Compreendendo as intenções das ações de um corpo docente multiprofissional em
um curso de graduação em enfermagem
INTRODUÇÃO
Pensar em docência no ensino superior nos reporta a rever conceitos sobre a
educação e os papéis dos sujeitos envolvidos neste processo de ensinar e
aprender.
Educação significa um movimento de transformação interna daquele que passa de
um suposto saber (ou da ignorância) ao saber propriamente dito (ou à
compreensão de si, dos outros, da realidade, da cultura acumulada no seu
presente ou se fazendo)(1).
Desta forma, a educação tem o papel de contribuir para que educadores e
educandos transformem suas vidas em processos permanentes de aprendizagem. É
ajudar os educandos na construção de sua identidade, do seu caminho pessoal e
profissional de seu projeto de vida, no desenvolvimento das habilidades de
compreensão, emoção, e comunicação que lhes permitam encontrar seus espaços
pessoais, sociais e profissionais e tornar-se cidadãos realizados e produtivos
(2).
Portanto, preparar o novo homem do milênio que inicia é pensar a Educação de
uma nova forma, é vê-la com um novo olhar. É perceber e acreditar na
possibilidade de transformar informações em conhecimento, sendo este um
elemento imprescindível para quem deseja encontrar as melhores soluções para os
desafios do mundo moderno(3).
Em relação ao ensino da Enfermagem, o Parecer nº NE/CES 1.133/2001 do
Ministério da Educação e do Conselho Nacional de Educação salienta que um dos
princípios das Diretrizes Curriculares é incentivar uma sólida formação geral,
necessária para que o futuro graduado possa vir a superar os desafios de
renovadas condições de exercício profissional e de produção de conhecimento,
permitindo variados tipos de formação e habilitações diferenciadas em um mesmo
programa; estimular práticas de estudo independente, visando uma progressiva
autonomia intelectual e profissional; encorajar o reconhecimento de habilidades
e competências adquiridas fora do ambiente escolar; fortalecer a articulação da
teoria com a prática(4).
As Diretrizes curriculares nacionais do Curso de Graduação em Enfermagem traçam
o perfil do formando egresso/profissional: Enfermeiro, com formação
generalista, humanista, crítica e reflexiva. Profissional qualificado para o
exercício de Enfermagem, com base no rigor científico e intelectual e pautado
em princípios éticos. Capaz de reconhecer e intervir sobre os problemas/
situações de saúde-doença mais prevalentes no perfil epidemiológico nacional,
com ênfase na sua região de atuação, identificando as dimensões bio-psico-
sociais dos seus determinantes. Capacitado a atuar, com senso de
responsabilidade social e compromisso com a cidadania, como promotor da saúde
integral do ser humano(4).
Sendo este o perfil esperado dos graduandos em Enfermagem, é necessário que
haja uma reflexão contínua, por parte dos docentes, de sua prática, com a
intenção de analisar se esta tem vindo ao encontro das renovações em andamento
no sistema educativo e sobre o que realmente esperam para seus alunos.
Assim, ao refletir sobre o cenário em que atuava como docente, um Curso de
Enfermagem de uma universidade privada de São Paulo, pude identificar que os
docentes enfermeiros e de outras áreas de formação possuíam uma diversificada
trajetória na área do ensino. Havia desde iniciantes até professores com 25
anos de experiência na área da docência. Apesar dessa heterogeneidade, a
própria prática os levava a discutir questões relativas a conteúdos,
estratégias, formas mais adequadas de avaliação, relação professor-aluno
compartilhando assim questões do cotidiano da sala de aula, dos laboratórios
clínicos e dos campos de estágio.
Neste cenário social, tive condições de vivenciar e refletir sobre as intenções
e as próprias ações docentes, surgindo então algumas inquietações: Pelo fato de
os docentes enfermeiros e os de outras áreas da saúde possuírem formações
diferentes, teriam eles a mesma reciprocidade na forma de agir? E quanto a seus
projetos? Teriam a mesma intencionalidade? Existe uma relação de
intersubjetividade entre esses sujeitos? Esses indivíduos agem de maneiras
semelhantes enquanto docentes?
Neste sentido, este estudo teve por objetivo compreender as intenções das ações
dos docentes enfermeiros e docentes de outras áreas da saúde de um curso de
graduação em enfermagem. Esta compreensão se faz necessário para analisarmos se
estas, tem sido coerentes com seu fazer docente e se estão em sintonia com o
projeto político pedagógico do curso e com a filosofia da universidade que
trabalham.
REFERENCIAL TEÓRICO
Devido à natureza das inquietações, a metodologia adotada foi a pesquisa
qualitativa por compreender uma abordagem de pesquisa que enfatiza a
importância de se conhecer, compreender e interpretar a natureza das situações
e eventos quer sejam eles, passados ou presentes(5).
Dentre os diferentes métodos de pesquisa qualitativa existentes, a
fenomenologia foi escolhida devido à congruência entre seus pressupostos e o
fenômeno a ser desvelado neste estudo. Nesta modalidade o pesquisador interroga
como é o fenômeno para seus sujeitos partindo do seu próprio mundo-vida. Então,
reflete acerca do sentido que esse fenômeno tem para si mesmo e para aqueles
com quem compartilha o mundo vivido(6).
Ao buscar um referencial filosófico na fenomenologia que me propiciasse
compreender a dimensão social dos sujeitos deste estudo e sua relação com a
própria prática docente, pude encontrar no filósofo Alfred Schütz o alicerce
que viria a sustentar minhas inquietações. Esse referencial permite uma
significação particular do vivido pelos próprios sujeitos que vivenciam o
fenômeno em sua realidade social. A fenomenologia social de Alfred Schütz tem a
intenção de compreender o mundo com os outros em seu significado
intersubjetivo. A estrutura desses significados acontece na vivência
intersubjetiva das relações sociais.
Schütz tem como proposta analisar as relações sociais tendo características
particulares, onde as ações ocorrem de maneira consciente tendo um significado
os sujeitos desse processo(7). Precisamos direcionar nosso olhar a partir do
vivido dos sujeitos em seu cotidiano, pois são elas, enquanto pessoas que
atuam, interagem e se compreendem dentro do chamado mundo social, que
possibilitam o desenvolvimento do fenômeno, o conhecimento de sua existência
transcendente a partir de uma perspectiva de ser-no-mundo(8).
Cabe destacar que todas as nossas ações nos levam aos motivos para os quais
estamos direcionados para o outro, visando algo e os motivos porque fomos
levados a esse tipo de ação.
Desta forma, a ação social pode ser interpretada como "uma conduta dirigida à
realização de um determinado fim e que esta ação motivo para só pode ser
interpretada pela subjetividade do ator, pois somente a própria pessoa pode
definir seu projeto de ação, seu desempenho social(7).
A ação social nunca aparece isolada e tem sempre uma intencionalidade podendo
ser interpretada como um motivo para que só encontra significado na
subjetividade do ator. Este tipo de motivo refere-se ao futuro, algo que se
pretende realizar enquanto que os motivos por que são oriundos das experiências
já vivenciadas, representando as razões dos sujeitos em executar uma
determinada ação, representa uma explicação posterior ao acontecimento, ao
passado(9).
Nessa perspectiva, a ação social se dá na intersubjetividade do mundo comum,
sustentada pela reciprocidade dos motivos, originando uma tipicidade de ações
determinadas socialmente e aceitas pelos atores oriundas de costumes, hábitos,
regras, crenças em determinadas situações típicas(10). Ressaltamos que é por
meio da intersubjetividade é que se torna possível assimilar as experiências
humanas, resultando na tipificação do senso comum.
Diante dessas considerações apresentadas sobre os conceitos de Schütz, pretendo
chegar à compreensão da significação da intenção da ação social dos docentes
enfermeiros e docentes de outras áreas da saúde de um Curso de Graduação em
Enfermagem, buscando os motivos para, ou seja, suas intenções.
MÉTODO
Na intenção de compreender os motivos para em suas trajetórias, constituiu-se
de interesse para esse estudo o mundo social vivido dos docentes enfermeiros e
de outras áreas da saúde de um curso de graduação em Enfermagem de uma
universidade privada da cidade de São Paulo. Esta escolha deve-se ao fato
destes sujeitos vivenciarem o objeto de minhas inquietações.
Pela natureza da pesquisa, não foi delimitado com antecedência o número de
participantes. Foram entrevistados quatro docentes enfermeiros e quatro
docentes de outras áreas da saúde (um dentista, um biólogo, um nutricionista e
um médico-veterinário) que foram capazes de atribuir significações às suas
experiências vividas no Curso de Enfermagem. Este número de sujeitos foi
delimitado quando o conteúdo de suas falas foram significativos para responder
minhas inquietações, vindo ao encontro do descortinamento do fenômeno.
Buscando atender os preceitos éticos, preconizados pela Resolução 196/96 do
Conselho Nacional de Saúde quando se trata de pesquisas que envolvam seres
humanos, encaminhei uma carta de solicitação de coleta de dados ao Sub-Comitê
de Ética em Pesquisa da instituição, onde este estudo foi realizado. O estudo
foi aprovado em 10 de setembro de 2004 e mediante esta autorização, convidei
todos os docentes do Curso de Enfermagem a participarem da pesquisa por meio
eletrônico (e-mail) através de uma listagem dos endereços eletrônicos
solicitada na secretaria do curso, entrevistando os primeiros que se
disponibilizaram.
As entrevistas aconteceram em locais e horários de escolha dos entrevistados,
ao quais foram informados, antes de iniciar a entrevista sobre o objetivo da
pesquisa, assegurando-lhes a garantia do anonimato e a liberdade em participar
ou não do estudo, sem que isso pudesse causar-lhe prejuízo de qualquer
natureza. Foi ofereci-do o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e após a
concordância em participar do estudo a entrevista foi iniciada utilizando a
seguinte questão norteadora: O que você espera com suas ações docentes neste
Curso de Enfermagem?
Os relatos foram colhidos através de gravação dos depoimentos e,
posteriormente, transcritos na íntegra pela pesquisadora do estudo. O propósito
foi apreender o significado dos discursos dentro da vivência global de cada um
dos entrevistados e identificar as unidades de significados.
Tendo em vista a preservação do anonimato conforme lhes foi garantido, optei
por denominá-los por nome de frutas do Brasil. A coleta de dados aconteceu no
período de 04 a 22 de outubro de 2004. Foram utilizados os pressupostos da
fenomenologia, e como base o referencial filósofo de Alfred Schütz, permitindo
vislumbrar ampliar o horizonte sobre o fenômeno a ser desvelado.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Após a realização de cada entrevista, fiz a transcrição na íntegra de todo o
conteúdo das gravações e a leitura individual de cada discurso com a intenção
me familiarizar com o todo e apreender o sentido global da vivência desses
sujeitos. Para construção das categorias, percorri os seguintes passos: leitura
seqüencial, detalhada e exaustiva de cada discurso procurando identificar
unidades de significado; leitura das unidades de significado agrupando-as por
suas convergências para formar as categorias concretas dos vividos desses
sujeitos; após a construção das categorias, foram identificadas as que
expressavam os motivos para das ações dos docentes do Curso de Enfermagem;
iniciou-se a análise compreensiva das categorias baseada no referencial
filosófico-metodológico de Schütz dos docentes do Curso de Enfermagem(7-8,11).
Análise das Categorias
Com relação a essas categorias, foram identificados, os motivos para, presentes
nos discursos dos docentes os quais apontariam os seus projetos, ou seja, as
ações futuras, as expectativas, os propósitos de cada um, suas intenções.
Emergiram, então, as seguintes categorias: o aluno como futuro profissional, o
crescimento pessoal do aluno, o docente como pesquisador, os conteúdos. Elas
são apresentadas em conjunto, considerando-se a reciprocidade dos dois sujeitos
em seus discursos.
Na categoria o aluno como futuro profissional, os discursos indicam a
preocupação do docente em formar um profissional que, por meio da crítica,
reflita sobre seus saberes, suas atitudes e comportamentos. Deseja poder
auxiliar o aluno, futuro profissional, a perceber e buscar soluções para os
problemas. Tem, igualmente clareza da sua contribuição na formação do
profissional, mesmo este docente não sendo enfermeiro. Acredita que o aluno
deva ter um comportamento ativo em busca da própria aprendizagem para se tornar
um bom profissional. Sua intenção é de que o aluno tenha capacidade de tomar
decisões, que questione sua própria prática mas que também seja tecnicamente
competente. Ainda espera ver um profissional que seja humanizado e com
capacidade de trabalhar em equipe.
... para que eu consiga realmente chegar no que eu entendo que é o
ideal: é você ter um enfermeiro capaz de pensar, alguém que seja
crítico, que seja reflexivo, e criticar não é falar mal; criticar é
você ser capaz de perceber e de dar soluções para os problemas. Jambo
Formar um enfermeiro que como eu gostaria de ter trabalhando comigo.
Assim, bons profissionais, profissionais tecnicamente bons, mas
sempre tendo esse outro lado, o lado humano, o lado de cooperação, o
lado de saber trabalhar em equipe, mas especialmente de serem bons
tecnicamente. Castanha-do-Brasil
É fato notório que jamais, na história da humanidade, o ser humano foi tão
testado e posto à prova como nos dias de hoje. Em plena era de globalização e
da informática, irá ocupar seu espaço na sociedade todo aquele que souber,
exatamente o que deseja alcançar e usar a força de sua inteligência e
capacidade para abrir novos caminhos e chegar aonde deseja.
Nesse panorama, cada vez mais, há uma retórica crescente sobre o papel
fundamental que os professores tem quanto à formação dos novos profissionais e
conseqüentemente quanto à construção da sociedade do futuro, resultando,
portanto, no desempenho do seu novo papel(12). Com relação à necessidade e
importância de vincular a sala de aula ao dia a dia do educador, é preciso um
grande esforço do docente nessa direção, uma vez que a informação isolada não
tem significado algum(13). O docente deve intermediar os processos
constitutivos da cidadania dos alunos. A literatura aponta pouca eficiência à
formação inicial e contínua desses professores e critica-os por não refletirem
sobre a prática docente e pedagógica nos seus contextos(14).
A competência também é um quesito que faz parte do papel do professor, cabendo
ao docente agir com competência, ou seja: saber tomar decisões; fazer escolhas,
julgar, avaliar o que é melhor (em termos de nossas referências ou valores);
correr riscos, utilizar conhecimentos ou informações como elementos importantes
nesse processo; saber argumentar, enfrentar situações-problema, elaborar
propostas, compreender fenômenos; participar, enfim, como sujeito ativo em um
sistema complexo; mobilizar recursos e ativar esquemas (revendo ou atualizando
hábitos) em um contexto de complexidade(15).
Neste sentido, nunca é demais insistir na importância dos requisitos que fazem
parte do papel do professor. Assim, num mundo em transformação, a ascensão
social e econômica é um desafio, sendo indispensável um perfil de eterna
construção e transformação. Some-se a esses requisitos a habilidade de
enfrentar crises e mudanças repentinas, pois acreditamos que o profissional
deste século recém-iniciado precisará inovar sempre acreditando no seu
potencial, fortalecendo seus pontos fracos, usando com maestria suas
habilidades natas.
Faz-se necessário construir uma identidade docente que satisfaça a demanda e as
carências de uma sociedade que exige um profissional cada vez mais qualificado.
É uma construção que precisa ser feita de acordo com seu contexto; para isso,
mobilizar os saberes é, então, o primeiro passo no processo de construção dessa
identidade na sociedade atual(14).
Por conseguinte, é de grande importância a formação inicial voltada para a
aquisição de conhecimentos e habilidades, de atitudes e valores, que permitam a
construção dos "saberes-fazeres" docentes na prática do cotidiano. Investigar a
própria atividade para, a partir dela, transformar os "saberes-fazeres"
docentes, num processo contínuo também de construção de uma nova identidade. Os
saberes da experiência dizem respeito à bagagem que os professores trazem;
envolvem as suas experiências enquanto alunos na visão que tinham sobre seus
docentes. São experiências adquiridas, pelo conceito social, político e
financeiro da profissão docente, por atividades já desenvolvidas em sua
carreira e pela reflexão das suas práticas do cotidiano. Devem ser
considerados, a um só tempo, ponto de partida e ponto de chegada para essa
reflexão e fundamentais na construção do processo identitário do docente(16).
Os saberes do conhecimento são os que permitem a discussão em torno desses
conhecimentos no contexto da contemporaneidade. Eles possibilitam aos alunos o
trabalho com os conhecimentos científicos e tecnológicos, desenvolvendo
habilidades para operá-los, revê-los, confrontá-los e contextualizá-los.
Desse modo, a ênfase deve recair no conhecimento e não apenas na informação. A
esse respeito observa-se que uma concepção de conhecimento supõe, entre outros
fatores, a relação sujeito (aluno) objeto (conteúdo), numa interação dinâmica e
permanente, que se torna mais rica e efetiva de acordo com a atitude de
mediação do professor.
O saber pedagógico abrange o conhecimento aliado à experiência e aos conteúdos
específicos que serão construídos a partir das necessidades pedagógicas reais.
Trata-se do "saber que o professor constrói no cotidiano de seu trabalho e que
fundamenta sua ação docente, ou seja, é o saber que possibilita ao professor
interagir como esclarecem com seus alunos, na sala de aula, no contexto da
escola onde atua(16)".
"Trabalhar o conhecimento na dinâmica da sociedade multimídia, da globalização,
da multiculturalidade, na formação dos alunos, também eles em constante
processo de transformação cultural, de valores, de interesses e necessidades,
requer permanente formação, entendida como ressignificação identitária dos
professores(16)". O processo identitário "se constrói com base nos significados
sociais da profissão, da revisão das tradições, pelo significado que cada
professor como confere à atividade docente em seu cotidiano, por meio da
discussão da questão do conhecimento como ciência e da construção dos saberes
pedagógicos(17)". Resgatar a significação da dimensão técnica e política pela
mediação da perspectiva ética abre a possibilidade de enfocarmos o novo papel
do docente no ensino superior.
Não se forma um profissional reflexivo impondo-lhe condições ortodoxas de dar
aula, e a formação do professor ainda está em busca de seu caminho no contexto
das universidades(17). Portanto, ressignificar a identidade do docente nos
reporta a uma análise que permeia desde a formação desses profissionais até os
saberes necessários à prática pedagógica no mundo moderno. Porém, o progresso
do saber docente só será possível se for realizado de forma simultânea com o
seu desenvolvimento pessoal e com apoio e incentivo institucional. Estas
considerações devem ser refletidas na coletividade do corpo docente, gerando um
conhecimento e um crescimento mútuo entre os pares, possibilitando um avançar
na prática docente. Quanto ao apoio institucional, ele pode ser considerado
como um verdadeiro desafio na construção da docência no ensino superior.
Na categoria "crescimento pessoal do aluno" o docente tem a intenção de
contribuir na formação de um profissional qualificado, não só do ponto de vista
de conhecimentos, mas também que este aluno se torne uma pessoa mais bem
capacitada sob o aspecto intelectual e cultural, e se aprimore nas relações
interpessoais.
Valoriza a busca desses conhecimentos além do espaço universitário, ou seja,
nos livros, na vida e, dessa forma, acredita que esses alunos vislumbrem
maiores dimensões para o futuro da enfermagem. Tem como ponto de partida
compreender as características dos alunos estimulando-os a crescer o mais
rápido possível como profissionais e como pessoas. Especificam o desejo de ter
um aluno-pessoa que "seja inteiro", bem formado, que fale bem, que saiba ler e
que saiba se portar. Quer mostrar para esse aluno a importância de se ter uma
boa postura profissional e ser necessário exercer uma liderança democrática e
participativa frente a sua equipe.
Eu espero do fundo do meu coração que eu tenha contribuído nesses
anos como docente de alguma forma; estar plantando uma semente
intrigante para que esses alunos vão além, que eles vão além da sala
de aula, que eles vão além dos livros, que eles consigam ir além do
intra-muros da classe, da universidade; e que eles consigam perceber
maiores dimensões pro futuro da enfermagem. Isso é realmente o que eu
espero. Cupuaçu
Então, nesse sentido eu faço deles, tento fazer, pretensão a minha
querer fazer, mostrar pra eles a importância de ser um profissional
que seja inteiro, assim uma pessoa culta, uma pessoa que leia, uma
pessoa que fale bem, que se porte bem, que tenha postura, que saiba
chefiar sem ser rude, que saiba liderar um grupo sem ser mandão, sem
ser autoritário. Acho que é isso. Castanha-do-Brasil
Assim, os docentes pesquisados caminham na direção de formar um aluno-
profissional que possa ser competitivo no atual mercado de trabalho, exigente e
competitivo, numa demonstração de quem acredita na valorização de pessoas
possuidoras de atributos humanos tão bem desenvolvidos quanto as qualidades
acadêmicas e profissionais. Procuram explicitar a importância de valores como
respeito e solidariedade contextualizando o ensino no universo dos alunos.
Buscam fazer a docência de forma holística, na tentativa de ajudar esses alunos
a enfrentarem a vida de forma plena e equilibrada.
A reflexão sobre os relatos dos docentes me fizeram perceber que eles descrevem
os conceitos de ação de Alfred Schütz. Para esse filósofo, a ação é vista como
uma conduta sustentada em projetos, naquilo que se pretende alcançar. Ela está
voltada para o futuro; são as intenções dos sujeitos e, por isso, é
interpretada pela subjetividade dos atores.
O modo com que as pessoas ocupam o espaço de suas ações é determinado pela
influência do meio sociocultural no qual estão inseridas. A idealização desses
atos está fundamentada na situação biográfica que é sempre única de cada ator.
Dessa forma, a ação é sempre repleta de intencionalidade; estará direcionada
para a realidade social onde os sujeitos estão transitando.
Para o docente, seu papel de colaborar na formação do aluno como indivíduo faz
parte de suas competências. O que se espera, na era do conhecimento exacerbado
é que aflore um novo aluno, com os seguintes atributos: sujeito da sua própria
formação, autônomo, motivado para aprender, disciplinado, organizado, cidadão
do mundo, solidário e, sobretudo, curioso. Porém, esta é uma receita que nem
sempre vai ao encontro do aluno com quem deparamos no dia-a-dia na sala de
aula.
Na categoria "docente como pesquisador" a valorização da pesquisa científica é
apontada pelo docente quando este espera facilitar para os alunos a compreensão
de todo o processo da pesquisa e da organização de trabalhos científicos.
Destaca a importância do Trabalho de Conclusão de Curso e da Iniciação
Científica como pontos de partida para os níveis mais avançados da pesquisa.
Preocupa-se em despertar no aluno um olhar investigativo no decorrer da sua
vida profissional.
...eu espero facilitar todo esse processo da pesquisa e da montagem
do trabalho e que ..., claro, isso tenha algum significado para ele
depois porque o Trabalho de Conclusão de Curso é um pouco um mestrado
engatinhando; você vai começar a se especializar cada vez mais e vai
estudar um grão de areia no meio de uma praia. Pitanga
... eu espero que ele, ao término da Iniciação Científica, conheça a
estrutura de um trabalho científico; e toda vez que ele for pesquisar
alguma coisa,..., que ele saiba identificar aquelas fases do trabalho
científico em tudo que ele for pesquisar. Essa é a intenção. Pitanga
Nesta categoria, apesar de declararem fazer parte de suas competências a
orientação a trabalhos de pesquisa científica, apontam igualmente algumas
dificuldades que encontram no desenvolvimento de projetos dessa natureza. De
qualquer maneira, buscam despertar o olhar investigativo do aluno trabalhando
através de um trabalho em parceria, tratando-os como colaboradores de todo o
processo de ensinar e aprender.
Na categoria "conteúdos" fica clara a intenção do docente de desenvolver os
conteúdos programáticos propostos pela disciplina, e que, ao final do curso,
haja domínio desse conteúdo por parte dos alunos. Esse conteúdo deve ser o mais
amplo possível, a ponto de permitir fortalecer a base de conhecimentos dos
futuros profissionais.
O que a gente espera, primeiramente, é que ele tenha um domínio
bastante grande da parte de anatomia que ele vai usar para a clínica
e, além disso, trabalhar na base desse aluno,... Acerola
... a minha intenção é,... claro, a gente não vai conseguir passar
tudo para o aluno, mas deixar com que ele conheça o maior número, a
maior quantidade de informações possível para ele não ter a situação,
assim, de sair da disciplina, ou até de terminar o curso e falar,
"puxa vida!, eu nunca vi isso na minha vida". Pitanga
As falas desses discursos mostram uma ação docente voltada para a associação da
prática-teoria-prática, fortalecendo assim seus saberes. Trabalham com
conteúdos que sejam coerentes com a vida real, concretos e úteis, ricos de
exemplos e voltados não só para os aspectos técnicos dos cuidados da saúde,
como os aspectos humanos que envolvem esses cuidados. Do ponto de vista da
dimensão técnica, é preciso assumir o ensino como mediação: aprendizagem ativa
do aluno com a ajuda pedagógica do professor é a nova atitude esperada do
docente diante das realidades do mundo contemporâneo.
Destaca que o ensino exclusivamente verbalista, a mera transmissão de
informações, a aprendizagem entendida somente como acumulação de conhecimentos,
não subsistem mais. Isso não quer dizer abandonar os conhecimentos
sistematizados da disciplina, nem abrir mão da exposição teórica de um assunto
(18). A forma de apresentar e tratar um conteúdo é aquela que ajuda o aprendiz
a coletar informações, relacioná-las, organizá-las, manipulá-las, discuti-las e
debatê-las com seus colegas, com o professor e com outras pessoas. Deve-se agir
dessa forma até produzir um conhecimento que seja significativo para o
aprendiz, que se incorpore ao seu mundo intelectual e vivencial e o ajude a
compreender sua realidade humana e social, e mesmo a interferir nela(19).
A mediação pedagógica coloca em evidência o papel de sujeito do aprendiz e o
fortalece como ator de atividades que lhe permitiram aprender e alcançar seus
objetivos. Dá também um novo colorido ao papel do professor e aos novos
materiais e elementos com que ele deverá trabalhar para crescer e se
desenvolver. É o momento de organizar junto com a classe o conteúdo da
disciplina relacionando-o com a realidade profissional dos alunos. Porém, são
freqüentes organizações inadequadas de conteúdos e de conhecimentos ministrados
em momentos impróprios ou não contextualizados a uma possibilidade de aplicação
a curto prazo(20).
È preciso advertir que uma ação pedagógica centrada apenas nas informações e
com uma abrangência exagerada de conteúdos, dificulta a criação de um espaço
para o desenvolvimento do pensamento crítico do aluno, característica esta
exigida pelo mercado de trabalho(21).
Ao processo de aprender precisam ser incluídos conhecimentos, habilidades e
atitudes, devendo o professor estar atento para sua validade, ou seja, sua
relação com os objetivos, seu valor prático, sua possibilidade de aplicação e
sua ligação com conhecimentos anteriores do aluno, possibilitando o
estabelecimento de correlações. Esses aspectos permitem realçar a importância
da seleção dos conteúdos na construção sólida do conhecimento.
Acrescento ainda que é necessário optar por uma educação que não apenas
valorize os conteúdos, mas que busque princípios de cidadania, de justiça
social, de desenvolvimento da responsabilidade enquanto ser humano. Que não
valorize só a avalanche de conteúdos programáticos, mas que caminhe na direção
de despertar noções humanistas básicas.
Este processo de mudança não decorre apenas da identificação desses
pressupostos no projeto político pedagógico da escola, mas a partir de
iniciativas e posturas individuais e coletivas dos sujeitos envolvidos no
processo de ensino aprendizagem. Para a transformação de nossas práticas, é
preciso estabelecer um processo de trabalho reflexivo, problematizador e
dialógico, embasado no saberes técnico e científico, que nos leve a uma
conscientização sobre nosso fazer pedagógico(22).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Vislumbrando caminhos na docência
Ao considerarmos a importância da reflexão sobre a prática docente, este estudo
buscou compreender as intenções das ações dos docentes enfermeiros e dos
docentes de outras áreas da saúde no contexto de um Curso de Graduação em
Enfermagem.
Para tanto, a análise do estudo foi sustentada na perspectiva da fenomenologia
de Alfred Schütz. Essa compreensão foi facilitada pelo fato de eu também ser
docente, de fazer parte do mesmo cenário social dos sujeitos do estudo e de ter
uma situação biográfica semelhante.
A compreensão do vivido dos sujeitos permitiu apreender a reciprocidade e a
intersubjetividade que permearam os discursos dos docentes do Curso de
Graduação em Enfermagem, no que diz respeito aos "motivos para" da sua prática
docente.
O fenômeno desvelado nas falas dos sujeitos possibilitou a construção do mesmo
tipo vivido dos docentes enfermeiros e de outras áreas da saúde: construção de
um ideal, como aquele que vê o aluno como futuro profissional, que deseja
colaborar no crescimento pessoal do aluno, que acredita que ser docente é ser
pesquisador e que tem ainda a intenção de fornecer os conteúdos programáticos
propostos pela disciplina, esperando que haja domínio desse conteúdo por parte
dos alunos, os quais irão fortalecer a base de conhecimentos desses futuros
profissionais.
Possibilitou ainda revelar a preocupação dos docentes com sua a formação
didático-pedagógica além da sua apropriação dos saberes em seus aspectos éticos
e políticos, sua formação contínua. Preocupação também com a necessidade de
participar de programas de atualização docente e de aperfeiçoamento pedagógico
e com a possibilidade de constante presença em congressos e conferências.
Declararam ainda em seus discursos que, muitas vezes, não se sentiam
valorizados pela instituição na qual trabalhavam, motivo de um descontentamento
pessoal e profissional que deve ser levado em consideração quando analisamos
sua prática pedagógica.
O fato de termos constatado as mesmas intenções entre os docentes enfermeiros e
os docentes das demais áreas da saúde, provavelmente se deu por fazerem parte
de um mesmo mundo social dando a entender convergências na intencionalidade
deles ao praticarem e projetaram as suas ações.
Uma evidência ficou constatada: ser docente é fator determinante na ação desses
sujeitos, independentemente de sua formação acadêmica. Eles vivenciam a
intersubjetividade na relação face a face, surgindo então uma só tipificação,
pois vimos que há reciprocidade nas falas dos sujeitos demonstrando uma atitude
natural semelhante entre eles. Para tanto, é essencial a real valorização do
profissional pelas instituições de ensino superior qualificando seus docentes,
criando espaços e momentos formais para discussões das questões educacionais,
possibilitando um fortalecimento de sua bagagem de conhecimentos e colaborando
para a realização profissional de cada um.
Deixo aqui declarada minha firme crença de que é necessária uma revisão da
identidade do docente universitário, particularmente na área de Enfermagem, que
é o nosso cenário social atual em que ele trabalha. Para isso, é importante que
os próprios docentes, de um lado, desejem refletir sobre seu papel e de outro,
que as universidades promovam oportunidades para essa reflexão. Acredito que a
reciprocidade das ações desses sujeitos reforça a importância da composição de
um corpo docente multiprofissional, validando o conceito da
interdisciplinaridade no projeto político-pedagógico. Esse dado, pois,
desmistifica a idéia de que o fazer dos docentes enfermeiros é diferente do
fazer dos docentes de outras áreas da saúde já que ambos possuem as mesmas
intenções desveladas neste estudo.
Concluo admitindo que meus motivos para, a partir deste estudo, estão
direcionados para a busca de um pensar e um fazer que abranjam as competências
técnicas, ético-políticas, interpessoais e um olhar para o corpo docente que
revela a mesma intencionalidade no seu agir, pois minha situação biográfica de
ser docente reivindica essas percepções e esses saberes.