Ciências Humanas e Sociais na formação das primeiras enfermeiras cariocas e
paulistanas
INTRODUÇÃO
Florence Nightingale inaugurou a Enfermagem Moderna com a fundação da Escola do
Hospital Saint Thomas em 1860, e com o livro Notas Sobre a Enfermagem,
publicado em 1859, apresentando seu modelo de ensino de enfermagem vinculado ao
âmbito hospitalar e valorizando a experiência prática. Nessa escola era exigido
o ensinamento teórico sistematizado, com autonomia financeira e pedagógica; e
recomendava-se que as escolas que seguissem esse modelo fossem dirigidas por
enfermeiras. Também se preocupava com o comportamento pessoal das alunas e sua
postura física e vestimentas, em função da valorização do trabalho da
enfermeira que, após a Reforma Protestante passou a ser exercida por mulheres
de moral duvidosa. O modelo propunha ainda a divisão social do trabalho por
meio da distinção de funções entre as "nurses", com atividades usuais no
hospital, e as "ladies nurses", com atividades mais elaboradas de supervisão da
assistência, administração e ensino(1).
Sob esse ideário se compôs a Enfermagem no Brasil, mais especificamente no Rio
de Janeiro, na Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN), que iniciou suas
atividades em 1923, por iniciativa do diretor geral do Departamento Nacional de
Saúde Pública da época, o sanitarista Carlos Chagas, com a cooperação do
Serviço Internacional de Saúde da Fundação Rockefeller por meio da Missão
Técnica de Cooperação para o Desenvolvimento da Enfermagem no Brasil(2).
A Missão Parsons, como ficou conhecida, por conta da liderança de Ethel O.
Parsons, organizou um Serviço de Enfermeiras de Saúde Pública e foi formada por
enfermeiras americanas que chegaram ao Rio de Janeiro em dois de setembro de
1921 e seguiram o modelo de ensino e de prática da enfermagem moderna, segundo
os princípios norteadores do sistema nightingaleano reinterpretado pelas
americanas, o chamado modelo anglo-americano de formação. A escola iniciou o
curso com 13 alunas, em regime integral de atividades, por um período de 28
meses inicialmente(3).
Aproximadamente dezesseis anos depois, na cidade de São Paulo, foi inaugurada,
em primeiro de março de 1939, a Escola de Enfermeiras do Hospital São Paulo
(EEHSP), um dos pioneiros cursos de formação de enfermeiras no modelo citado na
cidade e que foi instituído pela Escola Paulista de Medicina (EPM) com o
intuito de servir às suas próprias exigências, garantindo qualidade técnica ao
serviço assistencial, segundo o padrão* da Escola de Enfermagem Anna Nery.
Também sob o regime de internato, como da escola padrão, inicialmente o curso
tinha a duração de dois anos e quatro meses, que logo se estenderia para três
anos, com 15 dias de férias anuais(4).
Para tanto, o arcebispo paulistano, Dom José Gaspar de Affonseca, contratou
madres francesas da Congregação Franciscanas Missionárias de Maria para dirigir
a Escola, que teve a orientação científica dos professores da EPM, não fugindo,
assim, à orientação filosófica e caritativa do nascimento da Enfermagem em
qualquer outro lugar do mundo ocidental. O lema instituído para a Escola foi
"Non vivere nisi ad serviendum" (Não viver senão para servir), imprimindo a
prioridade da assistência e recomendando a subserviência, com o aspecto
religioso enraizado na rigidez profissional. Na primeira turma formaram-se
cinco enfermeiras(4).
Ainda no contexto histórico, registra-se que o nascimento da Enfermagem Moderna
no Brasil foi permeado por importantes marcos. Iniciou-se oficialmente num
período pós 1ª Guerra Mundial, quando ainda se sentia os efeitos da Proclamação
da República, com seus primórdios de modernização e industrialização no país e
no ápice do desenvolvimento do movimento sanitarista e higienista na saúde.
Esse enfrentou rejeição por meio de revoltas e manifestações de notória
insatisfação com as mudanças sócio-políticas e econômicas que, posteriormente,
se exprimiram, inclusive, em amostras culturais, como a conhecida Semana de
Arte Moderna em 1922, quando artistas se reuniram no importante e tradicional
Teatro Municipal de São Paulo, para propor renovação artística, cultural,
social e política, para que o país assumisse identidade legitimamente nacional.
A Saúde, nesse contexto, representava o atraso na medida em que as ciências e a
tecnologia nesse campo requeriam instituições prestadoras de assistência melhor
estruturadas e sua intervenção garantia sustentação para o modelo econômico, na
medida em que melhorava o saneamento das grandes cidades e preservava a força
de trabalho urbana industrial. Por esse motivo a criação de escolas de
enfermagem nos centros mais desenvolvidos do país não pode ser considerada
iniciativa isolada. Sua concretização integrava projeto maior de avanço em
direção à almejada modernização.
Quando a EEHSP nasceu, após a Revolução Constitucionalista de 1932
protagonizada por São Paulo e imediatamente próxima ao início da 2ª Guerra
Mundial, São Paulo era o berço do desenvolvimento industrial, gerido sob a
pressão do movimento operário e sob a forte influência do empresariado para
quem a mão-de-obra era valiosa. Essa conjuntura era favorável ao
desenvolvimento da assistência curativa, individual e, portanto, dependente da
criação, instalação e operação de hospitais, o que demandava pessoal de
enfermagem, razão para a criação da escola.
Esse clima revolucionário em que surgiram as duas escolas porém,
contraditoriamente, não influenciou o ideário de ambas, já que a formação que
nelas se praticava teve um caráter conservador e reacionário e, em última
análise, positivista, como declarado por alguns autores.(5)
O surgimento da EEAN veio ao encontro dos interesses políticos e econômicos da
nova ordem republicana que, balizada nos princípios liberais, e embora
politicamente excludente, defendia a universalização de certos benefícios como
a assistência à saúde e a educação básica(6). A partir de então, a saúde passou
a ser vista como responsabilidade do Estado, garantindo a política
agroexportadora, de imigração e da urbanização e, por causa disso, as políticas
públicas de saúde à época, com sua postura nitidamente higienista, se
encaminharam para o controle de endemias e para o saneamento das cidades,
evidenciando a intenção de propiciar condições sanitárias adequadas ao
desenvolvimento capitalista(7).
Na criação do curso da EEHSP, entre os anos de 1930 e 1940, houve forte
influência da elite conservadora paulistana, que se preocupou em formar
enfermeiras nos moldes oficiais e com inclinação pessoal para a profissão(4). O
momento era de notório crescimento da industrialização no Brasil, tendo o
Ministério da Educação passado a investir no preparo do cidadão para diversas
ocupações(8) utilizando-se do ensino como instrumento de produção do
conhecimento demandado pelas necessidades econômicas vigentes.
Ambas escolas de enfermagem foram idealizadas para auxiliar a prática médica, a
primeira dando continuidade às atividades educativas de higiene e prevenção de
endemias iniciadas por médicos sanitaristas(9)e a segunda para prover a
assistência com qualidade técnica no hospital da Escola Paulista de Medicina
(4). Além disso, cada uma delas procurava responder às demandas sociais de
então. A formação da enfermeira, nessa perspectiva, poderia incluir algum
preparo para a compreensão dessa dimensão, a fim de bem desenvolver o seu
trabalho, indagação que gerou a realização do presente estudo.
Nessa direção, a intenção é buscar algum vestígio, na formação dessas
enfermeiras, de preocupação e de responsabilidade em relação à sua formação
sócio humanística. Com tal finalidade, serão analisados o primeiro currículo
das duas escolas de modelo anglo-americano, formadoras das enfermeiras
pioneiras das cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, atentando-se para os
conteúdos relacionados às Ciências Humanas e Sociais constantes na grade
curricular.
A escolha das escolas dos dois grandes centros econômicos da época se justifica
porque o projeto de desenvolvimento para o país incluía a já citada ação no
campo da Saúde. Pode-se objetar que a Escola Carlos Chagas de Minas Gerais,
fundada antes da EEHSP, seria modelo de influência da religião católica mais
que esta, mas, não se pode esquecer que a direção da EEHSP desempenhou papel
preponderante, na representação oficial da Igreja Católica, nas entidades de
classe, em comparação com a escola mineira, se mais não for, pelo fato de ser
liderada por religiosas vinculadas a congregações formalmente instituídas.
Registre-se que, quando a EEHSP foi concebida, o decreto nº 20.109/31, que
estabelecia o ensino praticado na EEAN como padrão para todo país, era vigente
mas, a organização curricular na disposição das disciplinas era decidida em
cada escola, o que torna possível indagar sobre esse aspecto.
Por definição, as Ciências Humanas são as disciplinas cujo objeto exclusivo é o
homem em suas várias dimensões(10) e, segundo a classificação do CNPq/CAPES são
compostas por: Filosofia, Sociologia, Antropologia, Arqueologia, História,
História do Conhecimento, Geografia, Psicologia, Educação, Ciência Política,
Relações Internacionais e Teologia. Já Ciências Sociais são o conjunto de
disciplinas que estudam o homem através das suas relações com a sociedade e com
a cultura(11)). Essa classificação da CAPES é atual e não se dispunha de tantas
disciplinas no ensino formal brasileiro à época. No entanto, os conteúdos a que
essas se referem já existiam, e a apropriação desses conhecimentos pelos
enfermeiros lhes permitiria compreender a dimensão do cuidar humano, de pessoa
para pessoa, das relações entre os humanos que estão envolvidos nesse fazer, o
que inclui o indivíduo que cuida, individualmente e tomado em grupos e
coletividades de profissionais, e do indivíduo e grupos que são cuidados,
representados pela família, outros grupos sociais, comunidades e coletividades.
Por que o interesse pelas Ciências Humanas e Sociais? Partindo do pressuposto
de que a Educação é capaz de formar sujeitos críticos, com autonomia e
cidadania é que se justifica a realização do presente trabalho, pois,
analisando-se a importância dada às Ciências Humanas e Sociais nos seus
primeiros currículos e pensando nesse conteúdo como um instrumento que permite
a compreensão, reflexão e analise do comportamento humano e seu entorno
próximo, necessárias ao bom desenvolvimento do trabalho do enfermeiro, pode-se
identificar qual a abordagem dedicada a esse aspecto por ambas escolas em foco.
OBJETIVO
Descrever o lugar que as Ciências Humanas e Sociais ocuparam no primeiro
currículo escolar dos cursos de nível superior de enfermagem das escolas EEAN e
EEHSP;
Identificar as semelhanças e as diferenças no tratamento das Ciências Humanas e
Sociais nos currículos das escolas EEAN e EEHSP.
MÉTODO
Pesquisa histórico-documental que utilizou, como fontes primárias, os primeiros
currículos escolares praticados pela EEAN e pela EEHSP e o currículo da EEAN à
época da criação da EEHSP e, como fontes secundárias, artigos, livros e teses
com temas afins.
O primeiro currículo da Escola de Enfermagem do Departamento Nacional de Saúde
Pública, em 1923, que posteriormente se denominou EEAN, baseou-se no "Standard
Curriculum School of Nursing", em vigor nos EUA desde 1917(12). O primeiro
currículo da EEHSP, por sua vez, seguiu os moldes da Escola Padrão EEAN,
oficial no Brasil, desde 1931 e tal como era praticado em 1939; portanto, para
não cometer anacronismo comparando a grade curricular de escolas que iniciaram
suas atividades com dezesseis anos de diferença, optou-se por fazê-lo
empregando-se o currículo da EEAN vigente no ano de 1939.
As cópias de currículos da EEAN foram obtidas, respectivamente, o primeiro da
tese de Porto, 1997, e o praticado à época de criação da EEHSP de dois
históricos escolares, obtido junto ao Centro de Documentação da EEAN/UFRJ.
A cópia do currículo da EEHSP foi obtida junto à Reitoria da Unifesp, no
Histórico da Escola de Enfermeiras do Hospital São Paulo e, para complementação
de informações sobre carga horária, este foi cotejado com o artigo extraído da
dissertação de Mestrado Ensino em Ciências da Saúde da Unifesp.
A análise dos currículos buscou, no primeiro momento, elencar as disciplinas
com conteúdo relacionado às Ciências Humanas e Sociais, o ano de sua inserção e
sua carga horária e observá-las no contexto de cada currículo, para
identificação de seu status em cada um desses. Em seguida compararam-se os
currículos da EEAN entre si, para identificar as mudanças ocorridas nos três
lustros que separavam o oferecimento de um e outro. Por fim, os currículos
contemporâneos de ambas escolas foram comparados para identificação de
semelhanças e diferenças entre eles, em relação às disciplinas foco do estudo.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Houve mudanças nos dois currículos da EEAN analisados, com a redistribuição de
disciplinas: técnica de enfermagem, patologia interna e externa, enfermagem em
patologia interna e externa, técnica adiantada, doenças contagiosas, enfermagem
em doenças contagiosas, enfermagem obstétrica, enfermagem em pediatria, técnica
de sala operatória, enfermagem em primeiros socorros, enfermagem em
oftalmologia, enfermagem em ORL; a exclusão de algumas: ortopedia, ginecologia,
problemas sociais, serviço social, serviço privado, enfermagem industrial,
doenças especiais; a inclusão de outras: ética, canto coral, ginástica, higiene
em saúde pública, enfermagem em saúde pública, higiene escolar, pedagogia
aplicada à enfermagem e a mudança na denominação das disciplinas: dietética,
ouvido nariz e garganta, olhos, bandagens, doenças cirúrgicas, doenças
comunicáveis, doenças da criança, doenças mentais e nervosas, doenças
ocupacionais venéreas e de pele; como se pode ver na Figura_1, um quadro
comparativo das três grades curriculares das duas escolas. Entretanto, as
mudanças não configuraram a proposição de outro currículo, guardando
semelhanças entre si no que diz respeito à sua estrutura e composição.
As disciplinas do curso da EEAN, em 1939, eram divididas em séries, a primeira
era chamada de Série Preliminar, seguida da Segunda Série Júnior, Terceira
Série Intermediária e finalmente Quarta Série Sênior. Já as Disciplinas da
EEHSP, ainda que não tivessem a mesma denominação não se apresentaram de
maneira muito diferente, haja vista a obrigatoriedade de seguir o padrão da
escola oficial, ainda que até a terceira turma tivesse 28 meses de curso,
passando em seguida para 36 meses como o da EEAN.
O curso de ambas as Escolas era repleto de disciplinas técnicas e instrumentais
focadas na prática de enfermagem, com ênfase para o aspecto biológico, em suas
diversas dimensões. Dentre as que se dedicavam ao conteúdo de Ciências Humanas,
encontrou-se, na EEAN: História de Enfermagem e Ética na primeira série e,
somente na última série, mais duas denominadas Problemas Profissionais e
Pedagogia aplicada à Enfermagem. Infelizmente não foi possível, com as
informações capturadas determinar a carga horária exata das disciplinas
praticada nesse ano, mas supõe-se que não tenha fugido muito do seu primeiro
currículo, no qual 50 horas foram destinadas às disciplinas de Ciências
Humanas. Na EEHSP, no primeiro período, as disciplinas são idênticas às da
EEAN, com História da Enfermagem (55 horas) e Ética (81 horas), aí se
encerrando as disciplinas que se dedicavam ao conteúdo de Ciências Humanas.
Como já explicitado eram escolas de regime de internato com cerca de doze horas
diárias de atividades, em 36 meses; portanto, as cento e trinta e seis horas
dedicadas às Ciências Humanas, em todo curso da EEHSP, são evidência da pouca
importância atribuída ao ensino formal desse conteúdo, já que o total de aulas
teóricas somavam 2182 horas. Ocorre que a formação da enfermeira, nesse regime,
também incluía atividades sociais e de lazer que poderiam acrescentar
aproximação a temas afetos a essas disciplinas por meio de leituras e
eventualmente, freqüência a cinemas, teatros e outras manifestações culturais
semelhantes. Não se descarta ainda a possibilidade do conteúdo dessas
disciplinas ser abordado nas disciplinas que ensinavam a cuidar. Independente
dessas variações a exigüidade da carga horária destinada as disciplinas em foco
no presente trabalho são uma medida da pouca valorização das ciências humanas
sociais em comparação com os demais componentes curriculares.
Ao fazer ilações sobre as razões dessa distribuição para elaboração do primeiro
currículo da EEHSP, levantou-se a hipótese de que talvez houvesse dificuldades
na sua formulação porque o mesmo obedeceu a duas orientações - o modelo da
escola padrão e dos professores da Escola Paulista de Medicina e médicos do
HSP, fundadores da escola. Não se percebeu, nas fontes primárias e secundárias
consultadas, que houvesse dificuldades entre os últimos e as religiosas que
dirigiam e lecionavam na escola, mas chamou à atenção declaração de um desses
médicos sobre o que esperavam das enfermeiras que ali seriam formadas.
Octávio de Carvalho, médico fundador e primeiro diretor da EPM, em carta
endereçada a Álvaro Guimarães Filho, também médico fundador da escola,
demonstrava sua preocupação quanto à qualidade de enfermeira que seria formada
na nova escola e ressaltava a suprema importância da formação moral das alunas,
antes mesmo do conhecimento técnico científico (que dirá político!). Em
justificativa dizia que, ao formarem enfermeiras do nível da EEAN, o hospital
da EPM, ou não se conseguiria pagar por seus serviços, ou muito provavelmente
elas se casariam com médicos(13) e, por esse motivo, as enfermeiras formadas
nessa escola deveriam ter comportamento exemplar, obediência e boa técnica,
para que permanecessem servindo exclusivamente ao Hospital São Paulo após a
conclusão do curso.
Madre Domineuc, que foi diretora da EEHSP também valorizava a qualificação
moral das estudantes, possivelmente por outros motivos, além dos apontados por
Octávio de Carvalho, certa vez lamentou o baixo nível de instrução das alunas
que ingressavam no curso, já que não era exigido o ensino secundário (curso
fundamental) inicialmente ou até a equiparação oficial com a escola padrão, e
eram aceitas candidatas que atestassem experiência anterior em serviço na área
da saúde ou fizessem uma prova avaliada por três professores da escola.
Para solucionar tal situação, ficou acordado que o regime de internato ajudaria
a reparar o "defeito de educação" das alunas matriculadas, além de círculos de
estudos sobre ética e cultura geral, pedagogia especial com círculos de estudo
para elaboração de pontos, interrogação com atribuição de notas e, por fim, se
fosse necessário, eliminação das incapazes(14). Isso faz supor que havia outras
atividades de ensino que iam além do currículo oficial, o que se costuma
designar por currículo oculto(15). A existência do internato facilitava a
inclusão dessa complementação, posto que as alunas ficavam permanentemente na
escola, a qual habitavam coletivamente, juntamente com grande parte do corpo
docente.
Já o curso da EEAN embora também tivesse uma carga horária de prática bastante
superior à teórica, aceitava preferencialmente candidatas com habilitação em
curso normal ou o equivalente, e ainda havia uma movimentação das enfermeiras
orientadoras do curso e das estudantes com o propósito de se criar um projeto
político que elevasse o padrão da profissão(16), com embasamento teórico,
criticidade e grande influência da enfermagem norte-americana. Um exemplo
patente dessa orientação para a prática política por meio da representação
corporativa organizada foi a criação da Associação Nacional de Enfermeiras
Diplomadas Brasileiras (ANEDB) pelas enfermeiras formadas na primeira turma da
EEAN, que posteriormente se tornou na Associação Brasileira de Enfermagem
(ABEn), desde então e até hoje, o órgão mais representativo da Enfermagem
brasileira. Esse fato faz indagar sobre a competência política e a conseqüente
formação humanística e social das alunas e docentes da EEAN. Saliente-se,
porém, que a criação da associação se deu por orientação americana via corpo
docente da escola e foi mantida pela inspiração advinda das discípulas de
Lilian Clayton, líder no Teacher's College da Universidade de Columbia, onde
parte das primeiras professoras brasileiras fizeram seus estudos pós graduados.
Assim, não apenas a formação humanística e social obtida no curso como a já
trazida do curso normal e, principalmente, o modelo referência americano e o
ambiente de convivência na EEAN podem ter sido os principais responsáveis pela
criação do órgão de representação.
Voltando às disciplinas, é interessante notar que História da Enfermagem, nas
duas escolas, além de ser apresentada com o mesmo nome, foi ministrada no curso
preliminar. Possivelmente essa disciplina tinha a intenção de inserir a aluna
na cultura da Escola e da profissão, que experimentava grandes transformações,
o que talvez não fosse percebido por elas. Não se sabe o que efetivamente foi
ensinado, mas, provavelmente, a julgar pelos livros-texto datados da época
disponíveis nas bibliotecas de ambas escolas ainda hoje, a disciplina deve ter
sido utilizada como instrumento para a formação da identidade profissional,
para desenvolver um compromisso com a profissão, para melhor inserção da
profissão na sociedade(17), inicialmente, acreditamos ainda que devem ter
discutido a profissionalização da enfermagem e o que isso representava para as
enfermeiras brasileiras naquele momento.
Ainda no curso preliminar, as escolas ministraram a disciplina de Ética, que
deve ter permitido a ampla divulgação dos valores morais que eram defendidos
pela Enfermagem de então. Em que pese o fato da EEAN ter sido criada com a
intenção de formar enfermeiras de Saúde Pública, as mudanças observadas no
currículo, em 1939, indicam que Ética veio substituir duas outras ministradas
no primeiro formato praticado pela escola - Problemas Sociais e Serviço Social.
Além disso, como se vê no quadro comparativo, houve deslocamento da ênfase para
o ensino do cuidado curativo e hospitalar.
De fato a partir dos anos 1940, o número de hospitais começou a crescer,
principalmente no Rio de Janeiro e São Paulo, com a medicalização do corpo e a
preocupação com a recuperação da força de trabalho operária. Nas duas cidades
citadas, instituições hospitalares modelares, ligadas a faculdades de medicina
ou criadas pela previdência social, primeiro através das caixas de pensões e
aposentadorias e depois pelo ministério próprio, alavancaram o modelo biomédico
de prestação de assistência à saúde, que prosperaria no período da Ditadura
Militar com financiamento previdenciário de hospitais particulares, até seu
esgotamento, com a Reforma Sanitária. Essa conformação influenciou o ensino de
enfermagem desde a lei no. 775/49 até o currículo mínimo de 1994.
Na EEHSP, que iniciou suas atividades com o currículo voltado a formar
enfermeiras para trabalharem naquele hospital, suspeita-se que a importância
dada à condição moral, certamente abordada na disciplina de Ética, albergava
também razões práticas, como a fidelização das formandas, favorecendo o
estabelecimento de um contrato, ainda que tácito, com os padrões anteriormente
descritos por seus dirigentes e desejáveis para as futuras enfermeiras do
hospital que dava nome à escola.
As disciplinas com conteúdo de Ciências Humanas e Sociais, na EEHSP findaram
logo no curso preliminar, pela grade curricular oficial, mas a escola também
oferecia cursos extracurriculares como Geografia Econômica, Geografia Humana,
História das Civilizações, História das Artes, História da Filosofia, Religião,
e algumas atividades culturais(4), aparentando preocupação com o aporte
cultural geral das estudantes e sua formação social e humanista ao longo do
curso.
Como se vê na figura_1, no último ano do curso da EEAN, eram ministradas as
disciplinas Problemas Sociais e Pedagogia aplicada à Enfermagem. Considerando
que as egressas daquela escola eram absorvidas em funções de liderança no
próprio sistema público de saúde ou iam dirigir outras escolas de enfermagem, é
compreensível que necessitassem de formação específica. Além disso, a
localização dessas disciplinas no final do curso sugere serem um último
lembrete à concluinte, que foi preparada para atuar extra-muros da escola, da
necessidade de manter o compromisso com o entorno próximo aos seus futuros
postos de trabalho, sem, contudo, deixar de se preocupar com o desenvolvimento
da profissão.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao analisar os currículos praticados no início de funcionamento das escolas
EEAN e EEHSP, percebeu-se algumas diferenças entre elas, não na grade
curricular em si, mas na postura política das escolas analisadas. A carioca
tinha o intuito de ampliar a enfermagem moderna no país servindo de escola
modelo, mantendo a rígida disciplina das estudantes e, ainda assim, tinham uma
postura mais vanguardista em relação à escola paulista que, por sua vez,
mantinha, em relação as suas alunas, ensinamentos que as levaram a serem mais
reservadas e passivas.
As Ciências Humanas ensinadas na formação das primeiras enfermeiras do modelo
anglo-americano das cidades do Rio de Janeiro e São Paulo parece não terem sido
consideradas de grande relevância para formação de tais enfermeiras pois, como
apurado, foram ministradas em poucas horas, aparentemente a fim de cumprir o
currículo, sendo bem no início ou no fim do curso, não parecendo ter a função
nem de instrumentação para o trabalho assistencial, já que enfermeiras lidam
com seres humanos, e muito menos para formar profissionais com prática política
ativa, se percebendo cidadãs e atuando como tal.
Cabe indagar se essa reduzida valorização não carregava consigo a
intencionalidade de coibir o agir com autonomia e consciência de si mesmas e de
suas funções, o que parece contraditório com a proposta de formação de nível
tão elevado de escolaridade, já que, se o desejado eram apenas simples
instrumentadoras do cuidado, como já havia disponíveis na força de trabalho que
atuava nos estabelecimentos de saúde, seria necessário apenas um pouco mais de
treinamento, a fim de executarem a assistência de enfermagem, ao invés de curso
tão longo. Não há resposta para essa indagação uma vez que a presente análise
contemplou apenas a distribuição e carga horária das disciplinas e não o
conteúdo e a forma de ensiná-lo, que precisa ser mais bem estudados para que se
possa explorar essa hipótese.
Com a intenção de contribuir para a compreensão sobre o valor e o
reconhecimento social da profissão, ao estudar esse capítulo da história da
Enfermagem brasileira, foi possível encontrar a origem da ideologia de
subserviência praticada por tantos anos, que relegou a Enfermagem a posição
subalterna no trabalho em saúde. A despeito disso, a enfermagem desenvolvida na
época, se deu num contexto em que a mulher ainda lutava por conquistar seu
espaço na sociedade e que a partir da primeira metade do século 20 a imagem da
mulher na sociedade brasileira vinha sofrendo transformações, no qual a
profissão da enfermagem contribuiu no processo de emancipação da mulher, sem no
entanto entrar em conflito com a ordem social vigente(18). As enfermeiras e
alunas de ambas instituições estudadas, nesse sentido desempenharam papel de
vanguarda criando associações, fundando revistas, lutando por condições de
trabalho, enfim ampliando a participação a participação social e política da
mulher.
Assim investigaram-se indicativos de politicidade presentes nos currículos das
primeiras escolas, carioca e paulista, de modelo anglo-americano, representados
pela inserção de Ciências Humanas, cujo resultado demonstrou fragilidade na
preparação das primeiras enfermeiras nelas formadas, em relação a esse
conteúdo. Saliente-se, porém, que a análise limitou-se ao posicionamento e
carga horária dessas disciplinas, sendo oportuno aprofundar, em estudos
futuros, o estudo do conteúdo e das estratégias de ensino adotadas a época para
certificação dessa fragilidade.