Caracterização das internações psiquiátricas para desintoxicação de
adolescentes dependentes químicos
INTRODUÇÃO
O uso abusivo de substâncias psicoativas é, atualmente, um dos mais
significativos problemas de saúde pública mundial, tendo em vista a magnitude e
a diversidade de aspectos envolvidos(1).
Os fatores de risco para o uso de drogas incluem aspectos culturais,
interpessoais, psicológicos e biológicos. Entre eles, a disponibilidade das
substâncias, as privações econômicas extremas; o uso de drogas ou atitudes
positivas frente às drogas pela família, conflitos familiares graves; baixo
aproveitamento escolar, atitude favorável em relação ao uso, início precoce do
uso; susceptibilidade herdada ao uso e vulnerabilidade ao efeito de drogas(2).
O início do envolvimento com drogas ocorre principalmente na população de
adolescentes e adultos jovens(3-4). Os levantamentos epidemiológicos sobre o
consumo de álcool e outras drogas entre os jovens no mundo e no Brasil mostram
que é na passagem da infância para a adolescência que se inicia a
experimentação e uso abusivo das drogas, tanto as lícitas quanto as drogas de
abuso(5).
O termo droga de abuso é atribuído quando a substância ou produto é utilizado
pelo sujeito com o objetivo claro de obter deste um efeito psicoativo/
recreativo, sem qualquer indicação terapêutica ou orientação médica(1).
Segundo dados do Conselho Regional de Medicina-SP, as drogas ilícitas são
usadas por 4,2% da população mundial, sendo que no Brasil estão inclusas as
anfetaminas, opiáceos, cocaína, maconha e solventes(6).
No Brasil até o início da década de 1980, os estudos epidemio-lógicos não
encontravam taxas de consumo alarmantes entre estudantes. No entanto,
levantamentos realizados a partir de 1987 pelo Centro Brasileiro de Informações
sobre as Drogas Psicotrópicas da Universidade Federal de São Paulo (CEBRID) têm
documentado uma tendência ao crescimento do consumo nesta população. Esses
levantamentos foram realizados entre estudantes de primeiro e segundo grau em
dez capitais brasileiras, em amostras de adoles-centes internados e entre
meninos de rua. Em 1997, o CEBRID já mostrava uma tendência ao aumento do
consumo dos inalantes, da maconha, da cocaína e de crack em determinadas
capitais(7).
Uma das abordagens freqüentemente defendida pelos estudiosos e especialistas
sobre a questão das drogas, é a da prevenção, a qual tem por objetivo prevenir
os problemas associados ao uso das drogas que causam dependência, diminuir a
incidência e gravidade evitando seu uso indevido, ou ainda, reduzir tanto
quanto possível seu índice(8).
Na prática assistencial a atenção aos pacientes usuários de drogas deve ser
permeada pela compreensão de que estas pessoas adoeceram e requerem ajuda, não
são portadoras de defeito moral e não devem ser rejeitadas ou punidas, nem ao
menos julgadas principalmente pelos profissionais de saúde(9).
Neste contexto, as pesquisas sobre o consumo de substâncias psicoativas têm
contemplado suas multicausalidades e isto é fundamental para a elaboração de
ações preventivas e efetivas no combate ao uso das drogas de abuso, o que
poderá refletir no perfil dos indivíduos internados e no número de internações
por esta causa.
Diante do exposto definimos como objetivo da presente pesquisa traçar o perfil
de adolescentes dependentes químicos para tratamento de desintoxicação na
Unidade de Psiquiatria do Hospital Universitário do Oeste do Paraná (HUOP) e
correlacionar às variáveis sócio-demográficas com o uso de drogas ilícitas.
Acreditamos que conhecer esta associação constitui ferramenta eficaz não só
para o entendimento desse fenômeno, mas, sobretudo para propor uma intervenção
mais efetiva no que se refere à recuperação e reabilitação do adolescente.
MÉTODOS
Estudo transversal retrospectivo realizado na Unidade de Psiquiatria de um
hospital geral, localizado na cidade de Cascavel. Este hospital é referência em
alta complexidade e atendimento de urgência e emergência para região Oeste e
Sudoeste do Paraná.
A Unidade de Psiquiatria foi criada em março de 2007 e atende crianças e
adolescentes dependentes químicos para tratamento de desintoxicação; tem 17
leitos, dos quais sete são destinados para adolescentes do sexo masculino, sete
para o sexo feminino e três para crianças. A equipe que atua nesta Unidade é
composta por um enfermeiro e três técnicos de enfermagem em cada turno, um
psiquiatra, um assistente social e um recreador no período diurno. Outros
profissionais como psicólogo e médico também prestam atendimento quando
solicitado. O tempo de permanência do adolescente na Unidade é de pelo menos 35
dias, sendo que o internamento é indicado como último recurso de tratamento.
Após a alta hospitalar o adolescente é encaminhado ao serviço ambulatorial de
referência no tratamento de dependência química do município ou região.
Os dados foram coletados no mês de maio de 2008, a partir de consulta em fontes
secundárias, mais especificamente, os prontuários hospitalares. Foram incluídos
no estudo todos os adolescentes internados na Unidade no período de março de
2007 (época do início das atividades na Unidade) até abril de 2008. As
informações coletados dos prontuários foram de dois tipos: a) variáveis
sociodemográficas que incluía sexo, idade, escolaridade, renda familiar, com
quem reside e b) variáveis clínicas: data da admissão para internação, tempo de
uso da droga, droga usada com mais frequência, tipos de drogas utilizadas, atos
infracionais, tratamentos anteriores - reinternações, quem ofereceu a droga
pela primeira vez e motivo que começou a usar.
As informações foram registradas diretamente em uma planilha construída
exclusivamente para esta pesquisa e armazenadas em um banco de dados do Excel,
utilizando-se para análise descritiva o pacote computacional Statistic 8.0 e
para cálculo do Teste Exato de Fischer o programa SAS 9.1 (Statistical Analisys
System). Foi estabelecido um nível de significância mínimo de 5%.
A partir dessa análise, os dados do perfil sócio-demográfico foram comparados
em relação ao uso associado das drogas mais consumidas pelos adolescentes - a
maconha e o crack. Os resultados são mostrados em forma de tabela e
apresentados em freqüência absoluta e relativa.
O desenvolvimento do estudo ocorreu em conformidade com as diretrizes
estabelecidas na Resolução 196/96 do Conselho Nacional em Saúde e o projeto foi
aprovado pelo Comitê Permanente de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da
Universidade Estadual de Maringá (Parecer nº147/2008).
RESULTADOS
Dos 81 adolescentes que passaram por internação na Unidade de Psiquiatria do
HUOP no período em estudo, a maioria é do sexo masculino (79%), com idade média
de 15,46 anos (desvio-padrão 1,84), sendo que 92,5% dos adolescentes tinham
entre 13 e 18 anos. Quanto à escolaridade 80,2% não frequentavam a escola e
tinham de um a quatro anos de estudo (45,7%) ou no máximo oito anos (53,1%). A
maioria dos adolescentes morava com a família (91,3%) e haviam sido
encaminhados para desintoxicação pelo Centro de Atenção Psicossocial (CAPS-ad)
do município de Cascavel - PR (83,2%) enquanto os demais eram advindos de
outros serviços locais (9,5%) (UBS, Pronto Atendimento Continuado, Conselho
Tutelar, via ordem judicial) ou de outras regiões (7,3%) (Tabela_1).
Todos apresentavam um diagnóstico inicial para internação decorrente do uso
abusivo e crônico de múltiplas substâncias psicoativas. Antes da atual
internação na Unidade de Psiquiatria em estudo, mais da metade (56,8%) já havia
sido submetido a algum tipo de tratamento. Dentre os quais, os adolescentes
apresentavam histórico de internação hospitalar (12,1%), internação em
instituições não-governamentais (23,4%) e assistência ambulatorial (21,3%). Em
nível ambulatorial mantiveram acom-panhamento, por exemplo, em CAPs-ad.
No que se refere ao tipo de droga utilizada, observou-se que 6,4% dos
adolescentes internados usavam apenas drogas lícitas (álcool); 13,6% uma única
droga ilícita, e a maioria (80%) consumiam dois ou três tipos de drogas
ilícitas. É interessante observar que nenhum adolescente fazia uso isolado do
álcool ou do cigarro, sendo que em 45,7% dos casos estas drogas estavam juntas
e em 83,8% além de uma destas drogas lícitas os adolescentes também faziam o
uso da maconha e/ou do crack.
Nos registros referentes às informações prestadas pela família por ocasião da
internação, constata-se que antes do crack, todos os adolescentes já consumiam
outras drogas, incluindo as lícitas como o álcool e o cigarro. De forma geral,
observou-se um padrão no comportamento dos adolescentes, marcado pelo
escalonamento no uso de substâncias químicas, iniciando-se pelas mais leves
(cigarro, álcool) e migrando para as mais pesadas, a exemplo do crack. Assim, o
início da trajetória no mundo das drogas, normal-mente, se deu com o cigarro e
o álcool, sendo a maconha a primeira droga ilícita a ser consumida. A cocaína e
os sedativos foram usados, no início, apenas de forma esporádica por alguns
adolescentes.
Ainda durante o preenchimento do protocolo, 55,6% dos familiares informaram que
algum membro da família fazia uso de álcool e/ou outras drogas e 87,6% dos
adolescentes informaram que possuíam amigos que também faziam uso de drogas.
A maior parte dos adolescentes (55,6%) referiu usar drogas há mais de três
anos. A droga utilizada com maior frequência pelos adolescentes de ambos os
sexos foi o crack (87,6%), seguida da maconha (85,2%). É interessante observar
que a maioria dos jovens (79,0%) usava o crack associado à maconha, não havendo
diferenças no padrão de uso de acordo com a idade, uma vez que grande parte dos
adolescentes, independente da idade, já fazia uso de crack associado a outras
substâncias.
No grupo de adolescentes que faz uso associado da maconha e crack observa-se
predominância do sexo masculino (82,8% contra 17,2% do sexo feminino), aumento
de consumo à medida que aumenta a faixa etária (7,8%; 42,2% e 50,0%
respectivamente), elevado percentual de adolescentes que moram com os pais
(81,2%) e que haviam interrompido os estudos (84,3%), sendo que 46,0% tinham de
um a quatro anos e 54,0% de cinco a oito anos de escolaridade. No momento da
internação mais da metade deles (53,1%) fez referência ao fato de outros
membros da família fazerem uso de drogas lícitas ou ilícitas. Muito embora o
estudo tenha apresentado proporções significativas na correlação das variáveis
nenhuma delas alcançou significância estatística, ou seja, p>0,05.
Verificou-se, também, que todos os adolescentes que faziam o uso associado da
maconha e crack referiram prática de atos ilícitos, desde pequenos furtos até
homicídios, sendo que mais da metade deles (56,8%) já haviam sido presos. Os
atos ilícitos mais frequentes foram roubos à casas, compact disc (CD), pequenos
furtos (46%) e homicídios (7,1%).
No período dos 12 meses em estudo, 22 jovens (27,1%) passaram por reinternação,
sendo que um deles foi reinternado cinco vezes. No total, ocorreram 15 fugas da
internação hospitalar, sete desses adolescentes retornaram para reinternação. O
tempo entre uma internação e outra variou de um a dez meses. Períodos mais
curtos foram observados entre os jovens que haviam fugido, com uma média de 143
dias, do que entre aqueles que haviam recebido alta, cuja média foi de 152
dias. As variáveis sexo, fuga e tempo de uso da droga não se mostraram
associadas a reinternação.
DISCUSSÃO
As características sociodemográficas destes adolescentes referentes ao sexo,
média de idade para consumo e rendimento escolar foram semelhantes às descritas
em estudos anteriores(8,10). O predomínio do sexo masculino nesta pesquisa
confirma a maioria de estudos a respeito do consumo de drogas, nos quais
frequentemente aparecem predominâncias da população masculina.
A distribuição diferencial do consumo de drogas entre os sexos é explicada por
meio do controle social, já que os grupos culturais transmitem, a partir de
suas crenças e expectativas, os papéis femininos e masculinos dentro da
coletividade. Sendo assim, os estereótipos sexuais indicam limites de
comportamento dentro dos quais devem ser identificadas as exigências
particulares para os papéis sexuais(8).
Quanto à idade dos adolescentes pesquisados os resultados apontam que o consumo
das substâncias psicoativas cresceu tendenciosamente de acordo com a faixa
etária. No Brasil, um inquérito nacional realizado pelo CEBRID nas 108 maiores
cidades do país com uma amostra de 7.939 entrevistados, identificou que o
consumo de drogas foi significativamente maior na faixa etária de 35 anos ou
mais. Os dados deste levantamento também revelam 20,3% dos adolescentes de 12 à
17 anos de idade já fizeram uso de droga na vida(11).
Outro Levantamento realizado pelo CEBRID em 27 capitais brasileiras sobre o
consumo de drogas psicotrópicas com 5.191 estudantes do ensino fundamental e
médio da rede pública de ensino mostra que a partir dos 16 anos se observam as
maiores porcentagens de usuários, porém eles estão presentes de forma
expressiva na faixa etária de 10 a 12 anos, com 9,6% dos usuários(12). É
importante atentar para o fato de que alguns estudos demonstram que a
experiência com substâncias psicoativas vem ocorrendo em idades cada vez mais
precoce(4).
A adolescência evidencia-se como uma das faixas etárias cuja incidência de
usuários de drogas é alta e crescente. Trata-se de uma etapa de vida marcada
por importantes e profundas transformações, as quais produzem desequilíbrios e
instabilidades extremas(8). O adolescente não aceita orientações, pois está
testando a possibilidade de ser adulto e ter o poder e controle sobre si mesmo;
logo ao entrar em contato com as drogas neste período da vida acaba expondo-se
a maiores riscos(5).
Quanto à escolaridade os resultados evidenciaram que grande parte dos
adolescentes havia abandonado os estudos. Pesquisas têm apontado que uma das
principais consequências do uso de drogas durante a adolescência é a queda do
rendimento escolar. Os jovens deixam de freqüentar as aulas, e conseqüentemente
abandonam a escola. Em um estudo realizado com usuários e ex-usuários de crack
com mais de 18 anos, constatou-se que mais da metade deles, havia interrompido
os estudos no primeiro grau(4).
Outro estudo realizado com adolescentes, de 15 a 18 anos de idade, em Pelotas-
RS observou que o consumo de drogas ilícitas esteve intimamente associado a
prejuízo no desempenho escolar e na permanência na escola(13).
Vale ressaltar que quanto ao rendimento e abandono escolar por partes dos
adolescentes, a questão não é inerente apenas aos usuários de drogas, sugerindo
a existência de outros fatores, que requerem estudos mais direcionados. No
levantamento realizado pelo CEBRID com estudantes do ensino fundamental e médio
da rede pública de ensino, observou-se que a média de defasagem escolar foi de
45,9% para as 27 capitais em estudo, independen-temente do fato de os
entrevistados já terem ou não feito uso de drogas na vida, exceto tabaco e
álcool(12).
Quanto ao início do uso de drogas ilícitas mais da metade dos adolescentes
informaram que a iniciação se deu, na maioria das vezes, a partir da
convivência com amigos.
Embora algumas pesquisas(14-15) apontem a família como um fator protetor para o
uso de drogas estes dados não são corroborados com os resultados encontrados
nesse estudo; considerando o padrão familiar disfuncional, o uso de álcool e
outras drogas pelos pais como sendo um fator de risco importante para o início
do consumo destas substancias por adolescentes(4), é de se supor que a família
dos adolescentes em estudo influenciou o início do consumo de álcool e cigarro,
uma vez que 55,6% dos familiares mencionaram que algum membro da família fazia
uso de álcool e/ou outras drogas.
Estudo(4) realizado sobre a seqüência de drogas consumidas por usuários de
crack demonstra que dentre os 31 entrevistados, 28 afirmaram envolvimento sério
de um ou mais membro da família com pelo menos uma droga. Cinco relataram
envolvimento de familiares com mais de três drogas. A droga mais citada foi o
álcool, seguida pelo cigarro. Quanto à influência dos amigos, verificou estes
tiveram um papel importante; visto a importância do grupo para o adolescente.
A aceitação da droga por parte do adolescente quando oferecido pelos amigos é
uma forma de se inserir no grupo e também não decepcionar aquele que lhe
oferece, garantindo em troca seu "respeito e aceitação" no grupo. Somente a
partir do uso frequente e da instalação da dependência é que se faz presente o
desejo de usar a droga e de sentir seus efeitos, e nesta fase, os amigos já não
tem tanta influência(2).
O padrão de comportamento do uso da droga presente em ambos os sexos, com uso
inicial de drogas lícitas, migrando para o uso de drogas ilícitas é coerente
com o que tem sido identificado na literatura. É possível identificar que o
início precoce do uso de drogas lícitas, como álcool e cigarro aumentam a
probabilidade de envolvimento sério com uma ou mais drogas ilícitas(16).
Usuários regulares de drogas ilícitas iniciam pelo álcool e tabaco,
comportamento similar entre usuários, porém a preferência para o uso de uma ou
outra droga, não pode ser considerada como fator determinante da posterior
sequência. Sugere-se que desta forma que intervenções para se minimizar o uso
das substâncias lícitas e ilícitas caminhem juntas aos esforços de adiar o
primeiro uso das substâncias lícitas(8).
De forma geral, foi possível identificar elementos comuns entre os adolescentes
do estudo em relação ao uso de drogas: a iniciação precoce; o uso associado e
concomitante de várias drogas de abuso; a evasão escolar e o envolvimento com
atos ilícitos, a exemplo de roubos e assaltos, confirmando uma tendência
observada em outros estudos(8).
Com base nos resultados desse estudo pode-se supor que o uso de drogas de abuso
provoca um rompimento na vida do adolescente, afastando-o de suas atividades
diárias como escola, lazer, atividades com a família, além de provocar outras
intercorrências indesejáveis como crises familiares, violência, criminalidade,
internações e reinternações hospitalares frequentes, com poucas perspectivas de
recuperação.
Esses dados são corroborados com um estudo(17) que comparou adolescentes que
não usam maconha com os que usam e constataram que estes últimos têm problemas
relativos a sintomas de dependência, entrada em emergência de hospitais, evasão
escolar, problemas comportamentais, problemas com a justiça por infração à lei
e desenvolvimento de alguma patologia psíquica.
É difícil determinar com precisão o nexo causal entre drogas e atos violentos,
o status legal das drogas e as complicações envolvendo tráfico e leis que o
reprimem, as influências do meio e as características individuais dos usuários,
a prevalência e as correlações precisas entre violência e uso de drogas(18). No
entanto, dentre aos problemas associados ao consumo abusivo de drogas, destaca-
se também a presença de comportamentos anti-sociais, nesse estudo observou-se
que a maioria dos adolescentes envolveu-se em vários atos ilícitos para obter a
droga, levando-os a permanecerem detidos por até 60 dias, dependendo do motivo
da prisão.
Os dados do presente estudo não mostraram associação entre sexo e o uso
associado de maconha e crack e isto é coerente com resultados de um estudo
realizado com 105 adolescentes de 10 a 17 anos em tratamento, com o objetivo de
investigar diferenças no padrão de uso de drogas entre adolescentes do sexo
feminino e masculino, em que foi constatada ausência de diferenças
significativas para idade do inicio do uso da droga, procura por atendimento,
substâncias usadas e atos ilegais. Contudo, os adolescentes do sexo masculino
apresentaram maiores problemas com a polícia e atraso escolar(19).
Estudo(20) realizado em Brasília, mostra que entre os fatores associados do
consumo de drogas e atos infracionais estão os seguintes comportamentos: - os
adolescentes cometem delito para usar drogas; - o delito é percebido como
decorrente dos efeitos das drogas; - usam as drogas para cometer delito, devido
às representações sociais e crenças de seus efeitos e usam a droga como
justificativa do ato infracional.
Neste estudo, a não-adesão ao tratamento por parte dos adolescentes e a falta
de suporte familiar para dar continuidade ao tratamento foram alguns dos
agravantes para a interrupção e por vezes a falta de resolutividade do
tratamento, além de fatores ligados ao paciente, como ser adolescente, falta de
motivação, atitudes e crenças em relação ao tratamento. Estas informações são
corrobo-radas com o estudo(21) realizado sobre a opinião de profissionais da
saúde quanto às dificuldades de adesão ao tratamento de dependentes químicos
adolescentes e, de acordo com estes profissionais o papel da família foi
percebido como determinante do uso de substâncias e do prognóstico com
tratamento além da adolescência ser vista como um período de conflitos internos
e interpessoais.
Um estudo(22) realizado com estudantes do ensino médio das escolas do município
de Palhoça-SC, com o objetivo de conhecer a prevalência do uso de drogas,
constatou que o álcool (91,9%) e o tabaco (42,5%) foram as drogas mais
utilizadas pelos estudantes. Com relação à procura de algum tipo de serviço de
saúde devido ao uso de drogas os dados mostraram que 1,0% deles já haviam
procurado atendimento em grupo de auto-ajuda, mas 0,7%, não continuou o
tratamento. A procura de um serviço de emergência foi citada por 0,9% dos
pesquisados e, finalmente sobre a necessidade de internação apenas 0,2%
informaram que já estiveram internados.
Apesar de não dispormos de definições claras quanto à forma ou determinação no
desenvolvimento de dependências de aspectos ligados à família, escola, grupos
de companheiros, condição sócio-econômica e outros fatores ambientais, ou seja,
se estes fatores encontram-se a gênese deste desenvolvimento ou dentre as
conseqüências e custos do abuso de drogas, os achados deste estudo mais uma vez
confirmam que estes fatores são indiscutivelmente associados.
CONCLUSÃO
A despeito de algumas limitações do estudo, como por exemplo o fato dos dados
terem sido coletados em um único hospital geral e portanto as conclusões se
restringirem a uma população específica de adolescentes internados neste
hospital; a não consideração das variáveis protetoras, as quais têm um papel
importante sobre o uso de drogas e recaídas e, por fim, a origem secundária dos
dados, que pode estar sujeita a falhas nas anotações e ausência de informações;
consideramos que os resultados encontrados são relevantes à medida em que
apontam características importantes relacionadas com o uso e o abuso de drogas
e ainda suscita a necessidade de abordagem do fenômeno com outros recortes
metodológicos, ainda que no mesmo ou em outros cenários.
Sem dúvida, a identificação dos fatores que levam ao consumo abusivo, ou seja,
o acesso fácil, o abandono escolar, o uso de drogas na família, a falta de
motivação para o tratamento, podem contribuir para a formulação de estratégias
com vistas à prevenção do consumo, recaídas e intervenções com chance de
sucesso, na medida em que caracterizam àqueles adolescentes mais vulneráveis e
as situações que contribuem para a não adesão ao tratamento e o seu consequente
fracasso.
Contudo, não se pode deixar de considerar que é ampla a variedade de problemas
associados ao uso de drogas, principalmente, por se tratar de uma condição
clínica multifatorial, que tem produzido problemas sociais e de saúde em todo
mundo, envolvendo características biopsicossociais e, sobretudo por sua
crescente prevalência.
Desta forma, acredita-se que as informações disponibilizadas a partir da
realização do presente estudo, poderão subsidiar a atuação dos profissionais de
saúde e em especial do enfermeiro junto a outros jovens que enfrentam a mesma
problemática. O enfermeiro, que tem como foco de seu trabalho o cuidado nos
diferentes ciclos da vida, tem um compromisso intransferível com a assistência
destes jovens, pois é o profissional mais disponível, - aqui entendido como
disposto a acolher os que procuram alguma forma de assistência/apoio na porta
de entrada do sistema de saúde-, e também é o que está mais presente nos
serviços hospitalares.
Os resultados encontrados, portanto, possibilitarão aos profissionais, abordar
e discutir esta temática e consequentemente intervir de forma mais eficaz em
diferentes cenários, resultando em uma assistência mais próxima da realidade e
necessidades de jovens em situações de uso e abuso de drogas, uma assistência
para além das questões individuais, pois conforme mostra os dados, muitas vezes
o início e a permanência do uso de drogas de abuso ocorre dentro de casa, ou
seja no seio familiar.