Prática da utilização de lancetas ou agulhas na automonitorização da glicemia
capilar no domicílio
INTRODUÇÃO
O diabetes mellitus (DM) é uma condição crônica que requer gerenciamento
contínuo, sendo caracterizado por hiperglicemia e ocasionado por uma
deficiência absoluta ou relativa de insulina, influenciando o metabolismo dos
glicídios, proteínas, lipídios, água, vitaminas e, durante a sua evolução, na
dependência do controle metabólico, podem advir complicações agudas e crônicas
(1).
Para atender ao tratamento proposto, temos a prática de insulinoterapia e
monitoração da glicemia realizada no domicilio pelas pessoas com DM. No
entanto, a prática da reutilização de materiais descartáveis no domicílio pelos
usuários com diabetes mellitus é polêmica e controversa no Brasil e no mundo.
Dessa forma, o presente estudo tem como objetivo conhecer o padrão de
utilização de lancetas e/ou agulhas na automonitorização da glicemia capilar
por pacientes da rede pública que são beneficiados pelo programa governamental.
A análise dos dados poderá trazer subsídios para melhorar a orientação de
cuidados de enfermagem e possivelmente otimizar o uso de recursos públicos na
saúde.
REFERENCIAL TEÓRICO
A Associação Americana de Diabetes (ADA) recomenda que a automonitorização da
glicemia capilar no domicílio, assim como outros fatores, façam parte do
programa de educação a pessoa com DM. Reforçando assim, a compreensão para a
modificação do estilo de vida e melhora da adesão ao tratamento, com estimulo
as praticas de autocuidado(2).
A automonitorização da glicemia capilar realizada em aparelho de glicosimetria
de uso domiciliar é um excelente recurso utilizado para retratar as flutuações
glicêmicas ao longo do dia. É uma ferramenta muito utilizada no acompanhamento
das pessoas com DM em esquema de tratamento intensivo, especialmente sob o uso
de múltiplas doses diárias de insulina(3).
Em atendimento à Lei Estadual nº. 10782/01 que garante o fornecimento integral
de medicamentos e insumos aos indivíduos com diabetes no Estado de São Paulo
(4), o município de Ribeirão Preto-SP representado pela Secretaria Municipal da
Saúde em um convênio com a Secretaria de Estado, desde 2005 passou a
disponibilizar gratuitamente glicosímetro, lancetador, fitas reagentes e
lancetas para os indivíduos com diabetes usuários de insulina(5).
Várias estratégias vêm sendo utilizadas pelas famílias, acerca da reutilização
de agulhas e seringas descartáveis para a aplicação de insulina(6-8). No
entanto, com o incremento do uso de lancetas para o monitoramento da glicemia
torna-se necessário conhecer o comportamento das pessoas com diabetes no que se
refere ao uso e/ou reuso das lancetas no domicílio.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo descritivo transversal. O estudo tipo survey visa obter
informações quanto à prevalência, distribuição e inter-relações de variáveis de
uma população(9). O estudo descritivo pretende descrever "com exatidão" os
fatos e fenômenos de determinada realidade(9).
O estudo foi desenvolvido no Centro de Saúde Escola - Joel Domingos Machado, da
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.
Primeiramente foi solicitada uma listagem de usuários do Programa de Saúde do
Adulto- Doenças Crônico-Degenerativas para a obtenção do número de pessoas com
DM cadastradas. De posse da lista foram identificadas 356 pessoas com DM
cadastradas no referido Programa. Cabe destacar que este Programa foi
implantado pela Secretaria Municipal de Saúde de Ribeirão Preto no período de
novembro de 2005 a novembro de 2007.
A amostra foi determinada de forma aleatória, por conveniência, e foi composta
por 57 sujeitos. Para a coleta de dados foi utilizado um instrumento
considerando as variáveis do estudo, a experiência pessoal do pesquisador e
orientador e revisão de literatura(6-8,10,11). O instrumento foi apreciado por
quatro juízes com conhecimento especializado no atendimento em DM. Os dados
foram obtidos através da técnica de entrevista dirigida, no qual os sujeitos
foram convidados a participar do estudo no momento em que aguardavam consulta
médica.
Foi realizada a construção do banco de dados com sua validação e dupla
alimentação, no programa Microsoft Excel, versão XP (Microsoft Co, USA).
Posteriormente, os dados foram importados para o programa SPSS (Statistical
Package for the Social Sciences) for Windows, versão 15.0, e submetidos à
análise estatística descritiva. Os resultados serão apresentados por meio de
média, moda e desvios padrão (DP) no caso de quantitativos.
O projeto de pesquisa foi aprovado pela Comissão de Ética do Centro de Saúde
Escola (CSE)-Joel Domingos Machado da FMRP/USP. Protocolo nº.278.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A Tabela_1 mostra as características sócio-demográficas e clínicas dos 57
(100%) sujeitos. Observa-se o predomínio de mulheres, média de idade de 61
anos, aposentados, com primário completo. Todos possuíam o diabetes tipo 2, com
tempo médio de 15 anos de doença. Esses dados corroboram os estudos na temática
de pessoas com diabetes que realizam a aplicação de insulina e o
automonitoramento da glicemia.

A Tabela_2 mostra as variáveis relacionadas à utilização de lancetas e/ou
agulhas para a automonitorização da glicemia capilar no domicílio. Os sujeitos
referiram preferência pelo uso dos lancetadores, principalmente pela diminuição
da dor e praticidade.
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A Tabela_3 mostra a freqüência das reutilizações de lancetas e/ou agulhas,
segundo o número de vezes habitual, máximo, mínimo e ideal considerado pelo
entrevistado.
Constatou-se que 41 (71,9%) dos indivíduos com DM que reutilizam a mesma
lanceta e/ou agulha, referiram uma freqüência de 1 a 5 (52,6%) vezes, sendo a
média de utilização da mesma lanceta de 5 vezes.
A média de 3,5 vezes foi referida pelos sujeitos como sendo ideal para
reutilização da mesma lanceta e/ou agulha. Cabe destacar que um sujeito referiu
ter utilizado a mesma lanceta por 30 vezes e outro por 60 vezes.
Dos 41 (71,9%) indivíduos com DM que referiram reutilizar a lanceta e/ou
agulha, 32 (56,1%) receberam orientação de profissionais da saúde tais como:
enfermagem, farmacêutico e médicos na própria unidade de saúde. Todos os
indivíduos com DM referiram que não compartilham a lanceta e/ou agulha com
outras pessoas.
Dos sujeitos investigados, apenas 2 (3,5%) referiram um episódio anterior de
hiperemia nos locais de realização dos testes de glicemia capilar, não
procurando um serviço de saúde. Destes, um sujeito considerou que a hiperemia
foi ocasionada devido a múltiplas punções no mesmo dedo e o outro pela
profundidade da punção. Em relação à qualidade das lancetas e/ou agulhas
durante a realização do teste da glicemia capilar, 8 (14%) sujeitos referiram
que suas lancetas e/ou agulhas já entortaram.
A prática da reutilização de materiais descartáveis no domicílio pelos usuários
com DM é polêmica e gera controvérsias no Brasil e no mundo, como demonstram
alguns estudos sobre o reuso de seringas e agulhas na aplicação de insulina(6-
8,10-11). Em relação à reutilização de lancetas encontram-se apenas estudos
internacionais sobre as complicações e/ou riscos na reutilização e
compartilhamento na monitorização da glicemia capilar(12-15). Na literatura
nacional ainda não há estudos a respeito da reutilização de lancetas na
automonitorização da glicemia capilar em âmbito domiciliar.
A maioria dos indivíduos do presente estudo, aproximadamente 72%, refere
reutilização das lancetas. Esse evento é preocupante pela falta de padronização
e aprovação do Ministério da Saúde e pela orientação dos fabricantes afirmando
que essa prática pode desencadear alterações nos locais de aplicação e
danificar o material. No entanto, pessoas com DM utilizam estratégias variadas,
muitas vezes, com critério próprio, motivo que tem levado pesquisadores a
investigarem o reuso de materiais descartáveis(6).
Dessa maneira, respostas subjetivas foram fornecidas em relação ao motivo de
descarte das lancetas, tais como: medo de adquirir uma contaminação e infecção,
ao sentir dor na punção ou quando os sujeitos consideravam que a lanceta
"parava" de furar o dedo. Foram identificadas ainda dúvidas quanto à permissão
e o número ideal de reutilizações das lancetas. Outros indivíduos negaram
problema em relação à reutilização, uma vez que somente eles utilizam as mesmas
lancetas.
Foram encontradas ainda práticas variadas de reutilização em que pessoas
afirmaram recolocar o protetor da lanceta e/ou agulha, passar algodão com
álcool na lanceta e/ou agulha e outras medidas como deixar a lanceta no próprio
lancetador. Foi constatada a inexistência da fervura ou lavagem com água
fervida, como foi encontrado em outros dois estudos desenvolvidos na prática de
reutilização de agulhas para aplicação de insulina(6,14).
É preocupante o uso do álcool na reutilização das lancetas, uma vez que, para
atingir o objetivo de desinfecção ou esterilização, apenas o grupo dos aldeídos
é indicado, dependendo do tempo de imersão(16). Na literatura, a recomendação
para reutilizar a seringa descartável indica que se deve colocar álcool no
protetor da agulha e recolocá-lo, armazenando a seringa após o uso(17). No
entanto, este procedimento é desaconselhável, uma vez que, o álcool degrada o
silicone da agulha, o que a tornaria rapidamente rombuda e, consequentemente,
as punções mais dolorosas(18).
É importante ponderar que a reutilização de agulhas na aplicação da insulina
pela ADA e Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) é recomendada pela falta de
riscos evidentes e pela presença de aditivos bacteriostático na insulina como o
fenol e metacresol que inibem o crescimento bacteriano. Porém, é necessário que
o profissional de saúde realize uma avaliação sistemática dos usuários antes de
optarem pela reutilização da agulha na aplicação da insulina de acordo com as
indicações (boa higiene corporal, acuidade visual adequada, destreza manual e
ausência de tremores) e capacidade de receber orientações específicas sobre os
possíveis benefícios e riscos e procedimentos para a reutilização(18).
Há necessidade dos serviços reverem suas práticas, no sentido de capacitarem
adequadamente os profissionais de saúde e o enfermeiro em particular a realizar
uma avaliação periódica desta atividade. Considera-se ainda a importância da
criação de protocolos institucionais que avaliem o contexto de saúde e
socioeconômico da clientela a fim de direcionar as orientações para pessoas com
DM e familiares(6).
Já por parte das pessoas com diabetes, um estudo descreve que essas não
aderiram à orientação de trocar a lanceta em cada uso, sendo a lanceta
reutilizada em domicílio por várias semanas(19).
O fator econômico relacionado ao alto custo do tratamento e distribuição de
insumos para a automonitorização da glicemia capilar pode estar relacionado à
prática da reutilização de lancetas e/ou agulhas. Entretanto, neste estudo
quase a totalidade dos sujeitos referiram que os insumos adquiridos são
suficientes em relação ao número de lancetas adquiridas na unidade de saúde.
Alguns sujeitos relataram que o número de lancetas só é suficiente com a
prática da reutilização e não quando utilizadas para uso único. Três sujeitos
afirmaram preferência pela agulha para aplicar o teste da glicemia capilar, o
que poderia estar contribuindo para um desperdício de lancetas adquiridas nos
serviços de saúde.
Quanto à quantidade exata de lancetas que recebem por mês, as respostas
indicaram números divergentes entre 50, 30, 25 e 20, além daqueles que não
souberam informar. Para apenas dois testes diários, é necessário receber, no
mínimo, 60 lancetas por mês. A frequência da monitorização da glicemia capilar
proposta pela SBD para uma intensificação terapêutica ideal inclui para o tipo
1 três testes ou mais por dia em diferentes horários e para o tipo 2 em uso de
insulina três testes por dia em diferentes horários, dependendo do grau de
estabilização glicêmica. No total, isso representa um consumo mensal de 90
fitas reagentes de glicemia capilar e 90 lancetas, para no mínimo três testes
diários(1). Portanto, apesar dos sujeitos afirmarem que o número de lancetas
fornecidas pelo serviço de saúde é suficiente, as quantidades referidas ainda
são insuficientes de acordo com o que é proposto pelo SBD(1).
Em relação à reutilização de lancetas e/ou agulhas na monitorização da glicemia
capilar, preocupa-nos o compartilhamento por parte das pessoas e dos
profissionais, visto que estudos mostram possíveis riscos de transmissão de
hepatite B em que a infecção pode ter ocorrido pelo compartilhamento da lanceta
em instituições de saúde, e não em domicílio(9-11). Outros estudos mostraram
que lancetas para punção de dedo previamente usadas foram alocadas no mesmo
local onde estavam as lancetas não utilizadas. Essa prática poderia contribuir
para o reuso e, consequentemente, o compartilhamento nos procedimentos de
monitorização da glicemia capilar em instituições de saúde(9-10).
Em contrapartida, a maioria dos sujeitos no presente estudo apresentou noção da
importância da prática do uso de técnica asséptica para evitar complicações no
local da punção, realizando a lavagem das mãos e uso de algodão com álcool.
Estes dados pressupõem a eficácia do trabalho educativo do enfermeiro quanto às
orientações contínuas sobre a importância das lavagens das mãos(14). Da mesma
maneira, todos os entrevistados estavam orientados quanto à importância do não
compartilhamento das lancetas, evitando assim a contaminação de terceiros.
Quanto às complicações e/ou riscos na reutilização de lancetas e/ou agulhas na
monitorização da glicemia, dois sujeitos referiram ter sofrido alterações
locais de realização dos testes de glicemia capilar, tal como hiperemia.
Um estudo refere infecções locais nos dedos de duas pessoas devido à
reutilização de agulhas e/ou lancetas por várias semanas, mesmo com orientação
para descartá-las após o uso(19). Essas lesões foram submetidas a um tratamento
local e sistêmico, não havendo melhora e necessitando da amputação distal dos
dedos acometidos. Múltiplas punções no mesmo local e com a mesma lanceta pode
ter contribuído para a infecção local e um controle metabólico ineficaz pode
ter impedido a cura, resultando nas amputações das falanges distais. Estes dois
casos sugerem que as pessoas com DM, em particular aqueles com mau controle
metabólico, devem receber reforço na orientação para a troca de agulhas
descartáveis e lancetas para automonitorização da glicemia capilar.
Indivíduos com complicações do DM, que apresentam comprometimento visual,
aumentam sua exposição às punções de dedo, devido à necessidade de realizar
múltiplas punções para adquirir uma única amostra de sangue para o teste
glicêmico. A falange distal é uma das maiores superfícies contaminadas, além de
ser mais sensível, podendo colaborar para o desenvolvimento de uma lesão. Assim
outros locais tais como lóbulo da orelha, antebraço, podem e devem ser
utilizados durante a punção para o teste de glicemia(20).
CONCLUSÃO
Deve-se considerar que, se por um lado à distribuição de insumos é suficiente e
a prática da reutilização de lancetas e/ou agulhas ocorre como o resultado do
presente estudo mostrou, desperdícios podem acontecer. Por outro lado, se a
distribuição de insumos é insuficiente, a reutilização acaba ocorrendo para
viabilizar o monitoramento da glicemia capilar no domicílio.
A educação em saúde deve buscar desenvolver habilidades para solucionar
problemas e promover a integralidade da atenção à saúde ao usuário com DM,
visto que a questão da prática da reutilização de lancetas na automonitorização
da glicemia capilar é decorrente da necessidade do manejo do DM no cotidiano
dos usuários.
Destaca-se a importância dos profissionais orientarem o não compartilhamento
das lancetas e/ou agulhas para evitar a transmissão do vírus de hepatites, a
necessidade da lavagem das mãos, e o uso do algodão com álcool nos dedos a fim
de evitar a infecção local.
Se há realmente segurança em reutilizar as lancetas, esta recomendação deveria
ser normatizada pelo Ministério da Saúde, uma vez que este se responsabiliza
pela distribuição dos insumos no tratamento e controle do diabetes. Por outro
lado, temos que o Ministério da Saúde ainda não protocolou orientações frente
ao uso de lancetas na automonitorização da glicemia capilar e há necessidade de
maiores evidências na temática.
Nesta direção, a normatização pelo Ministério da Saúde por meio da
implementação de protocolo contendo as orientações frente ao uso de lancetas na
automonitorização da glicemia capilar, permitiria que os profissionais
orientassem as pessoas com DM quanto aos riscos e benefícios desta prática,
atendendo as necessidades reais das mesmas. Evitaria também conflitos éticos
por parte dos profissionais que por compreenderem a necessidade dos usuários
direcionam recomendações para a reutilização de lancetas sem padronização, sem
embasamento científico e sem respaldo dos órgãos competentes.
Frente aos resultados obtidos neste estudo, conclui-se ser necessário
incrementar estudos futuros observando os riscos e benefícios dessa prática.