Representações sociais de discentes de graduação em enfermagem sobre "ser
enfermeiro"
INTRODUÇÃO
Face às aceleradas mudanças econômicas e sociais e ao acentuado avanço
científico e tecnológico da atualidade, rápidas transformações ocorrem em todos
os setores da sociedade. Neste sentido o processo de reestruturação do setor
saúde favoreceu transformações também no ensino da Enfermagem, apontando a
necessidade de mudanças nos cursos de graduação e a consequente articulação com
os serviços.
O(a) enfermeiro(a) passa a assumir, de maneira efetiva, ações
interdisciplinares, orientado(a) pelos princípios doutrinários do Sistema Único
de Saúde (SUS), regulamentado pela Lei nº 8.080 em 19 de setembro de 1990.
Esses princípios são a universalização, a equidade e a integralidade e, como
princípios organizativos, a regionalização e a hierarquização, a
descentralização, o comando único e a participação popular no modelo
assistencial e preventivo proposto para toda a população brasileira(1).
Vislumbra-se, a partir daí, novas exigências para o (a) profissional da
Enfermagem, pois as novas práticas requerem uma abordagem generalista, crítico-
reflexiva, e profissionais capazes de reorganizar o processo de trabalho,
operacionalizar o SUS e realizar ações interventivas concretas para a
população, conforme suas necessidades(2).
Desde então, questionar e redirecionar os marcos referenciais e conceituais dos
currículos tem constituído um desafio para os gestores do ensino de
instituições formadoras, tendo em vista a relevância das instituições de ensino
de Enfermagem como espaços de construção e circulação de saberes que
possibilitem a transversalidade do conhecimento.
Por um lado, há grande expansão de cursos novos que reproduzem currículos
inflexíveis, sem a integração de saberes conforme proposto pelas Diretrizes
Curriculares Nacionais para os Cursos de Enfermagem, e por outro lado há os
cursos tradicionais que se esforçam para adequar seus currículos em curtos
períodos de tempo, procurando acompanhar as várias discussões em âmbito
nacional, que tratam de currículos coerentes com conhecimentos, competências e
atitudes levando em consideração a articulação vertical e horizontal de
saberes.
Nos últimos seis anos, o número de cursos de graduação em Enfermagem apresentou
um crescimento de 218%, passando para 582 cursos, sendo 18% em instituições
federais e 82% em instituições privadas(3). Esse dado é mais preocupante quando
analisado segundo regiões. Tome-se como exemplo o Estado de Minas Gerais, que
possuía, até o ano de 2000, 16 cursos de Graduação em Enfermagem e, em dezembro
de 2007, já apresentava 112 cursos, o que corresponde a um crescimento de
aproximadamente 600%(3).
A expansão do sistema de ensino superior ocorreu principalmente nas
instituições privadas, o que expressa a tendência mercadológica da educação
superior e a consequente valorização do mercado econômico como elemento
fundamental na criação de novos cursos e instituições. Este fato é apontado
como um novo desafio para o processo educativo(4):
[...] a globalização educacional e a internacionalização do
conhecimento, em resposta aos desafios da globalização econômica,
trazem consigo o enorme desafio de a educação superior conciliar as
exigências de qualidade e inovação com as necessidades de ampliar o
acesso e diminuir as assimetrias sociais.
A partir de uma percepção governamental de que a universidade pública não
conseguiria suprir a demanda reprimida por educação superior no país, o atual
Plano Nacional de Educação (PNE) define que é essencial que haja planejamento
na expansão dos cursos superiores privados no país, para evitar a sua
massificação, pois, caso contrário, a qualidade do ensino e, consequentemente,
a qualidade da assistência serão irremediavelmente comprometidas(4), o que fere
os princípios da política de saúde atual.
Neste contexto, as Novas Diretrizes Curriculares, suscitam mudança de paradigma
na educação em Enfermagem, assumindo como base filosófica os quatro pilares da
educação, ou seja, de forma que leve "os alunos a aprender a aprender que
engloba aprender a ser, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender a
conhecer"(5). Busca-se, portanto, a formação de profissionais autônomos,
capazes de discernimento para garantir assistência integral e de qualidade,
baseada na humanização do atendimento prestado aos indivíduos, famílias e
comunidades.
O enfermeiro, dentro dessa filosofia, deve ter responsabilidade política e
profissional e realizar um trabalho cuja intenção seja tornar-se agente de
transformação social. Para isso, a educação deve ser entendida como prática
social que contribua para o desenvolvimento do indivíduo na sua integralidade,
possibilitando ações transformadoras na construção de cidadãos(6).
Nessa ótica, alguns aspectos referentes à imagem da Enfermagem como profissão
histórica e socialmente construída influenciam nas escolhas e no comportamento
dos profissionais enfermeiros, afetando a percepção que esses sujeitos têm de
si e dos papéis que assumem na sociedade.
A constatação da expansão dos cursos de Enfermagem nos últimos anos, com
consequente aumento no número de alunos matriculados, induziu-nos a questionar
o que pensam os discentes de enfermagem a respeito da profissão. Esse
entendimento vai ao encontro da preocupação constante em formar profissionais
críticos e conscientes de seu papel social, comprometidos com as reais
necessidades de vida e saúde da população. Portanto, o objetivo deste estudo
foi investigar as representações sociais sobre "ser enfermeiro" de discentes de
Enfermagem de Instituições de Ensino Superior (IES) privadas de Belo Horizonte-
MG, criadas no período de 2003 a 2004.
METODOLOGIA
O cenário de estudo desta pesquisa constituiu-se de cinco IES privadas,
localizadas no município de Belo Horizonte_MG. O contato com essas instituições
foi realizado, inicialmente, a partir do contato com os coordenadores de cada
curso segundo sua disponibilidade. Posteriormente, estabeleceu-se contato com
os docentes e discentes, em horário de aula, previamente agendado pelo
coordenador e ou professor, culminando na apresentação e aplicação dos
questionários. Ressalta-se que cada instituição foi relacionada segundo ordem
numérica, mantendo-se, assim, o anonimato dos participantes.
No período da realização da pesquisa, essas instituições apresentavam um total
de 4.480 discentes matriculados em todos os períodos. Assim, foram convidados
discentes do 1º e 6º períodos do Curso de Enfermagem das IES em estudo (o que
representava um universo de 1.062 discentes) que concordassem em participar da
pesquisa.
A escolha dos discentes do 1º período se justifica mediante o fato de serem
ingressantes, sendo possível inferir que não possuíam uma visão clara do ser
enfermeiro. Quanto à escolha dos discentes do 6º período, acredita-se que,
nessa etapa do curso, já obtiveram informações e conhecimento teórico-práticos
que os possibilitam uma visão mais clara e ampliada sobre ser enfermeiro.
O período de coleta de dados estendeu-se de 28 de maio a 29 de junho de 2007 e
os dados foram obtidos por meio da técnica de evocação livre, por meio da qual
buscou-se apreender as representações sociais desses discentes por meio do
termo indutor "ser enfermeiro".
Sobre a técnica de evocação livre, considera-se as propriedades quanti-
qualitativas no levantamento dos possíveis elementos centrais e periféricos de
uma representação social(7). A aplicação dessa técnica consistiu em solicitar
aos discentes que escrevessem cinco palavras ou expressões que lhes viessem à
lembrança, por meio de métodos associativos ou evocações relacionadas ao termo
indutor "ser enfermeiro". Foi solicitado, em seguida, que enumerassem os termos
produzidos em suas respostas segundo o grau de importância (hierarquia), do
mais importante para o menos importante, em uma escala de um a cinco, o que
permitiu, por meio do cálculo das frequências, a determinação dos elementos
centrais e periféricos.
As estruturas obtidas por meio das evocações livres foram analisadas pela
técnica do quadro de quatro casas, criado por Pierre Vergès(8). O quadro de
quatro casas descreve o núcleo central (elementos mais frequentes e mais
importantes situados no quadrante superior esquerdo); os elementos
intermediários ou 1ª periferia (elementos periféricos mais importantes situados
no quadrante superior direito); os elementos de contraste (com baixa
frequência, mas considerados importantes pelos sujeitos, situados no quadrante
inferior esquerdo); e os elementos periféricos da representação ou 2ª periferia
(menos freqüentes e menos importantes, localizados no quadrante inferior
direito)(8).
Para a construção desse quadro, foi utilizado o software EVOC (Ensemble de
Programmes Permettant L'Analyse des Evocations), versão 2003. Trata-se de um
programa de informática que permite a emissão de dados estatísticos para
posterior análise qualitativa de evocações por meio da verificação de
frequências simples de ocorrência de cada palavra evocada, da média ponderada
da ocorrência de cada palavra em função da ordem de evocação e da média das
ordens ponderadas do conjunto dos termos evocados(9). Também permite incluir
variáveis que caracterizam os sujeitos da pesquisa, possibilitando a análise do
material obtido e a distinção dos indivíduos formando grupos a partir das
respostas dadas(8).
Para obter o corpus de análise, foram digitadas, em formato Excel, todas as
evocações coletadas em sua forma original, segundo modelo(9). Posteriormente,
para homogeneizar o conteúdo semântico, visando a uma análise mais consistente,
procedeu-se a uma padronização das palavras e termos evocados. Com base na
planilha Excel, foram organizadas, em arquivo Word, todas as evocações
classificadas em ordem alfabética, agrupando-se as palavras por proximidade
semântica.
Os termos padronizados foram organizados em forma de dicionário, seguindo o
padrão de termo escolhido com padronização na coluna esquerda, acompanhado por
todas as palavras relacionadas sob a mesma designação na coluna na direita,
assegurando que o sentido expresso por elas ficasse contemplado e, ao mesmo
tempo, fosse processado pelo software como sinônimo.
Em seguida, na planilha corpus original, formato Excel, as palavras evocadas em
suas formas originais foram substituídas pelas palavras padronizadas, uma de
cada vez, a partir do dicionário. Posteriormente, foi elaborado o corpus final,
a partir da planilha Excel, salva no programa Bloco de Notas (somente texto),
formato lido pelo software EVOC, versão 2003. Lembramos que esse software é um
instrumento fundamental para organizar e tratar os dados textuais, permitindo
sistematizar tanto a análise estatística das palavras quanto a análise
qualitativa subsequente.
A partir do dicionário de palavras produzidas pela população em estudo, o
software calculou e informou a "frequência simples de ocorrência de cada
palavra evocada, a média ponderada de ocorrência de cada palavra em função da
ordem de evocação e a média das ordens médias ponderadas do conjunto dos termos
evocados"(8).
No que diz respeito aos aspectos éticos, foram respeitados seus princípios em
conformidade com a Resolução CNS 196/196(10), sobre Diretrizes e Normas
Regulamentadoras de Pesquisa envolvendo Seres Humanos do Ministério da Saúde
(ETIC nº 049/07).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Participaram do estudo 430 discentes, o que consistiu num total de 9,6% do
total de discentes de enfermagem das cinco IES selecionadas. Ressalta-se que,
no período de realização da pesquisa, o número de discentes de IES do 1º
período totalizava 695 discentes e do 6º período, 367 discentes.
Inicialmente, o produto das evocações dos discentes constituiu-se num
dicionário (corpus de análise) com total de 2.139 referências, incluindo
palavras cognatas ou expressões de mesmo sentido, das quais 107 foram
diferentes. A ordem média de evocação (rang) foi igual a 2,99, sendo
arredondado para 3, ao passo que a frequência média ficou situada em 107 e a
mínima 60.
Posteriormente, as palavras ou blocos de texto citados foram condensados
conforme a afinidade conceitual existente entre os construtos, dando origem a
12 categorias que compõem o conteúdo das representações sociais dos
participantes acerca do objeto pesquisado, ser enfermeiro. Essas categorias
encontram-se ordenadas em quatro casas(11) dispostas conforme frequência e
ordem média das evocações (Quadro_1).
O Quadro_1 permite evidenciar a seguinte distribuição das palavras: no
quadrante superior esquerdo, os termos cuidar e responsabilidade configuram-se
como os possíveis elementos centrais da representação; no quadrante superior
direito encontram-se as evocações conhecimento e amar, elementos da 1ª
periferia; por sua vez, os elementos de contraste, localizados no quadrante
inferior esquerdo, estão representados pelas palavras humanização e dedicação;
e por último, gerenciar, profissionalismo, trabalho, realização, atenção e
respeito representam os elementos da 2ª periferia, situados no quadrante
inferior direito.
Os elementos centrais referem-se às palavras cuja frequência e ordem
prioritária de evocação tiveram maior importância no esquema cognitivo dos
sujeitos. Os elementos da 1ª periferia referem-se aos termos mais importantes
que tiveram frequência maior e Ordem Média de Evocações (OME) maior ou igual ao
rang. Os elementos de contraste correspondem aos termos de menor frequência e
OME menor que o rang, enquanto os elementos da 2ª periferia são os menos
importantes que tiveram frequência menor e OME maior ou igual(12-7).
Observa-se que, para o conjunto dos sujeitos deste estudo, o significado de ser
enfermeiro está atrelado a elementos que traduzem valores afetivos e
atitudinais, como também a representações que remetem à integralidade da
assistência prestada, identificados pelas palavras cuidar e responsabilidade.
Na evocação cuidar, elemento de maior frequência e o mais prontamente evocado,
os discentes referem-se a uma ação que favorece a manutenção ou melhoramento da
condição humana por meio da promoção, manutenção e/ou recuperação da saúde
(cuidados com a saúde, diagnosticar, medicar, recuperação dos pacientes,
reabilitação a saúde, tratamento), ressaltando o cuidado em relação ao outro
(cuidado com paciente, cuidado com o próximo, busca de suprir as necessidades
do seu cliente), a familiares (cuidados especiais com familiares) e a si mesmo
(cuidar de mim para cuidar dos outros). Observa-se, ainda, a incorporação de
expressões que remetem ao cuidado integral (assistência integral, cuidar
integralmente dos indivíduos necessitados, prestar assistência integralmente),
assim como evocações que traduzem o cuidado dividido por tarefas
(assistencialista, medicar). As representações sobre o cuidar remetem, assim, à
existência de diferentes perspectivas do cuidar-cuidado do ponto de vista
relacional, ou seja, na perspectiva do sujeito que cuida e daquele que é
cuidado.
Por se tratar do termo de maior frequência e o primeiro lugar em importância em
função da ordem evocada, o termo cuidar reforça a imagem da Enfermagem como uma
das profissões da área de saúde cuja essência e especificidade é o cuidado ao
ser humano(13).
Vale lembrar que o termo "cuidado" deriva do antigo inglês carion que como
verbo "cuidar" significa ter preocupação por, ou sentir uma inclinação ou
preferência, ou ainda, respeitar/considerar no sentido de ligação de afeto,
amor, carinho e simpatia(14). A Enfermagem, antes de sua institucionalização,
existia nas práticas e no ofício de ajudar o próximo, o que remete, ainda hoje,
uma ligação com o feminino(15). Mediante as necessidades dos indigentes,
desenganados e desamparados, a tarefa de cuidar passou a constituir uma
motivação para as consagradas que, pela fé, adotavam essa atividade como uma
convicção religiosa, de caridade e imagem maternal, que, posteriormente, serviu
de base para a profissão. Por isso, a partir do momento histórico da
instituição da profissão a imagem social do enfermeiro é ancorada na dedicação
e disponibilidade para auxiliar e acolher os outros em suas necessidades.
Essas ideias encontram eco na afirmação de alguns autores(16) que atestam a
permanência ao longo da história da associação de vários estereótipos à imagem
do enfermeiro, que não acompanharam a evolução técnico-científica da profissão.
[...] a sensibilidade pode expressar-se pelo modo mais afetuoso,
carinhoso e de maior dedicação, no atendimento daquelas necessidades
que demandam ouvir, sentir e participar dos problemas e emoções da
pessoa doente. Há uma tendência natural dos profissionais da
enfermagem de envolver-se com essas ações, uma vez que isso faz parte
do seu métier e que, de modo efetivo, parece estar relacionado às
ações subjetivas da profissão e da convivência intensa com o cliente,
na sua jornada de trabalho(17).
Verifica-se, assim, que, no atual contexto, tem ocorrido uma ampliação do
conceito cuidar, o que remete à complexidade do termo , referindo-se tanto ao
cuidado direto quanto ao indireto, na dimensão da integralidade do cuidado. Tal
fato reforça a necessidade de refletir o cuidado em todas as suas dimensões na
formação do enfermeiro(18).
O conhecimento (elemento da 1ª periferia de maior frequência e o mais
prontamente evocado) é outra representação relevante sobre o ser enfermeiro
para os discentes entrevistados para a fundamentação deste estudo. Os discentes
não o consideram apenas em suas dimensões técnico-científicas e empíricas, mas
também nos seus aspectos teóricos e práticos, ocorrendo, inclusive, menção à
pesquisa (conhecimento técnico, conhecimento científico, conhecimento técnico
científico/conhecimento empírico - senso comum, possuir conhecimento teórico,
saber colocar em prática os conhecimentos, pesquisa científica). Na leitura dos
dados, percebe-se que esse termo pode estar associado ao atributo cuidar,
conforme é exemplificado pelos termos cuidar do outro com bases científicas e
técnicas; saber entender e prestar os cuidados de forma correta. O atributo de
conhecimento científico como componente do cuidar em Enfermagem tem sido objeto
de análise dessa categoria profissional, uma vez que, durante muito tempo, não
teve a necessária evidência, prejudicando, inclusive, a imagem da profissão no
conjunto das profissões de saúde(19).
O conhecimento constitui [...] condição indispensável para um
posicionamento profissional, distinto, diferenciado, o qual não passa
despercebido, nem ao mais grave dos pacientes, uma vez que seus
familiares observam a qualidade e a forma como os cuidados são
prestados(20).
A postura científica contrapõe-se à submissão, à medida que enfermeiros tornam-
se conscienciosos do seu papel de executor de um serviço que objetiva fornecer
ao paciente uma assistência integral e contínua, considerada em seus objetivos
e metas, conforme seja seu grau de necessidades afetadas(20). Não obstante,
faz-se necessário ter consciência científica, a qual vem sendo
consideravelmente ampliada, com a evolução da profissão.
A esse respeito cabe mencionar o estudo realizado por Brito sobre a
configuração identitária de enfermeiras no contexto das práticas gerenciais em
hospitais privados de grande e médio porte de Belo Horizonte. Nesse estudo
verificou-se que o conhecimento adquirido ao longo da trajetória profissional
das gerentes pesquisadas, no âmbito assistencial e gerencial tem sido
determinante para o alcance de maior reconhecimento social e profissional do
grupo. Tal reconhecimento é explicitado pelos superiores, subordinados e pares
e reflete positivamente na imagem da Enfermagem no contexto dos hospitais
utilizados como cenário de estudo e nos espaços de convívio social dessas
gerentes(21).
Observa-se, ainda, a incorporação do termo amar (amar ao próximo; ser caridoso;
caridade; caridoso; compaixão; é ter compaixão) na 1ª periferia, reforçado pelo
atributo dedicação (dedicação, justa, se dedicar ao máximo) situado entre os
elementos de contraste. Essas duas evocações parecem apontar para a ideologia
religiosa caritativa do cuidar, a qual se ancora no próprio contexto histórico
social da Enfermagem, demonstrando a persistência no imaginário social da
figura do enfermeiro como um profissional que se doa integralmente, mesmo nas
relações profissionais(22).
Outra palavra que remete ao cuidar refere-se ao termo humanização, elemento de
contraste de maior frequência e o mais prontamente evocado, entendido pelos
discentes em diferentes dimensões. Uma dessas dimensões diz respeito à
humanização do atendimento (atendimento humanizado, é ser generoso, é ser mais
humano, ter interesse no outro), emergindo, assim, o enfoque relacional da
subjetividade humana.
Outro aspecto relevante diz respeito ao atendimento integral, que remete ao
caráter da humanização agregando outros valores como o conhecimento e a
profissionalização do cuidado. O cuidar, presente no elemento central, e o
conhecimento, situado na 1ª periferia, reforçados pelo termo humanização,
encontrado entre os elementos de contraste, expressam a dimensão do atendimento
integral.
Segundo o Programa Nacional de Humanização Hospitalar (PNHAH) da Secretaria de
Assistência à Saúde, do Ministério da Saúde,
[...] a humanização é entendida como valor, na medida em que resgata
o respeito à vida humana. Alcança circunstâncias sociais, éticas,
educacionais e psíquicas presentes em todo o relacionamento humano.
Esse valor é definido em função de seu caráter complementar nos
aspectos técnico-científicos que privilegiam a objetividade, a
generalidade, a casualidade e a especialização do saber(23).
Contribuindo para a melhor compreensão dos significados que remetem à
humanização, concordamos que o movimento crescente de cientificidade confere
maior expressividade ao termo, na medida em que ocorre a expansão e divulgação
do paradigma holístico nas ciências. Esse fato se caracteriza pela
complementaridade, pelo diálogo entre as diversas formas de conhecimento e pela
visão do homem em suas múltiplas dimensões(24).
Por sua vez, o termo responsabilidade, elemento central de menor frequência e
que foi evocado mais tardiamente, é compreendido pelos discentes como um
comprometimento estabelecido no ato de cuidar, como pode ser percebido por meio
das expressões; responsabilidade com o cliente, responsabilidade social,
responsável pela recuperação e bem-estar do paciente, estará lidando com vidas.
A responsabilidade individual é inalienável a cada um pelo que faz. Todo o
cuidado e sensibilidade são fundamentais para tomar decisão em uma instituição,
visto que muitos são atingidos pelo modo como se processa a tomada de decisão e
por aquilo que se decide(25).
A responsabilidade como elemento integrante do núcleo central pode, assim,
sinalizar superações nos estereótipos, rótulos e preconceitos historicamente
presentes na Enfermagem, para maior autoestima e valorização da profissão. Essa
superação poderá refletir positivamente para a imagem do enfermeiro, além de
apontar a necessidade deste profissional se reorganizar para assumir uma
dimensão maior no trabalho em saúde, através da implementação de estratégias
para intervir de forma fundamentada no processo de cuidar, rompendo com aquela
identidade estabilizada, expressando, assim, seu significar na equipe de saúde,
afastando-se de ações submissas e pouco expressivas(26).
Os estereótipos, rótulos, preconceitos [...] podem até mesmo ter
implicação sobre o caráter de [...] responsabilidade da/o enfermeira/
o que, ao assimilar o estereótipo e considerar-se de fato inferior,
poderá não se julgar apta a exercer funções e competências que a ela
cabem, esquivando-se, passando-os a outrem, o que ajudaria a
alimentar o estereótipo, o qual, ao ser reforçado, se voltaria com
mais força contra o profissional(20).
Tomando como base as considerações apresentadas, a responsabilidade se expressa
como uma atitude muito cobrada no cotidiano do enfermeiro e encontra-se, no
atual contexto, diretamente ligada ao conhecimento e a autonomia,
principalmente no que diz respeito àqueles adquiridos durante a formação
acadêmica.
Ressalta-se, assim, a relevância do desenvolvimento de competências e
habilidades que subsidiem o exercício profissional do enfermeiro nos diferentes
cargos de atuação.
É importante salientar, ainda, que o gerenciar, elemento da 2ª periferia de
maior frequência, é apreendido por dois modelos de gestão. Um deles remete aos
referenciais da Escola Clássica, conforme se observa nos termos administrador,
burocracia, comandar, ser chefe e não apenas subordinada. O outro diz respeito
à gerência vinculada às teorias contemporâneas da administração, exemplificada
pelas palavras; articulador, coordenar uma equipe, direcionamento, dirigir a
equipe, empreendedora, estratégico, estrategista, gerenciador de conflitos,
maleabilidade, planejador, traçar planos. Esses resultados demonstram que o
gerenciar remete ao termo cuidar, elemento central de maior frequência e menor
rang, na medida em que a finalidade do gerenciamento na Enfermagem é a
organização do processo de cuidar, tanto em nível individual, quanto coletivo
e, para isso, o enfermeiro realiza o gerenciamento do espaço, dos tempos e das
pessoas, cumprindo, dessa forma, uma dupla determinação ao organizar o cuidar e
ao atuar como suporte para o trabalho de outros profissionais da saúde(27).
Nesse sentido, o termo gerenciar, provavelmente é, entre os elementos
periféricos, aquele que melhor estabelece a interface entre o núcleo central e
a realidade concreta na qual são elaboradas e funcionam essas representações
para o grupo de discentes pesquisados(28).
A incorporação desses dois modelos sugere que o exercício gerencial do
enfermeiro vem passando por uma transição, organizando-se, por um lado, sob a
lógica do conservadorismo, e, ao mesmo tempo, seguindo uma tendência de
mudanças nessa prática, consequência da própria realidade atual, que exige
novos referenciais para a sobrevivência e funcionamento eficiente das
instituições. Dessa forma, a administração contemporânea requer das
instituições descentralização, flexibilidade, organização por processos,
desburocratização, abertura e diversificação. A esse respeito, encontramos que
[...] a busca da flexibilidade se deu ao longo dos anos, a partir das
constatações crescentes de que as antigas propostas de rigidez
estrutural, baseadas na antecedência da estrutura sobre outras
dimensões organizacionais, não mais se coadunavam com a realidade,
nem com as necessidades das empresas e instituições públicas no mundo
contemporâneo(29).
Para atender a essas novas exigências e resgatando a função gerencial do
enfermeiro, observa-se que esse profissional vem se apropriando de referenciais
que possibilitem melhor qualificar sua prática. O gerenciamento de conflitos e
negociação, o planejamento estratégico, o empreendedorismo e a Sistematização
da Assistência de Enfermagem convergem para a responsabilidade do enfermeiro-
gerente, que, quando inova sua prática, deixa emergirem novas possibilidades de
intervenção na assistência, promovendo a gerência do cuidado. Consegue-se
desconstruir, assim, a imagem de que "na saúde e na enfermagem, os processos de
cuidar e administrar quase não se tocam, configurando-se em eixos distintos que
têm corrido em paralelas"(30).
Outro elemento presente na 2ª periferia diz respeito ao profissionalismo,
elemento mais prontamente evocado. Observa-se que essa expressão parece remeter
ao significado de "ter uma profissão", conforme pode ser verificado nas
expressões profissional, profissionalismo, ser profissional, ter uma profissão
e não ser a Enfermagem um trabalho que se aproxima ao do tipo profissional.
O enfermeiro [...] domina os conhecimentos relativos ao exercício do
trabalho assistencial da enfermagem e tem alguma autonomia para
avaliar necessidades assistenciais do paciente, decidindo sobre
cuidados, o que o aproxima do trabalho do tipo profissional. Mas o
trabalho da enfermagem é um trabalho assalariado, subordinado às
regras da instituição e, majoritariamente, é organizado sob a lógica
da divisão parcelar do trabalho(31).
Cabe salientar que o trabalho também se constitui em um dos elementos da 2ª
periferia, o que merece destaque tendo em vista sua ligação com a
responsabilidade presente no provável núcleo central. O trabalho remete ao
termo responsabilidade, principalmente do ponto de vista financeiro, sendo
entendido pelos discentes, sobretudo, como a oportunidade para ascensão
pessoal, profissional e financeira que melhor satisfaz as necessidades
individuais de um ser que se insere na lógica do trabalho produtivo, conforme
expresso: apresentam boas chances de emprego, satisfação financeira,
independência financeira, colocação no mercado, crescer na profissão e
crescimento próprio pessoal.
Observa-se que, para os sujeitos da pesquisa, o trabalho remete ao modo-de-ser-
trabalho, que segundo Boff, se dá na forma de inter-ação e de intervenção do
indivíduo no modo-de-ser-no-mundo pelo trabalho, sendo por meio do trabalho que
se constrói o "habitat", adaptando o meio segundo o desejo e conformando esse
desejo ao meio(32).
Esse estudioso alerta quanto ao fato de que, primitivamente, o trabalho era
mais inter-ação do que intervenção, uma vez que o homem venerava a natureza,
utilizando apenas aquilo que necessitava para sobreviver e tornar mais segura e
prazerosa a existência. A partir do momento em que esse indivíduo passou a
direcionar-se no sentido de formar as culturas como modelação de si mesmo e da
natureza, abriu-se caminho para a vontade de poder e de dominação sobre a
natureza. A lógica do ser-no-mundo no modo de trabalho passou,
consequentemente, a configurar-se na dominação sobre as coisas, colocando-as a
serviço dos interesses pessoais e coletivos e no centro de tudo o ser humano,
dando origem ao antropocentrismo.
Essa atitude de trabalho-poder sobre o mundo concretiza a ditadura do modo-se-
ser-trabalho-dominação, a qual, nos dias de hoje, conduz "a humanidade a um
impasse crucial: ou pomos limites à voracidade produtivista associando trabalho
e cuidado, ou vamos ao encontro do pior"(32).
Como reflexo desse modo-de-ser-trabalho, os discentes pesquisados revelam, em
suas representações, a incorporação do aspecto negativo proveniente da lógica
do mercado (mais de um emprego, muito trabalho, plantão, medo do futuro
profissional, esforço, trabalhar muito e trabalho árduo), que muitas vezes
torna o trabalho alienado, impondo-se à vida das pessoas como algo que os reduz
à máquina de produzir riquezas. A força de cada pessoa é traduzida em trabalho
e o desgaste de energia física é exigido como se fosse normal em busca da
subsistência. No tocante a isso, o trabalhador se torna expropriado(33).
Na Enfermagem, verifica-se que grande parte dos profissionais submete-se a
condições de trabalho geralmente insatisfatórias, como, por exemplo, as duplas
jornadas o que acarreta sofrimento a esse profissional, estendendo-se,
consequentemente, à família e sociedade.
Nesse sentido, verifica-se que a realização, elemento da 2ª periferia, do
futuro profissional poderá ser comprometida, uma vez que depende do
autoconhecimento, do sentir profissional (autorrealização profissional) e da
satisfação sentida em desenvolver o trabalho (fazer o que gosto, gostar do que
faz), condições manifestadas pelos discentes, conforme as expressões acima
destacadas. Além disso, a realização depende também da valorização, do
desenvolvimento e do reconhecimento, evocação pouco significativa para os
discentes em foco neste estudo, oferecido por meio de uma relação humanística
influenciando na qualidade de vida dos profissionais da Enfermagem(34).
Sobre os elementos da 2ª periferia, verifica-se, ainda, que os termos atenção e
respeito foram os de menor evocação e parecem remeter ao atributo cuidar. A
palavra atenção privilegia as tecnologias leves, ou seja, as ligadas a aspectos
relacionais, conforme pode ser evidenciado pelas expressões estar sempre
atento, escutar, ouvinte, ouvir, saber ouvir e ter percepção(35). O respeito
refere-se, por sua vez, a um comportamento do cuidador que remete a interagir
com o outro de forma honesta, sincera e justa, tratando e sendo tratado como
ser humano (respeitar cada indivíduo como um ser completo e não apenas como uma
doença, respeito à vida, ter respeito e ser respeitado, tratar a todos com
igualdade).
Por fim, destaca-se que a Teoria das Representações Sociais foi indispensável
para compreender a visão de mundo que os discentes têm sobre o ser enfermeiro,
bem como defender a hipótese de que a representação social organiza-se em torno
de elementos centrais ligados ao pensamento social, possibilitando ordenar e
entender a realidade dos indivíduos ou grupos(36). Dessa forma, o núcleo
central consiste em um subconjunto da representação, composto de um ou alguns
elementos cuja ausência desestruturaria a representação ou lhe daria uma
significação completamente diferente. Em complemento a este núcleo, encontra-se
o sistema periférico, composto por elementos que articulam entre si o sistema
central e a realidade vivida(36). É o sistema periférico o responsável pela
flexibilidade das representações sociais, suportando a heterogeneidade do grupo
e suas contradições.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados deste estudo, embora não permitam generalizações, por se tratar
de uma realidade específica, permitiram a obtenção de informações úteis sobre
as representações sociais de discentes de Enfermagem de IES privadas de Belo
Horizonte sobre "ser enfermeiro".
As representações sociais do "ser enfermeiro" para o conjunto dos sujeitos do
estudo têm um provável núcleo central alicerçado no cuidar e na
responsabilidade. Entre os elementos da 1ª periferia destacaram-se as palavras
conhecimento e amar; enquanto humanização e dedicação representaram os
elementos de contraste. Por sua vez, os elementos da 2ª periferia foram
constituídos pelos termos gerenciar, profissionalismo, trabalho, realização,
atenção e respeito.
Algumas dessas diferenças ocorreram em função das questões de gênero que
influenciam na compreensão social do ser enfermeiro, a exemplo das evocações
iniciativa, habilidade e profissionalismo mais frequentes entre discentes do
sexo masculino e humanização, dedicação e equipe para o sexo oposto. Ressalta-
se que a carga histórica presente na Enfermagem ainda persiste nos dias atuais,
moldando-a em um saber e um fazer específico, ligado aos sentimentos e
comportamentos valorizados e norteados por aspectos humanos, éticos e
religiosos. Assim, o discurso sobre a formação generalista, autonomia,
flexibilidade, pluralidade, integração e interdisciplinaridade estabelecido nas
Diretrizes Curriculares para Enfermagem, nem sempre condiz com as ações
desenvolvidas, revelando noções amplas e ambíguas para aqueles que esperam uma
formação prescritiva e uniformizadora. Faz-se necessário, assim, rever
concepções, atualizar valores e fazer escolhas em prol da formação de
profissionais críticos e reflexivos, compromissados socialmente com o trabalho
coletivo e individual em saúde.