Vivências de pessoas com diabetes e amputação de membros
INTRODUÇÃO
Viver com diabetes pode representar um desafio tanto para a pessoa quanto para
aqueles que estão próximos a ela, pois a condição de estar diabético e amputado
afeta a vida como um todo, alterando drasticamente o cotidiano, exigindo uma
vivência de comportamentos especiais, de autocuidado para que a glicemia seja
mantida o mais próximo possível de suas possibilidades e potencialidades, pois
o controle inadequado da doença ao longo dos anos representa grave ameaça à
vida do portador.
É relevante pontuar que, o Diabetes Mellitus (DM) atinge em todo mundo, um
grande número de pessoas de qualquer idade e condição social. A doença acarreta
mudanças significativas na relação que o paciente diabético estabelece com seu
próprio corpo, com as outras pessoas e com o mundo que o cerca. As dificuldades
apresentadas pelos pacientes para obtenção de um bom controle metabólico estão
relacionadas à sua adesão a um plano alimentar, ao incremento de atividade
física e ao segmento da terapêutica medicamentosa(1).
Estudos a respeito do enfrentamento da doença crônica referem-se ao impacto que
a progressiva degeneração tem para o indivíduo, a família e a comunidade, pois
ocasiona inevitavelmente problemas relacionados ao isolamento social,
empobrecimento da autoimagem, conflitos gerados pela dependência, pressão
econômica e a possibilidade de morte(2-5). E, quando surgem as complicações
como lesões e úlceras nos pés, o medo de uma amputação gera mais preocupação
aos diabéticos, pois é fato conhecido, até por pessoas leigas no assunto, a
possibilidade de perda de partes do corpo como conseqüência do DM.
Estudos internacionais citados por Gamba(6) apontam que portadores de DM têm
quinze vezes mais chances de vir a sofrer uma amputação do membro inferior do
que os que não têm a doença. O DM é responsável por metade das amputações não
traumáticas no mundo. Estima-se que, em nível global, a prevalência do DM seja
em torno de 120 milhões de indivíduos e que de 4 a 10% destes desenvolvem
lesões nos pés, portanto não é infundada a preocupação e o medo dos pacientes
(7).
Estudos sobre a qualidade de vida de diabéticos amputados divergem, mostrando
que a qualidade de vida apresenta-se reduzida em diabéticos com amputações,
principalmente nos pacientes com amputações maiores, representando um grande
desafio a ser superado(8). Sua ocorrência causa sérias mudanças no campo
estético, na autoestima, na mobilidade, na capacidade de realizar atividades da
vida diária, no trabalho e no lazer(14). Pessoas incapacitadas podem ter boa
qualidade de vida quando ultrapassam limites e conseguem equilíbrio entre
mente, corpo e espírito(9).
Perder uma parte do corpo é ter alterada toda uma existência, é viver uma
incompletude que traz consigo uma série de alterações no existir. É ter que se
adaptar, readaptar, aprender a viver novamente, agora assumindo outra
perspectiva no mundo para si e para os outros(10).
Ao se considerar o DM uma condição crônica de saúde, a redução das complicações
como a amputação só será possível se ele participar ativamente do tratamento.
Para isso, é preciso resgatar as experiências, o conhecimento, os sistemas de
valores e crenças que orientam as atitudes desses pacientes em relação a sua
própria saúde.
Ao eleger como objeto deste estudo as "Vivências de pessoas com diabetes e
amputações de membros", pretendemos compreender o ser humano com diabetes e
amputações de membros com base nos significados por ele atribuídos à sua
vivência, que orientam e dão sentido às suas ações. Por se tratar de um objeto
de estudo que tem por base a subjetividade do sujeito, naquilo que emana dele,
o referencial de sustentação ao estudo, portanto, foi a fenomenologia. É, pois,
uma proposta teórico-filosófica que utiliza os conceitos de Martim Heidegger
(11) para interpretação dos conteúdos dos discursos dos sujeitos.
Nessa compreensão, Heidegger(11) nos ajuda a esclarecer o objeto como um
caminho a ser desvelado pela fenomenologia quando coloca que o homem atribui
significado às coisas com as quais se relaciona no horizonte de sua existência.
E o expõe aos entes ao seu redor através de sua linguagem.
Como busco compreender os diabéticos amputados na sua facticidade, aproximo-me
da fenomenologia já que a pesquisa fenomenológica permite desvelar sentimentos
e emoções, revelar o que se encontra velado, escondido no Ser, busca o que é
essencial, o que é invariante para que se possa chegar à essência do fenômeno.
Deixar e fazer ver por si mesmo aquilo que se mostra, tal como se mostra a
partir de si mesmo(11).
Mediante esse objeto do estudo, foram elaboradas as seguintes questões
norteadoras: O que significa ser diabético amputado? Como o diabético amputado
vivencia seu cotidiano? Para responder a tais questionamentos pontuamos, como
objetivo, o de compreender as vivências dos diabéticos amputados a partir dos
significados por eles atribuídos.
Cumpre referir que o estudo pretende contribuir para uma reflexão sobre a
problemática da vivência da pessoa diabética, especialmente daquelas submetidas
a amputações de membros, para a busca incessante de um cuidar fundamentado no
indivíduo como um ser único, que precisa ser visto na sua totalidade, integrado
a um contexto familiar e social. Pretende também contribuir como subsídio para
o conhecimento e a prática dos profissionais de saúde, particularmente os
enfermeiros, envolvidos na assistência a essa clientela.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo exploratório, descritivo com abordagem qualitativa na
perspectiva fenomenológica heideggeriana. O método fenomenológico em Heidegger
conduz a uma reflexão e análise interpretativa denominada de hermenêutica
heideggeriana, que leva à produção de um conhecimento compatível com uma
ciência de rigor, por sua radicalidade, originariedade e originalidade, que não
tem a pretensão de oferecer respostas prontas, acabadas, mas sim despertar para
uma melhor compreensão do ser humano em sua existencialidade como um ser único
e irrepetível(19).
O estudo foi desenvolvido no Centro Integrado de Saúde Dr. Lineu Araújo (CISLA)
e em Unidades Básicas de Saúde da FMS de Teresina-PI. Os sujeitos compreenderam
10 pessoas com diabetes e amputações de membros que moram em Teresina e que tem
pelo menos um ano de amputação.
A produção dos dados foi realizada no período de 16 de abril a 20 de maio de
2008, utilizando como técnica para obtenção dos depoimentos a entrevista
fenomenológica, com duração média de meia hora. Seguindo a orientação
fenomenológica, as entrevistas foram realizadas em local adequado, em cômodos
da casa que ofereciam condições satisfatórias de privacidade, tranqüilidade e
que permitiram a ambos, pesquisador e pesquisado se sentirem à vontade. Então
eram apresentados e esclarecidos os propósitos e objetivos da pesquisa, e lido
em conjunto o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Pudemos compreender a intersubjetividade da pesquisa fenomenológica, que é a
própria relação entre pesquisador e pesquisado. Os encontros com os depoentes
foram marcados pela intensa relação interpessoal, mediado pela empatia em que
deixamos de ser entes simplesmente dados para sermos presença.
O roteiro para a entrevista foi validado antes de ser aplicado aos sujeitos do
estudo. No início de cada entrevista, perguntávamos aos entrevistados se
gostariam de escolher o nome de um bichinho de estimação ou o de uma flor, para
proteger a sua identidade no estudo. Sete depoentes aceitaram e apenas três
preferiram ser identificados pelos seus próprios apelidos.
Após a realização das entrevistas, elas foram transcritas na íntegra e
destacados os núcleos essenciais, que emergiram de suas falas, para construção
das unidades de significação. O estudo foi submetido à apreciação do Comitê de
Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Piauí e da Fundação
Municipal de Saúde de Teresina, capital do estado do Piauí e obteve aprovação
conforme Parecer nº. 37/08.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A partir da transcrição, leitura e releitura das falas dos depoentes busquei
identificar as estruturas invariantes, que se repetiam nos discursos das
vivências do ente diabético com amputações de membros, tentando aproximar-me e
me apropriar dos significados por eles atribuídos, possibilitando a construção
de quatro unidades de significação.
Ser-diabético amputado significa: vivenciar um cotidiano permeado por
dificuldades, limitações e restrições
Nesta primeira unidade de significação sobre o significado de ser diabético e
amputado a maioria dos entrevistados refere um cotidiano alterado pela
amputação e mostram as dificuldades, limitações e restrições, as quais podem
ser evidenciadas nas falas dos seguintes depoentes:
E ruim, porque eu não posso andar, não posso ir pra canto nenhum, é
ruim minha gente [...] para levantar a filha me levanta, me "banha"
[...]. Eu gostava de viajar, de ir pra festa, pra tudo, de carnaval,
as minhas amigas vão e eu não posso. As minhas amigas de farra não
vêm me visitar, quando vêm estou dormindo. Hoje não posso viajar
(Maria).
Hoje é muito difícil para mim porque nem caminhar eu posso, nem
dirigir eu dirijo [...]. Mas então o que eu gostava é isso, caminhar,
passear, ir pro shopping. Hoje eu não posso mais fazer isso, eu não
vou sair de cadeira de rodas "prum" shopping alguém empurrando (Bem-
te-vi.).
Agora a gente acha que as pessoas tem pena da gente, tão olhando de
uma outra forma, por isso eu não gosto de sair, acho que tem pena da
gente, sei lá, acho diferente [...]. Passei um ano com depressão.
(Florzinha).
Não boto nem comida no prato pra mim, nem um café, se eu for botar
assim uma coisa pra eu comer, eu derramo [...]. Eu passo o dia assim,
aqui sentado (Peixinho).
Porque uma pessoa também que tem prótese tem dificuldade de se
locomover, os ônibus são altos, os motoristas não têm muita paciência
com as pessoas deficientes (Pássaro).
Todas as falas apresentadas nessa unidade de significação permitiram perceber o
que foi modificado no cotidiano dos diabéticos com a amputação. Surge o
isolamento social e familiar referido por Maria, Bem-te-vi, Florzinha, Pássaro
e o sofrimento provocado pela dependência dos outros em Maria e Flor, pela não
aceitação de si, na fala de Florzinha, da solidão, em Maria e das dificuldades
para realizar atividades, que antes faziam com autonomia, independência e
tranqüilidade, relatadas por Maria, Bem-te-vi, Florzinha, Peixinho e Pássaro.
Essas modificações no cotidiano são de grande dimensão, impactantes e
significam uma vivência difícil para o ser diabético amputado quando revelam
sofrimento provocado pela dependência, pelo isolamento social que é fruto da
dependência da acessibilidade e de outros fatores. Mostram solidão, gostariam
de participar ativamente da vida social, familiar e comunitária. A amputação
traz acima de tudo a limitação e, com ela, a acomodação.
Heidegger(11) chama de facticidade o fato do homem, na sua existencialidade,
ter sido lançado no mundo independente de sua vontade, e sua existência o impõe
a situações não planejadas, não desejadas e esperadas por ele. Mundo para
Heidegger não é só o espaço físico onde se vive, mas é o contexto em que a pré-
sença vive; o mundo circundante é o círculo de interesses, preocupações,
desejos, ideais, afetos, conhecimentos, conjunto de condições socioeconômicas.
É neste mundo que o homem está imerso, situado e é um mundo de possibilidades.
Ninguém escolhe ser-diabético nem amputado, dentre essas possibilidades ele
ficou diabético e foi amputado.
Heidegger(11) fala que um sujeito não é e nunca é dado sem mundo, não é dado um
eu isolado sem os outros. Os outros já estão co-presentes no Ser-no- mundo,
possibilitando assim a compreensão do sofrimento provocado pela solidão devido
a amputação.
Ser-diabético e amputado significa não aceitar a doença e não seguir o
tratamento
A possibilidade ser-diabético com todas as suas limitações e restrições foi
lançada aos sujeitos do estudo como algo inesperado obrigando um
redimensionamento do cotidiano. Passa a fazer parte do dia a dia da pessoa com
diabetes a convivência com dieta; uso de medicamentos orais ou injetáveis que
devem ser tomados de forma sistemática; uma série de recomendações e
comportamentos especiais; novos vocabulários como glicemia e hipoglicemia;
visitas regulares aos centros de saúde; consultas com médicos e enfermeiros;
retirada de sangue para realização de exames.
Com a amputação surge mais alteração no cotidiano, com mais limitações e novas
vivências. Essas pessoas se vêem de repente, com uma nova possibilidade, de
ser-diabético com amputações, tendo que se adequar e viver com todas essas
informações e obrigações. Aparecem sentimentos de não aceitação da doença, de
rejeição ao tratamento, ao uso da insulina, e de transgressão a dieta.
Não gosto de ser diabética. Só Deus mesmo. Foi difícil aceitar quando
o médico cortou a perna, eu não queria não [...] Eu não gosto da
dieta, não gosto de nada que posso comer, uso o adoçante, não gosto
da dieta que o médico passa, só quero comer comida normal (O Louro).
Eu nunca me aceitei, eu não faço é me aceitar mesmo. Já fui a
psicólogo, seis meses, paguei consulta para a mulher me acompanhar,
que eu tava quase louca, me deu uma depressão, por que eu não
aceitava, chorava muito, por que logo comigo, é muito ruim mesmo
(Florzinha).
[...] estou me preparando para ir ao doutor, eu vou pedir pra ele
para comer macarrão com sardinha, pra ver se pelo menos uma vez por
mês ele me libera. [...] a filha vai ficar com muita raiva, mas eu
não vou dizer pra ela que eu vou perguntar isso (Meu amorzinho).
Às vezes eu sou danada pra transpassar no doce. Aí agora deu um
problema nos meus rins "né", que a médica disse que é através da
diabete, aí a médica proibiu de triscar em açúcar, nem por
brincadeira, aí agora eu já eliminei, não como nada, tenho vontade e
não me iludo (Flor).
Eu prefiro morrer que comer a comida da dieta (Maria).
Em relação ao seguimento da dieta, percebe-se que todos os depoentes apresentam
dificuldade em cumpri-la, em todos os momentos do cotidiano como descrito por
Meu amorzinho, Florzinha, Flor, Maria, e o Louro. Alguns até referem só comer o
que o médico prescreve: verduras e frutas, como Meu amorzinho, Florzinha e
Flor. No entanto, mais adiante deixam revelar de forma indireta que comem algo
que não é permitido e que sabem o que têm que fazer quando sentem alguma coisa,
que indica que a taxa de açúcar está alta, pelo que foi transgredido, como
observa Florzinha. O único depoente que não deixou revelar em sua fala que
transgride a dieta foi Pássaro, que, no momento da entrevista, pediu a sua
mulher que fosse comprar um lanche na padaria e a mesma trouxe um refrigerante
zero e um bolo doce de chocolate que ele comeu naturalmente, demonstrando ser
um hábito comum em seu cotidiano, pois não foi questionado em momento algum
pela sua esposa.
Uma das dificuldades de aceitar a condição de diabéticos foi em relação aos
prazeres da alimentação. O mundo circundante é um apelo ao degustar.
Tradicionalmente todas as situações possibilitam a concretização desse prazer,
como as ocasiões sociais, o comércio e outros eventos, tudo gira em torno da
comida, tornando difícil a adaptação às restrições alimentares. Ao surgir uma
complicação como a amputação de membros as recomendações dietéticas devem ser
seguida a risca, de uma forma mais rigorosa, gerando mais oportunidades de
transgressão e sentimentos de não aceitação.
As pessoas ficam presas ao seu cotidiano, não conseguem vislumbrar novas
possibilidades de ser. Quando a presença aprisiona-se na sua temporalidade de
passado deixando-se guiar pela situação, pelo cuidado com as coisas, cai na
existência inautêntica, como Meu amorzinho, Flor, Peixinho.
O Ser não decide, transfere as suas responsabilidades para o outro, fato que
pode ser evidenciado na fala de Meu amorzinho e de Flor, quando diz que vai
perguntar ao médico se pode comer pelo menos uma vez por mês sua comida
preferida, que sua filha vai ficar zangada, que a médica disse que ela não
podia "triscar" em açúcar. Os outros, entes mais próximo ou familiares, são
quem determinam o que ela pode ou não comer.
Para Heidegger(11) esse ficar preso na temporalidade, deixando-se guiar pela
situação, o cuidado com as coisas levam a presença, o ser, se eximir de suas
responsabilidades, não decide, não toma iniciativas, ficando presa ao mundo de
todos. Tudo já está decidido na vida cotidiana, é só se acomodar e seguir,
caindo na existência inautêntica.
Em suas falas os depoentes revelam a decadência e a impropriedade, que para
Heidegger é um dos modos de ser da presença no seu cotidiano, segundo o qual, o
ser desviando-se do seu projeto essencial que é o de tornar-se a si mesmo. A
presença é chamada a apropriar-se de si mesma, mas ela pode viver na
impropriedade, não aceitando a situação imposta facticamente como na fala de
Florzinha e de Louro. A impropriedade, ou a inautenticidade não quer dizer ser
menos e nem tão pouco um grau inferior de ser, ao contrário, pode determinar
toda a concreção da presença em suas ocupações, estímulos, interesses e
prazeres. Viver assim na medianidade, nessa indiferença cotidiana da presença
não é negativo. E não perder esse modo de ser mais próximo deste ente é torná-
lo acessível numa caracterização positiva.
Ser-diabético e amputado significa perceber a ameaça constante de vir a
apresentar outras complicações
Após a visibilidade do diabetes mediada pela amputação, como uma doença crônica
e devastadora, a pessoa passa a conviver sob o temor constante de ferimentos e
medo de uma nova amputação, além da ameaça velada de lesão e complicação de
outros órgãos relacionados ao diabetes.
Perigoso você perder vários membros [...]. Problemas relacionado a
diabetes, agora tem o problema renal, tô fazendo hemodiálise
(Pássaro).
Mas o mais, eu tenho medo de me cortar, muitas coisas eu evito (Meu
amorzinho).
Eu tenho medo de me machucar (Florzinha).
Após analisar as falas, percebe-se um temor da possibilidade de uma nova
amputação, evidenciado pela expressão medo nos depoimentos de Meu amorzinho e
Florzinha e de forma ainda oculta no de Pássaro. Evidencia-se também no
depoimento de Pássaro o sentir-se reduzido a perspectiva da doença, e de uma
vida de cuidado.
Heidegger(11) refere que o fenômeno do medo pode ser considerado sobre três
perspectivas: o de que se tem medo, o de ter medo e o pelo que se tem medo. O
de que se tem medo, o amedrontador é sempre um ente que vem ao encontro dentro
do mundo. Aquilo de que se tem medo contém o caráter de ameaça, possui o modo
conjuntural de ser prejudicial. Enquanto ameaça o prejudicial não se acha numa
proximidade dominável, ele se aproxima. Nesse aproximar-se o prejudicial se
irradia e seus raios apresentam o caráter de ameaça, aproximando-se na
proximidade é que é o prejudicial ameaça, pois pode chegar ou não. O
prejudicial traz consigo a possibilidade desvelada de ausentar-se e passar ao
largo, o que não diminui nem resolve o medo, mas o constitui.
O ter medo libera a ameaça. Tomando por exemplo os sujeitos do estudo, pessoas
com diabetes e amputações de membros, não se constata um mau futuro para então
se ter medo, não constata primeiro o que se aproxima, mas em seu ser
amedrontador já o descobriu previamente. É tendo medo que o medo pode ter claro
para si o de que tem medo(11). A pessoa que já experienciou uma amputação
descobriu previamente o amedrontador e sente a ameaça permanente de uma nova
amputação, que é algo que pode ou não estar próximo. O medo é desvelado da
amputação prévia do próprio membro, é o pavor, pois o de que se tem medo, o
amedrontador, já é algo conhecido e familiar, que pode ou não vir, que pode
estar próximo, mesmo mantendo a distância.
Ser-diabético e amputado significa a possibilidade de uma vida normal
A princípio não percebi nos depoimentos algo que pudesse ter contribuído para a
construção dessa unidade de significação, parecia que todos os entrevistados
estavam presos aos seus diagnósticos e à temporalidade. Foi necessário fazer
várias leituras e releituras das transcrições das falas dos sujeitos, para que
nos discursos conseguisse identificar palavras que permitissem desvelar que os
entrevistados encontram estratégias de enfrentamento de suas dificuldades e
lançam-se como projeto de possibilidades.
Vez em quando vou ver, assisto um futebol [...]. Saio com minha
esposa, vou ao shopping, de vez em quando a gente vai uma festinha,
vai dar um passeio na chácara, se diverte, tem os programas de
diabéticos nos postos de saúde que tem passeio e a gente sempre
participa [...]. Então a vida da gente é assim, mas dá pra você levar
uma vida normal, dá pra você ter tranqüilidade (Pássaro).
E pra mim, a pessoa hoje é deficiente, se tiver boa vontade, você
faz, você consegue tudo o que você quer (Florzinha).
O homem não é um espectador passivo no mundo, pelo contrário o homem está
lançado no mundo e com ele interage não estando preso a nenhuma situação, mas
sempre aberto para se tornar algo novo(13). Essa possibilidade de se tornar
algo novo, Heidegger(11) chamou de poder-ser.
Damasceno(14) refere que mesmo sendo um ser em situação, neste estudo em
questão, sendo diabético e amputado, o Dasein, ou seja, a pré-sença, não está
presa, e sim aberta para além do mundo, para o plano ontológico, é
transcendência. Ultrapassa a realidade dada e se dirige à possibilidade. Sendo
abertura e possibilidade, o Dasein projeta-se para fora de si mesmo, buscando
aquilo que ainda não é, mas que poderá ser.
Percebe-se também que alguns depoentes passaram a perceber o mundo com outros
sentidos e buscam o desenvolvimento de novas habilidades:
Gosto de televisão, de ouvir uma música. Eu fico aqui de cabeça
baixa, não posso olhar, mas fico aqui de cabeça baixa escutando. E
ligada direta pra eu escutar (a TV). Gosto de assistir DVD [...].
Gosto de assistir jornal (Peixinho).
Ainda escuto um rádio, eu fico deitada na área ouvindo rádio (O
Louro).
Eu me sinto bem quando eu vou fazer um tapete bonito que eu faço
coisas lindas que ninguém acredita que eu tenha feito à mão. Quando
eu termino aquilo que eu mostro, quê que tu vai fazer? Vou dar pra
fulano, vou vender ás vezes eu vendo pra ele mesmo, aí eu sinto
prazer (Meu amorzinho).
Esses depoentes falam de algumas substituições que proporcionam as mesmas
emoções como a troca da TV pelo rádio. Para quem é cego funciona como novos
modos de interação com o mundo. Outros, apesar da cegueira, o ouvir já leva a
viajar no mundo do outro, a TV continua sendo um meio de estar-no-mundo, de
sentir o mundo, de saber o que se passa no mundo. É mister pontuar que houve
quem expressasse a possibilidade de uma vida normal como:
Mas eu tenho uma vida normal, uma vida boa (Meu amorzinho).
Eu acho que é uma pessoa normal. Apesar desse problema eu levo a
minha vida em frente não é [... ] Eu tenho vida normal (Dedé).
Uma pessoa como eu que tem boa vontade de fazer minhas coisas, eu
faço minhas coisas tranqüilo [... ] Levo uma vida normal (Florzinha).
Os sujeitos despertaram e absorvem todo manual e instrumentos de que dispõem na
cotidianidade para se libertar e buscar formas possíveis de nova vida pontuadas
nas falas de Pássaro e Florzinha; percebem o mundo com outros sentidos como
Peixinho, Zaque e O louro; desenvolvem outras habilidades, bem como Meu
amorzinho. Expressam possibilidade de uma vida normal nos discursos de Meu
amorzinho, Dedé e Florzinha.
Heidegger diz que o ser e a estrutura do ser acham-se acima de qualquer ente e
de toda determinação ôntica possível de um ente, para ele o ser é um
transcendens pura e simplesmente, ou seja, a transcendência do ser da presença
é por si só privilegiada, pois nela reside a possibilidade e a necessidade de
individuação.
Uma vez aberto para tornar-se algo novo, se manifestar sempre mais, o Dasein é
transcendência, ultrapassa a realidade dada e se dirige para a possibilidade.
Sendo abertura e possibilidade, projeta-se para fora de si mesmo em busca
daquilo que ainda não é, mas que pode ser (11).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Levando-se em consideração as questões levantadas do que é ser diabético e
amputado e como é o seu cotidiano e ainda em conformidade com os objetivos
deste estudo, com as leituras complementares realizadas buscou-se um
aprofundamento não do diabetes e suas complicações, mas do ser com diabetes e
amputações de membros a partir das suas vivências no cotidiano.
Nessa compreensão foi que essa investigação buscou seguir a fenomenologia de
Heidegger que conduziu a outra forma de olhar, de superar o modo de pensar
tecnológico e orienta a buscar as origens genuínas, ou seja, a instância
fundante, que possibilita a tudo manifestar-se.
Desse modo, Ser-pessoa-com-diabetes-e-amputações de membros significa vivenciar
um cotidiano permeado por dificuldades, limitações e restrições impostas pela
situação; sofrer pela dependência de outras pessoas, pela solidão imposta pelo
isolamento social; seja por limitações pessoais, econômicas e ou inadequação
das políticas públicas.
Significa ainda não aceitar a doença e nem seguir o tratamento manifestado nas
falas que referem transgressões as restrições alimentares e medicamentosas;
depender dos outros e ter a vida pessoal e profissional modificada pela doença,
viver sobre a dependência do medo da perda da integridade física, da ameaça
permanente de outras complicações do diabetes e sentir-se reduzido à
perspectiva da doença. Porém pode significar, desenvolvimento de outras
habilidades e a busca por novas formas de viver a partir da atual realidade de
Ser diabético e amputado.
A Fenomenologia possibilitou um olhar crítico, reflexivo sobre a realidade que
nos permeia e que pode servir como subsídio para estarmos refletindo sobre a
nossa prática de assistência a essa clientela. Percebe-se que a assistência
dada ao diabético pelos profissionais da saúde mantém a forma como a ciência o
conceituou, como uma entidade fechada reduzindo os seus pensamentos,
sentimentos, percepções e comportamento a fatos que não são considerados
relevantes, e obscurecendo a questão do ser- diabético.
O diabético é lançado num mundo já constituído, recebe informações de que é
portador de uma doença incurável, mas passível de ser controlada desde que
sejam efetuadas mudanças no seu cotidiano e que determinadas regras sejam
seguidas. É preciso adaptação de rotinas, inclusão de novos hábitos, limites e
novas obrigações. Esse contexto o percebe como algo fechado, isolado da
experiência humana, esquece que em seu ser fático, a presença é sempre como e o
que ela já foi. As experiências passadas que, às vezes agem e influenciam o
presente. Esquecemos que as questões de saúde não acontecem de maneira separada
dos demais aspectos da vida de uma pessoa e de uma sociedade.