O ambiente da investigação em enfermagem: um relato de experiência
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
O Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica - PIBIC destina-se a
alunos de graduação, com a finalidade de introduzi-los na pesquisa científica,
fornecendo retorno imediato ao bolsista, com vistas à continuidade de sua
formação, especialmente na pós-graduação. Desta forma, entre outros objetivos,
visa: despertar vocação científica e incentivar talentos potenciais, mediante
suas participações em projetos de pesquisa, introduzindo o jovem universitário
no domínio do método científico; proporcionar ao bolsista, orientado por
pesquisador qualificado, a aprendizagem de técnicas e métodos científicos, bem
como estimular o desenvolvimento do pensar cientificamente e da criatividade,
decorrentes das condições criadas pelo confronto direto com os problemas de
pesquisa, que seja capaz de aumentar a produção científica no cenário nacional
(1).
A curiosidade de compreender mais sobre a dinâmica familiar foi o que me
impulsionou a participar da seleção de bolsa PIBIC - Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) do projeto intitulado "A
Dinâmica da família de idosos mais idosos: o convívio e cuidados na quarta
idade". Essa curiosidade foi aguçada no VI semestre da minha graduação na
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), quando cursei a disciplina
optativa Saúde da Família, a qual me possibilitou conhecer como se estruturam
as relações intrafamiliares e como a dinâmica familiar interfere no contexto de
cada indivíduo, em suas ações e, consequentemente, em sua saúde.
Nesta perspectiva, o mundo da pesquisa se mostrou como um cenário inquietante e
desvelador do conhecimento para o ser pesquisador iniciante, fortalecendo
sobremaneira a minha formação profissional em Enfermagem, como Bolsista PIBIC-
CNPq do referido projeto, no período de Agosto/2008 a Julho/2009.
Antes de ser bolsista dessa pesquisa, tive uma pequena experiência noutra
investigação científica como discente voluntária. Porém, naquela oportunidade
percebia que minha participação era uma mera instrumentalização técnica, ou
seja, apenas executava a coleta de dados sem uma visão crítico-reflexivo-
construtiva sobre o meu papel para o despertar à pesquisa. É necessário que
todos os envolvidos na pesquisa tenham a oportunidade de se posicionarem, como
sujeitos autônomos e ativos neste processo, a fim de que a apropriação do todo
seja compartilhada, estabelecendo uma relação de aprendizagem não
fragmentadora, nem tampouco colocando os discentes como meros objetos, que,
passiva e mecanicamente, respondem às demandas da pesquisa(2).
Assim, a oportunidade da bolsa PIBIC aliada ao trabalho conjunto com a
professora orientadora e o grupo da linha de pesquisa "Família e seu Ciclo
Vital" promoveram o despertar de uma maturidade para a pesquisa, enquanto
sujeito participante de contributos para o enriquecimento e fortalecimento da
pesquisa em nosso contexto, por desenvolver o pensar científico, a partir do
acompanhamento da trajetória da pesquisa, convivendo, passo-a-passo, com suas
fases, potencialidades e dificuldades.
A experiência também conduziu a um olhar mais cônscio do significado de "ser
universitário", ultrapassando os muros da universidade e superando o enfoque
direcionado apenas à execução dos procedimentos, para viabilizar possibilidades
de mudanças na realidade em benefício da comunidade. Assim, o objetivo dessa
experiência é relatar a vivência enquanto bolsista PIBIC/CNPq e compartilhar os
frutos dessa experiência, a fim de estimular graduandos a se enveredarem pelos
caminhos da pesquisa.
MATERIAL E MÉTODOS
Trata-se de um relato de experiência de abordagem crítico-reflexivo de cunho
descritivo-compreensivo sobre a vivência de ser bolsista PIBIC/CNPq da pesquisa
multicêntrica intitulada "A Dinâmica da família de idosos mais idosos: o
convívio e cuidados na quarta idade", durante o período de vigência da bolsa
(Agosto/2008 a Julho/2009), no contexto de Jequié-BA.
Essa pesquisa tem como sede da coordenação geral a Universidade Federal de
Santa Catarina (UFSC) e como objetivo conhecer a dinâmica do funcionamento
familiar no contexto das relações de cuidado diuturno entre a família e o
membro idoso mais idoso (80 anos e mais de idade) dependente de cuidados nos
diferentes contextos sócio-culturais de Florianópolis-SC, Jequié-BA, Belém-PA,
Palmeira das Missões-RS e a cidade de Porto, em Portugal. É um estudo
exploratório-descritivo e diagnóstico-avaliativo, cujos sujeitos são o par
formado de familiar cuidador principal do idoso de 80 anos e mais de idade e o
próprio idoso cuidado. Os instrumentos para coleta de dados são: Questionário
de Perfil da Família Cuidadora - QPFC, WHOQOL-OLD e WHOQOL-Breve da OMS, APGAR
familiar e Pentáculo de Bem-Estar.
A amostra da pesquisa é do tipo intencional, selecionada, inicialmente, entre a
população definida e circunscrita das famílias cadastradas como usuárias nas
Unidades Básicas de Saúde (UBS), em cada contexto de investigação, constituída
dos pares supracitados que se voluntariaram ao estudo, assinando o Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido, segundo aprovação da Pesquisa sob o nº 051/
08 da UFSC.
O caminho para desvelar os dados, no contexto do município de Jequié-BA, se deu
a priori a partir dos contatos feitos com as enfermeiras/coordenadoras e
Agentes Comunitários de Saúde (ACS) das UBS - Unidades de Saúde da Família
(USF) e Centros de Saúde (CS) -, a fim de localizar os sujeitos do estudo. Em
seguida, foram reproduzidos os instrumentos da pesquisa e organizados em pastas
para utilização dos pesquisadores e, posteriormente, realizado treinamento dos
discentes e colaboradores da pesquisa para a atuação na investigação. Quando
identificada a amostra, a entrada no campo foi realizada através do
agendamento, com os ACS, de visitas domiciliares aos sujeitos da pesquisa, para
a exposição do projeto, seus objetivos e a importância de sua participação.
Caso aceitassem participar, agendava-se novo encontro para iniciar a coleta de
dados, e tantos quantos fossem necessários para concluir a coleta das
informações. Esse processo ainda encontra-se em desenvolvimento, visto a
natureza da pesquisa.
Os dados levantados serão organizados com auxilio da estatística descritiva,
com apresentação em tabelas e gráficos e analisados por métodos estatísticos
pertinentes na exploração das relações entre algumas variáveis do estudo. A
discussão será feita comparando os resultados entre si dos cinco contextos
sócio-culturais a serem pesquisados, e fundamentando-se nas pesquisas prévias
identificadas na revisão de literatura e em bases teórico-conceituais de
dinâmica familiar.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A fim de melhor relatar essa experiência, organizamos este momento do estudo em
dois tópicos: "A trajetória bolsista PIBIC/CNPq", onde serão relatadas as
atividades realizadas durante o período da bolsa, as limitações e as
dificuldades; e "A experiência pessoal/profissional", onde serão expressos
sentimentos, temores e a percepção em relação à contribuição da pesquisa no
crescimento acadêmico para a formação do sujeito coletivo na inserção da
investigação científica.
A trajetória bolsista PIBIC/CNPq
Ao ser aprovada a bolsa, comecei a desvelar o universo da pesquisa,
inicialmente, participando de reuniões quinzenais do Grupo de Estudo de Família
do Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Extensão em Cuidados à Saúde da Família
em Convibilidade com Doenças Crônicas (NIEFAM) - Linha de pesquisa: "Família em
seu ciclo vital", no qual esta pesquisa está inserida, tendo como eixo de apoio
as ações extensionistas desse núcleo, a fim de que as famílias cadastradas no
NIEFAM sejam assistidas, mediante suas necessidades. Acredito que esse fato
torna a pesquisa ainda mais importante, visto que esta alia ensino-pesquisa-
extensão, a fim de proporcionar à comunidade uma melhor qualidade de cuidados à
saúde.
Nessas reuniões, além de discutirmos as atividades desenvolvidas pelo grupo e
temas que enlaçam o estudo de família na perspectiva sistêmica, também era
oportunizado aos participantes do grupo apresentarem seus trabalhos, como por
exemplo, teses, dissertações, projetos de pesquisa e trabalhos de conclusão de
curso (TCC), entre outros. Isso possibilitou ampliar significativamente os
conhecimentos adquiridos na minha graduação, contribuindo com o crescimento
acadêmico e dando subsídio às atividades como bolsista.
Também participava de reuniões semanais com os bolsistas de extensão do NIEFAM
e a coordenadora da pesquisa, as quais, aliadas à facilidade de acesso à
orientadora/coordenadora do projeto, me permitiram tirar dúvidas e compartilhar
todo o caminhar do processo da pesquisa, contribuindo para melhorar a
compreensão deste processo e, consequentemente, aperfeiçoá-lo.
Concomitantemente a essas reuniões, realizei busca na web off site, Portal de
Periódicos CAPES, por Grupos de Estudo de Família nas Universidades Brasileiras
e Estrangeiras, a fim de articular parcerias em rede de estudos com o NIEFAM.
Além de tentar articulação com estas Universidades, contatamos com Secretarias
Municipais - Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Secretaria de Desenvolvimento
Social (SDS) e Secretaria de Esporte e Lazer (SEL) - e com Projetos de Extensão
desenvolvidos por docentes e discentes da UESB, a fim de construir uma rede de
referência e contrarreferência para as ações extensionistas do NIEFAM.
Essa estratégia possibilitou enxergar a importância de se trabalhar de maneira
articulada, por acreditar que a união de diferentes órgãos sociais pode
fortalecer as ações e contribuir eficazmente na tríade ensino-pesquisa-
extensão. No entanto, não conseguimos efetivar vínculos com a SDS, o que
evidenciou a existência de grandes dificuldades em incorporar o aspecto
interdisciplinar ao contexto cotidiano dos diversos segmentos sociais,
tornando-se indispensável propor uma maior reflexão sobre o paradigma
sistêmico. Entendemos que para reconstruir coletivamente as esferas do pensar e
do fazer é preciso ultrapassar as fronteiras que limitam as competências de
cada vertente científica, com a ampliação das dimensões do senso crítico
necessário para a formação de profissionais comprometidos com a complexidade e
abrangência da assistência holística à saúde das pessoas, famílias e
coletividades(3).
Já os vínculos com a SEL e a SMS foram efetivados, e tem contribuído com as
atividades propostas pelo NIEFAM. A SEL tem disponibilizado quadras poli
esportivas, distribuídas pelos bairros do município, onde ocorrem atividades
físicas (aeróbicas) com portadores de Diabetes Mellitus e Hipertensão Arterial
cadastrados nas UBS desse município. O vínculo com a SMS deu-se através do
Grupo de Estudo de Família, ocorridas no auditório desta secretaria, com a
participação dos ACS e de Enfermeiras/coordenadoras das UBS do referido
município, além dos bolsistas, parceiros, colaboradores e da coordenadora do
projeto. Este grupo foi desenvolvido a partir da parceria NIEFAM-SMS, e
possibilitou uma maior credibilidade do projeto aos enfermeiros e aos ACS, bem
como um maior contato a esses, facilitando a identificação/localização dos
sujeitos do estudo e a ocorrência de visitas domiciliares às famílias
consideradas de risco, cadastradas nas USB de Jequié-BA e no projeto NIEFAM.
Esse foi um fato importante, já que observei a resistência que muitos deles, em
especial os ACS, tiveram em relação à adesão às atividades contributivas ao
projeto. Muitos tinham relevante interesse em saber a que, de fato, se propunha
o projeto, e apesar de explicarmos seus objetivos - salientando a importância
que atribuímos ao fato da pesquisa e extensão andarem juntas, nos comprometendo
em acompanhar e dar suporte às necessidades da comunidade - houve desconfianças
em relação às verdadeiras intenções do projeto, que, segundo argumentação dos
próprios ACS, se deviam a experiências anteriores negativas com outros estudos,
os quais, segundo eles, se interessavam em apenas coletar dados e analisá-los,
sem dar retorno à comunidade que os forneceu. Isso favorecia ao surgimento de
sentimentos negativos, tais como desamparo e frustração, visto que durante o
contato com os pesquisadores, a comunidade acaba criando expectativas e laços
de confiança. Por isso, havia um temor dos ACS em perder a credibilidade da
comunidade, pois são eles o 'elo' entre ela e a Unidade de Saúde, bem como
entre nós, pesquisadores.
Considerando o fato dos ACS serem responsáveis por esse 'elo', evidenciamos a
importância da estratégia de contatá-los para agendamento das visitas
domiciliares na fase de coleta de dados, pois facilitou sobremaneira a
localização às residências das famílias e a criação de vínculos proximais entre
os sujeitos da pesquisa e a pesquisadora. Essa estratégia também aumentou a
sensação de segurança física entre os pesquisadores, em locais da comunidade
com elevado índice de violência social, pois a companhia dos ACS, durante as
primeiras visitas, possibilitou uma maior confiança da comunidade e da equipe
pesquisadora, favorecendo o transitar em suas ruas, ruelas e becos. Durante as
visitas subseqüentes, realizadas sem a presença dos ACS, o fato de já termos
contato prévio aos locais permitiu o deslocamento mais rápido e seguro.
Roese e Lopes(4) relataram sua experiência na fase de coleta de dados,
salientando a importância da presença dos ACS nesta fase e os riscos pelos
quais estavam expostas no campo de pesquisa, por ser este em locais perigosos.
Também em nosso estudo, tivemos situações similares, em que alguns ACS
advertiam-nos dos perigos de certas localidades e da necessidade de entrarmos
em campo acompanhados e em horários de maior circulação de pessoas. No entanto,
tal advertência não pôde ser atendida, visto que nem sempre as visitas podiam
ter o acompanhamento dos ACS e muitas vezes tiveram que ser realizadas no
período noturno, devido à necessidade de encontrar membros familiares nos
domicílios. Assim, o ser pesquisador precisava enfrentar a violência social e o
medo, para alcançar o objetivo do seu estudo.
Há de se destacar, também, o quão dispendiosa é a coleta de dados quando
realizada em visitas domiciliares, visto que há um elevado custo no
deslocamento às casas e um aumento de tempo gasto na execução das entrevistas
(4). Daí a constatação de que, se não houvesse financiamento à pesquisa, a
locomoção tornar-se-ia um importante obstáculo a ser enfrentado pelos
pesquisadores, pois não só durante a coleta de dados necessitamos de
transporte, mas também anteriormente, durante a localização dos sujeitos,
quando fomos a todas as unidades - algumas delas mais de uma vez - para
estabelecer contatos e vínculos com Enfermeiros e ACS, e, posteriormente, no
levantamento dos sujeitos que seriam entrevistados.
A experiência no trabalho conjunto, durante a aplicação dos instrumentos da
pesquisa, possibilitou aguçar a percepção da necessidade de se compreender as
relações humanas em pesquisas que enlaçam pessoas em situação de fragilidade
pela doença, visto que inúmeras dificuldades emergiram na aplicação desses: a
linguagem complexa destes para compreensão dos sujeitos; a grande quantidade de
instrumentos utilizados e repetição em muitas questões que tornaram a pesquisa
cansativa para os sujeitos; muito tempo gasto nas entrevistas; as manifestações
emotivas dos entrevistados, em especial naquelas famílias com conflitos, que
poderiam, por vezes, desviar o foco de investigação; a presença de diversas
deficiências senis nos idosos, bem como dificuldades que estes apresentavam em
seguir os escores propostos pelas questões. O que se depreendeu desses
instrumentos foi a sua importância, validade e credibilidade na investigação da
dinâmica de funcionamento familiar, bem como na avaliação da qualidade de vida
e saúde dos subsistemas familiares. No entanto, para a aplicabilidade desses,
faz-se necessário domínio do seu conteúdo para evitar vieses na sua aplicação
que possam advir de um pesquisador pouco atento aos aspectos relacionais que
enovelam as relações parentais no âmbito domiciliar.
Todas essas dificuldades encontradas em campo foram contornadas de maneira
eficaz, pois antes mesmo de iniciar a coleta de dados já tínhamos suporte e
conhecimento de alguns desses aspectos, devido ao treinamento que foram
realizados com os investigadores. Vale salientar que esse treinamento não se
traduziu como mero "adestramento"(5) dos envolvidos na pesquisa. Mais que isso,
possibilitou aos investigadores desenvolver instrumentação criativa e
emancipatória, transformando-os em reais sujeitos da construção e reconstrução
do saber, ou seja, sujeitos do processo, com respeito a sua dignidade e
autonomia, o que constitui um imperativo ético(2). Freire acrescenta que toda
prática educativa demanda a existência de sujeitos, um que, ensinando, aprende,
outro que, aprendendo, ensina, daí a qualidade que tem a prática educativa de
ser política, de não poder ser neutra(5).
O fato da bolsa PIBIC/CNPq proporcionar a participação constante na produção
científica e em eventos que divulguem os resultados do estudo é considerado um
dos aspectos mais relevantes da pesquisa, já que, através da elaboração de
resumos, da confecção de pôsteres, da apresentação pública e da produção de
artigos científicos, o graduando é capaz de desenvolver a maturidade frente à
ciência, instigando-se a pesquisar e questionar o mundo ao seu redor, o que
traduz na formação do seu pensamento crítico da realidade e na possibilidade de
compartilhar os frutos da pesquisa com a comunidade científica. Acrescenta-se
que a bolsa de pesquisa possibilita aos acadêmicos passar da condição de
ouvintes passivos para sujeitos ativos, conscientizando-se da importância de
sua inclusão como participantes em todas as atividades acadêmicas(6).
Diante disso, a fim de desenvolver competências auxiliadoras à pesquisa, na
qualidade de bolsista, participei de curso sobre "Bases de dados disponíveis na
internet, na área de saúde" para subsidiar as pesquisas em bases de dados, que
posteriormente auxiliou-me na elaboração de inúmeros trabalhos científicos: um
artigo publicado na Revista "Kairós - Gerontologia"; dois trabalhos
apresentados na íntegra, um no 60º CBEn, que recebeu a designação de Honra ao
Mérito em 1º Lugar no prêmio "Vilma de Carvalho", e outro no 61º CBEn; quatro
resumos expandidos, sendo um apresentado no 60º CBEn, um no II Congresso de
Investigação em Enfermagem Ibero-Americano e de Países de Língua Oficial
Portuguesa em Coimbra, Portugal, um no XIII Seminário de Iniciação Científica-
UESB e um no 61ºCBEN; um Mini-curso desenvolvido no XI Congresso de Pesquisa e
Extensão - UESB; e o TCC, que emergiu das experiências adquiridas da bolsa
PIBIC CNPq/UESB.
A experiência pessoal/profissional
Na primeira reunião do Grupo de Estudo sobre Família do NIEFAM, na qual foi
apresentada a proposta da pesquisa, esta se revelou em sua dimensão e na
responsabilização que exigiria dos seus membros. Assim, foram surgindo, neste
momento, sentimentos diversos: receio de não conseguir conciliar o tempo
destinado à pesquisa com o das atividades acadêmicas; ansiedade diante desse
novo desafio; e preocupações e incertezas referentes à possibilidade de não
corresponder às expectativas da orientadora/coordenadora e dos demais
integrantes do grupo. No entanto, esses sentimentos foram aos poucos
trabalhados de forma positiva, no decorrer das reuniões e discussões com a
equipe NIEFAM, quando juntos procurávamos soluções para os problemas
emergentes, ao passo que as experiências trocadas entre os membros contribuíam
para o enriquecimento do grupo como todo.
Quanto à adesão dos sujeitos à pesquisa, não houve muitas dificuldades. Poucas
famílias recusaram participar das entrevistas. A maioria dos participantes
foram solícitos, alguns bastante calorosos, demonstrando carinho, atenção e
satisfação em participar do estudo. Alguns sujeitos agradeciam pela
oportunidade de expor sua história de vida, encontrando, no momento da
entrevista, a possibilidade de desabafar e de compartilhar suas histórias e
angústias com pessoas de fora do seu convívio familiar, que se dispunham a
ouvi-los, e que fossem capazes de entender e respeitar seus sentimentos (falas
dos sujeitos da pesquisa). Isso conduziu a percepção do ser pesquisador
qualitativo em evidenciar situações compreendidas como carência afetiva, em
especial naqueles sujeitos que vivenciavam conflitos relacionais
intrafamiliares.
A importância do ser pesquisador qualitativo foi evidenciada durante todo o
processo de coleta de dados, pois foi necessário deixar a subjetividade do ser
exposta, na perspectiva da intersubjetividade quando o ser pesquisador e o ser
pesquisado viam-se envolvidos na teia relacional que envolve as relações
humanas, e assim, enquanto "pesquisadora" mostrei-me disposta a ajudar,
ouvindo-os e procurando compreender o significado dos sentimentos expressos, na
forma de angústias manifestas durante o processo da investigação.
No entanto, é importante que o pesquisador não se deixe influenciar ao ponto de
perder o foco do estudo e se mantenha, de certa forma, "neutro", para que não
haja prejuízo em sua interação com a família(9). Essa preocupação foi aguçada
no período de coleta de dados, pois durante a aplicação dos instrumentos da
pesquisa, emergiram diferentes sentimentos e percepções acerca dos sujeitos
pesquisados, como também algumas dificuldades pessoal/profissional durante as
entrevistas. A primeira dificuldade se fez mostrar no desenvolver habilidades
para separar a tênue linha entre ser enfermeiranda-cuidadora e estar
enfermeiranda-pesquisadora, pois, ao me deparar com os relatos emocionados dos
sujeitos sobre as suas disfunções familiares, tentava de alguma maneira
apaziguar o seu sofrimento, o que, por vezes, poderia interferir nos resultados
da pesquisa.
Por outro lado, o fato desta pesquisa estar inserida no NIEFAM, onde pesquisa e
extensão caminham juntas, torna-se indispensável que este estudo vá além de
dados coletados, e que os frutos desta pesquisa contribuam de maneira efetiva e
imediata para a melhoria da assistência prestada à comunidade que carece desse
cuidado e anseia resultados dos projetos de pesquisa. Desta maneira, durante
toda trajetória junto ao projeto, foi possível vivenciar a expressão prática da
integração da tríade ensino-pesquisa-extensão. Isso nos leva à compreensão do
profissional híbrido dito por Nitschke, ou seja, aquele profissional que não
abandona sua formação de base, mas vai, sucessivamente, integrando outros
conhecimento ao seu agir(7). Assim, podemos ampliar a nossa visão de mundo,
enquanto profissional enfermeiro, que pesquisa e cuida, a fim de melhorar
significantemente o atendimento de saúde e construir maneiras de viver
saudável, constituindo-se o que possamos chamar de profissional integrativo(8).
Ademais, essa experiência proporcionou uma maior sensibilização das causas
sociais, incentivando o despertar do enfermeiro educador e mobilizador do
cuidar, no entrelaçamento dos conhecimentos teóricos com a prática assistencial
à família que convivem com a cronicidade de seus entes senis. Inúmeras foram as
dificuldades encontradas durante esse processo, mas a sua superação foi
extremamente gratificante e proporcionou o enriquecimento do processo da
graduação, dando-me experiência para ser um profissional crítico-reflexivo,
capaz conviver com os obstáculos e contorná-los, a fim de obter melhor êxito no
trabalho em cuidar o outro, cuidando-se.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A trajetória percorrida no período de bolsa PIBIC-CNPq/UESB oportunizou uma
experiência única de crescimento interior e profissional, no aprendizado
técnico-científico ao ser sujeito profissional capaz de visualizar nuances, até
então despercebidas, a cerca da realidade da saúde vigente em nosso país, mais
especificamente no contexto local no qual estamos inseridos, e da necessidade
de compreender a família, em suas particularidades, de forma integral. Tal
experiência abriu horizontes, possibilitando um olhar mais atencioso e
consciencioso do universo da investigação científica. Em outras palavras,
oportunidades de caminhar em direção a novos conhecimentos, experiências,
descobertas e compartilhar os "frutos" advindos desse caminhar à comunidade
científica.
O estudo até aqui desenvolvido tem mostrado a sua relevância para a comunidade
científica e especialmente para os sujeitos da pesquisa. Este último merece
destaque, uma vez que a referida pesquisa tem como eixo de apoio as ações
extensionistas do NIEFAM/UESB, no qual tais famílias poderão ser assistidas,
mediante suas necessidades no referido núcleo.
Destaque também se faz para a análise concomitante do estudo, pois, mesmo antes
da saturação dos dados, já permitiu tirar algumas conclusões preliminares,
demonstrando novas lacunas do conhecimento para outras investigações, a
exemplo, o meu TCC de graduação "Qualidade de vida e saúde dos familiares
cuidadores de idosos de 80 anos e mais de idade - interferências
intrafamiliares". Este surgiu da necessidade de ampliar o olhar para as
interferências de cuidados intrafamiliares, uma área de conhecimento ainda
pouco explorada, dado evidenciado a partir de revisão de literatura em bases de
dados e dos contextos familiares visitados na coleta de dados. Outro aspecto a
considerar assenta-se na escassez de estudos fruto de experiências de bolsas de
pesquisas que tornassem possível ampliar o diálogo, de maneira a obter
subsídios que permitisse um caminhar mais suave e compreensivo frente às
dificuldades, às limitações, às conquistas e ao aprendizado, entre outros
aspectos.
Numa tentativa de finalização, consideramos que a experiência oportunizou a
inquietude de ser pesquisador, pois ao aprender a dar os primeiros passos rumo
ao ser crítico-reflexivo-construtivo em direção à ciência e tecnologia em ação,
possibilitou ampliar a visão de mundo, enlaçando os contextos, a complexidade e
a intersubjetividade do universo da investigação.