Desenvolvimento e avaliação de instrumentos de triagem nutricional
INTRODUÇÃO
No Brasil e no mundo, vários estudos têm constatado elevada prevalência de
desnutrição em pacientes hospitalizados(1). Em 1997, o IBRANUTRI(2)(Inquérito
Brasileiro de Avaliação Nutricional Hospitalar) avaliou cerca de quatro mil
pacientes e observou desnutrição em praticamente metade da amostra. Em 2003, no
ELAN(3)(Estudo Latino Americano de Nutrição), realizado em treze países,
inclusive o Brasil, a frequência de desnutrição observada foi de 50,2%, e
recentemente, um estudo conduzido em um hospital público de São Paulo,
identificou 27,9% de pacientes em risco nutricional(4).
A desnutrição em indivíduos hospitalizados é consequência de uma série de
fatores, anteriores e posteriores à hospitalização, podendo estar associada à
doença e/ou ao tratamento. São várias as situações clínicas que podem causar
perda de apetite ou dificultar a ingestão alimentar, além de procedimentos de
investigação e intervenção acarretarem a necessidade constante de jejum ou
alterações na dieta(5).
Em países em desenvolvimento, os pacientes são frequentemente internados
desnutridos, uma vez que as precárias condições sócio-econômicas e um
ineficiente sistema de saúde são incapazes de evitar a desnutrição e
identificar precocemente pacientes em risco de desnutrição(2-3).
O diagnóstico nutricional do paciente hospitalizado pode ser obtido por vários
métodos tradicionais, baseados em avaliações objetivas, como antropometria e
perda de peso, avaliação de sinais clínicos indicativos de desnutrição,
comprometimento de exames bioquímicos, que detectam redução nas taxas de
proteínas plasmáticas e de células mediadoras da imunidade, além da avaliação
de consumo alimentar. Não existe um instrumento considerado padrão-ouro para a
avaliação do estado nutricional, e é a síntese de dados disponíveis que
possibilita o diagnóstico nutricional(6).
A avaliação nutricional de um paciente pode ser precedida pela identificação do
risco de desnutrição ou risco nutricional. Em 1994, a ADA (American Dietetic
Association)(6)definiu risco nutricional como a "presença de fatores que podem
acarretar e/ou agravar a desnutrição em pacientes hospitalizados" e a ASPEN
(American Society Parenteral and Enteral Nutrition)(7)considera que os fatores
de risco que podem comprometer o estado nutricional são perda de peso, doença
crônica, aumento de necessidades nutricionais, alterações dietéticas e a
necessidade de suporte nutrição enteral ou parenteral.
Os instrumentos para a identificação de pacientes com risco nutricional são
denominados instrumentos de triagem nutricional, que deve ser realizada na
admissão do paciente e se basear em medidas e procedimentos fáceis, rápidos e
de baixo custo. Além disso, deve ser simples e identificar o risco atual ou
potencial de desnutrição, podendo ser aplicada por qualquer profissional de
saúde na admissão hospitalar, principalmente pelo enfermeiro, responsável pela
triagem clínica(6-7).
Os instrumentos de triagem nutricional podem ser desenvolvidos por vários
métodos. Geralmente se baseiam no levantamento e avaliação de variáveis
preditivas de desnutrição(8-9). Os fatores de risco são determinados a partir
de um estudo inicial de identificação ou são selecionados de outros estudos.
Uma pontuação é estabelecida para cada variável, arbitrária ou
estatisticamente, e a partir dos coeficientes de regressão os resultados são
comparados a um instrumento validado.
Os instrumentos de triagem são aqueles que devem identificar precocemente
pacientes que necessitem de intervenção nutricional. Em 2002, a ESPEN (European
Society Parenteral and Enteral Nutrition)(10)publicou um Guideline for
Nutrition Screening recomendando a utilização de dois instrumentos que vem
sendo frequentemente utilizados em nosso meio.
A prevenção e o tratamento da desnutrição constituem um importante objetivo
clínico. Um diagnóstico adequado é essencial para que uma terapia nutricional
seja iniciada o mais breve possível e a utilização de um método de
identificação de risco que seja confiável, de fácil e rápida execução, baixo
custo e não invasivo é imprescindível para a ação da equipe de saúde em
benefício do paciente durante a hospitalização.
Uma vez que, na prática clínica, muito poucos hospitais utilizam o processo de
triagem nutricional, o objetivo desse estudo foi descrever o desenvolvimento e
a avaliação de instrumentos para identificação de risco de desnutrição em
pacientes hospitalizados.
CASUÍSTICA E MÉTODOS
Estudo epidemiológico observacional do tipo transversal, realizado em um
hospital localizado na cidade de São Paulo-SP. A casuística para o presente
estudo foi constituída por indivíduos adultos, de ambos os sexos, com idade
entre 18 e 64 anos, hospitalizados por motivos clínicos ou cirúrgicos.
Considerando-se a prevalência de desnutrição em torno de 50%(2-4), estimou-se
uma amostra de 300 pacientes. Os critérios de exclusão estabelecidos foram:
indivíduos impossibilitados de se comunicar, de serem avaliados por parâmetros
antropométricos, admitidos por motivos obstétricos ou psiquiátricos e em alguma
condição clínica que envolvesse variações de hidratação e fossem constatadas no
momento da entrevista e avaliação antropométrica.
Os pacientes foram sorteados a partir da lista de internação. Os prontuários
foram analisados antes da entrevista e o paciente selecionado foi esclarecido
sobre os objetivos e assinou um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A
pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Saúde
Pública da USP, protocolo n° 828.
Os dados foram obtidos a partir de um questionário composto por seis blocos de
dados relacionados a: identificação do paciente (dados pessoais e sócio-
demográficos); informações clínicas (motivo da internação e diagnóstico); dados
nutricionais (avaliação de apetite e alterações no trato digestório); dados
sobre consumo alimentar (mudanças alimentares recentes e descrição da dieta
atual); observação de sinais clínicos de deficiências nutricionais (observação
de cabelos, pele, unhas, olhos, boca, ossatura, musculatura e edema) e
avaliação de dados antropométricos (mensuração e avaliação de peso,
circunferências e dobras cutâneas). O questionário foi elaborado a partir dos
critérios recomendados pela ADA(6).
As medidas antropométricas foram realizadas no momento da entrevista e
coletadas por um único avaliador a fim de evitar vieses de coleta e
interpretação. O peso e a estatura foram mensurados com balança e estadiômetro
portáteis. As medidas de circunferências corporais (braço e panturrilha) e
dobras cutâneas (tricipital e subescapular) foram tomadas com o paciente em pé
e realizadas três vezes para a obtenção de um valor médio. Foram utilizadas as
técnicas recomendadas por Frisancho (1990) e a análise realizada a partir de
tabelas de percentis(11).
O peso foi medido em quilograma (kg) e o equipamento utilizado foi uma balança
da marca PLENNA®, modelo MEA 07400. Os indivíduos foram pesados descalços e em
trajes leves. A estatura foi obtida por um estadiômetro eletrônico, modelo
5001, da marca SOEHNLE®, com os indivíduos descalços, em posição ortostática.
Para o cálculo do índice de massa corporal (IMC) o peso (kg) foi dividido pela
estatura (m) ao quadrado. As circunferências do braço e panturrilha foram
obtidas com uma fita métrica inelástica de um centímetro de largura e as dobras
cutâneas avaliadas por meio de um adipômetro do tipo Holtain Skinfold Caliper(0
a 40 mm x 0,2 mm).
Com relação aos dados sobre o consumo, foi levantada uma dieta habitual antes
da internação e analisada pelo Programa VIRTUAL NUTRI(12), obtendo-se o valor
energético total (VET). O VET foi comparado às necessidades do paciente,
estimadas a partir da equação de taxa de metabolismo basal desenvolvida por
Harris e Benedict, adotando-se o múltiplo de atividade física muito leve (1,3)
e um fator injúria da doença(13), e o critério estabelecido para a inadequação
na ingestão foi < 75% das necessidades energéticas estimadas.
O diagnóstico nutricional antropométrico (DNA) foi estabelecido a partir da
recomendação da literatura(11) e o critério adotado para desnutrição foi
presença de ao menos um dos seguintes fatores: IMC < 18,5 kg/m2; IMC< 20,0 kg/
m2 com história de perda de peso recente e não intencional; dobra cutânea
tricipital (DCT) ou subescapular (DCSE) ou o somatório de ambas < percentil 5;
dobra cutânea tricipital (DCT) ou subescapular (DCSE) ou somatório de ambas <
percentil 15, se associada a perda de peso recente e não intencional; perda de
peso recente e não intencional > 3% em um mês ou em velocidade de perda
semelhante, ou>5% nos últimos seis meses, ou em qualquer período que o paciente
não soubesse especificar, mas referisse ser recente e não intencional.
Para análise estatística dos dados, optou-se pelo método de regressão logística
(8-9), com o objetivo de avaliar o efeito de cada variável no risco de
desnutrição. Foi estabelecida a desnutrição como variável dependente e quarenta
e cinco variáveis foram consideradas independentes. A desnutrição foi
considerada uma variável binária (ausência ou presença) e a força da associação
entre as variáveis foi expressa em valores de razão de chances ou odds ratio
(OR), com intervalo de confiança de 95% (IC 95%) e nível de significância
estatística de 5%. A análise das variáveis que poderiam estar associadas à
desnutrição foi inicialmente realizada pelo teste qui-quadrado, seguido da
análise múltipla pela estratégia de modelagem stepwise backward. A análise
estatística foi realizada pelo software SPSS (Statistical Package for Social
Science- versão 10.0 for Windows).
A partir dos resultados obtidos foi desenvolvido um instrumento de triagem
nutricional denominado TRINUT (abreviações das palavras triagem nutricional).
Cada variável obtida na análise estatística recebeu um valor numérico
estabelecido a partir dos valores do coeficiente de regressão (b), submetidos a
ajustes matemáticos (o coeficiente de regressão foi dividido por 2 e
arredondado para um número inteiro). O objetivo do valor atribuído a cada
variável foi permitir um escore final e sua avaliação a partir de pontos de
corte(8-9). O TRINUT foi aplicado na mesma população e foram avaliadas a
sensibilidade e especificidade dos escores, utilizando-se o resultado do
diagnóstico nutricional antropométrico como padrão-ouro.
Os resultados do TRINUT foram comparados a dois instrumentos de triagem
nutricional recomendados pela ESPEN(10): NRS 2002 e MUST. O NRS 2002
(Nutritional Risk Screening) foi desenvolvido a partir de uma meta-análise e é
composto por quatro questões de uma triagem inicial para a avaliação de risco
nutricional: IMC menor que 20,5 kg/m2, perda de peso nos últimos três meses,
redução na ingestão alimentar na última semana e a gravidade da doença ou
estado atual. Para uma única resposta positiva, uma segunda parte composta
pelas mesmas questões pontuadas permite avaliar o risco de desnutrição pela
avaliação de um escore e um ponto de corte (maior ou igual a 3). O MUST
(Malnutrition Universal Screening Tool) é baseado em variáveis relacionadas à
avaliação do Índice de Massa Corporal (IMC), perda de peso observado nos
últimos seis meses e ingestão alimentar inadequada por mais de cinco dias.
A análise de concordância entre o instrumento desenvolvido e os validados e
recomendados pela ESPEN (European Society Parenteral and Enteral Nutrition)
(10)foi realizada utilizando-se o coeficiente de kappa, e considerado adequada
concordância se maior ou igual a 0,60.
RESULTADOS
A população foi composta por 300 indivíduos hospitalizados, sendo 52,7% do sexo
feminino e 47,3% masculino. A faixa etária mais frequente foi a de 30 a 49 anos
e a idade média observada foi de 45,2 anos (DP= 11,8 anos). A desnutrição
ocorreu em 60,7% da amostra e a maioria entre homens (73,2%).
Na análise estatística inicial, trinta variáveis apresentaram associação com a
desnutrição e quinze mantiveram na regressão simples (p<0,05) e foram
organizadas a partir da maior frequencia na amostra (Tabela_1).
Considerando-se as quinze variáveis associadas à desnutrição, "perda de peso"
foi a mais frequente (64% da amostra e em 91,2% dos desnutridos) (Tabela_1). A
maior frequência no percentual de perda em relação ao peso habitual foi 10 a
20% (29,3%), no período de 1 a 3 meses (43,2%) e a quantidade média de perda
foi 15,8 kg (DP=8,6 kg). Na avaliação dos sinais clínicos de desnutrição, a
variável "ossatura aparente" foi constatada em 37,7% da população e em 98,2%
dos desnutridos (Tabela_1).
A variável "alterações de apetite antes da internação" foi referida por 39,7%
da população estudada e 92,4% apresentou desnutrição (Tabela_1), e o período de
duração mais referido (46,2%) foi de 1 a 3 meses.
Entre as alterações recentes no trato gastrintestinal, as mais frequentes foram
"alterações gástricas" (36,7%) e "náuseas e vômitos" (23,3%). A variável
"diarreia" foi pouco frequente (13,3%), mas 82,5% daqueles que apresentaram
estavam desnutridos.
Com relação às variáveis associadas à dieta atual, "mudanças recentes na
alimentação" foram referidas por 40,7% da população (Tabela_1) e as
modificações mais frequentes foram alterações na quantidade, tipo e frequência
de alimentos (96,7%). Na avaliação da adequação da ingestão energética,
observou-se que 48,0% não atenderam às necessidades individuais e destes, 81,9%
apresentaram desnutrição (Tabela_1). O consumo energético médio observado foi
de 1507,0 kcal (DP=763,8 kcal) e a média entre os desnutridos (1241,7 kcal;
DP=711,5 kcal) foi estatisticamente menor (p<0,05) que a média entre os
pacientes não desnutridos (1916,1 kcal; DP=655,5 kcal).
Com relação a variável "autoavaliação da saúde", 53,0% consideraram sua saúde
atual adequada, mesmo com a presença de doença e necessidade de internação
hospitalar.
Considerando-se o diagnóstico na internação e o tipo de tratamento, observou-se
que, a maioria recebeu tratamento clínico (63,3%) e o câncer foi presente em
43,3% da amostra, e a maior parte dos indivíduos com câncer apresentou
desnutrição (69,2%).
As variáveis associadas à desnutrição foram submetidas a um modelo de regressão
logística múltipla e, apesar de idade não ter apresentado associação
significativa, permaneceu como variável de ajuste. As variáveis que
permaneceram associadas foram: perda de peso recente e involuntária, ossatura
aparente, redução de apetite, diarreia, ingestão energética inadequada e sexo
masculino. O coeficiente de regressão obtido foi ajustado matematicamente
(dividido por 2 e arredondado) para seu valor gerar a pontuação no
desenvolvimento do instrumento de triagem (Tabela_2).
Na avaliação do uso das variáveis associadas à desnutrição para a elaboração de
um instrumento de triagem nutricional, optou-se pela exclusão do sexo
masculino, considerando uma provável característica da amostra. A variável
ingestão energética inadequada também foi substituída, uma vez que sua obtenção
não é rápida e depende da avaliação do consumo e da comparação com as
necessidades energéticas do paciente, sendo substituída pela variável
relacionada a mudanças recentes na alimentação. Na elaboração final do TRINUT
as variáveis foram ajustadas a perguntas descritivas (Tabela_3).
A partir da pontuação individual de cada variável determinada pelo ajuste
matemático do coeficiente de regressão (b), foram avaliados pontos de corte
segundo a obtenção de sensibilidade e especificidade. Os resultados foram
comparados com o diagnóstico nutricional antropométrico (DNA) e o escore de
"dois pontos" apresentou a sensibilidade de 0,97 e a especificidade de 0,87,
isto é, o mais próximo ao valor 2,0, e o escore igual ou maior a dois pontos
foi utilizado no instrumento de triagem nutricional sugerido pelo estudo
(TRINUT).
Segundo os critérios adotados, o TRINUT apresentou adequada concordância com o
diagnóstico nutricional antropométrico (DNA) (k=0,86) e com o instrumento NRS
2002 (k=0,75) (Tabela_4).

DISCUSSÃO
Instrumentos de triagem nutricional têm sido desenvolvidos a partir do estudo
de variáveis preditivas de desnutrição observadas na população em que se
aplicam(14-20). Um instrumento considerado de referência em triagem nutricional
é a Mini Avaliação Nutricional (MAN)(14), que foi desenvolvido com o objetivo
de identificar o risco de desnutrição em idosos. É um instrumento composto por
observações simples e rápidas, divididas em medidas antropométricas (peso
atual, estatura e perda de peso recente), avaliação global (estilo de vida,
medicamentos utilizados e mobilidade), questionário dietético (número de
refeições diárias, consistência da dieta e autonomia na alimentação) e
autopercepção das condições de saúde.
Com relação ao procedimento de identificação das variáveis associadas à
desnutrição, o uso de regressão logística múltipla recomendada(8-9) foi
utilizado no desenvolvimento da MAN e em outros instrumentos de triagem
nutricional(14-16). E as variáveis relacionadas à desnutrição encontradas nesse
estudo (perda de peso recente e involuntária, ossatura aparente, redução de
apetite, diarreia e ingestão energética inadequada) são semelhantes às
observadas em vários trabalhos que relacionam o risco de desnutrição em
indivíduos adultos e idosos hospitalizados(14-20).
A perda de peso foi a principal variável de risco nutricional observada
(OR=50,03). O processo de perda, independentemente do peso habitual do
indivíduo, é considerado por si só um processo de desnutrição, mesmo que após
as alterações corporais, o peso permaneça dentro dos padrões considerados
normais. No entanto, não é uma variável simples de se obter. A informação do
peso habitual e sua redução dependem da memória e observação do paciente. Além
disso, a avaliação do peso habitual varia segundo a forma como o paciente a
monitora e sua percepção da perda, independentemente da quantificação, é uma
variável sempre associada ao risco de desnutrição(14-20).
Apesar de um possível viés na obtenção do dado, a perda de peso informada pelo
indivíduo no momento da hospitalização é uma variável presente em todos os
instrumentos de triagem nutricional levantados(14-20).
No presente estudo, outra variável observada associada à desnutrição foi o
sinal clínico de ossatura aparente (OR= 47,62). É importante considerar que a
observação de sinais clínicos depende do estado nutricional em que o indivíduo
iniciou o processo de desnutrição e a fase atual em que se apresenta, além de
adequado treinamento do profissional que a avalia(14-20).
Com relação à redução de apetite, observou-se associação com o risco
nutricional (OR= 10,31) e pode ser considerada a causa de outras variáveis
preditivas, tais como inadequação na ingestão e mudanças recentes na
alimentação. A maioria dos instrumentos de triagem a utiliza para identificar o
risco de desnutrição(14,17-20). Redução de apetite é uma variável que depende
da informação do paciente e pode avaliar indiretamente a ingestão alimentar,
mas é importante considerar que o apetite pode estar preservado, mesmo na
redução da quantidade de alimentos ingeridos.
Nesse estudo, a ingestão alimentar inadequada foi um fator associado à
desnutrição (OR= 4,5),no entanto, a avaliação da adequação da ingestão
energética depende da avaliação do consumo, dado que não é possível ser obtido
se não for quantificado por um adequado instrumento. Por essa razão, o que
frequentemente se observa é a variável ser solicitada de forma indireta, com
questões sobre a diminuição no consumo, mudanças alimentares associadas à
consistência e na frequência de alimentos(14-20). Um estudo conduzido no Canadá
(15) para identificar variáveis preditivas de desnutrição, foi solicitado ao
indivíduo a informação do consumo atual (normal ou menor que a metade do que
habitualmente é ingerido) e mudanças dietéticas, segundo alterações de
consistência (necessidade de maior fluidez na dieta), redução no número de
refeições e recebimento recente de orientação para reduzir ou não consumir
algum alimento e todas as variáveis apresentaram associação entre desnutrição
(p<0,05).
Na população em estudo, o gênero masculino foi um fator associado à desnutrição
(OR=3,51) e em nenhuma outra pesquisa foi um dos fatores preditivos observado
(14-20). Considerando-se que o achado pode ser um viés na amostra e uma
característica da população, não se adotou a variável gênero no instrumento
proposto de triagem nutricional, e permaneceu na regressão estatística como
variável de controle.
Na análise final das variáveis associadas à desnutrição, observa-se que a
maioria é possível de ser obtida rapidamente e a construção de instrumentos de
triagem a partir dessas variáveis permite uma rápida identificação do risco de
desnutrição e, consequentemente iniciar um processo de adequada atenção
nutricional(18).
Ao analisar o instrumento proposto (TRINUT) com aqueles recomendados pela ESPEN
(10)(MUST e NRS-2002) e com o diagnóstico nutricional antropométrico (DNA), foi
encontrada uma forte e adequada concordância (coeficiente Kappa maior ou igual
a 0,60).
Um estudo conduzido com pacientes cirúrgicos comparou parâmetros
antropométricos (Índice de Massa Corporal e porcentagem de perda de peso
corporal maior que 10%) com os instrumentos de triagem MUST e NRS-2002. O MUST
apresentou maior concordância com a perda de peso (k=0,94) e menor com o IMC
(k=0,70), e o NRS-2002 apresentou maior concordância com a perda de peso
(k=0,94) e menor com o IMC (k=0,65)(19).
Em relação ao impacto da presença de risco nutricional na evolução da
internação hospitalar em pacientes adultos e idosos, o estudo conduzido em um
hospital público de São Paulo encontrou alta sensibilidade e especificidade do
NRS-2002, recomendando-o como instrumento de triagem nutricional(4).
Analisando-se as variáveis dos instrumentos recomendados pela ESPEN(10) (MUST e
NRS-2002), algumas considerações são importantes. Inicialmente, em ambos os
instrumentos é necessária a quantificação da perda de peso (total ou
percentual) e, como discutido anteriormente, há dificuldades na obtenção de
dados relacionados ao peso na internação hospitalar.
No instrumento MUST(10), a perda de peso deve ser calculada em porcentagem e o
risco de desnutrição só é considerado se for maior que 5% e associada à
ingestão alimentar inadequada, ou maior que 10% em relação ao peso atual. Esse
instrumento depende também da avaliação do peso atual, uma vez que o Índice de
Massa Corporal (IMC) é uma das três questões que avaliam o risco de desnutrição
na triagem inicial.
No instrumento NRS-2002(10), a dificuldade maior em relação ao peso está
associada à necessidade da avaliação da velocidade da perda, e nem sempre a
informação obtida é semelhante aos critérios adotados para a avaliação. O
instrumento estabelece perdas acima de 5% em três meses (perda leve), em dois
meses (perda moderada) e em um mês (perda severa). Assim, são necessárias as
informações de peso habitual e mensuração de peso atual, além do cálculo da
porcentagem e ajuste da velocidade da perda.
Os instrumentos de triagem nutricional, que por princípio e definição(6-7)devem
ser de rápida obtenção e fácil aplicação, deveriam combinar variáveis com as
mesmas características. Desta forma, instrumentos como o MUST e NRS-2002(10),
que dependem da obtenção do peso atual para o cálculo do IMC e do percentual da
perda de peso, podem ter seu uso restrito.
Com relação à ingestão alimentar, os instrumentos recomendados pela ESPEN(10)
coletam informações de ingestão alimentar atual. O MUST investiga a provável
inadequação do consumo por mais de cinco dias e, se presente, considera risco
de desnutrição, mesmo sem alteração do peso corporal, e não investiga o tipo de
alteração. A avaliação de ingestão alimentar necessita de questões mais
direcionadas e relacionadas com quantidade, frequência e/ou apetite.
No NRS-2002 recomendado pela ESPEN(10) a obtenção da informação do atendimento
às necessidades energéticas é dividida em quartis (menor que 25%, entre 25 e
50% e 50 e 75%) e recomenda-se que a avaliação do consumo em instrumentos de
triagem seja obtida por informações qualitativas, indiretas e rápidas, tais
como mudanças recentes, consumo reduzido e perda de apetite.
Outra consideração importante em relação aos instrumentos analisados é a
utilização da doença como fator de risco de desnutrição. No NRS-2002,
neurocirurgias, transplante de medula óssea (TMO) e paciente em UTI em APACHE
(acute physiology and chronic health evaluation) maior que 10, são pacientes em
risco de desnutrição, mesmo sem considerar qualquer outra variável. Outras
doenças poderiam estar associadas, mas não há opções de seleção no instrumento,
sendo necessárias adaptações, sem a devida orientação na publicação original.
O instrumento proposto neste trabalho tem como objetivo apresentar o que pode
ser realizado a partir da identificação de variáveis associadas à desnutrição,
assim como um estudo semelhante realizado no sul do Brasil(20).Diferentes
combinações entre as variáveis obtidas podem ser testadas e os pontos de corte
devem ser analisados para obtenção do melhor caminho para a identificação do
risco de desnutrição.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A identificação dos fatores associados à desnutrição na população estudada
(perda de peso involuntária, ossatura aparente, redução de apetite, diarreia e
ingestão energética inadequada) permitiu o desenvolvimento de um instrumento de
identificação de risco nutricional (TRINUT). Sugere-se que o TRINUT seja
avaliado e comparado a outros recomendados na literatura, e seja validado em
cada hospital que decidir por implantar a triagem no momento da internação.
É importante considerar que a avaliação nutricional deve ser sistematizada para
garantir o atendimento global e eficiente, com o objetivo de reduzir a
frequência da desnutrição e suas consequências. Na atual transição nutricional,
a alta prevalência da obesidade tem mascarado a prevalência da desnutrição.
A prevenção e o tratamento da desnutrição constituem ainda importantes
desafios. A utilização de um método de identificação de risco que seja
confiável, de fácil e rápida execução, baixo custo e não invasivo é muito
importante para o benefício do paciente. Um diagnóstico adequado é essencial
para que uma terapia nutricional seja iniciada o mais breve possível e permita
uma intervenção dietoterápica eficiente e o uso de instrumentos de triagem é o
primeiro passo para a adequada atenção nutricional.
É possível tratar a desnutrição. O diagnóstico necessita ser precoce e o
monitoramento do estado nutricional é um dever de toda equipe de saúde. A
intervenção nutricional em pacientes com risco de desnutrição leva a um melhor
prognóstico, reduzindo os índices de morbidade e mortalidade, contribuindo com
a adequada recuperação do paciente hospitalizado.