Segregação socioespacial e inserção no mercado de trabalho na Região
Metropolitana de Campinas
Introdução
Os impactos da segregação socioespacial sobre as condições gerais de vida da
população e das famílias têm sido amplamente discutidos na literatura nacional
e na internacional. Como mostra Flores (2006), os mecanismos que atuam para a
efetivação desse efeito seriam identificados segundo distintas abordagens, cada
uma delas com ênfase em aspectos diferentes, que vão desde questões relativas à
existência de capital social, até as que enfatizam os diferenciais das
localizações quanto a acesso aos serviços e demais oportunidades disponíveis em
nível regional.
Partindo da premissa de que o "espaço importa" (FLORES, 2006; TORRES; FERREIRA;
GOMES, 2005), pode-se investigar um conjunto de riscos ou comportamentos, na
tentativa de avaliar o real impacto da segregação socioespacial, aqui entendida
como a concentração no espaço de estratos socioeconômicos semelhantes, sobre a
capacidade de resposta das pessoas ou famílias a estes problemas, ou, de
maneira mais geral, seus efeitos sobre a inclusão social. Esse tipo de análise
tem sido feito, por exemplo, em relação ao rendimento escolar das crianças
(CUNHA; JIMÉNEZ, 2006; CUNHA et.al. 2007; TORRES; FERREIRA; GOMES, 2005;
FLORES, 2006), às condições de vida dos jovens (GALSTER; MIKELSONS, 1995) ou
mesmo à criminalidade (SAMPSON; RAUDENBUSH; EARLS, 1997).
No caso do Brasil, tais estudos vêm recebendo atenção cada vez maior de
demógrafos, sociólogos e urbanistas, que, em geral, têm como foco as regiões
metropolitanas, onde não apenas as dinâmicas, mas também os problemas sociais
tornam-se mais complexos e exacerbados, tendo em vista a concentração
demográfica e a integração espacial existentes entre distintas unidades
administrativas. O presente estudo pretende somar-se a essa linha de análise.
São três os objetivos desse artigo: apresentar sucintamente a situação regional
em termos de sua dinâmica demográfica e processo de segregação socioespacial,
em particular incluindo dados sobre a distribuição espacial da população
segundo categorias socioocupacionais; avaliar, a partir de uma análise
exploratória, os diferenciais observados em termos de inserção no mercado de
trabalho, segundo características sociodemográficas, incluindo a mobilidade
espacial e, particularmente, suas localizações no espaço metropolitano; e
desenvolver um modelo multivariado, procurando isolar o efeito da localização
sobre a inserção laboral, que, nesse estudo, será avaliada a partir dos
indicadores de desemprego, condição de formalidade do trabalho e proteção
social.
Tendo em vista que, no Brasil, a despeito de alguns avanços em termos de
pesquisas domiciliares,1 o Censo Demográfico tem sido a fonte mais rica para
estudos desse tipo, sobretudo devido à sua capacidade de desagregação espacial,
esse estudo terá sua análise baseada nessa fonte para o ano de 2000. Além da
possibilidade de conhecer as características da população em uma escala
intramunicipal (setores censitários e áreas de ponderação2), estes dados
permitirão aplicar técnicas espaciais para efeito da construção de indicadores
de segregação.
Mercado de trabalho, segregação e mobilidade espacial: algumas questões
contextuais e teóricas
A situação do mercado de trabalho no Brasil: um breve apanhado
O estudo de Dedecca e Baltar (1999) ajuda a entender, entre outras questões, as
condições que levaram o Brasil a modificar significativamente o perfil e as
condições do seu mercado de trabalho, em particular a partir dos anos 1980.
Tendo em vista a intensa migração rural-urbana observada nos países latino-
americanos e diante da limitada capacidade de absorção dos setores modernos
presentes nos grandes centros receptores de população migrante, uma parte da
força de trabalho disponível foi obrigada a buscar inserção nas atividades que
exigiam menor qualificação, como comércio ambulante, serviços de reparação e
conservação domiciliar e serviço doméstico.
Para estes autores, o desenvolvimento socioeconômico latino-americano foi
incapaz de possibilitar a consolidação de um mercado de trabalho homogêneo, em
que predominassem as situações de ocupação plena e protegida, com o desemprego
restringindo-se ao friccional e a ocupação não-organizada3 constituindo mero
resíduo. No que diz respeito aos anos 1990 e começo dos 2000, os autores
afirmam ainda que os países da região depararam-se com a ampliação da
heterogeneidade socioeconômica explicada por alguns fatores, como a crise
prolongada e, em especial, os efeitos destrutivos dos programas recentes de
liberalização econômica.
Esta situação também pode ser entendida a partir de discussões empreendidas por
outros autores, como Harvey (2005), Castells (1999) e Sassen (1991), que
reconhecem a emergência, não apenas na América Latina (onde talvez este
processo se revele de forma mais aguda), mas também em termos mundiais, de uma
nova situação com a crise e a reestruturação produtiva.
Para Sassen (1991), a globalização da economia estaria provocando profundas
reestruturações nas grandes cidades, que passariam por um intenso processo de
reestruturação, particularmente em termos do mercado de trabalho. Esta nova
estruturação, embora variável entre cidades, teria um impacto comum em todas
elas: a emergência de uma nova estrutura social, caracterizada não só pela
concentração de renda e expansão de segmentos ricos e segmentos pobres, mas
também por uma contração da classe média.
Embora essa posição defendida por Sassen não seja necessariamente compartilhada
por outros estudiosos, que, ao contrário, assumem como hipótese de trabalho o
crescimento da heterogeneidade socioespacial na cidade (PRETECEILLE, 2000), o
fato é que as regiões metropolitanas brasileiras parecem ainda reproduzir, em
muitos sentidos, ainda que com certas nuances e novidades, o processo de
periferização e marginalização tão visível nos anos 1960 e, particularmente,
nos 1970.
Dedecca e Baltar (1999) destacam ainda outras mudanças no sistema produtivo: os
programas de racionalização provocariam a desverticalização das grandes plantas
industriais, acarretando a externalização de parte de suas atividades e
tornando-as importantes subcontratantes não só de força de trabalho, mas também
de produção e serviços. Esse novo contexto induziria a uma reavaliação do papel
do setor não-organizado na dinâmica do capitalismo. Este passaria a fazer parte
da lógica de produção/atividade do que Dedecca e Baltar chamam de "setor
moderno". Neste processo, as atividades informais não somente receberiam os
trabalhadores expulsos pelas atividades modernas em seu movimento de
racionalização produtiva, como também seriam incorporadas ao seu ciclo
produtivo.
Assim, a diminuição do emprego formal teria feito, por um lado, com que essas
situações de informalidade se tornassem definitivas e, por outro, que os
assalariados expulsos pelo setor organizado, na falta de um sistema de seguro-
desemprego de longa duração, migrassem, forçosamente ou não, para o setor
informal, acarretando importantes consequências sobre as condições gerais de
reprodução social.
Em termos gerais, o Brasil chegou a 2000, momento considerado nesse estudo, com
um desemprego da ordem de 15%, sendo que, na RM de Campinas, esse indicador foi
um pouco maior, cerca de 16%. No entanto, como se sabe, essas cifras, já
assustadoras, ainda escondiam uma situação ainda mais preocupante, tendo em
vista a incidência das situações de empregos precários ou subemprego. Alguns
dos dados aqui analisados corroboram estas tendências.
Como será visto mais adiante, existe um conjunto de atributos que podem reduzir
ou incrementar essa situação de precariedade em termos da inserção laboral,
sendo uma delas, por hipótese, a área onde vive o indivíduo.
Mercado de trabalho, segregação e mobilidade espacial da população
Como já mencionado na introdução, existem linhas de investigação que procuram
mostrar como a segregação socioespacial afeta determinadas dimensões das vidas
dos indivíduos e famílias. Entre estes enfoques, destacam-se dois: aquele que,
genericamente falando, está preocupado em captar os chamados "efeito de bairro"
(JENCKS; MAYER, 1990); e um segundo baseado na ideia de que existiria uma
"geografia de oportunidades" (GALSTER; KILLEN, 1995).
Na primeira abordagem são destacados diferentes mecanismos pelos quais a
segregação incide sobre certos comportamentos ou fenômenos. Estudos a partir
dessa perspectiva estariam preocupados, por exemplo, em examinar a força (ou
debilidade) dos marcos normativos existentes nas comunidades (KAZTMAN;
FILGUEIRAS, 2006), a forma como são difundidos os comportamentos e como se dá a
socialização coletiva por meio de transmissão de "modelos de rol" (WILSON,
1987, KAZTMAN, 1999), ou o nível de controle social existente no bairro
(SAMPSON; RAIDENBUSH; EARLS, 1997).
No segundo caso, ou seja, no enfoque atinente à geografia das oportunidades, o
efeito do lugar onde se vive sobre o comportamento dos indivíduos e famílias
estaria ligado a elementos objetivos existentes (ou não) nessas áreas, como
acesso e qualidade dos serviços, em particular os públicos (saúde, educação,
segurança, etc.), infraestrutura, característica do mercado de trabalho, etc.
Porém, variações espaciais subjetivas, basicamente representadas pelas redes
sociais existentes, também poderiam representar impactos significativos
(GALSTER; KILLEN, 1995).
Na verdade, como se percebe, estes dois enfoques possuem elementos de contatos
muito claros, já que, em ambos os casos, ao menos uma questão surge como
importante para explicar "comportamentos" diferenciados segundo o local de
residência das pessoas: a influência das redes sociais existentes nos bairros
ou nas comunidades locais.
A partir destas premissas básicas, poder-se-ia propor a seguinte pergunta: é
possível afirmar que, uma vez controladas certas características individuais,
haveria evidências de que a segregação socioespacial tem efeito sobre a forma
de inserção dos indivíduos no mercado de trabalho?
Nossa hipótese de trabalho é, portanto, que o acesso ao mercado de trabalho não
dependeria apenas dos atributos sociodemográficos individuais, mas também de
outros elementos que, segundo o exposto, estariam ligados ao local de moradia
do indivíduo.
Quanto às características sociodemográficas utilizadas nesse estudo, não é
necessário se aprofundar sobre os efeitos que o sexo, idade, educação, estado
civil e cor/raça4 reconhecidamente possuem sobre as possibilidades de inserção
laboral. Os diferenciais encontrados para 2000, segundo estas variáveis, com
relação ao desemprego, por exemplo, foram bem significativos no Brasil e em
suas várias regiões (DEDECCA, 2006).
No entanto, algumas considerações precisam ser feitas no caso das outras
variáveis empregadas nessa análise, em particular o status migratório e a
mobilidade intraurbana cotidiana (pendularidade).
No primeiro caso, ou seja, quanto à condição migratória do indivíduo, poder-se-
ia supor que o tempo de permanência no local de residência seria um importante
indicativo do grau de sociabilidade e/ou captação de capital social, na medida
em que os laços sociais e conhecimentos tenderiam a se incrementar com o passar
do tempo, bem como poderia ter influência na quantidade e qualidade das
informações sobre as oportunidades disponíveis, sejam estas em termos do
mercado de trabalho, ou mesmo em outras dimensões essenciais para a reprodução
social, como assistência social, mercado habitacional, etc.
Embora, da mesma forma que Sampson, Raidenbush e Earls (1997), acreditemos que
a composição dos bairros em termos do tempo de residência de seus habitantes
influenciaria a produção de capital social, consideramos também que os
indivíduos tenderiam a se beneficiar mais ou menos destas redes e marcos
normativos construídos, à medida que estivessem por mais tempo inseridos nesses
contextos. Dessa forma, no presente estudo, considerou-se que o fato de o
indivíduo ser migrante recente teria impacto sobre sua inserção laboral,
particularmente no caso de pessoas com mais baixa qualificação, que, via de
regra, migram para a região sem um emprego garantido.
Nessa mesma linha de argumentação, seria esperado, também, que o migrante
intrametropolitano, tendo em vista sua experiência prévia na região e,
portanto, uma provável maior acumulação de capital social e informações sobre a
área, tivesse melhor desempenho do que aquele cuja residência prévia fosse fora
da região. Por esse motivo, a variável utilizada na análise considerará não
apenas a condição de migração recente, mas também a residência prévia do
migrante.5
Um estudo recente (SOBREIRA; CUNHA, 2007) mostrou que, de maneira geral, a
pessoa que fazia o movimento pendular encontrava-se, em 2000, em melhores
condições tanto em termos de rendimentos quanto com relação ao desemprego. Na
verdade, este resultado não chega a surpreender, pois a realização desse tipo
de deslocamento só faria sentido, via de regra, no caso de pessoas inseridas no
mercado de trabalho e, mais do que isso, com rendimentos ou benefícios
patronais que viabilizassem tais movimentos, uma vez que, ao se tratar de
viagens entre municípios, sempre haveria um custo substancial envolvido.
Na maior parte dos casos, especialmente para a população de baixa qualificação,
o distanciamento com relação ao local de trabalho deve-se à busca por
alternativas habitacionais. Nesse contexto, a pendularidade colocar-se-ia como
uma "estratégia", como entendido por Bourdieu (1998), cujo propósito seria
manutenção, reprodução ou melhoria da posição de um agente dentro de um campo
determinado.
É bem verdade que, para esta parcela da população, embora a solução
habitacional pudesse significar reais melhorias em suas condições de vida - por
exemplo, a casa própria significaria não mais ter que pagar aluguel, ter mais
segurança com relação ao futuro, etc. -, isso não quer dizer necessariamente
que, no caso brasileiro, estas pessoas teriam melhores condições de moradia. De
fato, para a população de baixa renda, a obtenção da casa própria implica, via
de regra, a necessidade de se afastar das áreas mais bem providas de
infraestrutura e acessibilidade, além de ter que se sujeitar a piores condições
de habitabilidade, tendo em vista o baixo padrão construtivo de suas
residências.
Por esse motivo, considera-se importante analisar o desempenho no mercado de
trabalho também a partir dessa perspectiva, visto que a possibilidade de se
mover dentro da região metropolitana pode interferir não apenas na forma, mas
também na estabilidade de inserção no mercado de trabalho.
A RM de Campinas: dinâmica demográfica e segregação socioespacial6
A dinâmica de formação e expansão da RM de Campinas, área composta por 19
municípios e com cerca de 2,5 milhões de habitantes, apresenta estreita
semelhança com o que se verificou em outras metrópoles do país, ou seja, deu-se
em função de taxas expressivas de crescimento populacional e pela periferização
do crescimento físico-territorial, muito embora neste caso também existam
claros indícios de que processos diversos, como o crescimento de subúrbios7 e
de municípios que não a sede, também tiveram impactos.
Assim, na região, assistiu-se, por um lado, a uma "extensão" da mancha urbana,
configurada como um clássico processo de periferização, em que os limites
político-administrativos, na maior parte das vezes, acabam sendo puras
abstrações ou arbítrios, e, por outro, a um crescimento de núcleos urbanos de
outros municípios que, em alguns casos, como Americana, cidade com grande
importância na indústria têxtil nacional, acabam por formar suas próprias
periferias.
A partir dos anos 1960 e principalmente depois dos 1970, Campinas recebeu
grandes investimentos governamentais, tornando-se um dos maiores eixos de
expansão industrial no interior do Estado, em grande parte devido à
desconcentração verificada a partir da Região Metropolitana de São Paulo, o que
elevou enormemente seu ritmo de crescimento populacional, assim como de toda a
região (Tabela_1).
Durante a década de 1980, a população desconcentrou-se da cidade de Campinas,
dirigindo-se aos municípios vizinhos, transformando alguns deles em municípios-
dormitórios, muito embora, em vários casos, a expansão industrial ocorrida ao
longo de uma importante rodovia (a Anhanguera) tenha modificado, ou ao menos
tornado mais heterogêneas, estas funções metropolitanas.
Existem várias direções para as quais a população metropolitana se expande.7
Contudo, estas não são homogêneas no que diz respeito tanto ao ritmo de
crescimento demográfico e características socioeconômicas, quanto às suas
funções metropolitanas. Algumas direções têm sido mais privilegiadas no
processo de espraiamento metropolitano, como é o caso do eixo oeste (Mapa_1).
Os municípios aí localizados apresentaram crescimento demográfico muito acima
da média regional, tais como Hortolândia e Sumaré. Este comportamento apenas
reforça um dos principais condicionantes do processo de redistribuição espacial
da população na RM de Campinas: a busca por localizações que aliem preços da
terra mais baratos e fácil acessibilidade. No entanto, em suas porções nordeste
e sudeste, a região também apresenta áreas de expansão que se caracterizam por
maior concentração da população mais abastada.
Elementos da segregação socioespacial: a configuração das "cordilheiras
sociais"
Estudos focados na segregação socioespacial mostraram que, embora mensurações
clássicas de segregação, como o índice de dissimilaridade, evidenciassem uma
redução do fenômeno ao longo dos anos 1990 na Região Metropolitana de Campinas,
um olhar cuidadoso e tecnicamente mais elaborado não deixa dúvidas sobre a
existência de uma importante clivagem socioespacial na área (CUNHA et al., 2006
e CUNHA; JIMENEZ, 2006).
A configuração das "cordilheiras da riqueza e da pobreza" poderia ser percebida
tanto a partir do simples mapeamento da distribuição das famílias por renda no
espaço metropolitano, quanto por meio de técnicas mais sofisticadas. Como se
nota no Mapa_2, quando utilizado o Índice de Moran Local (detalhado mais
adiante) para o nível de setores censitários e empregando o indicador "condição
socioeconômica",8 percebe-se a existência de fortes concentrações de população
de riqueza e pobreza na Região Metropolitana de Campinas, mostrando, inclusive,
que a segregação socioespacial regional não se restringe apenas à população
mais pobre.
De fato, da mesma forma que boa parte da porção oeste da RM de Campinas
apresenta grande concentração de famílias pobres (categoria Alto-Alto), na
direção oposta, numa faixa que vai do nordeste ao sudeste da região, observa-se
maior predominância de pessoas com melhores condições de vida.
Outra forma de avaliar o processo de segregação social na região seria a partir
da análise da divisão regional do trabalho, que, entre outros efeitos, teria
impacto sobre a composição da população, em termos dos estratos sociais, nos
seus diferentes subespaços.
Com base em importante trabalho sobre estratificação social na América Latina
elaborado por Portes (1985) e posteriormente atualizado por Portes e Hoffman
(2003), analisou-se a situação da RM de Campinas a partir dessa perspectiva,
utilizando-se os dados do Censo de 2000.9
A Tabela_2, que contém informações para alguns municípios metropolitanos
selecionados, permite visualizar as claras diferenças entre a composição da
população de municípios localizados na "cordilheira da pobreza" e aquela
residente na "cordilheira da riqueza". Além disso, da forma como estão
apresentados, estes dados também possibilitam deduzir que o papel da migração,
ao contrário de reduzir, parece ter contribuído para ampliar o processo de
segregação.
De fato, observa-se que, enquanto para os municípios caracteristicamente
dormitórios, como Hortolândia e Sumaré, a participação dos estratos
"capitalistas" e "executivos e profissionais" é bem reduzida, o mesmo não se
repete tanto em Campinas, como seria de se esperar, tendo em vista que é a sede
regional, como em Valinhos e Vinhedo, que, como se sabe, têm sofrido um
processo de elitização de sua população a partir dos anos 1990, quando começou
a se generalizar, nesses municípios, a figura dos chamados "condomínios
fechados" para a população de alta renda. Situação inversa ocorre quando a
categoria "trabalhadores manuais" é considerada. Ou seja, a proporção deste
estrato social é muito mais elevada nas primeiras duas cidades mencionadas.
Mais interessante ainda é observar, por estes dados, que a migração estaria
contribuindo para o aprofundamento da segregação socioespacial regional, pelo
menos quando esta é tratada em nível municipal. De fato, enquanto nos
municípios de maior concentração de pobreza (Hortolândia e Sumaré) as
diferenças entre as distribuições por estrato social de migrantes e não-
migrantes são praticamente desprezíveis, o mesmo não ocorre nos municípios da
porção sudeste da região, onde os migrantes recentes encontram-se, em geral, em
posições sociais mais privilegiadas do que os não-migrantes e muito mais
concentrados nos estratos "capitalistas" e "executivos e profissionais" em
detrimento, sobretudo, do estrato "trabalhador manual". Esse processo de
"elitização" da população destas áreas, como já mencionado, é claramente
compreensível em função do processo de transformação pelo qual passa essa zona
da região metropolitana.
Dados e métodos de análise
Fontes de dados e indicadores utilizados
Os dados utilizados no presente estudo derivam-se do Censo Demográfico de 2000,
que, além do nível municipal, permitem também desagregar a análise em uma
escala intramunicipal. Considerando-se as hipóteses e proposições teóricas em
que se baseiam este trabalho, os dados permitirão, por um lado, apreender as
características sociodemográficas da população (sexo, raça/cor, idade, estado
civil, condição migratória) e, por outro, construir um indicador de segregação
socioespacial, a partir do qual será possível avaliar o comportamento das
variáveis relativas à inserção no mercado de trabalho do indivíduo. Para tanto,
foram criadas variáveis dicotômicas para a População Economicamente Ativa (PEA)
maior de 14 anos, de acordo com os seguintes aspectos: desemprego; acesso ao
trabalho formal; e acesso à seguridade social.
Será considerado desempregado o indivíduo maior de 14 anos, economicamente
ativo que declarou estar sem trabalho no momento do Censo. No caso do trabalho
formal, foram incluídas apenas as pessoas empregadas que possuíam carteira de
trabalho assinada. Já a proteção social foi caracterizada pela existência de
contribuição, por parte do indivíduo, empregado ou não, para algum sistema de
seguridade social.
Segregação socioespacial: conceito e mensuração
O conceito de segregação socioespacial utilizado nesse texto tem como
referência as considerações feitas tanto por Massey e Denton (1988) quanto por
Sabatini (2004) e Sabatini e Sierralta 2006) com relação ao seu caráter
multidimensional. Para os nossos propósitos, a medida de segregação a ser usada
deveria refletir não apenas o grau de separação de um grupo social de outro,
mas sobretudo o grau de agrupamento que estes estratos sociais apresentam no
espaço metropolitano. Assim, buscaram-se medidas de segregação que tivessem a
capacidade de desvendar o grau de homogeneidade (ou heterogeneidade) social
existente na região, tendo como ponto de partida a semelhança (ou não) entre
unidades espaciais vizinhas.
Assim, para analisar a dimensão definida como "clustering" por Massey e Denton
(1988), que, segundo Sabatini e Sierralta (2006), seria a verdadeira e única
medida de segregação residencial, optou-se por lançar mão de uma metodologia
baseada em autocorrelação espacial, o Índice de Moran Local.
O Índice de Moran é um indicador de associação espacial que avalia a existência
de conglomerados (clusters) na distribuição espacial de uma determinada
variável, podendo ser calculado de forma localizada (Moran Local) para cada
unidade espacial (no caso aqui os setores censitários do Censo 2000), assim
como, a partir destas, obtido como medida geral (Moran Global), estatística que
permite estabelecer o grau de aglomeração de unidades semelhantes
("clustering") existente na região analisada. Pelo Moran Local, é possível
criar um mapa (como o apresentado nesse estudo), em que se podem detectar os
setores censitários cercados por outros semelhantes ou não. Considerando a
variável em estudo (a condição socioeconômica), os setores classificados como
Alto-Alto (os chamados hot spots) seriam aqueles, em média, com piores
condições rodeados por outros em condições semelhantes. Os Baixo-Baixo (cold
spots) seriam aqueles setores com melhores condições socioeconômicos cercados
por outros na mesma situação. Enfim, os Alto-Baixo envolveriam situações em que
a zona circunvizinha do setor com más condições sociais seria formada por
setores com melhores condições; Baixo-Alto seria a situação contrária. Da mesma
forma, com essa técnica, é possível observar áreas com grande heterogeneidade
(o que o modelo rotula de "não significante"). Esse indicador poder ser obtido
a partir do software de domínio público GeoDA. Para mais detalhes sobre o
método, ver Anselin (1995).
A identificação das "zonas de segregação"
Tendo em vista o conjunto de características dos indivíduos que se pretendia
incorporar na análise, a criação de um indicador que pudesse categorizar os
distintos subespaços de região encontrou algumas dificuldades com relação à
unidade espacial de análise. Por um lado, o uso dos setores censitários, embora
mais adequado para se apreender o fenômeno da segregação socioespacial, devido
ao seu menor tamanho em termos territoriais, mostrava-se inviável, tendo em
vista não apenas o número restrito de informações disponíveis a esse nível, mas
também o fato de as características socioeconômicas serem captadas apenas para
o chefe do domicílio.
Por outro lado, embora para o nível das áreas de ponderação (APs) todas as
informações levantadas pelo questionário da amostra do Censo Demográfico
estivessem disponíveis, seu tamanho, seja em termos de área, seja quanto à
população, certamente não permitiria obter segurança sobre o grau de
homogeneidade social dessa área.
A Tabela_3 permite que se tenha uma ideia de quão diferentes foram os
resultados da aplicação do Índice de Moran Local para cada uma destas escalas
para o indicador condição socioeconômica. Assim, por exemplo, enquanto mais de
32% dos setores censitários poderiam ser classificados na categoria Alto-Alto,
apenas 18% poderiam ser mantidos nessa categoria se respeitada a classificação
obtida pelo modelo a partir da análise ao nível de áreas de ponderação. Por
outro lado, a maior incidência em nível de AP de zonas classificadas como
Baixo-Baixo levou a que o percentual de setores assim classificados passasse de
15% para cerca de 24%. Ou seja, fica claro que a elevada agregação espacial das
APs reduziria a percepção da real segregação existente.
Tendo em vista esse problema, foi proposta uma solução que mesclou os dois
níveis espaciais, aproveitando-se as vantagens de cada um deles, ou seja, a
desagregação espacial permitida pelos setores e a maior riqueza de informações
acessíveis em nível de AP.
A ideia foi avaliar quanto da classificação obtida a partir das APs seria
corroborada pela análise em nível de setores censitários. Em um primeiro
momento, identificaram-se as APs10 que continham apenas setores com a mesma
classificação. Assim, por exemplo, de um total de 111 APs da RM de Campinas, 48
puderam ser classificadas como "não significantes", tendo em vista que
continham apenas setores nessa categoria. Ou seja, nas restantes 63 APs, a
heterogeneidade interna, devido à classificação dos setores nelas contidas, não
permitia classificá-las imediatamente.
Para estas situações, a solução foi considerar que a nova classificação a ser
adotada para as APs com heterogeneidade interna seria aquela registrada pelo
conjunto de setores que representassem mais de 50% dos habitantes da AP,
critério que pôde ser observado em todas as APs, sendo que, em cerca de 70% dos
casos, o percentual representado pela população residente nos setores com a
classificação que deveria prevalecer superou os 75%.
Assim, com base nesses critérios, foi possível classificar todas as 111 áreas
de ponderação, respeitando, da melhor forma possível, as indicações da
homogeneidade socioeconômica obtidas a partir da análise dos setores
censitários. Desse procedimento, resultaram 18 APs na categoria Alto-Alto, 15
na Baixo-Baixo, cinco na Alto-Baixo e 73 não significantes, cuja localização
pode ser vista no Mapa_3.11
Percebe-se que estas áreas estão mais concentradas em Campinas, o que não chama
a atenção, pois o município detém quase a metade da população regional. No
entanto, podem ser observadas outras áreas selecionadas (categoria Alto-Alto)
em municípios periféricos, como Sumaré, Hortolândia e Cosmópolis, todos
sabidamente com características de dormitório.
Resultados: os impactos de segregação sobre a inserção laboral
A presente análise será conduzida em duas etapas. A primeira compreende uma
abordagem exploratória, em que se avaliam os diferenciais de comportamento dos
indivíduos nas três dimensões relativas à inserção do mercado de trabalho
(desemprego, formalidade e proteção social), segundo características
sociodemográficas e posição no espaço regional a partir da localização destes
nas distintas "zonas de segregação" construídas. Na segunda, formula-se um
modelo multivariado, de maneira a tentar isolar o efeito da segregação sobre a
inserção laboral, uma vez controladas as características individuais.
A Tabela_4 resume os resultados obtidos na análise descritiva. Assim, pode-se
observar que, segundo a cor/raça da pessoa, os brancos encontravam-se, em 2000,
em melhor situação do que os negros tanto para os níveis de desemprego quanto
para a proteção social, esta última bem mais elevada entre os brancos. Já no
que se refere à formalização do trabalho, essa situação não era observada,
chegando até a se inverter (55,4% para os brancos contra 57,2% entre os negros
ocupados). No entanto, esse dado não chega a surpreender, uma vez que, em
termos das categorias socioocupacionais,12 pode-se constatar que os brancos
apresentavam proporção maior de microempresários e profissionais que trabalham
por conta-própria.
Quanto à educação, percebe-se uma correlação negativa entre os anos de estudo e
o nível de desemprego e positiva com relação ao nível de proteção social (44%
da PEA com até quatro anos de estudo contribuía, contra 63% daqueles com oito
ou mais anos de estudo), o mesmo acontecendo com relação à formalidade (47% da
PEA ocupada com primário incompleto possuía carteira de trabalho assinada,
contra 60% dos trabalhadores com ensino médio completo).
O estado civil da pessoa também se apresenta como uma variável que discrimina
sensivelmente a participação do indivíduo no mercado de trabalho, com os
casados apresentando, em 2000, um percentual de desemprego bem menor (11%) do
que os solteiros (22%). Quanto à proteção social, os primeiros registravam 10
pontos percentuais a mais do que os segundos (61% e 51%, respectivamente, de
contribuintes para a previdência), sendo que, da mesma maneira que o observado
para os brancos e provavelmente pelas mesmas razões, os casados também detinham
menor percentual de carteiras assinadas, sinalizando para uma menor
formalização das relações de trabalho.
Para a idade das pessoas, também observa-se correlação negativa com o
desemprego (37% para aquelas com até 20 anos e 12% para as de 40 anos ou mais),
o mesmo ocorrendo em relação à proteção social (33% dos indivíduos com até 20
anos contribuíam para a previdência, contra 57% daqueles com 40 anos ou mais).
Quanto à formalidade no trabalho, o comportamento é mais variável: até os 40
anos, a maioria da PEA ocupada tinha carteira de trabalho assinada (chegando a
62% entre 20 e 39 anos), percentual que se reduz para cerca de 46% depois dos
40 anos, refletindo os problemas enfrentados pelas pessoas em idades mais
avançadas.
Com relação aos diferenciais por sexo, os resultados tampouco trazem novidades:
os homens apresentavam menor desemprego (13%) do que as mulheres (21%); e 60%
deles contribuíam para a previdência, contra 51% de mulheres. Já no caso da
proteção social, não se observam grandes variações, uma vez que, para ambos os
sexos, cerca de 56% da PEA ocupada possuía carteira de trabalho assinada em
2000.
Pode-se avaliar também a inserção dos indivíduos segundo sua condição
migratória. Os dados mostram que, como seria de se esperar, o desemprego era um
pouco menor entre os migrantes intrametropolitanos em comparação com os
migrantes que provêm de fora da RMC (17% e 20%, respectivamente), sendo que sua
proteção social era ligeiramente maior (54% dos intrametropolitanos
contribuíam, contra 51% entre os de fora da RMC). Para a formalização das
relações de trabalho, não se percebe diferença significativa.
Como já prenunciado, todos os indicadores apresentaram melhores resultados para
os não-migrantes em comparação aos migrantes, sejam eles intrametropolitanos ou
externos, fato que ajuda a corroborar a hipótese a respeito do impacto da
condição migratória sobre a inserção produtiva do indivíduo.
Ainda com relação à mobilidade espacial, pode-se avaliar o comportamento das
pessoas segundo a condição de pendularidade. Nesse caso, os dados da Tabela_5
também não deixam dúvidas de que aqueles que realizavam esse tipo de movimento
cotidiano apresentavam diferenciais importantes em relação aos demais
indivíduos.
Assim, para as pessoas que realizavam o movimento pendular, o desemprego era
obviamente muito baixo, assim como a proteção social é bem maior (75%
contribuíam para a previdência, contra 53% entre os não pendulares). Também no
que se refere à formalidade no trabalho, 69% destas pessoas que realizavam o
movimento, e que eram ocupados, possuíam carteira de trabalho assinada, contra
53% entre os que não realizavam este tipo de mobilidade. Por esses dados,
embora não se possa estabelecer uma relação de causalidade, percebe-se que os
movimentos cotidianos de um município ao outro parecem representar uma vantagem
para aqueles que o realizam, garantindo uma inserção mais estável no mercado de
trabalho.
Finalmente, quanto à localização dos indivíduos segundo as zonas de segregação,
fica evidente que o local de residência parece estar fortemente associado ao
acesso da pessoa ao mercado formal de trabalho, pois, enquanto nas zonas Alto-
Alto o desemprego chegava a 22%, nas Baixo-Baixo apenas 11% dos residentes
enfrentavam esse problema. No que tange à proteção social, na primeira zona,
50% da PEA contribuía para a previdência, contra 65% na Baixo-Baixo. Também
para a formalização no trabalho os diferenciais são evidentes segundo as
distintas categorias de segregação analisadas: nas zonas classificadas como
Alto-Alto, 57% da PEA ocupada apresentava carteira de trabalho assinada,
proporção que diminui para 51% nas Baixo-Baixo. Dados sobre as categorias
socioocupacionais auxiliam a entender parte desse comportamento, mostrando que,
nas zonas Baixo-Baixo, em 2000, existia maior presença de empregadores, os
quais, obviamente, não podem ser avaliados a partir desse indicador.
Outro resultado, menos óbvio e talvez mais interessante para os nossos
propósitos, é obtido a partir da comparação entre as zonas Alto-Alto e Alto-
Baixo, ou seja, entre aquelas com maior homogeneidade e concentração de pobres
e aquelas onde os pobres estão próximos de pessoas com melhores condições de
vida.
No que diz respeito tanto ao desemprego quanto à proteção social, os residentes
em zonas menos homogêneas (Alto-Baixo) encontravam-se em melhores condições. A
única variável em que não se notaram diferenças é a formalidade, o que sugere
que a segregação não possui grande efeito quando o indivíduo está inserido no
mercado de trabalho.
Deve-se reconhecer que essas associações identificadas não poderiam ser
tratadas como indicações inequívocas do efeito da segregação sobre a
possibilidade e forma de inserção do indivíduo no mercado de trabalho. Tem-se
consciência de que estabelecer uma relação causal apenas a partir desses dados
seria temerário, haja vista que é também muito razoável pensar que, da mesma
forma que a localização pode ter efeito sobre essa inserção, o contrário também
pode ocorrer, ou seja, o fato de estar bem ou mal colocado em termos laborais
pode ter implicações decisivas sobre a determinação do local onde o indivíduo
reside ou irá residir na região.
Responder a essa disjuntiva não é fácil e exigiria novos enfoques e, sobretudo,
outras fontes de dados e metodologias de investigação, como, por exemplo,
pesquisas qualitativas. No entanto, diante das várias evidências obtidas na
literatura sobre o efeito que certas características do lugar podem ter sobre o
comportamento das pessoas, é possível considerar, com alguma segurança, que os
dados aqui analisados são mais um indício para sustentar esse tipo de
argumentação.
Resolvido, ou ao menos amainado, esse impasse teórico, ainda restaria
considerar que as indicações até aqui obtidas não são suficientemente robustas,
tendo em vista as relações existentes entre o lugar de residência dos
indivíduos e suas características socioeconômicas e demográficas. Nesse
sentido, há que se buscar uma forma de isolar o efeito da segregação,
controlando, em um modelo, as demais características individuais que, como se
mostrou, possuem claro impacto sobre o acesso ao mercado de trabalho.
O modelo estatístico multivariado escolhido para esse fim foi a regressão
logística, que tem como principal objetivo produzir um modelo de predição de
probabilidades latentes a partir de variáveis explicativas. Esta técnica
diferencia-se de outros métodos de estimação por utilizar variáveis binomiais
categóricas como variáveis de resposta, e por ser mais flexível quanto aos
pressupostos de variância e distribuição dos erros. Trata-se, portanto, de um
modelo de regressão para variáveis dependentes binomialmente distribuídas,
permitindo modelar a probabilidade de um evento ocorrer a partir da ocorrência
de outros fatores (AGRESTI, 1996).
Os parâmetros da regressão logística proposta foram estimados utilizando-se o
pacote estatístico SAS (Statistical Analysis System).13 A partir da aplicação
desse modelo, será possível conhecer o efeito individual de cada uma das
variáveis sociodemográficas e de localização sobre os três aspectos relativos à
inserção do indivíduo no mercado de trabalho (empregabilidade, formalidade e
proteção social), uma vez controlados os efeitos das demais variáveis.
As categorias utilizadas para cada variável, assim como aquelas utilizadas como
referência no modelo, são as seguintes:
* cor/raça: branca, negra (controle) e outra;
* escolaridade (em anos de estudo): até 4 anos (controle), de 4 a 8 anos e
8 anos ou mais;
* estado civil: casado, solteiro (controle) e outro;
* idade: até 20 anos (controle), de 20 a 39 anos e 40 anos ou mais;
* migração: migrante intrametropolitano com 0 a 2 anos de residência no
município, migrante intrametropolitano com 3 a 5 anos de residência no
município, migrante externo com 0 a 2 anos de residência no município,
migrante externo com 3 a 5 anos de residência no município e não-migrante
(controle);
* composição migratória da AP: até 10%, 10% a 30% e mais de 30% (controle)
de migrantes com 0 a 9 anos de residência no município;
* pendularidade: mesmo município (controle), outro município;
* sexo: masculino e feminino (controle);
* zona de segregação: Alto-Alto, Baixo-Baixo, Alto-Baixo e não significante
(controle).
O primeiro modelo foi ajustado tendo como variável dependente o nível de
emprego para as pessoas economicamente ativas maiores de 14 anos.14
Como se observa na Tabela_5, os efeitos das variáveis sociodemográficas
mostram-se coerentes com o que se esperava: maior probabilidade de estar
empregado para as pessoas brancas; da mesma forma a probabilidade aumenta para
os indivíduos com mais de oito anos de estudo, para os casados, para os jovens
e adultos (mais de 20 anos de idade) e para os homens.
Especificamente no que se refere à migração,15 nossa hipótese de que o migrante
intrametropolitano deveria encontrar-se em melhores condições do que o migrante
externo parece confirmar-se ao menos em relação ao migrante muito recente
(menos de dois anos de residência). De fato, essa última categoria é a única
que apresenta efeito significativo, ou seja, diferenças em comparação ao
comportamento do "não-migrante", utilizado como categoria de referência. Nesse
caso, percebe-se que os migrantes externos recentemente chegados à região
apresentam probabilidade 20% menor de estarem empregados (Tabela_5).
De qualquer forma, o que mais interessa para efeitos desse estudo é destacar os
resultados relativos à variável de segregação socioespacial (zona de
segregação). Nesse caso, o modelo mostra que residir nas áreas classificadas
como Baixo-Baixo (ou seja, alta concentração de pessoas mais abastadas)
aumentaria em 30,5% a chance de fugir do desemprego; entretanto, esta
probabilidade se reduz em 28,1% quando se trata da residência com alta
concentração de pobreza (Alto-Alto). Deve-se ressaltar também o fato de a
categoria Alto-Baixo não ter apresentado efeito significativo, sugerindo que,
em relação às zonas mais heterogêneas (não-significantes), ambas apresentariam
efeitos similares sobre a probabilidade de emprego, o que leva a refletir sobre
o possível impacto positivo, na população de baixa renda, do fato de este
segmento residir próximo à população de alta renda.
Quanto à contribuição para a previdência social, a Tabela_6 mostra que a
educação tem peso ainda maior do que o desemprego.16 De fato, um indivíduo com
oito ou mais anos de estudo teria sua chance de contribuir para a previdência
social aumentada em 57,9%.
Também teriam as probabilidades incrementadas as pessoas com idade entre 20 e
39 anos (48,0%) e do sexo masculino (20,7%). No caso da pendularidade, a pessoa
que realiza tal movimento tem grande vantagem (66,2% maior) sobre a que não
realiza. Nas demais variáveis sociodemográficas, as diferenças são bem menos
acentuadas. Esse resultado sugere que a pendularidade estaria ligada à inserção
em empregos mais estáveis e/ou formalizados.
Os efeitos da migração neste modelo mostram novamente o impacto da condição de
migrante recente sobre a contribuição para a previdência. Tanto para os
intrametropolitanos quanto para os externos, o fato de residirem há menos de
dois anos no município lhes reduz a probabilidade de ter essa proteção social
quando comparados aos não-migrantes. No entanto, o que mais chama a atenção é
que os migrantes externos mais antigos (3 a 5 anos de residência) registraram
uma probabilidade 13% maior de estar nessa condição do que os não-migrantes e,
portanto, também com relação aos intrametropolitanos na mesma situação. Uma
explicação para esse fato requereria uma análise mais detalhada sobre as
características de ambos os migrantes, uma vez que a migração
intrametropolitana na RMC não é o fator central da produção do espaço
metropolitano, em particular das periferias onde a migração externa tem grande
peso, chegando a representar, no conjunto da região, quase 78% da migração
recebida (CUNHA, et. al., 2006, p.347).
O lugar onde moram as pessoas apresenta efeito significativo também no caso da
proteção social. Assim, residir em uma zona Alto-Alto (alta concentração de
pobreza) implica uma redução de 21,7% nas chances de contribuição para a
previdência social, enquanto viver em zonas com maior concentração de riqueza
(Baixo-Baixo) significa um aumento de 13,5%. Observa-se aqui que o pobre parece
beneficiar-se do fato de residir em zonas também ocupadas por população de mais
alta renda (zonas Alto-Baixo), já que a probabilidade cresce cerca de 12,6%.
Foram ajustados, por último, modelos para variáveis relativas à condição de
formalidade no mercado de trabalho. Tentou-se, a partir de um modelo logístico,
também investigar os efeitos das variáveis utilizadas nesse estudo sobre a
formalidade no trabalho, expressa em termos da posse de carteira assinada para
ocupados tanto com ensino fundamental, quanto com ensino médio ou superior.17
Os dados da Tabela_7 mostram novamente maiores probabilidades para as pessoas
economicamente ativas com idade entre 20 e 39 anos (53,5% a mais).18
Nesse caso específico, passa a ter significância estatística a variável
relativa à composição migratória das áreas analisadas. Assim, pessoas residindo
em APs com até 10% de migrantes recentes possuem 53% mais de chance de uma
formalidade no mercado de trabalho do que os moradores em APs com mais de 30%
de migrantes recentes, fato que sugere que a convivência com pessoas mais
antigas ou não-migrantes pode implicar vantagens em termos da formalização do
trabalho. Aliás, esse resultado mostra-se compatível com o efeito da variável
tipo de migrante, que, como será mostrado a seguir, aponta para o efeito
negativo de ser migrante recente.
Comparando-se a migração intrametropolitana e a externa à RM, novamente as
conclusões são semelhantes às obtidas no modelo anterior, ou seja, parece
haver, em relação à população aqui considerada não-migrante, uma vantagem dos
migrantes externos mais antigos (com 3 a 5 anos de residência no município), já
que estes apresentaram quase 14% a mais de chance de possuírem carteira de
trabalho assinada; o inverso ocorre com os migrantes recentes, sejam eles
externos ou intrametropolitanos.
No caso da variável pendularidade, o modelo mostra que realizar esse tipo de
movimento incrementa a chance (59,2%) de possuir carteira de trabalho assinada
em relação às pessoas que não realizam, resultado que, mais uma vez, reforça a
ideia de que o fenômeno da pendularidade está associado, de alguma forma, a
melhores condições de inserção, fato já apontado em outros estudos (SOBREIRA;
CUNHA, 2007).
Destaca-se o efeito da localização sobre a variável dependente em pauta. Como
mostram os dados da Tabela_7, os que moram em áreas de melhor condição social
(Baixo-Baixo) possuem 79,5% a mais de chances de conseguir um trabalho com
carteira assinada, enquanto os residentes em áreas de pior condição social
(Alto-Alto) têm uma probabilidade 28,2% menor de trabalhar com carteira
assinada. O estrato Alto-Baixo também apresenta redução na chance de conseguir
emprego com carteira assinada, de 10,5%.
Finalmente, a Tabela_8 traz, para a mesma variável dependente, os resultados do
modelo logístico para aqueles pertencentes ao segundo subgrupo de pessoas
ocupadas, ou seja, aqueles com ensino médio ou superior.
Percebe-se, a partir desses dados, que os efeitos com significância estatística
ocorrem nas variáveis cor, estado civil, idade da pessoa, condição migratória e
de pendularidade e residência segundo a zona de segregação.19 O sexo e a
composição migratória das áreas não apresentaram efeitos relevantes.
Assim, para esse grupo de pessoas, ter entre 20 e 39 anos aumenta em 28,9% a
chance de uma formalidade em termos de posse de carteira de trabalho assinada,
sendo que o fato de ter ultrapassado os 40 anos reduz essa chance em comparação
aos menores de 20 anos.
Um resultado interessante do modelo e que certamente mereceria maior
investigação e discussão é o fato de os negros com maior escolaridade,
controladas todas as outras variáveis, não apresentarem diferença significativa
em relação aos brancos no que se refere à posse de carteira assinada. Esse dado
é sugestivo para refletir sobre o peso da educação e da condição ética/racial
sobre a inserção da pessoa no mercado de trabalho.
A condição de pendularidade uma vez mais emerge como fator importante, assim
como o maior tempo de residência dos migrantes externos. No primeiro caso, a
probabilidade de ter um emprego formal é 25,4% maior para aqueles que trabalham
em um município distinto de onde residem. Do mesmo modo, ser migrante externo
mais antigo eleva essa chance em 24% com relação ao não-migrante e ainda mais
em comparação aos migrantes recém-chegados.
Novamente, o resultado que mais nos interessa diz respeito ao efeito da
localização sobre a formalidade das pessoas com maior nível escolar.
Diferentemente do modelo anterior, aqueles que vivem em áreas mais segregadas e
pobres, mas com bom nível educacional, possuem uma probabilidade 55% maior de
conseguirem um emprego com carteira assinada, em relação aos que vivem em zonas
com maior mescla social, ao passo que os residentes em áreas de alta renda
apresentam uma chance 50% menor. Chama a atenção também o fato de que viver em
uma área de concentração de pobreza, mas com um entorno diferenciado (Alto-
Baixo), também dá vantagens aos residentes.
Em suma, considerando os resultados dos quatro modelos ajustados, pode-se dizer
que, mesmo controlando variáveis importantes e chaves (como sexo, idade e
educação), para a inserção no mercado de trabalho, o lugar de residência do
indivíduo parece assumir um papel relevante. Na verdade, a força desse fator
fica ainda mais visível quando o impacto da educação é reduzido de forma
significativa, como no último modelo avaliado (carteira assinada para pessoa
com ensino médio ou superior); mesmo nesse caso, as chances de alcançar uma
situação mais estável se reduzem gritantemente para as pessoas residentes nas
zonas mais segregadas e pobres da região. Além disso, as melhores condições
daqueles pobres residentes em área cercada por população de mais alta renda
também ratificam não ser a questão de pobreza (e educação) o único elemento a
ser considerado quando se analisa a inserção laboral das pessoas.
Considerações finais
Analisar e identificar de maneira inequívoca o efeito que a localização do
indivíduo numa grande aglomeração urbana tem sobre o seu comportamento, suas
vulnerabilidades e condições gerais de vida não é tarefa das mais simples. Se,
por um lado, a literatura tem apontado mecanismos a partir dos quais isso se
concretiza, por outro, os métodos de investigação e, sobretudo, os dados com
que se trabalha nem sempre são suficientemente adequados para se chegar a
conclusões definitivas.
Este é o caso do presente trabalho. Mesmo tendo sido feito um esforço empírico
para isolar o efeito que distintas situações de segregação podem ter sobre
algumas características relativas à inserção do indivíduo no mercado de
trabalho, tem-se consciência que tanto a fonte (o Censo Demográfico) quanto a
forma de caracterizar as distintas situações de segregação (zonas de
segregação) padecem de limitações, tendo em vista a complexidade do problema.
Na verdade, os resultados obtidos a partir do uso das informações censitárias,
na melhor das hipóteses, poderiam ser utilizados como guias para suscitarem
novas investigações e metodologias objetivando isolar os possíveis mecanismos
que explicariam esse efeito.
De qualquer maneira, os dados aqui analisados sugeriram que diferentes
localizações na região possuem, de fato, impactos significativos sobre a
inserção no mercado de trabalho dos indivíduos. Os modelos ajustados para
quatro variáveis dependentes - desemprego, proteção social, formalidade no
trabalho para pessoas com baixa escolaridade e para aquelas com elevada
educação - mostraram que, mesmo quando controladas variáveis sociodemográficas
reconhecidamente importantes para explicar os fenômenos em questão, os efeitos
da localização ainda permanecem significativos.
Na verdade, embora não fosse a principal motivação desse estudo, os resultados
do modelo também sugeriram uma importante agenda de estudos, tendo em vista os
efeitos estimados para variáveis como a composição migratória das áreas e a
condição migratória e de pendularidade das pessoas. Sem dúvida que entender o
porquê destes efeitos, pelo interesse que desperta em particular nos
demógrafos, será matéria de investigações no futuro.
Com relação ao efeito de localização, deve-se destacar que, mais além das
significativas diferenças encontradas entre a população das zonas de segregação
extremas (categorias Alto-Alto e Baixo-Baixo), foi muito interessante o
resultado obtido para aquelas zonas de residência da população pobre que se
encontravam próximas das áreas habitadas pelos estratos de melhor condição
social na região (categoria Alto-Baixo). Nesse caso, as estimativas mostraram
uma melhor condição dessa população em comparação com aquela residente em zonas
de alta segregação de pobreza (categoria Alto-Alto). Na verdade, esse resultado
reforça hipóteses como aquelas que consideram os "efeitos de rol", ou o menor
isolamento social com mecanismos a partir dos quais as condições de
vulnerabilidade da população mais pobre poderiam ser reduzidas.
Há que se reconhecer, por último, uma limitação teórico/metodológica que
decorre do tipo de enfoque utilizado nesse estudo. Mesmo considerando-se as
evidências de outros estudos, bem como as observações teóricas sobre os
mecanismos que influenciariam no efeito do bairro sobre o comportamento do
indivíduo, ao menos no caso da dimensão aqui analisada (o mercado de trabalho),
sempre resta uma dúvida sobre a relação causal entre um e outro fenômeno.
Afinal, será mesmo o fato de morar em áreas segregadas uma das causas da pior,
ou melhor, inserção laboral? Não seria justamente essa melhor inserção que
explicaria a localização do indivíduo no espaço regional? Além disso, não se
pode esquecer que, nos países em desenvolvimento, em particular no Brasil, o
mercado de trabalho é o principal meio para escapar da condição de pobreza, o
que torna ainda mais complexa a identificação de uma relação de causalidade
entre segregação e inserção produtiva.
Acreditamos que essa disjuntiva não é simples de ser respondida, sobretudo no
caso do presente trabalho, que é centrado em dados do tipo transversal. É
provável que estudos longitudinais fossem mais adequados para responder a esse
tipo de questão, uma vez que seria possível avaliar melhor as situações que
levariam o indivíduo a se localizar nessa ou naquela área de cidade, tendo em
vista o seu histórico de inserção no mercado de trabalho.
Não obstante o anterior, estamos de acordo com os vários autores que apostam no
efeito do lugar como um caminho promissor, sobretudo pelo que isso significaria
em termos de proposição de políticas públicas. Ao que tudo indica, as
características sociodemográficas não são suficientes para explicar a inserção
do indivíduo no mercado de trabalho. Desta forma, o espaço, ou o que ele
significa no processo de reprodução social, parece ser um elemento a ser sempre
levado em conta.