Uma investigação sobre a aplicação de bônus adicional como política de ação
afirmativa na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
Introdução
Há algumas décadas as teorias de desenvolvimento econômico têm destacado a
importância dos investimentos em educação para que os países subdesenvolvidos e
em vias de desenvolvimento reduzam o gap existente entre eles e os países
desenvolvidos. Investir em capital humano, resultando numa mão de obra mais
qualificada, é um determinante-chave para o crescimento econômico e a elevação
da renda. Além disso, as melhorias no nível de vida de uma população estão
estreitamente relacionadas ao aumento da renda via educação (LEE; BARRO, 1997).
O Estado tem papel fundamental nesse quesito, pois determina a estrutura e a
qualidade da educação, arquiteta o modelo educacional a ser adotado e tem
responsabilidade direta sobre as provisões de educação (BUCHMANN; HANNUM,
2001). Assim, entre os principais objetivos do Estado no âmbito da educação,
está a inclusão da maior proporção possível da população no sistema educacional
em todos os níveis de escolaridade.
A promoção dessa inclusão tende a ser mais difícil em países em
desenvolvimento, principalmente naqueles que apresentam um quadro marcante de
desigualdade social, como é o caso brasileiro. Esse fato decorre da constatação
de que as oportunidades escolares não são iguais para todos os grupos sociais
no Brasil, havendo fortes diferenciais nos níveis educacionais nos diversos
estratos da sociedade (SILVA; HASENBALG, 2001).
São vários os fatores que determinam o nível de escolarização e a qualidade de
ensino absorvida pelos indivíduos, abrangendo características pessoais inatas
(tais como cor e gênero), familiares (escolaridade dos pais, renda familiar,
número de irmãos), locacionais (localização da escola, zona de residência,
proximidade da escola), entre outros.
A família é apontada como um dos aspectos mais decisivos (LEE; BARRO, 1997) e,
especificamente para o caso brasileiro, possui influência tão relevante quanto
os fatores relacionados à escola na promoção da educação (MENEZES-FILHO, 2007).
Assim, o histórico educacional da família, por promover a transmissão
intergeneracional de posições sociais, é um dos principais fatores de geração
de melhores oportunidades de mobilidade social (SILVA; HASENBALG, 2001).
Nesse processo de diferenciação e estratificação social intergeneracional,
existe influência da cor ou raça do indivíduo, não só quanto às condições
correntes mais precárias de inserção de pretos e pardos, mas também com relação
ao processo de acumulação de desvantagens (BUCHMANN; HANNUM, 2001; HASENBALG;
SILVA, 1998).
Partindo dessas constatações, deve-se reconhecer que, além das diferenças
sociais existentes entre os diversos grupos populacionais brasileiros, o
"preconceito e a discriminação raciais no Brasil são fenômenos presentes e
ativos, comprometendo a equidade de tratamento entre os cidadãos e exacerbando
os níveis de desigualdade no país" (JACCOUD; BEGHIN, 2002). Assim, segundo
Moehlecke (2002), como essas questões estão relacionadas às oportunidades de
acesso ao ensino, inclusive em nível superior, é necessário que o governo
proponha políticas voltadas ao ensino público.
Nesta perspectiva, cita-se o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE),
conjunto de ações do Ministério da Educação (2009), em que a educação é vista
de forma integrada, da creche à pós-graduação. Mais de 40 programas que
procuram oferecer uma educação básica universal e de qualidade compõem esse
plano, sendo quatro os eixos norteadores: educação básica, educação superior,
educação profissional e alfabetização.
Especificamente no contexto da educação superior pública, entre outros, o plano
tem os seguintes princípios: expansão de oferta de vagas; garantia de
qualidade; e promoção de inclusão social. Entre as políticas propostas para o
ensino superior (ES) público, destacam-se o recente aumento das vagas e a
melhoria de inserção em universidades públicas via o Plano de Reestruturação e
Expansão das Universidades Federais (Reuni) e o Plano Nacional de Assistência
Estudantil (PNAES). Com relação ao ensino privado em nível superior, o PDE
promove inovações nos mecanismos de financiamento do estudante, com mudanças no
Fundo de Financiamento ao Estudante do ES (Fies), e também via Programa
Universidade para Todos (Prouni), visando a ampliação do ES e a inclusão de
grupos desfavorecidos.
Assim, dadas essas diferentes políticas de expansão do ES, as ações afirmativas
voltadas para este nível de ensino público perpassam justamente os três
princípios do PDE citados anteriormente, diminuindo a dificuldade de grupos não
favorecidos em sua inserção na sociedade. Essas políticas buscam reduzir a
discriminação e a desigualdade social em diferentes áreas, inclusive com
relação ao acesso ao ES público, objetivando corrigir as desigualdades
historicamente impostas a determinados grupos sociais e/ou étnico-raciais
(GOMES, 2003). Dada essa perspectiva histórica, as ações afirmativas pretendem
combater sistematicamente a discriminação, reduzir as desigualdades e buscar a
integração dos diferentes grupos sociais existentes (MOEHLECKE, 2002).
Esse autor justifica a adoção de tais políticas no fundamento jurídico e
normativo: tratar desiguais como desiguais. Entretanto, segundo o artigo 5º da
Constituição Federal: "Todos são iguais perante a lei, sem distinção de
qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes
no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade". Ainda assim, segundo Moehlecke (2002), as ações
afirmativas se justificam, pois tratar desiguais como iguais somente amplia a
desigualdade inicial. Ou seja, cabe aqui uma possível contradição entre a busca
por eliminar desigualdades historicamente acumuladas e a igualdade legal
corrente no país.
Mesmo considerando essa possibilidade de divergências na análise legal, algumas
propostas inclusivas têm sido formuladas no Brasil nas últimas décadas. Nos
anos 1980, em projeto de lei, estavam incluídos, entre outros, os seguintes
itens que procuravam mitigar as diferenças sociais e raciais no país: concessão
diferenciada de bolsas de estudo; e incorporação da imagem positiva da família
afro-brasileira ao sistema de ensino e à literatura didática e paradidática. Na
década de 1990, outras práticas e propostas tomaram corpo, que visavam manter
uma proporcionalidade étnica/racial na escola pública em todos os níveis, tais
como: mudanças no sistema de ingresso nas instituições de ES, pelo sistema de
cotas, pela utilização das taxas proporcionais, ou pela implementação de
sistemas de testes alternativos ao vestibular. Na década seguinte, efetiva-se a
adoção de cotas e de bônus adicional ao processo seletivo em diferentes
universidades no Brasil, que são as ações afirmativas mais discutidas
atualmente no país (MOEHLECKE, 2002).
Ou seja, existe um movimento crescente de políticas de ações afirmativas no
âmbito do ES público, mas há várias divergências em relação a essas políticas,
inclusive as legais descritas anteriormente. Jaccoud e Beghin (2002) apontam
quatro argumentos que se contraporiam a essas políticas: ferem o princípio da
isonomia (tratar iguais como iguais); desconsideram o mérito; desviam a atenção
do real problema da pobreza, concentrando-se na questão racial; e desconsideram
a miscigenação como fator que impossibilita definir no Brasil quem é ou não
negro. Além disso, há divergências e ambiguidades com relação aos benefícios da
implantação das ações afirmativas (FERMAN; ASSUNÇÃO, 2005), e se cabe à
universidade corrigir por meio dessas ações as deficiências da educação básica
brasileira (FREITAS, 2006).
Quanto a esse último ponto, deve-se ressaltar que ações afirmativas possuem
caráter emergencial e transitório, sendo que a continuidade das mesmas está
sujeita a análise após avaliação de seus resultados iniciais. A tendência é
melhorar e adaptar o sistema para uma efetiva inclusão do grupo socialmente
desfavorecido (GOMES, 2003). Entretanto, dado esse caráter emergencial, tais
políticas de forma alguma substituem um maior investimento em melhorias nos
ensinos fundamental e médio públicos, ao contrário, promovem uma discussão
sobre, justamente, a precariedade da escola básica gratuita brasileira. Porém,
uma melhoria do sistema de ensino é uma política com prazo de maturação maior,
o que justifica a proposição de políticas públicas alternativas.
Ferman e Assunção (2005) tratam da questão dos benefícios e ambiguidades das
políticas de ações afirmativas em um estudo para o caso brasileiro. Os autores
afirmam que essas ações podem aumentar os incentivos à parcela da população que
seria beneficiada pela política, já que as oportunidades antes não percebidas
por ela passam a ser mais tangíveis. Entretanto, os efeitos podem ser ambíguos,
uma vez que essa mesma população favorecida pode se acomodar com o benefício.
Assim, há várias controvérsias quanto aos efeitos positivos e negativos dessa
política, inclusive com relação aos não favorecidos pela política.
Fryer e Loury (2005) contribuíram para a discussão desse tema, destacando
alguns mitos com relação a essa ação afirmativa, muitos presentes na discussão
acima. Os autores apontam como mitos:
ações afirmativas devem envolver objetivos e prazos, mas não devem
definir cotas definitivamente;
políticas que não distinguem os indivíduos por cor oferecem um
eficiente substituto para aquelas que se baseiam na cor dos
indivíduos;
ações afirmativas criam oportunidades, mas não produzem incentivos;
leis de oportunidades igualitárias são suficientes para garantir a
equidade racial;
quanto antes as políticas de ações afirmativas forem implementadas
na educação ou no desenvolvimento da carreira, melhor;
muitos brancos (parcela não favorecida dessas políticas) são
diretamente afetados pelas ações afirmativas designadas a aumentar a
representação das minorias;
ações afirmativas sempre beneficiam os favorecidos.
Os autores se posicionam de modo favorável à adoção de cotas como ação
afirmativa para os grupos de cor desfavorecidos, uma vez que os benefícios para
esses seriam substanciais. Já em relação ao grupo de não-beneficiados pelas
políticas, os autores afirmam que, mesmo que uma parcela considerável da
população tenha sido não-selecionada por causa dessa política, o que de forma
geral não é o que acontece, isso provavelmente não teria grande impacto no
longo prazo para esses indivíduos.
Mesmo com controvérsias, divergências e ambiguidades, algumas medidas
favoráveis às cotas ou ao bônus adicional já são adotadas no Brasil (MOEHLECKE,
2002). No caso particular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), foi
criado em 2003 o Programa de Ações Afirmativas. A proposta privilegiou ações de
estímulo à permanência dos negros nos cursos de graduação, a partir do
fortalecimento do percurso acadêmico desses estudantes, que são em grande parte
oriundos de famílias de baixa renda (GOMES; MARTINS, 2004). Esse programa, que
está sendo ampliado e implementado na UFMG, é pautado na ideia de que a
universidade pública tem o dever e o compromisso social de reduzir os efeitos
antidemocráticos dos processos de seleção e de exclusão impostos aos negros
brasileiros.
Essas medidas estão inseridas na discussão recente sobre "que universidade
queremos" (ADRIOLA et al., 2009; ALMEIDA, 2009; DOMINGUES, 2008). Segundo
Adriola et al. (2009), citando Belloni (1992), a principal função da
universidade é gerar saber. Entretanto, segundo os mesmos autores, a
universidade é uma instituição social e, assim, deve, além de gerar
conhecimentos, formar profissionais de qualidade e disponibilizar conhecimentos
e profissionais para a sociedade. Ou seja, a universidade está necessariamente
arvorada sobre o tripé "pesquisa, ensino e extensão" e, portanto, tem
diferentes funções, entre as quais podem ser citadas a mobilidade social para
os filhos e filhas das famílias operárias; e servir de paradigma de aplicação
de políticas nacionais, como igualdade de oportunidades para mulheres e
minorias raciais (ADRIOLA et al., 2009).
Dessa forma, não cabe apresentar a universidade, por exemplo, como voltada para
a pesquisa de ponta ou para outro fator específico, mas sim abarcando uma visão
plural com múltiplos objetivos e aptidões.
Tendo em vista essas várias funções e as divergências de opinião quanto à
inclusão de grupos desfavorecidos na universidade, vê-se a importância de
ampliar a discussão sobre propostas concretas de democratização da universidade
pública brasileira via a adoção de ações afirmativas. Dessa maneira, o objetivo
desse trabalho é fornecer dados e análises para discussão sobre a adoção de
bônus adicionais raciais e/ou econômicos na UFMG, a qual atende,
principalmente, a estudantes da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH).
Assim, uma análise como a realizada no presente estudo para essa região
possibilita observar os resultados prováveis da introdução de políticas de
bônus adicional nas universidades públicas brasileiras, tendo como base
diferenças de raça/etnia, bem como a origem do estudante, se oriundo da escola
pública ou da privada.
Para tanto, esse texto foi dividido em quatro seções. A primeira é essa
introdução, que trata principalmente da conceituação teórica sobre as ações
afirmativas voltadas para a educação superior. A seção seguinte dedica-se à
análise descritiva dos dados, incluindo resultados sobre os indivíduos não-
aptos e aptos a ingressarem no ES, além dos estudantes de ES na RMBH, em
particular os da UFMG. Foram utilizados dados da Pesquisa Nacional por Amostra
de Domicílio (PNAD), de diferentes anos, e da Comissão Permanente do Vestibular
da UFMG (Copeve). Em seguida, na terceira seção, inicialmente discutem-se os
fatores que impactam no desempenho escolar no ensino médio na RMBH. Para tanto,
foram utilizados modelos Mínimos Quadrados Ordinários (MQO) aplicados aos dados
do Enem. Posteriormente, se descrevem diferentes simulações realizadas a partir
dessa mesma base de dados, com possíveis políticas de bônus adicional no
vestibular da UFMG, quanto à composição do corpo discente nessa instituição com
relação à cor e ao estrato socioeconômico. Em seguida, foram analisadas
possíveis consequências dessas políticas no que se refere ao potencial de
aprendizado do aluno que teria sua entrada facilitada na UFMG. Por fim, a
última seção conclui o trabalho.
Análise descritiva da escolaridade: RMBH e UFMG
Conforme ressaltado, dadas as condições de desigualdade no acesso ao ES,
políticas como as de ações afirmativas e de cotas buscam diminuir as barreiras
de inserção de grupos desfavorecidos. Deve-se ressaltar que a formulação de
tais políticas exige sólido conhecimento da população sobre a qual se deseja
atuar. Assim, nessa seção, procura-se fazer uma análise descritiva da
escolaridade por cor e renda, para diferentes grupos populacionais da RMBH e os
estudantes aprovados no vestibular da UFMG. Além disso, incluem-se dados sobre
estudantes universitários em escolas públicas e privadas na RMBH, também como
base de comparação.
A análise para a RMBH foi feita a partir dos microdados das PNADs de 1997, 2002
e 2007. Foram escolhidos dados a partir da década de 1990, por se tratar do
período em que as políticas de ação afirmativa, em especial a adoção de cotas
ou de bônus adicional, tiveram maior destaque no contexto brasileiro. No
entanto, essas políticas destinadas a negros e estudantes originados de escola
pública nas universidades públicas somente foram efetivadas depois de 2000.
Pretendeu-se, ainda, dar uma periodicidade de cinco anos para os dados da PNAD,
sendo que a base de dados mais recente disponível na época da pesquisa era a de
2007.
Já a análise descritiva dos estudantes aprovados no vestibular da UFMG foi
realizada por meio de dados fornecidos pela Copeve - Comissão Permanente do
Vestibular. Para a inscrição no vestibular, todos os candidatos devem preencher
um questionário socioeconômico que abrange, entre outras, informações sobre o
indivíduo, seu histórico escolar, sua condição financeira e sua família. Foram
utilizados os dados dos questionários dos vestibulares de 2004, 2006 e 2008,
pois somente a partir de 2003 foi incorporada uma pergunta referente à cor/raça
do indivíduo no questionário. O objetivo foi estudar o atual perfil
socioeconômico dos alunos aprovados na UFMG nos respectivos anos, já que a
discussão sobre cotas e outros meios de ação afirmativa é recente e pretende
atuar exatamente nos ingressantes na universidade. O acesso aos dados foi feito
através de tabelas preparadas pela Copeve sob requisição prévia.
Tendo em vista os objetivos da seção, esta foi dividida em três subseções: a
primeira descreve a população apta a ingressar no ES que reside na RMBH; a
segunda apresenta o perfil dos estudantes aprovados no vestibular da UFMG; e a
última traz a análise comparativa dos grupos, com o intuito de verificar se há
viés de seleção na UFMG, incluindo dados sobre os estudantes das universidades
públicas e privadas da RMBH.
Perfil dos indivíduos aptos a ingressarem no ensino superior na RMBH
A Tabela_1 apresenta dados, para 1997, 2002 e 2005, sobre cor ou raça, tipo de
escola frequentada no ensino médio e renda domiciliar, segundo diferentes
grupos populacionais da RMBH. Quanto à cor ou raça, para facilitar as análises,
chamou-se de "brancos" os indivíduos autodeclarados brancos e amarelos, e de
"não-brancos" aqueles autodeclarados pretos, pardos e indígenas. Esse
agrupamento foi realizado devido às semelhanças socioeconômicas entre os grupos
de cor ou raça que são classificados sob a mesma categoria na RMBH (PAIVA;
GOLGHER, 2007). Discutem-se, inicialmente, os resultados para toda a população
dessa região e, em seguida, para grupos mais específicos. A renda mensal
domiciliar é expressa em faixas de salários mínimos (SM), tendo março de 2009
como referência.
A RMBH apresentou aumento populacional entre 1997 e 2007, passando de 3.907.126
para 5.076.485 habitantes. Houve expansão territorial na RMBH durante o
período, mas os municípios acrescidos representam menos de 8% da população
total (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2008), sendo que essa incorporação não altera a
tendência geral.
Quanto à cor, a população da RMBH se dividia em proporções semelhantes entre
brancos e não-brancos em 1997 e 2002. Entretanto, entre esse último ano e 2007,
houve um aumento marcante do percentual de não-brancos (de 49,7% para 59%).
Essa mesma tendência foi verificada nos dados de Minas Gerais e do Brasil,
indicando que existem limitações e particularidade inerentes à autodeclaração
de cor.
Os recentes movimentos de orgulho negro e também as políticas pró-grupos
desfavorecidos, incluindo toda a discussão de cotas e ações afirmativas,
parecem ter influenciado a forma subjetiva de percepção da própria cor por
parte do indivíduo. Como consequência, muitos que se classificavam como pardos
passaram a se autodeclarar negros e, principalmente, muitos que antes eram
brancos passaram a ser negros.
Quanto à renda domiciliar, vê-se que a maioria da população da RMBH encontrava-
se na faixa de até 5 SM nos três anos analisados. Não se percebe tendência
marcante ao longo dos anos e, no entanto, qualquer mudança ocorrida seria muito
pequena diante da grande desigualdade de renda presente na região.
Além dos dados para a população da RMBH, a Tabela_1 apresenta informações para
dois grupos populacionais específicos. Assim, buscou-se selecionar a maioria
dos indivíduos da RMBH que teriam escolaridade suficiente e que poderiam
pleitear uma vaga na UFMG. Primeiro, foram identificados os estudantes que
estavam cursando o último ano do ensino médio (grupo 1) e, depois, os
indivíduos que já tinham concluído o ensino médio, mas não estavam cursando
qualquer ano do ES (grupo 2). Neste último grupo, a idade de 30 anos foi
estabelecida como limite, tendo como base os dados da Copeve da UFMG, que
identificou que os indivíduos nesta faixa etária constituem a quase totalidade
daqueles que ingressam na UFMG.
A partir dessa seleção, verificou-se que as pessoas consideradas aptas a
ingressarem no ES na RMBH correspondiam a cerca de 190 mil em 1997, 377 mil em
2002 e quase 480 mil indivíduos em 2007. Esse incremento no número de
indivíduos aptos ao longo dos anos deveu-se, principalmente, ao aumento da
escolaridade média na RMBH, uma vez que tal crescimento foi muito superior ao
observado pela população em geral. A Tabela_1 detalha os resultados para os
dois grupos estudados, sendo que o segundo era muito mais numeroso do que o
primeiro nos três anos analisados, em números relativos crescentes, indicando
haver na região uma elevada demanda reprimida por ES.
Em 1997, pouco mais de 50% dos grupos 1 e 2 eram formados por brancos, sendo
que a parcela de não-brancos era ligeiramente inferior. Em 2002, as cifras
correspondiam a aproximadamente 50% para cada um dos grupos de cor. Entretanto,
entre 2002 e 2007, houve uma variação marcante nesses percentuais, também
observada para a população total: os brancos passaram de aproximadamente 50%
para 40% e comportamento inverso ocorreu com os não-brancos. Isso demonstra
que, entre outros aspectos, com a maior tendência de se autodeclarar preto ou
pardo no fim do período, há maior proporção de negros concluindo o ensino médio
e se tornando aptos a entrarem na universidade.
Portanto, tendo em vista que um percentual mais elevado de não-brancos tem
chegado à conclusão do ensino médio na RMBH, a democratização do acesso ao ES
para os diferentes grupos de cor pode acontecer, em parte, devido ao aumento
dessa população apta a ingressar na universidade. Assim, para a continuidade da
inserção dos não-brancos no ES, são fundamentais a universalização do ensino
fundamental, a ampliação do ensino médio e a melhoria na qualidade de ambos,
como forma de capacitar os jovens a pleitearem uma vaga na universidade.
A Tabela_1 mostra ainda que aproximadamente 80% dos estudantes no último ano do
ensino médio estavam na rede pública. Quando se comparam as distribuições de
renda da população da RMBH e dos grupos 1 e 2, nota-se uma dupla seletividade
com relação a duas transições na região. Primeiramente, os indivíduos com renda
acima de um patamar relativamente baixo (superior a 2 SM em 2007), tornavam-se
com maior probabilidade aptos a ingressarem na universidade, uma vez que os
grupos com menor renda são relativamente mais numerosos na RMBH. Entre os aptos
ocorria um segundo processo seletivo em um patamar mais elevado de renda
(aproximadamente 10 SM), em que aqueles com maior renda passavam a fazer parte
do grupo dos universitários com maior probabilidade, enquanto o restante
continuava preferencialmente entre os aptos a ingressarem no ES, mas evadiam do
sistema de ensino nessa transição entre o ensino médio e o superior.
Perfil dos estudantes aprovados no vestibular da UFMG
A Tabela_2 apresenta dados para os estudantes aprovados em três dos últimos
seis vestibulares da UFMG. Nota-se que, de 2004 a 2008, a universidade aumentou
em 120 o número de vagas.

Em relação ao local de residência no momento da inscrição ao vestibular, os
alunos aprovados residiam, em sua maioria, na RMBH. No que tange a distinção
por cor ou raça, os dados da tabela mostram que os brancos predominavam entre
os ingressantes na UFMG. Cabe mencionar o aumento expressivo dos estudantes que
não desejaram declarar cor ou raça, passando de 5,9%, em 2004, ano em que essa
opção de resposta à pergunta proposta foi incorporada ao questionário
socioeconômico, para 10,9%, em 2008. No entanto, para que houvesse uma melhor
comparabilidade dos dados, os percentuais para os grupos de cor ou raça foram
calculados em 100%, desconsiderando os que não desejaram declarar. Em sua
maioria, os alunos aprovados no vestibular cursaram o ensino médio,
inteiramente ou em sua maior parte, em escola privada.
Quanto à distribuição por renda, nota-se certa estabilidade temporal.
Aproximadamente 5% dos estudantes aprovados no vestibular da UFMG se
enquadravam na faixa de renda mensal familiar inferior a dois salários mínimos.
A maioria dos estudantes aprovados (cerca de 70%) se encontrava nas faixas de
renda de 2 a 15 SM e aproximadamente um quarto tinha uma renda acima dessa
faixa.
Em relação à escolaridade dos pais, percebe-se que houve aumento no nível de
instrução, entre 2004 e 2008. Nesse período, ocorreu redução de aproximadamente
8% nas parcelas de pais e mães com ensino fundamental incompleto. Por outro
lado, observa-se aumento nas proporções com ensino superior incompleto e
completo: pais com esse nível de escolaridade representavam, em 2008, mais de
47% do total, indicando que os ingressantes na UFMG são oriundos de famílias
com alto nível de educação formal.
Para compreender melhor a composição dos estudantes aprovados no vestibular da
UFMG com relação à cor ou raça por faixa de renda mensal familiar, foi
realizada uma análise mais detalhada, em que os estudantes que não desejaram
declarar a própria cor ou raça não foram incluídos.
A Tabela_3 mostra a distribuição dos estudantes não-brancos e a razão entre as
proporções de não-brancos e brancos, segundo faixas de renda domiciliar.
Observa-se que os não-brancos são sobrerrepresentados nas faixas de renda mais
baixas, enquanto os brancos são mais representativos nas faixas mais elevadas.
A proporção de não-brancos na faixa de menos de 2 SM era mais de duas vezes
superior àquela de brancos em todos os anos analisados. Essa razão diminuía com
o aumento da renda e, a partir de 10 SM, as proporções de brancos superam as de
não-brancos nos três anos.
Há também uma marcante diferenciação do tipo de escola que o estudante havia
cursado o ensino médio, de acordo com sua cor ou raça. O Gráfico_1 apresenta a
proporção de brancos e não-brancos que estudaram em escola pública durante o
EM, entre os aprovados na UFMG no período de 2003-2008. Verifica-se que houve
uma leve tendência de queda na participação dos estudantes de escola pública
tanto para brancos quanto para não-brancos. O gráfico também evidencia que
somente cerca de 30% dos estudantes brancos e aproximadamente 50% dos não-
brancos vieram de escola pública.
[/img/revistas/rbepop/v27n2/07g01.jpg]
O tipo de escola cursada pelo estudante no ensino médio está diretamente
relacionado à sua renda mensal familiar: quanto maior a renda, maior a
probabilidade de o indivíduo estudar em escola privada. O Gráfico_2 mostra essa
relação de forma bastante clara. Nota-se que até uma renda de cinco salários
mínimos, os oriundos de escolas públicas eram maioria, sendo que, a partir
dessa faixa, ocorre o contrário. Entretanto, observa-se que, mesmo para rendas
relativamente elevadas, acima de 10 SM, a proporção de estudantes originados da
escola pública girava em torno de 10%. Isso, porém, não indica que eles, em sua
maioria, estavam em escolas estaduais e municipais, uma vez que muitos deviam
ser estudantes de escolas federais, que, como será visto adiante, apresentam
desempenho escolar muito superior às demais públicas.
[/img/revistas/rbepop/v27n2/07g02.jpg]
Um fator importante que influencia fortemente na probabilidade de o indivíduo
estudar ou não em diferentes níveis é a educação da mãe, do pai ou da pessoa de
referência no domicílio (BARROS et al., 2001). Quanto maior é o nível de
instrução dos pais, maior tende a ser a importância dada à educação dos filhos,
como discutido na seção anterior (LEE; BARRO, 1997). Como as escolas privadas
são, em média, melhores em termos qualitativos do que as públicas, é possível
inferir que pais com maior nível de estudo apresentam maior tendência de
matricular seus filhos em escolas privadas, mesmo controlando pela renda. Esse
fato foi observado para os dados da UFMG.
As descrições apresentadas nessa subseção dão o panorama geral do perfil dos
estudantes aprovados nos vestibulares da UFMG de 2004 a 2008, que serão
comparados com diferentes grupos de indivíduos da RMBH no próximo item.
Aprovados na UFMG em contraposição a diferentes grupos de indivíduos da RMBH
Pretende-se, aqui, analisar a abrangência que a UFMG tem com relação à
população apta a ingressar no ES da RMBH e contrastar os diferentes universos
populacionais. Para tanto, foi feito um paralelo entre as pessoas dos grupos 1
e 2 descritos anteriormente, aquelas da RMBH que efetivamente estudavam no ES,
tanto na rede privada como na pública, e os estudantes aprovados no vestibular
da UFMG. Escolheu-se como base comparativa o ano de 2007, ao qual correspondiam
os dados mais recentes em todas as bases utilizadas.
A Tabela_4 permite perceber as diferenças entre esses grupos de pessoas da
RMBH. Entre os 204.614 estudantes do ES na RMBH, mais de 85% (175.851)
frequentavam instituições privadas, sendo que aqueles que cursavam
universidades públicas eram minoria (28.763).1 Note-se, ainda, que a UFMG
oferecia menos que 5 mil vagas anuais. Dessa forma, pensar a questão da
democratização de acesso à educação superior no Brasil abrange não somente o
ensino público, mas também outras maneiras de inserção dos estudantes via
ensino privado, como proposto pelo PDE.
Assim, qualquer ação afirmativa no ES público somente na UFMG terá pequeno
impacto no estoque de indivíduos aptos a ingressarem no ES no curto prazo.
Entretanto, do ponto de vista individual, tais políticas tendem a apresentar
impacto decisivo nas possibilidades de inserção de grupos menos favorecidos.
Além disso, dadas as externalidades positivas do incremento de capital humano,
essa melhoria na forma de inserção tem retornos sociais muito superiores aos
individuais (MORETTI, 2004), justificando a implementação das políticas de
inserção.
Com relação à cor ou raça, a proporção de brancos era muito similar para os que
ingressaram na UFMG e para aqueles que estudavam nas universidades públicas na
RMBH (aproximadamente 70%), lembrando-se que a UFMG é a maior escola pública de
ES da região. Já nas instituições privadas e entre aqueles aptos a estudarem no
ES, tal percentual correspondia a cerca de 57% e 40%, respectivamente.
Diferenças marcantes também são observadas com relação ao ensino médio: mais de
80% dos estudantes do último ano desse nível de ensino da RMBH frequentavam
escola pública e somente pouco mais de 30% do total dos aprovados na UFMG eram
originados da rede pública de ensino. Fica claro que os alunos de escola
privada têm maior probabilidade de entrar na UFMG do que os de escola pública.
Os dados sobre a renda mensal familiar demonstram que os alunos da UFMG se
concentram em faixas de renda mais favorecidas quando comparados com os
indivíduos da RMBH aptos a estudarem. A maior diferença é verificada para renda
mensal familiar inferior a 2 SM, mostrando que são poucos os indivíduos mais
carentes que ingressam na UFMG. Observa-se também certa similaridade entre as
universidades públicas e privadas em relação à renda.
Verifica-se, ainda, que a escolaridade da pessoa de referência no domicílio era
muito superior para os estudantes aprovados na UFMG do que para os indivíduos
aptos. Há, ainda, uma diferença marcante entre a rede pública e a privada de
ES, em favor da primeira, significando que os estudantes da rede pública de ES
têm familiares com maior nível de escolaridade do que os da privada, mesmo que
a distribuição de renda seja similar.
As análises realizadas nessa seção fornecem dados para se conhecer o perfil dos
indivíduos nos três universos sobre os quais se está pesquisando: os residentes
na RMBH aptos a estudarem no ES; os estudantes nesse nível de ensino na região;
e os aprovados no vestibular da UFMG. Os dados descritivos apresentados aqui
permitem analisar diversos fatores que confrontam os aprovados na UFMG com
outros grupos populacionais na RMBH. Observou-se que existem diferenças
marcantes entre esses grupos com relação à distribuição por cor/raça, renda
domiciliar e escolaridade dos pais, fatores que afetam a inclusão no ES.
Outro ponto a ser destacado refere-se aos diferenciais nestes mesmos grupos
populacionais quanto à rede de ensino frequentada. Ou seja, são múltiplos os
fatores, vários com forte correlação entre si, que definem como se dará a
passagem do EM para o ES e se esse realmente ocorrerá. Na próxima seção, esse
ponto será estudado com a utilização de modelos MQO. Além disso, abordam-se as
consequências da aplicação de políticas de bônus adicional na UFMG, ambos
estudos baseados nos resultados do Enem de 2005.
Um estudo de caso sobre a aplicação de bônus adicional na UFMG
Nessa seção, dividida em três partes, discutem-se alguns dos efeitos da
aplicação de bônus adicional na UFMG, tendo também como base a recente expansão
de vagas no ES público brasileiro via Reuni. Primeiro, são abordadas algumas
das variáveis que influenciam no desempenho escolar de estudantes no EM. Em
seguida, são realizadas simulações com diferentes políticas de bônus adicional,
em que foram analisadas as consequências com relação à distribuição étnica e de
renda para os indivíduos que ingressariam na UFMG. Por fim, são estudados os
possíveis impactos no potencial de aprendizado do aluno da UFMG em virtude
dessas políticas.
Fatores que influenciam o desempenho escolar do ensino médio na RMBH
São diversos os fatores que influenciam o desempenho escolar do estudante no
ensino médio e, consequentemente, na nota que um possível candidato obteria no
exame vestibular da UFMG. Para analisar esse ponto, foram utilizados os
resultados do Enem obtidos tanto nas provas objetivas quanto na redação, como
proxi para um resultado potencial nesse exame vestibular. Esse fato se
justifica por pelo menos duas razões. A primeira é que o Enem, com modificações
a serem futuramente incorporadas, deverá, em breve, ser utilizado como método
de seleção nas instituições de ES no Brasil. Além disso, espera-se que o
resultado obtido no Enem seja muito correlacionado com o resultado efetiva ou
potencialmente alcançado no exame de seleção da UFMG.
O Enem, elaborado pelo Inep e destinado aos alunos que estão concluindo ou já
concluíram o ensino médio, avalia as competências e habilidades adquiridas
nesse nível de ensino (para mais detalhes ver www.enem.inep.gov.br). Nas
análises empreendidas neste trabalho, foram utilizados os microdados do Enem de
2005.
Como demonstrado anteriormente, a maioria dos estudantes que ingressam na UFMG
tem como origem algum município da RMBH. O Enem de 2005 para essa região contou
com um total de 45.520 inscritos, dos quais 33.132 tiveram resultados positivos
nas provas objetivas e na de redação e foram selecionados para as análises
posteriores. Entre esses, a maior parte (72,6%) era proveniente de escolas
estaduais, vindo em seguida os oriundos de escolas particulares (14,3%),
municipais (11,4%) e federais (1,7%).
Note-se que os inscritos nesse exame constituíram uma seleção positiva entre
todos os que poderiam fazer o exame. De forma geral, escolas de melhor
qualidade apresentam maiores proporções entre os inscritos no Enem. Além disso,
entre os inscritos, os que efetivamente tiveram notas positivas nas duas provas
do exame também formam uma seleção com viés positivo. Assim, a seleção da
amostra de alunos que efetivamente obtêm nota positiva no Enem é uma amostra
não-randomizada, uma vez que não retrata de forma representativa todos os
estudantes que terminam o ensino médio. Vários fatores influenciam esse viés
positivo de seleção da amostra, incluindo aqueles observáveis, tais como renda
domiciliar, escolaridade dos pais, cor/raça, gênero, etc., bem como aspectos
não-observáveis, como motivação, esforço, habilidades intrínsecas, etc.
Assim, ao se discutirem os fatores observáveis que impactam no desempenho
escolar dos alunos de diferentes escolas, deve-se abordar o problema de
autosseleção. Por exemplo, resultados econométricos derivados de amostras com
autosseleção que não tratam explicitamente desse viés podem apresentar
problemas de estimação. Dessa forma, diferentes métodos de correção são
propostos, inclusive o método de dois estágios de Heckman (1979). Entretanto, a
autosseleção positiva não traz problemas marcantes para a análise específica
empreendida aqui, uma vez que os potenciais estudantes no ES também são
positivamente selecionados pelos mesmos motivos que influenciam a autosseleção
da prova do Enem.
Como proxi para o resultado que seria obtido pelo indivíduo no vestibular da
UFMG, foi utilizada uma média ponderada das notas do Enem: a nota da prova
objetiva com peso 2/3; e a nota da redação com peso 1/3. Tentou-se, assim,
aproximar os assuntos analisados pelo Enem dos pesos observados no exame
vestibular. Dessa maneira, os valores da proxi variavam de 0 a 100 e, além
disso, tinham uma distribuição aproximadamente normal, com leve assimetria em
direção aos valores menores, com média 46,6 e desvio-padrão 13,5. Essa foi a
variável dependente utilizada nos modelos MQO.
Como variável independente, foram utilizados fatores que influenciam o
desempenho escolar do estudante. A identificação dessas variáveis teve como
base a discussão desenvolvida na primeira seção desse texto e também o estudo
de Silva e Hasenbalg (2002), que incluem tanto características pessoais quanto
informações relativas ao capital econômico, cultural e social do indivíduo.
Segue uma breve explicação de cada uma das variáveis incluídas nos seis
modelos, cujos resultados são apresentados na Tabela_5.
No primeiro modelo, incluem-se variáveis individuais - idade, sexo e cor - e se
o indivíduo trabalhava. A idade é uma importante variável de controle, pois
podem existir diferenciais no desempenho escolar que sejam correlacionados com
a faixa etária do indivíduo. Essa variável é incluída no seguinte formato: 1
para até 17 anos, 2 para 18, 3 para 19, até 9 para 25 anos e mais. No entanto,
a relação entre idade e desempenho escolar pode ser não-linear e, então,
incluiu-se um termo quadrático da idade para captar uma possível concavidade
nessa relação. Quanto ao sexo, foi incluída uma dummy com os seguintes valores:
1 para o sexo feminino e 0 para o masculino. De forma geral, as mulheres
apresentam maior escolaridade do que os homens (BRAGA; PEIXOTO, 2006) e a
expectativa inicial é de que o coeficiente seja positivo. Para cor/raça foi
também utilizada uma dummy: 1 para brancos/amarelos e 0 para pretos/pardos/
indígenas.
A partir da análise da seção anterior, espera-se que o coeficiente da variável
seja positivo, pois indivíduos brancos/amarelos tendem a apresentar maiores
níveis de escolaridade, mesmo controlando por efeitos correlacionados às demais
variáveis incluídas nos modelos. No modelo 1 foi incluída ainda uma outra
variável individual em formato de dummy, indicando se o indivíduo trabalhava ou
não (1 para sim e 0 para não).
Os modelos 2 e 3 incluem também fatores familiares que podem impactar no
desempenho escolar. A renda domiciliar foi inserida no modelo e se correlaciona
com o montante de recursos econômicos disponíveis aos jovens das famílias.
Devido à possibilidade de um efeito não-linear dessa variável, foram incluídas
cinco dummies indicando a renda: menos de 2 SM, de 2 a 5 SM, de 5 a 10 SM, de
10 a 30 SM e acima de 30 SM. A primeira entre essas categorias foi utilizada
como referência nos modelos.
Outro fator que pode influenciar no desempenho escolar é a escolaridade da
pessoa de referência no domicílio, uma variável relacionada com o capital
cultural e social do ambiente em que o indivíduo está inserido. Essa variável
foi incluída no modelo 2 e foi medida em termos de anos de escolaridade
completos da pessoa de referência no domicílio. Pelas mesmas razões descritas
para renda, foram confeccionadas quatro dummies para a variável, respeitando as
transições do sistema de ensino brasileiro e o efeito diploma: até o ensino
fundamental incompleto; até o ensino médio incompleto; ensino médio completo; e
ensino superior incompleto ou completo. Essa última categoria foi utilizada
como referência para as demais nos modelos.
Além disso, como discutido para os demais modelos apresentados na Tabela_5,
aspectos relacionados à escola também podem ser decisivos. O modelo 4 inclui as
variáveis individuais presentes no modelo 1 e quatro dummies referentes ao tipo
de escola do inscrito no Enem no ensino médio: se estadual, se federal, se
municipal ou se privada, todas com 1 para sim e 0 para não. A primeira das
categorias foi utilizada como referência.
O modelo 5 inclui todas as variáveis presentes nos modelos 3 e 4. Já o modelo 6
inclui ainda algumas outras dummies, todas com 1 para sim e 0 para não: três
indicando se o indivíduo tinha estudado o ensino fundamental em escola pública,
em escola privada ou uma parte em cada tipo de escola, sendo a primeira
classificação utilizada como referencia; e quatro dummies indicando se o
indivíduo tinha cursado o ensino médio no turno diurno, a maior parte no turno
diurno, a maior parte no turno noturno ou somente no noturno, sendo que a
primeira dessas foi a referência.
Uma vez apresentadas as variáveis independentes, segue a discussão dos
resultados. Note-se que todas as variáveis foram significativas em todos os
modelos.
A variável idade teve um coeficiente negativo em todos os modelos e essa
variável ao quadrado foi positiva em todos eles. Ou seja, a relação da nota com
a idade é decrescente e convexa. Assim, indivíduos mais jovens tendem a ter uma
nota maior e a diferença entre as idades tende a diminuir com o aumento da
mesma.
No modelo 1, a dummy de sexo foi negativa, indicando que as mulheres, quando
controlados os efeitos das demais variáveis do modelo, tinham um resultado
inferior em aproximadamente três pontos em comparação aos homens. Observe-se,
ainda, que em todos os modelos o coeficiente foi negativo e variava entre -3,06
e -1,68. Isso parece contradizer os resultados esperados, uma vez que, de forma
geral, as mulheres no Brasil têm melhores níveis educacionais. Entretanto, esse
resultado em favor dos homens é afetado pela ponderação utilizada na proxi
referente à nota no vestibular. Em geral, homens apresentam melhores resultados
na prova objetiva e mulheres, na prova de redação. Assim, caso a proxi
utilizada fosse uma média simples das notas do Enem, o resultado seria distinto
e mais favorável às mulheres. Além disso, o maior diferencial entre os sexos é
observado até a conclusão do ensino médio. Ou seja, já que apenas os que
concluem esse nível de ensino estão entre os inscritos no Enem, esses
diferenciais não são captados pelos modelos MQO. Além disso, como salientado
anteriormente, entre os concluintes do ensino médio, os que efetivamente tinham
notas positivas no Enem constituíam uma seleção positiva e não podem ser
considerados representativos de toda a população.
Note-se, ainda, que os homens tendem a participar mais do mercado de trabalho e
também, em parte devido a essa maior participação na População Economicamente
Ativa (PEA), são em média mais velhos do que as mulheres. Esses dois fatores
impactam negativamente no desempenho escolar, como poder ser observado pelos
coeficientes negativos da variável idade e da dummy de trabalha.
A dummy de cor teve um coeficiente positivo em todos os modelos, indicando que
brancos/amarelos obtinham resultados melhores no Enem. Entretanto, o valor do
coeficiente no modelo 1 foi superior a 4, enquanto no modelo 6 correspondeu a
apenas 0,68. Isto é, a diferença entre etnias, uma vez controlados os efeitos
das demais variáveis, é pequena, menos de 1 ponto, apesar de significativa. Ou
seja, outros fatores incluídos nos modelos explicam em grande medida os
diferenciais entre esses grupos.
A última das variáveis individuais mostrou que pessoas que trabalhavam tendiam
a ter notas menores, mesmo controlando pelos demais fatores. Todavia, assim
como observado para cor, a diferença diminui com o aumento do número de
variáveis independentes e no modelo 6 era pequena, menor que 1 ponto, mesmo que
significativa.
O modelo 2 inclui também as dummies de renda familiar. Verifica-se que todas as
dummies foram positivas e significativas, indicando que, com o aumento da
renda, as notas no Enem tendiam a aumentar. Entretanto, observa-se que até 5 SM
a diferença não é tão marcante (aproximadamente 4 pontos) e, a partir de 10 SM,
os diferenciais tendem a se estabilizar próximos de 20 pontos. Verifica-se que
grande parte dos diferenciais devido à cor e a inserção no mercado de trabalho
diminuem com a inclusão das dummies de renda.
O modelo 3 inclui também as dummies de escolaridade da mãe. Todos os
coeficientes foram positivos e significativos. Note-se que os coeficientes de
renda familiar, mesmo tendo diminuído, continuaram positivos e significativos.
Assim, mesmo controlando pela renda, a influência da escolaridade da mãe é
marcante e próxima de 10 pontos para o ES incompleto ou completo.
O modelo 4 inclui somente as variáveis individuais e as relacionadas ao tipo de
escola. O objetivo é retirar os efeitos de renda familiar e escolaridade da mãe
dessa análise inicial. Indivíduos originados ou que estudavam em escolas
federais tinham um resultado 26 pontos acima daqueles ligados às escolas
estaduais, mesmo controlando pelos atributos individuais. Para as escolas
particulares, essa diferença era de 17 pontos. Escolas municipais e estaduais
diferenciam em pouco mais de 1 ponto em favor das primeiras, com resultados
muito similares entre elas. Ou seja, escolas federais e particulares tinham
resultados muito superiores às demais.
O modelo 5 inclui também as variáveis de renda familiar e escolaridade da mãe.
Observe-se que os coeficientes de renda e escolaridade da mãe diminuem um
pouco, uma vez que são correlacionados com o tipo de escola frequentado pelo
aluno, mas ainda assim continuam significativos e com grande magnitude. Deve-se
ressaltar que, mesmo controlando pelas variáveis socioeconômicas, indivíduos de
escolas privadas tinham um resultado 10 pontos superiores aos da rede estadual
e os de escola federal apresentaram diferencial de mais de 20. Isto indica que
existem outros fatores relacionados ao tipo de escola, distintos do nível de
renda ou escolaridade da mãe, que impactam de forma marcante no desempenho
escolar.
O último dos modelos inclui todas as variáveis do modelo 5 e outras sete
dummies referentes ao ensino fundamental e ao turno do ensino médio. Mesmo
controlando por todos esses efeitos, pessoas mais jovens, do sexo masculino e
que não trabalhavam tinham notas superiores. O diferencial entre os grupos de
cor era de apenas 0,68, mas significativo. A renda familiar, mesmo na faixa de
2 a 5 SM, tinha um impacto maior do que esse, acima de 2 pontos. Note-se,
ainda, que o coeficiente para uma renda acima de 10 SM era superior a 6 pontos,
indicando que a renda impactava de maneira decisiva nos diferenciais
educacionais. Mesmo controlando pela renda e outros fatores, a escolaridade da
mãe tinha grande influência nas notas, principalmente a partir do ensino médio
completo, acima de 2,5.
Quanto ao tipo de escola no ensino médio, a diferença entre as escolas federais
e estaduais era de mais de 20 pontos. Ou seja, os universos de escolas públicas
federais são muito diferentes das demais escolas públicas em fatores não
captados pelas variáveis incluídas nos modelos. A diferença entre as escolas
particulares e estaduais era de mais de 7 pontos, muito inferior ao observado
na comparação anterior, uma vez que grande parte dos diferenciais entre escolas
privadas e estaduais/municipais relaciona-se ao nível socioeconômico.
O modelo 6 inclui ainda as duas dummies referentes ao local onde o indivíduo
tinha estudado no ensino fundamental. Note-se que ambas - tanto somente uma
parte como todo ele cursado na rede privada - foram positivas, sugerindo a
importância da formação fundamental nos resultados do Enem e indicando, como
proposto no PDE, que o ensino seja abordado em uma perspectiva integrada.
Verifica-se que, com a inclusão dessas últimas dummies, ocorre uma diminuição
nos coeficientes socioeconômicos e com relação ao tipo de escola no ensino
médio, mostrando a correlação positiva entre as variáveis.
Por fim, o turno no qual foi feito o ensino médio teve pequeno impacto nas
notas, sempre menor que 2 pontos. Note-se que, uma vez controlados os demais
efeitos, estudar somente no turno diurno não apresentava resultados maiores do
que em todas as demais possibilidades.
Como conclusão final sobre esses modelos, pode-se inferir que são múltiplos os
fatores que impactam na nota do indivíduo no Enem e, portanto, em sua
possibilidade de inserção no ES público. Entre esses aparecem a cor/raça do
indivíduo, a renda familiar, a escolaridade da mãe e os efeitos da menor
qualidade das escolas estaduais e municipais. Como todos esses fatores são
inter-relacionados, indivíduos não-brancos tendem a ser excluídos não por causa
de um deles especificamente, mas pela interação de todos eles. Uma comparação
entre os modelos 1 e 6 indica que fatores socioeconômicos explicam a maior
parte dos diferenciais entre os grupos de cor/raça, mas não tudo. Uma diferença
residual permanece mesmo com a inclusão de todas as variáveis do modelo 6.
Simulações de políticas de bônus adicional
Os modelos econométricos indicaram alguns dos fatores que influenciam no
desempenho escolar do estudante, em particular a cor do indivíduo e o tipo de
escola cursada no ensino médio. Nessa seção são apresentadas algumas simulações
com relação à implementação de políticas de bônus adicional na UFMG que tratam
dessas variáveis.
Para tanto, deve-se, inicialmente, fazer um paralelo entre as notas da proxi
utilizada aqui e as notas potenciais no vestibular da UFMG. A Tabela_6 compara
alguns dados dos aprovados nessa instituição, como descrito na base de dados da
Copeve, com os dados do Enem, segundo cor/raça, tipo de escola, renda familiar
e escolaridade da pessoa de referência. Dada a diferença de qualidade de ensino
entre as escolas federais e as demais públicas, como apresentado anteriormente,
essas primeiras são descritas também em separado.
O objetivo é definir uma nota da proxi utilizada nesse trabalho, de forma a
obter uma composição discente como retratado pelo Enem mais próxima possível
dos realmente aprovados na UFMG. Para tanto, foram consideradas diferentes
notas de corte na proxi utilizada.
Tomando como base a distribuição étnica, a nota de corte para entrar na UFMG
seria entre 75 e 80 pontos na proxi utilizada. Para as redes pública e privada,
teríamos uma nota de corte entre 70 e 75 pontos. Entretanto, note-se que as
escolas federais, embora contassem com aproximadamente 50 vezes menos inscritos
no Enem do que as estaduais na RMBH, responderiam por metade dos aprovados da
rede pública. Tomando como base a distribuição de renda, a nota de corte
giraria em torno de 75 pontos e, fazendo o mesmo com a escolaridade da pessoa
de referência, ficaria próxima de 70.
Essa discussão sinalizou que a proxi com as notas do Enem ficaria em torno de
70 a 75 pontos para que os indivíduos aprovados na UFMG fossem semelhantes, nos
vários aspectos, aos grupos de pessoas do Enem. Partindo disso e sabendo que
existem cursos mais concorridos do que outros na UFMG, optou-se por utilizar
duas notas de corte distintas (uma acima e outra abaixo desses valores), que
seriam a média geral. A nota 60 foi escolhida como de corte para os cursos
menos concorridos, pois o número de indivíduos com nota do Enem acima desse
valor é superior ao número de aprovados na UFMG. Isso se justifica porque
muitos, entre esses que têm nota superior a 60 no Enem, fariam vestibular para
cursos mais concorridos e não seriam aprovados na UFMG. Assim, julgou-se que
essa nota retrataria com uma aproximada fidedignidade os cursos menos
concorridos. Já a nota 80 foi escolhida como corte para os cursos mais
concorridos por englobar um grupo populacional com os indicadores sociais mais
elitizados do que os aprovados na UFMG. Além disso, o número de indivíduos
(619) foi julgado razoável para espelhar os melhores colocados de todos os
cursos e mais aqueles que efetivamente passaram em cursos mais concorridos,
como Medicina, Engenharia Química e Ciências Biológicas diurno.
Foram feitas cinco simulações de políticas de bônus adicional que são
semelhantes àquelas efetivamente adotadas nas instituições de nível superior no
Brasil. As notas no Enem das pessoas de cor preta/parda/indígena foram
aumentadas em 5%, na primeira simulação, e em 10%, na segunda. Na terceira, as
notas dos estudantes da rede pública foram aumentadas em 10%. Dada a grande
disparidade entre as escolas federais e as demais públicas, na simulação 4,
somente as notas das pessoas das escolas estaduais e municipais foram
aumentadas em 10%. A simulação 5 aumenta ainda em 5% as notas das pessoas de
cor preta/parda/indígena. Note-se que as demais notas não foram alteradas e,
portanto, mais pessoas seriam aprovadas no vestibular, o que segue a política
de expansão do ES via Reuni.
A Tabela_7 mostra os resultados dessas simulações com relação à proporção de
não-brancos e a de estudantes originados dos diferentes tipos de escola, para
os cursos mais e os menos concorridos. Quando comparados com os dados originais
do Enem, como mostra os resultados para a simulação 1 com aumento de 5% nas
notas dos não-brancos, a proporção desse grupo de cor, nos cursos menos
concorridos, passaria de 42,2% para 49,6% e, nos mais concorridos, a mudança
seria ainda maior, de 29,2% para 46,0%. Observa-se que também ocorre aumento na
proporção de pessoas originadas das escolas estaduais e municipais.
Na segunda simulação, que incrementa em 10% as notas dos não-brancos, as
variações, de forma geral, são semelhantes, mas ainda maiores do que as
verificadas na primeira simulação.
A terceira simulação aumenta em 10% a nota dos estudantes oriundos das escolas
públicas, não fazendo qualquer alteração com relação à cor. Comparando com a
primeira simulação, note-se que o impacto quanto à proporção dos não-brancos
nos cursos menos e mais concorridos seria inferior. Além disso, a proporção de
estudantes oriundos da rede pública, inclusive das escolas estaduais e
municipais, aumentaria muito. Porém, muitos dos beneficiados, principalmente
nos cursos mais concorridos, seriam os estudantes das escolas federais, que,
como visto anteriormente, frequentam escolas de boa qualidade e já apresentam
maiores probabilidades de ingressarem no ES. Cabe aqui uma ressalva se esses
deveriam ser beneficiados pelas políticas de bônus adicional ou não.
Assim, a quarta simulação aumenta a nota apenas dos indivíduos das redes
estaduais e municipais. As diferenças com relação à cor entre as simulações 3 e
4 são pequenas. A principal diferença é verificada quanto ao tipo de escola
frequentada, principalmente nos cursos mais concorridos, com grande aumento dos
estudantes das redes estadual e municipal, sendo que o contrário ocorreria para
os estudantes da rede federal. Ainda assim, esses últimos apresentariam uma
proporção entre os aprovados muito superior àquela de estudantes nessa rede de
ensino na RMBH.
Por fim, a simulação 5 aumenta em 5% a nota dos não-brancos e em 10% a dos
originados das escolas estaduais e municipais. Observa-se que os não-brancos
seriam maioria tanto nos cursos menos como nos mais concorridos. Ou seja, os
grupos desfavorecidos seriam sobrerrepresentados. Comparando-se os resultados
da simulação 5 com aqueles do Enem, nota-se que a participação das escolas
estaduais e municipais aumentaria em 50% nos cursos menos concorridos, passando
de 41,7% para mais de 60%, e em 600% nos mais concorridos, passando de 5,4%
para 35,2%. Como esses últimos cursos estão entre os que mais promovem a
mobilidade social, isso teria um grande impacto na quebra da transmissão
intergeneracional de posições socialmente desfavoráveis em termos
socioeconômicos.
A Tabela_8 mostra a distribuição de não-brancos e brancos nas cinco simulações,
segundo faixas de renda e cursos menos e mais concorridos. Note-se que para a
simulação 1 haveria um aumento na participação dos indivíduos com renda
familiar de até 2 SM entre os não-brancos, principalmente de forma relativa nos
cursos mais concorridos. Como as notas dos brancos não foram incrementadas, não
ocorrem mudanças para esse grupo. A simulação 2 amplifica esses resultados.
Observa-se que a participação de não-brancos com renda de até 2 SM aumenta de
3,2% para 11,4% nos cursos mais concorridos.
A simulação 3 altera as notas dos estudantes oriundos da escola pública sem
qualquer distinção de cor. O impacto nas populações não-brancas é menor do que
nas simulações anteriores para indivíduos com renda acima de 5 SM, mas o
contrário ocorre para as pessoas com rendas inferiores a esse patamar. Esse
mesmo fato é observado com relação aos diferenciais por renda para brancos. Ou
seja, se, por um lado, o aumento de pretos e pardos seria menor em algumas
faixas de renda, por outro, haveria maior inclusão das classes mais
desfavorecidas em termos de renda, indicando diferentes escolhas na forma de
inserção. Os resultados da quarta e quinta simulações são muito similares aos
da terceira em relação à distribuição de renda.
As diferentes políticas discutidas apresentam distintos impactos positivos e
negativos do ponto de vista tanto social quanto étnico. Resta saber se essas
políticas não teriam uma influência negativa na qualidade potencial do corpo
discente da UFMG. Esse é o último tema tratado a seguir.
Consequências da política de bônus adicional quanto às características dos
alunos
Com a política de bônus adicional, alunos que não entrariam na UFMG passam a
ingressar nessa instituição. Uma das grandes preocupações com relação a esses
alunos é se eles terão potencial de se desenvolverem similar aos alunos que
ingressam na UFMG via vestibular sem bônus adicional, mesmo tendo obtido um
nível de aprendizagem inferior até o fim do ensino médio, uma vez que as ações
afirmativas não devem afetar a excelência de ensino da instituição.
Existem vários atributos do indivíduo que o fazem ser um candidato a bom
estudante no ES, mesmo partindo de uma base mais fraca, em um processo de
"catching-up". O Enem apresenta uma série de quesitos sobre a pessoa, que podem
estar relacionados ao seu potencial de aprendizado, dos quais foram
selecionados dez. Como muitos desses quesitos podem ser fortemente
correlacionadas, foi aplicada a análise fatorial, agrupando-os em cinco
componentes:
componente 1 - Interesse por economia e política;
componente 2 - Interesse por cultura, meio ambiente e questões
sociais;
componente 3 - Hábito de leitura de jornais e revista;
componente 4 - Conhecimento de idioma estrangeiro;
componente 5 - Hábito de leitura de livros.
Foi feita a média dos valores de cada uma das questões para cada um dos
componentes.
Para determinar a relação entre a nota da proxi para o vestibular e esses
componentes, inicialmente essa primeira foi considerada a variável dependente e
os últimos foram incluídos como variáveis independentes em um modelo MQO. Os
resultados são mostrados na Tabela_9. Todos os coeficientes foram
significativos, sendo que quatro apresentaram coeficientes positivos e somente
o componente 3 - hábito de leitura de jornais e revista - obteve valor
negativo. Ou seja, as componentes referentes a interesse por economia e
política, interesse por cultura, meio ambiente e questões sociais, conhecimento
de idioma estrangeiro e hábito de leitura de livros eram positivamente
correlacionadas com o desempenho escolar.
[/img/revistas/rbepop/v27n2/07t09.jpg]
Como forma de complementação dos resultados, compararam-se os valores médios
para cada um desses componentes entre os indivíduos que seriam aprovados em
cursos menos e mais concorridos, segundo os dados do Enem, e os demais que não
seriam aprovados nesses cursos (Tabela_10). Entre os cinco componentes, os não-
aprovados, tanto para cursos menos como para os mais concorridos, tinham
valores significativamente menores em quatro deles, que são justamente os
mesmos da análise anterior.
Essas duas análises sugerem que os componentes citados apresentam relação
positiva com as notas dos estudantes e assim, de forma aproximada, se
relacionam com o desempenho escolar do aluno e, de maneira indireta, com seu
potencial de aprendizado.
Na análise seguinte são comparados os indivíduos que seriam aprovados em cursos
menos concorridos (aproximadamente 5.000), tendo as notas do Enem como proxi, e
os que seriam beneficiados pelas políticas de bônus adicional discutidas
anteriormente, número que varia entre aproximadamente 740, para a simulação 1,
até 2.730, para a simulação 5, ou seja, aqueles indivíduos que entrariam na
UFMG por causa dessas políticas (Tabela_11). Observa-se que, nas simulações 1 e
2, o valor do componente 1 para os novos ingressantes na UFMG é maior do que
para o grupo controle, ocorrendo o inverso com relação ao componente 4. Ou
seja, mesmo tendo uma nota menor no Enem, esses estudantes que teriam o bônus
adicional apresentam maior interesse por economia e política do que os que
seriam aprovados caso o bônus adicional não existisse. Como esse fator é
correlacionado ao desempenho escolar, isso sugere que os estudantes
beneficiados têm potencial pelo menos similar ao grupo controle com relação a
esse quesito. Entretanto, no que se refere ao conhecimento de idioma
estrangeiro, os que seriam abrangidos pelo sistema de bônus adicional têm
valores muito inferiores, indicando que esse ponto seria um fator negativo
quanto à absorção de conhecimentos em geral. Deve-se ressaltar que esse
componente tende a ser fortemente correlacionado com os níveis socioeconômicos
do indivíduo.
As três outras simulações ampliam as notas de indivíduos originados em escolas
públicas. Além das diferenças já apontadas, os estudantes beneficiados pelo
bônus teriam maior interesse por cultura, meio ambiente e questões sociais,
fator também positivamente correlacionado com o desempenho escolar. Tal
resultado indica que esses novos estudantes, que significam um grande acréscimo
no corpo discente da UFMG, apresentariam dois pontos positivos quanto ao
potencial de absorção de novos conhecimentos e um negativo, referente à língua
estrangeira e aos fatores correlacionados com esse ponto. Assim, caso haja
políticas complementares por parte da UFMG com relação ao ensino de idiomas
estrangeiros, em conjunto com uma assistência monetária para a permanência do
aluno no ES, bem como a pontos diretamente relacionados ao nível socioeconômico
prévio do indivíduo, como a menor carga cultural transmitida
intergeneracionalmente, os novos alunos, apesar das notas inferiores no Enem,
parecem ter um potencial relativamente elevado quanto à absorção de
conhecimentos no ES.
Conclusão
Buchmann e Hannum (2001) ressaltam a necessidade de adaptação dos métodos de
pesquisas às realidades mais pobres, agregando dados e fatores diferentes dos
países desenvolvidos, mas que geram análises mais realísticas da situação em
países em desenvolvimento. Isso seria fundamental para o sucesso das pesquisas
que objetivam sugerir mudanças no sistema educacional, de forma a minimizar a
exclusão de grupos de desfavorecidos do sistema. Esse trabalho procura traçar
essa linha de raciocínio, buscando os fatores relacionados à escolaridade que
são mais expressivos para a realidade brasileira.
Esse estudo mostrou o perfil dos indivíduos aptos a frequentarem o ES da RMBH,
dos estudantes universitários da região e dos aprovados no vestibular da UFMG,
mapeando a distribuição entre grupos de cor e por faixa de renda. Foi possível
verificar que há disparidades de condições tanto para se tornar apto a
frequentar o ES como de acesso à universidade para os diferentes grupos de cor
ou raça e também para os indivíduos de diferentes faixas de renda. Aqueles que
frequentam o ES possuem renda mais alta e a proporção de brancos, entre estes,
é maior do que a observada para os indivíduos aptos a ingressarem na
universidade na RMBH.
As análises econométricas com modelos MQO permitiram mostrar que fatores
relacionados à escola e ao nível socioeconômico influenciam em grande medida a
nota obtida no Enem, sendo que a nota desse exame foi utilizada como uma proxi
para os resultados de exames vestibulares. Os diferenciais quanto à cor/raça do
indivíduo persistem mesmo quando controlados os efeitos da renda e escolaridade
da família e tipo de escola. Entretanto, essas diferenças são menores do que as
observadas para as demais variáveis, principalmente aquelas referentes ao nível
socioeconômico e tipo de escola.
As simulações com diferentes tipos de bônus adicionais raciais e para os
provenientes de escolas públicas mostraram que ambos são efetivos para aumentar
a participação de pardos e pretos no corpo discente da UFMG, bem como a de
grupos com menor renda no ES público. Assim, sugere-se que a adoção de medidas
inclusivas para estudantes provenientes de escolas públicas estaduais e
municipais pode ser muito eficiente como política de inclusão para grupos de
pardos e pretos considerados desfavorecidos e também para extratos
socioeconômicos mais vulneráveis. Além disso, dada a miscigenação observada no
povo brasileiro, tal política não implica o problema de determinação de quem
pertence ou não a grupo de cor desfavorecido ou a autodeclaração de cor dos
indivíduos.
Deve-se ressaltar que a discussão em torno de grupos desfavorecidos em termos
educacionais gira em torno da cor/raça ou do nível socioeconômico. Entretanto,
existe uma crescente diferença entre os gêneros em favor das mulheres. Os
homens apresentam indicadores muito inferiores às mulheres no ensino básico, o
que se reflete no ES. Uma das razões desse fato é que pessoas do sexo masculino
participam mais do mercado de trabalho e, como consequência, apresentam taxas
de reprovação e de evasão muito superiores às mulheres. Assim, sugere-se que
políticas voltadas para uma melhoria na inserção dos homens no ensino básico e
também outras, como um bônus adicional por sexo, sejam propostas para mitigar
os diferenciais de gênero.
Segundo as simulações realizadas, qualquer que seja a política de bônus
adicional, mesmo com incremento significativo de estudantes originados dessas
políticas, desde que esse incremento não seja demasiado, os novos ingressantes
parecem ter potencial de aprendizado suficiente para que a UFMG não perca sua
excelência de ensino. Isso ocorreria caso algumas políticas sejam
concomitantemente implementadas, como maior inserção desses estudantes em
cursos de língua estrangeira, além da ajuda monetária para que possam continuar
os estudos em nível superior.
Desde a década de 1990, o Brasil tem apresentado melhoras significativas nos
resultados educacionais em termos quantitativos, fato observado nesse trabalho
pelo aumento marcante dos indivíduos aptos a ingressarem no ES, inclusive sendo
verificada maior participação relativa dos grupos desfavorecidos. No entanto,
esse resultado parcial positivo não deve desviar a atenção das mudanças na
estrutura educacional, pois tornar o sistema mais inclusivo é importante para
que os resultados educacionais brasileiros sejam cada vez mais positivos,
indicando o papel decisivo das ações afirmativas no processo. Assim, deve-se
destacar que políticas inclusivas no ES devem, necessariamente, vir integradas
com uma melhoria geral da qualidade de ensino básico e ampliação dos diretos
sociais, como é proposto pelo Plano de Desenvolvimento da Educação (MEC, 2009),
com políticas voltadas para a educação, entre outros: Universidade Aberta,
Fundeb, Piso Salarial Nacional do Magistério, Ideb, Ifet, etc.
Por fim, cabe destacar que a inclusão dos estudantes desfavorecidos no ES, como
o recente aumento das vagas e melhoria de inserção em universidades públicas
via Reuni e PNAES, também envolve o ensino privado, que deveria desempenhar
papel fundamental nesse processo. Para tanto, o PDE promove inovações nos
mecanismos de financiamento do estudante, com mudanças no Fies e ainda via
Prouni, sendo que estes programas também buscam a ampliação do ES e a inclusão
de grupos desfavorecidos.