Autoimagem de clientes com colostomia em relação à bolsa coletora
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
O aumento da expectativa de vida, a industrialização e os efeitos da
urbanização, fizeram com que a população brasileira estivesse mais exposta a
problemas de saúde, dentre os quais se destaca o câncer, os traumatismos, as
doenças crônicas degenerativas necessitando muitas vezes, de recursos
tecnológicos como o uso de ostomias, na perspectiva de proporcionar ao paciente
melhor qualidade de vida.
O ostoma, por suas características, não poderá ser controlado voluntariamente.
Considerando-se os tipos de ostoma, a colostomia é a mais frequente e
caracteriza-se pela exteriorização do cólon através da parede abdominal, com o
objetivo da eliminação fecal(1). Esta comunicação leva as fezes diretamente à
área exposta para fora do corpo, evitando a passagem de fezes pela porção
doente ou lesada do intestino. É por esta razão que se torna necessária a
utilização de uma bolsa de coleta de fezes.
As condições clínicas que levam à realização de uma ostomia intestinal estão
relacionadas às patologias benignas ou malignas do órgão e são muito comuns em
oncologia, trauma e cirurgia gastroenterológica. A ostomia pode ser temporária
ou definitiva, isto é, podem ser realizadas e depois fechadas, ou mantidas pelo
resto da vida(2).
O indivíduo ao receber o diagnóstico para realização de uma ostomia tem
dificuldades de enfrentar e vencer as mudanças que ocorrerão nessa nova fase da
vida, isso inclui: pré, trans e pós- operatório, pois, ocorrem transformações
na imagem corporal e autoimagem de difícil aceitação. Nesse sentido, os
cuidados de enfermagem voltados à pessoa ostomizada devem iniciar-se no momento
do diagnóstico e da indicação da realização de uma ostomia, na perspectiva de
minimizar sofrimentos, reduzir a ansiedade, prevenir complicações no pós-
operatório, bem como obter uma melhor reabilitação(3-4).
Destaca-se que vários são seus medos e receios, que vão desde a rejeição da
família e amigos, a dificuldade em lidar com a ostomia normalmente evidenciada
pela falta de conhecimento, as barreiras para reintegração social e a perda do
emprego. Circunscrevem, também, esta problemática as situações de
constrangimento e ameaça à sua integridade que geram um desequilíbrio
emocional, que interfere na aceitação de sua nova condição de vida(5).
A pessoa portadora de colostomia sofre impacto físico e psicológico, bem como
uma súbita destruição de sua imagem corporal. O estado emocional do paciente
anteriormente e logo após a cirurgia pode ser caracterizado por sintomas de
ansiedade e depressão que contribuem de forma negativa no estabelecimento de
novas relações sociais, além de exacerbar o medo, a dor e o sofrimento(6).
Portanto, faz-se necessário um preparo adequado por parte dos profissionais de
saúde no perioperatório para inserção de colostomia, considerando as alterações
físicas e emocionais consequentes a cirurgia. Enfatiza-se que a avaliação no
pré-operatório é imprescindível para que se alcance uma reabilitação eficiente
voltada para o autocuidado(3-4).
Neste contexto, subleva-se grande preocupação na ampliação de recursos humanos
na Enfermagem interessados, envolvidos, habilitados e, ou mesmo, especialistas
na área; bem como a ampliação da construção do conhecimento científico, pela
Enfermagem, na área da estomaterapia. Diante dessa realidade apresenta-se como
objetivo deste estudo: analisar a percepção do portador de colostomia em
relação ao uso da bolsa coletora.
MÉTODO
Trata-se de um estudo descritivo com abordagem qualitativa, realizada no Centro
Integrado de Saúde Lineu Araújo (CISLA), localizado no centro de Teresina-PI,
que funciona como serviço de referência para ostomizados em todo o Estado.
Fizeram parte do estudo dez pacientes em uso de colostomia definitiva, sendo
oito do sexo masculino e dois do sexo feminino, na faixa etária entre 24 a 84
anos de idade. Seis possuíam ensino médio, três ensino fundamental e um, o
nível superior. Como critérios de inclusão na pesquisa foram selecionados os
clientes que tivessem mais de seis meses de uso da bolsa de colostomia, em
virtude de ser um tempo mínimo para adaptação e uso desta, e aceitarem
participar do estudo com assinatura do Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido (TCLE).
Para produção dos dados utilizou-se a entrevista semiestruturada. Neste momento
o entrevistado possuía liberdade para responder ao que lhe foi questionado. As
entrevistas tiveram duração entre quatro e 15 minutos e foram realizadas no
período de abril a maio de 2008. Após as entrevistas, as falas foram
transcritas na íntegra, de forma a permitir o início da análise de conteúdo a
qual deve ser realizada seguindo três etapas: pré-análise, exploração do
material e tratamento dos resultados(7).
Esta pesquisa obedeceu aos aspectos éticos e legais preconizados pela Resolução
196/96 do Conselho Nacional de Saúde (CNS) no que tange a pesquisa envolvendo
seres humanos. Desta forma, destaca-se que se obteve autorização da instituição
e aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade NOVAFAPI (CAAE nº
0225.0.043.000-07).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Com a finalidade de analisar a percepção dos depoentes em relação ao uso da
bolsa coletora os discursos permitiram evidenciar que essa realidade é permeada
por diversos sentimentos emergidos das mudanças ocorridas com advento da bolsa
coletora. No entanto, descrevem também como vem sendo o processo adaptativo que
circunscreve essa difícil realidade.
Os sentimentos dos clientes colostomizados ao conviver com uma bolsa de
colostomia
A convivência com a bolsa de colostomia gera o surgimento de sentimentos
conflituosos, preocupações e dificuldade para lidar com esta nova situação. Há
estágios emocionais de negação corresponsáveis pelo decaimento da autoestima,
provocando assim, sensação de mutilação, rejeição de si próprio e dos
semelhantes, além de alterações em outras dimensões, tais como: o humor.
No grupo de entrevistados, os sentimentos de medo, vergonha e
angústia foram evidenciados de forma mais contundente.
No minuto que eu soube, eu fiquei muito apavorada [...]. (D1)
[...] A princípio foi meio constrangedor. [...] no inicio foi pesado,
eu pensei em até cometer suicídio [...]. (D5)
No início a gente se sente deprimida. [...] é muito ruim viver com
isso, é como você sentisse a morte, é angustiante demais [...] às
vezes fico me perguntando por que sou assim. (D6)
Fiquei com medo, vergonha, chorei muito, eu me senti no fundo do
poço. (D4)
Não sinto vontade de sair [...] no começo eu me privei [...] não saia
de casa, passava a maioria do tempo em casa. (D8)
Conforme relato dos entrevistados depressão, solidão, pensamentos suicidas,
sentimentos de estigma, perda da autoestima e alteração da autoimagem, enquanto
funções psicológicas estão entrelaçadas no cotidiano daqueles que vivenciam o
processo de ser portador de colostomia.
Estas pessoas se percebem como alguém que foge a normalidade das demais pessoas
de seu convívio sociocultural, e procuram constituir novas normas que a
possibilitem não se sentir tão diferente e distante de seus antigos padrões, no
entanto isso lhe demanda lutar contra o sofrimento e, principalmente, o medo de
rejeição e a ideia da própria morte(6).
Estudo fenomenológico realizado com portadores de colostomias evidenciou que
estas pessoas descortinam uma vivência, normalmente, circunscrita por
sentimentos de medo, vergonha, preocupação, inferioridade e preconceito(8).
Elas tornam-se reféns desses sentimentos, encontram-se imbuídas na
inautenticidade, num modo de ser desfavorável a sua realização pessoal.
A fala dos depoentes e os resultados de outros estudos congêneres realizados
Cuiabá-MT e São Jose do Rio Preto-SP também evidenciam a colostomia como uma
instrumento de mutilação(6,9). Assim, destaca-se que a família do portador de
ostomia tem papel fundamental, estes devem contribuir com um suporte
psicológico na tentativa de minimizar as dificuldades tomando pra si também as
responsabilidades, tornando-se protagonistas também desse cuidado.
A partir das vivências dos pacientes colostomizados são visíveis as mudanças
ocorridas no modo de vida, pela não aceitação do estoma e pelo estigma causado
por ele. Assim, os profissionais de Enfermagem, como educadores, têm um papel
fundamental no enfrentamento desses problemas(10).Vale ressaltar a importância
de se trabalhar crenças, medos e tabus do paciente, visando facilitar a
manutenção do convívio profissional e social, bem como acompanhar a evolução da
sua adaptação.
Mudanças ocorridas com o uso da bolsa de colostomia
Percebe-se nos depoimentos que as modificações fisiológicas gastrintestinais e
os cuidados com a bolsa de colostomia, provocam mudanças significativas na
manutenção da capacidade de realizar suas atividades cotidianas e de lazer.
[...] não tenho mais como trabalhar, não posso ir atrás de um
trabalho. [...] não vão me aceitar, não passo no exame médico. [...]
se quem tem saúde já não consegue, imagina eu [...]. (D8)
Tenho vergonha de brincar, não passeio mais. [...] o medo é da bolsa
estourar quando estiver banhando de piscina. (D7)
O que eu fazia antes dela, hoje eu não faço, muitas coisas [...].
(D10)
Os relatos dos portadores de colostomia apontam para mudanças mais profundas
que as fisiológicas, as psicossociais. Denota-se que está imbricado na vivência
dos portadores de colostomia restrições em suas vidas sociais, principalmente,
evidenciadas na teia de suas relações no trabalho e no lazer.
Ao ter a estrutura anatômica modificada, o ostomizado defronta-se com seus
conflitos e fantasias em função da imagem que ele faz do corpo, como também da
imagem que fazem dele as pessoas que o cercam(11). Este fato favorece a perda
da autoestima, uma vez que ao lidar com a colostomia focaliza-se a atenção das
pessoas sobre os valores relacionados à eliminação intestinal, e o que antes
era naturalizado passa a ser refletido e revisto.
O isolamento social é algo visível, no entanto é importante destacar que diante
dessa realidade é imperativa a necessidade de interação social, pois, esse
processo contribuirá para o restabelecimento de sua percepção relacionada ao
seu corpo e a sua própria autoimagem e, principalmente, contribuirá para
superação da solidão(6). A manutenção e quiçá ampliação de sua rede social
proporcionará distração, satisfação o que favorece o resgate da esperança, a
busca contínua por melhor qualidade de vida.
As mudanças no contexto social podem decorrer da insegurança causada pela
qualidade dos materiais e equipamentos utilizados. Muitas vezes o paciente pode
se sentir vulnerável e isolar-se tanto do convívio familiar quanto social.
[...] às vezes quando eu vou pra algumas oportunidades que tem gente,
fico preocupada, porque ela faz aquela zoadinha. [...] ai vem os
gazes, ai eu fico com receio de estourar, e me afasto das pessoas.
(D1)
Sinto vergonha das festinhas da família, porque naquele lugar tem
muita gente, é fico com medo de estourar, levanta uma catinga [...].
(D9)
A reinserção social do colostomizado é um desafio para a equipe
multiprofissional envolvida, destarte é importante encorajá-lo a acreditar que
ele é capaz de conviver com a nova realidade que lhe foi imposta. Portanto, a
atuação do enfermeiro deve ser pautada na aceitação da convivência com a
ostomia. Além de contribuir para manutenção de sua saúde física e mental(12).
A eliminação dos gases intestinais, o seu ruído e odor são socialmente
discriminados, fatores presentes e incontroláveis nos portadores de colostomia,
o que os leva a criarem formas para minimizar essa condição. Essa discriminação
aparece muitas vezes como sentimento de pena e reações de aversão(10,13).
O apoio e o estímulo dado pelas pessoas significativas podem ajudar o paciente
a superar os seus sentimentos de perda, negação, revolta e falta de esperança.
Eles se apegam a esse apoio para modificar e superar as suas limitações. Neste
momento o enfermeiro deve funcionar como mediador, facilitador deste processo,
sendo assim responsável pelo preparo do cliente a ser submetido à ostomia desde
o pré-operatório, a confecção da ostomia, até a sua reinserção social. Cabe a
este profissional despertar no paciente o sentido para a vida.
Outra mudança observada foi o aparecimento de disfunções sexuais e frequentes
problemas referentes a vivências de sua sexualidade, pois o corpo está
modificado e o colostomizado sente-se impotente durante a relação com o
parceiro, podendo levar a uma desestruturação familiar.
[...] Toda vez que tiver uma relação têm que ser com camisa, nenhuma
mulher não tem tesão pelo marido se ela estiver vendo uma colostomia,
ela lhe deixa [...]. (D4)
Tenho vergonha de me relacionar com as mulheres, é muito
constrangedor usar isso. (D9)
Hoje sou separado por conta dessa bolsa, ela incômoda mesmo, não
consigo ter tesão [...]. não tenho cabeça pra isso [...]. (D10)
A sexualidade ao ser vivenciada pela pessoa portadora de colostomia é
manifestada por meio de sentimentos negativos: preocupação, angústia, medo,
vergonha, isolamento, inferioridade e controle de seus desejos. Os relatos
permitem perceber que aludem ao seu corpo como não sendo o mesmo de antes e
deixam transparecer as alterações em suas atividades sexuais em decorrência de
desconforto físico, do constrangimento e dos efeitos colaterais do tratamento
coadjuvante.
Os efeitos do ostoma na sexualidade são difíceis de serem determinados, mas são
atribuídos principalmente, a aspectos que incluem a aparência das bolsas, o
vazamento de secreções em torno da bolsa, o odor e eliminação de gazes(8,14-
15). Neste sentido o enfermeiro deve encorajar a pessoa portadora de colostomia
na perspectiva de contribuir para manutenção de sua sexualidade já que o
dispositivo não representa obstáculo para a atividade sexual(8,14). Assim, a
atividade sexual deve ser reiniciada assim que este paciente tiver condições
físicas e emocionais(16).
Adaptação para o autocuidado do portador de bolsa de colostomia
A ostomia e o equipamento coletor imprimem mudança concreta na vida das pessoas
colostomizadas. Esta transformação requer tempo para sua aceitação e o
aprendizado do autocuidado. A educação em saúde faz-se imperativa tornando-se
propulsora das práticas de autocuidado.
[...] Sempre que tem um furo ou um vazamento é uma catinga e tanto,
muita gente até sai de perto da gente, eu pressinto logo pra fazer
qualquer coisa. (D4)
A gente se levanta numa noite vinte vezes, que você vai pra se deitar
tem que levantar de novo, já tem fezes dentro da bolsa, e eu fico
naquela sensação e não deixo [...]. (D10)
A pessoa portadora de colostomia traz no bojo de sua trajetória existencial
sentimentos de perdas evidenciados, principalmente, pela ausência de uma
autonomia quanto a sua fisiologia gastrintestinal. O incômodo causado pela
eliminação de gases, vazamentos e odores de fezes exalados pela bolsa de
colostomia são exemplos disso(10,14).
Essa realidade representa, sem dúvida, grande desafio, pois alternativas
deverão ser encontrados para minimizar a ocorrência dessas situações
desagradáveis. Assim, subleva-se relevante preocupação quanto à importância de
um atendimento especializado que possa dar suporte profissional aos
colostomizados.
É natural que os ostomizados enfrentem dificuldades e passem por um período de
adaptação, mas com um conhecimento adequado para vivência dessas situações quão
peculiares, certamente, conseguirão tratar adequadamente sua colostomia e
conseguirão alcançar um bom nível de bem-estar físico e psicológico(17).
[...] com o tempo a gente vai tentando se adaptar [...] é também a
gente esquece [...]. (D3)
Hoje em dia já estou bem adaptado pra mim eu levo a vida normal, sem
problema nenhum. (D5)
[...] A pessoa vai se acostumando, depois com o tempo eu vim
participando das reuniões da associação, foi vendo outras pessoas,
casos diferentes. (D6)
Percebe-se, por meio dos depoimentos, que o processo adaptativo é alcançado à
medida que essa trajetória existencial avança. Vale ressaltar que a
participação das reuniões do programa de ostomizados é um fator favorável para
eles, pois minimiza as alterações no seu corpo individual, social e político.
Assim, compartilhar experiências nas reuniões diminui as diferenças,
sentimentos de insegurança e medo, colocando o colostomizado como um ser
normal.
A participação em grupos permite uma interação positiva, uma vez que essa
metamorfose humana propicia que cada um se veja no outro, considerando que
todos possuem problemas semelhantes. Esse processo interativo os liberta da
solidão e lhes faculta o companheirismo que é de grande valor terapêutico(9).
Neste processo de adaptação a atuação da equipe multidisciplinar possui uma
relevância incontestável. No que tange à Enfermagem, esta deverá contribuir
para a reinserção social da pessoa portadora de colostomia bem como para o
restabelecimento de suas condições físicas, psicológicas, dentre outras.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A percepção da pessoa portadora de colostomia sobre a bolsa coletora esta
intimamente entrelaçada à presença de sentimentos negativos: medo, insegurança,
mutilação, sofrimento, além dos autodestrutivos.
As mudanças mais comuns, vivenciadas pelos depoentes, estão relacionadas à
manutenção de sua rede social (trabalho e lazer) e a sexualidade, por sentirem
insegurança e medo da rejeição. Destaca-se que esses conflitos existenciais são
geradores de alterações de ordem psicológica, emocional e social. No entanto, a
partir do presente estudo tornou-se possível conhecer como acontece o processo
de adaptação dessa vivência com a bolsa coletora. Assim, espera-se que os
resultados deste estudo quiçá representam um ponto de partida para o
desenvolvimento de uma assistência de Enfermagem centrada no cliente.
Diante dessa realidade, dar-se-á ênfase ao autocuidado. Esta proposta tem sido
descrita como uma alternativa terapêutica que possibilita que o paciente
participe ativamente do seu tratamento, estimulando a responsabilidade na
continuidade do cuidado após a alta hospitalar, o que irá contribuir na sua
reabilitação e na superação das suas dificuldades.