Práticas educativas desenvolvidas por enfermeiras: repercussões sobre vivências
de mulheres na gestação e no parto
INTRODUÇÃO
Atualmente, muitas mulheres perderam o credo em sua capacidade de gestar e
parir. Elas acreditam que precisam de um profissional munido de alta tecnologia
e saber para realizar seu parto. Essa mentalidade decorre da forte e intrínseca
cultura do parto hospitalar vigente, onde o parto natural ou fisiológico não é
considerado seguro, ocorrendo a desvalorização dos conhecimentos e potenciais
da mulher(1). Assim, por terem sido socializadas nessa cultura acreditamos que
algumas mulheres valorizam as ações intervencionistas, centradas no
profissional.
No enfrentamento desta problemática na obstetrícia contemporânea, a educação em
saúde é uma valiosa estratégia profissional enquanto alicerce da negociação do
cuidado humanizado(2), e neste contexto, é entendida como uma prática educativa
que trabalha junto ao indivíduo a visão crítica e libertadora das condições de
vida, almejando estratégias de mudança em seu benefício e de sua comunidade(1).
Neste sentido, as práticas educativas desenvolvidas pelas enfermeiras no campo
obstétrico são um instrumento de suas ações de cuidado que podem transformar a
maneira de parir e nascer em confluência com a Política Nacional de Atenção
Integral à Saúde da Mulher(3), que enfatiza que a humanização da atenção em
saúde envolve "compartilhar saberes" e "reconhecer direitos", percebendo, nas
relações, os condicionantes sócioculturais, étnicos, raciais e de gênero.
Para o Ministério da Saúde(4) a Educação em Saúde é uma prática centrada na
sociedade e um processo que contribui para a formação e desenvolvimento da
visão crítica das pessoas, a respeito de sua saúde, instigando a busca de
soluções e a organização para a ação coletiva. Essa definição nos faz refletir
que o modelo tradicional de cuidado pautado na mudança de hábitos individuais,
tendo como fundamento pedagógico a transmissão dos conteúdos, precisa ser
repensado, pois talvez não atenda as necessidades da população, já que vem
sendo utilizado, ao longo da história pelos profissionais de saúde, sem surtir
mudanças importantes na saúde das pessoas(5).
Deste modo, partilhar saberes no intuito de prevenir, promover e recuperar a
saúde através de ações educativas dá base à Educação em Saúde tornando-a uma
prática educativa positiva porque é construída junto com a comunidade e não
para ela, instrumentalizando-a e fomentando a percepção dos motivos e soluções
para os problemas de saúde de maneira crítica(6-7).
Sabe-se que a associação do cuidado com as práticas educativas está no saudável
compartilhar de práticas e saberes em uma relação horizontalizada onde a
enfermeira exerce seu papel de cuidadora e educadora dividindo o seu saber e
fazer e agregando o saber e o fazer popular, evitando, assim, posturas
autoritárias. Nesta perspectiva, o cuidado de enfermagem no campo obstétrico
torna-se, então, humanizado, porque considera as práticas culturais em saúde da
população, abrindo um espaço de construção dos saberes a partir das práticas
educativas. O que diferencia esse cuidado de outros é o seu potencial
libertador e gerador de novos comportamentos de saúde da população e dos
próprios profissionais de saúde envolvidos.
Cada mulher atribui um significado às experiências vividas e essas experiências
serão utilizadas em outras vivências(8). Cabe, então, à enfermeira amenizar, no
caso de mulheres socializadas em um meio culturalmente medicalizado, o embate
com a abordagem humanizada. Essa mediação pode acontecer através das ações
educativas em saúde que não só respeitem a individualidade, mas permitam a
tomada de decisão pelo ser cuidado. Deste modo, a educação em saúde pode atuar
como um potencializador do cuidado da enfermeira, pois é capaz de gerar
mudanças, o aprender mútuo e a construção de relações humanas simétricas(6).
Em nossa experiência profissional, observamos que a relação entre muitas
enfermeiras e clientes que atuam no campo obstétrico com o objetivo de
implementar práticas obstétricas humanizadas, envolve o ensinar e o aprender em
uma via de mão dupla, algumas vezes concretizando e abrindo possibilidades para
a construção compartilhada do conhecimento.
Frente a esta discussão, voltamos nosso olhar especificamente para a Casa de
parto David Capistrano Filho da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro
onde observamos que as enfermeiras realizam um amplo trabalho de incentivo ao
parto humanizado utilizando-se das práticas educativas como instrumento de
cuidar para favorecer a escolha das mulheres pelo tipo de parto e seu
empoderamento para a condução de um parto ativo.
Diante do exposto, este estudo teve como objetivo o de discutir as repercussões
das práticas educativas desenvolvidas por enfermeiras na Casa de Parto David
Capistrano Filho sobre a vivência das mulheres de sua gravidez e de seu parto.
MÉTODO
Este estudo foi desenvolvido com abordagem qualitativa, que tem o potencial de
esclarecer os problemas surgidos do cotidiano da prática das profissões por
propiciar que nos debrucemos sobre as singularidades e particularidades
vivenciadas nos cenários onde atuam os profissionais de saúde, podendo
responder a questões muito particulares quando se preocupa com um nível de
realidade que não pode ser quantificado. Sendo assim, essa abordagem trabalha
com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e
atitudes(9).
O cenário da pesquisa foi a Casa de Parto David Capistrano Filho. Inaugurada no
dia 08 de Março de 2004. Esta Instituição funciona na zona oeste do Município
do Rio de Janeiro, área habitada prioritariamente por uma população de baixa
renda, e caracteriza-se como uma unidade autônoma e isolada, já que não está
acoplada ao hospital(10).
Os Centros de Parto Normal ou Casas de Parto são unidades de saúde que atendem
as gestantes e parturientes sem riscos obstétricos e desenvolvem práticas
obstétricas do modelo humanizado. Essas instituições devem estar inseridas no
sistema de saúde local, atuando de maneira complementar às unidades de saúde
existentes. São organizados no sentido de promover a ampliação do acesso, do
vínculo e do atendimento, humanizando o cuidado obstétrico à gestante e
incentivando o parto normal sem intervenções invasivas à fisiologia do corpo
feminino(10).
Durante o mês de maio de 2007, a amostra pesquisada foi de 16 mulheres, que
neste estudo receberam nomes fictícios a fim de mantermos o anonimato. O
critério de inclusão foi que as mulheres tivessem participado por três etapas
na Casa de Parto: dos encontros nos grupos de gestantes durante o pré-natal,
que tivessem parido e que comparecessem nas consultas puerperais.
A técnica de coleta de dados foi feita mediante entrevista semiestruturada pré-
agendada por contato telefônico, realizada no ambiente da Casa de Parto, de
acordo com a disponibilidade das depoentes, tendo como segundo critério de
inclusão o parto ter ocorrido a pelo menos seis meses. Tal intervalo de tempo
foi considerado importante para que a mulher vivenciasse e elaborasse um
discurso com relação à experiência passada.
A entrevista foi estruturada com a seguinte pergunta norteadora: Quais as
repercussões das práticas educativas vivenciadas na Casa de Parto em sua
gravidez e no seu parto? Para a realização da entrevista foi utilizado o
gravador e uma leitura conjunta do termo de autorização, entendimento e
consentimento prévio assinado pela depoente. O Projeto foi submetido ao Comitê
de Ética em Pesquisa da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro e
aprovado sob o protocolo número 32/07.
A análise ocorreu mediante as diretrizes de análise de conteúdo de Bardin.
Assim, na ordenação dos dados foram realizadas as transcrições das gravações, a
releitura do material e a organização dos depoimentos. Após esta etapa
procedeu-se a classificação dos dados onde houve a identificação das unidades
de registro com uma numeração específica e o agrupamento dessas unidades em
categorias01).
RESULTADOS
Ao analisarmos as repercussões das práticas educativas sobre a vivência da
gravidez construímos as seguintes categorias: favorecimento da tranquilidade,
favorecimento do vínculo mãe-bebê e melhor aceitação da gravidez, promoção da
livre expressão sobre sexualidade.
Favorecimento da tranquilidade
Nas falas das mulheres evidenciamos que as enfermeiras durante as práticas
educativas no período gestacional, transmitiam tranquilidade em sua atitude
quando esclareciam as dúvidas:
Eu ficava tranqüila com as palestras e com a tranqüilidade que as
enfermeiras passavam pra gente. Toda vez que eu tinha uma dúvida, a
próxima palestra tirava essa dúvida. Eu me tranqüilizava mais ainda e
eu achei assim, tudo que eu passei aqui, ajudou muito na minha vida.
Eu passei uma gravidez ótima. Foi muito tranqüila minha gravidez.
(Edymara)
Favorecimento do vínculo mãe-bebê e melhor aceitação da gravidez
Nas falas abaixo, observamos que as práticas educativas realizadas com as
gestantes na Casa de Parto favoreceu a construção do vínculo com o bebê que se
transformou, mais tarde, em responsabilidade com o filho:
Foi uma experiência tão ... que se tivesse tido em outro lugar, não
sei se teria sido desse jeito. Foi o começo de uma coisa assim
inexplicável porque hoje eu olho pra minha filha e estou percebendo
que eu acompanhei todos os passos. Desde o começo, com vocês me
ajudando. Coisa que eu vejo que eu sou capaz de fazer hoje, com
certeza eu aprendi aqui. Os grupos são muito importantes. (Leila)
[...] Eu acho que esse tempo de pré-natal, esse tempo de grupo, me
fez perceber muita coisa. Eu não estou sozinha, eu saía, não ligava
pra nada. Agora eu saio e caramba tem que ligar pra casa, não sei
como a Raíssa está, será que a Raíssa acordou, será que eu posso
beber um pouco mais, acho que muda tudo, muda tudo. (Ludimila)
Em outro depoimento, a mulher, que já tinha decidido manter sua gravidez,
demonstra no ato simbólico de acariciar a barriga, sua melhor aceitação da
mesma:
[... ] Eu aceitei melhor a minha gravidez aqui. Eu aceitei e aprendi
a fazer carinho na minha barriga. (Tatiana)
Promoção da livre expressão sobre sexualidade
As práticas educativas desenvolvidas pelas enfermeiras promoveram uma liberdade
nas gestantes para falarem sobre sua sexualidade e seus medos em relação ao ato
sexual:
[... ] Tem muita mulher que não tem nenhum tipo de ato sexual [na
gravidez], porque tem medo. A gente pode estar mais aberta se pode ou
se não pode. ( Débora)
[...] Quando a gente vem naquela roda de conversa. Aí falam, vocês já
voltaram a ter relação? Não porque os outros falam que fica maluca. A
gente sempre debate sobre as coisas. Vocês respeitam a gente como a
gente respeita vocês. (Ana Beatriz)
Repercussões das práticas educativas sobre a vivência do parto
Quando focamos a análise nas repercussões das práticas educativas elaboradas
pelas enfermeiras na vivência do parto, encontramos mulheres que apresentaram
vivências distintas. Para esta temática, elaboramos as seguintes categorias: a
presença da cultura medicalizada no comportamento das mulheres, desmistificação
da dor do parto, empoderamento, vivenciar o apreendido. A primeira categoria
possui duas subcategorias que foram denominadas de falta de posicionamento
ativo no parto e redução da capacidade de suportar a dor.
Presença da cultura medicalizada no comportamento das mulheres
Apesar das enfermeiras da Casa de Parto utilizar em suas práticas educativas,
estratégias pedagógicas que estimulam o protagonismo das mulheres, evidenciamos
em nossa pesquisa que algumas não conseguem ter um posicionamento ativo no seu
parto, pois como podemos observar nas falas abaixo, as depoentes tiveram
atitudes que demonstraram submissão frente ao profissional, quando aceitaram
ordens e até mesmo na posição deitada adotada pela parturiente:
Tudo que vocês mandavam eu fazer eu fiz. A bola, o banquinho. Mandou
eu sentar eu sentava, mandou tomar um banho pra relaxar eu ia.
(Telma)
Eu deitei na banheira, deitei na cama, mas não consegui. Acabei indo
pra sala mesmo [sala de parto]. Acho que o que atrapalhou tudo foi o
meu nervosismo.(Maria de Fátima)
Outras, diante dos efeitos da medicalização da dor em nossa sociedade,
manifestaram pouca tolerância para suportá-la:
Assim, o meu parto assim, eu achei, na minha opinião, que eu sofri um
bocado. Mas eu achei que de repente na maternidade eu poderia ter
sofrido mais ainda. [... ] Por mais que tenham falado tudo pra mim,
eu não imaginava o que eu ia passar, sofrer tanto aquilo que eu sofri
[... ] Então eu achei que doze horas que eu sofri, eu sofri porque
tinha que sofrer. [...]Eu... foi uma dor muito imensa que eu não
quero saber mais não. Não quero passar por isso não. (Telma)
Tal insuportabilidade à dor do parto faz com que a mulher solicite o uso de
ocitócicos e da episiotomia, que são procedimentos altamente invasivos e
contrários à filosofia de trabalho humanizado da enfermeira na Casa de Parto:
E assim, eu pedia as enfermeiras, por favor, me bota no soro. Então
eu achei que deveriam ter me botado no soro um pouquinho antes, de
repente ter dado um corte pra poder me ajudar. (Telma)
Desmistificação da dor do parto
Nesta categoria, as depoentes demonstraram em seus depoimentos que as práticas
educativas proporcionaram uma oportunidade para que elas confrontassem um novo
conhecimento com os que foram adquiridos durante seu processo de socialização.
O depoimento abaixo mostra que ao processar os valores partilhados nas
dinâmicas das práticas educativas, muitas mulheres desmistificaram a dor e o
sofrimento do parto, tanto que não tiveram esses sentimentos na intensidade que
esperavam:
Aquelas dores que todo mundo fala não senti. Senti mesmo na hora que
ela tava nascendo, agora antes na evolução, na contração, não senti.
(Helen)
Todo mundo falava que eu ia sentir muita dor, que eu ia sofrer muito
e não foi nada disso. Nenhuma das duas. [... ] Não foi tão doloroso
quanto eu imaginei que fosse, que essa dor que eu não ia resistir,
que eu ia desmaiar. Chegou na hora não foi nada daquilo. (Patrícia)
Porque os outros quando eu tava grávida do meu primeiro filho passava
que era horrível. Que dor de parto é a pior dor que tem. Eu não acho.
Acho que a pior dor que tem é dor de rins, dor de cabeça, dor de
dente. Acho que essas são as piores dores do que a dor de parto.
Porque a dor de parto é uma realização da mulher. Cada mulher tem que
ter uma conduta de botar aquilo na cabeça e não ter medo e ser mais
orientada. Procurar mais orientação sobre parto. Ler mais. Revista,
jornal ou conversar com quem tem mais experiência. (Inaiá)
Empoderamento
Observamos que o processo educativo presente na Casa de Parto contribuiu para
que muitas mulheres, mesmo sentindo dores intensas, fossem capazes de exercer
um controle sobre as mesmas:
[...]Não tem noção da dor que eu não sei descrever. Não posso dizer
que eu não senti dor. Senti muita, mas dava pra controlar, deu pra
controlar. (Ana Beatriz)
Em alguns depoimentos as mulheres demonstraram que estavam confiantes em si
mesmas para vivenciar seu parto:
Cheguei até rindo. Porque veio muita gente comigo [...]. Aí o pai da
criança estava nervoso e eu falei: espera, eu que tenho que está
nervosa... Eu que vou ter filho, não é você. (Rosana)
A minha primeira filha, ela foi nascer depois de 2 horas da minha
bolsa rota. Ai ela tava meio azulada. Logo assim que ela saiu, ela
não chorou. Minha mãe ficou apavorada e não queria deixar essa nascer
aqui. Falei mãe eu sou maior de idade, você não manda em mim e eu vou
ter lá, que eu adorei ter filho lá. (Simone)
Eu tava confiante. Pela experiência que a gente teve no grupo, os
ensinamentos que ela [a enfermeira] passou, que eu aprendi, eu me
senti segura de estar ali. (Célia)
Vivência do apreendido
A maioria das mulheres entrevistadas aceitou vivenciar o apreendido no processo
educativo e reconheceram as estratégias de cuidado utilizadas pela enfermeira
como benéficas:
Eu experimentei um pouquinho de tudo. Eu fiquei um pouco na banheira,
minha bolsa estourou dentro da banheira. Eu acreditava porque quando
eu fui pra banheira, as dores realmente elas diminuem, alivia bem.
(Zuleide)
[...]E chegou na hora fizeram massagem, me botaram na bola e
realmente senti sensação de alívio. Eu caminhei e foi em meia hora,
rapidinho ela nasceu. (Sheila)
DISCUSSÃO
As repercussões das práticas educativas sobre a vivência da gravidez
A tranquilidade, muitas vezes, é a abalada durante o processo gestacional, pois
nele, as mulheres passam por mudanças biológicas, somáticas, psicológicas,
sociais que podem gerar sentimentos de preocupação e insegurança. No entanto, a
sensação de tranquilidade é fundamental para o exercício prazeroso da
maternidade(8).
Nesta pesquisa, observamos que as enfermeiras no período gestacional, passaram
tranquilidade às gestantes em sua atitude quando esclareciam as dúvidas. As
ações educativas quando são participativas e focadas na atenção integral,
proporcionam à mulher uma maternidade segura por desmistificarem crenças e
tabus inerentes ao ciclo gravídico-puerperal a partir da reflexão sobre esta
fase ímpar da vida(1).
A participação ativa das mulheres no processo reflexivo sobre os seus
sentimentos, dúvidas e receios sobre a gravidez está diretamente associado ao
fato de estarem inseridas em um grupo com pessoas de interesses próximos.
Nesses grupos existem maiores possibilidades de serem ouvidas quando expõem
suas dificuldades e de serem compreendidas. Isso transforma os grupos
educativos em espaços construtores de instrumentos de melhoria individual e
coletiva da qualidade de vida(1-6).
Nos grupos educativos com essas características, existe a construção de uma
relação de confiança entre as mulheres e a enfermeira, que no caso desta
pesquisa, foi coordenadora do grupo. Nas discussões grupais, é fundamental um
posicionamento seguro da enfermeira, no entanto, a sua postura não autoritária
diferenciará as ações educativas que compartilham saberes profissionais e
saberes populares das que possuem natureza prescritiva e informativa.
As práticas embasadas no modelo preventivista e de transmissão de um
conhecimento "superior", criam barreiras, nas relações cliente/profissional/
instituição, porque ignoram sua dimensão cultural. O simples ato de transmitir
conhecimento não é capaz, isoladamente, de transformar comportamentos e
hábitos, assim como não permite o exercício de suas potencialidades, o que em
nada contribuirá para a melhoria da saúde das pessoas e famílias(12).
A ação educativa baseada na troca de experiências e conhecimentos de forma
ética, flexível, dinâmico, complexo, social, reflexivo, terapêutico, construído
na interação entre seres humanos pode se concretizar como instrumento de
socialização de saberes, promoção da saúde e prevenção de agravos(1). Deste
modo, os grupos podem ser um canal de favorecimento de vínculos afetivos na
gestação e no futuro das relações familiares e sociais. Neste sentido, a partir
das vivências nos grupos educativos, algumas depoentes, demonstraram que se
aproximam mais de seus bebês e até (re)estruturam sua relação familiar.
A gravidez segue diferentes caminhos na afetividade que pode ir desde amor e
ternura, até rejeição e culpa(13). Uma das depoentes vivenciou no momento da
gravidez, uma ruptura em sua relação conjugal, o que dificultou inicialmente
sua relação com o bebê. Considerando que a maneira como se nasce e se é
acolhido no mundo pode definir as relações e comportamentos dos seres humanos,
consigo e com o mundo (14,15), neste caso, as ações educativas da enfermeira
viabilizou melhor aceitação do bebê pela mãe e um provável acolhimento seguro
para o futuro recém-nascido.
As reações das mulheres, inclusive quando se trata da sexualidade, estão
ligadas à forma que sua cultura concebe o corpo feminino. Essas reações serão
interpretadas e moldadas a partir das experiências das mulheres, o que define
suas sensações e atitudes(16-17). Neste sentido, muitas mulheres, por terem
sido socializadas em um meio muito repressivo, apresentam-se envergonhadas ao
falar de sua sexualidade, e por isso mesmo, não a expressam. No entanto, no
período gestacional é muito importante a abordagem desta temática, pois alguns
autores apontam para uma íntima relação do parto com o orgasmo, mediada pela
utilização dos músculos perineais e pela liberação do "hormônio do amor", a
ocitocina, abarcando, portanto, dimensões importantes da sexualidade04,18).
Ademais, a falta do autoconhecimento corporal a respeito da relação sexual
causa medos e ansiedades na mulher e seu companheiro(8). Esse fenômeno pode
inclusive levar à abstinência e consequências sérias na relação conjugal.
Observamos que as ações educativas desenvolvidas pelas enfermeiras promoveram
uma liberdade nas gestantes para falarem sobre sua sexualidade e seus medos em
relação ao ato sexual. A construção de espaços de discussão que levem em
consideração crenças, valores e anseios da clientela, contribui para que as
pessoas tomem sua decisão sobre promover sua saúde sexual e reprodutiva, pois
eles tem a função de facilitar e de promover condições de vida e saúde mais
benéficas e qualitativas0,6,19).
As repercussões das práticas educativas sobre a vivência do parto
Neste estudo, alguns depoimentos apontaram que as ações educativas da
enfermeira não são suficientes para que algumas mulheres transformem sua
submissão histórica frente ao profissional e adquiram atitudes ativas frente ao
parto.
A falta de autonomia da mulher no trabalho de parto ocorreu diante de um longo
processo de medicalização do corpo feminino, onde a transformação da gravidez
em doença retirou o parto de seu poder e o passou para as mãos do médico. Ao
internalizar esse princípio ao longo de sua vida, as mulheres sentiram-se
incapazes de parir e passaram a desejar "o parto médico" que é a cesariana e
intervenções que para elas aliviariam a dor(20).
Esses resultados mostram também uma limitação das ações educativas, que
dependendo da história de vida de cada mulher, será mais ou menos eficiente
para desconstruir valores tão profundos adquiridos, por vezes, através de
muitas gerações familiares. Para que as mesmas pudessem romper com este ciclo
de submissão, acreditamos que outros aspectos da vida destas mulheres deveriam
passar por transformações profundas que as levassem ao pleno exercício de sua
cidadania e a ser protagonista da sua história.
Ainda, em alguns casos, os efeitos da educação em saúde podem não ser
reestruturantes, mas isso não significa o insucesso das práticas educativas.
Estratégias educativas participativas não se constituem de forma imediata. Elas
são um caminho longo de construções coletivas no dia-a-dia, provavelmente
inacabadas, não havendo fórmulas para a mudança de comportamentos(6), elas têm
seus limites e devemos estar preparados para respeitar as diferenças.
É importante então, considerarmos que a bagagem cultural de uma mulher
influencia suas atitudes e comportamentos durante o trabalho de parto e parto.
Neste sentido, a dor do parto é ratificada pela Bíblia Sagrada como castigo
pelo pecado original e o medo dessa dor foi construído em nossa cultura durante
o processo de medicalização. Tanto a dor como o medo dela são transmitidos de
geração em geração e muito interferem no desenvolvimento do trabalho de parto e
parto(16).
As mudanças no modo de pensar, no entanto, não dependem apenas dos
profissionais. Muito pelo contrário, dependem fundamentalmente do sujeito da
ação que é a cliente. Observamos que um grupo de mulheres, após processar a
discussão que participou, confronta o novo com sua bagagem anterior e aponta em
seus depoimentos uma desmistificação da dor e do sofrimento, mostrando que é
possível aumentar a suportabilidade da dor do parto se os profissionais em suas
ações educativas estimularem as clientes a vivenciarem suas experiências de
maneira ativa e participativa, prevenindo o medo culturalmente propagado sobre
a mesma. Muitas delas irão formular seus conceitos e percepções a partir dos
momentos vivenciados, sendo capazes de concretizar a maternidade e o parto
positivamente(17). A mulher percebe, então, que é capaz de vivenciar as
sensações advindas da parturição reconhecendo o poder das sensações da
fisiologia de seu corpo.
Deste modo, estar confiante e empoderada significa que a mulher assumiu um
comportamento pautado pela fisiologia do seu corpo durante a parturição. Quer
dizer, não ser controlada por profissionais ou pelo que eles construíram
através dos tempos para elas.
As ações educativas das enfermeiras neste contexto mostram uma faceta bastante
libertadora, pois agem como estratégia de reversão dos "efeitos colaterais da
medicalização" do parto em nossa sociedade e de maneira muito direta abre
perspectivas sociais diferenciadas de conduzir, olhar e vivenciar o processo de
nascimento(1). Assim, a educação em saúde pode preparar melhor os participantes
das práticas educativas para lidarem com situações reais da vida através de
vivências práticas(6), como ter contato com os objetos e procedimentos
oferecidos durante o trabalho de parto e parto.
CONCLUSÕES
Evidenciamos com esse estudo as repercussões das práticas educativas
desenvolvidas por enfermeiras na Casa de Parto David Capistrano Filho sobre a
vivência da gravidez e do parto. Os resultados mostraram que as práticas
educativas favoreceram a vivência tranquila da gestação, o vínculo mãe-bebê e
melhor aceitação da gravidez, bem como, promoveu a livre expressão sobre
sexualidade.
Observamos também que as práticas educativas elaboradas pelas enfermeiras
tiveram repercussões na vivência do parto, pois constatamos mulheres que
demonstraram a desmistificação da dor do parto, empoderamento e a vivência do
apreendido. Quanto aos limites dessas práticas educativas, houve mulheres que
apresentaram a falta de posicionamento ativo no parto e redução da capacidade
de suportar a dor como comportamentos da cultura medicalizada.
É notório nos serviços de saúde, seja de cuidado primário, secundário ou
terciário, a presença da educação nas práticas assistenciais. Seja nas
enfermarias de hospitais, nos postos de saúde ou em outras frentes de trabalho,
a enfermeira é o agente potencial de mudança e frequentemente desenvolve ações
educativas, abrindo grandes possibilidades de discussão entre senso comum e
ciência.
No modelo humanizado desenvolvido na Casa de Parto do Rio de Janeiro, a
dimensão educativa permeia todo o processo de cuidar desempenhado pelas
enfermeiras. Deste modo, as práticas educativas são ações que transformam a
vida de muitas mulheres porque colaboram para que elas mudem a maneira de
gestar, parir e nascer.