). O percentual de mulheres com
deficiência (25,5%) era superior ao de homens (21,2%). Em parte, isso seria
explicado pelo fato de a mortalidade masculina ser mais elevada do que a
feminina, de modo que nos grupos mais avançados de idade há participação maior
da população feminina com deficiência.
Outro aspecto relevante da distribuição da população com deficiência refere-se
à escolaridade. Os dados do Censo 2010 apontam uma sistemática desvantagem para
aqueles que declararam pelo menos uma das deficiências investigadas: enquanto
para a população total de pessoas de 15 anos ou mais de idade a taxa de
alfabetização foi de 90,6%, para aqueles com uma deficiência declarada nesta
faixa etária este percentual correspondeu a 81,7%. As disparidades no nível de
instrução alcançado são ainda maiores, destacando a necessidade de se aumentar
a participação das pessoas com deficiência nos sistemas de ensino. Por exemplo,
apenas 17,7% das pessoas de 15 anos ou mais de idade com deficiência possuíam
ensino médio completo e superior incompleto, contra 29,7% das pessoas sem
qualquer tipo de deficiência.
O acesso das pessoas com deficiência ao mercado de trabalho no Brasil é um
processo que vem ocorrendo e parece ser irreversível, dado o amplo
reconhecimento das possibilidades de trabalho desta população, além da
existência crescente de ferramentas e tecnologias de suporte. Entretanto, este
movimento ainda ocorre de maneira restrita e relativamente precária, pois esses
trabalhadores com deficiência concentram-se em formas de ocupação mais simples
e de menor rendimento (CLEMENTE, 2008; GARCIA, 2010).
Pode-se dizer que o impulso inicial para um maior volume de contratações de
pessoas com deficiência, no Brasil, se deu a partir dos anos 2000, período em
que se organiza e passa a atuar a fiscalização do Ministério do Trabalho e
Emprego quanto ao cumprimento da chamada "Lei de Cotas" (JAIME; CARMO, 2004;
GUGEL, 2005). Ao estipular percentuais obrigatórios para que as grandes
empresas ' aquelas com 100 ou mais empregados ' contratassem pessoas com
deficiência, esta legislação estimulou um processo que, muito provavelmente,
ocorreria num ritmo mais lento em caso de inexistência da obrigatoriedade.
Porém, existem claros obstáculos para que a "Lei de Cotas", por si só, possa
garantir a plena inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Em
primeiro lugar, ao limitar-se às grandes empresas, mesmo que fosse cumprida
integralmente, tal lei garantiria cerca de um milhão de empregos para pessoas
com deficiência, sendo que o contingente de trabalhadores nesta condição é bem
superior a este montante (GARCIA, 2010). Ademais, estudos mostram que há um
comportamento discriminatório por parte das empresas ao optarem somente pela
contratação de pessoas com "deficiência leve". Como observam Ribeiro e Carneiro
(2009, p. 552): "como não há exigências quanto ao tipo de deficiência para fins
de observância da cota, as empresas, regra geral, selecionam dentre os
portadores de deficiência aqueles que lhes são mais convenientes".
Assim, embora haja experiências muito positivas de inclusão, ainda falta um
longo caminho para que a inserção de pessoas com deficiência se concretize de
forma mais efetiva e em melhores condições. Segundo Leme (2010), para que isso
ocorra seria preciso o real envolvimento dos demais atores participantes deste
processo, como os gestores públicos e as próprias pessoas com deficiência.
Melhora da acessibilidade em termos gerais, revisão e aperfeiçoamento da
legislação e incremento da formação escolar e capacitação profissional das
pessoas com deficiências são aspectos que devem ser trabalhados para o êxito do
processo de inclusão.
Material e métodos
Conceitos e definições
Apesar de a definição de "pessoas com deficiência" não ser consensual,
atualmente trabalha-se com o chamado "paradigma social", que postula o
entendimento de que, para além dos impedimentos de ordem física, o que
determina a condição de deficiência1 são o entorno social, o grau de
acessibilidade e a autonomia disponível para aquele indivíduo com deficiência
(SASSAKI, 2008). Porém, quando se trata da avaliação de políticas públicas, da
concessão de benefícios e do exercício de direitos concedidos por lei, é
preciso definir critérios técnicos e mais objetivos para que não se cometam
injustiças. No caso da "Lei de Cotas", por exemplo, são consideradas pessoas
com deficiência aquelas que, mediante a apresentação de laudo médico, se
enquadram nas definições de deficiência física, visual, auditiva, mental ou
múltipla que constam do Decreto Federal n. 5.296/04.
Ocorre que, nos Censos Demográficos, não seria viável a utilização de critérios
técnicos para a classificação de deficiência, uma vez que a avaliação das
questões é realizada pela própria pessoa; na maioria dos casos, por um único
informante para todas as pessoas de um mesmo domicílio. Assim, quando da
preparação para o Censo de 2000, em acordo com a então Coordenadoria para
Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (Corde), órgão de assessoria da
Presidência da República nessa área, optou-se pela utilização da CIF '
Classificação Internacional de Funcionalidades, Incapacidades e Saúde para
avaliar a questão da deficiência a partir da autodeclaração do morador de cada
domicílio, como ocorre para as demais variáveis. A avaliação foi feita
considerando o uso de facilitadores, como óculos e lentes de contato, aparelhos
de audição, bengalas e próteses (OLIVEIRA, 2012). As questões avaliaram as
declarações de deficiência visual, auditiva e motora pelos seguintes graus de
dificuldade: tem alguma dificuldade permanente em realizar; tem grande
dificuldade permanente; e não consegue permanentemente realizar de modo algum;
além da deficiência mental ou intelectual. Deve-se ainda destacar que a própria
definição de deficiência mental ou intelectual já considera limitações para
atividades habituais, como trabalhar e ir à escola.
O maior desafio é, entretanto, compatibilizar as informações do Censo com as
"condições tradicionais" de deficiência física, sensorial ou mental. O IBGE
(2010), por exemplo, classifica com "deficiência severa" as pessoas com total
ou grande dificuldade permanente para enxergar, ouvir ou caminhar/subir
escadas, além daqueles que declararam ter deficiência mental ou intelectual. De
acordo com esta classificação, o percentual de pessoas com deficiência severa,
em 2010, era de 2,4% para os jovens de 0 a 14 anos, de 7,1% para os adultos de
15 a 64 anos, e de 41,8% para os idosos com 65 anos ou mais. Neri et al.
(2003), por sua vez, trabalharam com dois grupos de análise: o universo geral
de pessoas portadoras de deficiência (PPDs) ' que declararam qualquer tipo de
deficiência ou incapacidade (total, grande ou alguma); e o conjunto de pessoas
perceptoras de incapacidade (PPIs), restringindo-se apenas àquelas que
declararam ter incapacidade "total" para andar, ouvir e enxergar, além dos
indivíduos com deficiência mental. Enquanto o primeiro grupo (PPD) representava
14,5% da população pelo Censo de 2000, este último contingente (PPI)
correspondia a apenas 2,5% (NERI et al., 2003).
Além da tentativa de captar as "deficiências convencionais", a proposta
metodológica de criar um subgrupo para considerar apenas deficiências mais
severas procura evitar o inflacionamento da condição de deficiência. Ao
incorporar no universo dos deficientes as pessoas com alguma ou grande
dificuldade de caminhar, enxergar ou ouvir, o Censo tende a classificar grande
parte da população idosa como tal, "uma vez que essas dificuldades funcionais
tendem a acompanhar o processo natural de envelhecimento" (NERI et al., 2003,
p. 53).
Embora seja adequada, a proposta de Neri et al. (2003) para subclassificação da
deficiência severa (PPI) limita ao extremo a população com deficiência,
sobretudo aquela potencialmente beneficiada pela "Lei das Cotas". Além daqueles
que se declararam "permanentemente incapazes" de caminhar, enxergar ou ouvir,
seria também apropriado incluir os indivíduos que disseram ter "grande
dificuldade permanente" para realizar tais ações, deixando de fora apenas os
que afirmaram ter "alguma dificuldade permanente", como sugere a classificação
de deficiência severa do IBGE (2010). Baseado nessas propostas, o presente
artigo trabalha com os seguintes critérios de classificação:
* PcD ' contingente de "pessoas com deficiência", equivalente à
classificação de "deficiência severa" do IBGE (2010), formado por aqueles
que se autodeclararam ser "permanentemente incapazes" ou ter "grande
dificuldade permanente" para enxergar, ouvir e/ou andar/subir escadas,
acrescido daqueles assinalados como "sim" quanto à "deficiência
intelectual/mental permanente";
* PcLF ' "pessoas com limitação funcional", que declararam ter apenas
"alguma dificuldade permanente" para enxergar, ouvir e/ou andar/subir
escadas;
* PsDLF ' contingente de pessoas que não declararam qualquer tipo de
deficiência ou limitação funcional.
A hipótese a ser testada é a de que as PcD apresentam desvantagens em termos de
inserção no mercado de trabalho, renda e outros indicadores socioeconômicos
observados tanto na população em geral (PsDLF) como no segmento populacional
com limitações funcionais (PcLF). Parte dessas dificuldades seria proveniente
das próprias deficiências físicas ou mentais permanentes, que limitariam
atividades habituais, como acesso ao trabalho e à escola. Entretanto, também
deveriam ser consideradas as condições mais adversas em termos de formação
escolar e acesso ao trabalho, decorrentes, muitas vezes, de barreiras e
obstáculos ainda existentes na sociedade.
Método de análise
Os diferenciais de inserção no mercado de trabalho entre PcD, PcLF e PsDLF
foram, inicialmente, analisados pelas taxas de participação e de desemprego. A
primeira, que reflete a disponibilidade a ofertar trabalho, corresponde ao
percentual da população em idade ativa (pessoas com 16 anos ou mais de idade)
que está ocupada ou desocupada (PEA ' População Economicamente Ativa)
(HUSSMANNS, 1989). Já a taxa de desemprego refere-se ao percentual da PEA que
está à procura e não encontra trabalho. Em seguida, para os ocupados
remunerados, foram analisados os diferenciais em relação a rendimento médio,
escolaridade, idade, sexo, cor, região de residência, jornada semanal de
trabalho, posição na ocupação e setor de atividade.
Uma análise pormenorizada dos diferencias de rendimentos foi realizada
ajustando-se um modelo de regressão múltipla para cada grupo de ocupados
remunerados. O modelo pode ser descrito por:
Onde Y é o logaritmo natural do rendimento mensal do trabalho, Xj corresponde à
j-ésima variável explanatória,βj refere-se ao coeficiente que reflete o impacto
de Xj sobre Y eεi é o erro aleatório não explicado pelo modelo. Como se trata
de um modelo log-linear, o coeficienteβexpressará a variação relativa (%) em Y
para variações absolutas constantes em X. Caso Xj seja uma variável binária que
assume valores 0 e 1, a variação percentual em Y em relação à categoria tomada
como referência de análise será equivalente a 100[eβj - 1]% (HALVORSEN;
PALMQUIST, 1980).
Foram considerados os seguintes fatores explanatórios no modelo:
* três variáveis binárias para representar quatro categorias de
escolaridade: sem escolaridade (categoria referência de análise); ensino
fundamental (até o ensino fundamental de escolaridade completo); ensino
médio (até o ensino médio de escolaridade completo); ensino superior
(ensino superior de escolaridade completo ou incompleto);
* cinco variáveis binárias para representar seis faixas etárias: 16 a 19
anos; 20 a 29 anos (referência de análise); 30 a 39 anos; 40 a 49 anos;
50 a 59 anos; e 60 anos ou mais;
* uma variável binária para representar duas categorias de sexo: homem
(referência de análise); e mulher;
* quatro variáveis binárias para representar cinco categorias de cor ou
raça: branca (referência de análise); preta; amarela; parda; e indígena;
* seis variáveis binárias para representar sete categorias de região ou
unidade da federação: Norte (residentes nos estados da Região Norte);
Nordeste (residentes nos estados da Região Nordeste); MG, RJ e ES
(residentes nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito
Santo); São Paulo (referência de análise); Sul (residentes nos estados da
Região Sul); Centro-Oeste (residentes nos estados da Região Centro-
Oeste); e DF (residentes no Distrito Federal). O Estado de São Paulo e o
Distrito Federal foram tratados em categorias independentes para
representar suas singularidades nas respectivas regiões geográficas
(Sudeste e Centro-Oeste), ou seja, seus rendimentos médios
substancialmente superiores nas regiões;
* três variáveis binárias para representar quatro categorias de jornada
semanal de trabalho: até 20 h (referência de análise); 21 a 39 h; 40 a 44
h; e 45 h ou mais;
* quatro variáveis binárias para representar cinco categorias de posição na
ocupação: empregado com carteira (referência de análise); militar ou
estatutário; empregado sem carteira; conta-própria; e empregador;
* onze variáveis binárias para representar doze setores de atividade
econômica: agricultura (referência de análise); indústria da
transformação; outras atividades industriais; construção; comércio e
reparação; alojamento e alimentação; transporte, armazenagem e
comunicação; administração pública; educação, saúde e serviços sociais;
outros serviços coletivos, sociais e pessoais; serviços domésticos; e
outras atividades.
Após estimar uma equação para cada grupo de ocupados, avaliou-se em que medida
os diferencias de rendimento entre PcD e PsDLF, assim como entre PcLF e PSDLF,
deviam-se às diferenças das características socioeconômicas de seus ocupados,
ou às diferenças entre os retornos (impactos) das características
socioeconômicas sobre o rendimento de ocupados de grupos distintos.
Para cumprir esse objetivo, foi utilizado o método de decomposição proposto por
Blinder (1973) e Oaxaca (1973). Assim, a diferença entre as médias dos
logaritmos dos rendimentos de PcD e PsDLF [/img/revistas/rbepop/v31n2/
a08img01.jpg], bem como a diferença entre PcLF e PsDLF [/img/revistas/rbepop/
v31n2/a08img02.jpg], foi decomposta em duas fontes: diferenças entre os valores
médios das variáveis X; e diferenças entre os coeficientesβ.
Inicialmente, considere-se a equação para a média do logaritmo do rendimento:
[/img/revistas/rbepop/v31n2/a08frm02.jpg]
Onde o sobrescrito g representa a variável ou coeficiente referente à equação
de um específico grupo de ocupados (PcD, PcLF ou PsDLF). Com o devido
desenvolvimento algébrico, chega-se, por exemplo, à seguinte equação da
diferença entre as médias dos logaritmos dos rendimentos das PcD e PsDLF:
[/img/revistas/rbepop/v31n2/a08frm03.jpg]
De maneira análoga, a equação para a diferença entre as médias dos logaritmos
dos rendimentos das PcLF e PsDLF será dada por:
[/img/revistas/rbepop/v31n2/a08frm04.jpg]
O primeiro componente da equação (3) (ou da equação 4) representa o valor
atribuído às diferenças nos retornos marginais das características
socioeconômicas sobre os rendimentos das PcD e PsDLF (ou entre as PcLF e
PsDLF). Esse termo, também chamado de efeito dos coeficientes, expressa a
parcela da diferença entre as médias dos logaritmos dos rendimentos que não
pode ser explicada simplesmente pelas diferenças nas características
socioeconômicas X. Por sua vez, o segundo componente, também chamado de efeito
das características, representa o valo atribuído às diferenças socioeconômicas
entre os grupos em questão.
Resultados
Características sociais, econômicas e ocupacionais
Segundo dados do último Censo Demográfico, o número de PcD no Brasil girava em
torno de 12,7 milhões, em 2010 (6,7% da população), enquanto o de PcLF
correspondia a, aproximadamente, 32,9 milhões (17,2% do total) (Tabela_1). Em
conjunto, portanto, 45,6 milhões de pessoas (23,9% da população) afirmaram ter
pelo menos algum grau de dificuldade permanente motor, sensorial e/ou
cognitivo.
Assim como já destacado pelo IBGE (2010), a "deficiência visual" é a mais
representativa, englobando as pessoas com total incapacidade para enxergar (506
mil) e aquelas com grande dificuldade (6,1 milhões), o que totaliza cerca de
6,6 milhões de pessoas (3,5% da população brasileira em 2010). Na sequência
aparecem as pessoas com "deficiência física", sendo 734 mil com total
incapacidade para andar/subir escadas e 3,7 milhões com grande dificuldade para
essas ações, totalizando 4,4 milhões de pessoas (2,3% da população). As pessoas
com "deficiência mental" ou cognitiva representavam 1,4% da população (2,6
milhões de indivíduos), em 2010, e a "deficiência auditiva" tinha uma
incidência de 1,1% no conjunto da população brasileira, sendo 344 mil com total
dificuldade e 1,8 milhão com grande dificuldade permanente para ouvir (2,1
milhões de pessoas).2
Em relação aos indicadores do mercado de trabalho, a taxa de participação das
PcD (37%) é expressivamente inferior àquelas observadas para as PcLF (58,1%) e
as PsDLF (70,4%).3 Entre as PcD e as PcLF, a participação no mercado de
trabalho é maior entre aquelas com deficiência auditiva e, sobretudo,
deficiência visual. Para as pessoas com deficiência mental e com total ou
grande dificuldade física, a taxa de participação é muito baixa: 21,1% e 23,5%,
respectivamente. Por outro lado, não há diferenças expressivas em relação às
taxas de desemprego dos grupos de ocupados, com exceção daquele referente às
pessoas com problema mental permanente. Nos demais tipos de deficiência, a taxa
de desemprego, em 2010, oscilava entre 6,8% e 8,3%.
Além da menor participação, as PcD apresentavam rendimento médio
substancialmente inferior ao das PsDLF: 26%. A diferença entre os rendimentos
das PcLF e PsDLF era menos expressiva: apenas 6% inferior (Tabela_2).
As PcLF e, sobretudo, as PcD também se caracterizavam pela relativa prevalência
de grupos sociais menos favorecidos. Por exemplo, o percentual de PcD ocupadas
sem escolaridade (8,7%) era mais de três vezes superior àquele verificado para
as PsDLF (2,8%), enquanto a frequência de PcD com nível superior completo ou
incompleto (11,7%) era quase duas vezes inferior à das PsDLF (21,8%). Pessoas
de cor preta ou parda eram mais da metade dos ocupados entre as PcD e PcLF,
enquanto entre as PsDLF representavam 46,7%. As mulheres também prevaleciam
relativamente entre as PcD e PcLF: 45% ou mais dos ocupados, contra 40,7% entre
as PsDLF. As PcD e PcLF também concentravam-se nas regiões menos desenvolvidas,
Norte e Nordeste, enquanto as PsDLF possuíam maior representatividade nas
regiões mais desenvolvidas, sobretudo no Sul e no Estado de São Paulo.
Além da própria condição de vulnerabilidade social e acesso à saúde, também
contribuiriam para explicar a maior prevalência de PcD e PcLF em alguns grupos
sociais as mútuas associações entre as características socioeconômicas
analisadas. Por exemplo, a maior frequência de ocupados de cor preta ou parda
entre as PcD ou PcLF poderia ser atribuída às piores condições sociais e de
acesso à saúde deste grupo (RODRIGUES; MAIA, 2010), o que, por sua vez, também
estaria associado à prevalência dessas pessoas nas regiões menos desenvolvidas
e nos níveis mais baixos de escolaridade. O tipo de atividade é outro fator a
ser considerado. Por exemplo, a maior prevalência feminina entre as PcD e PcLF
ocupadas em comparação às PsDLF pode estar associada desde à maior exposição
das mulheres a problemas de saúde (AQUINO et al., 1995), até à concentração das
pessoas com deficiência em nichos ocupacionais predominantemente femininos,
como em serviços de baixa remuneração.
A prevalência de PcD e PcLF é substancialmente superior entre os grupos etários
mais elevados. As pessoas com 40 anos ou mais representavam 67,8% das PcD
ocupadas e 65,2% das PcLF (entre as PsDLF, eram apenas 32,7%). Do ponto de
vista econômico, essa associação opor-se-ia àquelas feitas anteriormente entre
a prevalência de pessoas com deficiência e os grupos socioeconômicos mais
vulneráveis (observados, por exemplo, para escolaridade, sexo, cor e região).
Em outras palavras, a relação com a idade, que estaria associada à experiência
profissional e a maiores rendimentos, indicaria que aqueles socialmente mais
vulneráveis (jovens) apresentariam as menores prevalências de deficiência.
Embora as PcD e PcLF associem-se a jornadas parciais de trabalho, é curioso
destacar a ausência de uma associação entre deficiência e jornada excessiva de
trabalho (superior a 45 horas semanais) (Tabela_3). Ou seja, a sub-
representação dos grupos com algum tipo de deficiência entre aqueles ocupados
com jornada regular de trabalho (40 a 44 h semanais) deve-se, sobretudo, à
maior participação desses entre aqueles com jornada inferior a 20 horas
semanais.
As PcD associam-se, ainda, às formas mais precárias de inserção no mercado de
trabalho: emprego sem carteira assinada e trabalho conta-própria. Por sua vez,
as participações das PcD e PcLF no emprego com carteira eram, respectivamente,
12,4 e 8,4 pontos percentuais inferiores à das PsDLF. Este resultado reflete,
em grande medida, a elevada participação das PcD no trabalho conta-própria, bem
como sua relativa concentração no emprego agrícola (13,6% das pessoas com
deficiência ocupadas, contra 10,9% das PcLF e 9,2% das PsDLF). A concentração
relativa das PcD também é elevada no segundo grupo mais precário da estrutura
de atividades: o serviço doméstico (10,5%, contra 9,2% das PcLF e 6,5% das
PsDLF). Por outro lado, essas pessoas estão sub-representados, sobretudo, no
setor de comércio e reparação (15,9% de participação das PcD e PcLF, contra
18,4% das PsDLF).
Diferenciais de rendimentos
Nesta parte são analisados os impactos das características socioeconômicas e de
inserção ocupacional sobre os diferenciais de rendimentos das PcD, PcLF e
PsDLF. Foram estimadas três equações, uma para cada grupo de ocupados (PcD,
PcLF e PsDLF). Os coeficientes e erros-padrão dos modelos foram estimados
considerando-se uma correção dada pelo produto entre o peso de expansão dos
indivíduos na amostra (variável v0010do Censo Demográfico 2010) e a fração
amostral (razão entre o número de elementos da amostra e a população de cada
grupo de ocupados). Trata-se de uma aproximação para considerar o desenho
amostral do Censo Demográfico, embora o ideal fosse também considerar a não
independência dos indivíduos da amostra, uma vez que a amostra do Censo é
realizada sem reposição. Entretanto, os resultados obtidos podem ser
considerados razoavelmente consistentes em função do grande número de
observações amostrais de cada grupo de análise.
Os modelos apresentaram boas estatísticas de qualidade do ajuste, com
coeficientes de determinação superiores a 41% e estatísticas F significativas a
0,1% (Tabela_4). A estatística x2 testa a hipótese nula de que os erros são
homocedásticos e independentes dos regressores (WHITE, 1980). Pressupondo-se
que os modelos estejam corretamente especificados, a rejeição das hipóteses
nulas nos três modelos (p<0,001) indica evidências de heterocedasticidade. Para
corrigir este problema, que tornaria as estimativas dos erros-padrão
tendenciosas, foram utilizados estimadores para os erros-padrão robustos à
presença de heterocedasticidade (WHITE, 1980). Esses estimadores foram obtidos
pela opção WHITE do procedimento REG do pacote estatístico SAS.
As estimativas dos coeficientes e de seus erros-padrão robustos são
apresentadas separadamente nas Tabelas_5 (características socioeconômicas) e 6
(características ocupacionais). Em função do elevado número de observações na
amostra, quase todos os coeficientes mostraram-se estatisticamente diferentes
de zero com nível de significância de 1%.
As categorias de análise com maiores impactos sobre o rendimento médio dos
ocupados são aquelas associadas à escolaridade. Por exemplo, independentemente
das demais características dos ocupados, as PsDLF com ensino superior possuem
rendimento médio mais de 180% (e1,035'1) superior ao daquelas sem escolaridade.
Tanto o impacto do ensino superior quanto o do ensino médio sobre o rendimento
médio são significativamente superiores entre as PcD e PcLF. Esse resultado
poderia estar associado ao efeito conjunto da baixa presença de PcD e PcLF com
ensinos médio e superior e da reserva de vagas garantida pela "Lei das Cotas"
às pessoas com deficiência nas grandes e médias empresas. Em outras palavras, a
reserva de vagas no mercado de trabalho mais estruturado absorveria as PcD e
PcLF mais qualificadas, enquanto o expressivo contingente de pessoas com
deficiência menos qualificadas permaneceria nas ocupações mais vulneráveis, de
baixa remuneração, aumentando a desigualdade entre os grupos de escolaridade.
Por outro lado, os retornos marginais da idade, que está associada tanto às
diferenças entre as gerações quanto à experiência profissional, são menores
para as PcLF e, sobretudo, as PcD. As dificuldades enfrentadas por esses
ocupados no mercado de trabalho podem ajudar a explicar tal resultado, que
estaria refletindo, por exemplo, a menor estabilidade nos empregos e os menores
ganhos de produtividade e de salário provenientes da experiência profissional.
Mulheres e pessoas pretas e pardas possuem rendimentos relativamente inferiores
aos dos homens e brancos, sem diferenças expressivas entre as PcD, PcLF e
PsDLF. As diferenças regionais também são relativamente semelhantes entre os
grupos de ocupados.
A jornada de trabalho contribui para o rendimento do ocupado de duas maneiras:
seja pela maior oferta de trabalho; seja pelos ganhos de produtividade que esta
pode propiciar. Seus impactos sobre os rendimentos mensais foram estimados
pelos coeficientes associados às variáveis binárias representativas dos grupos
de horas de trabalho. Destaca-se, entre outras vantagens, que essa delimitação
permite considerar retornos não lineares das horas de trabalho sobre a
remuneração e seria uma aproximação para analisar as diferenças entre as
pessoas submetidas a jornadas irregulares e parciais e aquelas com jornadas
regulares ou excessivas. Embora não haja diferenças muito expressivas entre os
retornos marginais das categorias de jornada de trabalho sobre o rendimento de
PcD, PcLF e PsDLF, deve-se considerar a sobrerrepresentatividade daquelas com
jornada igual ou inferior a 20 horas semanais nos dois primeiros grupos de
ocupados.
Empregados sem carteira de trabalho e trabalhadores conta-própria possuem
rendimentos médios substancialmente inferiores aos dos empregados com carteira
e empregadores. As diferenças, em prejuízo dos dois primeiros grupos, são mais
expressivas entre as PcD, refletindo, provavelmente, os rendimentos
excessivamente baixos daqueles trabalhadores com deficiência grave excluídos do
mercado mais estruturado de trabalho.
As diferenças entre os setores de atividade sugerem que os trabalhadores
agrícolas e trabalhadores domésticos estão submetidos a rendimentos médios
substancialmente inferiores aos dos demais setores, independentemente das
demais características controladas. São justamente esses setores que apresentam
as maiores concentrações relativas de PcD e PcLF. Por outro lado, trabalhadores
da administração pública estão em posição relativa mais favorável, sobretudo as
PcLF.
A diferença entre as médias do logaritmo da remuneração das PcD e das PsDLF é
de '0,33, o que significa uma diferença aproximada de 33% entre as médias
geométricas dos dois grupos de ocupados (Tabela_7).4 Apenas pouco mais de um
terço desta diferença (0,12 pontos) deve-se às diferenças socioeconômicas e de
inserção ocupacional identificadas nestas análises, ou seja, ao fato de as PcD
estarem super-representadas nas categorias mais vulneráveis. Os outros dois
terços (0,21 pontos) devem-se aos diferentes retornos marginais das
características socioeconômicas e de inserção ocupacional sobre os rendimentos
das PcD e PsDLF (efeitos dos coeficientes), podendo estar associados, por
exemplo, ao fato de as PcD apresentarem menores retornos marginais da
experiência profissional sobre os rendimentos. Esse efeito dos coeficientes
também significa o impacto de fatores não controlados na análise, como
discriminação, segregação ocupacional e menor qualificação ocupacional.
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A diferença entre o logaritmo da remuneração das PcLF e PsDLF é menor, mas
também expressiva (aproximadamente 11%). Neste caso, as diferenças se devem,
quase que exclusivamente (90%), ao efeito dos coeficientes, ou seja, tanto aos
menores retornos marginais das características socioeconômicas e de inserção
ocupacional quanto a fatores não observados na análise.
Discussão dos resultados
Pessoas com deficiências e limitações funcionais apresentam um longo histórico
de marginalização, invisibilidade e exclusão social. Apesar de conquistarem a
emancipação social como cidadãos detentores de direitos e deveres, ainda
permanecem sequelas em relação seja à vulnerabilidade socioeconômica, seja às
formas mais precárias de inserção no mercado de trabalho.
No Brasil, as PcD, que declararam grande ou total dificuldade permanente para
andar, ouvir e/ou enxergar, além daquelas com deficiência mental, perfaziam, em
2010, cerca de 12,7 milhões de pessoas (6,7% do total da população). Já as
PcLF, que alegaram ter apenas alguma dificuldade permanente para realizar tais
ações, eram 32,9 milhões (17,2% da população). Assim, 45,6 milhões de pessoas
'¼da população brasileira ' possuíam algum nível de deficiência e/ou limitação
funcional em 2010. A extensão dessa população com deficiência levanta
importantes considerações na análise dos condicionantes socioeconômicos.
Primeiro, a necessidade de se analisarem separadamente as pessoas com
deficiências mais severas (PcD) e aquelas com limitações funcionais (PcLF), uma
vez que as desigualdades entre esses grupos podem ser substanciais. Segundo, a
própria característica desta informação autodeclarada, que depende, além de
avaliações objetivas das condições de deficiência, de percepções subjetivas das
pessoas sobre suas condições físicas e mentais. Assim, embora as
autodeclarações ofereçam uma boa aproximação para analisar a população com
deficiência no Brasil, seus resultados não podem ser diretamente comparados,
por exemplo, com os da população contemplada pela "Lei de Cotas", que se baseia
em avaliações médicas de condições de deficiência definidas pelo Decreto
Federal n. 5.296/04.
A distinção dos ocupados conforme as autodeclarações de dificuldade funcional
apontou importantes diferenças em relação às características socioeconômicas e
de inserção ocupacional. Observaram-se condições desfavoráveis de acesso ao
trabalho e obtenção de rendimentos para o grupo de PcD, isto é, aquelas pessoas
com maiores graus de limitação e portanto sujeitas a enfrentar barreiras mais
severas para sua plena inserção social. Para os indicadores analisados, o
contingente de PcLF ficou numa posição intermediária, melhor do que o das PcD,
mas com resultados ainda aquém aos observados para a população em geral, sem
deficiência ou incapacidade declarada (PsDLF).
Proporcionalmente, as PcD ainda participam pouco do mercado de trabalho,
sobretudo aquelas com problemas cognitivos e incapacidade ou grande dificuldade
física. Dos 11,8 milhões de pessoas com deficiência em idade ativa, em 2010,
apenas 4 milhões, ou 34%, estavam ocupadas. Por sua vez, os percentuais de PcLF
e PsDLF ocupadas eram de, respectivamente, 54,0% e 64,9%, evidenciando uma
condição desfavorável aos indivíduos com maiores graus de limitação física,
sensorial ou cognitiva para o acesso ao trabalho. Pode-se supor que uma fração
dessas pessoas, em decorrência de limitações mais graves e comprometedoras do
ponto de vista físico, sensorial e/ou cognitivo, não teria de fato condições de
exercer uma atividade produtiva. Mas, diante dos recursos de acessibilidade
hoje existentes, muitas dessas pessoas com deficiência e com plenas condições
de trabalhar ou realizar alguma ocupação poderiam estar em condição de
desemprego oculto pelo desalento. Entre aqueles economicamente ativos, há
resultados próximos para a taxa de desemprego. Este resultado poderia estar
sendo influenciado pela "Lei das Cotas", política que se intensificou na última
década e que garante vagas reservadas às pessoas com deficiência nas empresas
públicas ou privadas com 100 ou mais empregados.
Além de uma baixa participação no mercado de trabalho, as PcD estão super-
representadas nos grupos sociais mais vulneráveis e submetidas às piores
condições de renda e emprego. A discrepância é mais gritante quando se compara
o universo de PcD com as PsDLF. Os condicionantes socioeconômicos e a inserção
mais precária das pessoas com deficiência explicam uma pequena parte dos
diferencias de rendimento em relação às PsDLF. A parcela mais expressiva dessas
diferenças deve-se tanto a fatores não controlados, quanto aos menores retornos
de condicionantes socioeconômicos.
Em relação ao primeiro desses componentes, fatores não controlados, pode-se
destacar a dificuldade para encontrar medidas mais apuradas dos fatores
produtivos que interferem no rendimento do ocupado, como a qualificação e
habilidades profissionais. A própria definição de deficiência do Censo
Demográfico considera limitações para exercer atividades habituais, como o
trabalho, que tendem a reduzir os ganhos salarias das PcD e PcLF. As
dificuldades que as pessoas com deficiência encontram para se inserirem no
mercado de trabalho podem também se reproduzir no acesso a um ensino de
qualidade. No que se refere aos retornos marginais, destacam-se os menores
diferenciais de rendimento entre os grupos etários para as pessoas com
deficiência. Esse resultado pode expressar, por um lado, maior instabilidade
ocupacional e, consequentemente, menor experiência profissional adquirida com a
idade para as pessoas com deficiência e, por outro lado, uma discriminação
contra as pessoas com deficiência que, com a mesma experiência profissional de
seus pares, teriam mais dificuldades para ascensão profissional.
Conclusões
Os resultados deste trabalho demandam uma discussão sobre questões que poderiam
aumentar e melhor qualificar a participação das pessoas com deficiência no
mercado de trabalho, tais como a necessidade de aumentar o conhecimento da
realidade socioeconômica das pessoas com deficiência. No intuito de balizar as
políticas públicas e/ou aperfeiçoar legislações, deve-se buscar maior
profundidade e clareza nos indicadores socioeconômicos deste contingente
populacional, seja, por exemplo, com uma maior regularidade na disponibilização
de informações sobre as pessoas com deficiência, seja no aprimoramento da
qualidade dessas informações, como a restrição da autodeclaração de deficiência
à própria pessoa, não mais permitindo sua declaração por outros moradores do
domicílio.
A baixa taxa de participação das pessoas com deficiência também sugere mudanças
na legislação previdenciária que permitam, por exemplo, o retorno ao trabalho
de pessoas com deficiência precocemente aposentadas. Essa mudança beneficiaria
um contingente expressivo de pessoas que, ainda jovens, se aposentaram em
função de uma deficiência adquirida, mas que teriam condições, com as devidas
adaptações e recursos, de trabalhar formalmente, exercendo as mais variadas
funções. Os baixos níveis de escolaridade desta população ocupada também
indicam a necessidade de intensificação do processo de inclusão escolar e
melhora na formação e capacitação das pessoas com deficiência. Ao se persistir
no caminho da inclusão escolar, as diferenças no grau de instrução entre
aqueles com e sem deficiência tendem a diminuir, reduzindo, consequentemente,
as diferenças de remuneração no mercado de trabalho.
O fortalecimento do conceito de acessibilidade perpassa os ambientes escolares,
exigindo mudanças nos espaços públicos e privados dos municípios, com a remoção
de barreiras físicas e de comunicação que dificultam a inserção das pessoas com
deficiência. Como procurar emprego se não há possibilidade, ou é muito difícil,
simplesmente de ir e vir? Finalmente, a expressiva parcela das desigualdades de
remuneração atribuída a fatores não observáveis sugere a necessidade de
sensibilização dos empregadores para romper com estereótipos negativos ainda
associados às pessoas com deficiência (GARCIA, 2010). Práticas como procurar
alguém para trabalhar com uma "deficiência mais leve", e não por sua
competência profissional, devem ser combatidas e qualificadas como
discriminatórias.