Comunicação terapêutica no cuidado pré-operatório de mastectomia
INTRODUÇÃO
Atualmente, aos avanços científicos e técnicos na área da mastologia permitem
melhorar os índices de cura de mulheres acometidas pelo câncer de mama,
contribuindo para o aumento gradativo da expectativa de vida dessas mulheres.
No entanto, concomitantemente a este desenvolvimento, nos deparamos com número
significativo de mulheres acometidas com esta neoplasia, em fase avançada,
carecendo de hospitalização e cirurgia, na qual, para a grande maioria, é
mutiladora.
A necessidade da hospitalização e o diagnóstico não esperado de câncer de mama
ocasionam desestabilidades físicas, emocionais, sociais e espirituais(1-4).
Uma vez enferma, a mulher com câncer de mama começa a vivenciar uma situação
indesejável, e para a qual, geralmente, jamais estará preparada: vê ocorrer
gradativamente a perda de suas possibilidades como pessoa produtiva,
particularmente, em relação ao seu papel de mãe, esposa e mulher. Neste
contexto, percebe-se dentre os efeitos psicológicos a não aceitação do
diagnóstico.
A mulher portadora de câncer de mama traspassa por seis lutos: a existência da
possibilidade de ter câncer; o diagnóstico; o tratamento cirúrgico; a perda da
imagem corporal; as limitações em decorrência da cirurgia e os tratamentos
neoadjuvantes(5-7).
Ao longo da prática acadêmico-profissional, percebeu-se que no primeiro
momento, o luto via tratamento cirúrgico é reconfortante, ante a sensação de
alívio de ter sobrevivido à cirurgia e a esperança de estar curada. Em seguida,
ele é acompanhado de enfrentamento, de desconfortos pré-operatórios,
principalmente no referente à própria incisão e à presença de drenos,
denunciando a necessidade de cuidados de enfermagem.
Estudos realizados reconhecem que o cuidado de enfermagem a mulher no período
pré-operatório não abrange somente o atendimento das necessidades fisiológicas,
mas envolve os valores pessoais e o modo como ela se sente como mulher
portadora de um câncer de mama, os quais refletem, sobretudo em seu pós-
operatório(6-8).
Como evidenciado, a literatura é abundante em estudos sobre os aspectos
psicológicos presentes no câncer de mama(9-11), mas insuficiente sobre os
cuidados de enfermagem envolvendo a fase cirúrgica neste tipo de câncer
(6,8,12).
A par dessa realidade, compreende-se a possibilidade de relatar a prática no
cuidado pré-operatório à mulher com câncer de mama, cujo cuidado é estabelecido
com um envolvimento recíproco, no sentido de restabelecer a saúde sob a ótica
da mulher.
Diante dessas considerações, é conduzida a reflexão contida neste artigo que
objetiva refletir acerca do cuidado pré-operatório da mulher portadora de
câncer de mama, baseada na comunicação terapêutica como referência do cuidar
pelo(a) enfermeiro(a) atuante na área oncológica.
COMUNICAÇÃO TERAPÊUTICA NO CUIDADO PRÉ-OPERATÓRIO DE MASTECTOMIA
O estudo foi realizado em um hospital filantrópico de referência em oncologia,
do estado do Ceará, Brasil. Esta instituição constitui um hospital de
assistência terciária, fundado em 1944, como entidade filantrópica. Tem como
missão básica: prevenir, diagnosticar e tratar o câncer, de forma efetiva,
eficiente e humanizada. Conta atualmente com 140 leitos distribuídos entre as
clínicas: médica e cirúrgica. Em sua maioria, os atendimentos são prestados
pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas o hospital também atende a convênios e
particulares, com predomínio na atenção às doenças crônico-degenerativas, em
especial o câncer, e vem se destacando como um dos centros de referência para o
diagnóstico e tratamento de pacientes oncológicos.
Os clientes têm acesso aos serviços assistenciais, tais como: centro de
diagnóstico por imagem; quimioterapia; radioterapia; centro-cirúrgico; sala de
recuperação anestésica; unidade de terapia intensiva; banco de sangue;
laboratório de anatomia patológica; imunohistoquímica e análises clínicas;
unidades de internação (apartamentos e enfermarias) e oncologia pediátrica com
todos os demais serviços direcionados à criança. Além disso, o hospital
disponibiliza de consultórios médicos, atendimento psicológico, assistência
social, setor de registro de câncer, biblioteca, setor de expurgo, central de
material, velório, farmácia e lanchonete, dentre outros setores de grande
importância.
O(a) enfermeiro(a) é presença indispensável na equipe multiprofissional, por
estabelecer com a mulher acometida pelo câncer de mama uma comunicação
terapêutica que proporciona cuidado de enfermagem que, por sua vez, atende às
expectativas e necessidades da mulher, assegurando conforto físico, emocional e
espiritual.
A comunicação terapêutica é a utilização da competência interpessoal, com
vistas a atender às necessidades do paciente em todas as suas dimensões,
considerando a sua cultura, o ambiente e o seu ser. É a habilidade do
profissional em usar o seu conhecimento sobre comunicação, estabelecendo uma
relação efetiva e consciente com o paciente, de modo a ajudá-lo a enfrentar a
tensão temporária, a conviver com outras pessoas, a ajustar-se ao que não pode
ser mudado, a superar os bloqueios à autorealização(13).
Por meio das trocas materiais e afetivas, cria-se uma rede de negociação, a
qual aumenta a participação da mulher e a compreensão desta sobre a conquista
de sua reabilitação psicossocial.
Contudo, a vulnerabilidade do estresse emocional, no pré-operatório, é sintoma
de alta incidência na mulher portadora de câncer de mama. Os quadros ansiosos
aparecem em consequência do próprio diagnóstico ou imediatamente após a
cirurgia mutiladora(5).
Diante desses casos, a fonte de apoio estabelecida pela comunicação terapêutica
torna-se peça imprescindível, bem como o apoio em Deus, na família e na equipe
multiprofissional, conforme experiência com mulheres com diagnóstico de câncer
de mama.
Logo, o(a) enfermeiro(a) responsável pelo cuidado pré-operatório da mulher com
câncer de mama na unidade de internação e, principalmente, daquela que precisa
se submeter à cirurgia, devendo ser planejado e estabelecido metas em face dos
seguintes desconfortos: reações emocionais relacionadas ao diagnóstico de
câncer; déficit de conhecimento sobre o câncer de mama e opções de tratamento;
medo relacionado aos tratamentos específicos; alterações da imagem corporal ou
possível morte; aceitação ineficaz (individual e/ familiar) do diagnóstico; dor
e desconforto pós-operatório.
Planejar o cuidado a partir da existência desse conjunto de preocupações e
desconfortos é o primeiro passo para se estabelecer a interação, possibilitando
o desenvolvimento e a sustentação do que se julga ser comunicação terapêutica.
Pois, somente existe a comunicação terapêutica porque existe a interação, que
envolve troca, colaboração e compartilhamento de informações expelidas e
recebidas entre os sujeitos envolvidos no cuidado (paciente x enfermeiro).
Nesta relação de ajuda, o (a) enfermeiro (a) e a paciente crescem e se
fortalecem em aprendizado mútuo.
A comunicação terapêutica estimula a paciente a aprender, entender e a buscar a
resolução para os seus desconfortos, mediante a construção e reestruturação de
informações estimuladas pela interação. Por meio dela, o(a) enfermeiro(a)
compreende a paciente e a maneira como ela enxerga, sente e percebe e age no
mundo. A partir desta compreensão, o(a) enfermeiro(a) poderá identificar os
problemas da paciente e o significado que esta lhes atribui, e dessa forma
estabelecer uma comunicação para uma ação terapêutica(14).
Por conseguinte, a meta do(a) enfermeiro(a) na fase pré-operatória deverá ser
amenizar os desconfortos, implementando medidas que reduzam o medo e ansiedade
pré e pós-operatória para abrandar a capacidade de enfrentamento, promovendo a
capacidade de tomar decisões, a fim de estabelecer um tratamento fisiológico
com vistas ao alívio da dor e à prevenção de complicações, além de melhorar o
autoconceito.
Portanto, acredita-se que a comunicação terapêutica propiciará o
estabelecimento de intervenções significantes/significativas na compreensão e
no enfrentamento, pela mulher, das diferentes fases do processo de tratamento e
de novas ordenações para a sua vida.
As mulheres, ao reconhecerem a preocupação consigo mesmas, buscam soluções para
melhorar o seu estado de saúde. Corroboramos essas opiniões, pois o convívio
com estas mulheres possibilitou acompanhar a evolução desse processo(12).
Dessa forma, o processo do adoecer é um momento de auto-organização, sobretudo,
por envolver uma experiência de desordem. Tal experiência adquire um sentido
específico no momento existencial dessa mulher, com significados que os
sintomas, as experiências com o tratamento e as relações passam a ter no
contexto de sua vida.
Partindo-se dessa premissa, se existir a comunicação terapêutica, instrumento
essencial do cuidado de enfermagem(15), há o envolvimento do comportamento
recíproco. Com isto, observa-se também que o pós-operatório será menos
estressante em virtude do estabelecimento da interação enfermeira-mulher,
interação esta que induz a mulher a mencionar os desconfortos de menor a maior
intensidade. Assim, se estabelecerá o já mencionado efeito da comunicação
terapêutica.
É importante também ressaltar que a quantidade e a regulação temporal das
informações transmitidas têm contribuído para um pós-operatório menos
estressante, em que a mulher otimiza a capacidade de enfrentamento e inicia o
autocuidado. A satisfação em relação ao resultado é evidente no cuidado com a
ferida operatória (integridade cutânea); no manuseio do dreno de portvac, alvo
de muita apreensão; nos exercícios com o braço afetado, orientação
fisioterápica; e no alívio e o desconforto da dor.
Nessa perspectiva, o diálogo permite que o cliente expresse suas ideias e
opiniões, ao mesmo tempo em que estabelece com a equipe de enfermagem uma
relação que implica em uma resposta humana positiva, ou seja, em um cuidado
participativo e humanizante(16-18).
A proximidade com esta mulher mediante cuidado de enfermagem envolvendo a
comunicação terapêutica, favore a capacidade de enfrentamento, a promoção e a
participação nos cuidados de forma compartilhada. Portanto, permite o preparo
para a alta e o estabelecimento, principalmente do cuidado continuado com a
perspectiva de adesão da mulher ao acompanhamento multiprofissional.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A proposta de comunicação terapêutica aqui discutida permite romper com o
paradigma tradicional da intervenção de enfermagem e internação hospitalar, que
se mostram promotores de exclusão da paciente na participação da organização do
autocuidado.
A equipe de enfermagem exerce papel fundamental no processo de recuperação da
mulher mastectomizada, uma vez que esta promove suporte emocional e informativo
sobre os cuidados necessários à reabilitação pós-mastectomia, além de
proporcionar tranquilidade e conforto perante os sentimentos e as expectativas.
Cabe, ainda, ao(à) enfermeiro(a) orientar para a alta e direcionar a mulher
para o autocuidado e para grupos que promovam a reintegração à sociedade e a
seu cotidiano familiar.
Com reforço neste estudo, considera-se necessário agregar a experiência das
autoras a de outros(as) enfermeiros(as) que prestam cuidado de enfermagem à
mulher com câncer nas unidades de internação.
Essa estratégia se apresenta como um modelo de transformação no planejamento de
cuidado, significando a garantia de conquistas para a mulher que vivencia o pré
e pós-operatório de câncer de mama. Conquistas voltadas a uma concepção
positiva do restabelecimento da saúde com qualidade, revelando-se parceria
bastante positiva entre enfermeiros (as) e mulher com câncer de mama.