Sendo aos olhos do outro: o papel da alteridade na construção da identidade
metrossexual
1. INTRODUÇÃO
As tendências de consumo trazidas pelo século XXI baseiam-se, a princípio, nos
chamados novos estilos de vida, dentre os quais se destaca o metrossexualismo.
A primeira menção ao termo metrossexualfoi no artigo intitulado Here comes the
mirror men, do jornalista Mark Simpson, publicado em 1994 no jornal The
Independent. Foi, porém, na década seguinte, mais precisamente em 2002, que o
termo ganhou popularidade, com o artigo Meet the metrossexual, do mesmo autor.
Simpson descreve o metrossexual como um homem jovem, bem remunerado, que habita
ou trabalha numa metrópole, local onde se situam as melhores lojas.
Trata-se de um fenômeno recente, que começa a ser investigado na área de
marketing, sobremaneira no campo de pesquisa do consumidor, sendo objeto de
estudo e pesquisas (KOO e KARAN, 2007; CHANG, OOI e TING, 2010) e, aos poucos,
sendo contemplado nos livros-textos (MITTAL, HOLBROOK e BEATTY, 2008; SOLOMON,
2010). Nesse sentido, adotou-se, neste trabalho, a definição de Mittal,
Holbrook e Beatty (2008, p.411), que se referem ao metrossexual como "homens
urbanos que têm um forte senso estético e que gastam muito tempo e dinheiro com
sua aparência e estilo de vida".
É possível depreender, portanto, que esses homens acreditam que cuidados com
corpo, pele e cabelos não são exclusividade das mulheres. Esse novo homem, de
acordo com Garcia (2004), costuma investir uma quantia superior a 30% de sua
renda em cosméticos, roupas, salões de beleza e clínicas estéticas, além de
passar um tempo considerável em shoppings.
A indústria, por sua vez, parece já estar atenta a esse fenômeno. Cada vez mais
se lançam novos produtos destinados a esse homem, o que estimula o consumo
masculino. Esse crescimento, nos últimos dez anos, tem sido de aproximadamente
17% ao ano (GARCIA, 2004).
Será possível, contudo, definir um metrossexual com base em seu desejo de
consumir e em seu volume de consumo? Talvez seja apropriado abordar o fenômeno
compreendendo-o como parte de um plano mais amplo, contemplando as mudanças
socioculturais que têm ocorrido nas últimas décadas, consideradas por muitos a
pós-modernidade (JAMESON, 1997; LYOTARD, 2010).
Inicialmente, é necessário, para essa discussão, que se atenha à noção de
gênero. Assumido como algo construído sócio-histórica e culturalmente, diversos
estudiosos (SILVA, 2000; WOODWARD, 2000) consideram-no uma questão de
identidade, antes de propriamente uma condição.
Dessa forma, tem-se debatido exaustivamente a questão da identidade, na medida
em que antigas identidades são questionadas e abrem espaço para novas possíveis
configurações, em virtude das mudanças que se processam. Alguns intelectuais
(BAUMAN, 2005; HALL, 2005) admitem que a pós-modernidade colabora para tornar
possíveis esses novos olhares. Antes consideradas sólidas e fixas, a partir do
sujeito pós-moderno, as identidades passam a ser compreendidas em seu caráter
móvel e fragmentado, em constante diálogo com o social em contínua mutação.
Isso se torna mais forte com a questão da mundialização ' faceta cultural da
globalização ', que tem propiciado uma cultura híbrida, sem demarcação de
fronteiras. Dessa forma, influenciando-se mutuamente, identidades podem
mesclar-se (ORTIZ, 2003). Isso resulta num fenômeno de "produção de novas
identidades" (HALL, 2005, p.84).
Ao se observarem os metrossexuais, percebe-se justamente uma expressão desse
fenômeno. Dessa forma, assumem-se as premissas de que o metrossexualismo
corresponde a uma identidade cultural pós-moderna e de que tal identidade advém
de uma possibilidade de consumo, isto é, torna-se possível apenas por estar
inserida num contexto espaçotemporal: a sociedade (pós-moderna) de consumo.
Contudo, como essa identidade é constituída? Com base em tal questão, neste
estudo objetivou-se investigar como se constrói a identidade metrossexual por
meio do consumo. Pôde-se inferir, dentre outras conclusões, que a alteridade
aparece como um dos elementos constituintes dessa identidade.
2. A IDENTIDADE CULTURAL NA PÓS-MODERNIDADE
A ideia de um sujeito unificado, centrado e dotado de razão, correspondente ao
iluminismo, hoje parece em extinção (FERREIRA, 2007). Hall (2005) admite que o
sujeito, antes possuidor de uma identidade unificada e estável, tem-se
fragmentado, constituído de várias identidades, e não mais de apenas uma. De
acordo com o autor, desde o fim do século XX, uma série de questionamentos a
respeito de práticas culturais de construção identitária tem vindo à tona,
atingindo paisagens culturais de gênero, raça, sexualidade, classe,
nacionalidade e etnia. As transformações que ocorrem na contemporaneidade, bem
como a perda de estabilidade da identificação que se faz de si mesmo ' a
ausência de um sentido de si ', têm abalado identidades pessoais. Isso resulta
num duplo deslocamento: o sujeito é descentrado de si mesmo, assim como de seus
lugares social e cultural (MAIA, 2007; BARBOSA, 2010).
Dessa forma, Hall (2005), ao definir identidade cultural, admite que o contato
com o outro, ou seja, a alteridade é o que constitui o homem. Sua identidade,
portanto, não se encontra encerrada quando de seu nascimento, mas resulta de
uma busca constante, uma construção diária. Isso faz da identidade uma
celebração móvel, sujeita a contínuas formações e transformações; passível de
construir-se no contato com o outro, em vivências e convivências.
Consequentemente, perde sentido pensar a identidade como única e definida. O
lugar ocupado pelo sujeito torna-se fundamental ao entendimento de sua
identidade, podendo este assumir identidades distintas conforme os papéis
sociais que exerce nos âmbitos familiar, profissional, entre amigos, etc.
Assim, o sujeito se posiciona ' e é posicionado ' conforme campos sociais que
ocupa (WOODWARD, 2000; GREGOLIN, 2008).
Entre os grandes fenômenos que colaboram para esse deslocamento das
identidades, está a mundialização, que possibilita a dissolução de fronteiras,
a aceleração de fluxos e laços entre nações, encurta distâncias e faz com que o
mundo pareça menor. Graças a esse fenômeno, poucos segundos são suficientes
para conectar qualquer parte do mundo, diluindo barreiras espaçotemporais
outrora existentes. A convivência com outras culturas e identidades permite aos
sujeitos conhecer novos mundos, e parece tornar-se comum a aceitação do novo,
possibilitando que novas combinações desordenem o ordenado (BAYART, 1996; HALL,
2005; TILIO, 2009).
De acordo com Bauman (2005), não se deve ocultar a fragilidade da identidade,
pois ela não é sólida nem permanente, mas passível de negociação conforme as
atitudes e os caminhos trilhados pelos indivíduos. Dessa forma, o autor admite
que diferentes momentos implicam a assunção de identidades distintas,
evidenciando o caráter relacional da construção identitária. Para o autor, a
base solidificada durante a modernidade é comprometida pelas grandes
transformações pelas quais o indivíduo passa na pós-modernidade. Tais
transformações resultam de uma sociedade em constantes mudanças e aceitações,
oferecendo novas possibilidades ao sujeito pós-moderno. Essa sociedade
caracteriza-se pela maleabilidade com relação ao que antes era considerado
estranho, fora do padrão; o padrão, por sua vez, torna-se coisa do passado, o
que permite que identidades sejam livremente assumidas, abrindo-se espaço para
o diferente. Trata-se de uma época líquido-moderna, uma vez que o indivíduo que
flutua desimpedido é o herói popular, e permanecer fixo, ou seja, identificar-
se de maneira inflexível e inevitável, torna-se uma postura cada vez mais
malvista.
Dado o exposto, Hall (2005) admite que a diferença caracteriza as sociedades
pós-modernas; os antagonismos e as divisões pelos quais estas são atravessadas
resultam em posições do sujeito diversas. Também para Woodward (2000), a
diferença marca a identidade, uma vez que ela é relacional. Só há identidade
porque existe diferença, e a demarcação dessa permite dividir a sociedade em
grupos distintos. Dessa forma, a construção do sujeito deve ser pensada
considerando-o um ente cultural, inserindo-o num espaço dinâmico e reconhecendo
ressonâncias históricas. Para a autora, uma vez que cada cultura enxerga o
mundo de forma particular, e esse modo de ver define quem é incluído ou
excluído numa sociedade, é a cultura que demarca essa fronteira e evidencia as
diferenças.
Assim, discute-se a identidade como uma produção histórica resultante de
construções discursivas capazes de institucionalizar e/ou legitimar poderes e
lugares. Compreender a construção da identidade por posições de sujeito implica
falar das instituições que desenvolvem e tornam convencional resultados bem-
sucedidos de articulações ou da fixação dos sujeitos nesses fluxos discursivos;
trata-se de um discurso capaz de produzir identificações e institucionalizar e
controlar uma forma de pensar a respeito dele. Daí a afirmação de que a
construção identitária está relacionada não apenas a esse controle
institucional, mas também à maneira como ele é distribuído, uma vez que, ao
falar-se de identidade cultural, aborda-se a sociedade e o modo como esta
responde a essa construção. Trata-se, portanto, de uma construção não
aleatória, mas advinda de um projeto histórico e político. O debate atual de um
sujeito descentrado, cujas identidades são construídas, resulta de um debate
anterior de teóricos que questionaram o caráter acabado dos sujeitos,
destituídos, pois, de historicidade (BAYART, 1996; HALL, 2005).
A concepção de identidades como atos linguísticos de criação é outro aspecto
que merece atenção. Isso significa admiti-las como formadas pela cultura e pela
sociedade, e não algo inato. Os signos formam-se por meio dos atos linguísticos
e, para que adquiram valor ou sentido, é necessário que estejam inseridos numa
interminável cadeia de distintas marcas gráficas ou fonéticas. Tais atos
linguísticos tornam possível a comunicação e a compreensão mútua entre
indivíduos de uma mesma comunidade, uma vez que estes compartilham um sistema
de regras relacionado à produção discursiva. O discurso, por sua vez, legitima
o que é ser homem/mulher e que atitudes se esperam de cada um na sociedade
(BENVENISTE, 2000; SILVA, 2000).
A língua torna-se fundamental à compreensão do processo de construção
identitária, na medida em que é um contrato coletivo firmado pelos membros de
uma comunidade para que possam comunicar-se. Isso se deve ao fato de a língua
legitimar lugares, uma vez que se instituem a identidade e a diferença como
tais através dos atos de fala. Assim, é o conjunto de regras linguísticas de
cada comunidade que as diferencia entre si. É importante destacar, porém, a
instabilidade da linguagem, já que o signo, como marca que ocupa o lugar de
outra coisa, não apresenta nada que remeta a algo existente, representando algo
em detrimento daquilo que ele não é. A diferença é, portanto, o que marca o
signo, e os outros signos e contexto social constituem a base na qual sua
existência adquire sentido, como identidade e diferença (BENVENISTE, 2000;
SILVA, 2000).
3. IDENTIDADE DE GÊNERO
Pensada outrora como algo biologicamente determinado, a identidade de gênero é
hoje social e culturalmente construída, a depender de onde e com quem se está.
O gênero é algo socialmente moldado, condicionado a regras que determinam o
feminino e o masculino. O pertencimento a este ou àquele gênero é julgado com
base em convenções e comportamentos prescritos. Isso, por sua vez, reflete uma
conotação histórica, a institucionalização de convenções que delimitam o que é
ser homem e mulher, aprisionando regras, hábitos e comportamento num conceito.
Essa identidade de gênero, porém, torna-se um produto cultural flexível na pós-
modernidade, um instrumento de autoexpressão, tornando o gênero apenas um dos
diversos componentes da identidade, uma vez que ele tem seus significados
concretos desconstruídos. O que fora estabelecido como coisa de homem, na
modernidade fragmenta-se, possibilitando novas configurações na construção de
identidade de gênero. As ideias tradicionais de masculino e feminino são
consideradas ultrapassadas e ilusórias na sociedade pós-moderna. Em seu lugar,
observam-se caminhos que apontam para novas direções, certezas que se tornam
incertas e a formação de novas identidades de gênero (KACEN, 2000; MAC AN
GHAILL, 2000).
Para Louro (1999), a ideia de gênero inscreve-se na cultura, utilizando, pois,
marcas criadas e estabelecidas pelas relações sociais. Os traços que definem as
identidades masculina e feminina não são inatos, mas determinados pela
distinção que a sociedade faz acerca daquilo que é essencial e característico
de um ou outro. Dessa forma, pode observar-se que não são as genitálias que
determinam a identidade de gênero, mas, sim, a sociedade. Assim, se é o
contexto sociocultural que molda essa identidade, a família, os amigos, a
escola, entre outros, servem de referência a essa construção.
A imagem do homem no passado estava associada a força, dominação e sustentação
da família. Já as mulheres, uma vez consideradas frágeis e dóceis, eram
responsáveis pelos cuidados com o ambiente doméstico e os filhos. Com base
nessa construção, a feminilidade era subvalorizada, e a masculinidade,
supervalorizada. Com a pós-modernidade, porém, as identidades de gênero
hibridizam-se, a exemplo de homens que podem assumir sua sensibilidade ao
chorar e mulheres que podem ocupar espaços na vida profissional e chefiar suas
famílias, não mais se limitando à esfera produtiva.
Na condição pós-moderna, a identidade de gênero deixa de ser algo natural para
converter-se num produto cultural flexível, um pastiche de possibilidades, que
permite a autoexpressão dos indivíduos. Nesse pastiche, os indivíduos
reconhecem-se, podendo homens e mulheres assumir, respectivamente, seus lados
feminino e masculino, sem que se tornem efeminados ou masculinizadas: apenas
apresentam atitudes e traços que outrora foram exclusivos do sexo oposto
(KACEN, 2000; MAC AN GHAILL, 2000).
Conforme defende Louro (1999), as identidades dos sujeitos são transitórias e
contingentes. Assim, a ideia de uma identidade única cede espaço para a
assunção de papéis de acordo com o contexto, a exemplo de uma mulher que é
dócil e carinhosa como mãe, mas agressiva como chefe de uma organização. Por
outro lado, homens que se posicionam como machos fora do ambiente doméstico
podem, nesse ambiente, revelar extrema sensibilidade, entre outras possíveis
configurações.
4. O CONSUMO COMO CONDIÇÃO DE IDENTIDADES [E] DE GÊNERO
Na sociedade contemporânea, ao abrir-se espaço a novas perspectivas, o consumo
recebe uma ênfase inédita nas discussões. Questiona-se a concepção utilitarista
do consumo, segundo a qual o indivíduo é centrado e sua decisão de compra é
orientada à mera satisfação de necessidades, não susceptível a influências. De
acordo com Firat (1991), a ênfase e a ordem das coisas têm sido invertidas no
projeto pós-moderno, deslocando-se a centralidade da produção para o consumo.
Para o autor, o consumo converteu-se num instrumento de autorrealização,
autoidentificação e de produção com a própria imagem. Consumir, em detrimento
de produzir, deixa de ser motivo de culpa, assim como o gasto deixa de ser um
pecado.
Segundo Baudrillard (2003), a ideia de consumo possibilita melhor compreensão
da identidade moderna. De acordo com o autor, a identidade é escolhida na
vitrine do mundo social plural; as ações, os objetos e as experiências que se
vivenciam de forma reflexiva são parte da necessidade de construir e manter a
identidade.
Nesse sentido, Leão e Mello (2007) admitem ser o consumo ' e não a produção ' o
motor das sociedades; com isso, os indivíduos tornam-se mais importantes na
condição de consumidores, e não de trabalhadores. Para eles, as experiências e
os significados advindos do consumo prevalecem sobre a relação satisfatória
custo-benefício. O consumo é dotado de um significado, para além da satisfação
de uma necessidade, tornando-se ato de significar na sociedade.
Isso confere ao consumo um importante papel na sociedade contemporânea, uma vez
que, como defende Slater (2002), relações sociais e identidades, com base em
recursos sociais, são construídas à medida que consumimos. Ao consumirmos
rotineiramente, construímos identidades e relações sociais a partir de recursos
sociais. Para ele, os bens realizam projetos identitários na medida em que os
consumidores optam por utilizá-los para afirmar o que são ou querem ser
(BOURDIEU, 1983; TASCHNER, 2000; BARBOSA e CAMPBELL, 2006).
Dessa forma, consumo e cultura misturam-se. Baudrillard (2003) admite que se
produzem e reproduzem relações sociais, cultura e a própria sociedade por meio
de formas de consumo específicas do ponto de vista cultural. O valor de cada
produto num contexto social é determinado pela cultura, portanto esta interfere
em formas de consumo. Se a visão econômica enfoca a individualidade, a
sociedade contemporânea marca o pertencimento a este ou àquele grupo ou
estrato, e não mais a religião ou a política. O consumo envolve, portanto,
rituais e significados responsáveis por estabelecer categorias e classificações
que produzem a ordem social.
Além dos já tradicionais papéis da escola, dos amigos e da família na
construção identitária, hoje há novas possibilidades nessa concepção; isso é
discutido por autores contemporâneos, a exemplo de Slater (2002), para quem o
uso de bens e serviços é parte da formulação das identidades sociais pelos
indivíduos.
Dessa forma, a identidade é construída tendo como centro o consumo, uma vez que
os significados simbólicos deste podem definir grupos de pertencimento. Aquilo
que um indivíduo consome revela muito de sua identidade e possibilita sua
interação com a sociedade na medida em que o situa em grupos específicos. A
identidade do indivíduo é, portanto, social e simbólica, uma vez que estabelece
uma relação com o que ele usa (SLATER, 2002; McCRAKEN, 2003; BARBOSA e
CAMPBELL, 2006).
Os conceitos de homem produtor e mulher consumidora oriundos da modernidade
perdem espaço na pós-modernidade, na medida em que a cultura de consumo
ascendente transforma todos em consumidores, anulando essa diferença. A
exigência do padrão de beleza feminina da modernidade torna-se ainda maior e
passa a aplicar-se também aos homens, desestabilizando a solidez do gênero
masculino. O que se observava, na modernidade, era a exigência do padrão da
beleza feminina. Na pós-modernidade, essa exigência permanece e torna-se cada
vez mais forte, mas começa a ser uma exigência também para o homem, o que
descaracteriza a estabilidade sólida do gênero masculino. A exigência de um
novo padrão de beleza masculino, que pressupõe homens atraentes, bonitos e bem-
cuidados, é um estímulo ao consumo (KACEN, 2000; GHILARDI-LUCENA, 2009).
Segundo Campbell (2006), no passado a posição ocupada em instituições e
associações, como família e trabalho, religião, etnia e raça, relacionava-se
muito mais fortemente à identidade do que o insignificante gosto pessoal, como
ocorre no presente. O significado de consumir, segundo o autor, relaciona-se
frequentemente à afirmação, à confirmação e mesmo à construção da identidade, o
consumo permite aos indivíduos recriarem-se, podendo adotar ou até trocar
identidades com a mesma facilidade com que se troca uma roupa.
A mídia, por sua vez, exerce forte influência nesse processo de
descaracterização ao mesmo tempo em que incentiva novas formas de consumo
(CHARAUDEAU, 2006). A imagem masculina, durante muito tempo, foi explorada na
propaganda sob a forma do marido ou homem de negócios, enquanto a feminina era
vinculada ao lar e à preocupação com a beleza. No presente, observa-se uma
mistura de papéis: mulheres como mães, mas também como profissionais; homens
como profissionais, mas também como pais. Invertem-se as ideias de papel de
homem e papel de mulher (BRAGA, 2003; GHILARDI-LUCENA, 2009).
5. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
A presente pesquisa é de natureza qualitativa. Para a coleta de dados,
utilizou-se a entrevista longa, um tipo de entrevista em profundidade
(McCRACKEN, 1988) que se baseia no uso do investigador como instrumento,
visando a um exame mais metódico e detalhado da experiência do pesquisador com
relação ao tema, o que lhe permite avaliar e relacionar incidentes,
pressupostos e associações a respeito do tema. Assim, o pesquisador dispõe de
propriedades sistemáticas advindas de sua experiência para distinguir o
estrutural do episódico e o cultural do idiossincrático. Isso sensibiliza o
pesquisador à forma como os entrevistados enxergam o tema abordado pela
pesquisa.
A realização de uma entrevista longa contempla duas partes, conforme propõe
McCracken (1988): elaboração do roteiro e realização da entrevista propriamente
dita. Na primeira etapa, o autor recomenda começar pelas questões biográficas,
o que oferece ao pesquisador alguns detalhes da vida do entrevistado, seguidas
de questões predefinidas enquadradas nas áreas de interesse da pesquisa. As
primeiras tendem a ser perguntas mais fáceis, uma vez que são não intrusivas,
permitindo depoimentos mais abertos. As específicas, por sua vez, requerem
postura mais intrusiva. O êxito e até mesmo a continuidade da entrevista
dependem muito dos primeiros minutos. Por isso, o pesquisador deve criar a
atmosfera necessária, utilizando a informalidade, perguntas simples e atitude
concordante e evitando posturas críticas. Cumprida essa etapa, o pesquisador
deve proceder às perguntas específicas. Os primeiros minutos das entrevistas
são fundamentais para seu prosseguimento e êxito.
A entrevista longa permite ao pesquisador, segundo Mc- Cracken (1988), adentrar
o universo mental do indivíduo e presu- mir a lógica e as categorias que este
opera ao ver o mundo, visuali- zar conteúdos e padrões de sua experiência
cotidiana. Dessa forma, o pesquisador pode experimentar o mundo do entrevistado
acessando sua mente sem, contudo, desrespeitar sua privacidade.
O corpus constitui-se de entrevistas realizadas com homens casados e solteiros,
com nível superior completo, classes A e B, na faixa etária dos 25 aos 45 anos,
residentes nas cidades do Recife, de João Pessoa e de Campina Grande.
Todavia, mais do que o perfil dos entrevistados, o impor- tante foi a
identificação de que se tratava de sujeitos com com- portamento metrossexual.
Para localizá-los, utilizou-se da estratégia bola de neve como critério, uma
vez que um metrossexual não é fácil de ser identificado: muitos deles não sabem
que o são ou, se sabem, desconhecem a nomenclatura ou receiam as- sumir-se como
tal, temendo atitudes preconceituosas.
Uma vez identificados, foram utilizadas questões-filtro no início das
entrevistas, com base na definição dada por Mittal, Holbrook e Beatty (2008),
para confirmação de que se tratava de metrossexuais. Essas questões referiram-
se à opinião dos respondentes sobre o que achavam de homens vaidosos e
preocupados com sua aparência e que despendiam tempo e dinheiro com o consumo
de produtos para tal finalidade. A sequência das entrevistas ' para aqueles que
demonstravam aprovação ao comportamento mencionado ' debruçou-se sobre a
exploração detalhada de suas atividades e seus rituais de consumo, uma vez que
a pesquisa associou o comportamento metrossexual a uma identidade cultural.
Além disso, suscitou que os respondentes estabelecessem diferenças entre esse
homem e aquele mais tradicional, uma vez que a identidade, conforme definida,
constrói-se por meio da diferença.
Uma vez que na pesquisa qualitativa, segundo Bauer e Aarts (2002), não se pode
precisar um tamanho ideal de corpus, não havia uma quantidade predefinida de
entrevistas a serem realizadas. Por ser uma pesquisa de natureza qualitativa, o
pesquisador não pode prever o número de entrevistas necessário (GODOI e MATOS,
2006), mas identificar, ao longo das entrevistas, quando elas começam a
assemelhar-se e a não oferecer mais informações necessárias à compreensão do
fenômeno (GASKELL, 2002).
Dessa forma, a saturação foi o critério utilizado para identificar o momento de
encerrar as entrevistas. Nas palavras de Bauer e Aarts (2002, p.59),
"saturação é o critério de finalização: investigam-se diferentes
representações, apenas até que a inclusão de novos estratos não
acrescente mais nada de novo".
No presente estudo, isso aconteceu na oitava entrevista, muito embora mais três
tenham sido realizadas no intuito de verificar se um novo dado surgiria,
resultando num total de 11 entrevistas, que duraram entre 40 a 60 minutos,
produzindo 135 páginas de transcrição. Além dessas, duas foram iniciadas e
interrompidas em razão de as questões-filtro terem apontado que os
entrevistados não eram metrossexuais.
Os dados foram analisados a partir da análise do discurso, procedimento oriundo
da virada linguística, quando a linguagem se tornou um problema central nas
discussões filosóficas do século XX. Essa forma não positivista de construção
do conhecimento baseia-se no pressuposto de que o sentido de um enunciado
depende do contexto em que foi feito, sendo o tempo e o espaço determinantes do
exercício da enunciação (FOUCAULT, 2002). Implica dizer que a sintaxe e a
semântica não dão conta da compreensão de um enunciado, uma vez que este não é
neutro ou isento de valor. Por exemplo, a oração "Meu carro está quebrado" pode
significar um pedido de carona ao ser dita entre colegas na saída do trabalho;
ou uma acusação, se dita por um comprador a quem lhe vendeu o automóvel; ou uma
justificativa, se dita por alguém ao chegar atrasado a um compromisso. Pêcheux
(2002) admite três possíveis características que a análise do discurso
apresenta para o analista: primeira, descrever e interpretar são
indissociáveis; segunda, todo enunciado é mais que um texto; e, terceira,
qualquer discurso é simultaneamente resultado de filiações sócio-históricas de
identificação e de deslocamento em seu espaço. Brandão (1997), nessa
perspectiva, aponta como principal diferença na análise do discurso a
possibilidade de leituras críticas e reflexivas que não limitam a análise a
aspectos linguísticos, mas, por outro lado, não o dissolvem num trabalho
histórico sobre a ideologia.
6. ANÁLISE DOS RESULTADOS
Entende-se por alteridade a relação de um sujeito refletida em outros sujeitos;
a forma como o sujeito constrói sua identidade por meio dos outros sujeitos, ou
seja, como ele define o próprio eu a partir da visão do outro, relação que faz
o sujeito ser ele mesmo (JOVCHELOVITCH, 1998).
Nesta investigação, a alteridade é expressa por meio de duas características '
aqui tomadas como dimensões: avaliação e imagem pessoal. Com base nessas
dimensões, foram encontradas categorias e subcategorias que as caracterizam,
conforme se observa na figura a seguir. A análise por meio da qual se chegou
aos resultados segue adiante. Vale, no entanto, tecer alguns comentários sobre
a apresentação dos resultados:
numa análise de discurso, o significado é extraído não apenas das
palavras usadas pelos respondentes, mas também do contexto, o que
leva à inferência sobre a necessidade de se considerarem quase sempre
longos trechos de texto. Devido às limitações de espaço, contudo,
optou-se por apresentar apenas pequenos trechos elucidativos das
interpretações;
Clique_para_ampliar
cada uma das subcategorias a que se chegou caracteriza-se por
diferentes facetas, o que recomendaria que se apresentasse mais de um
extrato de fala dos entrevistados para exemplificá-las. Todavia, mais
uma vez devido à limitação de espaço, optou-se por apresentar apenas
um ou dois extratos de fala para cada subcategoria;
cada uma das subcategorias é apresentada a partir de uma descrição,
com base empírica, de seu significado, seguida de um extrato de fala
que a elucide;
todos os extratos de fala do texto são seguidos de uma indicação do
tipo En-Ln-n, referente ao número cronológico da entrevista (E) e ao
intervalo de linhas (L) correspondentes de sua transcrição.
6.1. Avaliação
Entende-se por avaliação a importância da opinião do outro para o metrossexual.
É como se o outro fosse o avaliador do metrossexual. O julgamento do outro
interfere em seu comportamento. Nesta dimensão encontram-se duas categorias:
preconceito e apoio.
6.1.1. Preconceito
O preconceito diz respeito a opiniões formadas anteriormente a respeito de
alguma coisa, é uma ideia preconcebida. Essa categoria apresenta duas
subcategorias que a explicam e a identificam, tornando possível sua
compreensão: preconceitos relacionados à masculinidade e à sexualidade do
metrossexual.
Masculinidade
A primeira dessas subcategorias refere-se a quando os entrevistados apontam em
seus discursos alguma coisa referente ao preconceito relacionado à sua condição
de homem, ou seja, quando a sociedade aponta aspectos do comportamento
metrossexual como destoantes do que seja ser homem. Apesar de receber críticas
por sua postura, o metrossexual apresenta tranquilidade em relação a esse
preconceito e assume que sua masculinidade não vai ser definida por
determinados comportamentos que ele passa a assumir, antes vistos como
femininos.
"Eu acho que a convivência maior com o sexo feminino fez com que se
perdessem aqueles valores que homem não chora, que homem não se
arruma, que homem... não faz isso ou aquilo, homem não brinca de
boneca, não brinca disso, não faz aquilo" (E6-L13-15).
Sexualidade
A segunda subcategoria de preconceito refere-se a quando os discursos dos
entrevistados indicam a existência de preconceito em relação a sua sexualidade,
ou seja, a sugestividade de uma orientação homossexual por parte dos
metrossexuais. O preconceito do outro em relação à sexualidade do metrossexual
é evidente, mas o metrossexual entende que isso seja um tabu que precisa ser
quebrado.
"Não necessariamente você é vaidoso e é homossexual. [...] Eu
conheço alguns homossexuais muito sujos [risos], não vaidosos,
imundos... Que alguns homens até teriam nojo... [...] dessa questão
do não se preocupar com a aparência. E conheço muitos homens que não
são homossexuais e são muito vaidosos. Se preocupam muito com a
aparência" (E1-L.382-387).
6.1.2. Apoio
Apoio, a segunda categoria da dimensão avaliação, é oposta à primeira. Refere-
se à opinião de os outros posicionarem melhor o metrossexual em relação a suas
escolhas, o que lhe propicia uma segurança maior. Nesta categoria há quatro
subcategorias que discutem como é esse apoio. São elas: elogio, respeito,
aprovação e aval.
Elogio
O elogio diz respeito ao fato de o outro apontar algo de forma positiva na
aparência do metrossexual, demonstrando admiração. O metrossexual tem seu ego
acariciado com os elogios; significa chegar ao nível da pretensão desejada; é
gratificante e parece alimentar ainda mais sua identidade.
"Durante o dia tem a questão do trabalho... e no trabalho é isso,
essa preocupação de estar bem-vestido, de estar cheiroso... É
justamente porque eu gosto muito quando chego no trabalho e alguém
diz 'Hummm que cheiro! Que coisa! Ah como tu se cuida!'. Isso pra mim
é gratificante [risos]. É como se fosse 'Eu consegui! Hoje eu
consegui [risos] mais um elogio!'" (E1-L.153-157).
Respeito
O metrossexual acredita impor mais respeito por ter uma aparência mais bem-
cuidada. Com isso, acredita ser mais bem-tratado, ter uma consideração maior
por parte dos outros. Entende que, mesmo que tenha dinheiro e seja bem-
sucedida, uma pessoa, se não demonstra isso em sua aparência, passa
despercebida e não é tão bem-tratada e respeitada.
"Se preocupar com a aparência, hoje, é uma questão essencial pra se
viver, nessa sociedade capitalista em que a gente vive, em que as
pessoas olham pra você e lhe tratam como você está naquele momento.
Você pode ser até um grande executivo, [mas] se você estiver com uma
aparência fragilizada, ou maltrapilho, enfim, você vai ser tratado de
um modo diferente de uma pessoa que tá com uma aparência boa, que tá
com a barba feita, que tá com o cabelo cortado, que tá com uma roupa
melhor, que tá com a roupagem adequada pra aquele ambiente..." (E5-
L.98-106).
Aprovação
O metrossexual busca também a aprovação do outro. Apesar de ter opinião
própria, o que os outros acham dele tem grande importância e por isso quer
estar bem para o outro, preocupa-se com a imagem que passa.
"Eu acho que todo homem vaidoso, assim como eu [risos], está
preocupado tanto com o que os outros pensam como o que ele pensa. Eu
acho que ele tá mais preocupado em estar bem consigo mesmo, mas ele
tá muito preocupado com o que os outros tão pensando. Ele quer estar
bem pra ele e pra os outros. Ele tá preocupado se as pessoas que
estão olhando pra ele estão o vendo bem ou mal... se está mais gordo,
mais magro, enfim, ele se preocupa com ele, mas ele se preocupa, no
meu ver, muito mais com os outros" (E5-L.55-61).
Aval
O metrossexual faz as próprias escolhas, mas ele também gosta do aval de
alguém, ou seja, muitas vezes ele pede opinião para confirmar suas escolhas em
relação à aparência.
"Eu mesmo boto uma roupa trezentas vezes; boto, tiro... pra ter
certeza que ela ficou boa em mim, né? Aí levo alguém comigo para me
dar uma opinião, pra ver se realmente tá legal, porque eu olho uma
coisa e a pessoa não... Isso aí me mostra um defeito, né? Aí eu digo
'então tá', e observo, né?" (E9-L.97-101).
Nesse sentido, a mulher não tem mais o mesmo papel que exer- cia antes em
relação às compras do homem; ela deixa de ser fundamental nesse aspecto, ainda
que possa participar com sugestões, mas sem que a decisão final seja sua.
"Ele mesmo vai comprar a roupa dele sozinho... Às vezes não leva
nem a mulher, ou a esposa, ou a namorada, pra que ela não influencie
nesse gosto dele. Então, ele mesmo vai, veste a roupa, olha a roupa,
[...] e leva aquela roupa até mais pelo que ele viu, como ele ficaria
naquela roupa, por ele ter se sentido muito bem" (E5-L.269-274).
6.2. Imagem pessoal
A segunda dimensão de dados deste trabalho refere-se à imagem pessoal. O
metrossexual acredita que imagem é fundamental na sociedade em que se vive.
Nesta dimensão encontram-se duas categorias: benefícios e autenticidade.
6.2.1. Benefícios
A primeira categoria refere-se às vantagens que o metrossexual percebe ganhar
em ser cuidadoso. Ele acredita que passar uma boa imagem para o outro lhe
propicia grandes proveitos, uma vez que o outro valoriza muito a imagem
pessoal. Isso é evidenciado por meio de duas subcategorias: trabalho e relações
pessoais.
Trabalho
O metrossexual preocupa-se com a imagem que passa no trabalho e entende que as
empresas hoje exigem uma boa aparência, pois a imagem do funcionário torna-se o
cartão de visita da empresa. O benefício de apresentar uma boa imagem pessoal
ao outro ajuda na hora de uma entrevista ou de uma contratação. Ele acredita
que, por ter uma imagem bem-cuidada, por cuidar de si, os outros verão nele uma
pessoa mais zelosa e mais responsável.
"Eu acho que a aparência consegue transmitir quem você é, um pouco
da personalidade da pessoa, e as empresas também estão preocupadas,
porque no fundo, no fundo, de certa forma, você tá transmitindo um
pouco da empresa, então a empresa começa a cobrar essa aparência
também nos funcionários [...] Quer dizer, a empresa é uma instituição
imaginária, né? É um CNPJ cadastrado num órgão público, mas quem faz
a empresa são as pessoas" (E8-L.44-52).
Por outro lado, o metrossexual entende que uma imagem mais desleixada pode
gerar nos outros certa descrença em relação à capacidade de um profissional.
"Você pode ser um excelente profissional, [...] [mas] não passa
credibilidade, entendeu? Porque você vê o currículo super-rico e você
vê na realidade uma pessoa relapsa... Então eu não sei, se eu
encontrasse na rua, se eu teria a mesma percepção, né? Acho que
também tem muito isso. De certa forma também isso gera um pouco de
conflito. Por quê? porque você tá acostumado a ver as pessoas onde
elas trabalham, então, quando você vai ver elas [sic] no dia a dia,
às vezes choca!" (E8-L.198-210).
Relações pessoais
Os benefícios em relação à imagem pessoal também são percebidos nas relações
pessoais. Na concepção do metrossexual, as pessoas buscam pessoas mais bem-
cuidadas, que passem uma imagem mais bonita, mais atrativa, seja em relação aos
relacionamentos afetivos, seja nas amizades.
"[...] a facilidade de se relacionar com as pessoas, como amizades
ou romances ou tudo... o relacionamento com as pessoas acaba ficando
mais fácil, é mais fácil se aproximar dos outros quando você tem uma
boa aparência, isso eu acho que é o lado bom da vaidade" (E3-L.6-9).
6.2.2. Autenticidade
O metrossexual também crê ser percebido pelo outro como autêntico, ou seja, que
o outro vê no seu jeito de ser algo para espelhar-se. Isso pelo fato de o
metrossexual ser como é e de não sentir vergonha disso. São três as
subcategorias que caracterizam a autenticidade: ser referência, suscitar inveja
e expressar sentimento.
Ser referência
O metrossexual acredita que chama a atenção e faz com que as pessoas tenham
nele uma referência, um modelo a seguir. Defende que os bons exemplos devem ser
seguidos e ele se considera um bom exemplo por cuidar de si.
"Quando eu viajo com alguns amigos e levo minha pochete de cremes
[eles dizem] 'Não acredito, tu usa tudo isso!'. Mas todos que saíram
comigo hoje usam um creme ou outro, pode não usar todos, mas vai
vendo que você tem uma pele melhor, que clareia os dentes... [...] Se
você tem um exemplo positivo, você tende a seguir, entendeu? É como
filho, o filho aprende com o modo que o pai vive. Eu não posso dizer
a meu filho 'Não chame nome' se eu chamo nome; eu não vou dizer a meu
filho 'Você tem que ir pro colégio arrumado, limpo, penteado', se eu
não me comporto assim" (E6-L.169-179).
Suscitar inveja
Outra sensação percebida pelo metrossexual no outro é a inveja. Ele acredita
despertar inveja no homem que não se cuida, pois este, na verdade, deseja ser
como ele.
"[...] às vezes ele se veste até maltrapilho pra ferir, pra agredir
o homem vaidoso, às vezes ele tenta argumentar, radicalmente,
[contra] tudo o que o homem vaidoso está dizendo, pra agredir, mas na
verdade ele queria ser aquele homem vaidoso, ele queria estar bem,
ele queria também estar com aquele corpo, ele queria também estar com
aquele estilo de roupa. E aí, eu acho que é mais um refúgio do homem
não vaidoso... [...] ele acha que não conseguiu aquilo, talvez
tentou, ou talvez ele acha que não vai conseguir, então ele se
refugia, [...] ele cria aquele mundo dele e vê isso aqui como uma
ignorância, uma aberração... uma coisa que não deveria existir, que
isso ficou pras mulheres, mas na verdade, eu penso que ele quer ser
vaidoso, ele quer estar bem. Quem é que não quer?" (E5-L.388-401).
Expressar sentimentos
Ao contrário dos homens que seguem o que foi construído para eles durante o
decorrer dos tempos, o metrossexual expressa seus sentimentos e entende que
isso é bom, que o faz humano.
"[...] eu vejo como homens sinceros. Porque, sentimentos, todo
mundo tem, o homem tem também, o homem chora, o homem fica triste,
fica feliz, tem raiva, tem tudo. Homens e mulheres têm sentimentos da
mesma forma, mas ainda existe esse preconceito, né?, do homem que não
chora, do homem que é macho, que não pode se preocupar em ficar
bonito... Eu particularmente acho isso a maior besteira. Todo homem
tem sentimento e acho que tem mais é que mostrar mesmo, [...] acho
que é preconceito a pessoa recriminar o outro só por ser mais
sentimental do que outros" (E3-L.189-196).
Apesar disso, o metrossexual também entende que deve ter cautela ao demonstrar
os sentimentos, por ter cuidado com sua imagem em relação ao outro. Então, essa
demonstração não deve ser exagerada; deve ocorrer nos lugares e nas horas
apropriadas.
"[...] eu acho que tem que ser exposto, agora, é claro, eu acho que
ele tem que ser exposto na hora certa, da forma certa, [...] a partir
do momento que você entra na empresa e você tem um compromisso ali,
por mais que você tenha um problema pessoal fora, não dá para você
confundir as coisas, talvez até mude com certeza; o seu humor, ele
vai mudar, não dá pra você na verdade conseguir ser máquina o
suficiente pra fechar uma janela e deixar só a outra ligada, mas você
tem que saber ministrar muito bem isso, a mesma coisa que eu digo o
contrário, não é porque você tem um problema no trabalho... eu posso
até trazer e dividir esse sentimento com uma pessoa, porque a pessoa
que está ao meu lado vai entender vai saber por que eu estou
preocupado..." (E8-L.440-449).
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na presente pesquisa, visou-se contribuir para o conhecimento ainda incipiente
do consumidor metrossexual. Os resultados ora apresentados apontam a
importância do outro para a formação identitária desses sujeitos. O que esses
achados parecem demonstrar a esse respeito refere-se ao dilema em que os
metrossexuais se encontram. Se, por um lado, seus comportamentos são fidedignos
do contemporâneo, por outro, ainda existem barreiras sociais que os controlam.
As duas dimensões deste estudo apontam nesse sentido. Ao mesmo tempo em que o
comportamento metrossexual demonstra uma busca de construção da imagem pessoal
para o outro, detém-se à avaliação que esse outro fará. Nesse aspecto, vê-se
uma luta entre o preconceito e a busca de apoio; em relação à imagem pessoal,
uma busca de autoexpressão, mas também de ganhos por meio dela. Incoerência?
Talvez, sim. Mas certamente um tipo de incoerência pertinente à própria
condição da subjetividade na pós-modernidade (FIRAT, DHOLAKIA e VENKATESH,
1995; ELLIOTT, 1997; FIRAT e SHULTZ II, 1997).
Uma vez que a identidade se desvela apenas na diferença (WOODWARD, 2000; HALL,
2005), o outro do consumidor metrossexual é justamente o homem tradicional da
sociedade patriarcal. E é justamente em relação a ele que seu dilema se coloca.
Ao mesmo tempo em que se afirma pela negação de valores masculinos
tradicionais, o metrossexual mostra-se desejoso de ser legitimado por uma
sociedade ainda perplexa com as recentes configurações culturais que põem em
xeque, dentre outros, as identidades fixas.
No plano teórico, há o desafio e a possibilidade de iniciar uma construção
teórica que permita compreender esse fenômeno como reflexo de uma nova
identidade; esta, por sua vez, carrega um traço significativo da pós-
modernidade: o consumo na construção identitária.
Para a Administração de Marketing, identificou-se uma la- cuna no conhecimento
que merece ser preenchida tendo em vista o potencial de consumo do
metrossexual. O presente estudo indica a possibilidade de abordar não somente o
sujeito metrossexual, mas a rede que o envolve, que é passível de legitimar seu
comportamento de consumo.
Dessa forma, compreende-se esta pesquisa como apenas um dos primeiros passos
nas proposições ora apresentadas. O entendimento do fenômeno tende a ser
ampliado se realizadas pesquisas em outras localidades ou culturas diversas,
bem como pela aplicação de métodos distintos do utilizado, tais como
etnografia, passíveis de apontar aspectos que ficaram latentes numa abordagem
direta como a entrevista.