Sustentabilidade estratégica: existe retorno no longo prazo?
1. INTRODUÇÃO
Como as práticas ambientais e sociais das empresas que reportam seus projetos e
desempenho em sustentabilidade criam valor no longo prazo? Atualmente várias
empresas publicam relatórios de sustentabilidade empresarial como forma de
divulgar suas ações e projetos sociais e ambientais, e assim alimentar um
círculo virtuoso de gestão baseado em valor compartilhado. Sustentabilidade
empresarial pode ser definida como um método integrado de abordar uma ampla
gama de negócios e projetos referentes aos interesses do meio ambiente, dos
trabalhadores, do consumidor, dos fornecedores, da comunidade local, do
governo, entre outros stakeholders (Hart & Milstein, 2004). As atividades
de uma empresa em relação a questões ambientais e sociais podem influenciar
tanto os interesses dos stakeholders como o próprio desempenho econômico-
financeiro no longo prazo. Nesse sentido, sustentabilidade empresarial não é
irreconciliável com crescimento econômico; ao contrário, é uma importante fonte
de vantagem competitiva e de geração de valor para acionistas e partes
interessadas no longo prazo (Hart & Milstein, 2004).
O desafio passa, então, por um melhor entendimento de como as questões
ambientais e sociais devem ser tratadas nas estratégias empresariais a fim de
criar valor no longo prazo. A crise financeira de 2008 mostrou que o
comportamento empresarial, voltado para o alcance de resultados de curto prazo,
pode ter impactos significativos no bem-estar geral e no desenvolvimento das
empresas. O impacto da crise foi severo resultando em empresas fechadas,
vendidas ou que sofreram algum tipo de intervenção. Por exemplo, Merrill Lynch
e Lehman Brothers trabalhavam com foco em estratégias de curto prazo,
carregando mais riscos em suas operações de crédito.
O cenário de instabilidade norte-americana e de desconfiança criou uma retração
do crédito pelos bancos e das operações com derivativos cambiais (Prates, Cunha
& Lélis, 2011). A dívida total dos setores privados financeiros e não
financeiros nos Estados Unidos, em 2008, foi calculada em US$ 48 trilhões
(Magnus, 2008). Os bancos e financeiras passaram a emprestar menos dinheiro e
as empresas tiveram de trabalhar com o capital de giro reduzido. As famílias
também reduziram o consumo, principalmente de bens duráveis, e os débitos
aumentaram. Conforme constataram Barth, Li, Lu, Phumiwasana e Glenn (2009), no
segundo semestre de 2008, das 80 milhões de casas nos Estados Unidos, apenas 27
milhões estavam quitadas. As demais estavam hipotecadas: cinco milhões (9%) das
hipotecas estavam com os pagamentos atrasados e 3% já estavam em execução
hipotecária. Como resultado, houve um desaquecimento da economia americana e o
crescimento econômico contraiu. O Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados
Unidos caiu mais de 5% entre 2008 e 2009 (The Department of Treasure, 2012).
Esse cenário de crise e o consequente desaquecimento econômico influenciam os
investimentos das empresas em sustentabilidade, que podem ser definidos como um
compromisso voluntário das organizações de inserir aspectos éticos, sociais e
ambientais em sua estratégia a fim de minimizar riscos e alavancar
oportunidades de negócios antes inexploradas (Hart & Milstein, 2004). De
acordo com Jothi (2010), uma crise financeira pode afetar diferentemente a
queda nos investimentos em sustentabilidade dependendo do tipo de postura que a
empresa adota em relação a essa questão. Empresas que mantêm investimentos de
cunho filantrópico e com visão de curto prazo, em épocas de crise, diminuirão
ou eliminarão os investimentos em sustentabilidade, que acabam percebidos como
custos adicionais. Por outro lado, as empresas que mantêm investimentos em
sustentabilidade de forma estratégica e com visão de longo prazo podem
beneficiar-se de uma vantagem competitiva de blindagem em relação aos efeitos
da crise.
Sustentabilidade estratégica refere-se aos investimentos ligados ao core
business (negócio central) da empresa e baseiam-se nas restrições e nos
problemas ambientais e sociais existentes (Porter & Kramer, 2011). As
empresas que seguem a abordagem estratégica de sustentabilidade buscam
identificar os problemas ambientais e sociais e os transformam em oportunidades
de negócio (Hart & Milstein, 2003). Além disso, a sustentabilidade
estratégica minimiza custos e riscos provenientes do consumo excessivo, da
poluição e da geração de lixo, pois melhora o uso de recursos (isto é,
quantidade e tipos) e leva a ganhos generalizados de eficiência no negócio.
Portanto, em épocas de crise financeira, as empresas com investimentos em
sustentabilidade estratégica estão mais preparadas e são menos afetadas em seu
desempenho no longo prazo.
Nesse sentido, neste artigo, o objetivo é avaliar o impacto de longo prazo que
os investimentos em práticas ambientais e sociais podem ter nas empresas que
reportam seu desempenho em sustentabilidade. Neste estudo, o termo
sustentabilidade refere-se à sustentabilidade empresarial, ou seja, à definição
genérica que envolve as três dimensões - ambiental, social e econômica - que,
portanto, serão utilizadas de forma intercambiada. O termo sustentabilidade
estratégica será empregado quando o foco forem os investimentos em projetos e
ações sociais e ambientais que estejam relacionados ao negócio central da
empresa, que incluem suas competências e a gestão com stakeholders.
Para endereçar o objetivo do estudo, duas hipóteses são lançadas.
•Primeira, empresas que investem em sustentabilidade no formato
estratégico apresentam desempenho melhor após um choque externo. Esse
choque é considerado como uma aproximação de incertezas de longo
prazo que se concretizam em um período específico de tempo. O choque
acaba expondo as empresas com estratégias de curto prazo. Para
estudar essa hipótese, foi coletado o desempenho econômico (Q de
Tobin) das empresas listadas na Bolsa de Valores de São Paulo
(Bovespa) no período de 2005 a 2011, que permite avaliar o impacto da
crise de 2008 em toda a sua extensão sobre o valor da empresa. Para
capturar o investimento em sustentabilidade, na análise, consideram-
se as empresas listadas no Índice de Sustentabilidade Empresarial
(ISE), pois reflete o conceito de sustentabilidade estratégica. Dessa
forma, é possível avaliar comparativamente se o choque externo
impactou diferentemente as empresas que investem e as que não
investem em sustentabilidade.
•Segunda, empresas que praticam e reportam a sustentabilidade, o
fazem com sucesso quando o foco dos investimentos é estratégico. Uma
vez considerado o impacto de um choque externo, pretende-se então
analisar como uma postura de sustentabilidade estratégica pode
permitir um melhor reporte das práticas sociais e ambientais. O que,
por consequência, permite melhor direcionamento das práticas de forma
integrada e sustentável no longo prazo. Isso reforça que a
sustentabilidade estratégica está alinhada às competências essenciais
e ao core business da empresa, portanto influencia positivamente o
desempenho econômico no longo prazo. Para discutir essa hipótese, uma
empresa de alimentos (Brasil Foods), listada na Bolsa de Valores de
São Paulo e que pratica e reporta a sustentabilidade em seu relatório
anual, será analisada historicamente, considerando os anos de 2005 a
2011. Busca-se, então, categorizar os investimentos em
sustentabilidade, se filantrópicos ou estratégicos, bem como
apresentar o desenho da trajetória de sustentabilidade e criação de
valor da empresa.
A contribuição deste trabalho está alinhada com as duas hipóteses levantadas.
Primeiro, busca-se mostrar que a sustentabilidade tem um impacto de longo
prazo, pois as empresas estão comprometidas com as práticas sociais e
ambientais e buscam reportá-las. Como um círculo virtuoso, as empresas que
reportam acabam aprimorando o planejamento e a execução de tais práticas. Do
ponto de vista teórico, busca-se, neste artigo, atender à demanda por uma
análise longitudinal em relação aos impactos dos investimentos sociais e
ambientais no valor da empresa no longo prazo (Tsoutsoura, 2004).
Segundo, existe na literatura um senso comum de triple bottom line para
entender e praticar sustentabilidade (Elkington, 1998; Hart & Milstein,
2003; Nidomulu, Prahalad & Rangaswami, 2009; Porter & Kramer, 2011).
Neste artigo, busca-se reforçar os argumentos teóricos de que sustentabilidade
deve ser entendida por uma visão integrada - single bottom line -, pois se
acredita que essa integração permita um melhor alinhamento à lógica de mercado.
Busca-se construir nas ideias de práticas sociais incorporadas as econômicas a
partir das publicações de Norman e MacDonald (2003) e de Altman e Berman
(2011), e também das discussões do International Integrated Reporting Committee
(IIRC, 2011), que avançam nessa direção. Na análise dos relatórios anuais da
empresa em foco em relação ao estudo da segunda hipótese (Brasil Foods), é
oferecida evidência no sentido de uma lógica integrada de sustentabilidade e de
impacto econômico no resultado de longo prazo da empresa.
O artigo ficou assim dividido, depois desta introdução: na seção 2, discute-se
o modelo baseado no triple bottom line; a comunicação do tríplice desempenho é
discutida na seção 3; a metodologia é descrita na seção 4; os resultados e
discussões são apresentados na seção 5; e, finalmente, na última seção,
destacam-se algumas considerações finais.
2. O TRIPLE BOTTOM LINE COMO MODELO DE SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL
Sustentabilidade, ou desenvolvimento sustentável, popularizou-se mundialmente a
partir de 1987, quando foi utilizado pela World Commission on Environment and
Development (WCED - Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento das
Nações Unidas) em seu relatório Our common future (Nosso futuro comum), também
conhecido como Relatório Brundtland. O relatório dessa comissão vem difundindo,
desde então, o conceito de desenvolvimento sustentado, que passou a figurar
sistematicamente na semântica de linguagem internacional, servindo como eixo
central de pesquisas realizadas por organismos multilaterais e, mesmo, por
grandes empresas (WCED, 1987).
Uma empresa sustentável é aquela que contribui para o desenvolvimento
sustentável ao gerar, simultaneamente, benefícios econômicos, sociais e
ambientais - conhecidos como os três pilares do desenvolvimento sustentável
(Hart & Milstein, 2004). Essa noção de três pilares de sustentabilidade,
também conhecidos como o triple bottom line, ilustrados na Figura_1, tem sido
amplamente difundida no ambiente acadêmico e empresarial para justificar as
práticas, os projetos e os investimentos ambientais, sociais e econômicos.

O conceito triple bottom line foi cunhado por Elkington (1998) e desde então se
popularizou. Norman e MacDonald (2003) afirmam que, entre 2000 e 2002, mais de
25.000 páginas na Internet mencionavam o termo, sem falar que, em 2002, cerca
de 70 artigos sobre o tema foram publicados no Financial Times. Apesar das
inúmeras definições, um aspecto comum a todas elas é o balanceamento da
proteção ambiental com o desenvolvimento social e econômico, induzindo um
espírito de responsabilidade como processo de mudança, no qual a exploração de
recursos materiais, os investimentos financeiros e as rotas de desenvolvimento
tecnológico deverão adquirir sentido harmonioso. O desenvolvimento tecnológico
deverá ser orientado para metas de equilíbrio com a natureza e de incremento da
capacidade de inovação tecnológica de países em desenvolvimento.
Desenvolvimento, nesse caso, é um processo de transformação que combina
crescimento econômico com mudanças sociais e culturais, reconhecendo os limites
físicos impostos pelos ecossistemas e fazendo com que as considerações
ambientais sejam incorporadas em todos os setores e também na arena política
(Maimon, 1996; Donaire, 1999; Almeida, 2002).
Tratando-se das dimensões propostas no modelo triple bottom line, Claro, Claro
e Amancio (2008) entendem que a dimensão ecológica, ou ambiental, pode ser
dividida em três subdimensões. A primeira foca na ciência ambiental e inclui
ecologia, diversidade do hábitat e florestas. A segunda subdimensão inclui
qualidade do ar e da água (poluição), e a proteção da saúde humana por meio da
redução de contaminação química e da poluição. A terceira subdimensão foca na
conservação e na administração de recursos renováveis e não renováveis e pode
ser chamada de sustentabilidade dos recursos. A sustentabilidade ecológica,
como uma das três dimensões, estimula empresas a considerarem o impacto de suas
atividades no ambiente e contribui para a integração da administração ambiental
na rotina de trabalho. Na prática, isso significa redução dos efeitos
ambientais negativos por meio de monitoramento, integração de tecnologia no
processo, análise de ciclo de vida do produto e administração integrada da
cadeia de produção.
A dimensão social consiste no aspecto social relacionado às qualidades dos
seres humanos, como suas habilidades, sua dedicação e suas experiências. A
dimensão social abrange tanto o ambiente interno da empresa quanto o externo.
Indicadores para a dimensão social podem variar de uma empresa para outra, mas
alguns indicadores são considerados comuns para diferentes setores de atuação.
Dentre os indicadores comuns, é possível citar a compensação justa, as horas de
trabalho razoáveis, o ambiente de trabalho seguro e saudável, a proibição de
mão de obra infantil e de trabalho forçado, e o respeito aos direitos humanos.
Segundo Claro, Claro e Amancio (2008), a dimensão econômica inclui não só a
economia formal, mas também as atividades informais que proveem serviços para
os indivíduos e grupos e aumentam, assim, a renda monetária e o padrão de vida
dos indivíduos. Lucro é gerado a partir da produção de bens e serviços que
satisfazem às necessidades humanas, bem como pela criação de fontes de renda
para os empresários, empregados e provedores de capital. O retorno financeiro
reflete a avaliação dos consumidores para os bens e os serviços da empresa,
assim como a eficiência com que são utilizados os fatores de produção, como
capital, trabalho, recursos naturais e conhecimento. Alguns fatores que
influenciam a avaliação do consumidor são utilidade, preço, qualidade e design.
Retorno financeiro pode ser considerado um indicador do desempenho da empresa
no curto prazo e uma base para sua continuidade no longo prazo.
Outros modelos que se baseiam no triple bottom line, como os desenvolvidos por
Hart e Milstein (2003) e por Porter e Kramer (2011), defendem a ideia de que as
empresas que investem em sustentabilidade de forma estratégica podem adicionar
valor compartilhado, não só para os donos ou acionistas, mas também para uma
ampla gama de stakeholders, como funcionários, fornecedores, comunidade do
entorno, meio ambiente e, em última instância, a sociedade como um todo. Hart e
Milstein (2003) afirmam que os desafios globais associados à sustentabilidade,
considerados sob a ótica dos negócios, podem ajudar a identificar estratégias e
práticas que contribuam para um mundo mais sustentável e, simultaneamente, que
sejam direcionadas a gerar valor para o acionista. Os autores desenvolvem as
justificativas para criação de valor compartilhado usando uma matriz cujos
eixos representam o tempo (curto e longo prazos) e o ambiente (interno e
externo). Nesses eixos, são adicionados os motivadores relacionados aos
problemas ambientais e sociais, bem como ao desenvolvimento da tecnologia e das
competências. Como resultado, são definidas quatro diferentes estratégias de
sustentabilidade: estratégia de redução da poluição, estratégia de
gerenciamento do produto, estratégia de tecnologia limpa e estratégia de visão
sustentável.
O ideal seria que as empresas tivessem estratégias relacionadas aos quatro
tipos, e a estratégia de visão sustentável poderia ser considerada o nível mais
avançado em termos de considerar o longo prazo. Isso se sustenta pelo fato de
que o desafio da sustentabilidade global é complexo e multidimensional. As
empresas são desafiadas a minimizar as perdas das operações correntes (combate
à poluição), ao mesmo tempo em que estão reorientando seus portfolios de
competências em direção a tecnologias e habilidades mais sustentáveis
(tecnologia limpa). As empresas são também desafiadas a se engajarem em uma
ampla interação e diálogo com os stakeholders externos, atentando para as
ofertas atuais (responsabilidade por produto), bem como para o modo como
poderiam desenvolver soluções economicamente interessantes para os problemas
sociais e ambientais do futuro (visão de sustentabilidade).
Consideradas em conjunto, como em um portfolio, tais estratégias e práticas têm
o potencial de reduzir custo e risco, elevar a reputação e a legitimidade da
empresa, acelerar a inovação e o reposicionamento, e cristalizar caminhos e
trajetórias de crescimento, todos de vital importância para a criação de valor
ao acionista (Hart & Milstein, 2004).
Porter e Kramer (2011), seguindo argumentos semelhantes aos de Hart e Milstein
(2004), desenvolvem um modelo com nomenclatura própria, que define três
caminhos para as empresas criarem valor compartilhado: redesenhando e
redefinindo produtos e mercados; redefinindo produtividade na cadeia de valor;
e desenvolvendo clusters industriais locais. Nesses três caminhos, são
considerados os aspectos sociais e ambientais.
Esses modelos baseados no triple bottom line integram-se aos conceitos de
responsabilidade social corporativa e de abordagem de stakeholders, em que se
assume que as responsabilidades das empresas vão além daquelas legais,
englobando questões econômicas, éticas e discricionárias. Além disso, amplia-se
o leque em relação às partes que são influenciadas pelas ações de uma empresa.
A abordagem de stakeholders considera os colaboradores, os acionistas ou donos,
os fornecedores, os consumidores, a comunidade do entorno, o meio ambiente,
entre outras, as partes que influenciam e são influenciadas direta ou
indiretamente pelas ações de uma empresa e que, se considerados
estrategicamente, podem ser fontes de vantagem competitiva (Hart, 1995; Baron,
2001). Portanto, os interesses dessas partes precisam ser entendidos e
integrados na estratégia das empresas (Carrol & Buchholtz, 2000; Thorne,
Ferrel & Ferrel, 2008) para que no longo prazo seja possível criar valor
compartilhado.
Esta pesquisa pressupõe, portanto, que os conceitos sustentabilidade, triple
bottom line e responsabilidade social corporativa se complementam teoricamente
e formam uma corrente teórica aqui denominada como sustentabilidade
empresarial.
A teoria apresenta algumas formas para categorizar investimentos em
sustentabilidade. Baron (2001) bem como Hillman e Keim (2001) separam os
investimentos em sustentabilidade em duas categorias: estratégica e altruísta.
Sustentabilidade estratégica refere-se a investimentos em ações e projetos
sociais e ambientais que estejam relacionados ao core business da empresa, a
seus impactos, a suas competências e à gestão com stakeholders.
Sustentabilidade altruísta relaciona-se a qualquer investimento em prol de uma
melhoria social ou ambiental mais ampla (ação social), não relacionado ao core
business da empresa. Jothi (2010) separa a sustentabilidade em três categorias:
filantrópica, estratégica e integrada. Para Jothi, a sustentabilidade
filantrópica assemelha-se às definições de Baron (2001) e Hillman e Keim
(2001). Segundo ele, apesar de importante para o desenvolvimento das nações,
essa seria a versão imatura da sustentabilidade corporativa, pois relaciona-se
a doações, caridade, patrocínios e ação social ampla que não influenciam
diretamente o desempenho financeiro. Nesse sentido, segundo Jothi, em épocas de
cortes ou de crises, esses projetos tendem a ser reduzidos nas empresas. Já a
sustentabilidade estratégica relaciona-se aos investimentos em oportunidades de
negócios e/ou melhorias nas operações produtivas provenientes de problemas
ambientais e sociais, o que tem um impacto direto no desempenho econômico da
empresa. Esses investimentos podem ser direcionados, na lógica da abordagem dos
stakeholders, às diversas partes interessadas nas atividades da empresa.
Finalmente, a sustentabilidade integrada, na visão de Jothi (2010), refere-se
ao DNA da organização e à incorporação da sustentabilidade na estrutura de
governança e em sua cultura. No presente estudo, para fins de padronização da
linguagem, serão utilizadas duas nomenclaturas para os investimentos em
sustentabilidade: filantrópica e estratégica. Na categoria estratégica, serão
considerados os investimentos estratégicos e a forma integrada da
sustentabilidade, conforme definição de Jothi (2010).
Nesse contexto de categorias, é possível interpretar que a definição do Índice
de Sustentabilidade Empresarial da Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros de
São Paulo (BM&FBovespa) relaciona-se ao estágio mais avançado, ou seja,
estratégico, da sustentabilidade, porque considera sustentáveis as empresas que
geram valor para o acionista no longo prazo, pois estão mais preparadas para
enfrentar riscos econômicos, sociais e ambientais e alavancar oportunidades por
meio da gestão com e para os stakeholders.
Na prática, os investimentos em sustentabilidade podem ser verificados a partir
das informações publicadas pelas empresas em seus relatórios anuais. Percebe-se
uma proliferação rápida no número daquelas que, nesses relatórios, passou a
reportar não somente o desempenho financeiro obtido, mas também o que se tem
feito e alcançado nas dimensões social, ambiental e nas relações com os
stakeholders. De acordo com o Global Reporting Initiative (GRI, 2011), em 2010
o número de relatórios publicados seguindo suas diretrizes aumentou em 22%,
sendo o Brasil o país com crescimento mais significativo - aumento de 68% de
relatórios nas diretrizes GRI em relação ao ano de 2009. Nesse sentido, ganhou
visibilidade e popularizou-se no ambiente empresarial o trabalho realizado pelo
GRI, organização com sede na Holanda, para desenvolver diretrizes gerais e
setoriais para publicação dos relatórios de sustentabilidade da empresa.
3. COMUNICAÇÃO DO TRÍPLICE DESEMPENHO: OS RELATÓRIOS DE SUSTENTABILIDADE
Na onda da gestão baseada em triple bottom line, as empresas passaram a
comunicar também o desempenho tríplice. Os relatórios anuais funcionam não só
como ferramenta de controle e divulgação, além de comunicar o desempenho, o que
acaba afetando a imagem da empresa, mas também como ferramenta de gestão. Os
resultados alcançados, bons ou ruins, podem ser ajustados por meio de revisão
das métricas de desempenho e, consequentemente, ajustes na execução (Figura_2).
[/img/revistas/rausp/v49n2/07f02.jpg]
Os padrões internacionais comumente utilizados para reportar o desempenho
econômico-financeiro das empresas (International Financial Reporting Standards
[IFRS] ou US Generally Accepted Accounting Principles [US GAAP]) não consideram
a completude dos contextos sociais e ambientais, tampouco o horizonte de longo
prazo que as empresas vislumbram e nos quais operam. Como o relatório passa a
fazer parte do dia a dia da gestão nas empresas, surge a necessidade de criar
padrões para publicação de relatórios mais completos. Uma das iniciativas
pioneiras nesse sentido no Brasil foi o lançamento do Balanço Social pelo
Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase, 2008). Outras
iniciativas globais, como o Global Compact, o SA8000, em especial o Global
Reporting Initiative (GRI), também nasceram por conta dessa lacuna existente
nos padrões internacionais de accountability.
O GRI é um padrão mundial de adesão voluntária no Brasil para publicação de
relatório de sustentabilidade. Empresas listadas em bolsa de valores,
especialmente, têm publicado seus relatórios nesse formato, uma vez que o
mercado (ou seja, investidores) tem cobrado maior transparência em relação a
seus projetos e a suas ações sociais e ambientais. O GRI dispõe de diretrizes
gerais e setoriais (alguns setores) e três níveis de certificação, que podem ou
não ser externamente verificados por uma terceira parte independente.
As diretrizes GRI são especialmente importantes, pois permitem adequação a
qualquer tipo de organização, de qualquer setor ou localidade para que as
empresas possam comunicar sua atuação de forma transparente em relação ao
desempenho tríplice. As diretrizes são constantemente avaliadas para fins de
melhoria. A última versão disponível, GRI 3.1, foi lançada em março de 2011 e,
além das categorias ambiental, social e econômica, já listadas nas versões
anteriores, foram incluídos aspectos relacionados a direitos humanos,
comunidades locais e impactos bem como a diversidade de sexo. Detalhadamente, o
triple bottom line é representado por grupos de indicadores: econômico, meio
ambiente, direitos humanos, práticas trabalhistas e trabalho decente,
responsabilidade pelo produto e pela sociedade (GRI, 2011).
Considerando o impacto e o desempenho de forma completa, é possível dizer que
as diretrizes GRI representam um avanço significativo na forma de reporte das
empresas para os diversos stakeholders, uma vez que estão alinhadas ao modelo
de sustentabilidade triple bottom line: ambiental, social e econômica.
Adicionalmente, a metodologia do GRI possibilita uma priorização dos aspectos
que uma empresa pode e deve tratar em suas estratégias sustentáveis por meio do
teste de materialidade, o que possibilita priorização dos aspectos e
envolvimento dos stakeholders na avaliação (consultas públicas, workshops
etc.).
3.1. Hipótese 1
A literatura sobre modelos de sustentabilidade, investimentos sustentáveis
permite desenvolver duas hipóteses. O foco está nas práticas ambientais e
sociais das empresas, no formato estratégico e como as empresas reportam seu
desempenho em sustentabilidade e criam valor no longo prazo. Existe consenso
teórico e evidências não consolidadas de que os investimentos em
sustentabilidade afetam as empresas no longo prazo (Hart & Milstein, 2004;
Tsoutsura, 2004; Porter & Kramer, 2011). De acordo com Jothi (2010), uma
crise financeira afeta diferentemente a queda nos investimentos em
sustentabilidade dada a postura que a empresa adota em relação à crise.
Empresas, em épocas de crise, que mantêm investimentos de cunho filantrópico e
com visão de curto prazo provavelmente diminuirão ou eliminarão os
investimentos em sustentabilidade, pois eles tendem a ser vistos como custos
adicionais. Por outro lado, as empresas que mantêm investimentos em
sustentabilidade de forma estratégica e com visão de longo prazo poderão
beneficiar-se de uma vantagem competitiva de blindagem em relação aos efeitos
da crise. A sustentabilidade estratégica relaciona-se com a adoção e a
manutenção de investimentos relacionados à identificação de oportunidades de
negócio na sociedade cujos motivadores principais são as restrições, as
limitações e os problemas ambientais e sociais existentes. Os problemas
ambientais e sociais precisam ser encarados de forma estratégica para gerar
valiosas oportunidades de negócio. Além disso, a sustentabilidade estratégica
também visa minimizar custos e riscos provenientes de consumo, poluição e
geração de lixo, pois relaciona-se com as mudanças no que tange ao uso de
recursos (quantidade e tipos), o que pode levar a maior eficiência no processo.
Pode-se então afirmar que:
Hipótese 1 - Investimentos em sustentabilidade, no formato
estratégico, em épocas de crise financeira, influenciam positivamente
o desempenho econômico-financeiro no longo prazo.
3.2. A necessidade de integração: o modelo single bottom line
A inserção dos três pilares da sustentabilidade tanto na pesquisa como nas
práticas de gestão foram e ainda são de extrema importância na consideração dos
impactos ambientais, sociais e econômicos da atuação das empresas na sociedade.
Esses pilares permitem ainda que as empresas encontrem as oportunidades
derivadas dos problemas ambientais e sociais. Sem dúvida, percebe-se um grande
avanço no que tange às práticas de gestão sustentável no ambiente corporativo.
No entanto, reconhece-se a necessidade de integrar as três dimensões de
sustentabilidade no que tange aos impactos desses projetos no desempenho das
empresas. Isso é especialmente importante em épocas de crises. As empresas
conseguem avaliar os riscos e oportunidades das respostas (ambiental e social)
necessárias para alcance de desempenho (financeiro) no longo prazo (Norman
& MacDonald, 2003; Altman & Berman, 2011).
Na Figura_3, representa-se o modelo do single bottom line. A contribuição
central desse modelo está na incorporação dos projetos sociais e ambientais sob
a perspectiva econômico- financeira. As responsabilidades em relação ao
desempenho social e ambiental devem estar relacionadas ao desempenho financeiro
e ao core business da empresa. Nessa perspectiva, os investimentos em
sustentabilidade podem ser considerados estratégicos. Por exemplo, garantia do
bem-estar social e preservação ambiental de forma mais abrangente são ações
necessárias, porém não são responsabilidades exclusivas das empresas. Seguindo
o argumento de Altman e Berman (2011), o modelo single bottom line não vai
resolver todos os problemas de falhas de mercado associadas à provisão de bens
públicos ou externalidades positivas geradas pelo setor privado. Faz-se
necessário que o governo, os consumidores, as organizações do terceiro setor e
outras formas de ação coletiva organizada busquem influenciar o equilíbrio dos
mercados. Esse modelo mostra que as empresas com fins lucrativos somente
maximizam os benefícios gerados para sociedade quando conseguem investir em
projetos ambientais e sociais que suportem o single bottom line (econômico) no
longo prazo. Quando o horizonte de tempo dos executivos é suficientemente
longo, os benefícios sociais advindos desses projetos são automáticos. Os
investimentos em sustentabilidade mais gerais, que não se relacionam ao core
business da empresa, são considerados como investimento social ou filantropia
na linguagem dos negócios.
[/img/revistas/rausp/v49n2/07f03.jpg]
O modelo da Figura_3 sugere que a gestão e o controle necessitam de
objetividade. O desempenho econômico é essencial para sobrevivência das
empresas no longo prazo e, portanto, influenciam também a manutenção dos
investimentos em sustentabilidade e os benefícios gerados pela empresa na
sociedade. As métricas relacionadas aos projetos sociais e ambientais devem
remeter à objetividade do desempenho econômico. Isso é especialmente importante
dada a dinâmica intensa dos mercados com constantes choques externos. A gestão
e o controle necessitam de objetividade, o que culmina com a necessidade de
indicadores econômicos.
Numa atuação baseada na visão integrada, a empresa investe em práticas
ambientais e sociais que estão relacionadas a seu core business e aos impactos
diretos de suas operações produtivas. Nesse sentido, significa focar em ações
relacionadas à redução de poluição resultante de suas operações, ou mesmo focar
em investimentos para criação de um produto ambientalmente correto. No que
tange ao aspecto social, o modelo sugere que a empresa deve focar nos impactos
sociais diretamente relacionados a suas operações e nos stakeholders próximos
ou diretamente afetados. Nesse sentido, as empresas podem investir em melhoria
da qualidade do ambiente de trabalho, desenvolvimento dos colaboradores, ou
mesmo investimentos para desenvolvimento dos fornecedores locais. Esses
projetos afetam positivamente o desempenho social, ambiental e econômico da
empresa no longo prazo.
Na Figura_3, demonstra-se também a necessidade de investir em projetos sociais
e ambientais genéricos (representados pela área fora do triângulo, ou seja,
externos à empresa), que beneficiarão a sociedade como um todo e o
desenvolvimento sustentável. Esses investimentos podem beneficiar também as
empresas no longo prazo, pois um cidadão mais educado ou capacitado
tecnicamente tem acesso a trabalho e a renda, podendo ser um consumidor ou
mesmo um potencial trabalhador para a empresa. Além disso, o investimento em
projetos de infraestrutura em geral, tais como portos, rodovias, hospitais,
também possibilita melhores condições de operação para a empresa. No entanto,
reconhece-se que, para perdurar no longo prazo, esses investimentos não devem
fazer parte da responsabilidade empresarial somente.
O uso do modelo single bottom line para avaliar os investimentos com benefícios
sociais e ambientais não exclui a perspectiva de análise das três dimensões da
sustentabilidade (Altman & Berman, 2011). O que muda fundamentalmente é a
forma de avaliar e priorizar os investimentos. Alguns investimentos ambientais
e sociais podem até não apresentar retorno positivo ou não apresentar vantagem
competitiva para a empresa no longo prazo, mas podem ser mantidos por um
julgamento dos executivos a respeito de seus benefícios para a sociedade. No
entanto, na lógica de mercado, em épocas de crise, empresas podem escolher
desinvestir nessas dimensões, pois não estão relacionadas à redução de custos
ou ao incremento de receita. No modelo single bottom line, as empresas mantêm
os investimentos que sabem fazer melhor e acabam beneficiadas por ganhos de
eficiência gerados pelas dimensões sociais e ambientais.
Em épocas de crise, como aquela que aconteceu em 2008, as empresas tiveram de
lidar com decisões de impacto no longo prazo. Isso exige informações sobre
desempenho num formato em que seja possível avaliar os riscos sistemáticos para
o negócio e para a sociedade como um todo. Surge a necessidade de publicar e
analisar desempenho de forma integrada, objetiva e que seja possível verificar,
em última instância, o single bottom line (IIRC, 2011). Em outras palavras,
significa avaliar o desempenho ambiental e o social dos projetos, trazendo esse
desempenho também para uma esfera econômico-financeira. Isso possibilitará uma
avaliação dos riscos decorrentes da manutenção ou extinção desses projetos em
épocas de crise, o que poderá garantir sustentabilidade para a sociedade no
longo prazo.
3.3. Hipótese 2
O desempenho econômico-financeiro é essencial para a sobrevivência das empresas
no longo prazo e, portanto, é influenciado pelos investimentos em
sustentabilidade e pelos benefícios gerados pela empresa na sociedade. O foco
dos investimentos deve estar relacionado ao core business da empresa e a seus
impactos ambientais e sociais, bem como a seus stakeholders. Além disso, as
métricas relacionadas aos projetos sociais e ambientais devem remeter à
objetividade do desempenho econômico. Isso é especialmente importante dada a
dinâmica intensa dos mercados com constantes choques externos. Nesse contexto,
os investimentos das empresas em sustentabilidade no formato estratégico
precisam ser avaliados no modelo de single bottom line. Pode-se então afirmar
que:
Hipótese 2 - Em épocas de choques externos e crises, os investimentos
em sustentabilidade, no formato estratégico, que se integram à
perspectiva do core business e de desempenho econômico da empresa,
tendem a perdurar no longo prazo.
4. METODOLOGIA
Neste trabalho, utilizam-se duas formas de coleta de dados para testar a
hipótese 1 e discutir a hipótese 2 da pesquisa. Para a primeira hipótese, que
visa identificar como empresas sustentáveis reagem no longo prazo, considerou-
se um choque externo como um artifício que acelera o efeito (no caso negativo)
da sustentabilidade no resultado da empresa. Empresas com iniciativas
sustentáveis tendem a enfrentar melhor o efeito de uma crise, como a de 2008.
Portanto, informações secundárias foram levantadas na base de dados da
Bloomberg e, posteriormente, conduziu-se uma análise quantitativa desses dados.
Para a segunda hipótese, procurou-se identificar as tendências de investimento
em projetos relacionados ao core business da empresa e ao reporte de resultados
objetivos e financeiros das ações de sustentabilidade. Nesse sentido, busca-se
avaliar se existe uma integração dos pilares sociais e ambientais nos
indicadores econômicos da empresa, ou seja, a sustentabilidade estratégica. A
evidência empírica para discutir essa hipótese foi baseada em uma análise
documental e histórica da empresa Brasil Foods.
4.1. Dados para a hipótese 1
Para testar a hipótese 1, foi levantado um painel de dados contábeis e
financeiros de empresas não financeiras listadas na Bolsa de Valores,
Mercadorias e Futuros de São Paulo (BM&FBovespa) entre 2005 e 2010. Esse
período garante um painel de dados antes e depois do choque externo de 2008,
que afetou significativamente a economia global.
Dois cuidados foram tomados no levantamento dos dados. Primeiro, optou-se por
uma amostra de empresas não financeiras, pois estudos passados comprovam que
empresas financeiras se comportam de maneira particular em relação às demais
(Rossi Jr., 2009). Segundo, para definir o espaço amostral das empresas
sustentáveis, utilizou-se a lista do Índice de Sustentabilidade Empresarial
(ISE) divulgado pela BM&FBovespa, que se mostra um importante indicador
para tal estudo dadas sua proposta, as dimensões e os critérios que o compõem.
O ISE propõe-se a comparar o desempenho das empresas listadas na
BM&FBovespa sob o aspecto da sustentabilidade corporativa. São consideradas
a eficiência econômica, o equilíbrio ambiental, a justiça social e a governança
corporativa. Esse índice também amplia o entendimento sobre empresas e grupos
empresariais comprometidos com a sustentabilidade, diferenciando-os em termos
de qualidade, nível de compromisso com o desenvolvimento sustentável, equidade,
transparência e prestação de contas, natureza do produto, além do desempenho
empresarial nas dimensões econômico-financeira, social, ambiental e de mudanças
climáticas.
Para participar do ISE, as empresas devem preencher um questionário composto
por sete dimensões, que avaliam diferentes aspectos da sustentabilidade. Na
metodologia adotada, é atribuído o mesmo peso (100) a cada uma das sete
dimensões do questionário (Centro de Estudos em Sustentabilidade da EAESP
[GVCes], 2013). A primeira dimensão é a geral e os critérios focam nos
compromissos com o desenvolvimento sustentável, o alinhamento às boas práticas
de sustentabilidade, a transparência das informações corporativas e as práticas
de combate à corrupção. A segunda dimensão é a de natureza do produto, que
avalia impactos pessoais e difusos dos produtos e serviços oferecidos pelas
empresas, adoção do princípio da precaução e disponibilização de informações ao
consumidor. A terceira dimensão de governança corporativa foca no
relacionamento entre sócios, na estrutura e na gestão do conselho de
administração, nos processos de auditoria e fiscalização, nas práticas
relacionadas à conduta e nos conflitos de interesses. A quarta dimensão é a
econômico-financeira, a quinta é a ambiental e a sexta é a social - essas três
dimensões têm como critérios as políticas corporativas, a gestão, o desempenho
e o cumprimento legal. A sétima dimensão, de mudanças climáticas, avalia a
política corporativa, a gestão, o desempenho e o nível de abertura das
informações sobre o tema.
Cada dimensão é subdivida em critérios, conforme descrição acima. Os pesos
desses critérios são definidos pela relevância do tema no contexto atual da
gestão empresarial e das demandas da sociedade. São privilegiadas as práticas
de gestão e o desempenho. Anualmente, é realizado um processo de revisão por
meio de workshops voltados para cada uma das dimensões contempladas no
questionário. Organizados pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da EAESP
(GVCes), esses workshops reúnem representantes de empresas, especialistas em
temas da sustentabilidade e representantes da sociedade civil para debater cada
aspecto e propor mudanças no questionário e nos critérios.
Para o propósito de testar a hipótese 1, as empresas listadas no ISE foram
incorporadas considerando as movimentações de fusões e aquisições, assim como a
cessão de negociação de ações por parte de algumas empresas que modificaram a
composição do índice nos anos anteriores. Um exemplo é a incorporação da
Aracruz pela Votorantim Celulose e Papel (VCP), que resultou na Fibria Celulose
S.A. em 2009. Ao final do levantamento, a amostra contém 252 empresas; ao longo
dos anos do painel, aquelas que participavam do ISE variaram entre 28 e 38 de
diversos setores da economia (por exemplo, alimentos, automobilística,
mineração, serviços). O rol das empresas listadas no ISE de 2005 a 2011 são
apresentadas na Figura_4.
Na estimação, utilizou-se como variável dependente o Q de Tobin, que captura o
valor de mercado das empresas que fazem parte da base de dados levantada. Esse
indicador é definido como a razão do valor de mercado e o custo de reposição de
seus ativos (Chung & Pruitt, 1994). A variável central do estudo,
sustentabilidade, foi tratada como dicotômica, em que 1 representa as empresas
que fazem parte do ISE e 0 as demais.
A estimação do impacto da sustentabilidade no valor de mercado das empresas
inclui variáveis de controle que foram sugeridas em estudos semelhantes no
passado (por exemplo, Rossi Jr., 2009). Todas elas foram cuidadosamente
levantadas e tratadas para a estimação. O modelo foi estimado com a utilização
dos mínimos quadrados ordinários agrupados - Pooled OLS (Wooldridge, 2006). Tal
estimação em dados de painel permite o controle de efeitos individuais de cada
empresa.
4.2. Dados para a hipótese 2
Para discutir a hipótese 2, foi adotado um método documental histórico de uma
empresa selecionada. Os critérios para seleção incluíram o fato de a empresa
Perdigão, que incorporada à Sadia forma a atual Brasil Foods, ser integrante do
ISE (fazer parte do painel de 252 empresas que foi utilizado para testar a
hipótese 1) desde seu lançamento, ter expressão no setor de atuação e
desenvolver negócios com exposição a riscos ambientais e sociais. Foi escolhida
então a empresa Brasil Foods como objeto de estudo para analisar a hipótese.
Dessa empresa, foram levantados relatórios anuais e balanços sociais publicados
no website institucional para os anos 2005 a 2011. Essa empresa passou por uma
fusão em 2009, fato cuidadosamente considerado na análise dos resultados. Na
análise dos relatórios, seguiu-se um roteiro (Figura_5) a fim de categorizar os
investimentos sociais e ambientais, de acordo com a discussão teórica proposta
na hipótese 2.
[/img/revistas/rausp/v49n2/07f05.jpg]
Para ser considerado filantrópico ou estratégico, o investimento deveria seguir
os três critérios apontados na Figura_5, para cada uma das categorias. Essas
informações foram também propostas, para ambos os tipos de investimento, à luz
dos stakeholders.
5. RESULTADOS E DISCUSSÕES
5.1. Hipótese 1: círculo virtuoso no longo prazo da sustentabilidade
empresarial
Para a análise da hipótese 1, foi estimado um modelo em mínimos quadrados
ordinários agrupados (Pooled OLS) (Wooldridge, 2006). A equação do modelo
considera o desempenho da empresa (Q de Tobin) como variável dependente e as
demais variáveis independentes. Os resultados da estimação são apresentados na
Tabela_1. O poder de explicação da equação (R2) é aceitável e significativo. O
padrão de significância dos coeficientes e o poder de explicação suportam a
análise dos efeitos individuais de cada variável.
[/img/revistas/rausp/v49n2/07t01.jpg]
O modelo estimado apresenta um coeficiente significativo para a variável
sustentabilidade (b=0,52, p<0,01). Esse resultado sugere que as empresas que
investem em sustentabilidade possuem um desempenho superior ao das empresas que
não o fazem. O painel de dados considera o período pré e pós-crise de 2008, o
que reforça a ideia de que essas empresas, no longo prazo, se desempenham
melhor. Essa evidência permite suportar a hipótese 1. As variáveis de controle
comportaram-se como esperado e encontrado em estudos anteriores (Rossi Jr.,
2009). Chama a atenção o coeficiente negativo da lucratividade no Q de Tobin,
que evidencia a volatilidade dos mercados nesse difícil período (2005-2010)
enfrentado pelas empresas. Analisando a subamostra de empresas, considerando
apenas aquelas listadas no ISE, o efeito de lucratividade passa a ser positivo,
o que reforça a importância da sustentabilidade no longo prazo.
Para garantir a robustez dos modelos da Tabela_1, foram também estimados
modelos alternativos que consideram a heterogeneidade das empresas quer de uma
forma fixa, quer de uma forma aleatória (Pindyck & Rubinfeld, 1998). O
teste de Hausman permitiu concluir que os efeitos individuais não estão
correlacionados com as variáveis explicativas e há, portanto, a possibilidade
do uso de dummies que captem esses efeitos. Assim sendo, o modelo que melhor se
aplicaria a este estudo seria o de efeitos aleatórios estimados a partir do
método de mínimos quadrados generalizados (Pindyck & Rubinfeld, 1998). Nos
resultados obtidos nos modelos alternativos, corroboram-se aqueles encontrados
na Tabela_1. Portanto, empresas que investem em sustentabilidade empresarial
possuem um impacto menor no período de crise econômica, se comparadas àquelas
que não o fazem.
5.2. Hipótese 2: visão integrada da sustentabilidade estratégica
5.2.1. A Brasil Foods
A Brasil Foods (BRF) foi criada em 2009 a partir da associação entre Perdigão e
Sadia (aprovada somente em 2011 pelo Conselho Administrativo de Defesa
Econômica [Cade]). A BRF nasceu como um dos maiores players globais do setor
alimentício, reforçando a posição do País como potência no agronegócio. A
empresa atua em diversos segmentos tais como mercado de carnes (aves, suínos e
bovinos), de alimentos industrializados (margarinas e massas) e de lácteos. Seu
capital é aberto e integra, desde 2005, o Índice de Sustentabilidade
Empresarial (ISE) da BM&FBovespa e, desde 2006, o Novo Mercado, também da
BM&FBovespa. Isso demonstra certo padrão de cuidado em relação a sua gestão
e governança.
Segundo os dados publicados pela empresa em seu relatório anual, o faturamento
líquido registrado em 2011 foi de R$ 25,7 bilhões com aproximadamente 119 mil
colaboradores. É uma das maiores exportadoras mundiais de aves e também está
entre as maiores empresas globais de alimentos no que tange a seu valor de
mercado. Atualmente, a BRF responde por mais de 9% das exportações mundiais de
proteína animal e é a única companhia do Brasil com rede de distribuição de
produtos em todo o território nacional. As vendas externas, em mais de 140
países, responderam por 39,3% das receitas líquidas em 2011. As operações estão
localizadas em sua maioria no Brasil (61 fábricas) e sete fábricas estão no
exterior (Argentina, Reino Unido e Holanda). De acordo com o relatório de 2011,
os valores centrais da empresa incluem oferecer qualidade e inovação ao
consumidor e para tanto o que se busca é o desenvolvimento contínuo de novos
produtos, melhorias sucessivas de qualidade, implementação de novas tecnologias
e controle rigoroso dos processos produtivos para garantia da segurança
alimentar.
5.2.2. Brasil Foods e os investimentos em sustentabilidade - 2005 a 2011
A postura da BRF, desde 2005, quando ainda era denominada Perdigão S.A., pode
ser avaliada qualitativamente a fim de entender-se como a empresa investe em
sustentabilidade. No nível de planejamento estratégico, na análise de sua
missão e visão, é evidente a preocupação explícita com a sustentabilidade. A
missão da BRF declara que ela busca "participar da vida das pessoas, oferecendo
alimentos saborosos, com qualidade, inovação e a preços acessíveis, em escala
mundial". A visão da empresa declara a ambição de tornar-se uma das maiores
empresas de alimentos do mundo, admirada por suas marcas, inovação e
resultados, contribuindo para um mundo melhor e sustentável.
Existem dez valores corporativos que norteiam o desenvolvimento dos negócios e
estão também alinhados ao conceito de sustentabilidade:
Integridade como base de qualquer relação; Foco no consumidor é
ingrediente fundamental do nosso sucesso; Respeito pelas pessoas nos
faz ainda mais fortes; Desenvolvimento de pessoas é fundamental para
sustentar o crescimento; Alta performance é nossa busca permanente;
Qualidade em produtos e excelência em processos; Espírito de inovação
constante; Desenvolvimento sustentável; Visão Global, agilidade
local; Compromisso com a diversidade e aceitação das diferenças.
Fonte: BRFoods (2013).
Em todos os projetos, a empresa atua por meio do Instituto BRF de
Sustentabilidade, que tem o objetivo de integrar e fortalecer as iniciativas
socioambientais da empresa, garantindo que a empresa cresça a partir de
práticas que contribuam para o desenvolvimento e a qualidade de vida das
comunidades vizinhas e para a sustentabilidade ambiental. Percebe-se que os
projetos apoiados podem ser tanto estratégicos como filantrópicos. Para tanto,
o instituto mantém parcerias e apoia pesquisas, dando continuidade a ações já
em andamento, e busca desenvolver principalmente novos projetos ambientais,
sociais, educacionais, culturais e esportivos.
Os investimentos que a empresa vem realizando em projetos e ações permitem
analisar a execução da estratégia de sustentabilidade. Os investimentos em
sustentabilidade na BRF seguem cinco grandes pilares: meio ambiente,
fornecedores, funcionários, consumidores e comunidade. Além disso, cabe
ressaltar que a empresa possui um grupo de trabalho em sustentabilidade e
também um comitê executivo de sustentabilidade, que discute e toma decisão em
relação aos projetos a serem implementados. Para cada um dos pilares, a empresa
mantém diferentes projetos e ações conforme a Figura_6 e a Figura_7.
Apesar de a empresa investir em filantropia, grande parte do investimento tem
seu foco em ações e projetos estratégicos alinhados ao core business da empresa
e que consequentemente afetam positivamente seu desempenho econômico-
financeiro. No pilar meio ambiente, todas as ações consolidadas na Figura_6 são
relacionadas ao conceito de investimento estratégico em sustentabilidade, pois
contribuem para redução de custos e riscos em relação aos recursos naturais
utilizados, bem como externalidades negativas geradas. O sistema de gestão
ambiental da empresa, integrado ao software de gestão (SAP), baseia-se
principalmente na eficiência energética, reutilização da água e tratamento de
dejetos e resíduos e tem como objetivo reduzir custos e poluição. Além disso, o
foco em segurança alimentar está intimamente relacionado ao core business da
empresa (produzir alimentos) e pode ser analisado tanto do ponto de vista de
redução de riscos, quanto de geração de oportunidade de novos negócios. A
inclusão de critérios ambientais para avaliação de investimento e avaliação de
desempenho dos principais executivos permite a integração da perspectiva
ambiental na gestão da empresa, o que pode contribuir efetivamente para a
integração da sustentabilidade de forma estratégica.
Em relação aos fornecedores, os projetos e ações da BRF buscam alavancar o
desenvolvimento local, por meio do desenvolvimento dos fornecedores da região.
Além disso, percebe-se uma preocupação em como os fornecedores estão
gerenciando seus impactos em termos ambientais e sociais, bem como a eficiência
da produção agrícola. O Código de Conduta e o monitoramento dos fornecedores
nos aspectos ambientais, sociais e de eficiência são também classificados como
investimento estratégico. Qualquer problema relacionado ao impacto ambiental de
um fornecedor ou mesmo uma situação de trabalho inapropriada pode gerar impacto
negativo também à BRF, como, por exemplo, a interrupção de fornecimento dos
insumos ou mesmo o risco de imagem e reputação por corresponsabilidade. Os
projetos Na Mão Dupla e Na Mão Certa visam conscientizar os motoristas que
trabalham na frota contratada pela empresa e poderiam ser classificados como
investimentos filantrópicos, pois têm caráter educacional, de conscientização
em relação a drogas, doenças sexualmente transmissíveis e prostituição
infantil. No entanto, esses motoristas têm uma relação direta com o negócio da
BRF. Eles são responsáveis por transportar os produtos até o canal de venda e
qualquer problema social gerado existe por causa da operação da BRF. Portanto,
também nesses dois projetos (Na Mão Dupla e Na Mão Certa) o investimento da
empresa é classificado como estratégico.
No que tange ao stakeholder funcionário, percebe-se a preocupação da empresa em
atrair, selecionar, desenvolver e reter pessoas que estejam alinhadas a sua
estratégia de sustentabilidade, que prezem por capacitação, qualidade de vida e
geração de valor para sociedade. Nesse sentido, os investimentos listados nesse
pilar podem ser considerados estratégicos. O funcionário engajado, motivado por
benefícios oferecidos (higiênicos ou motivacionais), impacta o desempenho
econômico da empresa, pois se torna mais eficiente. Um ambiente de trabalho
saudável também favorece a inovação (processo, operação, produto ou gestão de
pessoas) sustentável. O colaborador na gestão participativa atua como um agente
da inovação que busca transformar um risco numa oportunidade de negócio ou
consegue reduzir custos por meio de melhorias no processo. Finalmente, as ações
e os projetos realizados possuem grande potencial para que a sustentabilidade
seja embutida na cultura organizacional, o que garante ainda mais benefícios em
termos de desempenho econômico-financeiro.
No que se refere aos consumidores, a maioria das ações e projetos é
classificada como estratégica, pois foca em todo o ciclo de vida do produto,
desde a formulação até a destinação final das embalagens utilizadas. A postura
da empresa é de formular produtos mais saudáveis, informar o consumidor sobre
sua composição, além de informar também sobre os bons hábitos de consumo
(Cartilha Consumo Consciente). Tratando-se de embalagens, a empresa trabalha a
conscientização do uso e adequado destino. A logística reversa permite aumentar
a reciclagem, principalmente das embalagens de congelados e lácteos. O
consumidor saudável, satisfeito e consciente tende a estabelecer e manter um
relacionamento de longo prazo com a empresa, alinhado com o pressuposto de que
o consumo influencia a sustentabilidade. Dessa forma, pode-se afirmar que o
consumo influencia positivamente a legitimidade e a reputação da empresa, bem
como seu desempenho econômico-financeiro.
Os projetos e as ações desenvolvidos com foco na comunidade (vizinhança) são em
sua expressiva maioria classificados como filantrópicos, pois não estão
relacionados ao core business da empresa e geram benefícios para a comunidade
como um todo. Por outro lado, a análise dos temas e investimentos de alguns
projetos de longo prazo permite classificá-los em estratégicos. Em outras
palavras, significa afirmar que nenhuma empresa vai bem numa comunidade que tem
problemas sociais, por exemplo, de falta de capacitação técnica e
comportamental. A qualidade da mão de obra local disponível é importante para o
desempenho da empresa. Um exemplo é o Projeto Semear, que visa capacitar
tecnicamente produtores agrícolas das regiões em que a empresa atua. Nesse
projeto, os produtores não são necessariamente fornecedores da BRF. No entanto,
no futuro, caso venham a tornar-se, provavelmente a BRF se beneficiará do
investimento realizado anteriormente. Esses futuros produtores terão capacidade
técnica diferenciada, o que pode trazer ganhos de eficiência na produção e
melhor desempenho na cadeia de valor. Somente dois projetos reportados pela
empresa são classificados exclusivamente como filantrópicos: patrocínios
diversos em cultura, lazer e esporte; e doações a instituições locais.
A análise histórica do posicionamento da BRF em relação à sustentabilidade
permite concluir que os investimentos no formato estratégico perduraram ao
longo dos anos, pois geraram benefícios para fora (isto é, comunidade e meio
ambiente) e especialmente para a BRF. Em valores absolutos (4,3 bilhões de
reais em 2011), os investimentos em meio ambiente e stakeholders mais próximos
da empresa (aqueles impactados diretamente pelas operações) aumentaram 53% ao
longo de 2005 e 2011. Isso aconteceu concomitantemente a um aumento do valor de
mercado (89%), do faturamento (77%) e do lucro da empresa (73%) no mesmo
período. Tal constatação corrobora a prerrogativa de que a integração das
questões ambientais e sociais num modelo integrado gera benefícios para os
stakeholders e também para a empresa, e tendem a perdurar no longo prazo.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste trabalho, partiu-se de uma inquietação teórica e prática relacionada ao
impacto da sustentabilidade no longo prazo, considerando os investimentos em
práticas ambientais e sociais. Para endereçar essa inquietação, foram
elaboradas teoricamente duas hipóteses. Evidência empírica coletada para testar
e discutir essas hipóteses sugere que as empresas têm um impacto positivo no
resultado a partir do trabalho integrado e estratégico da sustentabilidade.
Neste estudo, permite-se apresentar duas contribuições relevantes.
Existe um círculo virtuoso entre prática e reporte, ou seja, empresas que
investem em sustentabilidade reportam suas ações e projetos e os aprimoram no
ano subsequente. Essas empresas tendem a sair-se melhor no longo prazo. Neste
artigo, provê-se evidência da pesquisa quantitativa (hipótese 1) para a
discussão teórica de que os investimentos em sustentabilidade afetam as
empresas no longo prazo (Hart & Milstein, 2004; Porter & Kramer, 2011;
Nidomulu et al., 2009). No caso da BRF, estudado na parte qualitativa (hipótese
2) deste artigo, provê-se evidência de que a sustentabilidade estratégica, que
oferece oportunidades e auxilia a minimizar riscos das empresas, tem um impacto
positivo no resultado de longo prazo da empresa.
Existe também uma necessidade de considerar os pilares da sustentabilidade de
forma integrada (single bottom line). O pilar econômico é importante para poder
melhor representar todas as ações e os projetos sociais e ambientais. Essas
ações e esses projetos oferecem oportunidades que afetam positivamente o
resultado da empresa. As evidências da empresa (BRF) estudada neste artigo, em
um contexto histórico, expõem a evolução dos investimentos estratégicos em
sustentabilidade e a relação desses com as competências e o negócio central da
empresa. Tendo em vista os resultados e as mudanças pelas quais a empresa
estudada passou no período de 2005 a 2011, o efeito dessa visão integrada da
sustentabilidade passa a ser chave para o desempenho no longo prazo. A
contribuição deste trabalho, portanto, está alinhada com as duas hipóteses
estudadas.
Neste artigo, atende-se à demanda por uma análise longitudinal dos impactos dos
investimentos sociais e ambientais no valor da empresa no longo prazo
(Tsoutsura, 2004). Neste estudo, busca-se também apresentar argumentos teóricos
e evidência de que sustentabilidade deve ser entendida de maneira integrada
(Altman & Berman, 2011). Com base neste trabalho, existem implicações
importantes para empresas. A sustentabilidade deve ser incorporada de forma
estratégica. As empresas devem procurar alinhar os projetos e as ações com os
objetivos estratégicos da empresa, ou mesmo elaborar tais objetivos à luz de
uma visão estratégica de sustentabilidade. No longo prazo, as empresas atingem
desempenhos superiores.
Neste artigo, lança-se mão de dois métodos de coleta e análise de evidência
para estudar o impacto da sustentabilidade no desempenho de longo prazo. O uso
das empresas listadas no ISE e dos relatórios anuais da BRF permitiu explorar a
riqueza das informações disponíveis, que são periodicamente auditadas e
validadas pelos diversos stakeholders no mercado. A evidência coletada para
esta pesquisa deve ser analisada à luz das lógicas internas da comissão que
desenvolveu o ISE e da BRF no desenvolvimento de seus relatórios anuais. Alguns
ainda podem considerar isso como uma limitação desta pesquisa. Para pesquisas
futuras sugere-se a análise de empresas listadas em outros índices de mercado,
tais como Dow Jones Sustainability Index (DJSI), e mesmo séries de tempo mais
longas que incorporem o efeito de sustentabilidade nos investimentos que levam
mais tempo para surtir efeito. Sugere-se também um estudo qualitativo
longitudinal de outras empresas de outros setores, menos dependentes dos
recursos naturais e de parcerias com fornecedores, no intuito de verificar se a
sustentabilidade no formato estratégico adiciona valor no longo prazo. Futuros
estudos podem também identificar outros fatores que influenciam os
investimentos em sustentabilidade e concentrar-se no impacto pontual em
diferentes unidades de negócio ou linhas de produtos. O papel dos stakeholders
pode também ser incorporado em uma análise quantitativa de forma a identificar
o impacto e a importância de cada um deles no desempenho geral.