Vislumbrando a iniciação científica a partir das orientadoras de bolsistas da
Enfermagem
INTRODUÇÃO
A pesquisa na Enfermagem, como nas demais áreas, é fundamental para absorver,
produzir, aperfeiçoar e reproduzir conhecimento, visando melhoria da qualidade
de vida das pessoas e desenvolvimento científico e tecnológico nacional.
No Brasil, desde a década de 1990, o Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq), agência pública que promove a Ciência,
Tecnologia e Inovação na constituição e aperfeiçoamento de recursos humanos e
direciona financiamentos aos projetos de pesquisa(1), vem fomentando uma
modalidade de formação e incentivo à pesquisa na graduação, a Iniciação
Científica (IC). Esta tem como finalidade introduzir o estudante no mundo da
pesquisa científica, estimular novos talentos potenciais entre estudantes de
graduação, e, contribuir para reduzir o tempo médio de titulação de mestres e
doutores(1).
O CNPq ao estabelecer parcerias com instituições de ensino superior e demais
locais onde se realiza pesquisa criou o Programa Institucional de Bolsa de
Iniciação Científica (PIBIC). As duas modalidades, IC e PIBIC, têm intenções
semelhantes, no entanto, parte do gerenciamento desta última passa a ser de
responsabilidade da instituição conveniada(2).
Assim, mediante a participação de bolsistas em projetos de pesquisa orientados
por pesquisador qualificado, almeja-se prepará-los para o ingresso na pós-
graduação e a formação de profissionais mais bem preparados para o mercado de
trabalho. A área da Enfermagem concentrou no ano de 2008, 1.514 estudantes de
graduação(3) que vem incrementando sua formação e preparando-se para o
exercício profissional responsável e de qualidade. Sendo, ainda, oportunizada
aos bolsistas IC a demonstração prática da relevância e benefícios de se
apropriar da pesquisa como um caminho para aprimoramento da sua atuação,
sustentada pela incessante busca de novos conhecimentos.
Muito embora, o investimento seja feito sobre o estudante de graduação, o CNPq
não seleciona diretamente o candidato à bolsa, transferindo tal
responsabilidade ao orientador-pesquisador responsável pelo projeto de
pesquisa. Com destaque, os pesquisadores considerados adequados para esta
atividade possuem titulação e produção científica elevada(4). Logo, o mérito do
orientador inicia-se já quando selecionado para desempenhar a orientação de
bolsistas de Iniciação Científica; estende-se durante toda a caminhada junto ao
estudante direcionando e descobrindo a pesquisa científica, geralmente, do
zero; e, alcança seu ápice quando se divulgam as publicações resultantes do
projeto de pesquisa e percebe-se o bolsista integrado à dinâmica da pós-
graduação.
Assim, a fim de que o orientador execute sua tarefa com êxito e que o objetivo
do Programa seja alcançado é válido destacar que além do título de doutor e
publicações na área, o mesmo precisa possuir/desenvolver habilidades e
competências, não mensuráveis através de dados objetivos, como: comprometimento
com o estudante IC(2), saber aproveitar oportunidades nas quais o bolsista
possa ser envolvido, respeitar limites e as atribuições do bolsista em uma
relação de troca e crescimento mútuo(5).
Diante das considerações apresentadas, levantam-se alguns questionamentos em
relação aos orientadores de bolsistas de IC. Dentre eles, como o orientador de
IC atua/executa sua função? Como é sua relação com o bolsista e sua
produtividade? Qual a importância dos grupos de pesquisa e seus membros para a
formação do bolsista? Como o orientador percebe o ser bolsista de iniciação
científica?
Necessitamos de estudos que mostrem o conhecimento sobre as potencialidades,
limitações e fragilidades do processo formação dos bolsistas IC. Desta forma,
compreender o significado da IC para os orientadores de bolsistas PIBIC/IC
(CNPq) pode muito nos auxiliar para o fortalecimento do processo de iniciação
científica de graduandos com maior aproveitamento dos envolvidos nesta
dinâmica.
MÉTODOS
O presente estudo é fruto de um projeto ampliado de pesquisa realizado pelo
Grupo de Estudos e Pesquisas em Administração e Gerência do Cuidado de
Enfermagem e Saúde GEPADES, cujo primeiro produto foi uma investigação
realizada junto aos bolsistas de IC de uma universidade do sul do país(6). No
presente estudo, o objetivo foi compreender o processo e a importância da
iniciação científica para o pesquisador.
Assim, para alcançar o objetivo proposto optamos pela Teoria Fundamentada em
Dados (TFD), como método de pesquisa. Tratou-se de uma metodologia
originalmente desenvolvida por sociólogos americanos, que intentaram construir
uma teoria assentada nos dados a partir da exploração do fenômeno na realidade
em que o mesmo se insere, sendo que a construção teórica explica a ação no
contexto social(7).
Pela TFD é possível acrescentar novas perspectivas e novos significados ao
fenômeno, nessa pesquisa a iniciação científica, a fim de gerar um conhecimento
complexo, consolidado e fundamentado essencialmente nos dados(8).
O projeto denominado inicialmente como "A iniciação científica como formação
para o pesquisador na enfermagem", teve parecer favorável do Comitê de Ética em
Pesquisa em Seres Humanos da UFSC, registrado sob o número 094/07. Os dados
foram coletados por meio de entrevistas semi-estruturadas e uma pergunta
inicial: Qual o significado da iniciação científica para você? O encaminhamento
das demais questões foi direcionado pelas pesquisadoras, a partir das respostas
das entrevistadas, levando-os a refletirem sobre suas vivências e o
desenvolvimento do seu "fazer" na experiência de orientadores de bolsistas de
iniciação científica.
Optamos em realizar a pesquisa com orientadores de bolsistas de iniciação
científica do curso de enfermagem de uma universidade da Região Sul do Brasil
com experiência de no mínimo um ano nesta atividade. Desse modo, o primeiro
grupo amostral foi composto por quatro orientadoras de IC, que se dispuseram a
integrar o grupo.
Para formar o segundo grupo amostral, composto por três orientadoras de IC,
foram consideradas as sugestões, idéias e dúvidas que emergiram dos dados
codificados e analisados a partir do primeiro grupo. A validação do Modelo
Teórico, propriamente dito, foi efetivada com uma enfermeira orientadora de IC
e com uma pesquisadora expertise em Teoria Fundamentada nos Dados e que vem
desenvolvendo estudos sobre a iniciação científica.
Os dados foram coletados no período compreendido entre maio e dezembro de 2007,
os quais foram gravados e posteriormente transcritos, conforme prevê a
metodologia adotada. Assim que iniciada a coleta de dados, procedeu-se a
análise substantiva dos dados realizada através de três etapas que ocorrem de
forma concomitante: codificação aberta, codificação axial e codificação
seletiva.
Na fase de codificação aberta, é realizada a conceituação dos dados, que são
separados em partes distintas, sendo rigorosamente examinados linha à linha
(micro análise) e comparados em busca de similaridades e de diferenças. A
codificação axial é o momento de reagrupar os dados que foram divididos na
codificação aberta e relacionar categorias às suas subcategorias. A última
etapa é denominada de codificação seletiva, ou seja, é o processo de integrar e
refinar as categorias, desvelando a categoria central para que os resultados da
pesquisa assumam a forma de teoria. Em seguida, chega o momento de rever o
esquema teórico, na busca por consistência interna e validar o esquema teórico
(7).
Para classificar e organizar conexões emergentes entre as categorias foi
utilizado um esquema organizacional, denominado por Strauss e Corbin(7) como
"paradigma", no qual os dados foram vislumbrados conforme condições causais,
intervenientes, contextual, estratégia e consequências.
A codificação e análise dos dados conduziram à identificação do tema ou
categoria central constituído pelo fenômeno: "Vislumbrando nas atividades de
iniciação científica dos grupos de pesquisa, coordenadas pelo orientador
pesquisador, as bases da formação de competências em pesquisa do ser bolsista
IC da enfermagem". A compreensão deste fenômeno foi construída por conceitos
organizados em categorias que se apresentam intimamente relacionados.
Para preservar o anonimato, as contribuições dos participantes (orientadoras de
bolsistas de IC) serão identificadas, ao longo do texto, com a letra "O"
seguida de algarismos arábicos que representam a ordem dada às entrevistas.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Assim, a categoria central Vislumbrando nas atividades de iniciação
científica dos grupos de pesquisa, coordenadas pelo orientador pesquisador, as
bases da formação de competências em pesquisa do ser bolsista IC da enfermagem,
emergiu a partir dos agrupamentos e interpretação das mensagens que os
participantes expressaram durante as entrevistas, as quais formaram as
seguintes categorias:
Selecionando o candidato à bolsa e deixando que o outro consiga produzir
Estas duas categorias são consideradas como condições causais, pois representam
um conjunto de fatos que desencadeiam o fenômeno encontrado nestes dados.
Na seleção do aspirante à bolsa IC o CNPq apenas direciona o perfil desejado do
bolsista quando estabelece as normas e critérios para a concessão da mesma, que
são: estar regularmente matriculado em curso de graduação; não ter vínculo
empregatício; dedicar-se às atividades universitárias e de pesquisa; e,
apresentar os resultados parciais e finais da pesquisa(9). Desta forma, é do
orientador a responsabilidade de indicar a pessoa mais adequada dentre os
candidatos.
Assim, além dos requisitos indicados pelo CNPq, outros determinantes objetivos
também são observados pelas participantes na seleção do bolsista, como: ser um
aluno de fase inicial, ter experiência em pesquisa, dispor de carga horária
livre, possuir fluência em outros idiomas, frequentar eventos e cursos. A
preocupação em selecionar estudantes com bom aproveitamento foi consenso entre
os participantes, haja vista o despendimento teórico e investimento financeiro.
Entretanto, duas orientadoras entrevistadas ressaltaram que embora também
considerem o desempenho acadêmico como um indicador, nas suas experiências, não
perceberam influência na desenvoltura do bolsista, como demonstrado a seguir:
Eu não acho que tenha que ser o melhor desempenho acadêmico, mas um
médio. Porque às vezes aquele que tem um IA [Índice Acadêmico] mais
elevado, ele não se sai tão bem na pesquisa que é mais prática. Ele
se sai bem no teórico, aí quando chega no prático às vezes não, pelo
menos eu já passei por isso.(O7)
Ainda, as entrevistadas revelaram possuir critérios subjetivos na escolha do
bolsista, sendo que cada uma priorizava determinadas características, a saber:
pró-atividade, responsabilidade, autonomia, empatia, comprometimento e
interesse pela temática estudada, com a intenção aliar aos requisitos objetivos
aos aspectos considerados positivos e adequados para a atividade.
Corroborando com os achados, estudos(10) apontam que devido ao baixo número de
estudantes que atendessem aos critérios formais de seleção, estes foram
selecionados a partir da manifestação do desejo e da disponibilidade em
participar do grupo, bem como, pelo desempenho acadêmico, comprometimento,
habilidade na comunicação e liderança demonstrados durante a entrevista. Assim,
devido ao rigor da seleção, mesmo não sendo um processo padronizado, ao
selecionar os alunos com melhor desempenho acadêmico, atribui-se ao estudante
maior responsabilidade e o dever que responder as cobranças com uma atuação
diferenciada (5).
Na categoria, Deixando que o outro consiga produzir, é sustentado pelas
orientadoras que a prática da orientação deve permitir a construção do
conhecimento pelo próprio bolsista, para que ele consiga crescer, sem que a
orientadora subjugue a capacidade e o tempo necessário para o bolsista alcançar
algumas metas acordadas entre os dois.
Para tanto, são citadas habilidades que a orientadora deve possuir e/ou
desenvolver para atuar junto ao bolsista, como: paciência, perspicácia,
compromisso, cobrança das atividades, flexibilidade no cronograma, saber
negociar, dar o retorno das atividades, e instigar no bolsista a reflexão, como
aponta a entrevistada na seguinte fala:
Observando a evolução, como ele está conseguindo dar conta, está
crescendo. E ao mesmo tempo ter muito perspicácia e paciência para
não se projetar muito em cima do outro, mas deixar que o outro
consiga crescer e produzir.(O1)
Permitir o crescimento do estudante implica na manutenção de um contato próximo
com orientador, uma vez que a necessidade de esclarecimento, indicação e
diálogo são essenciais para auxiliar o estudante a perceber a direção do seu
trabalho(11).
Contrapondo sentimentos em relação à orientação
A categoria Contrapondo sentimentos em relação à orientação é composta por duas
subcategorias, Desvendando os desafios para a orientação e Indo além do
visívelque articuladas apresentam-se comointerveniênciapara o alcance de
melhores práticas e resultados na experiência da iniciação científica.
As orientadoras entrevistadas relataram que já tiveram experiências boas e
ruins, e essa qualificação está intimamente relacionada com os resultados
alcançados durante todo o período em que se relacionou com o bolsista. Com
destaque, as participantes sentiram prazer ou alegria ao perceberem a evolução
do bolsista ao final do projeto, ao expressar uma perspectiva crítica e sabendo
pesquisar, como elucida o depoimento a seguir:
E o maior prazer, pelo menos para mim como orientadora é pegar uma
pessoa com muitas limitações e lá no final é outra pessoa.(O1)
Eu fico satisfeita por isso, eu tenho satisfação por isso, porque eu
sempre observo que os alunos saem com uma experiência, com um olhar,
pelo menos sabendo o que é o mundo da pesquisa.(O3)
Assim, os docentes experimentam satisfação quando os bolsistas se interessam em
sua área de pesquisa, percebem que seu conhecimento está sendo disseminado e
verificam que o estudante evoluiu cientificamente e amadureceu como pessoa, ao
finalizarem seus trabalhos e ao publicarem, e acima de tudo, os docentes
sentem-se satisfeitos quando os bolsistas continuam na carreira acadêmica(11).
Como claramente o nome já diz, a iniciação científica almeja despertar a
vocação científica e inserir o graduando na dinâmica da pesquisa. Dar início a
este trabalho com um jovem que muitas vezes não possui experiência prévia em
investigação é descrito pelas orientadoras como um dos desafios para a
orientação, tendo em vista o despreparo do bolsista e a dificuldade no começo
das atividades com novos bolsistas. Algumas das experiências menos produtivas
estavam vinculadas ao não encaminhamento ou atraso das atividades propostas,
bem como, aos períodos em que a própria orientadora, sobrecarregada com suas
outras atividades, não conseguia dar muita atenção ao bolsista e desenvolver um
trabalho de qualidade. As falas a seguir explicitam esses sentimentos:
Tem momentos que a gente sente prazer, alegria e as coisas vão para
frente. Mas, tem outros dias que, não sei se porque estamos mais
cansados, tem dias que as coisas ficam empacadas.(O1)
As piores experiências estavam relacionadas a questões relativas a
mim mesma, por estar numa fase muito complicada, com muita demanda,
com muito trabalho administrativo, e não poder estar dando tanta
atenção e disponibilizando para o aluno. (O3)
O que a gente percebe, que do ponto de vista do preparo, [...] quando
é um bolsista novo, ele dá muito mais trabalho.(O6)
Além disso, uma das orientadoras destacou que na área da Enfermagem quem faz
pesquisa é o professor universitário, e, portanto, percebe-se sem tempo para
orientar bolsistas IC, justamente por não ser destinada uma carga horária
regulamentada para mais esta atribuição. Assim, executa diversas atividades
concomitantemente, e considera que orienta o bolsista fora do seu horário de
trabalho, como elucida a orientadora na seguinte fala:
Porque eu tenho outras obrigações no departamento e lá no plano do
professor para mestrado e doutorado você pode alocar duas horas
semanais para orientação do mestrado e doutorado, mas para a
iniciação científica você não aloca duas horas, você não aloca, não
tem. Então você dá, teoricamente, fora do seu horário, né. Você se
desdobra para fazer no horário de expediente, mas eu carrego trabalho
para corrigir em casa, ler teses e dissertações, e preparar o
material todo lá em casa. (O5)
Esses aspectos identificados contribuem para sustentar que, como frustração
para bolsistas, a falta de tempo e o excesso de atividades dos professores-
orientadores, também são geradores de insatisfação para as participantes. Sendo
importante o emprego de novas metodologias de trabalho envolvendo os pós-
graduandos, a fim de suprir esta carência(11).
Já na subcategoria Indo além do visível é enfatizada pelas orientadoras sua
preocupação com o bolsista. Lidar com momentos de crise, afastamentos ou
dificuldades do bolsista exige da orientadora uma postura humana e
profissional, na qual sentimentos e ações se integram à dinâmica teia da vida,
na qual os elementos estão interconectados e exercem influência um sobre os
outros. Assim, é valorizado o respeito às atividades do bolsista como estudante
de graduação, e a sensibilidade da orientadora para enfrentar períodos difíceis
com serenidade e livre de julgamentos. Tais situações são exemplificadas no
seguinte depoimento:
Nessa caminhada tem aqueles que se bloqueiam nesse transcurso, tem os
que ficam doentes, enfim, existem as intercorrências. E nesse momento
é muito importante que o orientador perceba qual a real situação,
consiga realmente ver qual a real situação para que possa ajudar.
Nunca pensar a priori sem investigar o comportamento do outro [...] e
nunca dizer que não dá para apostar no outro, porque se podem
descobrir verdadeiras pérolas. (O1)
As características apresentadas pelas orientadoras vão ao encontro de estudos
(12) que investigaram a relação docente e estudante de graduação no processo
ensino aprendizagem, os quais revelam que para alguns docentes lidar com as
adversidades relacionais impostas pelo ambiente tem sido um desafio que exige
um olhar sensível as características individuais, bem como, respeito ao ser
humano.
Valorizando o Grupo de Pesquisa, um espaço de relações, trocas e trabalho
Esta categoria é considerada ocontexto no qual o fenômeno encontrado ocorre,
sendo complementada por uma subcategoria denominada Trabalhando coletivamente
em pesquisa, que conjuntamente reconhecem os grupos de pesquisa como um espaço
no qual se desenvolvem as ações que implicam na relação entre a orientadora,
bolsista e os demais membros.
Haja visto o entendimento de que a pesquisa científica é uma atividade coletiva
e cooperativa, é compreensível e até esperado que os grupos/núcleos/centros de
pesquisa fossem concebidos como ambientes promotores de relações de
crescimento, mais próximas e colaborativas por promoverem o encontro entre
pesquisadores e estudantes com interesses em uma mesma linha de pesquisa.
É ressaltado pelas orientadoras que a relação estabelecida com o bolsista é
diferenciada dos demais alunos de graduação, pois a partir das reuniões do
grupo e o compartilhamento de tarefas é possível se estabelecer laços de afeto
e carinho, como explicitado pelas participantes nas seguintes falas:
No projeto que tem mestrandos e doutorandos, os bolsistas participam
igual [...] é um trabalho coletivo e cooperativo. (03)
Não digo eu, porque no meu grupo de pesquisa temos quatro doutores, e
estes orientam mestrandos e doutorandos, cujo passado, passaram por
iniciação científica, sabe? Então, criamos laços e eles voltaram.
Então, a minha opinião é que a maioria das situações a relação é
muito boa e que surte efeito futuro, publicações conjuntas e
incluindo mestrado e doutorado.(O5)
Destaca-se, ainda, a articulação da orientadora com os demais membros do grupo
de pesquisa no processo de formação do bolsista, tendo em vista a dificuldade
em orientá-lo isoladamente, e evidenciando que o bolsista está vinculado às
demandas do projeto e não somente à orientadora, a seguir as participantes
expõe a sua experiência:
Isso é uma coisa que a gente não consegue fazer sozinha, e às vezes
eu coloco os mestrandos e doutorandos na jogada, e eles também
ajudam. Se tem um programa novo para aprender, então, tal doutoranda
já sabe, ela vai sentar como bolsista e ele vai aprender.(O5)
Eu posso ter uma competência, até pela minha trajetória, pela minha
formação, pela minha experiência, que um bolsista que chega não tem.
Mas, ele certamente vai ter uma competência, também pela historia
dele, pela trajetória, pelo aprendizado, que de repente eu não tenho
e ele pode me ensinar, também. Então, essa troca eu acho que é bem
interessante, também. [...] Então, por isso o trabalho de grupo é
muito importante, porque se fosse um trabalho isolado do orientador
seria muito mais difícil, com certeza. (O6)
Entende-se que participação de estudantes nos grupos de pesquisa amplia a visão
sobre o processo de construção do conhecimento, pois este espaço permite a
formação de vínculo e intimidade com a temática de estudo e com os professores
pesquisadores e integrantes do grupo(10). Com o crescimento significativo dos
grupos de pesquisa da área da Enfermagem no contexto nacional oportunizou-se o
aumento da interação entre estudantes, pesquisadores e pessoal de apoio técnico
por meio de produções coletivas(13). Esta integração entre os membros do grupo
constitui como um fator facilitador e potencializador para o trabalho em
pesquisa, já que oportuniza a orientação ao IC de forma compartilhada,
permitindo que mestrandos e orientandos a exercitem(11), bem como, assimilando
as contribuições criativas e sensatas dos bolsistas(14).
Atuando como coordenador das atividades e Trabalhando em todos os níveis para
promover a ciência da enfermagem
Essas categorias serão analisadas em conjunto, uma vez que as participantes
evidenciaram que a orientadora atua como um coordenador das atividades do
bolsista e prepara um jovem pesquisador para a pós-graduação em Enfermagem,
tanto como estratégiaquanto consequência.
As orientadoras compreendem que o ensinamento da orientação se desenvolve de
forma concomitante ao trabalho, e que ao "fazer" pesquisa junto com o bolsista
está compartilhando seus conhecimentos e experiências de forma mais prática e
rica, permitindo que o bolsista desenvolva com a execução das atividades não
somente habilidades metodológicas para a pesquisa, e sim, um olhar crítico e
criativo sobre a realidade. Neste processo as entrevistadas se percebem como
coordenadoras no processo de formação em pesquisa do bolsista ao negociar,
estabelecer acordos, organizando as demandas e articulando as produções e os
pesquisadores envolvidos, como demonstram os depoimentos a seguir:
Acho que é um papel mais de coordenação, estabelecer esses acordos,
organizar o que cada um vai fazer, articular o seu trabalho, quando
trabalhamos com mais de um. (O3)
Eu acho que a função do professor, do orientador numa bolsa de
iniciação científica é a de compartilhar com o bolsista as
experiências, os caminhos que você já conhece, em termos de
realização do estudo. Ele poder fazer com que o bolsista cresça nas
suas habilidades enquanto pesquisador. (O4)
Ser orientadora é desenvolver atividades que promovam a ciência da
enfermagem.(O1)
Assim, atuando como um gestor de pessoas e do conhecimento, a orientadora
promove a ciência na Enfermagem quando atua em todos os níveis ou prepara
potenciais pesquisadores na sua formação inicial. As participantes do estudo
indicaram que pelas competências e habilidades desenvolvidas durante a vigência
da bolsa, o bolsista IC deve ser encaminhado a realizar o mestrado e doutorado,
tendo em vista que possui os instrumentais básicos e uma relação mais próxima
com o universo da pós-graduação do que outros estudantes que não passaram por
esta experiência, como explicitam as seguintes falas:
Aquele aluno que vem de uma bolsa IC e pega uma bolsa de mestrado tem
um desempenho muito superior em relação aquele aluno que vem da
prática, ou que não tem essa experiência prévia. Porque ele já vem
sabendo do que está se falando, já vem com os instrumentais básicos
para a pesquisa. Isso acelera e muito a formação dele e melhora
qualitativamente, também. (O6)
Para promover ciência na enfermagem necessariamente você tem que
trabalhar em todos os níveis, tem que plantar a mudinha na graduação
e colher no doutorado e pós-doutorado.(O1)
A analogia apresentada por um dos participantes sobre o bolsista IC ser uma
mudinha plantada pela orientadora, que renderá frutos na pós-graduação, reflete
o empenho dos orientadores a responderem as exigências do Programa de Bolsas de
Iniciação Científica e as suas próprias expectativas. Pois em suas experiências
já observaram que muitos bolsistas já ingressaram no mestrado e deram
continuidade na sua formação com o doutorado, por construírem um currículo com
os produtos da bolsa IC, e, além disso, acreditam que o bolsista seja um
estudante mais bem preparado na pós-graduação, por apresentar um tempo reduzido
na sua formação, bem como, trabalhos com maior qualidade.
Ainda, deve-se destacar o diferencial à favor do programa e da repercussão da
iniciação científica no currículo dos estudantes, pois em alguns concursos para
docentes, a disputa pelas vagas ficaram quase que, exclusivamente, com os ex-
bolsistas, pois os demais não se sentiam tão preparados para competir(14).
Fortalecendo, desta forma, um dos objetivos do programa de iniciação
científica: acesso rápido ao programa de pós-graduação com titulação em prazo
adequado visando à formação de jovens pesquisadores(15). Em seguida é
apresentado um depoimento que expressa esta idéia:
Eu observo maturidade no sentido dele estar envolvido com a pesquisa,
comprometido no grupo de pesquisa, ele estar buscando novos
conhecimentos, ele estar na internet, não só na questão do computador
e só de digitação, mas também de ir atrás do conhecimento em bases de
dados, como ferramenta de aprendizagem. (O7)
Embora, uma das orientadoras concorde que a bolsa IC incentiva o gosto pela
pesquisa, ela não atribui somente a experiência de ser bolsista ao interesse em
ingressar na carreira acadêmica, ela destaca o contexto histórico atual e a
competitividade do mercado de trabalho como fatores que contribuem para a
vinculação da Iniciação Científica e a pós-graduação, como explicitado na fala
a seguir:
Não é o fato de ser aluno de iniciação científica que faz com que ele
queira ir para o mestrado ou doutorado, talvez ele crie curiosidade
de fazer pesquisa [...] todos os alunos já tem essa consciência de
fazer pós-graduação e não é por causa da universidade ou de nós
estarmos incentivando. Estamos incentivando sim, o gosto pela
pesquisa, para evoluir e galgar na carreira profissional. (O5)
Ainda que a bolsa de iniciação científica cumpra com seu objetivo, no que tange
o encontro de novos talentos e o despertar para pesquisa, quando se trata do
incentivo para formação de recursos humanos especializados em pesquisa
acredita-se que é necessário um tempo maior e pesquisas posteriores(2).
Assim, a organização das interrelações das categorias encontradas neste estudam
apontaram à conformação do fenômeno Vislumbrando nas atividades de iniciação
científica dos grupos de pesquisa, coordenadas pelo orientador pesquisador, as
bases da formação de competências em pesquisa do ser bolsista IC da Enfermagem,
representado pela Figura_1.

A expectativa e o compromisso dos orientadores pesquisadores em promover o
avanço da ciência da Enfermagem com o incremento de novos conhecimentos
pertinentes, relevantes e contributivos e formação o mais qualificada possível
de recursos humanos em pesquisa, demanda dele uma atuação centrada na
coordenação das atividades de pesquisa. Estas atividades encontram no grupo de
pesquisa o solo ou a estrutura organizativa de pessoas/equipe de pesquisadores
e infra-estrutura física, material, de logística e de tecnologia de
investigação a possibilidade de viabilizar a produção científica na execução de
seus projetos de pesquisa. Dentre as pessoas ou equipe de trabalho encontram-se
desde o aluno de graduação na modalidade de Iniciação Científica, seguindo os
alunos de mestrado e de doutorado, os docentes pesquisadores e outros
pesquisadores em estágio pós-doutoral. A iniciação científica é o primeiro
passo para o desenvolvimento de competências em pesquisa, e deste modo, o estar
selecionando o candidato à bolsa e deixá-lo que consiga produzir exige do
orientador não só competência na busca do perfil requerido, mas como também,
responsabilidade e acompanhamento devido para que o investimento alcance o
retorno devido. A dinâmica de funcionamento dos grupos de pesquisa como espaço
de relações, trocas e trabalho propicia ao jovem aluno o aprender a fazer
pesquisa ou a ser pesquisador iniciante. O orientador experiencia sentimentos
em relação à orientação ao desvendar os desafios para a orientação e ao mesmo
tempo, necessita ir além do visível para o alcance de melhores práticas e
melhores resultados na experiência da iniciação científica do aluno bolsista.
Assim, Vislumbrando nas atividades de iniciação científica dos grupos de
pesquisa, coordenadas pelo orientador pesquisador, as bases da formação de
competências em pesquisa do ser bolsista de IC da Enfermagemse desvela como um
fenômeno importante do trabalho do orientador pesquisador formador de recursos
humanos em pesquisa
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A compreensão do significado da experiência de ser bolsista de iniciação
científica para as orientadoras de enfermagem de uma universidade do sul do
país possibilitou desvelar o fenômeno Vislumbrando nas atividades de iniciação
científica dos grupos de pesquisa, coordenadas pelo orientador pesquisador, as
bases da formação de competências em pesquisa do ser bolsista de IC da
Enfermagem. Neste fenômeno o orientador pesquisador experiencia o (contexto)
Valorizando o Grupo de Pesquisa, um espaço de relações, trocas e trabalho, em
(interveniência) Contrapondo sentimentos em relação à orientação, mediante o
estar (condições causais) Selecionando o candidato à bolsa e Deixando que o
outro consiga produzir, e com isso, (estratégia e consequência) manter-
se Atuando como coordenador das atividades e trabalhando em todos os níveis
para promover a ciência da Enfermagem.
A experiência de ser orientador pesquisador formador de recursos humanos em
pesquisa desde o IC é um desafio que requer competências no domínio do processo
investigativo, da ciência de enfermagem e da gerência e políticas em pesquisa,
promovendo o crescimento e fortalecimento do grupo de pesquisa num trabalho
integrado e cooperado rumo ao avanço da ciência, tecnologia e inovação na
enfermagem e saúde.