Movimentos pendulares das cidades interioranas de porte médio de Cascavel e
Toledo, no Paraná
Introdução
O aumento dos fluxos de trabalhadores entre cidades aguça o interesse sobre
esse tema. A mobilidade populacional dessa natureza apresenta valor estratégico
nas transformações socioeconômicas e físicas do território e, conseqüentemente,
reflete no bem-estar da população. Este movimento também é fundamental para os
citadinos, e, segundo Handson e Pratt (apud WEBER; KWAN, 2003), a ligação casa-
trabalho é uma atividade básica para a população, pois, por intermédio desse
movimento, as pessoas podem participar do mercado trabalho. Sendo assim, trata-
se de um processo essencial para as cidades e regiões.
Os temas movimento e acessibilidade urbana assumem importância como instrumento
para dimensionar uma unidade regional. A OECED (2002) define uma região
funcional1 em termos da extensão do mercado de trabalho, ultrapassando os
limites administrativos dos municípios. O movimento pendular é utilizado como
instrumento para dimensioná-la. De acordo com a OECED (2002, p. 11), "o
delineamento de região funcional em muitos países membros [OECED] está baseado
no movimento pendular". Critérios distintos podem ser considerados para
descrever os movimentos pendulares, tais como freqüência da viagem, distância a
ser percorrida, entre outros. No entanto, independente dessas variações, 22
países membros da OECED, a partir do movimento pendular, utilizam a extensão do
mercado de trabalho para delimitar uma região funcional.
Os estudos sobre movimento pendular também levantam informações relevantes para
o planejamento urbano-regional e no ordenamento da dinâmica territorial. Reolon
(2007), baseado no estudo de Galvão et. al. (1969), que utilizaram o movimento
pendular para dimensionar metrópoles institucionais, aplicou essa mesma
metodologia para mensurar uma unidade regional no interior do país, a partir do
contexto de metropolização.
Conforme George (1983), o movimento pendular não consiste mais em um fenômeno
próprio da vida nos grandes centros urbanos, mas sim em um fenômeno de
irradiação exterior às cidades e suas
hinterland
2 (áreas de influências), podendo ser estudado em conjunto com outras formas de
extensão urbana, dentro do quadro da definição e da delimitação das redes
urbanas.3 Baeninger (1996) faz uma constatação de mesma natureza sobre a
dinâmica econômico-populacional das distintas regiões do interior do Brasil. A
autora observa que os movimentos pendulares fazem parte de novas modalidades de
deslocamentos populacionais, as quais eram quase exclusivas aos grandes centros
urbanos. Porém, são pouco presentes na literatura estudos que relacionam esses
movimentos com as cidades interioranas de porte médio.4
Ainda não se sabe muito sobre a influência da rede urbana nos movimentos
pendulares em municípios de menor porte. A maioria dos estudos e pesquisas
ocorre nas áreas metropolitanas, onde as circunstâncias do transporte e do
tamanho populacional das cidades são completamente diferentes daquelas
existentes em áreas não-metropolitanas (VANDERSMISSEN; VILLENEUVE; THÉRIAULT,
2003).
Tendo em vista que os grandes centros urbanos têm sido objetos de vários
estudos realizados no Brasil e no exterior,5 esse trabalho está trazendo à luz
os municípios de porte médio, que estão evidenciando novas tendências urbanas,
causadas pelo fluxo de trabalhadores entre cidades. Vale ressaltar que a
análise realizada neste artigo focouse nas cidades de porte médio, e não nas
pequenas, devido à necessidade de uma inevitável escala mínima urbana,
principalmente na oferta de bens e serviços.
Considerando estes apontamentos iniciais, o objetivo central deste artigo é
examinar o fenômeno do movimento pendular de trabalhadores intermunicipais
entre as cidades interioranas de porte médio de Cascavel e Toledo, no interior
do Estado do Paraná, mais precisamente na Mesorregião do Oeste paranaense.
Assim, na primeira parte deste artigo, encontra-se uma breve abordagem sobre os
movimentos pendulares, trazendo alguns aspectos introdutórios sobre a
literatura. A seguir, são descritas e discutidas algumas características do
eixo Cascavel-Toledo, bem como o procedimento metodológico da pesquisa
empírica. Posteriormente, apresenta-se a análise empírica desse artigo, a
partir dos dados da pesquisa, além das conclusões realizadas.
Os movimentos pendulares
No Brasil, as transformações urbanas ocorridas nas últimas décadas, tais como
inserção da mulher no mercado de trabalho, novas formas de moradias e
alterações na composição familiar, constituem elementos importantes para
interpretação das mudanças demográficas e socioeconômicas. O panorama da
mobilidade espacial da população brasileira foi modificado basicamente na
década de 80, apresentando-se diversificado e com implicações mais determinadas
na configuração e estruturação das cidades. Atualmente, os movimentos
migratórios passam a apresentar novas características, reflexo do novo panorama
socioeconômico imerso num contexto amplamente urbanizado e de áreas rurais
inseridas numa dinâmica de modernização tecnológica. Aliado a esses fatores,
destacase o papel preponderante da inovação tecnológica nos setores de
transporte e dos meios de comunicação. Segundo Baeninger (1996, p. 681):
os clássicos fatores de expulsão e de atração de população dentro de
um mesmo contexto urbano-metropolitano, bem como a definição de
origem e destino de determinados fluxos não tem o mesmo significado
que esses termos representavam quando se tratava de analisar os
grandes movimentos ruraisurbanos, que marcaram o crescimento e a
concentração da população em áreas metropolitanas.
As formas de redistribuição espacial da população estão associadas:
tanto ao crescimento inter-regional - como dimensão territorial do
processo de urbanização, quanto intra-urbano regional - como a
expressão local dos processos sociais, onde fenômenos semelhantes aos
metropolitanos vêm ocorrendo, porém, noutro espaço, noutro tempo e
noutra escala (BAENINGER, 1999, p. 74).
Ainda de acordo com a autora, esses fenômenos de movimentos populacionais já
são visíveis, principalmente nos pólos regionais e suas hinterland. Os
movimentos populacionais estão se espraiando pelo território nacional e
relacionam-se a várias determinações da vida social, entre as quais o aspecto
econômico passou a ser peça fundamental, porém não a única, dos movimentos
populacionais.
Segundo George (1983), a mobilidade da população urbana manifesta-se em dois
níveis de grande importância: sob a configuração de uma maior ou menor
volubilidade de moradia; e sob a forma de movimentos diários da população. No
entanto, deve-se ressaltar que essas duas situações, por muitas vezes, estão
fortemente relacionadas.
A mobilidade populacional urbana, com ênfase na moradia, revela uma
característica de pessoas ou trabalhadores que, por motivos econômicos, ocupam
uma habitação de menor custo, de tal magnitude que geram a mobilidade da
população internamente à cidade, considerando o grande peso do fator econômico
em seu deslocamento. Conforme aumentam as necessidades do indivíduo - como, por
exemplo, o nascimento de um filho -, reduz-se o orçamento e, conseqüentemente,
essa alteração pode ser acompanhada por uma mudança de local de moradia. Esses
movimentos também fazem parte do complemento da mobilidade populacional de uma
cidade para outra, sendo uma das características mais gerais da vida urbana.
Atualmente predominam dois tipos de moradias: aquela destinada às classes de
renda média e alta, que "fogem" das metrópoles em busca de qualidade de vida; e
aquela voltada para a população de baixa renda, que se refugia nas periferias,
devido ao elevado custo de habitação na área central da cidade (CARLOS, 2001;
PISCO, 1997).
De qualquer forma, na maior parte dos grandes centros urbanos, tornou-se
difícil encontrar uma residência adequada ao orçamento familiar; as habitações
disponíveis localizam-se, cada vez mais, nas periferias desses centros.
Comumente, essa distância leva as pessoas a ultrapassarem os limites
administrativos dos municípios onde desempenham diariamente suas atividades
profissionais.
O outro aspecto da mobilidade urbana, segundo George (1983, p. 190), é o
movimento diário da população, que "tem como causa a crescente separação
geográfica entre os diversos lugares de atividade e os lugares de residência
nas grandes cidades contemporâneas. Resulta de uma simultaneidade de movimentos
de mesma natureza e da distribuição horária contígua, mas de componentes
geográficos diferentes". Ainda segundo o autor, na maioria das vezes esses
movimentos são centrípetos de manhã e centrífugos no final da tarde e início da
noite.
Conforme Horner (2003), a ligação casa-trabalho é, basicamente, entendia como
uma atividade pela qual as pessoas podem participar de um mercado de trabalho
e, desta forma, suprir suas necessidades vitais. As pessoas têm possibilidades
e condições para viver onde desejam, enquanto ainda existe capacidade de se
envolver em uma vida ativa, incluindo o movimento pendular6 de longa distância.
Esse tipo de movimento, na década de 50, conforme George (1983), era muito
comum em cidades de grande porte. Ainda segundo esse autor, em Paris, por
exemplo, estimava-se que 2,2 milhões de pessoas ativas trabalhavam fora de seu
distrito ou município de residência.
Segundo Beaujeu-Garnier (1974 p. 297), entre as décadas de 50 e 60, embora:
as migrações de mão-de-obra periódicas estivessem declinando quase em
toda parte, os movimentos diários estavam constantemente aumentando
quer em número quer em distância; esses dois fatos são apenas duas
manifestações da influência do progresso técnico sobre a vida e a
atividade humana. Os modernos meios de transporte [estavam]
favorecendo o que se tornou necessidade econômica, isto é, a
concentração dos meios de produção e o crescimento das cidades.
Atualmente, segundo o INE (2003b, p. 8), a intensificação e a complexidade da
mobilidade populacional não são apenas resultado da "evolução dos transportes,
mas, também, são conseqüências de transformações sociais e econômicas,
designadamente com a chegada das mulheres ao mercado de trabalho, as novas
organizações de trabalho (tempo parcial, turnos), a periurbanização7 e a
evolução das mentalidades".
Atualmente, no Brasil, os deslocamentos de curta distância passaram a ter certa
predominância no contexto da economia brasileira (BAENINGER, 1996; ANTICO,
2003). Segundo Antico (2003), os dados do Censo Demográfico de 20008 revelaram
que, no país, 7,4 milhões de pessoas trabalhavam ou estudavam fora de seu
município de residência, realizando, assim, o movimento pendular.
A ocorrência da pendulariedade é mais visível nos grandes centros urbanos
brasileiros, como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Belo Horizonte, Porto
Alegre, entre outros. Um exemplo é a dimensão da mobilidade populacional
intermunicipal da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), onde, conforme a
Companhia do Metropolitano de São Paulo - CMSP (1987 e 1997) citado por Antico
(2000), cerca de 925,2 mil pessoas faziam, em 1987, os movimentos pendulares
intermunicipais, o que representava 18% da população ocupada daquela região. Em
1997, esse número aumentou para 1,3 milhão, ou 18,7% dos ocupados na RMSP.
Para George (1983), o distanciamento das atividades econômicas faz com que o
recrutamento da mão-de-obra dos diversos setores de atividades não se limite
mais à cidade ou ao aglomerado urbano. Esse distanciamento, ainda, leva o
trabalhador a realizar deslocamentos diários, constituindo um fenômeno nem
sempre de fácil solução do ponto de vista tanto individual como coletivo. Esses
deslocamentos diários podem ocorrer de forma individual, como executivos e
altos funcionários com veículos motorizados, por meio de transportes coletivos,
privados ou públicos, utilizados por funcionários, podendo também ser
incorporados nesses deslocamentos diários os estudantes de ensinos médio e
superior. Segundo o INE (2003b), o deslocamento cotidiano de trabalhador figura
entre um dos mais conhecidos desses movimentos, por ser o mais freqüente e
ritmado.
Esses movimentos "que caracterizam mobilidades de curta duração [...] dizem-se
pendulares porque, realizados a horas mais ou menos fixas, refletem a
estruturação do espaço e a existência ou não de hierarquias" (INE, 2003b, p.
7). Segundo Beaujeu-Garnier (1974, p. 284), é "devido à sua feição
característica - um movimento de vaivém semelhante à oscilação de um pêndulo -
" que esse fenômeno recebe a denominação de movimento pendular.
A partir dessa comparação, segundo o INE (2003a, p. 11), a expressão:
"movimentos pendulares" é habitualmente utilizada para designar os
movimentos quotidianos das populações entre o local de residência e o
local de trabalho ou estudo. O conceito de movimento pendular
encerra, na sua forma mais simples, duas deslocações de uma pessoa
entre dois pontos do espaço geográfico: uma de ida para o local de
trabalho ou estudo e outra de retorno ao local de residência. Deste
modo, antes de mais, o movimento pendular é uma questão funcional que
resulta da organização do território e da não coincidência entre o
local de residência e os locais de trabalho ou estudo.
Segundo Patarra et al. (2000), os movimentos populacionais intra-regionais e a
mobilidade pendular são, normalmente, fenômenos de intensidade expressiva e com
importantes implicações nas dinâmicas demográficas destas áreas. Nesse sentido,
o movimento pendular,
além de registrar a movimentação cotidiana no espaço metropolitano, é
a evidência mais clara de como se constitui o mercado de trabalho na
região metropolitana e a segmentação dos locais de moradia e de
trabalho, que se estabelecem por lógicas distintas neste aglomerado
urbano (MONTALI, 1991, p. 8 apud ANTICO, 2003, p. 18).
Segundo Vandersmissen, Villeneuve e Thériault (2003), há um vigoroso debate
sobre o papel das variáveis que determinam os movimentos pendulares. Para
vários autores, existe relação entre a forma urbana e a duração do tempo de
viagem dos trabalhadores e estudantes que fazem o movimento pendular, mas essa
relação ainda é mal compreendida, principalmente porque poucos estudos puderam
documentar mudanças estruturais no longo prazo, com dados locacionais (ou de
localização) suficientemente detalhados.
Gordon, Kumar e Richardson (1989) afirmaram que os movimentos pendulares tendem
a ser mais longos e demorados em cidades grandes do que nas menores, mas esta
relação simples é muito influenciada pela estrutura espacial metropolitana.
Segundo Grando (2005), os movimentos pendulares têm sua intensidade
condicionada ao tamanho das cidades - quanto maiores são os centros urbanos,
maiores tendem a ser os fluxos pendulares, pois, como já mencionado, o mercado
imobiliário encarece o solo das áreas centrais.
Ommeren, Rietveld e Nijkamp (1998) ressaltam que geógrafos e economistas
igualmente argumentam que a relação entre a mobilidade de emprego e a
residencial depende da extensão da distância do movimento considerado pelo
cidadão ou pelo núcleo familiar. Desse modo, a pendulariedade pode levar à
permanência definitiva do indivíduo numa determinada região, ou seja, à
migração interna.
Segundo George (1983) e Beaujeu-Garnier (1974), a decisão para o trabalhador
migrar também está condicionada por outros motivos: sistema de transporte e de
circulação em grande escala, cuja utilização só é efetiva durante poucas horas
por dia, "na hora do rush"; custo do transporte coletivo; riscos de acidentes,
devido à grande circulação de pessoas e veículos, que podem resultar na
interrupção do trabalho e atrasos; tempo despendido na locomoção; e
acessibilidade propiciada pelo sistema público de transporte.
Apesar desses motivos expostos, relacionados à decisão definitiva de migrar,
segundo Renkow e Hoover (2000, p. 267, tradução nossa), "o movimento pendular e
o comportamento migratório estão associados, e isto é freqüentemente ignorado
nos estudos que os analisam independentemente um do outro". Por exemplo, na
pesquisa empírica de Renkow, Hoover e Yoder (1996), realizada no estado
americano da Carolina do Norte, revelou a existência de relação entre movimento
pendular e migração, e no modelo analítico proposto, além da distância entre um
distrito e outro e o custo da moradia, considerou o salário do trabalhador.
De acordo com os autores, os trabalhadores mais especializados tendem a receber
melhores salários e realizarem com mais freqüência os movimentos pendulares.
Porém, segundo Andrade e Serra (1997), isto deixa de ser algo simples e passa a
ser mais complexo a partir do momento em que vão se acumulando as
externalidades negativas ligadas ao meio social, tais como qualidade de vida,
segurança, assistência hospitalar, transporte, entre outros. Dessa forma, os
movimentos pendulares podem ser estudados sob várias perspectivas: econômica,
social, geográfica, histórica ou pela suas junções, entre outras.
Essa multidisciplinariedade, considerando-se as novas formas de urbanização,
deve ser entendida como um processo em que a grande cidade ou a cidade-sede
interage com a sua área de influência - as aglomerações regionais -, mantendo
vínculos de relações por meio do setor de serviços, emprego, insumos para as
atividades econômicas, local para moradia, entre outros (BAENINGER, 1999).
Dessa forma, segundo a autora, a mobilidade intra-urbana constitui um dos
principais elementos da formação e consolidação de tais espaços urbanos.
Com certa predominância dos movimentos intra-urbanos, num contexto de dispersão
e, ao mesmo tempo, de polarização regional,
os movimentos pendulares da população, constituindo especialmente um
tipo de mobilidade intra-urbana, tornam-se uma dimensão importante na
decisão de mudar ou não da localidade de residência, uma vez que com
este movimento - fruto do processo de urbanização (especialmente com
a melhoria das vias de transporte) e das novas formas de
redistribuição espacial da população - a mudança de emprego não
corresponde necessariamente a uma mudança de residência [...]
(BAENINGER, 1999, p.75).
A maior parte das pesquisas empíricas sobre movimento pendular adota como áreas
de estudo os grandes centros urbanos, devido ao acúmulo de trabalhadores que
vivem nesses locais e que fazem diariamente esse movimento. No entanto, os
centros intermediários (cidades de porte médio) do país, segundo Brito, Horta e
Amaral (2001), apresentam taxas de crescimento mais elevadas, quando comparados
às metrópoles, e estão assumindo papel importante no planejamento urbano e
regional. A mobilidade populacional diária não é uma tendência exclusiva dos
grandes centros, e é nesse sentido que este artigo apresenta a ocorrência e sua
freqüência nos centros de porte médio de Cascavel e Toledo, bem como a inserção
na rede urbana da Mesorregião Oeste do Paraná.
Caracterização do eixo Cascavel-Toledo
As cidades de Cascavel e Toledo localizam-se na Mesorregião Oeste do Paraná e
estão distantes entre si cerca de 35 km. Essa mesorregião tem, atualmente, sua
estrutura produtiva dinamizada, principalmente, pela produção de grãos e pela
agroindústria de alimentos. Segundo Westphalen (1987), essa matriz produtiva
foi constituída a partir dos movimentos migratórios que ocorreram no início do
século XX.
A região foi formada a partir de 1940, período de forte fluxo migratório
notadamente de famílias do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, que estavam em
busca de novas fronteiras agrícolas. Tal acontecimento contribuiu para que os
espaços vazios dessa região fossem preenchidos e propiciou condições para o
início da atividade agrícola desenvolvida pela pequena propriedade, o que
trouxe certa estabilidade socioeconômica e cultural à localidade.
A região foi formada a partir de 1940, período de forte fluxo migratório
notadamente de famílias do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, que estavam em
busca de novas fronteiras agrícolas. Tal acontecimento contribuiu para que os
espaços vazios dessa região fossem preenchidos e propiciou condições para o
início da atividade agrícola desenvolvida pela pequena propriedade, o que
trouxe certa estabilidade socioeconômica e cultural à localidade.
Segundo o Ipea et al. (2000, p. 109), entre 1970 e 1996,
essa mesorregião passa por processo intenso de urbanização, saltando
do grau de 19,87% para 77,2%. Esse processo provoca grande
transformação na distribuição geográfica de sua população: com a área
rural da mesorregião alcançando 357.023 habitantes e incrementando
suas áreas urbanas com um contingente de 683.175 habitantes,
caracterizando-a como uma região receptora de fluxos interiores e
exteriores aos seus limites. Vale observar que essa região foi a
última fronteira de ocupação do estado, integrando-se à dinâmica
estadual apenas a partir dos anos 70, quando coincidem fatores como a
expansão da agricultura moderna e o início da construção da Usina
Hidrelétrica de Itaipu.
Segundo o Censo Demográfico de 2000, o grau de urbanização nessa região foi de
81,44%, mas com predominância dos pequenos municípios. Do total dos 50
municípios existentes na região, 40 enquadravam-se no perfil de pequenas
cidades, inferior a 20 mil habitantes, o que representa 80% dos municípios.
No Mapa_1, pode-se visualizar a Mesorregião Oeste do Paraná e as principais
rodovias que ligam a região à capital do Estado (Curitiba), o acesso ao Sul
(Santa Catarina e Rio Grande do Sul) e ao Sudeste e Centro-Oeste do país, bem
como os acessos internacionais para o Paraguai e a Argentina, através das
cidades de Foz do Iguaçu e Guairá. Segundo Moura (2004), passou a existir, no
oeste paranaense, um complexo urbano, que articula as aglomerações polarizadas
por Cascavel e Foz do Iguaçu e envolve outras cidades menores, tais como
Toledo, manifestando-se como uma espacialidade complexa e internacional e
desenvolvendo estreitas relações com as cidades vizinhas de Puerto Iguaçu, na
Argentina, e Ciudad del Leste, no Paraguai.
As cidades de Cascavel e Toledo figuram-se entre as principais do Estado do
Paraná. Cascavel, que possui forte centralidade regional, é o principal pólo de
aglomeração na região oeste do Estado, sendo que sua especificidade está em sua
localização estratégica - pois ali se encontra o entroncamento de acesso às
fronteiras internacionais - e no acúmulo de funções de alta e média
complexidade no atendimento às demandas regionais. Já a cidade de Toledo é o
centro secundário desse pólo. Assim, Cascavel e Toledo, devido à proximidade
geográfica entre si, tornam-se importantes municípios na configuração da rede
urbana e no contexto econômico tanto da região oeste como do Estado Paraná.
Essa forte associação com a complexidade da rede urbana da região ampliou-se
com a implantação da linha do ônibus "metropolitano",9 o que facilitou o
aumento do dinamismo interurbano entre os municípios da região e,
particularmente, entre as cidades em estudo, fortalecendo o conceito proposto
pelo Ipea (2000) de aglomeração urbana não-contínua. Essas cidades tinham
anteriormente acesso entre si por meio do ônibus intermunicipal, mas com a
implantação do ônibus metropolitano aumentou a acessibilidade10 dos cidadãos
dessas cidades aos outros centros urbanos, fundamentalmente dos centros menores
para os maiores.
Mapa_2 mostra o itinerário das empresas que fazem os transportes de passageiros
via linha de ônibus metropolitano, abrangendo grande parte da Mesorregião Oeste
paranaense. Pode-se observar que todos os municípios lindeiros ao lago de
Itaipu estão interligados com esta modalidade de transporte público.
A concessão desse tipo de transporte na região pertencia a três empresas, sendo
que a Expresso Princesa dos Campos abrange a maior parcela do mercado, com
cerca de 86% dos municípios atendidos. Vale destacar ainda que os 24 municípios
envolvidos no transporte intermunicipal, por meio da empresa Expresso Princesa
dos Campos, englobavam cerca de 900 mil pessoas residentes nessas cidades, o
que correspondia a 81% do total da população da Mesorregião Oeste, ou 1.111.091
habitantes, segundo o Censo Demográfico de 2000.
O ônibus metropolitano em relação ao intermunicipal pode ter reduzido o
conforto dos cidadãos que se movimentam nessas cidades, mas aumentou
acessibilidade, devido à redução do custo do transporte. Segundo Borck e Wrede
(2005), nos Estados Unidos e Europa, os usuários dos transportes públicos têm
subsídios para fazerem o movimento pendular, pagando 25% das despesas de
capital e 50% dos custos operacionais, respectivamente. Uma análise comparativa
parece uma situação distante, mas a implantação do ônibus metropolitano
apresenta um efeito similar de redução de custo do transporte e favorece,
claramente, a população mais pobre, que guia seu consumo de bens e serviços,
quase exclusivamente, via preço.
A pesquisa de campo foi elaborada por amostragem e, para tanto, aplicaram-se
questionários estruturados com respostas fechadas para os usuários do ônibus
metropolitano para os dois sentidos: Cascavel-Toledo e Toledo-Cascavel. A
Tabela_1 traz uma breve comparação entre o total de passageiros que utilizam o
ônibus metropolitano e a população total e a ocupada de Cascavel e Toledo
(dados do Censo Demográfico 2000). A média mensal de passageiros transportados
pela empresa, entre as cidades de Cascavel e Toledo, correspondia a 12,39% da
população total, ou 28,52% da população ocupada das duas cidades.
A Tabela_1 revela a existência de um movimento pendular cruzado, ou seja, não
está sendo analisada uma situação clássica de único centro11 ou policentro,
pois a configuração da rede urbana regional da Mesorregião Oeste do Paraná
apresentava essa configuração de duas cidades pólos, com Cascavel em posição
superior, tal como sugere o estudo do Ipea (2000). Observou-se, posteriormente
confirmado pela pesquisa de campo, que havia uma troca de população que fazia o
sentido casa-trabalho partindo de ambas as cidades. Naturalmente, em termos
relativos, a intensidade do movimento pendular é maior no sentido Toledo-
Cascavel; reflexo da escala populacional e da estrutura produtiva mais complexa
de Cascavel.
A acessibilidade, nesse estudo, foi analisada principalmente do ponto vista dos
citadinos que chegavam a estas duas aglomerações urbanas a partir da
rodoviária, havendo de fato o percurso até os seus lares, que é realizado pelos
mais diversos meios de transporte, inclusive sistema público de transporte. Do
ponto de vista conceitual, para efetivar a análise, segundo Weber e Kwan
(2003), a acessibilidade pode se referir a um ponto ou uma zona de localização.
No caso deste estudo, a zona que os citadinos pretendem atingir será entendida
como a aglomeração urbana das cidades de Cascavel e Toledo, mais
especificamente a rodoviária.
A partir dos dados da Tabela_1, foi calculado o tamanho da amostra,
considerando a média diária de passageiros entre as cidades.12 No entanto, para
que a amostra fosse representativa e apresentas-se um erro amostral de 5%, foi
necessário pesquisar, no mínimo, 311 passageiros. Porém, investigouse um total
de 509 passageiros, diminuindo certamente a margem do erro amostral e
aumentando a confiança da pesquisa.
Para a aplicação dos questionários foram abordados todos os usuários que
utilizavam o chamado "ônibus metropolitano" como meio de locomoção
intermunicipal. Esse tipo de transporte tem como lugar de origem o terminal
rodoviário das cidades em estudo. Essa etapa da pesquisa foi desenvolvida com a
colaboração da empresa Expresso Princesa dos Campos, que permitiu a realização
das entrevistas ao lado do guichê da venda de passagens, facilitando a
abordagem das pessoas que compravam as passagens para esse tipo de transporte
intermunicipal.
Os questionários foram aplicados somente para os passageiros que estavam
partindo de seus pontos de origem e, preferencialmente, nos horários da manhã,
entre as 6 horas e 12h:30, o que possibilitou captar o perfil dos usuários do
ônibus metropolitano e aumentou a probabilidade de entrevistar a parcela de
pessoas que fazem o movimento pendular. Além disso, considerou-se o horário
matutino mais favorável para a realização da pesquisa, pois o entrevistado
estaria mais disposto e seria mais fidedigno às respostas. Os questionários
foram aplicados de segunda a sábado da última semana de agosto e na segunda
semana de setembro de 2005.
Perfil do movimento pendular de Cascavel-Toledo: usuário do ônibus
metropolitano
A análise inicial dos citadinos que fazem a pendulariedade utilizando o sistema
público de transporte nos sentidos Cascavel-Toledo e Toledo-Cascavel revelou
que cerca de 70% estavam empregados, na semana da pesquisa, e os demais eram
desempregados, estudantes, ou pessoas que não trabalham. Do total dos
empregados (358 entrevistados), praticamente 66% tinham carteira de trabalho
assinada e 34% trabalhavam na informalidade. Os setores que mais empregavam
eram os de prestação de serviços (19,92%), comércio de mercadorias (22,46%) e
indústria de transformação (18,64%). No entanto, os dois primeiros setores
foram, também, os que mais empregavam trabalhadores informais (49,18% dos
ocupados nesta situação).
A Tabela_2 mostra os principais motivos pelos quais os entrevistados estavam se
deslocando. O uso do ônibus metropolitano foi justificado pelos usuários que se
deslocavam a trabalho (quase 43% do total de entrevistados) pelo fator
econômico/financeiro, em razão de apresentar um menor custo no deslocamento
pendular casa-trabalho-casa.
Outra informação importante é a freqüência diária de deslocamentos da população
que utilizava o ônibus coletivo como meio de locomoção (Tabela_3). Do total dos
entrevistados, aqueles que utilizavam o ônibus metropolitano poucas vezes, ou
seja, menos de uma vez por mês, somavam 18,07%.
Analisando somente aqueles que se deslocavam por motivos de negócio/trabalho,
verifica-se que 27,78% apresentavam uma freqüência de deslocamento (ida e
volta) de cinco vezes por semana, seguido daqueles que se deslocavam uma vez
por semana (14,35%) - esses normalmente eram os trabalhadores temporários, que
passavam a semana fora de sua residência. As freqüências de deslocamento são
variadas, uma vez que os setores econômicos que convergem esses trabalhadores
também são diversos, tais como professores, diaristas entre outros tipos de
profissão que não necessariamente trabalham todos os dias da semana.
O movimento pendular dos estudantes apresentou um percentual de quase 21% de
movimentos diários (cinco vezes por semana) e de quase 29% para os que se
deslocavam apenas uma vez por semana (esse fato pode ser explicado pelos
estudantes universitários que possuem moradias temporárias nas cidades onde
estudam). Verificou-se, também, que há um grande fluxo de pessoas que se
deslocam entre uma vez por semana e uma vez por mês por motivos familiares.
Observando-se apenas os usuários que naquele momento se deslocavam por causa de
negócios/trabalho (216 entrevistados, ou 42,44% do total), foram registrados
motivos diversos que os levaram a trabalhar em outra cidade (Tabela_4).
Entre os motivos selecionados, os mais citados foram a pouca oferta de trabalho
na cidade onde os entrevistados residem (31,48%) e a melhor oferta salarial
para trabalhar em outra cidade (30,09%). Ainda em relação à distribuição de
motivos, 16,20% eram trabalhadores temporários, podendo ser viajantes,
promotores de venda e, principalmente, aqueles que trabalham na construção
civil, entre outros. Ressalta-se que 10,65% correspondiam a trabalhadores que
passaram em concursos e 6,94% referiam-se àqueles que foram transferidos pelas
empresas para alguma filial ou mesmo para a matriz.
A Tabela_5 apresenta a distribuição dos trabalhadores pendulares, segundo os
setores de atividades econômicas em que estão inseridos. Pode-se inferir que
grande parte dos trabalhadores encontrava-se empregada no comércio de
mercadorias ou nas atividades de prestação de serviços. A maioria dos
trabalhadores pendulares (68%) distribuía-se em apenas quatro dos onze setores
de atividades: comércio de mercadorias (21,30%); prestação de serviços
(25,93%); indústria da transformação (10,65%); e construção civil (10,19%).
Porém, se forem somados mais dois setores - transporte e administração pública
-, esse percentual aproxima-se a 85% do total de trabalhadores nesses seis
setores. De maneira geral, o comportamento da ocupação detalhada reflete a
mudança da estrutura econômica dessas duas cidades, que tiveram acelerada
urbanização, mesmo localizadas distantes das grandes aglomerações populacionais
brasileiras e a despeito de a produção agropecuária ainda apresentar peso
expressivo na economia dos dois municípios.
Observou-se que mais da metade dos entrevistados (78,24%) possuía um rendimento
do trabalho de até quatro salários mínimos e 47,69% registravam essa mesma
faixa como renda familiar (Tabela_6). Desta forma, quando comparado com sua
renda familiar, observou-se que houve uma diminuição do total de pessoas com
renda até quatro salários mínimos, com aumento expressivo daqueles que se
encontravam na faixa de renda entre 8 e 10 salários. Alguns membros das
famílias deslocavam-se para trabalhar em outra cidade e os demais trabalhavam
na mesma cidade que moravam, ou poderiam estar também trabalhando em cidades
vizinhas.
Na Tabela_6, fica evidenciado que os trabalhadores que faziam o movimento
pendular utilizando o ônibus metropolitano eram as pessoas preponderantemente
de renda baixa, cerca de 78%. Por outro lado, apenas 4,63% recebiam mais de dez
salários mínimos. Provavelmente, as pessoas de faixa de renda mais alta fazem o
movimento pendular com carro próprio.
Os citadinos ocupados que realizavam o movimento pendular mencionaram vários
motivos para não migrarem para a cidade onde trabalhavam, destacando-se: os
familiares (34,72%); os pessoais, por gostarem da cidade onde residem
atualmente (21,76%); e marido/esposa trabalha na cidade onde reside (10,19%). A
soma do primeiro e terceiro motivos pode ser agrupada como motivações
associadas à questão familiar de quase 45% dos entrevistados. Essas razões para
o local de moradia estão ligadas à rede social de proteção primária da
sociedade, que é a família. O aspecto econômico associado ao custo de vida não
apareceu como um motivo tão expressivo (5,09%), da mesma forma como se verifica
nos estudos de movimento populacional realizados nas grandes cidades e
metrópoles.
As evidências reveladas pela Tabela_7 estão no mesmo sentido das reflexões de
Fishman (1990, p. 38): "as famílias criam suas 'própria cidades'". Dessa forma,
considerando-se a percepção de Fishman (1990), pode-se agrupar as três
primeiras motivações, que correspondem a 66,67% das razões para os indivíduos
não mudarem da cidade com suas famílias, porque a idéia de gostar do local de
moradia está associada a várias relações de sociabilidade da família com o
lugar onde vive, e o indivíduo não está disposto em desconstruí-las para
construir em outro local. Weber e Kwan (2003) asseveram que a acessibilidade
deve refletir mais as características particulares individuais e das famílias
em vez de uma unidade espacial em comum.
A distância como um dos aspectos que influencia a capacidade humana de fazer
movimento pendular tem sido questionada, entretanto, segundo Rouwendal (2004),
há uma distância limite para o citadino perfazê-lo, pois, caso essa seja
excedida, o trabalhador reagirá adaptando-se a outro trabalho ou residência. Os
dados da Tabela_7 evidenciam que a distância entre Cascavel e Toledo deve está
dentro desse limite para os citadinos de ambas as cidades.
A pendulariedade é motivada pela construção de relações sociais no âmbito da
família e com os vizinhos, estabelecidas na cidade de origem. Além disso, deve-
se considerar a frágil relação de trabalho, atualmente, na economia brasileira
e mundial. A permanência em um posto de trabalho está cercada ora por
perspectivas positivas ora por perspectivas negativas, o que gera incertezas
quanto a uma iminente demissão. Esta situação contribui para que os
trabalhadores tenham muita cautela na decisão de se mudar para próximo ao local
de trabalho, nesse caso a cidade. A implementação do ônibus metropolitano, em
2002, e o fim da duplicação da rodovia que interliga as cidades de Cascavel e
Toledo, em 2007, melhoraram as condições de acessibilidade, aumentando, dessa
forma, as barreiras que poderiam transformar o movimento pendular em migração
definitiva.
O acesso a bens e serviços não se estampou como uma resposta nos motivos para o
individuo não migrar. Isto se deve, provavelmente, ao fato de que as duas
cidades apresentam uma série de bens e serviços razoavelmente substitutos. Além
disso, a acessibilidade melhorou, havendo hoje certa facilidade de locomoção
entre as cidades, sem muitos transtornos e de baixo custo, possibilitando o
acesso a outros tipos de bens e serviços que não estejam disponíveis no mercado
local.
Aspecto importante para o movimento pendular é o tempo gasto no trajeto casa-
trabalho. Os trabalhadores que faziam esse deslocamento gastavam, em média, 79
minutos entre a casa e o seu local de trabalho. Já o tempo médio calculado para
os estudantes pendulares foi de, praticamente, 77 minutos (Tabela_8).
Pode-se considerar uma média de tempo elevada entre Cascavel e Toledo, haja
vista o tamanho das cidades quando comparadas com a Região Metropolitana de São
Paulo (RMSP). Segundo Antico (2003), nessa região metropolitana, o tempo médio
de deslocamento, para os citadinos que faziam o movimento pendular, em
transportes coletivos, era de 77,7 minutos. Porém, deve-se ressaltar que, no
cálculo do tempo médio na RMSP, a autora considerou vários tipos de transporte
(carro, trem, metrô, ônibus fretado, entre outros). No estudo dos deslocamentos
pendulares, além da distância percorrida, devem ser incluídos os meios de
transporte utilizados, a infra-estrutura e a acessibilidade para tais
deslocamentos, independente da região analisada. Neste caso, em específico, se
fosse utilizada apenas a média dos transportes com ônibus coletivos da RMSP,
provavelmente a média de tempo para os deslocamentos seria bem superior à
apresentada, corroborando, dessa forma, a observação de Gordon, Kumar e
Richardson (1989), de que os movimentos pendulares tendem a ser mais demorados
em cidades de grande porte populacional do que nas de menor porte.
A predominância do tempo gasto para o deslocamento pendular diário - a
somatória do tempo de ida para o trabalho e de volta para casa -, tanto de
trabalhadores como para estudantes, foi uma média superior a 2 horas e 30
minutos, evidenciando um grande tempo despendido no dia-a-dia dessas pessoas. A
otimização do sistema urbano com duplicação não foi capitada nessa pesquisa e,
sem dúvida, deve reduzir esse tempo total de deslocamento dos citadinos.
Conclusões
Esse trabalho procurou examinar o fenômeno dos movimentos pendulares dos
trabalhadores intermunicipais entre as cidades interioranas de porte médio de
Cascavel e Toledo, localizadas na Mesorregião Oeste do Estado do Paraná.
A pesquisa revela que os principais motivos que levaram os trabalhadores a
obterem emprego em outra cidade e fazer o movimento pendular foram a pouca
oferta de emprego na cidade onde residiam e a oferta de melhores salários na
cidade vizinha. O fator econômico ligado diretamente à questão do emprego está
relacionado às teorias de migrações internas e de movimento pendular,13 pois
grande parte das pesquisas sobre movimentos pendulares apresenta como principal
motivo para tais deslocamentos diários a questão econômica.
Segundo as teorias que abordam os movimentos pendulares e as migrações
internas, o trabalhador tende a residir em moradia menos cara, decisão que
convém devido ao elevado custo da habitação na área central da cidade. Em áreas
metropolitanas, os trabalhadores chegam a ultrapassar os limites
administrativos da cidade em que trabalham para se fixarem em moradias de menor
custo. Portanto, leva-se em consideração principalmente o fator econômico na
decisão de migrar.
Já em cidades interioranas de porte médio, tais como Cascavel e Toledo, foi
constatado que a maioria dos trabalhadores entrevistados não migrava para a
cidade que trabalhavam motivados por questões familiares e porque gostavam da
cidade onde residiam. Esses dois fatores estão relacionados à vida social dos
citadinos. A cidade configura-se e tece relações sociais ao longo do tempo,
possibilitando a seus habitantes criarem ou fortalecerem laços sociais com os
próprios membros da família e com os vizinhos, bem como nos espaços públicos.
Nessa pesquisa, apenas um pequeno grupo de entrevistados apresentou o fator
econômico como motivo principal na decisão para não migrar para a cidade em que
trabalhava.
Acredita-se que, à medida que o citadino tenha capacidade individual de
movimentar-se, ele estará morando no local que preencha suas expectativas. A
própria insegurança em relação ao trabalho motiva este movimento de troca
diária de população entre os municípios de Cascavel e Toledo.
Ressalta-se então que a rede primária de proteção social (a família) torna-se
um fator importante e particular para as cidades interioranas de porte médio de
Cascavel e Toledo. Este fato é, provavelmente, menos presente nas cidades de
maior porte populacional. A desagregação familiar pode ser um item importante
para ser examinado com mais profundidade na comparação entre cidades de igual
ou diferentes tamanhos em novos estudos.
O movimento pendular de trabalhadores registrado entre as cidades interioranas
de Cascavel e de Toledo não é exclusivo das grandes aglomerações urbanas ou
regiões metropolitanas. Observou-se que está se estabelecendo uma nova face da
urbanização brasileira, fundamentalmente, na dinâmica das redes urbanas e, em
particular, nas cidades interioranas de porte médio que ativam novas funções
com as suas hinterland.
No caso desse estudo, verificou-se uma pendularidade cruzada, pois não há um
movimento exclusivo de uma cidade para outra no sentido casa-trabalho; nos dois
municípios ocorre o movimento pendular casa-trabalho. Este tipo de situação
está associado à formação da rede urbana, sendo necessária uma configuração de
pólos regionais suficientemente próximos para que o custo e o tempo do
transporte estejam dentro de um limite de tolerância para os trabalhadores.
Este estudo apresentou algumas limitações, sendo fundamental a realização de
novos estudos que persigam questões mais específicas, pautadas, por exemplo, em
outras formas de deslocamentos pendulares através de carros, vans e ônibus
fretados, além de novos estudos acerca das formas e perspectivas de crescimento
das cidades interioranas de porte médio no Brasil. Este tipo de pesquisa e
análise tende a ganhar robustez por meio de acompanhamento ao longo do tempo
para verificar seu comportamento. Novas pesquisas ainda poderão ser elaboradas
para outras regiões, no sentido de determinar algumas recorrências e
regularidades, pois este movimento pendular afeta a vida das pessoas, as
cidades e a configuração das redes urbanas.