Morte encefálica em criança: subsídios para a prática clínica
INTRODUÇÃO
A morte encefálica (ME) constitui-se em uma condição clínica complexa que
caracteriza um estado irreversível de cessação de todo o encéfalo e funções
neurais, resultantes de edema e/ou maciça destruição dos tecidos encefálicos,
apesar de a atividade cardiopulmonar poder estar mantida por avanços
tecnológicos de suporte de vida(1).
Desde o início da década de setenta é aceita pela comunidade médica como morte
clínica, advindo dessa determinação, situações conflitantes nos âmbitos éticos,
legal, religioso, entre outros (2).
As causas de morte encefálica são com freqüência em decorrência de acidente
vascular cerebral isquêmico ou hemorrágico, trauma cranioencefálico (TCE) e
tumores(1-4). Nos anos de 1999 e 2000, levantamento realizado pela Secretaria
da Saúde do Estado de São Paulo, mostrou que, das 1.755 notificações de ME na
cidade, as causas vasculares foram responsáveis por 47% das mortes; os TCE por
39%, os tumores por 4% e as demais causas por 10%( 5 ).
A análise epidemiológica apontada acima mostra que doenças prevalentes em nosso
país como os acidentes vasculares cerebrais e os TCEs são os grandes
responsáveis por esse evento, totalizando 86% dos casos. Enquanto a primeira
causa incide com maior freqüência em uma população acima de 45 anos, os TCEs
são prevalentes na população jovem, sobretudo em decorrência das causas
externas, terceira causa de mortalidade em nosso meio(6).
Essa realidade mostra a necessidade de estudos que forneçam subsídios à
assistência não apenas às vítimas desses eventos, mas, também aos cuidadores ou
familiares, visto as necessidades especiais advindas dessas lesões. É
fundamental que a enfermagem esteja preparada para o reconhecimento precoce das
disfunções orgânicas que acometem esse seguimento e da importância de uma
rápida intervenção(7).
Estudo que avaliou o conhecimento de enfermeiros do setor de emergência em
relação à Escala de Coma de Glasgow mostrou que aproximadamente 43% dos mesmos
não realizavam de forma correta o exame neurológico proposto por essa escala.
Esse achado é preocupante, pois constata que falhas gravíssimas podem advir
dessa avaliação equivocada para qualquer paciente e, em especial, para aqueles
com lesões no seguimento corpóreo de cabeça/pescoço(8).
O preparo acadêmico do enfermeiro frente à realidade nacional e as necessidades
do mercado tem sido preocupação de vários pesquisadores(9-10). Na assistência
prestada aos pacientes em ME, o enfermeiro tem um papel de destaque, não apenas
como o coordenador do atendimento para as intervenções junto aos pacientes
graves e críticos, mas também na abordagem às famílias para uma possível doação
de órgãos e na humanização dessa assistência(11-12).
Considerando a gravidade dessa condição clínica, a necessidade de adoção de
medidas imediatas, a relevância das condutas práticas adotadas, os aspectos
ético-legais envolvidos e o papel de destaque do enfermeiro, pretende-se, por
meio deste artigo, ilustrar um atendimento ocorrido no ambiente hospitalar
durante a coleta de dados de doutorado, em um hospital público de grande porte
no Município de São paulo.
Sob nossa ótica, constitui-se um tema relevante, pois ultrapassa a ação
tecnicista da assistência e propõe uma discussão acerca da qualidade dessa ação
e reflexão de uma prática ainda pouco investigada em nosso meio.
Descrição do paciente/quadro clínico
Criança de nove anos deu entrada por queda de bicicleta em um Pronto Socorro de
um Hospital Terciário de grande porte no Município de São Paulo, trazido pela
mãe. Encontrava-se sonolento, mas consciente, parâmetros hemodinâmicos dentro
da faixa de normalidade para a idade, referiu cefaléia. Do momento da queda à
chegada ao hospital, o tempo decorrido foi de três horas (SIM).
Realizou-se o atendimento inicial preconizado para vítimas de causas externas
(queda), pelo Advanced Trauma Life Support (ATLS) e foi encaminhado para exames
de imagem. Na sala de tomografia, a criança apresentou rebaixamento do nível de
consciência, além de alterações hemodinâmicas importantes, e precisou ser
intubada em caráter de emergência.
A imagem mostrou um extenso hematoma intraparenquimatoso com herniação de
ventrículo e desvio de linha média + edema cerebral. A equipe médica descartou
a possibilidade cirúrgica, pela fragilidade da situação da criança naquele
momento, sendo encaminhada para a Unidade de Cuidados Intensivos e, após duas
horas dessa intercorrência, o exame neurológico mostrou: ausência de abertura
ocular aos estímulos dolorosos + reação fotomotora negativa + ausência de
resposta verbal e motora, ou seja, Escala de coma de Glasgow =3.
Decorrida uma hora dessa avaliação, novo exame neurológico foi realizado,
permanecendo em ECG=3. A equipe médica suspeitou de morte encefálica e os
exames específicos foram realizados. Depois de 8 horas, esse diagnóstico se
confirmou.
A mãe foi comunicada do diagnóstico médico, sem, contudo ter sido informada da
gravidade do caso, o real significado desse diagnóstico ou possibilidade de
doação de órgãos. Foi solicitado à pesquisadora (a qual já havia atuado como
enfermeira da unidade) que desse as informações necessárias à mãe da criança. O
pedido foi atendido e todas as informações pertinentes ao caso foram
fornecidas.
Condutas práticas e Discussão
A organização para Procura de Órgãos (OPO) para avaliação do paciente e
acompanhamento dos exames diagnósticos de morte encefálica foi acionada.
O conselho Federal de Medicina (CFM), por meio da Resolução nº 1.480 de 8 de
agosto de 1997, define os critérios para a caracterização de morte encefálica
(1). Esta Resolução é necessária uma vez que a Lei n 10.211, de 23 de março de
2001, que dispõe sobre a retirada de órgãos, tecidos e partes do corpo humano
para fins de transplante e tratamento, determina, em seu artigo 3º, que compete
ao conselho Federal de Medicina definir os critérios para diagnóstico de morte
encefálica, para que não haja nenhum tipo de dúvidas e que a ocorrência da
morte seja indiscutível, de sorte que seja realizada a retirada de órgãos, se
este for o caso(13).
A morte encefálica é definida como lesão irreversível das estruturas vitais do
encéfalo necessárias para manter a consciência e a vida vegetativa. A causa da
lesão cerebral deve ser necessariamente conhecida, sendo uma lesão estrutural
ou metabólica(1).
De acordo com o Conselho Federal de Medicina (CFM), a morte encefálica deverá
ser conseqüência de processo irreversível e de causa conhecida e os parâmetros
clínicos a serem observados para constatação de morte encefálica são: coma
aperceptivo com ausência de atividade motora supraespinal e apnéia (1).
É necessário que sejam feitas duas avaliações clínicas e exames complementares
do paciente com suspeita de morte encefálica, sendo que a primeira poderá ser
realizada por um médico intensivista e a segunda avaliação preferencialmente
por um neurologista. Os dados clínicos e complementares observados quando da
caracterização da morte encefálica deverão ser registrados no termo de
declaração de morte encefálica(1, 13).
Ainda de acordo com o CFM, os intervalos mínimos entre as duas avaliações
clínicas necessárias para a caracterização da morte encefálica serão definidos
por faixa etária: de 7 dias a 2 meses incompletos - 48 horas; de 2 meses a 1
ano incompleto - 24 horas; de 1 ano a 2 anos incompletos - 12 horas e acima de
2 anos - 6 horas.
Os exames complementares a serem observados para constatação de morte
encefálica deverão demonstrar de forma inequívoca: ausência de atividade
elétrica cerebral ou, ausência de atividade metabólica cerebral ou, ausência de
perfusão sangüínea cerebral.
Os exames complementares comprobatórios mais confiáveis e aceitos de morte
encefálica, atualmente, são os que demons-tram a total ausência de perfusão
sangüínea encefálica. como técnicas disponíveis têm-se a angiografia cerebral
completa, angiografia cerebral radioisotópica, Doppler transcraniano,
tomografia computadorizada com contraste ou com xenônio, SPECT, entre outros.
também se pode utilizar, como exame subsidiário, o eletroencefalograma e o
estudo dos potenciais evocados, que deverão revelar a ausência de atividade
elétrica cerebral e o pet-scan, que revela a ausência de atividade metabólica.
Os exames complementares também serão utilizados por faixa etária, conforme
abaixo especificado: acima de dois anos - um dos exames complementares acima
citados; de um a dois anos incompletos: um dos exames complementares acima
citados.
Quando se opta por eletroencefalograma, serão necessários dois exames com
intervalo de 12 horas entre um e outro; de dois meses a um ano incompleto -
dois exames de eletroencefalograma com intervalo de 24 horas entre um e outro;
de sete dias a dois meses incompletos - dois exames de eletroencefalograma com
intervalo de 48 horas entre um e outro.
Para o diagnóstico da morte encefálica interessa exclusivamente a arreatividade
supra-espinal, pupilas paralíticas, ausência de reflexo corneopalpebral e
ausência de reflexos oculovestibulares.
A presença de sinais de reatividade infraespinal (atividade reflexa medular)
tais como reflexos osteotendinosos, cutâneo abdominal, cutâneo plantar em
flexão ou extensão, cremastérico superficial ou profundo, ereção peniana
reflexa, arrepio, reflexos flexores de retirada dos membros inferiores ou
superiores e reflexo tônico cervical não invalidam o diagnóstico de morte
encefálica.
Na prova da apnéia a ausência de respiração com um PCO2acima de 55 mm Hg na
gasometria arterial confirma o diagnóstico de morte encefálica, sendo um teste
utilizado em todos os protocolos existentes no mundo de morte encefálica. a
prova da apnéia é realizada de acordo com o seguinte protocolo:
1. ventilar o paciente com O2 a 100% por dez minutos;
2. desconectar o ventilador;
3. instalar cateter traqueal de oxigênio com fluxo de 6 litros por
minuto;
4. observar se aparecem movimentos respiratórios por dez minutos ou
até quando a PCO2 atingir 55 mm Hg.
No paciente em coma, o nível de estímulo para desencadear a respiração é alto,
necessitando-se de uma PCO2 de até 55 mm Hg, fenômeno que pode determinar um
tempo de vários minutos entre a desconexão do respirador e o aparecimento dos
movimentos respiratórios, caso a região ponto-bulbar ainda esteja íntegra.
A cada minuto de apnéia a PCO2 aumenta 3 mm Hg, após dez minutos de apnéia tem-
se uma ascensão da PCO2 em 30 mm Hg. Comparando-se a gasometria arterial
colhida no momento inicial desse teste e a gasometria arterial colhida após dez
minutos de apnéia, e a constatando-se um acréscimo de 30 mm Hg na segunda
gasometria, considera-se a prova positiva para morte encefálica.
A monitorização da freqüência cardíaca, pressão arterial e oxigenação sangüínea
devem ser realizadas para segurança desta prova. A hipotensão arterial é uma
complicação relativamente comum durante o teste de apnéia e caso a pressão
sistólica caia para níveis iguais ou inferiores a 70 mm Hg, deve-se reconectar
o paciente ao ventilador mecânico. Tal situação pode ser evitada com a
hiperoxigenação prévia e/ou uso de drogas vasoativas.
É importante que para a realização do teste, o paciente esteja sem sedação há
várias horas uma vez que existem situações clínicas que podem levar a
dificuldades na constatação da morte encefálica, como, por exemplo, pupilas
paralíticas associadas a doenças prévias, drogas anticolinérgicas e
bloqueadores neuromusculares.
A ausência de reflexos oculocefálicos pode estar associada a agentes
ototóxicos, depressores vestibulares e doenças prévias. a arreatividade motora
pode estar associada ao uso de drogas depressoras do sistema nervoso central,
bloqueadores neuromusculares e síndrome de "locked-in". nestas situações, os
exames subsidiários são de grande importância.
Intervenções de Enfermagem em relação à mãe da criança
Essa etapa constituiu-se na mais difícil missão já cumprida pela pesquisadora
até aquele momento, como enfermeira. a opção por aceitar esse desafio se deu
por uma solicitação da equipe de plantão (médicos e enfermeiras), justificada
pela maturidade, experiência prévia da pesquisadora e pela total falta de tempo
a ser oferecido de forma adequada àquela mãe (devido a um plantão muito corrido
e atribulado). a dificuldade em enfrentar essa situação ocorreu, sobretudo,
pelo fato da pesquisadora ter sido mãe recentemente e não conseguir dimensionar
a dor daquela mulher.
Tive a oportunidade de oferecer apoio emocional e espiritual a uma mãe que teve
o seu filho de nove anos diagnosticado com morte encefálica, após uma queda de
bicicleta. Sentamos juntas nas escadas do hospital e lá permanecemos por duas
horas, conversamos sobre o fato, o diagnóstico, as possibilidades de doação,
choramos e rezamos juntas.
A opção pela doação foi positiva, no entanto, a criança apresentou importante
falência hemodinâmica, o que inviabilizou as doações, além do tempo decorrido.
As ações realizadas com a mãe foram baseadas em experiências anteriores com a
morte, em crenças pessoais, e religiosidade de ambas; em nenhum momento regras
ou normas foram seguidas, tão pouco tivemos um local reservado para a nossa
conversa.
Estudo nacional analisando os atributos do conceito de morte digna na criança,
por meio de artigos com esse construto, identificou a qualidade de vida,
cuidado centrado na criança e na família, conhecimento sobre cuidados
paliativos, decisão compartilhada, alívio do sofrimento da criança, comunicação
clara, relacionamento de ajuda e ambiente acolhedor como os pontos mais
apontados a uma morte digna, apesar das autoras pontuarem que essa definição
ainda é vaga e pouco consistente(11).
Ao considerar os oito pontos de destaque relacionados à morte digna, pode-se
afirmar que, no relato de experiência descrito nesse artigo, alguns pontos
foram deixados de lado pela equipe de saúde. Não cabe aqui nenhum valor de
juízo, mas da constatação de uma ação ou ausência da mesma em relação a um fato
real ocorrido no cenário hospitalar, sobretudo em relação à comunicação clara e
ambiente acolhedor.
Nesse sentido, reforça-se a suposição das autoras em considerar que, para uma
grande parte dos profissionais de saúde, os aspectos de terminalidade, morte-
morrer, tanatologia e decisão compartilhada, ainda são questões que necessitam
de ampla abordagem, reflexão e discussão no cenário da saúde.
Outro aspecto importante refere-se à busca para preservar a integridade da
unidade familiar, a partir dos fenômenos: ruptura familiar e vivendo a
possibilidade de vir a perder o filho, na dinâmica familiar que envolve uma
criança internada em uma UTI. As autoras apontam para "o perigo de se guiar
pelo bom senso, supondo saber como as famílias devem se sentir e agir em
determinadas circunstâncias, assim como das ações tímidas e pouco efetivas
junto aos familiares"(12).
É importante o questionamento contínuo acerca da participação efetiva dos
familiares no cuidado, como parte essencial dessa ampla assistência que envolve
ter um filho internado em uma unidade de cuidados críticos e em se valorizar
todas as etapas de sofrimento e dor envolvidas nessa árdua trajetória, que sob
nossa ótica precisam ser compartilhadas com a equipe, até a sua alta hospitalar
ou óbito.
Um tema árido, a ser enfrentado quando o tema é morte encefálica, refere-se à
doação de órgãos. Por um lado, temos as equipes de transplantes que correm
contra o tempo na tentativa de salvar outras vidas e, do outro, as famílias que
acabaram de perder um ente querido. Essa ponte não é fácil de ser atravessada,
necessitando habilidades e delicadeza para amparar ambas as partes e não causar
equívocos irreparáveis.
A percepção e sentimentos dos familiares envolvidos nessa situação passam pela
desconfiança com a solicitação da doação, desespero, choque, negação da morte
encefálica, profundo sofrimento, desgaste diante da perda do ente querido,
negação da morte encefálica e conflitos familiares para a tomada de decisão
frente à doação ou não(14).
Desse modo, o conhecimento acerca desse fenômeno pode favorecer a relação e
forma de abordagem dos profissionais em reação aos familiares, com o intuito de
minimizar sofrimentos e poder preservar a vida de tantos outros pacientes.
Questões objetivas a serem abordadas na discussão docente-discentes
Quais aspectos ético-legais estão envolvidos nessa situação? O que leva ao fato
de ninguém da equipe multiprofissional de plantão ter tido tempo para abordar a
mãe? Por que, em nosso país, se realizam menos transplantes por meio de
doações, entre tantas outras questões?
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O cuidado e assistência ao paciente crítico e/ou grave é de competência
exclusiva do enfermeiro. Infelizmente, algumas instituições de Ensino Superior
excluíram de suas grades curriculares de graduação disciplinas como cuidados
críticos e emergência, fato esse que sob nossa ótica e de outros colegas podem
causar erros e frustrações irreparáveis na formação do enfermeiro (9-10).
Seguir o protocolo para a definição de morte encefálica é fundamental para
garantir a qualidade das ações e a segurança de todo o processo. No entanto, as
relações humanitárias presentes nessa etapa são tão importantes e não podem ser
esquecidas.
Dessa reflexão, surgiram questionamentos relevantes, não apenas no tocante aos
aspectos tecnicistas e ao processo fisiopatológico, mas, sobretudo ético-legais
envolvidos e sobre a atuação profissional com a família.
Essa experiência surge como um resgate a ser dividido com nossos pares. Espera-
se que este trabalho possa contribuir para a discussão de discentes e docentes
de enfermagem frente ao atendimento de uma situação limite e seus
desdobramentos, assim como para uma análise sobre a formação de nossos futuros
enfermeiros.