Análise de métricas de risco na otimização de portfolios de ações
1. INTRODUÇÃO
O artigo pioneiro de Markowitz (1952) provocou uma mudança radical na forma de
analisar o problema da formação de portfolios (grupos ou carteiras) de ativos
financeiros. Diversos direcionamentos formados na teoria, conjuntamente
explorados por outros pesquisadores clássicos como Sharpe (1964) e Lintner
(1965), provocaram dúvidas, discussões e questionamentos, tendo como produto
uma gama de livros e artigos que formaram a Moderna Teoria do Portfolio.
Nas últimas décadas, autores como Rom_e_Ferguson_(1994), Grootveld_e_Hallerbach
(1999) e Roman_e_Mitra_(2009) argumentam que essa teoria está em fase de
transição para a chamada Teoria do PortfolioPós-Moderna (Post Modern Portfolio
The ory). Segundo esses autores, o desenvolvimento de novas formas de otimizar
carteiras de investimentos viabilizadas pela grande capacidade computacional
traz novos dilemas e questões para os gestores de carteiras. Kato_(2004) cita a
necessidade de estudar métodos para comparar os resultados de cada uma das
medidas.
O presente artigo é uma extensão dos trabalhos de Araújo,_Montini_e_Securato_
(2010) e Araújo_e_Montini_(2011). No primeiro, os autores comparam as medidas
de risco desvio padrão e semivariância na otimização de carteiras de ações e
recomendam a comparação dessas medidas quando aumenta o número de ativos na
carteira. No segundo estudo, Araújo e Montini (2011) analisam três medidas:
desvio padrão, momento parcial inferior de ordem 2 (Lower Partial Moment [LPM]
ou semivariância) e o valor em risco condicional (Conditional Value-at-Risk
[CVaR]). Os autores recomendam avaliar as diferenças quanto à forma de
distribuição de probabilidade dos retornos das ações e ao impacto do grau de
assimetria na formação de carteiras.
Diante das recomendações citadas, no presente artigo o objetivo é investigar as
alocações de investimentos em ações com uso de diferentes métricas de
minimização de riscos (desvio padrão, momento parcial inferior de ordem 2 [LPM]
e valor em risco condicional [CVaR]), buscando responder à seguinte questão de
pesquisa:
* Quais as características das carteiras de ações quando são utilizadas
diferentes métricas de mensuração de riscos, considerando normalidade e
ausência de normalidade na distribuição de probabilidade dos retornos das
ações?
O foco das análises foi verificar se os portfolios apresentam características
de riscos e retornos diferenciadas. Para essa tarefa, empregam-se as seguintes
métricas de risco: desvio padrão (Markowitz,_1952); LPM, utilizando a medida de
semivariância proposta em Estrada (2008); e CVaR, proposta por Rockafellar_e
Uryasev_(2000). As medidas foram selecionadas com base no estudo de Roman_e
Mitra_(2009), que apresentam, para pesquisas futuras, a importância do foco nas
medidas de risco baseadas no lado inferior da distribuição dos retornos
(downside risk), como semivariância e CVaR. De acordo com esses autores, essas
métricas são os pilares da teoria do portfoliopós-moderna.
Jarrow_e_Zhao_(2006) ainda citam mais três justificativas para a crescente
atenção às medidas de downside risk. A primeira diz respeito aos debates
correntes por causa das numerosas catástrofes financeiras e aos acordos da
Basileia. Nessas discussões, mensurações de downside risk, como o valor em
risco (Value at Risk[VaR]), têm importância considerável. A segunda relaciona-
se com as utilizações mais frequentes de derivativos na gestão de portfolios,
que alteram a distribuição de probabilidade da carteira, passando de simétrica
para assimétrica. Por último, em momentos de desaceleração do mercado de
capitais, a utilização de ativos de renda fixa é crucial. Contudo, nesses
produtos, verifica-se a existência de caudas pesadas nas distribuições de
probabilidade, o que dificulta a análise por média-variância.
O próximo tópico é dedicado à revisão bibliográfica, em que são abordadas
questões sobre medidas de risco, avaliação das métricas e conceituação das
medidas comparadas no trabalho. Posteriormente, detalham-se os métodos para a
obtenção dos objetivos, descrevem-se as análises e resultados e apresentam-se
as considerações finais.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
O tema risco tem bastante impacto na literatura da área financeira. Um dos
principais trabalhos nessa linha é Against the gods: the remarkable story of
risk, o best seller de Peter L. Bernstein (1996). Outros pesquisadores
publicaram artigos de importância significativa para o desenvolvimento do tema,
como Nawrocki_(1999) que realizou uma revisão bibliográfica para descrever o
desenvolvimento das mensurações do chamado downside risk, e Roman_e_Mitra_
(2009), que escreveram um breve histórico das medidas de risco.
No Brasil, existem trabalhos como o elaborado por Saito,_Savoia_e_Famá_(2006)
que descrevem a evolução da função financeira, desde os primeiros artigos de
Markowitz_(1952), Tobin_(1958) e Sharpe_(1964), até a ascensão das finanças
comportamentais no célebre trabalho de Kahneman_e_Tversky_(1979). Outro autor,
Kato_(2004), adiciona à literatura uma breve revisão a respeito do
desenvolvimento das medidas de risco.
Segundo Kato_(2004), a chamada teoria do risco teve origem no estudo de Tetens_
(1789), em que o autor realizou diversas análises e discussões a respeito de
dados relacionados a anuidades e direitos de pensão; algumas delas utilizavam
como medida a média e o desvio padrão. Kato_(2004) também cita Keynes_(1937),
ao descrever sobre o risco ser medido a partir dos desvios em relação a um
retorno médio, devendo um prêmio pelo risco ser atribuído aos investimentos nos
ativos representados com altas dispersões. Outros autores, como Domar_e
Musgrave_(1944), definem o risco como possibilidades de perdas, dado que
estaria associado à probabilidade de a taxa de retorno ser menor do que zero.
Como se percebe, os diversos autores associam termos como variação, dispersão,
perda e incerteza ao risco. Entretanto, o conhecimento de como representar esse
risco de forma que seja possível ordená-lo é alvo de discussões entre
pesquisadores. Segundo Kato_(2004), não existe consenso entre os autores sobre
uma medida de risco financeiro.
Kato_(2004), Alexander_(2008) e Roman_e_Mitra_(2009) citam duas categorias para
mensuração do risco financeiro na otimização de portfolios. A primeira é
caracterizada pelas medidas que consideram a dispersão em relação a um retorno-
alvo e podem somente assumir valores positivos; nesse caso, a categoria é
dividida em dois grupos: medidas simétricas e assimétricas. A segunda categoria
é formada pelas medidas de risco baseadas em quantis.
Na primeira categoria, o grupo das medidas simétricas é representado pela
variância (ou desvio padrão) e pelo desvio médio absoluto. Como retorno-alvo
utiliza-se o valor esperado. Nesse caso, os riscos são considerados como
dispersões acima ou abaixo das expectativas. No segundo grupo, o risco é
mensurado somente em relação aos desvios abaixo do retorno-alvo (downside
risk), podendo ser o valor esperado ou algum benchmarking. Os principais
representantes do grupo são a semivariância e o conjunto de medidas baseadas no
momento parcial inferior da distribuição de probabilidade dos retornos (Lower
Partial Moment[LPM]).
A segunda categoria é formada pelas medidas de risco baseadas em quantis
(percentis). Nesse campo, são classificadas as medidas Value-at-Risk (VaR) e
Conditional Value-at-Risk (CVaR). A dimensão é caracterizada pelo foco no
chamado tail risk measures, ou seja, o objetivo é estimar o risco a partir da
área da cauda esquerda da distribuição de probabilidade dos retornos do ativo,
dado certo nível de confiança (1%, 5% ou 10%). De acordo com Alexander (2008),
o estudo da cauda esquerda é muito importante para explicar as perdas de um
ativo.
2.1. Avaliação das medidas de risco
Roman_e_Mitra_(2009) utilizaram algumas propriedades matemáticas das medidas de
risco para verificar conceitualmente a consistência de cada uma delas; os
conceitos norteadores foram os de dominância estocástica (DE) e coerência.
Essas propriedades foram discutidas por autores como Hadar_e_Russell_(1969),
Aharony_e_Loeb_(1977), Artzner,_Delbaen,_Eber_e_Heath_(1999), Clemen_e_Reilly_
(2001) e Kato_(2004), o que mostra a relevância do tema.
Roman_e_Mitra_(2009) conceituam dominância estocástica como um processo
realizado para classificar variáveis aleatórias abaixo de suposições gerais do
comportamento econômico modelado pela função utilidade. As principais regras
são as seguintes: dominância estocástica de primeira ordem (First-degree
Stochastic Dominance [FSD]) e dominância estocástica de segunda ordem (Second-
degree Stochastic Dominance[SSD]).
Considerem-se F(x) e G(x) funções de probabilidade acumuladas nas carteiras F e
G, em que X é uma variável aleatória que representa os retornos. As dominâncias
estocásticas de primeira e segunda ordens foram definidas por Hadar_e_Russell_
(1969) e Aharony_e_Loeb_(1977) como:
* o portfolio F possui FSD em relação a G se F(X) ≤ G(X);
* o portfolio F possui SSD em relação a G se ∫x-∞ [G(x) – F(x) dt ≥ 0.
No caso de seleção de carteiras de ativos, F será eficiente em relação à
carteira G, se F tiver um retorno esperado maior do que G e F tiver variância
menor do que a de G. Essa proposição é apresentada na expressão [1]. Essa
relação é caracterizada exatamente pela dominância estocástica de segunda
ordem.
O segundo conceito norteador relacionado às proprieda- des matemáticas das
medidas de risco é a coerência. Segundo Rockafellar_e_Uryasev_(2000), o
trabalho de Artzner_et_al._(1999) é a principal referência sobre os axiomas
(propriedades) de uma medida de risco coerente.
Sejam X e Y dois ativos, uma medida de risco ρ é chamada de medida de risco
coerente quando satisfaz os axiomas de coerência enunciados a seguir.
* Axioma 1 (subaditividade) – para todos os X e Y, ρ(X + Y) ≤ ρ(X) + ρ(Y).
Esta propriedade ocorre pela diversificação, isto é, o risco de dois
ativos combinados não deve ser maior do que os riscos individuais.
* Axioma 2 (homogeneidade positiva) – para todo X e λ ≥ 0, ρ(λX) = λρ(X). O
risco de uma variável aleatória (como a taxa de retorno em porcentagem)
multiplicada por um escalar (como algum valor monetário) deve ser o mesmo
que multiplicar o escalar pelo risco individual da variável aleatória.
* Axioma 3 (monotonicidade) – para todos os X e Y tais que X ≤ Y, ρ(X) ≤ ρ
(Y). Caso um ativo X sempre apresente retornos menores em relação a outro
ativoY, esse ativo X deve possuir risco menor em relação ao Y.
* Axioma 4 (invariância à translação) – para todo X e α r, ρ(X + αrf) = ρ
(X) – α. Adicionar à quantia inicial um valor α e investir no ativo livre
de risco (sendo rf = 1) torna o risco da carteira ainda menor. Isso
ocorre pelo fato de as propriedades do ativo livre de risco não possuírem
risco. Mediante as diversas medidas de risco existentes na otimização de
carteiras, Roman_e_Mitra_(2009)apresentam as principais propriedades
atendidas por essas mensurações, como apresentado na Figura_1. Como se
percebe nessa figura, somente o CVaR atende às três características
principais de uma medida de risco, conforme demonstraram Roman_e_Mitra_
(2009). Tanto o VaR quanto a família LPM apresentam problemas de
coerência, e o desvio padrão não apresenta dominância estocástica.
Figura 1 Propriedades das Medidas de Risco
Medida de Dominância Estocástica de Primeira Dominância Estocástica de SegundaCoerência
Risco Ordem Ordem
Desvio padrão Não Não Sim*
Desvio médio Não Não Sim*
absoluto
LPM Sim Sim Não
VaR Sim Não Não
CVaR Sim Sim Sim
Nota:
*Coerentes, ao supor-se distribuição normal.
Fonte: Adaptado de Roman_e_Mitra_(2009,_p._83).
2.2. Otimização de carteiras pelo desvio padrão (DP)
O foco da análise de carteiras está na estimação de riscos e retornos de ativos
a partir da descrição de suas distribuições de probabilidades. Um dos métodos
mais conhecidos é o modelo média-variância (Varian,_2006), proposto por
Markowitz_(1952). Luenberger_(1998) discute de forma minuciosa os aspectos
desse modelo, desde a estimação dos retornos até a otimização de carteiras,
utilizando a variância como medida de risco. No que tange à estimação do
retorno da carteira, considerou-se a equação_[2].
[/img/revistas/rausp/v50n2//0080-2107-rausp-50-02-0208-e02.jpg]
em que E(rc) é o retorno esperado da carteira; E(ri) é o retorno esperado do
ativo i; wi é o percentual do valor total investido no ativo i.
A variância pode ser estimada a partir da dispersão dos resultados das ações em
relação a seus retornos médios, como é apresentado na equação_[3].
[/img/revistas/rausp/v50n2//0080-2107-rausp-50-02-0208-e03.jpg]
em que wi é o percentual do valor investido no ativo i; σ 2c é a variância da
carteira; σij é a covariância entre ativos ie j.
A construção e a administração de carteiras de ações baseiam-se na busca de
altos retornos e baixos níveis de risco; esse esforço pode ser chamado de
problema de portfolio ou, segundo Luenberger_(1998), o problema de Markowitz.
A construção do portfolio sugerido por Markowitz tornou-se possível por meio de
programação quadrática, com a qual se buscou otimizar o modelo exibido na
equação_[4] (Cassarotto_Filho & Kopittke,_1998; Luenberger,_1998; Costa
&_Assunção,_2005).
[/img/revistas/rausp/v50n2//0080-2107-rausp-50-02-0208-e04.jpg]
sujeito às restrições
wi = 1
e
0 ≤ wi ≤ 1
[/img/revistas/rausp/v50n2//0080-2107-rausp-50-02-0208-e05.jpg]
Essa otimização, que será denominada de modelo M.1, implica a minimização do
risco dado um nível de retorno desejado, devendo os percentuais alocados
obterem somatório igual a 1.
2.3. Otimização pelo momento parcial inferior
O modelo proposto por Estrada_(2008) torna-se importante pelo conjunto de
trabalhos que utilizou a heurística para estimar o chamado downside beta; o
próprio autor faz uma sequência de artigos nos anos de 2002, 2006 e 2007
(Estrada,_2002; 2006; 2007) utilizando a simplificação; somente em 2008 discute
especificamente a técnica de otimização (Estrada,_2008). No Brasil, encontram-
se os trabalhos de Lucena_e_Motta_(2004), Lucena_e_Figueiredo_(2008) e
Fortunato,_Motta_e_Russo_(2010), que também utilizaram a heurística, porém não
compararam essa medida de risco com outras.
Segundo a divisão citada por Nawrocki_e_Cumova_(2010), na solução proposta por
Estrada_(2008) o objetivo é transformar a matriz assimétrica em simétrica; a
principal justificativa desse tipo de solução seria a chamada endogeneidade dos
algoritmos heurísticos. Em outras palavras, muitas vezes o investidor necessita
conhecer o grau de associação entre os ativos, mas as proposições baseadas em
heurísticas desconsideram essas informações. A matriz assimétrica é apresentada
na expressão [5]:
[/img/revistas/rausp/v50n2//0080-2107-rausp-50-02-0208-e06.jpg]
em que Ri é o retorno do ativo i; Rf é o retorno do ativo livre de risco; e T,
o tamanho da amostra.
Pela equação_[5], percebe-se que a matriz é assimétrica (CSVij ≠ CSVji), uma
vez que os elementos da diagonal superior são diferentes daqueles da diagonal
inferior; isso ocorre porque o termo (Ri – Rf) é multiplicado por Min(Rj – Rf,
0). A partir disso, Estrada (2008) propôs a formulação apresentada na equação_
[6]:
[/img/revistas/rausp/v50n2//0080-2107-rausp-50-02-0208-e07.jpg]
Por meio da modificação proposta por Estrada_(2008), os problemas da assimetria
e da matriz endógena foram resolvidos; a partir disso, torna-se possível a
otimização conforme os direcionamentos de Markowitz. Pesquisadores como
Nawrocki_(1999)e Sing_e_Ong_(2000) tratam a semivariância sob a ótica da
família LPM. No caso discreto, o modelo pode ser representado pela expressão
[7]:
[/img/revistas/rausp/v50n2//0080-2107-rausp-50-02-0208-e08.jpg]
LPMk,τ(X) = E(|min(X – τ, 0)|k)1–k[7]
em que X = Ri é o retorno do ativo i; τ é o retorno mínimo aceitável; k é a
ordem do modelo (grau de aversão ao risco).
Andrade_(2006) e Alexander_(2008) citam algumas ordens específicas: LPM1,τ como
primeira ordem; LPM2,τ chamado de segunda ordem; LPM3,τ chamado de
semiassimetria; e LPM4,τ como semicurtose. Diante da relação entre os conceitos
da semivariância e do LPM, neste artigo o termo LPM, quando utilizado, estará
relacionado à estimação da semivariância apresentada em Estrada_(2008). A
otimização que utiliza o LPM como medida de risco é apresentada na expressão
[8] e será denominada de modelo M.2.
[/img/revistas/rausp/v50n2//0080-2107-rausp-50-02-0208-e09.jpg]
2.4. Otimização pelo valor em risco condicional
O modelo mais utilizado para a otimização do CVaR (Conditional Value-at-Risk)
para carteiras de investimentos foi proposto por Rockafellar_e_Uryasev_(2000).
Alguns trabalhos no Brasil também utilizaram a metodologia, como os de Montini_
(2003) e Ribeiro,_Ferreira_e_Santos_(2007). O método tem bastante praticidade,
por minimizar o CVaR e estimar o VaR (Value-at-Risk) ao mesmo instante.
O CVaR é uma medida de risco estimada pela média das perdas desde o pior
resultado até o percentil (Value-at-Risk – VaR) selecionado (geralmente 1%, 5%
ou 10%), o que possibilita conhecer a informação a respeito da extensão das
perdas (Alexander,_2008). Para o caso de distribuição contínua, o CVaR é
apresentado por meio da equação_[9]:
[/img/revistas/rausp/v50n2//0080-2107-rausp-50-02-0208-e10.jpg]
em que x é uma carteira de ativos; xα é o VaR; α é o percentil da distribuição
de x; e f(x) é uma função de perda associada a x.
Para a estimação do CVaR, podem ser utilizadas metodologias como as simulações
por Monte-Carlo, análise de séries históricas e realização de aproximações da
distribuição de probabilidade na função de perda por meio da distribuição
normal ou da t de Student.
A representação do CVaR na equação_[9]sofreu uma modificação proposta por
Rockafellar_e_Uryasev_(2000); a mudança pode ser visualizada na expressão [10]:
[/img/revistas/rausp/v50n2//0080-2107-rausp-50-02-0208-e11.jpg]
em que p(y) é a função densidade de probabilidade de variáveis de mercado; β é
o nível de probabilidade a ser escolhido; e f(x,y) é uma função de perda
associada à carteira x e a variáveis de mercado y.
Posteriormente, Rockafellar_e_Uryasev_(2000)definiram a fórmula do VaR como a
expressão [11]:
[/img/revistas/rausp/v50n2//0080-2107-rausp-50-02-0208-e12.jpg]
em que Ψ (x, α) é a função de distribuição acumulada para a perda associada a
x.
Desse modo, Rockafellar e Uryasev (2000) propuseram a combinação das expressões
[10] e [11] em termos de uma função Fβ, como é demonstrado na equação_[12].
[/img/revistas/rausp/v50n2//0080-2107-rausp-50-02-0208-e13.jpg]
A expressão [12] é aplicada para distribuições contínuas de probabilidade. No
caso discreto, na fórmula há algumas modificações (equação_[13]):
[/img/revistas/rausp/v50n2//0080-2107-rausp-50-02-0208-e14.jpg]
A partir da definição do CVaR para o caso discreto, na expressão [14] é
definida a forma para a otimização de uma carteira de ações utilizando o CVaR
como medida de risco.
[/img/revistas/rausp/v50n2//0080-2107-rausp-50-02-0208-e15.jpg]
em que n é o tamanho da amostra.
A expressão [14] e as restrições serão utilizadas para o modelo de otimização
M.3.
Diferentemente da análise proposta por Markowitz_(1952), que utiliza o desvio
padrão como medida de risco e em que a otimização ocorre por programação
quadrática, tomando o caso do CVaR como medida de risco a otimização ocorre por
meio de programação linear.
2.5. Comparação entre as medidas de risco na otimização de carteiras de ativos
Nos tópicos anteriores, foram apresentados os conceitos dos modelos de
otimização utilizados no presente artigo. Nesta seção, apresentam-se artigos em
que se pesquisou a mesma temática. Vale ressaltar que somente no trabalho de
Konno,_Waki_e_Yuuki_(2002) foi encontrada a análise das três medidas de risco.
Um dos trabalhos relevantes sobre a comparação entre as medidas de desvio
padrão e a medida de risco LPM quanto à eficiência da carteira foi realizado
por Rom_e_Ferguson_(1994). Foi utilizada nesse trabalho, possivelmente pela
primeira vez, a expressão teoria do portfolio pós-moderna.
Nesse estudo, apresentam-se resultados relevantes sobre a fronteira eficiente.
No caso, quando os autores analisaram a curva de Retorno versus Risco,
demonstraram que o modelo de otimização que contém a medida de risco baseada no
LPM possuiu domínio estocástico em relação aos demais modelos estudados.
Também se verificaram maiores alocações nos ativos de renda variável quando
utilizadas as medidas de LPM, enquanto a medida de desvio padrão realizou
maiores posições em ativos de renda fixa.
Conforme Rom_e_Ferguson_(1994), esses resultados demonstraram que as
otimizações de carteiras que tomam como medida de risco o LPM são mais
adequadas à gestão de carteiras do que o desvio padrão proposto por Markowitz_
(1952). Rom_e_Ferguson_(1994) também explicaram que as alocações em maiores
quantidades nos ativos de renda variável ocorreram pelo maior grau de
assimetria observada nos retornos desses ativos que, segundo os autores,
apresentaram maiores retornos.
Os resultados apresentados por Rom_e_Ferguson_(1994) geraram discussões nas
pesquisas científicas da área: um grupo de autores concordou com as análises, e
outro contrapôs-se aos resultados. Em relação aos autores que obtiveram
resultados semelhantes aos de Rom_e_Ferguson_(1994), podem ser citados
Grootveld_e_Hallerbach_(1999), Andrade_(2006) e Nawrocki_e_Cumova_(2010).
Grootveld_e_Hallerbach_(1999) realizaram uma investigação utilizando três
índices de renda variável e três índices de renda fixa do mercado norte-
americano no período de janeiro de 1980 a dezembro de 1994. O trabalho tornou-
se relevante por diversificar a quantidade de análises na pesquisa em relação
ao trabalho de Rom_e_Ferguson_(1994). Segundo Grootveld_e_Hallerbach_(1999), os
retornos das carteiras foram maiores quando utilizado o LPM como medida de
risco nas otimizações.
A pesquisa realizada por Nawrocki_e_Cumova_(2010), que utiliza o LPM como
medida de risco, é muito importante porque os autores apresentaram uma
simplificação efetiva em custo computacional e facilidade de aprendizagem para
a otimização de carteiras. Os resultados demonstrados também foram obtidos por
Rom_e_Ferguson_(1994); segundo os autores, as carteiras otimizadas, tomando-se
como medida de risco o LPM, apresentaram maiores retornos.
Andrade_(2006) investigou os modelos de otimização considerando o LPM para o
mercado brasileiro. No estudo foram selecionadas 24 ações negociadas na Bolsa
de Valores de São Paulo (Bovespa) no período de janeiro de 1995 a março de
2001. O autor analisou o comportamento da carteira dentro do período de
formação e após a formação e constatou maiores retornos nas carteiras com o LPM
minimizado.
Alguns autores obtiveram resultados favoráveis ao LPM; outros, desfavoráveis.
Uma das críticas mais fortes é encontrada em Estrada_(2008). Segundo esse
autor, a fronteira eficiente formada pelo LPM aparenta ser mais eficaz em
relação ao modelo que considera o desvio padrão. Todavia, isso ocorre
simplesmente pelo fato de o LPM ser somente uma medida de mensuração de risco
focada em um único lado da distribuição de probabilidade dos retornos.
O LPM mensura somente uma parte do risco em comparação com o desvio padrão, que
contempla tanto o lado superior quanto o inferior da distribuição de
probabilidade dos retornos. Dessa forma, seria indiferente para o investidor a
escolha de uma fronteira eficiente formada a partir do desvio padrão ou pelo
momento parcial inferior (LPM), dado que em qualquer uma das escolhas o risco
estaria minimizado.
Jarrow_e_Zhao_(2006) também contrapõem os resultados a respeito das medidas de
risco focadas no lado inferior. Após compararem os métodos de otimização em
dois grupos de carteiras – o primeiro por ativos de renda fixa e o segundo por
ativos de renda variável –, os autores concluem que não há diferenças
significativas entre os métodos de minimização por meio do desvio padrão e por
meio do LPM tanto no grupo com ativos de renda fixa quanto no grupo de ativos
de renda variável.
O trabalho de Brito_Neto_e_Volkmer_(2001) é relevante por apresentar uma
metodologia diferente em relação aos autores citados anteriormente. Em vez de
utilizar todos os ativos para minimização do risco da carteira ou separar os
ativos por tipo (renda fixa ou variável), Brito_Neto_e_Volkmer_(2001) os
separaram pelo formato da distribuição de probabilidade. Desse modo, compararam
os métodos de otimização de uma carteira formada somente por ativos que
apresentaram distribuição normal com os de outra carteira formada por ativos
que demonstraram retornos com distribuição não normal. Os resultados também são
díspares em relação ao trabalho de Rom_e_Ferguson_(1994), não existindo
diferenças significativas entre os métodos, considerando-se o desvio padrão e o
LPM.
Quanto à comparação desvio padrão versus CVaR, podem ser apresentados os
trabalhos de Rockafellar_e_Uryasev_(2000) e Bertsimas,_Lauprete_e_Samarov_
(2004). No primeiro artigo, foram gerados retornos por meio de simulação, e as
comparações ocorreram pela composição da carteira segundo os níveis de
confiança selecionados (90%, 95% e 99%) e pelo cálculo do VaR e CVaR em ambos
os modelos de otimização. Pelos resultados de Rockafellar_e_Uryasev_(2000), as
carteiras e os cálculos do VaR e CVaR tenderam à convergência em ambos os
métodos.
No segundo artigo, Bertsimas_et_al.(2004) buscaram maior aprofundamento nas
análises ao variar, por meio de simulações, o grau de assimetria das
distribuições dos retornos dos ativos a serem impostos na carteira. Quando
foram utilizadas distribuições simétricas, o modelo com CVaR apresentou maior
volatilidade em relação ao desvio padrão, principalmente quando níveis de
significância (α) baixos foram determinados. As carteiras tenderam à semelhança
quando o tamanho da amostra aumentou. Ao simular distribuições assimétricas, o
modelo com CVaR demonstrou dominância em relação ao desvio padrão, e as
diferenças foram consideradas significativas. Contudo, as distâncias foram
acentuadas quando se modificaram os valores de (α).
No artigo de Konno_et_al._(2002), apresentam-se comparações entre as três
medidas de risco abordadas na presente pesquisa. Os autores realizaram
simulações de fronteiras eficientes com dados da bolsa de valores de Tóquio e
buscaram evidenciar as diferenças entre os retornos que cada uma das carteiras
produziu utilizando as diferentes medidas de risco em cada otimização. Os
autores criaram dois grupos para comparação das medidas: o primeiro continha os
ativos com distribuição normal; o segundo, com distribuição não normal. Em
ambos os grupos, as diferenças quanto aos retornos não foram significativamente
diferentes.
Existe uma vasta literatura a respeito do tema otimização de carteiras. Desde o
modelo proposto no artigo de Markowitz_(1952), o assunto é exaustivamente
tratado no meio científico. Conforme apresentaram Roman_e_Mitra_(2009), o
conteúdo está numa fase de transição em que o objetivo é minimizar os riscos de
uma carteira de ativos levando em consideração os aspectos comportamentais dos
investidores. Diante disso, existe a discussão sobre quais medidas de risco
melhor se ajustam ao padrão comportamental do investidor. No presente artigo,
comparam-se as medidas de risco que levam em conta somente o lado das perdas
com a medida que considera tanto as perdas quanto os ganhos. Na Figura_2, são
resumidos os principais artigos que tratam das medidas – desvio padrão (DP),
LPM (momento parcial inferior) e CVaR (valor em risco condicional) – e que
foram apresentados na revisão bibliográfica.
Figura 2 Quadro Comparativo dos Estudos Realizados
Autor Amostra Períodos Comparações Análises Resultados
Rom_e Cinco ativos – large capitalization, small- -capitalization, non-US, bonds e
Fergusom_ cash Jan. 1978 -Dez. 1992 DPxLPM Índice Sharpe, Índice Sortino e Fronteira eficiente LPM maiores retornos
(1994)
Grootveld_e Análise da assimetria dos ativos, análise das fronteiras
Hallerbach_ Três ativos US industry e três US bond Jan. 1980 -Dez. 1994 DPxLPM eficientes LPM maiores retornos
(1999)
Nawrocki_e 150 ativos selecionados aleatoriamente do banco de dados da Center of
Cumova_ Research in Security Prices (CRSP) Jan. 2001 -Dez. 2009 DPxLPM Fronteira eficiente e test t LPM maiores retornos
(2010)
Andrade_ 24 ações negociadas na Bovespa Jan. 1995 -Mar. 2001 DPxLPM Fronteira eficiente e test z LPM maiores retornos ex post
(2006)
Estrada_ Cinco classes de ativos - US, EAFE, Emerging Markets, US bonds, US real Jan. 1998 -Dez. 2006 DPxLPM Fronteira eficiente Não há retornos diferentes
(2008) state
Brito_Neto
e_Volkmer_ Dois ativos - dólar e Ibovespa Nov. 2000 -Mar. 2001 DPxLPM Teste qui- -quadrado, teste de Wilcoxon Não há retornos diferentes
(2001)
Jarrow_e Simularam carteiras formadas somente por ativos de renda variável e outras Simulações diárias para horizonte de um ano DPxLPM Simulação Não há retornos diferentes
Zhao_(2006) carteiras formadas somente por ativos de renda fixa
Rockafellar Simulações de amostras de tamanho 1000, 3000, 5000, 10000 e
e_Uryasev_ Três ativos - S&P500, US bonds e small caps 20000 DP x CVaR Simulação Não há retornos diferentes
(2000)
Bertsimas Não há diferenças (distribuição simétrica), CVaR maiores retornos
et_al._ 96 ativos com dados mensais Jan. 1996 -Dez. 1999 DP x CVaR Simulações de fronteiras eficientes (distribuição assimétrica)
(2004)
Konno_et_al 1.100 ações da Tokyo Stock Exchange com dados mensais e diários Jan. 1995 -Dez. 1999 DPxLPMx Simulações de fronteiras eficientes Não há diferenças (DP x LPM/CVaR), não há diferenças (LPM x CVaR)
(2002) CVaR
3. METODOLOGIA
Neste artigo, apresenta-se uma comparação entre as medidas de risco desvio
padrão (DP), momento parcial inferior (LPM) e valor em risco condicional
(CVaR), considerando retorno de ações oriundas e não oriundas da distribuição
normal.
O processo de pesquisa foi dividido em duas etapas: na primeira determinaram-se
as medidas de risco a serem utilizadas e dividiram-se os períodos de análise;
na segunda, dividiram-se os ativos conforme a distribuição de probabilidade (um
grupo tem ativos normalmente distribuídos e outro, ativos não normalmente
distribuídos), aplicaram-se os algoritmos de otimização e analisaram-se os
resultados.
3.1. Etapa 1
Após a revisão bibliográfica, foi possível identificar algumas medidas de risco
mais utilizadas (DP, LPM e CVaR). Na Figura_1, levantaram-se as propriedades
matemáticas (dominância estocástica e coerência) associadas a essas medidas de
risco. Por meio do referencial teórico, definiram-se as funções objetivo e
restrições suficientes para otimização das funções apresentadas nas expressões
[4] (modelo M.1), [8] (modelo M.2) e [14] (modelo M.3). A síntese das
expressões a serem minimizadas é apresentada na Figura_3.
[/img/revistas/rausp/v50n2//0080-2107-rausp-50-02-0208-gf01.jpg]Fontes:
Markowitz_(1952), Estrada_(2008) e Rockafellar_e_Uryasev_(2000).
Figura 3 Modelos de Otimização
Neste artigo, considerou-se para a análise os retornos diários de ações
presentes na Bovespa de janeiro de 2006 a dezembro de 2013. Esse período foi
selecionado devido ao volume relativamente baixo entre os anos de 2002 e 2005,
conforme apresenta Araújo_(2012). Buscou-se, também, analisar períodos
diferentes em relação a outros autores, como Brito_Neto_e_Volkmer_(2001) que
utilizaram o período entre 2000 e 2001, Andrade_(2006) que utilizou uma série
entre 1995 e 2001, e Araújo_et_al._(2010) que analisaram períodos entre 2009 e
2010.
Participaram das análises as ações presentes no índice Bovespa com presença em
bolsa acima de 90% e liquidez em bolsa acima de 0,29. A presença em bolsa leva
em consideração o número de dias em que houve pelo menos um negócio com a ação
dentro do período estudado (janeiro de 2006 a dezembro de 2013). Esse critério
também foi utilizado em Rubesam_e_Beltrame_(2013). A liquidez em bolsa pondera
o número de dias em que houve negócios da ação na bolsa e o volume financeiro
negociado; o critério de liquidez é comumente utilizado nos estudos em
finanças, como apresentado por Caldeira_e_Moura_(2013).
A utilização desses critérios é importante dado que o uso de ações menos
líquidas envolvem, na prática, maiores custos operacionais e dificuldades de
negociação, conforme citam Caldeira_e_Moura_(2013). Portanto, utilizar as ações
de maior liquidez é uma amostra representativa para o estudo; o uso desses
critérios permitiu a seleção de 50 ações. Os preços das ações foram ajustados
para dividendos e desdobramentos, conforme Broussard_e_Vaihekoski_(2012). Esses
ajustes evitam problemas de sinais falsos, que podem causar viés na estimação
das taxas de retornos, para negociação nos preços, os quais foram coletados no
sistema Economatica.
Após as fases de escolha do período e levantamento dos ativos, foi necessário
realizar o tratamento dos dados. Nessa fase, primeiramente foram calculadas as
taxas de retorno dos ativos por meio da expressão [15].
[/img/revistas/rausp/v50n2//0080-2107-rausp-50-02-0208-e16.jpg]
em que Pt é o preço da ação no tempo t.
Na última fase da primeira etapa, houve a divisão da amostra em dois períodos.
Foram analisados períodos que tivessem no mínimo cem dias, pois, dado que
alguns dos testes estatísticos utilizados têm propriedades assintóticas, número
menor poderia afetar seus desempenhos.
Um ponto importante a ser considerado é o limite máximo do tamanho da janela de
estimação dos parâmetros. Segundo Souza_(1999), a seleção de períodos longos
estimaria parâmetros que poderiam não representar o comportamento do ativo.
Diante disso, a escolha de períodos semestrais possibilitou atingir os
objetivos traçados com a análise de 16 semestres (1º semestre de 2006, 2º
semestre de 2006; 1º semestre de 2007, 2º semestre de 2007; 1º semestre de
2008, 2º semestre de 2008; 1º semestre de 2009, 2º semestre de 2009; 1º
semestre de 2010, 2º semestre de 2010, 1º semestre de 2011, 2º semestre de
2011, 1º semestre de 2012, 2º semestre de 2012, 1º semestre de 2013 e 2º
semestre de 2013).
3.2. Etapa 2
Na segunda etapa, buscou-se delinear como obter informações a partir dos dados;
diante disso, as análises dos dados foram selecionadas. Mediante a necessidade
de escolher as ferramentas de análise, tornou-se importante especificar as
principais perguntas da pesquisa:
* As métricas de risco para otimização de carteiras de ações podem
apresentar retornos e riscos diferentes?
* As métricas de risco na otimização de carteiras apresentam resultados
divergentes na presença de diferentes distribuições de probabilidade nos
retornos das ações?
A segunda etapa foi iniciada com a divisão do banco de dados em dois conjuntos:
no primeiro, concentraram-se as ações que apresentaram seus retornos com
distribuição normal; no segundo, as ações que apresentaram retornos não
normalmente distribuídos. Essa divisão foi importante para realizar análises de
forma semelhante à dos trabalhos de Brito_Neto_e_Volkmer_(2001) e Konno_et_al._
(2002). O teste de Jarque-Bera (expressão [16]) – que, conforme Brooks_(2008),
é comumente utilizado para avaliar a normalidade das distribuições de
probabilidade na área financeira – foi utilizado para definir em qual dos dois
conjuntos a ação seria classificada.
[/img/revistas/rausp/v50n2//0080-2107-rausp-50-02-0208-e17.jpg]
em que b1 é apresentada na expressão [17]; e b2 é apresentada na expressão
[18].
[/img/revistas/rausp/v50n2//0080-2107-rausp-50-02-0208-e18.jpg]
[/img/revistas/rausp/v50n2//0080-2107-rausp-50-02-0208-e19.jpg]
Após a divisão do banco de dados, foi iniciado o processo de otimização pelo
seguinte procedimento: primeiramente, duas ações foram selecionadas de forma
aleatória; depois, minimizou-se o risco com a utilização dos modelos M.1, M.2 e
M.3, obtendo-se as carteiras em cada respectivo modelo. Em seguida, mais uma
ação foi selecionada de forma aleatória e uma nova minimização foi realizada
com as ações anteriores e a nova ação, formando a nova carteira com o risco
minimizado. Esse processo é realizado até a obtenção do número máximo de ações
classificadas com distribuição normal. O mesmo procedimento foi realizado no
grupo das ações com retornos não normalmente distribuídos.
A partir das carteiras formadas no processo de otimização, buscou-se conhecer
as características de riscos e retornos de cada portfolio. No caso dos
retornos, estimou-se a média da carteira por meio da média ponderada dos
retornos de cada ação presente na carteira. No caso dos riscos, estimou-se o
desvio padrão, o LPM grau 2 com retorno mínimo aceitável igual a zero e o CVaR
a 95% de confiança. Para comparar as medidas de risco, utilizou-se o teste F
para verificar a igualdade de variâncias (somente realizado nas carteiras com
distribuição normal).
Em resumo, o banco de dados foi dividido em dois grupos (ações normalmente
distribuídas e não normalmente distribuídas), e para cada grupo foram
considerados três modelos de otimização, propostos por Markowitz_(1952),
Estrada_(2008) e Rockafellar_e_Uryasev_(2000). Após as carteiras formadas pelos
três modelos, estimaram-se três medidas de risco: desvio padrão (DP), momento
parcial inferior (LPM) e valor em risco condicional (CVaR). Dessa forma,
obtiveram-se nove combinações de análise para cada grupo com ações normalmente
distribuídas e não normalmente distribuídas descritas na Figura_4.
Figura 4 Combinações Analisadas
CombinaçõeModelo de Otimizaçã Distribuição das Ações nMedidas de Risco
Carteira
1 M.1 Normal Desvio padrão
2 M.1 Normal LPM
3 M.1 Normal CVaR
4 M.2 Normal Desvio padrão
5 M.2 Normal LPM
6 M.2 Normal CVaR
7 M.3 Normal Desvio padrão
8 M.3 Normal LPM
9 M.3 Normal CVaR
10 M.1 Não Normal Desvio padrão
11 M.1 Não Normal LPM
12 M.1 Não Normal CVaR
13 M.2 Não Normal Desvio padrão
14 M.2 Não Normal LPM
15 M.2 Não Normal CVaR
16 M.3 Não Normal Desvio padrão
17 M.3 Não Normal LPM
18 M.3 Não Normal CVaR
Para comparar os retornos das carteiras baseadas nas diferentes medidas de
risco, foram utilizados: teste t para amostras relacionadas (para as carteiras
com distribuição normal) e teste de Postos Sinalizados de Wilcoxon para
amostras relacionadas (para as carteiras que não apresentaram distribuição
normal). Os resultados dos testes foram baseados nos intervalos de confiança e
nos níveis descritvos obtidos por meio do processo de reamostragens
(bootstrap), conforme apresentam Efron_e_Tibshirami_(1993). A análise foi
viabilizada por meio do software de simulação, otimização e análise de dados
MatLab (Matrix Laboratory).
4. ANÁLISES E RESULTADOS
Como descrito na metodologia, por meio do teste de Jarque-Bera (nível
descritivo de 10%) para testar normalidade, o banco de dados foi dividido em
dois grupos: o primeiro formado pelos retornos que apresentaram distribuição
normal (grupo 1) e o segundo, pelas ações que não aderiram à normalidade (grupo
2). As análises buscaram comparar o resultado entre as medidas de risco e o
retorno das carteiras, como pode ser observado nos tópicos a seguir.
4.1. Análises dos riscos e retornos
Em conformidade com a metodologia proposta por Markowitz_(1952) para avaliar
carteiras de ativos, no presente trabalho buscou-se analisar as características
dos portfolios segundo seus riscos e retornos. Dado que os modelos foram
baseados em medidas de risco diferentes, foi necessário estimar o risco da
carteira formada por meio das três medidas de risco (DP, LPM e CVaR) descritas.
As comparações entre as medidas de risco mensuradas nos grupos detalhados na
Figura_4 são apresentadas nas Figuras_5 e 6. Na Figura_5, são demonstradas as
análises nas combinações em que as carteiras aderiram à normalidade, enquanto
na Figura_6 são visualizados os resultados referentes às combinações em que as
ações presentes nas carteiras não aderiram à normalidade. Nas figuras são
apresentados os resultados para o primeiro semestre de 2012, mas esse
comportamento foi o mesmo em todos os semestres analisados; desse modo, o
semestre apresentado serve como referência de interpretação para os demais.
[/img/revistas/rausp/v50n2//0080-2107-rausp-50-02-0208-gf02.jpg]
Figura 5 Comparações entre as Medidas de Risco nas Carteiras com Distribuição
Normal
[/img/revistas/rausp/v50n2//0080-2107-rausp-50-02-0208-gf03.jpg]
Figura 6 Comparações entre as Medidas de Risco nas Carteiras com Distribuição
Não Normal
Nas Tabelas_1, 2 e 3 são observadas as seguintes características: nas colunas 1
e 2, o ano e o semestre em estudo; na coluna 3, os modelos comparados; na
coluna 4, o número de ações na carteira para o grupo normalmente distribuído;
na coluna 5, os resultados do teste Frealizado para testar a hipótese de
igualdade entre os riscos obtidos pelos dois modelos; na coluna 6, apresenta-se
a mediana do retorno da carteira com retornos normalmente distribuídos; na
coluna 7, o nível descritivo do teste trealizado para comparar o retorno médio
entre os modelos com ações normalmente distribuídas; na coluna 8, o número de
ações na carteira para o grupo não normalmente distribuído; na coluna 9, a
mediana do retorno da carteira para ações não oriundas da normalidade; e na
coluna 10, apresenta-se o Teste de Wilcoxon para amostras relacionadas a fim de
comparar as medianas dos retornos entre os modelos com retornos não precedentes
da normalidade.
Tabela 1 Comparação das Distribuições dos Retornos dos Modelos M.1 e M.2
Distribuição Normal Não Normal
Ano Semestre Modelos n Teste F Mediana Teste 1 n Mediana Teste 2 ( p)2
( p)1
2006 1 M.1 22 F = 0,603 -0,025% 0,001 20 0,114% 0,000
2006 1 M.2 22 p = 0,422 0,054% 20 0,135%
2006 2 M.1 23 F = 0,609 0,172% 0,001 21 0,175% 0,000
2006 2 M.2 23 p = 0,457 0,242% 21 0,184%
2007 1 M.1 20 F = 0,639 0,164% 0,001 28 0,161% 0,000
2007 1 M.2 20 p = 0,619 0,215% 28 0,254%
2007 2 M.1 30 F = 0,619 0,024% 0,001 18 -0,018% 0,000
2007 2 M.2 30 p = 0,516 0,230% 18 0,020%
2008 1 M.1 15 F = 0,644 -0,163% 0,001 33 0,052% 0,000
2008 1 M.2 15 p = 0,658 -0,056% 33 0,081%
2008 2 M.1 3* 45 -0,119% 0,000
2008 2 M.2 3 45 -0,108%
2009 1 M.1 22 F = 0,670 0,161% 0,001 26 0,299% 0,000
2009 1 M.2 22 p = 0,816 0,167% 26 0,321%
2009 2 M.1 18 F = 0,643 0,188% 0,001 30 0,235% 0,000
2009 2 M.2 18 p = 0,641 0,218% 30 0,327%
2010 1 M.1 27 F = 0,607 0,014% 0,001 21 0,047% 0,000
2010 1 M.2 27 p = 0,457 0,077% 21 0,077%
2010 2 M.1 25 F = 0,651 0,207% 0,001 23 0,136% 0,000
2010 2 M.2 25 p = 0,679 0,239% 23 0,158%
2011 1 M.1 31 F = 0,618 0,044% 0,001 17 0,075% 0,000
2011 1 M.2 31 p = 0,506 0,084% 17 0,120%
2011 2 M.1 15 F = 0,637 0,071% 0,001 33 0,110% 0,000
2011 2 M.2 15 p = 0,591 0,118% 33 0,114%
2012 1 M.1 24 F = 0,610 0,043% 0,001 24 0,105% 0,000
2012 1 M.2 24 p = 0,470 0,093% 24 0,199%
2012 2 M.1 21 F = 0,563 0,089% 0,001 27 0,131% 0,000
2012 2 M.2 21 p = 0,254 0,199% 27 0,193%
2013 1 M.1 17 F = 0,675 -0,027% 0,002 31 -0,024% 0,000
2013 1 M.2 17 p = 0,848 -0,017% 31 0,060%
2013 2 M.1 19 F = 0,667 0,041% 0,001 29 0,094% 0,000
2013 2 M.2 19 p = 0,773 0,067% 29 0,181%
Notas:
1Teste t para amostras relacionadas.
2Teste de Wilcoxon para amostras relacionadas. Resultados baseados em 1.000
reamostragens.
*Amostra insuficiente para análises.
Tabela 2 Comparação das Distribuições dos Retornos dos Modelos M.1 e M.3
Distribuição Normal Não Normal
Ano Semestre Modelos n Teste F Mediana Teste 1 n Mediana Teste 2 (P)2
( P)1
2006 1 M.1 22 F = 0,576 -0,025% 0,001 20 0,114% 0,013
2006 1 M.3 22 p = 0,313 0,039% 20 0,142%
2006 2 M.1 23 F = 0,615 0,172% 0,005 21 0,175% 0,001
2006 2 M.3 23 p = 0,501 0,192% 21 0,200%
2007 1 M.1 20 F = 0,588 0,164% 0,05 28 0,161% 0,000
2007 1 M.3 20 p = 0,365 0,202% 28 0,202%
2007 2 M.1 30 F = 0,595 0,024% 0,001 18 -0,018% 0,354
2007 2 M.3 30 p = 0,403 0,187% 18 0,000%
2008 1 M.1 15 F = 0,658 -0,163% 0,003 33 0,052% 0,004
2008 1 M.3 15 p = 0,745 -0,085% 33 0,023%
2008 2 M.1 3* 45 -0,119% 0,000
2008 2 M.3 3 45 -0,076%
2009 1 M.1 22 F = 0,643 0,161% 0,001 26 0,299% 0,000
2009 1 M.3 22 p = 0,652 0,181% 26 0,301%
2009 2 M.1 18 F = 0,566 0,188% 0,002 30 0,235% 0,001
2009 2 M.3 18 p = 0,325 0,261% 30 0,349%
2010 1 M.1 27 F = 0,608 0,014% 0,001 21 0,047% 0,380
2010 1 M.3 27 p = 0,471 0,063% 21 0,057%
2010 2 M.1 25 F = 0,625 0,207% 0,001 23 0,136% 0,001
2010 2 M.3 25 p = 0,523 0,210% 23 0,146%
2011 1 M.1 31 F = 0,630 0,044% 0,001 17 0,075% 0,016
2011 1 M.3 31 p = 0,573 0,063% 17 0,103%
2011 2 M.1 15 F = 0,598 0,071% 0,612 33 0,110% 0,000
2011 2 M.3 15 p = 0,416 0,090% 33 0,077%
2012 1 M.1 24 F = 0,603 0,043% 0,001 24 0,105% 0,000
2012 1 M.3 24 p = 0,455 0,070% 24 0,163%
2012 2 M.1 21 F = 0,586 0,089% 0,005 27 0,131% 0,000
2012 2 M.3 21 p = 0,396 0,132% 27 0,178%
2013 1 M.1 17 F = 0,648 -0,027% 0,171 31 -0,024% 0,000
2013 1 M.3 17 p = 0,687 -0,025% 31 0,016%
2013 2 M.1 19 F = 0,597 0,041% 0,001 29 0,094% 0,000
2013 2 M.3 19 p = 0,391 0,106% 29 0,177%
Notas:
1Teste t para amostras relacionadas.
2Teste de Wilcoxon para amostras relacionadas. Resultados baseados em 1.000
reamostragens.
*Amostra insuficiente para análises.
Tabela 3 Comparação das Distribuições dos Retornos dos Modelos M.2 e M.3
Distribuição Normal Não Normal
Ano Semestre Modelos n Teste F Mediana Teste 1 (P)1 n Mediana Teste 2 (P)2
2006 1 M.2 22 F = 0,668 0,054% 0,580 20 0,135% 0,645
2006 1 M.3 22 p = 0,741 0,039% 20 0,142%
2006 2 M.2 23 F = 0,707 0,242% 0,001 21 0,184% 0,175
2006 2 M.3 23 p = 0,841 0,192% 21 0,200%
2007 1 M.2 20 F = 0,643 0,215% 0,015 28 0,254% 0,045
2007 1 M.3 20 p = 0,652 0,202% 28 0,202%
2007 2 M.2 30 F = 0,672 0,230% 0,001 18 0,020% 0,009
2007 2 M.3 30 p = 0,691 0,187% 18 0,000%
2008 1 M.2 15 F = 0,714 -0,056% 0,001 33 0,081% 0,000
2008 1 M.3 15 p = 0,885 -0,085% 33 0,023%
2008 2 M.2 3* 45 -0,108% 0,000
2008 2 M.3 3 45 -0,076%
2009 1 M.2 22 F = 0,671 0,167% 0,068 26 0,321% 0,004
2009 1 M.3 22 p = 0,823 0,181% 26 0,301%
2009 2 M.2 18 F = 0,615 0,218% 0,371 30 0,327% 0,234
2009 2 M.3 18 p = 0,492 0,261% 30 0,349%
2010 1 M.2 27 F = 0,702 0,077% 0,002 21 0,077% 0,000
2010 1 M.3 27 p = 0,710 0,063% 21 0,057%
2010 2 M.2 25 F = 0,674 0,239% 0,001 23 0,158% 0,000
2010 2 M.3 25 p = 0,807 0,210% 23 0,146%
2011 1 M.2 31 F = 0,714 0,084% 0,001 17 0,120% 0,002
2011 1 M.3 31 p = 0,793 0,063% 17 0,103%
2011 2 M.2 15 F = 0,661 0,118% 0,098 33 0,114% 0,000
2011 2 M.3 15 p = 0,757 0,090% 33 0,077%
2012 1 M.2 24 F = 0,692 0,093% 0,001 24 0,199% 0,000
2012 1 M.3 24 p = 0,795 0,070% 24 0,163%
2012 2 M.2 21 F = 0,727 0,199% 0,001 27 0,193% 0,316
2012 2 M.3 21 p = 0,715 0,132% 27 0,178%
2013 1 M.2 17 F = 0,670 -0,017% 0,019 31 0,060% 0,000
2013 1 M.3 17 p = 0,817 -0,025% 31 0,016%
2013 2 M.2 19 F = 0,629 0,067% 0,001 29 0,181% 0,057
2013 2 M.3 19 p = 0,563 0,106% 29 0,177%
Notas:
1Teste t para amostras relacionadas.
2Teste de Wilcoxon para amostras relacionadas. Resultados baseados em 1.000
reamostragens.
*Amostra insuficiente para análises.
4.1.1. Análises dos riscos
Nas Figuras_5(a) e 6(a), observa-se o comportamento das combinações analisadas
pela medida desvio padrão, de acordo com o aumento da quantidade de ações
presentes nas carteiras. Nas Figuras_5(b) e 6(b), observa-se o comportamento
das combinações analisadas pela medida de momento parcial inferior (LPM), e nas
Figuras_5(c) e 6(c), apresenta-se a análise das combinações mensuradas pelo
valor em risco condicional (CVaR). Percebe-se o decaimento do risco em todas as
combinações com o aumento do número de ações presentes na carteira. Esse tipo
de resultado era esperado devido ao efeito da diversificação, conforme
demonstrou Markowitz_(1952), pois com o aumento do número de ativos,
devidamente selecionados na carteira, há uma redução do risco.
No presente artigo, demonstra-se que o decaimento do risco parece ocorrer de
forma diferenciada para cada grupo analisado. Nas Figuras_5(a) e 6(a), as
combinações 1 e 10, respectivamente, tiveram decaimento mais rápido. Na Figura
5(b), as combinações apresentaram decaimento semelhante. Na Figura_6(b), a
combinação 14 decaiu mais rapidamente. Por último, nas Figuras_5(c) e 6(c), as
combinações 9 e 18 apresentaram menor nível de risco com o aumento do número de
ações na carteira.
Apesar das possíveis diferenças apresentadas nas Figuras_5 e 6, os testes F não
as confirmaram nas combinações das ações que aderiram à normalidade (ver na
coluna 5 das Tabelas_1, 2 e 3). Nos testes F, os resultados foram idênticos em
todos os semestres, apresentando níveis descritivos acima de 10% (valor p >
10%). No caso das combinações em que as ações não aderiram à normalidade, os
testes F não puderam ser realizados porque a estatística de teste apresenta
viés para conjunto de dados que têm distribuição diferente da normal, conforme
cita Brooks_(2008). Desse modo, nenhum teste foi realizado nas combinações
apresentadas na Figura_6; contudo, ao comparar-se com a Figura_5, visualmente
percebe-se que as diferenças de decaimento foram maiores na Figura_6.
Para finalizar as comparações a respeito das mensurações de riscos entre os
grupos, ressaltam-se os seguintes resultados. Nota-se pelas Figuras_5(a) e 6(a)
que, independentemente da distribuição dos retornos (normal e não normal),
quando se considera o desvio padrão, o decaimento mais rápido ocorre para o
modelo de otimização M.1 proposto por Markowitz_(1952) – combinações 1 e 10.
Verifica-se pela Figura_5(b) que, para os retornos com distribuição normal
considerando a medida LPM, os três métodos foram equivalentes. No entanto, ao
observar-se a Figura_6(b), para retornos não normalmente distribuídos, o modelo
de otimização de Estrada (M.2) apresentou os menores valores de LPM.
Nota-se pelas Figuras_5(c) e 6(c) que, independentemente da distribuição dos
dados (normal e não normal), quando se considera o CVaR o decaimento mais
rápido ocorre para o modelo de otimização M.3 proposto por Rockafellar_e
Uryasev_(2000) – combinações 9 e 18. Quando os dados não possuem distribuição
normal, o CVaR é muito menor quando o método de Rockafellar_e_Uryasev_(2000),
modelo M.3, é utilizado para formar as carteiras.
Esses resultados estão em parte de acordo com os comentários de Estrada_(2008).
Conforme o autor, seria indiferente a escolha de algum modelo de otimização
baseando-se em alguma medida de risco específica. Por exemplo, caso o
investidor "A" escolha o desvio padrão como medida de risco de sua carteira, o
modelo de Markowitz_(1952) formaria uma carteira com o desvio padrão mínimo;
caso o investidor "B" escolha o CVaR como medida de risco, o modelo de
Rockafellar_e_Uryasev_(2000) proporcionaria ao investidor uma carteira com CVaR
mínimo. Diante disso, não importaria a escolha de um modelo específico, porque
tanto o investidor "A" quanto o investidor "B" teriam uma carteira de risco
mínimo.
Entretanto, quando Estrada_(2008,_p._67)comenta que "tudo deve ser resumido ao
que determinado investidor perceber como a medida de risco mais adequada",
podem-se demonstrar algumas contraposições. Apesar de os riscos das carteiras
terem demonstrado características semelhantes mediante os testes F, ainda é
necessário avaliar o quanto de retorno cada carteira apresentou. Uma vez que o
grau de risco é similar nos modelos, um investidor precisaria testar se os
retornos tendem a ser iguais. Caso isso ocorra, certamente o comentário de
Estrada_(2008)pode ser mantido e difundido, caso contrário, realmente é
necessário o procedimento para seleção de modelos de otimização.
4.1.2. Análises dos retornos
Após a análise dos riscos das carteiras, buscou-se verificar suas
características quanto aos retornos; os principais resultados são apresentados
nas Tabelas_1, 2, 3. Ao proceder à revisão bibliográfica a respeito de
comparações entre os modelos que utilizaram como medida de risco o desvio
padrão (M.1) e o LPM (M.2), verificou-se um grupo de pesquisadores que
encontrou diferenças significativas entre os modelos – Rom_e_Ferguson_(1994),
Grootveld_e_Hallerbach_(1999), Andrade_(2006) e Nawrocki_e_Cumova_(2010) –, e
outro que não encontrou significância estatística – Brito_Neto_e_Volkmer_
(2001), Konno_et_al._(2002), Jarrow_e_Zhao_(2006) e Estrada_(2008) –, conforme
é visto na Figura_3.
No grupo que apresentou diferenças significativas, defende-se o domínio do
modelo LPM em relação àquele que utiliza o desvio padrão (DP) como medida de
risco, isto é, nas análises dos resultados, demonstrou-se que o modelo LPM
apresenta retornos maiores em relação ao DP quando se deseja minimizar o risco.
Entretanto, esses autores não testaram a igualdade de variâncias das carteiras
formadas, o que é exibido no presente artigo.
As medianas dos retornos e os testes utilizados para verificar as diferenças
entre os retornos são apresentados nas Tabelas_1, 2, 3. A mediana foi escolhida
para representar a centralidade da distribuição dos retornos, porque, no caso
das distribuições não normais, a média não é um estimador eficiente para
demonstrar a tendência central da distribuição de probabilidade, conforme citam
Moretin_e_Bussab_(2010).
Dado que as carteiras foram construídas pelas mesmas ações, mas utilizando
métodos diferentes (por construção), existe correlação entre elas; desse modo,
o uso de um teste que desconsidere esse efeito pode apresentar resultados
viesados, conforme apresentam Moretin_e_Bussab_(2010). Diante disso, no caso
dos modelos estudados no conjunto de dados que aderiram à normalidade, foram
realizados os testes t para amostras relacionadas. Para o conjunto de dados que
não demonstrou distribuição normal, foram realizados os testes de Wilcoxon para
amostras relacionadas.
Na Tabela_1, são visualizadas as análises dos retornos nos modelos M.1 e M.2.
Percebe-se que em todos os semestres analisados, no caso dos retornos com
distribuição normal, o modelo M.2 apresentou retornos superiores em relação ao
M.1, sendo todos significativos. Para o caso das distribuições não normalmente
distribuídas, observa-se que as medianas dos retornos foram maiores quando
estimadas nas carteiras formadas pelo modelo M.2, tendo esse resultado ocorrido
em todos os semestres.
Diante desses resultados, dado que o modelo M.2 forma uma carteira que minimiza
o risco mensurado pelo momento parcial inferior da distribuição de
probabilidade e que essa carteira apresentou maiores retornos em relação àquela
formada pelo modelo de Markowitz (modelo M.1), o presente trabalho pode ser
adicionado ao grupo de estudos que afirma que o modelo de otimização de
carteiras que utiliza o LPM apresenta retornos superiores àquele que utiliza o
desvio padrão como medida de risco.
Quanto às comparações entre desvio padrão e CVaR, há os trabalhos de
Rockafellar_e_Uryasev_(2000) e Bertsimas_et_al._(2004). No primeiro, os autores
apresentaram resultados em que os retornos praticamente não se diferenciavam.
No segundo trabalho, ao verificarem as diferenças entre os retornos com
distribuições simétricas e assimétricas, Bertsimas_et_al._(2004) complementam
as análises.
Em suas pesquisas, Bertsimas_et_al._(2004) demonstraram que, no caso em que a
distribuição foi simétrica, os retornos não se diferenciaram. Contudo, ao
verificarem as assimétricas, o modelo baseado no CVaR apresentou retornos
maiores, isto sugere que os investidores deveriam escolher o modelo baseado no
CVaR para otimização de carteiras quando os retornos históricos dos ativos não
apresentem aderência à normalidade.
Na Tabela_2, são demonstradas as comparações entre os modelos M.1 e M.3.
Observa-se que em todos os semestres analisados o modelo M.3 apresentou
medianas superiores ao M.1 para o grupo com distribuição normal, e em 14
períodos as diferenças foram significativas. No caso dos retornos não
normalmente distribuídos, o modelo M.3 apresentou retornos superiores aos do
modelo M.1 em 14 dos 16 períodos, mas em dois deles a diferença não foi
significativa.
Percebem-se, nas análises, algumas diferenças nos resultados em relação ao
estudo de Bertsimas_et_al.(2004). Enquanto esses autores demonstraram
diferenças significativas somente no conjunto de retornos não normalmente
distribuídos, no presente artigo houve diferenças significativas nos dois
conjuntos de dados, tanto nas ações com normalidade dos retornos quanto
naquelas com ausência de normalidade. Esses resultados também foram
diferenciados em relação ao estudo de Araújo_e_Montini_(2011), no qual o modelo
que utilizou o desvio padrão como medida de risco apresentou maiores retornos
no período analisado (2009 e 2010); no presente artigo, as carteiras analisadas
pelo modelo que minimiza o CVaR apresentaram os maiores retornos.
Foram encontrados poucos trabalhos em que os modelos LPM e CVaR são comparados.
O trabalho em que os resultados são detalhados é o de Konno_et_al._(2002). Em
sua pesquisa, os autores demonstram que as diferenças entre ambos os modelos
não foram significativas. Tais resultados foram justificados pelas
características dos modelos, que buscam minimizar o risco do lado inferior da
distribuição de probabilidade dos retornos, variando somente a forma de
estimação.
As comparações entre os modelos M.2 e M.3 são apresentadas na Tabela_3. No caso
das distribuições normais, o modelo M.2 apresentou retornos maiores em todos os
períodos. Contudo, em quatro deles as diferenças não foram significativas ao
nível de 5%. No caso das distribuições não normais, em 12 semestres dos 16
analisados, o modelo M.2 apresentou superioridade quanto aos retornos, mas em
somente um semestre a diferença não foi significativa. Esses resultados indicam
que, apesar de os modelos buscarem minimizar o lado inferior das distribuições
de probabilidade dos retornos, a forma de estimação pode alterar o
comportamento das carteiras.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A necessidade de os investidores buscarem formas de comparar os modelos
desenvolvidos para a otimização de carteiras, dado que o modelo de Markowitz_
(1952) foi revisado durante os anos, é muito importante para a tomada de
decisão no mercado financeiro. Segundo Kato_(2004), faltam trabalhos que
auxiliem os investidores a escolherem qual modelo de otimização de carteiras
deveria ser adotado na gestão de seus investimentos, principalmente na forma de
como mensurar o risco financeiro da carteira.
Na literatura, foram revisadas algumas medidas de risco, como LPM (Lower
Partial Moment) e CVaR (Conditional Value-at-Risk), cujas estimações foram
facilitadas pela capacidade computacional da atualidade. Diante disso, as
metodologias para comparação do desempenho de modelos de seleção de ativos
formam a bases da Post-Modern Portfolio Theory (PMPT) (Rom & Ferguson,
1994; Grootveld & Hallerbach,_1999; Roman & Mitra,_2009).
Mediante a contextualização do trabalho, delimitaram-se os objetivos da
pesquisa. No principal deles – Quais as características das carteiras de ações,
quando utilizadas diferentes métricas para a mensuração de riscos,
considerando-se retorno com distribuição normal e não normalmente distribuído?
– propunha-se comparar as alocações de investimentos com uso de diferentes
modelos de otimização, em cada um deles buscando-se minimizar as seguintes
medidas de risco adotadas para análise: o desvio padrão, o momento parcial
inferior e o valor em risco condicional.
A partir das análises, percebeu-se que os retornos das carteiras apresentaram
características diferenciadas, dependendo do modelo de otimização utilizado e
da medida de risco estimada. Essas diferenças foram observadas tanto para
retornos com distribuição normal quanto para aqueles não normalmente
distribuídos. Desse modo, esses resultados contrapõem-se às análises de Brito
Neto_e_Volkmer_(2001), Jarrow_e_Zhao_(2006) e Estrada_(2008), segundo as quais
seria indiferente a escolha de algum modelo de otimização, baseando-se em
alguma medida de risco específica. Portanto, selecionar de forma adequada a
medida de risco durante o processo de otimização de carteiras é uma tarefa
necessária na atividade de análise de investimentos e gestão de carteiras.
Discutida a importância de preocupar-se com os modelos de otimização para
aferir riscos e retornos, sua necessidade na análise de investimentos foi
comprovada do ponto de vista estatístico. Do ponto de visto prático, no artigo
apresenta-se uma metodologia em que programadores podem desenvolver uma rotina
automatizada, que não compromete a adoção, tanto por analistas quanto por
investidores, de ferramentas robustas para tomadas de decisões. Com o advento
dos algoritmos para a realização de negócios em alta frequência, esse tipo de
rotina pode até ser realizada em tempo real sem prejuízo do tempo necessário
para as tomadas de decisões por esses atores.
Como sugestão para trabalhos futuros, recomenda-se avaliar os comportamentos
dos modelos de otimização e as medidas de mensuração de risco em outros espaços
de tempo, como subdivisões anuais, mensais ou trimestrais. Isso se torna
importante para verificar a robustez dessas medidas para períodos de tempo
maiores ou menores. Como exemplos, Jarrow_e_Zhao_(2006) realizaram simulações
diárias para o horizonte de tempo de um ano, e no presente artigo utilizaram-se
períodos semestrais; portanto, sugere-se a verificação dos métodos em espaços
de tempo diferentes.
Outra recomendação para trabalhos futuros seria incluir outros tipos de ativos,
como renda fixa e câmbio. Essa inclusão é importante porque, tanto no presente
artigo quanto no artigo de Konno_et_al.(2002), foi utilizado somente retorno de
ações para comparar as medidas de risco. Comparar os métodos contendo esses
outros tipos de ativos é uma contribuição importante para a literatura, pois
possibilita a utilização de ativos diferenciados na comparação entre as medidas
de momento parcial inferior e valor em risco condicional.
No presente artigo, contribuiu-se, de forma relevante, para aprofundar a
discussão levantada por Estrada_(2008), segundo a qual não importa a medida de
risco na seleção de ativos. Neste trabalho, foram obtidos resultados que
mostram a grande importância de escolher a métrica adequada na otimização de
carteira de ações.
Como pode ser visto na Figura_2, este artigo também contribui de forma
relevante nos seguintes aspectos:
* no Brasil, não havia trabalhos em que as medidas desvio padrão, LPM e
CVaR tivessem sido discutidas no mesmo artigo;
* no mundo, essas três medidas não foram comparadas num mesmo estudo em
carteiras de ações contendo normalidade e não normalidade.
Como contribuição prática, os gestores de carteiras podem utilizar a
metodologia apresentada para avaliar seus resultados num ambiente dinâmico.