Avaliação da efetividade e dos preditores de um treinamento a distância em uma
instituição bancária de grande porte
1. INTRODUÇÃO
A capacitação de funcionários tem recebido investimento crescente das
organizações. Estima-se que as organizações dos Estados Unidos tenham investido
171,5 bilhões de dólares em ações de treinamento e desenvolvimento no ano de
2010 (Green & McGill, 2011). Em função desses investimentos crescentes e da
importância atribuída às ações educacionais no ambiente corporativo, tem
crescido também a preocupação em avaliar os resultados dessas ações,
considerando-se a avaliação desde a satisfação do treinando quanto à ergonomia
do software e quanto à navegabilidade e usabilidade do ambiente virtual de
aprendizagem (Varanda, Zerbini & Abbad, 2010), até a avaliação de sua
efetividade (Joia & Costa, 2007; Cheng & Hampson, 2008; Grossman &
Salas, 2011; Borges-Andrade, Abbad & Mourão, 2012; Griffin, 2012).
Nesse cenário, a educação a distância em ambiente corporativo vem ganhando
destaque nos últimos anos, a exemplo do que acontece também nas universidades
em função de sua capacidade de expansão e de incluir um grupo de pessoas que
estejam geograficamente dispersas (Alonso, 2010; Zerbini & Abbad, 2010b) e
também da possibilidade de proporcionar uma aprendizagem coletiva (Döös &
Wilhelmson, 2011) e com grande possibilidade de uso de recursos interativos
(Nakayama, Silveira & Pilla, 2000). Apesar do crescente investimento nessa
modalidade de treinamento, existem dúvidas sobre as atitudes dos trabalhadores
perante a educação a distância, bem como sobre sua efetividade. Grandes
executivos e formuladores de políticas educacionais de todos os níveis têm
questionado se a educação a distância funciona e se está sendo desenvolvida da
forma como seria esperado (Bethel & Bernard, 2010).
Como opção para o estudo da efetividade de cursos a distância e de seus
possíveis preditores, foi feito um estudo quantitativo em uma grande
instituição bancária. A opção por esse objeto de análise insere-se no contexto
da educação a distância, sendo tal tipo de instituição forte usuária de
ambientes virtuais de ensino-aprendizagem, seja pela dificuldade de reunir seu
público em sala de aula, seja pelo grande contingente a ser capacitado, seja
ainda pela expressiva dispersão geográfica de seus funcionários.
Nas instituições que oferecem treinamentos realizados a distância, há genuíno
interesse não apenas em conhecer o grau de impacto obtido com essas ações, mas
também de conhecer quais são as variáveis preditoras dos resultados alcançados
com a ação de capacitação (Alvarez, Salas & Garofano, 2004; Borges-Andrade
et al., 2012). Com base nesse tipo de avaliação, o debate científico poderá
contribuir para o planejamento e a avaliação de treinamentos ofertados a
distância, oferecendo subsídios para que as organizações implementem e
acompanhem suas ações educacionais de forma mais eficaz (Martins, 2012).
No que diz respeito à escolha das variáveis preditoras do impacto do
treinamento no trabalho, é preciso considerar que o suporte à aplicação do
treinamento, também denominado suporte à transferência de treinamento, tem sido
uma das variáveis mais pesquisadas e comprovadamente relacionada aos resultados
de transferência do que foi aprendido para o ambiente de trabalho (D'Netto,
Bakas & Bordia, 2008; Zerbini & Abbad, 2010a; Abbad, Pilati, Borges-
Andrade & Sallorenzo, 2012). Além dos aspectos ambientais como clima
organizacional e suporte e feedback do supervisor, outras variáveis, como
autoeficácia, características do instrutor e dos participantes, motivação para
aprender e para transferir, conscienciosidade, aprendizagem, orientação para
objetivos, instrumentalidade do treinamento, também têm sido pesquisadas
(Tziner, Fisher, Senior & Weiberg, 2007; Velada, Caetano, Michel, Lyons
& Kavanagh, 2007; Cheng & Hampson, 2008; Blume, Ford, Baldwin &
Huang, 2010; Chiaburu, Sawyer & Thoroughgood, 2010; Martin, 2010).
Já as atitudes dos participantes em relação à educação a distância são
variáveis importantes porque, em que pesem os resultados de pesquisa mostrando
a eficácia dessa modalidade em diversos contextos educacionais, ainda há
preconceito em relação à educação a distância, como se a modalidade
tradicional, com presença, fosse superior a ela em termos de qualidade
(Gadotti, 2009). Além disso, é preciso considerar que, apesar do enorme avanço
das pesquisas sobre educação a distância nas principais revistas internacionais
que publicam tal temática, ainda há um predomínio das pesquisas com foco na
eficácia das mídias de comunicação (Moore & Kearsley, 2007; Romiszowski,
2009), constatando-se pouco investimento em pesquisas voltadas para as atitudes
dos participantes em relação a essa modalidade educacional. É preciso
considerar que os indivíduos que experimentam maiores dificuldades em relação
ao manejo dos elementos eletrônicos dos cursos a distância apresentam maior
chance de se evadir de tais programas educacionais (Silva & Tomaz, 2006;
Almeida, 2007), e pessoas com mais habilidades de usar ferramentas on-line e
que percebem a educação a distância como promotora de uma aprendizagem útil e
flexível tendem a estar mais satisfeitas com esse tipo de ensino (Sahin &
Shelley, 2008)
Nesse sentido, a literatura já sinaliza que, para além dos aspectos ergonômicos
e de habilidade com as novas tecnologias, também as atitudes podem ser um
possível fator influenciador da efetividade das ações de treinamento a
distância. A compreensão das atitudes frente à educação a distância, assim como
dos estilos e das estratégias de aprendizagem desenvolvidas nesse tipo de
contexto de ação educacional (Badia & Monereo, 2010; Lu & Chiou, 2010)
é relevante para a atuação na área, no sentido de oferecer subsídios empíricos
para a reflexão sobre as práticas profissionais.
No que diz respeito à avaliação de necessidade do treinamento (ANT), uma etapa
do sistema de Treinamento, Desenvolvimento e Educação (TD&E) das
organizações, espera-se que ela exerça influência sobre os resultados obtidos
nos processos de avaliação das ações educacionais. Contudo, apesar de a visão
sistêmica da área de TD&E ter sido concebida há bastante tempo (Goldstein,
1980), ainda são poucas as pesquisas que relacionam empiricamente seus
componentes, e menor atenção tem sido dedicada às pesquisas de análise de
necessidades de treinamento (Salas & Cannon-Bowers, 2001; Aguinis &
Kraiger, 2009; Mourão, Gondim, Macêdo & Luna, 2013).
Por fim, a variável contribuição do curso para a aquisição de competências é
relevante porque permite uma avaliação direta da qualidade do curso (avaliação
de processo). Esse cuidado é necessário para impedir que efeitos de outros
processos (fatores estranhos ao curso realizado) sejam misturados aos reais
efeitos da capacitação (resultados claros), conforme alertam Rossi e Freeman
(1989). Nesse sentido, se fosse feita apenas a mensuração dos comportamentos
pós-curso, poder-se-iam mensurar resultados brutos, nos quais estariam
mesclados tanto os efeitos da ação educacional avaliada quanto os de outras
variáveis externas à capacitação, como a aprendizagem informal com colegas de
trabalho que não frequentaram o curso.
Diante do exposto, no presente artigo, o objetivo é verificar a efetividade de
um treinamento on-line, tendo como variáveis preditoras as atitudes dos
participantes em relação à educação a distância, a avaliação de necessidade do
treinamento, a contribuição do curso para a aquisição de competências e o
suporte à aplicação do treinamento. A seguir, apresenta-se uma breve revisão de
literatura sobre a educação a distância e a variável critério impacto do
treinamento no trabalho.
2. REVISÃO DA LITERATURA
Educação a distância tem como principais características o uso extensivo de
tecnologia, a facilidade de reprodução em larga escala pois permite maior
número de alunos num mesmo evento , a não existência de barreiras geográficas,
o uso de métodos de aprendizagem específicos e a possibilidade de
autoaprendizagem. Para Vargas (2003, p. 292), educação a distância é "uma
modalidade de ensino/aprendizagem que rompe as barreiras do tempo e do espaço,
promovendo diferentes formas de interação entre alunos e professores".
A educação a distância, embora praticada há bastante tempo, ganhou novos
contornos com o desenvolvimento tecnológico dos computadores e das redes de
comunicação, sobretudo a Internet. Assim, Bastos (2010) analisa que o quadro-
negro, giz, mimeógrafo, retroprojetor, transparências, televisão, videocassete,
CD-ROM e DVD fazem parte do que se pode denominar de antigas Tecnologias da
Informação e Comunicação (TICs). As novas, denominadas de NTICs, podem ser
definidas como "ferramentas e processos eletrônicos para acessar, recuperar,
guardar, organizar, manipular, produzir, compartilhar e apresentar informações"
(Bastos, 2010, p. 5), e utilizam equipamentos, programas informáticos e de
telecomunicações. A principal diferença entre as duas tecnologias é a
interatividade.
Apesar das mudanças ocorridas na educação a distância e da possibilidade de
interação que as NTICs possibilitam, ainda há pessoas que apresentam
preconceito em relação a cursos realizados a distância (Gadotti, 2009) e outras
que resistem a tais cursos em função da dificuldade de adaptação e uso das
novas tecnologias. Diante disso, são demandadas pesquisas que não focalizem
apenas o funcionamento das mídias na educação a distância (Romiszowski, 2009),
mas também as atitudes das pessoas em relação a essa modalidade educacional,
inclusive em ambientes corporativos (Zerbini & Abbad, 2010b).
No entanto, independentemente da modalidade escolhida para o evento de
TD&E, é preciso considerar que tais ações estão inseridas no sistema de
treinamento (Borges-Andrade, 2002), que tem como subsistemas a análise de
necessidades, o planejamento e a execução, e a avaliação de treinamento que
retroalimenta os subsistemas anteriores. O entendimento da visão sistêmica do
treinamento conduz à consideração da influência recíproca dos subsistemas entre
si. Nesse sentido, parece razoável supor que a análise de necessidades de
treinamento exerça influência sobre os resultados do treinamento (Alvarez et
al., 2004).
Apesar da reconhecida relevância da análise de necessidades de treinamento em
função de seu poder de influência sobre os demais componentes do sistema, as
pesquisas sobre ANT e também sua prática têm ficado para segundo plano (Campos
et al., 2004; Aguinis & Kraiger, 2009; Silva & Meneses, 2012). A ANT,
se bem realizada, define com clareza e precisão, os conhecimentos, as
habilidades e as atitudes que se deseja desenvolver nos participantes das ações
educacionais, além de permitir a construção de desenhos instrucionais
compatíveis com as expectativas, as necessidades e os contextos do público-
alvo, aumentando a chance de impacto das ações de TD&E (Abbad & Mourão,
2012).
No modelo clássico de avaliação de necessidades de treinamento de McGehee e
Thayer (1961), denominado organização-tarefas-pessoas (OTP), o diagnóstico de
necessidades é apontado em três níveis: organizacional (onde e quando treinar),
de tarefas (quais conhecimentos, habilidades e atitudes treinar, tendo em vista
as tarefas que serão realizadas), e pessoal ou individual (quem são as pessoas
que devem ser treinadas). Para a presente pesquisa, há três aspectos
importantes que devem ser considerados no modelo OTP: o fato de que os eventos
de TD&E devem estar alinhados a estratégias organizacionais; a
pressuposição de influência entre as variáveis do ambiente e os resultados do
treinamento; e a contemplação do nível individual, a partir da análise dos
hiatos ou lacunas nos repertórios de competências das pessoas.
Em relação às variáveis do ambiente corporativo, o suporte à aplicação do
treinamento, ou suporte à transferência, avalia "o apoio recebido pelo egresso
do treinamento para aplicar, no trabalho, as novas habilidades adquiridas
nesses eventos instrucionais" (Abbad, Pilati et al., 2012, p. 244). Nas
pesquisas nacionais, o suporte tem sido medido, sobretudo, em dois fatores:
suporte psicossocial, que diz respeito ao suporte recebido dos gerentes e
colegas; e o suporte material, que se refere às condições de infraestrutura e
recursos materiais e financeiros para que o indivíduo possa aplicar no trabalho
aquilo que foi aprendido nos eventos de TD&E.
Nas duas últimas décadas, um expressivo conjunto de pesquisas nacionais e
estrangeiras tem apontado o suporte à aplicação no trabalho ou suporte à
transferência como importante variável preditora do impacto do treinamento no
trabalho. A maior parte dos estudos aponta correlações positivas entre suporte
e impacto, sugerindo que os aspectos contextuais, sobretudo os de apoio de
chefes e colegas, são fundamentais para que os egressos de eventos de TD&E
apliquem no trabalho as novas aprendizagens adquiridas (Salas & Cannon-
Bowers, 2001; Aguinis & Kraiger, 2009; Zerbini & Abbad, 2010a; Abbad,
Pilati et al., 2012).
Em relação ao impacto do treinamento no trabalho, pode-se dizer que ele é a
razão da existência das ações de treinamento e desenvolvimento, pois não basta
haver aquisição sistemática de conhecimentos, é preciso que esses sejam capazes
de provocar uma mudança na atuação dos indivíduos e nos resultados das
organizações. Essa mudança no comportamento individual ou na forma de
desempenhar as atividades de trabalho é um elemento essencial nos eventos de
TD&E (Freitas, Borges-Andrade, Abbad & Pilati, 2006; Velada et al.,
2007; Burke & Saks, 2009; Roszkowski & Sovon, 2010; Vo & Hannif,
2012).
No clássico modelo de Kirkpatrick (1976), o impacto do treinamento no trabalho
ocorre em dois níveis: o denominado de comportamento, que se refere às mudanças
e às melhorias de desempenho ocorridas no nível individual; e aquele denominado
de resultados, voltado para o impacto no nível organizacional (Kirkpatrick,
1976). No nível do indivíduo, o impacto do treinamento pode ser medido em
profundidade (efeitos diretos e específicos de uma ação de TD&E sobre o
comportamento do indivíduo em seu cargo na organização) ou em amplitude
(efeitos indiretos exercidos por esta ação sobre o desempenho global, atitudes
e motivação) (Pilati & Abbad, 2005; Abbad, Sallorenzo, Coelho Jr., Zerbini,
Vasconcelos, & Todeschini, 2012; Zerbini, Abbad & Mourão, 2012).
Grande parte das pesquisas brasileiras adota instrumentos de avaliação de
impacto em amplitude (Zerbini, Abbad et al., 2012). A avaliação do impacto em
profundidade é mais difícil porque requer a análise dos objetivos
instrucionais, que nem sempre estão disponíveis e que variam de um curso para
outro, criando a necessidade de instrumentos ad hoc para cada curso avaliado
(Zerbini, Abbad et al., 2012). Contudo, como em cada tipo de avaliação em
profundidade ou em amplitude mensura-se um efeito distinto das ações de
TD&E, é pertinente que ambos sejam mensurados e que seus resultados e
preditores sejam inclusive comparados.
Há grande inquietação nas organizações pela dificuldade em mensurar se os
investimentos realizados em ações de capacitação foram de fato revertidos em
algum tipo de resultado positivo para o indivíduo, para a equipe na qual
trabalha ou para a organização como um todo (Brandão, Borges-Andrade &
Guimarães, 2012). Contudo, nem sempre basta oferecer treinamento. Ford,
Quiñones, Sego e Sorra (1992) assinalam que oportunidades para desempenhar
tarefas treinadas podem ser consideradas uma das variáveis preditoras para
aplicar no trabalho as tarefas ensinadas na ação de TD&E. Na mesma linha,
Abbad, Gama e Borges-Andrade (2000) concluíram que a explicação para cada nível
de avaliação depende de uma complexa gama de variáveis pertencentes à
organização, ao treinamento e ao indivíduo.
Assim, há pertinência em avaliar a contribuição do curso para a aprendizagem
uma vez que treinamento não é sempre a solução para todos os problemas
organizacionais (Borges-Andrade & Oliveira-Castro, 1996) e muitas variáveis
além do treinamento podem influenciar o desempenho (Mourão & Borges-
Andrade, 2005; Brandão et al., 2012). Portanto, mesmo realizando pesquisas de
avaliação do impacto do treinamento, é difícil conseguir isolar essa variável a
ponto de garantir que uma mudança de desempenho que tenha sido mensurada seja
decorrente apenas da ação de capacitação. Nesse sentido, é pertinente avaliar o
grau de contribuição do evento de TD&E para a aquisição das competências-
alvo dos objetivos instrucionais.
Há que se considerar, entretanto, que o fato de o indivíduo não conseguir
aplicar no trabalho o que aprendeu no treinamento não significa,
necessariamente, fracasso do treinamento, pois é possível que outras variáveis
contextuais como o suporte influenciem a transferência de treinamento como
relatam diversos estudos nacionais e estrangeiros (Aguinis & Kraiger, 2009;
Abbad, Sallorenzo et al., 2012). Assim, apresenta mais possibilidades de
contribuir para o entendimento das variáveis preditoras do impacto do
treinamento no nível individual uma pesquisa em que se investiguem ao mesmo
tempo a análise de necessidade de treinamento (ANT), as contribuições do curso
em si, as atitudes em relação à EAD e o suporte à aplicação no trabalho do que
foi aprendido nos eventos de TD&E.
O impacto no nível do comportamento no cargo focaliza o resultado do
treinamento no desempenho do treinando em seu contexto de trabalho e constitui
o primeiro indicador visível de resultados para os profissionais que não estão
diretamente envolvidos com as ações de TD&E. Várias pesquisas, nacionais e
estrangeiras, têm buscado encontrar preditores para o impacto do treinamento no
nível do comportamento no cargo (Salas & Cannon-Bowers, 2001; Aguinis &
Kraiger, 2009; Zerbini & Abbad, 2010a). Os resultados indicam que algumas
variáveis individuais ajudam a explicar a aplicação dos conhecimentos,
habilidades e atitudes aprendidos nos eventos de capacitação. Porém, as
variáveis com maior poder de predição pertencem ao contexto, ou seja, são
variáveis situacionais.
3. OBJETIVOS DA PESQUISA E MODELO DE INVESTIGAÇÃO
Conforme apontado na revisão de literatura brevemente apresentada, a área de
avaliação de treinamentos a distância é um campo de conhecimento que ainda
oferece um conjunto de lacunas as quais demandam mais investigações
científicas. Nesse sentido, conforme previamente exposto, na presente pesquisa,
o objetivo é verificar a efetividade de um treinamento a distância, tendo como
variáveis preditoras as atitudes dos participantes em relação à educação a
distância, a avaliação de necessidade do treinamento, a contribuição do curso
para a aquisição de competências e o suporte à aplicação do treinamento. Na
Figura_1, apresenta-se o modelo de pesquisa investigado.

As definições constitutivas das variáveis envolvidas no presente estudo são
apresentadas a seguir. Em relação às definições operacionais, elas correspondem
ao escore obtido a partir de cada uma das escalas aplicadas, conforme será
descrito na seção relativa ao método.
Atitudes em relação à educação a distância (atitudes EaD) consistem em
respostas avaliativas relativamente estáveis dadas pelos participantes em
relação à educação a distância e que podem influenciar suas intenções
comportamentais e seus comportamentos (Pompêo & Abbad, 2010).
Suporte à aplicação do treinamento (suporte) consiste no apoio gerencial e
social (dos colegas) e organizacional à aplicação de novas aprendizagens no
trabalho (Abbad, Pilati et al., 2012).
Análise de necessidades de treinamento (ANT) consiste na descrição de lacunas
em conhecimentos, habilidades e atitudes (CHAs), componentes básicos das
competências, bem como na descrição do perfil do público-alvo e de seus
contextos para o fim de desenvolvimento das estratégias instrucionais (Abbad
& Mourão, 2012).
Impacto do treinamento no trabalho em profundidade (IMP-p) refere-se à
transferência de treinamento, isto é, à aplicação eficaz dos CHAs adquiridos
durante ações instrucionais (Baldwin & Ford, 1988).
Impacto do treinamento no trabalho em amplitude (IMP-a) refere-se ao efeito
direto da transferência de treinamento sobre o desempenho geral do egresso a
partir de sua participação no curso (Abbad, Pilati et al., 2012).
4. MÉTODO
4.1. Participantes
O universo da pesquisa foi uma instituição financeira de grande porte e os
sujeitos, os funcionários que participaram do treinamento no ano de 2011. A
amostra total da pesquisa foi composta por 742 participantes que responderam as
informações sobre análise de necessidades de treinamento e 544 que responderam
as demais escalas.
O perfil dos respondentes era predominantemente do sexo masculino (63%), com a
metade dos respondentes com tempo de serviço entre zero e cinco anos, quase a
metade residente na região sudeste (46%). Predominam entre os respondentes
aqueles que possuem graduação (80%), sendo um terço da amostra de pós-
graduados. A formação em administração é a predominante (31%), acompanhada de
direito (10%) e de contabilidade (7%). Quanto ao local de trabalho, a maioria
dos participantes estava lotada em agências bancárias ou outras unidades de
negócios da instituição (89%), com reduzido percentual atuando na área meio.
4.2. Instrumentos de medida
O formulário utilizado para avaliar o curso continha as seguintes escalas:
impacto do treinamento no trabalho (em profundidade), desenvolvido para o
presente estudo; impacto do treinamento no trabalho (em amplitude) (Pilati
& Abbad, 2005); suporte à aplicação do treinamento (Abbad, 1999); análise
de necessidades de treinamento, desenvolvido para o presente estudo; atitudes
em relação à educação a distância (Pompêo & Abbad, 2010). Todos os
instrumentos foram adaptados para a realidade da instituição-alvo desta
pesquisa, a partir de workshops realizados com as equipes da área de gestão de
pessoas e de educação corporativa. A Figura_2 apresenta informações gerais
sobre as escalas e o número de itens utilizados na coleta de dados.
Quanto aos dados psicométricos das escalas, embora não fosse objetivo do
presente artigo verificar evidências de validade dos instrumentos, algumas
informações sobre eles são importantes para aumentar a validade interna desta
pesquisa. Assim, na parte de resultados, apresenta-se um resumo das evidências
de validade (variância explicada, grau de precisão e cargas fatoriais) dos
instrumentos utilizados.
4.3. Procedimentos de coleta e análise de dados
Os questionários foram aplicados pela Intranet da instituição no ano de 2011.
Em geral, os respondentes já haviam concluído o curso há mais de 90 dias. Essa
coleta foi organizada pela Divisão de Avaliações em Gestão de Pessoas, que
explicou os objetivos, os procedimentos e as instruções da avaliação aos
participantes do curso.
As respostas dos participantes foram registradas em um arquivo de dados
eletrônico no programa SPSS (Statistical Package for Social Science), versão
21.0. Em uma primeira etapa, foram realizadas análises descritivas e
exploratórias para investigar a exatidão da entrada dos dados, a presença de
casos extremos, a distribuição dos casos omissos, a distribuição de frequência
e o tamanho da amostra. Também foram realizadas a análise dos componentes
principais (Principal Components ' PC) e análise fatorial exploratória (AF),
utilizando o método de fatoração dos eixos principais (Principal Axis Factoring
' PAF) dos instrumentos de impacto do treinamento em profundidade e das demais
escalas, segundo as orientações de Pasquali (2004).
Por fim, foram realizados testes t para verificar as diferenças de médias no
impacto a partir da divisão da amostra entre os egressos que participaram do
curso por motivos do serviço e outros que participaram do curso por outros
motivos. Além disso, foi feita também regressão múltipla padrão para testar o
relacionamento entre as variáveis do modelo. Antes da realização dessas
análises inferenciais, foram testados os pressupostos para a realização das
regressões múltiplas, conforme as orientações de Tabachnick e Fidell (2007) e
Hair, Black, Babin, Anderson e Tatham (2009).
5. RESULTADOS
Nesta seção são apresentados os resultados relativos às escalas, bem como os
dados descritivos da avaliação do curso e os resultados das correlações e da
regressão linear padrão que indicam as variáveis que atuam como preditoras do
impacto do treinamento no trabalho.
5.1. Validação das escalas
Para a aplicação da análise fatorial, identificou-se a existência de mais de
dez casos para cada variável do instrumento. Para as cinco escalas avaliadas, a
análise da matriz de dados indicou a presença de relações lineares entre as
variáveis e ausência de multicolinearidade entre elas. Vale acrescentar que
todas as escalas apresentaram condições adequadas de fatorabilidade, como
valores de KMO acima de 0,90. As análises dos componentes principais, com
tratamento listwise para os casos omissos, foram realizadas analisando-se os
critérios dos eigenvalues (valores próprios) maiores ou iguais a um, a análise
do gráfico de sedimentação (scree plot) e a consistência teórica dos fatores.
Em todos os casos, foram incluídos nas escalas apenas os itens com conteúdos
semânticos similares e cargas fatoriais superiores ou iguais a 0,32 (Tabachnick
& Fidell, 2007), tendo sido identificado apenas um fator por escala. Os
principais dados psicométricos dos instrumentos utilizados são apresentados na
Tabela_1.
Como pode ser observado na Tabela_1, os índices de confiabilidade variaram de
0,92 a 0,97, o que caracteriza que as escalas apresentam consistência. As
cargas fatoriais variaram de 0,54 a 0,91, com todas acima de 0,50, indicando
que, além de consistentes, as escalas também são estáveis e contemplam itens
representativos dos respectivos fatores. Todas as escalas mantiveram-se
unifatoriais, tal como se esperava antes da aplicação dos questionários, com
exceção da escala de suporte à aplicação do treinamento que se apresentava
previamente com proposta de três dimensões, que não se confirmaram para a
amostra deste estudo.
5.2. Análises descritivas
Para ampliar o entendimento dos resultados, apresenta-se a seguir a descrição
dos valores das médias, dos desvios padrão e da concentração das respostas dos
participantes para cada uma das variáveis pesquisadas. Vale lembrar que as
respostas numéricas dos participantes estão associadas a uma escala que varia
de 0 a 10 pontos e que foram considerados altos os escores entre 8 e 10 e os
desvios padrão iguais ou superiores a 2,0, sendo esses os parâmetros
preestabelecidos para a análise, conforme orientações de Pilati, Riether e
Porto (2006).
A necessidade do treinamento foi mensurada de duas formas, um item com escala
de concordância tipo Likert de 11 pontos relativamente à frase "Participei
deste curso porque tinha necessidade de melhorar meu desempenho no que se
referia aos conteúdos abordados neste treinamento" e outro que perguntava o
motivo pelo qual o funcionário escolheu fazer o treinamento. Esse último foi
tratado como variável dummy, sendo atribuído valor 1 para a resposta "por
necessidade do serviço" (44%) e valor 0 para qualquer outra resposta (56%). O
item "Participei deste curso porque tinha necessidade de melhorar meu
desempenho no que se referia aos conteúdos abordados neste treinamento" teve
média elevada (7,92) e desvio padrão moderadamente alto (DP=2,37). Ainda como
parte da análise de necessidade de treinamento, foi elaborada uma questão
adicional para as pessoas que afirmaram utilizar pouco no trabalho os conteúdos
aprendidos no treinamento. Dentre os 742 pesquisados, 27% expressaram não
utilizar as competências aprendidas no trabalho, pelas seguintes razões: área
de atuação não requer a competência aprendida (17%), deslocamento para outra
função que não requer a competência aprendida (5%), falta de demanda do produto
ou serviço (3%) e outros motivos (2%).
Ao final do questionário, foi também perguntado aos participantes: "Antes de
realizar o treinamento, você possuía os conhecimentos e as habilidades
necessários e suficientes para expressar as competências descritas acima?". O
resultado indicou que 259 participantes (48%) avaliaram já possuir os
conhecimentos e as habilidades para expressar as competências ensinadas no
curso.
A avaliação feita pelos egressos do treinamento quanto ao grau de contribuição
do curso para a aprendizagem de cada competência descrita no questionário
aponta para médias relativamente altas e homogêneas, variando entre 7,4 e 8,6.
O desvio padrão variou entre 1,7 e 2,0, o que sugere variabilidade moderada das
respostas.
Quanto ao impacto do treinamento em profundidade (grau de aplicação no trabalho
das competências específicas aprendidas), observa-se que a maioria dos
participantes demonstra em seu trabalho as competências adquiridas no curso,
uma vez que todos os itens apresentaram uma concentração de respostas superior
a 60% nos pontos mais altos da escala (oito a dez). Outro ponto que confirma
tal afirmação são as médias que variaram entre 7,5 e 9,0, indicando alta
expressão das competências no ambiente de trabalho. Os valores dos desvios
padrão foram próximos do valor 2,0 (dois) em quatro itens, indicando
discordância moderadamente alta de opiniões quanto aos aspectos avaliados.
Quanto ao impacto do treinamento no trabalho, medido em amplitude, observam-se
avaliações favoráveis sobre a contribuição do treinamento para a melhoria do
desempenho, uma vez que as médias variam entre 8,0 e 9,0 e os itens tiveram
alta concentração de respostas (66%) nos três pontos mais altos da escala. Com
exceção de dois itens que obtiveram desvios padrão de 1,9 e 2,0
respectivamente, os demais obtiveram opiniões convergentes dos pesquisados
sobre os aspectos avaliados.
Os resultados descritivos mostram também que os participantes do curso sentem-
se apoiados a aplicar no trabalho aquilo que aprenderam no treinamento, pois as
médias ficaram entre 6,9 e 8,4, indicando valores de moderados a altos nas
situações investigadas. Contudo, dos 11 itens apresentados neste fator, sete
apresentaram desvios padrão próximos a 2,0.
Quanto às atitudes dos participantes em relação aos cursos a distância, os
dados apontam para médias variando de 7,9 a 8,8 e desvios padrão não muito
elevados (entre 1,3 e 1,8). Esses resultados indicam que os participantes
percebem facilidade e utilidade no uso da educação a distância, sem maiores
resistências a esse tipo de modalidade educacional.
5.3. Testagem do modelo de pesquisa
Como o modelo a ser testado tinha como variável dependente o impacto do
treinamento no trabalho, foram considerados na amostra os sujeitos que
responderam às escalas de impacto, o que corresponde a 544 pessoas. Na primeira
etapa da análise, foi feita a limpeza do banco de dados para identificar a
presença de dados omissos (missing values). Como o instrumento foi aplicado on-
line e solicitava o preenchimento de todos os dados, não foram identificados
valores faltosos considerando-se as respostas às escalas. Examinaram-se, então,
as distribuições univariadas, por meio de métodos gráficos (boxplot) e
numéricos (medidas de simetria) com o objetivo de avaliar normalidade,
homogeneidade de variância e presença de dados extremos (outliers); desvios
padrões acima ou abaixo da média ou que apresentassem valores acima dos valores
máximos permitidos nos parâmetros da Distância Mahalanobis para uma pesquisa
com seis variáveis e com p<0,05).
Algumas variáveis tiveram de ser transformadas. O critério numérico utilizado
para avaliar a necessidade de transformações foi ancorado na simetria.
Variáveis foram transformadas sempre que o escore Z para simetria (simetria/
erro padrão de medida da simetria) foi maior que 1,96 (Tabachnick & Fidell,
2007; Hair et al., 2009). Foi necessário efetuar dois tipos de transformações
nas variáveis: o inverso da raiz quadrada para as variáveis suporte, impacto em
profundidade e atitude em relação à EaD e o inverso do logaritmo para as
variáveis análise de necessidade de treinamento, impacto em amplitude e
contribuição do curso para a aprendizagem das competências. Essas
transformações resolveram satisfatoriamente os problemas de simetria, de
curtose e de heterogeneidade de variância. Variáveis transformadas foram
utilizadas nas análises de correlação e regressão. Para clarificar a
interpretação dos resultados, são apresentadas as médias e os desvios padrão
das variáveis antes da transformação (Tabachnick & Fidell, 2007).
Na análise de outliers univariados foram identificados nove casos muito
influentes (considerando-se as variáveis de impacto, atitudes em relação à EaD,
contribuição do curso e suporte à aplicação do aprendido), os quais foram
excluídos das análises. Em relação aos outliers multivariados, foram
identificados 52 casos no total (9,6% da amostra), sendo também excluídos do
banco de dados final. Assim, o total de casos válidos foi de 483. Para o
cálculo do poder da amostra, utilizou-se o programa estatístico G-Power, versão
3.0, considerando-se um nível de significância p<0,05; procedeu-se aos
cálculos, que identificaram que, para regressões com cinco preditores, uma
amostra de 483 casos corresponderia a um poder estatístico de 100%, indicando
baixa probabilidade de erro do tipo II (Faul, Erdfelder, Lang & Buchner,
2007).
O testet para amostras independentes apontou diferenças significativas das
médias do impacto em profundidade de acordo com a análise de necessidades de
treinamento (t(481)=2,10). Egressos que participaram do curso por motivo do
serviço apresentaram média de impacto de treinamento em profundidade
ligeiramente mais alta (M=8,60; DP=1,01) do que aqueles que participaram do
treinamento por outros motivos (M=8,38; DP=1,21). Essa diferença observada no
teste t, contudo, não se confirmou para a medida do impacto do treinamento em
amplitude.
A análise de correlação entre o conjunto de variáveis do modelo apontou
correlações altas, de acordo com o critério de Miles e Shevlin (2001), tanto
entre as variáveis independentes como entre essas e as variáveis dependentes. A
maior correlação foi observada entre o impacto do treinamento em profundidade e
a contribuição do curso para a aquisição de competências (r=0,82, p<0,01). Vale
esclarecer que tal correlação já era esperada, devido ao fato de tais variáveis
estarem baseadas nos mesmos itens, sendo que a primeira analisa a contribuição
do curso para a aprendizagem e a segunda, a aplicação no trabalho daquilo que
foi aprendido. Seria, portanto, de esperar-se maior impacto nas competências do
que o que foi obtido. As demais variáveis independentes suporte para
aplicação do treinamento e atitude em relação à EaD também apresentaram
correlações altas e positivas com o impacto do treinamento medido em
profundidade (r=0,65, p<0,01 e r=0,56, p<0,01, respectivamente).
As correlações das variáveis independentes com o impacto do treinamento medido
em amplitude também foram elevadas: (r=0,75, p<0,01) para a contribuição do
treinamento em amplitude; (r=0,63, p<0,01) para o suporte à aplicação do
treinamento e (r=0,60, p<0,01) para as atitudes em relação ao treinamento, como
pode ser visto na Tabela_2.
Para possibilitar a análise de regressão, também foram avaliadas a
multicolinearidade e a análise de resíduos, na qual evidenciou-se que a
distribuição dos mesmos é regular, sem identificação de variância constante
(homocedasticidade) ou de correlação entre os erros. Em relação à
multicolinearidade, foi encontrada alta correlação entre as variáveis
contribuição do curso para aquisição de competências e impacto em profundidade
(r=0,82). Contudo, o teste de colinearidade não apresentou valores de VIF acima
de cinco nem valores de tolerância abaixo de 0,1, e o condition index indicou
que tais variáveis não apresentariam problemas de colinearidade se ficassem
juntas como variáveis independentes.
Nos resultados da regressão múltipla para o impacto do treinamento em
profundidade, houve duas variáveis preditoras: contribuição para aquisição de
competências (β=0,65) e suporte para aplicação do treinamento (β=0,22), as
quais conseguiram explicar 71% da variância do impacto do treinamento. A
variável atitude em relação à EaD não figurou como preditora no modelo testado,
como pode ser visto na Tabela_3.
Em relação à testagem do modelo para o impacto do treinamento em amplitude,
foram retidas as três variáveis preditoras, na seguinte ordem: contribuição
para aquisição de competências (β=0,52), suporte para aplicação do treinamento
(β=0,22) e atitude em relação à EaD (β=0,17), que, juntas, conseguiram explicar
63% da variância do impacto do treinamento em amplitude, como pode ser visto na
Tabela_4. Na Figura_3, exibe-se o modelo final de pesquisa obtido no estudo.
6. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Os resultados da pesquisa apontam para uma autoavaliação positiva dos egressos
do curso em relação à aquisição de competências e sua aplicação no trabalho,
quer seja no desempenho geral (impacto em amplitude), quer seja nas atividades
diretamente relacionadas aos objetivos do curso (impacto em profundidade). Além
disso, foram também constatadas percepções positivas em relação ao apoio dado
pela organização para a aplicação dessas competências no trabalho. Nos
resultados da pesquisa, revelaram-se, ainda, atitudes e percepções positivas em
relação a treinamentos a distância, com uma autopercepção de confiança sobre
habilidades de utilizar ambientes virtuais de aprendizagem.
Quanto à necessidade de utilização do treinamento, merece destaque o fato de a
maior parte dos participantes ter realizado o treinamento por necessidade do
serviço, seguido pela possibilidade de ascensão profissional. Porém, chama a
atenção o fato de mais de um quarto dos pesquisados não utilizar no ambiente de
trabalho aquilo que foi aprendido no treinamento, tendo a maioria deles
relatado que a área em que atua não requer a competência aprendida. Esse é um
ponto importante a ser investigado e que permite recomendar técnicas mais
sistemáticas de avaliação de necessidade de treinamento, conforme discutido por
Abbad e Mourão (2012).
Além disso, é preocupante o fato de quase a metade dos egressos avaliar que,
antes de realizar o treinamento, já possuía os conhecimentos e as habilidades
necessários e suficientes para expressar as competências que eram alvo do
planejamento instrucional. Assim, seria importante que fossem preestabelecidos
critérios para ingresso no curso, a fim de evitar o dispêndio desnecessário de
recursos e uma possível descrença nos resultados do sistema de treinamento
(Mourão, Borges-Andrade & Salles, 2006; Abbad & Mourão, 2012; Silva
& Meneses, 2012).
A avaliação feita pelos egressos do treinamento quanto ao grau de contribuição
do curso para a aprendizagem de cada competência descrita no questionário
aponta para médias altas, o que pode indicar que o treinamento contribuiu
adequadamente para a aquisição das competências previstas no curso. Embora os
itens utilizados para avaliar a contribuição do curso para a aprendizagem de
cada competência e o impacto do treinamento em profundidade tenham sido os
mesmos, a razão para a alta correlação entre essas variáveis não parece ser
apenas esta, pois o impacto medido em amplitude adotou sete itens de aspectos
gerais de desempenho e completamente distintos dos que foram usados na escala
de contribuição do curso para a aprendizagem e mesmo assim a correlação entre
as variáveis foi alta, sendo a contribuição do curso para a aquisição de
competências o preditor mais relevante do impacto do treinamento em amplitude.
Esse resultado sinaliza, portanto, uma relação entre a aprendizagem e o impacto
do treinamento no trabalho, conforme preconizado pelo modelo de Kirkpatrick
(1976) e discutido por Alliger e Janak (1989) e por Zerbini e Abbad (2010a), na
revisão de literatura em que as autoras encontraram cinco pesquisas nacionais
que testaram a aprendizagem como preditora do impacto do treinamento no
trabalho.
Em relação ao suporte para aplicação do treinamento, os resultados indicam
valores de moderados a altos na percepção dos egressos. Contudo, o desvio
padrão tendeu a ser elevado, demonstrando pouco consenso entre os sujeitos
acerca da avaliação de suporte, sugerindo, assim, um estudo mais aprofundado
desse tópico no ambiente de trabalho, sobretudo considerando que ele é um
importante preditor do impacto do treinamento no trabalho (Aguinis &
Kraiger, 2009; Zerbini & Abbad, 2010a; Abbad, Pilati et al., 2012).
Quanto às atitudes dos participantes em relação aos cursos a distância, os
dados apontam para uma percepção de facilidade e utilidade no uso da educação a
distância. Vale destacar que essa variável figurou como preditora do impacto do
treinamento em amplitude, embora não tenha figurado no modelo de impacto do
treinamento em profundidade. Esse resultado é compreensível, uma vez que o
impacto em amplitude diz respeito ao desempenho de forma mais geral. Assim,
como a realização das atividades que eram objeto do treinamento avaliado (um
curso específico da área comercial da instituição) não demandam uma atitude
mais favorável em relação às NTICs, a variável não explicou o impacto
específico do curso. Contudo, pessoas com atitudes mais favoráveis à EaD
apresentam também maior impacto do que é aprendido no curso em seu desempenho
global no cargo. Tal resultado confirma a importância de os profissionais
estarem abertos para as mudanças tecnológicas e culturais em voga no mercado de
trabalho e na sociedade, conforme sinalizado por Martins (2012), Abbad e Mourão
(2012) e Gadotti (2009).
O resultado sinaliza também a necessidade de as organizações ampliarem as
condições de suporte metacognitivo, propiciando que o estudante tenha
conhecimento dos objetivos do treinamento e de sua habilidade para planejar e
avaliar as estratégias de aprendizado. Tal suporte é um fator crítico de
sucesso dos cursos corporativos na Web (Joia & Costa, 2007) e, portanto,
podem impactar positivamente as atitudes ante o treinamento a distância.
7. CONCLUSÕES
Nos principais resultados deste estudo, apontam-se a efetividade do treinamento
avaliado e as variáveis do curso que contribuíram para aquisição de
competências e suporte para aplicação do treinamento como preditoras do impacto
do treinamento em profundidade e as mesmas variáveis acrescidas das atitudes em
relação à EaD como preditoras do impacto do treinamento em amplitude. Também
deve ser destacado o resultado do testet, em que se apontam médias mais altas
para o impacto em profundidade quando o participante do evento de TD&E
frequentou o curso por motivos relacionados ao serviço.
Uma das contribuições da presente pesquisa está na possibilidade de testagem de
um modelo que simultaneamente inclui as variáveis contribuição para aquisição
de competências, suporte para aplicação do treinamento e atitudes em relação à
EaD como possíveis preditoras do impacto do treinamento, quer seja medido em
profundidade, quer o seja em amplitude. Com a junção dessas variáveis em um
modelo único, conseguiu-se explicar uma parcela bastante elevada da variância
do impacto do treinamento em profundidade (71%) e do impacto do treinamento em
amplitude (63%).
Mediante tais resultados, é possível concluir que cursos de educação a
distância podem ser bastante efetivos, com impacto sobre o desempenho no
trabalho, se as organizações atentarem para três fatores, na seguinte ordem de
importância: cuidado na escolha dos conteúdos e melhor divulgação das
contribuições de cada treinamento para a atuação no trabalho; suporte da chefia
e dos colegas à aplicação no trabalho daquilo que foi aprendido no treinamento;
e desenvolvimento de atitudes mais favoráveis à educação a distância por parte
dos funcionários.
Por um lado, pode-se considerar o fato de terem sido pesquisados egressos de
uma única organização e de um único curso como uma limitação do estudo, por
reduzir a validade externa da pesquisa. Por outro lado, essa estratégia
metodológica permitiu manter constantes as variáveis instituição e treinamento,
controlando possíveis efeitos relativos à variedade de clima organizacional
para a transferência ou mesmo a variabilidade da qualidade, tipologia,
modalidade e complexidade do evento de TD&E. Assim, o fato de ter deixado a
instituição pesquisada e o curso avaliado como constantes nesta pesquisa
contribui para a atribuição de predição das variáveis testadas, pois, como foi
discutido ao longo deste estudo, são muitas as variáveis intervenientes no
impacto do treinamento no trabalho.
Além das contribuições relativas ao alto poder explicativo obtido nos modelos
testados e da estratégia que permite controlar algumas variáveis para evitar
que resultados brutos fossem tomados como resultados claros, o presente estudo
também traz como contribuições a utilização de instrumentos com evidências de
validade psicométrica e a construção de um instrumento de impacto de
treinamento em profundidade.
Entre as principais limitações desta pesquisa estão: a coleta de dados com
apenas uma fonte de informação (os egressos do curso); o foco exclusivo do
impacto do treinamento no nível individual; a impossibilidade de generalizar os
resultados para outros contextos e participantes, já que o foco estava em um
curso específico de uma instituição bancária; o uso exclusivo do método
quantitativo. Em relação a esta última limitação, sugere-se que novas pesquisas
sobre a temática adotem métodos mistos, com a aplicação de escalas combinada
com métodos qualitativos de coleta de dados (como entrevistas e grupos de
discussão focal) para possibilitar o enriquecimento dos achados de pesquisa.
Quanto às implicações práticas dos resultados obtidos, avalia-se que eles
sinalizam para uma maior atenção para a etapa de diagnóstico de necessidades de
treinamento, uma vez que a variável que melhor prediz o impacto do treinamento
no trabalho é a percepção que os participantes têm da contribuição que
determinado curso pode ter para a aquisição de suas competências profissionais.
Além disso, os resultados também chamam a atenção para a variável suporte à
aplicação do treinamento, cujas respostas dos egressos tendem a ser mais
heterogêneas, sinalizando a importância de desenvolver nas organizações uma
cultura favorável à transferência das aprendizagens para o ambiente de
trabalho. Além disso, a pesquisa também sinaliza uma abertura nas atitudes ante
a EaD e a influência dessas atitudes no impacto do treinamento, indicando para
os profissionais que atuam na área a relevância de estimular a participação em
cursos a distância em outras oportunidades de aprendizagem utilizando as NTICs.
Espera-se, portanto, que este estudo possa contribuir com a área de avaliação
de eventos de TD&E, na modalidade a distância, considerando-se o
vertiginoso crescimento da área e a importância da contribuição que os estudos
empíricos podem trazer para o planejamento e a implementação desse tipo de ação
educacional.