Desempenho dos municípios paulistas: uma avaliação de eficiência da atenção
básica à saúde
1. INTRODUÇÃO
O Sistema Único de Saúde (SUS) é caracterizado por um sistema complexo de
relações intergovernamentais. O governo federal estabelece normas e age como
coordenador das ações dos entes federativos, buscando a concretização do
atendimento universal, equitativo e integral ao cidadão. Os municípios são os
principais provedores de serviços na área da saúde, com responsabilidades
exclusivas quanto à subfunção atenção básica à saúde.
Como política setorial de governo, o SUS tem sido influenciado pelos esforços
recentes de modernização da administração pública, tendo como um de seus
pilares a disseminação dos princípios da administração pública gerencial, cujos
focos são a gestão voltada para resultados e o uso eficiente dos recursos.
Nesse contexto, o programa aparece como o elemento integrador dos planos e
orçamentos e como unidade de gestão das ações governamentais. Assim, a
avaliação de desempenho quanto a efetividade, eficácia e eficiência dos
programas governamentais ganha destaque.
Todavia, a determinação de parâmetros de avaliação pela controladoria na gestão
pública não é uma tarefa simples, pois o tipo de controle aplicável às
atividades do setor público depende de quatro critérios: ambiguidade dos
objetivos, mensuração dos outputs, conhecimento dos efeitos das intervenções e
repetição das atividades.
A avaliação de desempenho envolve dificuldades relacionadas à mensuração dos
produtos diretos e, mormente, os finais dos programas governamentais, à
avaliação da qualidade e ao relacionamento entre recursos orçamentários e
efetividade. No caso específico da saúde, a determinação dos centros de inputs-
outputs e sobre o que cada gestor público pode ser responsabilizado também se
torna um problema, dado que existem interações entre os diversos sistemas de
saúde (municipais, estaduais e federal), com a existência de fluxos de
pacientes e recursos entre eles, de acordo com a capacidade de cada um de
prestar serviços de média ou alta complexidades.
Para contornar essa última situação, optou-se por abordar a subfunção atenção
básica à saúde, que é exclusiva de cada município e, assim, os gestores
públicos podem ser responsabilizados pelo que acontece em seu território, desde
que seja fruto de seu poder discricionário. Além disso, o foco foi nos
outputsdiretos da produção em saúde, simplificando muitas das restrições ao
processo de avaliação de desempenho e accountability, principalmente quanto à
defasagem entre as ações e os seus resultados efetivos.
O orçamento é considerado um dos principais veículos do processo de
planejamento, execução e controle. Todavia, a determinação de metas depende da
conciliação entre os aspectos motivacionais e o planejamento realístico dos
números do orçamento. São sugeridos dois princípios para resolver esse
problema: remover a ênfase em metas fixas e presentes e substituí-las por
padrões de desempenho por benchmark e ajustar as avaliações de desempenho para
refletir a experiência de operação vigente e circunstâncias econômicas
enfrentadas durante o período.
Nesse sentido, o objetivo neste estudo foi: construir uma metodologia de
avaliação de desempenho dos municípios paulistas quanto à eficiência técnica na
aplicação de recursos públicos nas ações de atenção básica à saúde e analisar a
influência de variáveis não controláveis no processo de produção em tal área.
A avaliação comparativa de desempenho permite identificar os pontos fracos da
gestão, assim como aqueles que servem como referência para outras jurisdições,
concretizando uma das vantagens das estruturas federalistas, como é o caso do
Brasil, o aprendizado pela diversidade de experiências. Neste trabalho, inova-
se ao buscar usar o modelo DEA (Data Envelopment Analysis) em dois estágios
para verificar a influência de variáveis não controláveis na produção de
outputs diretos das ações da área da saúde, por exemplo, o percentual de
população rural. Isso porque tais variáveis podem alterar as condições de
produção do serviço público de saúde e, se não forem consideradas, a análise
dos índices de eficiência pode apresentar viés.
Uma das principais dificuldades para aplicar a técnica é a seleção de variáveis
representativas do modelo de produção em atenção básica à saúde dos municípios,
ou seja, os recursos consumidos (inputs) e os produtos gerados (outputs) pelas
entidades. Sendo assim, a metodologia sugerida ganha relevância pelas variáveis
consideradas no modelo DEA, as quais foram escolhidas com base na teoria
econômica sobre função de produção (base de avaliação dos programas sociais) e
análise de eficiência, além de considerar as especificidades do sistema de
saúde brasileiro. Adicionalmente, tratar de uma área tão complexa quanto a
saúde e buscar avaliar a eficiência dos municípios lança luz sobre as
possibilidades de transposição das abordagens tradicionais da controladoria,
desenvolvidas para empresas, para organizações governamentais.
Espera-se que este artigo possa contribuir para a discussão sobre bases
teórico-empíricas para a avaliação de desempenho no âmbito do setor público, o
que pode favorecer o aumento do controle social sobre os gastos públicos, a
melhoria dos serviços prestados e a redução de custos. Além disso, a
metodologia, ora apresentada, pode ser uma alternativa para as entidades de
controle externo, mormente tribunais de contas, realizarem auditoria
operacional nos entes públicos sob sua jurisdição.
2. AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO DE ENTIDADES DO SETOR PÚBLICO
A controladoria é de difícil definição, podendo ser visualizada sob dois
enfoques: como um órgão administrativo ou como uma área de conhecimento humano.
Borinelli (2006, p.105), após uma análise crítica das definições apresentadas
nas literaturas brasileira e internacional, afirma que a
"controladoria é um conjunto de conhecimentos que se constituem
em bases teóricas e conceituais de ordens operacional, econômica,
financeira e patrimonial, relativas ao controle do processo de gestão
organizacional".
Chenhall (2007, p.164) menciona o uso, algumas vezes intercambiável, dos termos
Management Accounting(MA),Management Accounting Systems(MAS),Management Control
Systems(MCS) e Organizational Controls(OC). Para ele, MCS é um termo mais
amplo, que abarca MAS e também inclui outros controles, tais como de pessoas ou
grupos. Além disso, a definição de MCS
"evoluiu para além daquela de simplesmente enfocar na provisão,
mais formal, de informação quantificável financeiramente com o
intuito de auxiliar a tomada de decisão gerencial para outra que
compreende um escopo muito mais amplo de informação" (CHENHALL,
2007, p.165, tradução nossa).
Algumas atividades de controladoria são realizadas por várias ou todas as
unidades organizacionais, na forma de processo, e outras podem ser exercidas
por uma área formalmente constituída em uma organização, principalmente quando
se trabalha em termos macro. Também a área de controladoria é responsável por
consolidar as atividades realizadas de forma descentralizada (BORINELLI, 2006).
No setor público, por imposições constitucionais e legais, existem órgãos de
controle, tanto interno quanto externo, que precisam lidar com o grande desafio
de avaliar o desempenho daqueles que respondem pela aplicação dos recursos
públicos, não apenas quanto à legalidade do gasto, mas principalmente em
relação à sua qualidade. Os órgãos públicos de controle brasileiros têm vivido
um processo de aprendizagem sobre a avaliação de desempenho no âmbito das
diferentes políticas públicas em relação aos benefícios gerados à população e
seus respectivos custos, o que não é possível fazer com o uso de abordagens
tradicionais de controle gerencial para as empresas.
Conforme afirma Hofstede (1981, p.193), tais abordagens são, usualmente,
insuficientes para muitas das atividades desenvolvidas por organizações
públicas e não lucrativas. O grau de complexidade do tipo de controle a ser
exercício depende de quatro critérios: não ambiguidade dos objetivos,
mensuração dos outputs, conhecimento do efeito das intervenções e repetição das
atividades. Quando um ou mais desses critérios não são satisfeitos, são
exigidos sistemas mais complexos de controle.
Os objetivos podem ser ambíguos por causa dos conflitos de valores ou
interesses entre aqueles que opinam sobre a atividade, da falta de conhecimento
sobre como a atividade pode levar a um fim desejado e das rápidas mudanças
ambientais que forçam o estabelecimento de novos objetivos ou tornam os
existentes obsoletos (HOFSTEDE, 1981, p.194).
Os outputs são mensuráveis quando se pode quantificá-los. Entretanto, muitas
atividades, tanto em organizações públicas quanto privadas, têm outputs que só
podem ser definidos qualitativamente e em termos vagos. Nesses casos, somente
os inputs podem ser mensurados. Por exemplo, a efetividade dos programas quando
não se pode separar os impactos de cada um deles sobre o bem-estar da sociedade
(HOFSTEDE, 1981, p.195).
Em relação ao conhecimento do efeito das intervenções, Hofstede (1981, p.195)
salienta que o controle gerencial pressupõe que os esforços alocados para uma
atividade podem ser redirecionados para outra se as metas não são alcançadas.
Contudo, isso implica que o gestor conheça como a intervenção produz a correção
desejada, o que implica entender a tecnologia da atividade.
Por fim, a repetição periódica das atividades possibilita um efeito
aprendizagem, o que se estende para mudança de configuração de elementos
repetitivos, tais como em muitas atividades profissionais, por exemplo,
medicina e odontologia. O orçamento corrente é tipicamente um processo
repetitivo (HOFSTEDE, 1981, p.195).
O SUS usa diversos mecanismos para contornar o problema da ambiguidade de
objetivos, tais como determinação de diretrizes pela União, realização de
pactos entre os entes federados, incentivos à implementação de alguns tipos de
estratégia de atenção e a existência dos conselhos de saúde, os quais são
formados por profissionais, gestores e cidadãos.
Supondo a não ambiguidade dos objetivos, mesmo assim a organização das ações em
programas de saúde não é uma tarefa fácil. É preciso identificar os produtos de
cada ação e como e quanto esses produtos intermediários, em conjunto, irão
contribuir para gerar modificações no estado de saúde da população, devendo ser
analisadas as interferências mútuas entre os programas.
Hofstede (1981, p.202) ressalta o papel do orçamento como principal veículo de
controle gerencial e o distingue em três categorias: investimentos, operacional
para centros de input-outpute operacional para centros de input. Essas duas
últimas também denominadas de centros de lucros ou de despesas,
respectivamente. As restrições quanto à mensuração dos outputsdas atividades
realizadas por entidades do setor público dificultam a definição de centros de
inputs-outputs, fazendo com que o controle orçamentário tenha seu foco apenas
no gasto, desconsiderando as realizações com a execução da despesa. Todavia, o
movimento de transformação da administração pública burocrática para a
gerencial enseja esforços no sentido de identificar o que se faz com a
aplicação de recursos públicos, ou seja, que se identifiquem os produtos das
ações governamentais e se trabalhe com centros de inputs-outputs.
Na nova abordagem da gestão pública, os programas são tratados como unidades de
gestão, configurando-se como um centro de input-output. Contudo, outros tipos
de centros de input-outputou input ' unidade de saúde, municípios, regiões de
saúde, estados, União ' podem ser relevantes, o que vai depender do tipo de
análise que se pretende fazer e do objeto de análise. Por exemplo, se o
objetivo é controlar o limite legal de gastos municipais com a função saúde, os
governos municipais são considerados centros de inputsna análise de desempenho.
Um centro de input-outputou inputconfigura-se, na verdade, em um centro de
responsabilidade que, de acordo com Anthony e Govindarajan (2008, p.129),
"existe para cumprir um ou mais propósitos, tidos como seus
objetivos". Neste trabalho, o foco é avaliar os gestores públicos
municipais como responsáveis pelo atendimento básico de saúde à população de
sua jurisdição.
O orçamento público é um dos principais instrumentos do processo de gestão:
planejamento, execução e controle. Assim como nos demais países, o orçamento
público no Brasil orientou-se, inicialmente, pela necessidade de possibilitar
aos órgãos de representação um controle político sobre o Executivo e a
preocupação estava em manter o equilíbrio financeiro e evitar ao máximo a
expansão dos gastos (GIACOMONI, 2000, p.64). Com a mudança de ênfase do
orçamento público para planejamento e gerência, a avaliação de desempenho ganha
destaque no contexto de aperfeiçoamento dos gastos públicos quanto à
eficiência, à eficácia e à efetividade dos programas governamentais. De posse
dos planos e orçamentos, dos parâmetros da avaliação e da mensuração dos
resultados alcançados, é possível criar um juízo de valor e fazer julgamentos
sobre as ações dos gestores em seus centros de responsabilidade e em
determinado período de tempo.
Verbeeten (2008, p.430) elenca alguns propósitos das práticas de administração
de desempenho: a definição de missões, objetivos e metas claros ajuda cada
funcionário a entender o que a organização deseja e produz foco nas operações;
os administradores públicos e políticos deveriam ser capazes de mostrar a
finalidade do uso do dinheiro ao público (transparência / accountability) pela
mensuração do desempenho no que diz respeito aos objetivos e metas; as
organizações do setor público podem usar a mensuração do desempenho no processo
de aprendizagem, a partir da identificação dos excessos da organização e dos
aperfeiçoamentos necessários; e o sistema de avaliação de desempenho pode
fornecer as bases para remuneração dos funcionários públicos.
Merchant e Otley (2007, p.791) afirmam que os sistemas de controle orientados
para accountability buscam, antes de tudo, manter os indivíduos ou grupos de
indivíduos responsáveis tanto por suas ações quanto por seus resultados ou
aqueles que sua organização produz, sendo recompensados ou punidos de acordo
com o desempenho da organização.
Merchant e Otley (2007, p.792) listam sete dos principais temas encontrados na
literatura relativa à accountabilityna forma das seguintes perguntas:
O que faz uma medida de desempenho boa (ou conjunto de medidas)?
Por que os administradores geralmente são mantidos responsáveis por
muito mais do que eles podem controlar?
Metas de desempenho são necessárias e, se sim, o que as torna boas?
O que se conhece sobre a escolha dos estilos de accountability?
Quais são as questões-chave do desenho do sistema de incentivo e o
que se conhece sobre elas?
Como e por que os sistemas de controle diferem em diferentes
cenários?
Como se pode reconhecer progresso, isto é, inovações positivas como
distintas de modas passageiras?
As respostas às três primeiras questões trazem alguns pontos de reflexão
importantes para este trabalho e é sobre elas que se pretende discorrer.
Em relação à qualidade das medidas de desempenho, Merchant e Otley (2007,
p.792) mencionam que parece existir uma concordância geral de que boas medidas
devem refletir o progresso em direção ao alcance dos objetivos da organização.
A congruência da medida usada para fins de controle poderia ser julgada por sua
correlação com o desempenho real da organização.
Ao tratar de organizações sem fins lucrativos, Merchant e Otley (2007, p.793)
afirmam que o objetivo dessas entidades é cumprir uma missão e, assim, o
desempenho financeiro é uma restrição. A mensuração dos inputsdo processo é
relativamente fácil, mas a mensuração do desempenho é mais difícil, mesmo que
exista um acordo entre os eleitores quanto aos objetivos da organização. Isso
porque o espaço de tempo entre a ação e os resultados é, algumas vezes, muito
longo e a qualidade dos serviços fornecidos é de difícil mensuração.
Quanto à responsabilidade dos gestores, o mais antigo princípio de controle
consiste em as pessoas responderem somente pelo que elas podem controlar. Antes
do período de mensuração, as organizações desenham estruturas de
responsabilidades para alinhar medidas de desempenho com os níveis de
autoridade dos gestores (MERCHANT e OTLEY, 2007, p.793).
Na prática, entretanto, observa-se que muitos, talvez a maioria, dos gestores
são considerados responsáveis por fatores que não podem controlar. As duas
principais causas são, em primeiro lugar, a difícil separação entre efeitos
controláveis e não controláveis sobre a medida de desempenho e, em segundo, o
desejo das organizações de que os gestores respondam às mudanças nos fatores
não controláveis, ou seja, influenciem a medida de desempenho, mesmo que o
fator seja não controlável. Se os gestores podem, materialmente, influenciar os
efeitos de um fator sobre o desempenho, deveriam ser considerados responsáveis
pelos efeitos daquele fator, independentemente de ser ou não controlável
(MERCHANT e OTLEY, 2007, p.794).
Por fim, as reflexões sobre o estabelecimento de metas de desempenho passam
pela discussão de como combinar os aspectos motivacionais das metas com os
números do planejamento realístico do orçamento. Fraser e Hope (2003,
apudMERCHANT e OTLEY, 2007, p.794) argumentam que muitos dos problemas
experimentados pelas organizações, na tentativa de gerenciar seus procedimentos
de controle orçamentário, originam-se do fato de o orçamento representar uma
meta fixada (presente e imutável) em um mundo de mudança constante e incerteza.
A solução para muitos desses problemas seria adotar alguns novos princípios de
controle. O primeiro deles seria remover a ênfase em metas fixas e presentes e
substituí-las por padrões de desempenho por benchmark, o que permitiria a
implementação do segundo, defensavelmente mais importante, princípio. Isto é,
as avaliações de desempenho poderiam ser ajustadas para refletir a experiência
de operação vigente e circunstâncias econômicas enfrentadas durante o período.
Como visto até agora, a avaliação de desempenho e accountabilitydo setor
público, especificamente da área da saúde, envolve conhecer seus objetivos, a
forma de funcionamento, a sistematização das informações em planos e
orçamentos, as medidas de desempenho e os parâmetros da avaliação de
desempenho. Neste trabalho, o foco está em avaliar a eficiência dos municípios
paulistas na subfunção atenção básica, o que pressupõe conhecer o processo de
produção de bens públicos.
3. PRODUÇÃO DE BENS PÚBLICOS
De acordo com Cohen e Franco (2004, p.77), os conceitos utilizados em avaliação
de projetos sociais, e aí se incluem os serviços de saúde, foram desenvolvidos
pela economia e estão associados à função de produção que vincula recursos,
insumos, processos e produtos.
Shah (2007, p.11), ao tratar de transferências intergovernamentais vinculadas à
obtenção de resultados, menciona que o administrador público de um governo
recebedor poderia examinar os diversos elementos de um programa a fim de
determinar se os resultados seriam ou não alcançados, quais sejam:
inputs(recursos usados para produzir outputs), incluindo
inputsintermediários;
outputs(quantidade e qualidade dos bens e serviços públicos
produzidos e o acesso a eles);
outcomes (consequências de médio/longo prazo para os contribuintes/
consumidores da provisão dos serviços públicos ou grau de alcance dos
objetivos do programa);
impacto (objetivos do programa ou consequências de longo prazo);
alcance (pessoas beneficiadas ou prejudicadas pelo programa).
Um exemplo da área de educação pode ser visualizado pela figura abaixo.
Cohen e Franco (2004, p.93), ao tratarem das saídas do processo de produção,
destacam a distinção entre produtos, efeitos e impactos. Os efeitos são
resultados da utilização dos produtos e o impacto, a consequência dos efeitos
de um projeto, ou seja, o grau de consecução dos objetivos (estado desejado) em
relação à população-meta.
Pelas abordagens de Cohen e Franco (2004) e Shah (2007), é possível perceber
que, no processo de provisão de bens e serviços públicos, a dificuldade em
mensurar os outputs surge de forma mais aguda do que na produção de bens
privados. Bradford, Malt e Oates (1969) já haviam se preocupado com essa
questão e buscaram esclarecê-la com o desenvolvimento de um modelo em que os
outputs são separados entre diretos (Output-D) e de interesse final do cidadão
(Output-C). Por exemplo, o produto final de um programa sentido por uma
população não é o número de vacinas aplicadas, mas a redução da mortalidade
infantil.

Combinações diferentes de inputs(Input-I) ' trabalho, capital, equipamentos
etc. ' geram vetores de bens e serviços diretamente produzidos (Output-D), por
exemplo, consultas médicas, exames laboratoriais e visitas dos agentes
comunitários de saúde. Esses produtos diretos do sistema de saúde, em conjunto
com certas variáveis ambientais ou exógenas, determinam o outputfinal (Output-
C) sentido pela população, por exemplo, na redução da incidência de doenças
cardiovasculares em um ambiente marcado por hábitos alimentares não salutares.
Com base no exposto anteriormente, as preferências dos indivíduos podem ser
expressas como U = U (C,Z), em que o vetor Z representa o nível de provisão de
outros bens públicos, além do Output-C, e da quantidade de bens privados
consumidos pelo indivíduo. O Output-C, por sua vez, pode ser expresso como Ck =
fk(D, E), com E representando um vetor de variáveis ambientais e fk uma função
indicativa do grau do outputfinal sentido pelo indivíduo ao usufruir os
Outputs-D produzidos no ambiente E (BRADFORD, MALT e OATES, 1969, p.187).
Conforme Bradford, Malt e Oates (1969, p.187), em termos dessas definições, faz
sentido multiplicar o vetor D (bens e serviços diretamente produzidos) por
algum escalar, mas não o vetor C(bens e serviços de interesse final do
cidadão). Por exemplo, para prover o dobro de consultas médicas, podem ser
necessárias duas vezes o número de médicos. Se o dobro de D exigir menos que o
dobro de inputs, existirá economia de escala na provisão de outputsdiretos.
Todavia, não dá para falar no dobro de C, já que isso depende de outras
variáveis ambientais, mas é possível examinar o custo de tornar C disponível
para número maior de pessoas, havendo economia de escala, se, para atender o
dobro de pessoas, não for preciso o dobro de inputs.As tendências nos custos
dos dois tipos de outputspodem ser muito diferentes, haja vista que as mudanças
ambientais na jurisdição podem aumentar mais rapidamente os custos de fornecer
C do que os custos de prover o vetor D de outputsdiretos. Por exemplo, a
presença de epidemias (E) pode tornar mais difícil a cura do paciente (C),
demandando mais recursos para alcançar os objetivos de um programa de saúde,
mesmo que os procedimentos de saúde se mantenham no mesmo patamar de custos.
Pela análise dos argumentos de Bradford, Malt e Oates (1969), é possível pensar
em duas relações: inputse outputsdiretos e inputse outputsfinais. Um programa
social pode exigir configurações diferentes em termos de ações e,
consequentemente, produtos diretos, conforme as circunstâncias ambientais.
Portanto, haverá gastos diferentes para alcançar os objetivos relacionados ao
bem-estar da população, mesmo que o custo em si dos produtos diretos de cada
ação governamental não se altere. É importante observar que a ineficiência do
gasto com outputsdiretos afeta o gasto com os outputsde interesse final do
cidadão.
As variáveis ambientais ou exógenas poderiam também ser pensadas em termos da
transformação de inputsem outputsdiretos. Assim, a função de produção poderia
ser representada por D = f (I,W), em que D é a quantidade máxima de
outputsdiretos obtidos, pelo vetor de inputs-Ie influenciada pelo vetor de
variáveis ambientais ou exógenas W, com base em determinada tecnologia de
produção.
Uma jurisdição pode fazer mais com menos recursos ou vice-versa, dependendo de
suas condições ambientais ou das variáveis exógenas. Diferenças na densidade e
composição demográfica e na distribuição da população por faixa etária, por
exemplo, podem afetar o valor das despesas públicas para o fornecimento de
padrões comparáveis de serviços públicos. Burkhead (1971, p.187) menciona que
as comparações de desempenho podem ser prejudicadas pelas condições naturais de
realização do serviço; por exemplo, o número de visitas diárias por um agente
de saúde na zona urbana pode não ser comparável àquele das realizadas na zona
rural.
4. DATA ENVELOPMENT ANALYSIS: MODELO EM DOIS ESTÁGIOS
A teoria econômica da análise de eficiência é baseada no trabalho de Debreu
(1951) e Koopmans (1951) sobre análise de produtividade. Farrell (1957)
aprofundou o estudo dos dois autores com o objetivo de definir uma medida
simples de eficiência da firma que poderia englobar múltiplos inputs (COELLI,
RAO e BATTESE, 1998, p.134).
Farrell (1957, p.254) dividiu a eficiência de uma firma em dois componentes:
eficiência técnica e eficiência alocativa. A primeira reflete a habilidade de
uma firma obter output máximo dado um conjunto de inputs, já a segunda refere-
se à capacidade de a firma usar os inputs em proporção ótima, considerando seus
preços e a tecnologia de produção. A combinação das duas medidas fornece a
medida de eficiência econômica total, a qual reflete a capacidade de uma
entidade obter máximos outputs ao menor custo.
O cálculo das medidas de eficiência pressupõe que a função de produção seja
conhecida. Na prática, isso não acontece e ela precisa ser estimada a partir de
uma amostra de dados com o uso de métodos paramétricos ou não paramétricos,
sendo esse último o caso da Data Envelopment Analysis (DEA), termo usado
primeiramente por Charnes, Cooper e Rhodes (1978), constituindo uma técnica de
otimização, baseada em programação linear e projetada para estabelecer uma
medida de eficiência relativa entre diferentes unidades tomadoras de decisão
(Decision Making Units ' DMUs).
Os vários modelos de DEA baseiam-se na análise de eficiência das unidades
tomadoras de decisão (DMUs) com múltiplos insumos (inputs) e produtos (outputs)
e partem da ideia de construir uma fronteira de eficiência, em que as DMUs mais
eficientes se situem sobre a superfície da fronteira, enquanto as menos
eficientes se situem internamente abaixo da fronteira.
Os modelos DEA podem assumir retornos constantes de escala, ou seja, eficiência
de escala, ou retornos variáveis de escala. Além disso, podem ter orientação
para a maximização de outputsou minimização de inputs, dependendo de sob quais
quantidades o administrador tem mais controle, inputou output.Como este
trabalho trata do setor público de saúde e como se sabe que os burocratas ou
políticos trabalham com um orçamento fixado, a orientação deve ser para os
produtos, ou seja, com os insumos disponíveis, a entidade pública deve oferecer
o máximo de produtos ou serviços possíveis dentro de certos padrões de
qualidade.
O modelo DEA com orientação para outputse retorno variáveis de escala pode ser
escrito como:
[/img/revistas/rausp/v47n4/a09frm01.jpg]
Sujeito a:
[/img/revistas/rausp/v47n4/a09frm02.jpg]
em que:
θ= é um escalar eλé um vetor Nx1 de constantes. O valor deθserá o
escore de eficiência orientado para outputda i-ésima unidade de
tomada de decisão;
θ= escore de eficiência relativo à DMU 0;
n = número de unidades (Total de DMUs);
s = número de outputs;
r = número de inputs;
Ixk= quantidade do input x para a DMU k; k=1,2,...,n;
Oyk= quantidade do output y para a DMU k; k=1,2,...,n.
Essencialmente, a restrição [/img/revistas/rausp/v47n4/a09img01.jpg] assegura
que uma DMU ineficiente será comparada somente a DMUs de tamanho similar. Isto
é, o ponto projetado na fronteira será uma combinação convexa de DMUs
observadas. Os pontos reportam-se a um segmento da fronteira (λi +λj = 1, em
que i≠j).
O escore de eficiência é dado pela medida de Farrell (1957), 1 ≤θ<∞, eθ' 1 é o
aumento proporcional em outputsque se poderia alcançar pela DMU, mantendo a
quantidade de inputsconstante. Observa-se que 100/θ' medida de Shephard (1970)
' define o escore de eficiência que varia entre zero e 100%.
A mensuração de eficiência por meio da análise envoltória de dados gera
informações úteis para o controle gerencial. Além de permitir uma análise
comparativa do desempenho das DMUs a partir da captação das melhores práticas
de produção, indica a quantidade de cada input consumido por uma DMU
ineficiente, que poderia ser reduzida ou a quantidade de cada outputgerado que
poderia ser aumentada, dependendo da orientação da análise.
No processo de transformação de inputsem outputs, como já ressaltado por
Bradford, Malt e Oates (1969), existem variáveis ambientais ou exógenas que
podem influenciar a eficiência de uma DMU e, portanto, deveriam ser
consideradas na análise. Todavia, as variáveis exogenamente fixadas ou não
controláveis, como o próprio nome sugere, não estão sob o controle dos gestores
de uma DMU, no máximo eles podem administrar seus efeitos na eficiência.
Consequentemente, não faz sentido falar em redução de inputsnão controláveis ou
aumento de outputsnão controláveis.
Diante desse problema, Banker e Morey (1986) buscaram estender os modelos DEA
com o intuito de estimar as reduções possíveis nos inputscontroláveis ou
discricionários pelo gestor de uma DMU, mantendo os inputsfixados exogenamente
nos níveis correntes.
Uma alternativa para considerar as variáveis não controláveis nos modelos de
avaliação de eficiência é usar o modelo DEA em dois estágios. No primeiro
estágio, uma fronteira de produção é estimada a partir dos
inputsdiscricionários e outputsde uma amostra de DMUs, sem considerar as
variáveis não controláveis. No segundo estágio, os escores de eficiência são
tomados como variável dependente em um modelo de regressão e as variáveis
ambientais como variáveis independentes. Os sinais dos coeficientes dos termos
da regressão indicam a direção da influência das variáveis não controláveis nos
escores de eficiência e os testes de hipóteses padrão são usados para avaliar a
força da relação. A regressão do segundo estágio também permite ajustar todos
os escores de eficiência pelo uso dos coeficientes estimados em um ambiente
comum.
Em um modelo orientado para outputs, a regressão mais simples envolve o índice
de eficiênciaθe as variáveis não controláveis, destacadas aqui como zi:
[/img/revistas/rausp/v47n4/a09frm06.jpg]
Oβé um vetor de parâmetros empregados para captar a influência de z sobre o
índice calculado na etapa anterior.
5. TRAJETÓRIA METODOLÓGICA
5.1. Censo de municípios paulistas
A unidade de análise deste estudo foi o município, como responsável pela
subfunção atenção básica à saúde. A população, portanto, foi composta pelos
municípios do estado de São Paulo, escolhidos por causa da relevância da sua
economia no Brasil e pela diversidade socioeconômica, como apontado pelo Índice
Paulista de Responsabilidade Social, divulgado pela Fundação Sistema Estadual
de Análise de Dados ' SEADE (2008). O estudo foi realizado por meio de um censo
dos municípios paulistas.
5.2. Escore de eficiência técnica
Neste primeiro estágio, uma fronteira de produção foi estimada a partir do
inputdiscricionário e dos outputsrelativos aos serviços de atenção básica à
saúde prestados pelos municípios paulistas.
Como condição para receber recursos do Fundo Nacional de Saúde, os governos
locais são obrigados a alimentar as bases de dados administradas pelo
Ministério da Saúde, dentre elas: o SIA (Sistema de Informações Ambulatoriais),
o SIAB (Sistema de Informações da Atenção Básica) e o SIOPS (Sistema de
Informações sobre Orçamentos Públicos em Saúde). O SIA contém informações sobre
a produção ambulatorial de baixa, média e alta complexidades em termos de
quantidades/valores aprovados e quantidades/valores apresentados. O SIAB possui
dados gerados a partir do trabalho das Equipes de Saúde da Família (ESF) e
Agentes Comunitários de Saúde (ACS). Já o SIOPS apresenta dados sobre receitas
e despesas dos municípios na área de saúde e um conjunto de indicadores gerados
a partir de tais informações.
Entre os 645 municípios paulistas, existem estruturas muito diferenciadas de
sistemas de saúde e, consequentemente, dos tipos de serviços prestados. Além
disso, diversas ações são de competência partilhada, envolvendo fluxo de
recursos e pacientes entre municípios delimitados por uma região, macrorregião
ou estado, conforme o grau de complexidade. Sendo assim, é preciso cuidado para
que não se proceda a uma análise comparativa do desempenho de estruturas
heterogêneas quanto ao processo de produção em saúde.
Nesse sentido, optou-se por comparar o desempenho dos municípios paulistas
quanto à produção de outputsdiretos relativos à subfunção atenção básica à
saúde. Isso porque a responsabilidade por essa subfunção é exclusiva de cada
município, reduzindo as interdependências e complementaridades dos sistemas
municipais de saúde e tornando possível a definição do município como um centro
de input-output.
Para levantar e medir a eficiência relativa da aplicação de recursos na
subfunção atenção básica à saúde pelos municípios paulistas, foi usada a Data
Envelopment Analysis com orientação para a maximização de outputs, com o
intuito de verificar o grau de reversão da função orçamento-output.Quanto ao
rendimento de escala, análises preliminares indicaram que seria variável, o que
foi seguido no restante dos procedimentos adotados.
Para os municípios paulistas, foi calculada uma função de custo composta de um
insumo (input) e de seis produtos diretos referentes ao atendimento
ambulatorial de atenção básica, ao PSF (Programa de Saúde da Família) e ao PACS
(Programa de Agentes Comunitários de Saúde) (outputs 1 a 6), conforme pode ser
visto no quadro_1.
Nessa fase, 35 municípios foram excluídos da análise por falta de dados sobre
despesa com atenção básica e sete por apresentarem inconsistências nos dados
sobre a produção ambulatorial em atenção básica. Ao todo, 42 observações foram
eliminadas, o que representa 6,51% da população objeto de estudo.
Os escores de eficiência calculados pelo modelo DEA podem ser severamente
influenciados pela presença de outliersnos dados, pois uma simples observação
muito distante da média empurra a fronteira e, em consequência, diminui
artificialmente a eficiência para o conjunto de DMUs como um todo e, assim,
ocorre uma subestimação dos escores de eficiência. A base para a detecção de
outliers, conforme proposto por Sousa e Stoić (2005), foi a medida leverage,
termo emprestado da literatura sobre regressão linear e que indica a influência
da remoção de uma dada DMU nos escores de eficiência das outras DMUs. Espera-se
que os outlierse as DMUs com erros nos dados apresentem maior leveragedo que o
leveragemédio global. Nos extremos, leverageigual a 0 (zero) significa que a
remoção daquela DMU não tem efeito sobre os escores de eficiência das outras
DMUs e leverageigual a 1 (um) indica que a remoção de determinada DMU provoca a
eficiência de todas as outras, alterando os escores de zero para um.
Dez municípios foram considerados outliers. Analisando os dados de cada um dos
municípios, individualmente, observou-se que quatro deles apresentavam um valor
de despesa com atenção básica muito discrepante dos outros e, por isso,
decidiu-se excluí-los da análise. Os outros seis municípios permaneceram no
estudo, pois, como, aparentemente, não existiam problemas com os dados, eles
poderiam servir como referência de boas práticas.
5.3. Variáveis não controláveis
Neste segundo estágio da Data Envelopment Analysis, buscou-se identificar
variáveis que interferem e em que direções o fazem no grau de reversão da
função orçamento-output. Existem fatores que, supostamente, influenciam a
obtenção do uso eficiente dos recursos públicos que os gestores da área da
saúde, em curto prazo, não conseguem alterar, mas precisam estar atentos aos
seus efeitos no desempenho de seus centros de responsabilidade.
Alguns desses fatores relacionam-se com as características populacionais. O
maior percentual de população rural e/ou a menor densidade populacional podem
tornar os custos da prestação de serviços em saúde mais altos por causa do
maior esforço para chegar-se até a população, inclusive com perdas de economia
de escala. Da mesma forma, um alto percentual da população na faixa etária
acima de 60 anos pode representar altos custos de locomoção, ou do paciente até
a unidade de saúde ou das equipes de saúde até a sua residência. Igualmente,
vale perceber se a população na cauda inferior da faixa-etária ' 0 a 18 anos '
afeta os custos da prestação de serviços em atenção básica. As duas faixas
etárias foram escolhidas de acordo com as tabelas utilizadas pelos planos de
saúde.
Também se poderia pensar em como a organização dos estabelecimentos de saúde
com maior capacidade de atendimento quanto ao volume de pessoas pode favorecer
ou não o uso eficiente dos recursos públicos. Outro fator é o percentual de
recursos próprios aplicados na função saúde que, por exigência legal, deve ser
no mínimo de 15%. Talvez essa norma possa servir como incentivo para o gasto
com desperdício, já que o governo local precisa atingir esse mínimo de qualquer
maneira. Todavia, sabe-se que muitos municípios gastam além do mínimo,
indicando a prioridade que dão à função saúde.
Sendo assim, fez-se a opção pelo uso da análise de regressão 'θi =β.zi +εi ≥ 1
', na qual a variável dependente foi o escore de eficiência calculado no
primeiro estágio e as variáveis independentes aquelas listadas no quadro_2.
Todas as variáveis são relativas ao ano de 2006, com exceção da IND 4, cujos
dados disponíveis mais recentes são de 2005.
O termo de erro da regressão do segundo estágio do modelo DEA reflete os
escores de eficiência de cada município paulista ajustado pelos efeitos dos
inputs não controláveis. Para que esse termo indique as ineficiências
ajustadas,θi, ele deve variar de 1→∞, contemplando, assim, a noção de
fronteira. De acordo com Greene (1980, p.34), com o uso de mínimos quadrados
ordinários (MQO), os parâmetros são consistentemente estimados, com exceção do
intercepto. Contudo, o maior erro obtido por MQO pode ser usado como estimador
consistente do intercepto. Assim, para cada DMU, somando-se ao erro da
regressão o erro máximo, obteve-se o índice de eficiência ajustado, pois, com o
deslocamento do intercepto, todos os erros passam a ter o sinal correto. A
expressão para o escore de eficiência ajustadoθi é:
[/img/revistas/rausp/v47n4/a09frm07.jpg]
6. ANÁLISE DOS RESULTADOS
No primeiro estágio, a fronteira de eficiência técnica foi formada por 17 dos
599 municípios paulistas sob análise. Os outros 582 municípios encontravam-se
abaixo da fronteira, ou seja, deveriam oferecer mais serviços de saúde dada a
despesa com a subfunção atenção básica. Os resultados sinalizam que 2,83% dos
municípios foram considerados eficientes e 97,17% ineficientes.
O escore mínimo de eficiência técnica foi de 2,62% e o máximo de 100% ' medida
de Shephard. Dos 599 municípios, 25% apresentaram escores de eficiência menores
do que 13,87%, metade apresentou escores menores do que 21,27% e 25% maiores do
que 32,93%, entre esses últimos estão aqueles classificados como eficientes.
Quando se analisam somente os municípios ineficientes, a média dos escores de
eficiência é de 25,8%, indicando que se poderia aumentar a oferta de produtos
diretos da atenção básica em 74,2% sem necessidade de direcionar mais recursos
do orçamento público para a área da saúde.
Pela avaliação geral das metas de melhorias dos outputs, a ação dos municípios
deveria estar voltada para aumentar a cobertura do PACS e do PSF e a quantidade
de procedimentos ofertados por outros profissionais de nível superior e de
odontologia.
No segundo estágio, os inputsnão controláveis foram as variáveis independentes
e os logaritmos naturais dos escores de Farrell-eficiência (o inverso da medida
Shephard-eficiência usada no primeiro estágio), a variável dependente da
análise de regressão múltipla.
A tabela_1 demonstra o resultado da análise de regressão clássica realizada com
o método stepwise.Todos os coeficientes podem ser considerados diferentes de
zero a um nível de significância de 0,05. As variáveis faixa etária I
(população entre 0 e 18 anos) e percentual de recursos próprios não foram
adicionadas ao modelo, indicando que, na presença das outras variáveis, tais
fatores não ajudam a explicar a eficiência da obtenção de outputsdiretos em
atenção básica.
[/img/revistas/rausp/v47n4/a09tab01.jpg]
Os pressupostos do modelo de regressão ' normalidade dos resíduos e
homocedasticidade ' também foram testados. Os resultados apontaram para a
aceitação do modelo.
O R2 sinaliza que 18,17% da variação nos escores de eficiência calculados na
primeira etapa podem ser explicados pelas condições ambientais dos municípios
quanto à proporção da população idosa, densidade populacional, proporção da
população urbana e escala de funcionamento dos estabelecimentos de saúde. Os
resultados sugerem que a eficiência/ineficiência se deve, em grande parte, às
decisões dos gestores públicos municipais. Entretanto, alguns deles apresentam
melhor desempenho relativo ao que seria alcançado se as condições ambientais
não favorecessem a prestação de serviços de saúde com menor custo. Lembrando
que a medida Farrell-eficiência varia de 1 a∞, quanto maior o escore, mais
ineficiente é o município. Pelos coeficientes padronizados da regressão, é
possível perceber que a maior proporção de idosos na população aumenta a
ineficiência de uma jurisdição e essa é a variável que mais impacta os escores
de eficiência. Com o envelhecimento da população, inclusive como resultado da
própria política de saúde, a tendência é que o funcionamento do sistema
apresente custos mais elevados, já que o idoso apresenta restrições quanto ao
deslocamento até as unidades de saúde ou, alternativamente, existem custos
adicionais para que as equipes de saúde se desloquem até o paciente. Além
disso, o tempo de realização dos procedimentos de saúde pode ser maior no caso
da população idosa.
Por outro lado, algumas variáveis de estado ou inputsnão controláveis favorecem
a obtenção de melhores resultados pelos municípios, como acontece com a
densidade populacional, o percentual de população urbana e a escala de
estabelecimentos. De fato, ter uma população menos dispersa e com maior grau de
urbanização reduz o custo da prestação de serviços em atenção básica. Além
disso, apesar de menos relevante, a escala com que se trabalha impacta o
desempenho quanto à eficiência. Portanto, esses aspectos deveriam ser
considerados nas decisões sobre a descentralização das ações de saúde.
Com base nos resultados da regressão, os escores de Farrell-eficiência foram
ajustados somando-se aos termos de erro de regressão o erro máximo obtido. Para
que os escores de eficiência do primeiro e do segundo estágios pudessem ser
comparados, calculou-se o inverso do exponencial da medida de eficiência
ajustada gerada nesse segundo estágio. O escore ajustado mínimo de eficiência
técnica foi de 1,89% e o máximo de 96,45%. Dos 599 municípios, 25% apresentaram
escores de eficiência ajustados menores do que 9,20%, metade apresentou escores
menores do que 13,58% e 25% maiores do que 20,05%.
A tabela_2 mostra uma comparação entre os municípios eficientes do primeiro
estágio, com os mais eficientes do segundo estágio.
Os municípios de Piracicaba, Rio Grande da Serra, Santo André, São Bernardo do
Campo, São Caetano do Sul e São Paulo foram classificados como eficientes no
primeiro estágio, mas não permaneceram no grupo dos 17 mais eficientes quando
os inputsnão controláveis foram inseridos na análise. Observa-se que, no
primeiro estágio, a população dos municípios é maior do que no segundo estágio.
Dos grandes municípios, permaneceram Santos e São Carlos.
Na tabela_3, mostra-se uma comparação entre os municípios mais ineficientes no
primeiro e no segundo estágios.
Borá aparece como o município mais ineficiente nos dois estágios; vale
ressaltar que esse é o menor município do estado de São Paulo. Com exceção de
Louveira, todos os municípios possuem população abaixo de 10.000 habitantes.
Nota-se que, mesmo com a exclusão do efeito de variáveis que poderiam favorecer
os grandes municípios na avaliação de desempenho comparativa, somente duas
jurisdições saíram do grupo dos 10 mais ineficientes: Santana da Ponte Pensa e
Aspásia. Aparentemente, por suas características, tais municípios são
ineficientes por natureza.
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
No presente artigo, teve-se como objetivo construir uma metodologia de
avaliação de desempenho dos municípios paulistas quanto à eficiência técnica na
aplicação de recursos públicos nas ações de atenção básica à saúde e analisar a
influência de variáveis não controláveis no processo de produção em tal área.
Para isso, foi usado o modelo DEA em dois estágios. No primeiro estágio, os
escores de eficiência dos municípios paulistas foram calculados com base em um
inputdiscricionário ' despesa liquidada com atenção básica ' e seis outputs
diretos representativos da atenção básica à saúde ' número de procedimentos
nesse nível de atenção e cobertura dos programas PSF e PACS. Os resultados
indicaram que somente 17 dos 599 municípios sob análise foram considerados
eficientes e que era possível aumentar, consideravelmente, a quantidade de
serviços prestados à população sem a necessidade de aumentar as dotações
orçamentárias para a área de saúde.
O maior alcance da política de saúde depende, entre outros elementos, da
quantidade de outputs diretos (consultas, medicamentos, vacinas etc.) que se
conseguem ofertar, uma vez que o consumo de tais produtos por um indivíduo
inibe o consumo por outro, apesar de os benefícios indiretos poderem ser
sentidos por toda a sociedade. Atualmente, o acesso ao sistema de saúde é um
dos pontos críticos enfrentados pelo SUS para que se alcancem melhorias no
estado de saúde da população (outputfinal). Os resultados da análise
comparativa de desempenho sinalizam que esse problema poderia ser, pelo menos,
parcialmente resolvido com a melhor aplicação dos recursos públicos.
Como a atenção básica é uma subfunção exclusiva de cada município, é possível
responsabilizar o gestor público municipal pelos resultados alcançados com a
aplicação de recursos destinados a essa área. Entretanto, ao se fazer a
avaliação de desempenho comparativa, um gestor não pode ser penalizado por
atuar em um município com condições socioeconômicas desfavoráveis à execução
dos serviços de saúde.
Sendo assim, no segundo estágio do modelo DEA buscou-se identificar as
variáveis que afetam o desempenho do gestor público e a direção em que o fazem.
Verificou-se que a maior proporção de idosos em uma jurisdição torna a
prestação de serviços mais cara. Por outro lado, maiores densidade
populacional, grau de urbanização e escala dos estabelecimentos de saúde
favorecem o gasto público com eficiência. Em média, os escores de eficiência
ajustados foram menores do que os originalmente calculados, indicando que as
variáveis não controláveis têm um impacto líquido positivo. Isto é, baixa
densidade populacional, grande parcela de população rural, maior proporção de
idosos e pequena escala dos estabelecimentos de saúde são características que '
apresentadas, individual ou conjuntamente, por um município ' o coloca em
condição desfavorável em relação aos demais. Portanto, na avaliação comparativa
de desempenho, o município não deveria ser penalizado por isso.
Apesar de tais variáveis não estarem sob controle do gestor público municipal,
ele não pode ignorá-las, pois afetam, diretamente, o desempenho do sistema de
saúde municipal. Além do que, se for pensado que o SUS é uma política
compartilhada entre os entes federativos, esses aspectos devem ser considerados
nas decisões conjuntas, principalmente no processo de regionalização da atenção
à saúde e na pactuação de metas. Particularmente, em relação à contratualização
de resultados, é desaconselhável estabelecer uma única meta para todos os
municípios, já que as condições ambientais são diferentes entre eles. Por
exemplo, a meta de cobertura do PSF estabelecida no pacto pela saúde pode ser
facilmente alcançada por um município com alta densidade populacional, o mesmo
não ocorrendo com aqueles com situação inversa.
Também é preciso pensar que a atenção básica, quando bem realizada, pode evitar
diversos custos adicionais ao sistema de saúde como um todo. No sistema de
saúde, a atenção básica não é vista isoladamente, mas como parte de uma rede
regionalizada de assistência à saúde. As ações desenvolvidas no âmbito dessa
subfunção, principalmente aquelas relacionadas à prevenção e à promoção da
saúde, podem evitar a ocorrência de procedimentos de média/alta complexidade.
Por exemplo, a redução de internações por diabetes mellitus.
Com o ajuste dos escores de eficiência, municípios considerados eficientes na
primeira análise deixaram de sê-lo no segundo estágio, sinalizando que o
desempenho do gestor municipal tinha sido favorecido pelas variáveis
ambientais. Analisando o grupo dos mais ineficientes, percebeu-se que a
composição quase não se alterou e que, predominantemente, era formado por
municípios de pequeno porte. Os resultados são indicativos de que a
configuração desses municípios, por natureza, leva-os à ineficiência. Portanto,
cabe a indagação se municípios com população tão pequena conseguem atender a
condições mínimas de escala para a oferta dos serviços de saúde e,
consequentemente, se a atenção básica deveria ser considerada responsabilidade
exclusiva de tais municípios.
Neste trabalho, focou-se a atenção básica para permitir uma avaliação
comparativa de desempenho entre municípios. Entretanto, também é importante
avaliar as outras subfunções de saúde, como o atendimento ambulatorial de média
e alta complexidades e o hospitalar. Para isso, poder-se-iam segmentar as
atividades com as mesmas características de produção entre os municípios ou
segmentar os municípios conforme sua capacidade de produção. Outra forma seria
avaliar as regiões ou macrorregiões de saúde como centro de responsabilidades e
não o município, aparentemente a alternativa mais viável, haja vista as
diretrizes do SUS quanto à organização dos serviços de saúde em redes
regionalizadas.
A metodologia de avaliação de eficiência apresentada neste trabalho pode ser
aplicada a outros municípios brasileiros. Além disso, cabe ressaltar que a
eficiência, na área da saúde, pode ser percebida sob duas direções: recursos X
outputs diretos e recursos X outputs finais. O desperdício de recursos públicos
ocorre quando se incorre em custos maiores do que os necessários para realizar
os procedimentos e as ações de saúde, o que se relaciona com vários casos de
corrupção, por exemplo, ou, adicionalmente, quando esses procedimentos e ações
não são adequadamente planejados em programas que possibilitem melhorias no
estado de saúde da população. O foco deste artigo foi na primeira relação,
possibilitando gerar informações sobre o que se faz com o dinheiro público.
Enfim, para além dos resultados empíricos apresentados, acredita-se que este
trabalho tenha contribuído para indicar possibilidades e restrições quanto à
realização de avaliações de desempenho comparativas, apresentando uma
metodologia que auxilie os avanços nos estudos sobre controladoria na gestão
pública.