TEITOK@C-I   |   Corpora@C-I   |   CELGA-ILTEC   |   Contacto

EN | PT

Text view

BrBRCVHe0034-71672010000400027

National varietyBr
Year2010
SourceScielo

Javascript seems to be turned off, or there was a communication error. Turn on Javascript for more display options.

Comunicação terapêutica no cuidado pré-operatório de mastectomia

INTRODUÇÃO Atualmente, aos avanços científicos e técnicos na área da mastologia permitem melhorar os índices de cura de mulheres acometidas pelo câncer de mama, contribuindo para o aumento gradativo da expectativa de vida dessas mulheres.

No entanto, concomitantemente a este desenvolvimento, nos deparamos com número significativo de mulheres acometidas com esta neoplasia, em fase avançada, carecendo de hospitalização e cirurgia, na qual, para a grande maioria, é mutiladora.

A necessidade da hospitalização e o diagnóstico não esperado de câncer de mama ocasionam desestabilidades físicas, emocionais, sociais e espirituais(1-4).

Uma vez enferma, a mulher com câncer de mama começa a vivenciar uma situação indesejável, e para a qual, geralmente, jamais estará preparada: ocorrer gradativamente a perda de suas possibilidades como pessoa produtiva, particularmente, em relação ao seu papel de mãe, esposa e mulher. Neste contexto, percebe-se dentre os efeitos psicológicos a não aceitação do diagnóstico.

A mulher portadora de câncer de mama traspassa por seis lutos: a existência da possibilidade de ter câncer; o diagnóstico; o tratamento cirúrgico; a perda da imagem corporal; as limitações em decorrência da cirurgia e os tratamentos neoadjuvantes(5-7).

Ao longo da prática acadêmico-profissional, percebeu-se que no primeiro momento, o luto via tratamento cirúrgico é reconfortante, ante a sensação de alívio de ter sobrevivido à cirurgia e a esperança de estar curada. Em seguida, ele é acompanhado de enfrentamento, de desconfortos pré-operatórios, principalmente no referente à própria incisão e à presença de drenos, denunciando a necessidade de cuidados de enfermagem.

Estudos realizados reconhecem que o cuidado de enfermagem a mulher no período pré-operatório não abrange somente o atendimento das necessidades fisiológicas, mas envolve os valores pessoais e o modo como ela se sente como mulher portadora de um câncer de mama, os quais refletem, sobretudo em seu pós- operatório(6-8).

Como evidenciado, a literatura é abundante em estudos sobre os aspectos psicológicos presentes no câncer de mama(9-11), mas insuficiente sobre os cuidados de enfermagem envolvendo a fase cirúrgica neste tipo de câncer (6,8,12).

A par dessa realidade, compreende-se a possibilidade de relatar a prática no cuidado pré-operatório à mulher com câncer de mama, cujo cuidado é estabelecido com um envolvimento recíproco, no sentido de restabelecer a saúde sob a ótica da mulher.

Diante dessas considerações, é conduzida a reflexão contida neste artigo que objetiva refletir acerca do cuidado pré-operatório da mulher portadora de câncer de mama, baseada na comunicação terapêutica como referência do cuidar pelo(a) enfermeiro(a) atuante na área oncológica.

COMUNICAÇÃO TERAPÊUTICA NO CUIDADO PRÉ-OPERATÓRIO DE MASTECTOMIA O estudo foi realizado em um hospital filantrópico de referência em oncologia, do estado do Ceará, Brasil. Esta instituição constitui um hospital de assistência terciária, fundado em 1944, como entidade filantrópica. Tem como missão básica: prevenir, diagnosticar e tratar o câncer, de forma efetiva, eficiente e humanizada. Conta atualmente com 140 leitos distribuídos entre as clínicas: médica e cirúrgica. Em sua maioria, os atendimentos são prestados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas o hospital também atende a convênios e particulares, com predomínio na atenção às doenças crônico-degenerativas, em especial o câncer, e vem se destacando como um dos centros de referência para o diagnóstico e tratamento de pacientes oncológicos.

Os clientes têm acesso aos serviços assistenciais, tais como: centro de diagnóstico por imagem; quimioterapia; radioterapia; centro-cirúrgico; sala de recuperação anestésica; unidade de terapia intensiva; banco de sangue; laboratório de anatomia patológica; imunohistoquímica e análises clínicas; unidades de internação (apartamentos e enfermarias) e oncologia pediátrica com todos os demais serviços direcionados à criança. Além disso, o hospital disponibiliza de consultórios médicos, atendimento psicológico, assistência social, setor de registro de câncer, biblioteca, setor de expurgo, central de material, velório, farmácia e lanchonete, dentre outros setores de grande importância.

O(a) enfermeiro(a) é presença indispensável na equipe multiprofissional, por estabelecer com a mulher acometida pelo câncer de mama uma comunicação terapêutica que proporciona cuidado de enfermagem que, por sua vez, atende às expectativas e necessidades da mulher, assegurando conforto físico, emocional e espiritual.

A comunicação terapêutica é a utilização da competência interpessoal, com vistas a atender às necessidades do paciente em todas as suas dimensões, considerando a sua cultura, o ambiente e o seu ser. É a habilidade do profissional em usar o seu conhecimento sobre comunicação, estabelecendo uma relação efetiva e consciente com o paciente, de modo a ajudá-lo a enfrentar a tensão temporária, a conviver com outras pessoas, a ajustar-se ao que não pode ser mudado, a superar os bloqueios à autorealização(13).

Por meio das trocas materiais e afetivas, cria-se uma rede de negociação, a qual aumenta a participação da mulher e a compreensão desta sobre a conquista de sua reabilitação psicossocial.

Contudo, a vulnerabilidade do estresse emocional, no pré-operatório, é sintoma de alta incidência na mulher portadora de câncer de mama. Os quadros ansiosos aparecem em consequência do próprio diagnóstico ou imediatamente após a cirurgia mutiladora(5).

Diante desses casos, a fonte de apoio estabelecida pela comunicação terapêutica torna-se peça imprescindível, bem como o apoio em Deus, na família e na equipe multiprofissional, conforme experiência com mulheres com diagnóstico de câncer de mama.

Logo, o(a) enfermeiro(a) responsável pelo cuidado pré-operatório da mulher com câncer de mama na unidade de internação e, principalmente, daquela que precisa se submeter à cirurgia, devendo ser planejado e estabelecido metas em face dos seguintes desconfortos: reações emocionais relacionadas ao diagnóstico de câncer; déficit de conhecimento sobre o câncer de mama e opções de tratamento; medo relacionado aos tratamentos específicos; alterações da imagem corporal ou possível morte; aceitação ineficaz (individual e/ familiar) do diagnóstico; dor e desconforto pós-operatório.

Planejar o cuidado a partir da existência desse conjunto de preocupações e desconfortos é o primeiro passo para se estabelecer a interação, possibilitando o desenvolvimento e a sustentação do que se julga ser comunicação terapêutica.

Pois, somente existe a comunicação terapêutica porque existe a interação, que envolve troca, colaboração e compartilhamento de informações expelidas e recebidas entre os sujeitos envolvidos no cuidado (paciente x enfermeiro).

Nesta relação de ajuda, o (a) enfermeiro (a) e a paciente crescem e se fortalecem em aprendizado mútuo.

A comunicação terapêutica estimula a paciente a aprender, entender e a buscar a resolução para os seus desconfortos, mediante a construção e reestruturação de informações estimuladas pela interação. Por meio dela, o(a) enfermeiro(a) compreende a paciente e a maneira como ela enxerga, sente e percebe e age no mundo. A partir desta compreensão, o(a) enfermeiro(a) poderá identificar os problemas da paciente e o significado que esta lhes atribui, e dessa forma estabelecer uma comunicação para uma ação terapêutica(14).

Por conseguinte, a meta do(a) enfermeiro(a) na fase pré-operatória deverá ser amenizar os desconfortos, implementando medidas que reduzam o medo e ansiedade pré e pós-operatória para abrandar a capacidade de enfrentamento, promovendo a capacidade de tomar decisões, a fim de estabelecer um tratamento fisiológico com vistas ao alívio da dor e à prevenção de complicações, além de melhorar o autoconceito.

Portanto, acredita-se que a comunicação terapêutica propiciará o estabelecimento de intervenções significantes/significativas na compreensão e no enfrentamento, pela mulher, das diferentes fases do processo de tratamento e de novas ordenações para a sua vida.

As mulheres, ao reconhecerem a preocupação consigo mesmas, buscam soluções para melhorar o seu estado de saúde. Corroboramos essas opiniões, pois o convívio com estas mulheres possibilitou acompanhar a evolução desse processo(12).

Dessa forma, o processo do adoecer é um momento de auto-organização, sobretudo, por envolver uma experiência de desordem. Tal experiência adquire um sentido específico no momento existencial dessa mulher, com significados que os sintomas, as experiências com o tratamento e as relações passam a ter no contexto de sua vida.

Partindo-se dessa premissa, se existir a comunicação terapêutica, instrumento essencial do cuidado de enfermagem(15), o envolvimento do comportamento recíproco. Com isto, observa-se também que o pós-operatório será menos estressante em virtude do estabelecimento da interação enfermeira-mulher, interação esta que induz a mulher a mencionar os desconfortos de menor a maior intensidade. Assim, se estabelecerá o mencionado efeito da comunicação terapêutica.

É importante também ressaltar que a quantidade e a regulação temporal das informações transmitidas têm contribuído para um pós-operatório menos estressante, em que a mulher otimiza a capacidade de enfrentamento e inicia o autocuidado. A satisfação em relação ao resultado é evidente no cuidado com a ferida operatória (integridade cutânea); no manuseio do dreno de portvac, alvo de muita apreensão; nos exercícios com o braço afetado, orientação fisioterápica; e no alívio e o desconforto da dor.

Nessa perspectiva, o diálogo permite que o cliente expresse suas ideias e opiniões, ao mesmo tempo em que estabelece com a equipe de enfermagem uma relação que implica em uma resposta humana positiva, ou seja, em um cuidado participativo e humanizante(16-18).

A proximidade com esta mulher mediante cuidado de enfermagem envolvendo a comunicação terapêutica, favore a capacidade de enfrentamento, a promoção e a participação nos cuidados de forma compartilhada. Portanto, permite o preparo para a alta e o estabelecimento, principalmente do cuidado continuado com a perspectiva de adesão da mulher ao acompanhamento multiprofissional.

CONSIDERAÇÕES FINAIS A proposta de comunicação terapêutica aqui discutida permite romper com o paradigma tradicional da intervenção de enfermagem e internação hospitalar, que se mostram promotores de exclusão da paciente na participação da organização do autocuidado.

A equipe de enfermagem exerce papel fundamental no processo de recuperação da mulher mastectomizada, uma vez que esta promove suporte emocional e informativo sobre os cuidados necessários à reabilitação pós-mastectomia, além de proporcionar tranquilidade e conforto perante os sentimentos e as expectativas.

Cabe, ainda, ao(à) enfermeiro(a) orientar para a alta e direcionar a mulher para o autocuidado e para grupos que promovam a reintegração à sociedade e a seu cotidiano familiar.

Com reforço neste estudo, considera-se necessário agregar a experiência das autoras a de outros(as) enfermeiros(as) que prestam cuidado de enfermagem à mulher com câncer nas unidades de internação.

Essa estratégia se apresenta como um modelo de transformação no planejamento de cuidado, significando a garantia de conquistas para a mulher que vivencia o pré e pós-operatório de câncer de mama. Conquistas voltadas a uma concepção positiva do restabelecimento da saúde com qualidade, revelando-se parceria bastante positiva entre enfermeiros (as) e mulher com câncer de mama.


Download text