Sentidos da pesquisa na prática profissional de enfermeiras assistenciais
INTRODUÇÃO
A pesquisa é uma atividade que possibilita a reflexão e a transformação da
prática profissional. As enfermeiras, para acompanharem a acirrada evolução
técnico-científica vigente na era da informação e exercer com qualidade o seu
papel social, necessitam estar em constante desenvolvimento passando a incluir
a pesquisa nas atividades da prática-assistencial, unindo o saber fazer e
pensar - mediante o processo investigativo, culminando no refazer(1).
No Brasil, a pesquisa em enfermagem teve grande avanço com a implantação dos
programas de pós-graduação a partir de 1972, tendo como perfil os enfermeiros
da área acadêmica(2).
O processo de pesquisar pela enfermeira tem sido foco de vários autores
brasileiros. Reconhece-se que as enfermeiras assistenciais a valorizam e têm
procurado realizá-la(3-7). Entre as dificuldades relatadas por elas para
desenvolverem trabalhos científicos estão: a inexistência no acompanhamento
científico para tal tarefa; não serem consumidoras de pesquisa; a falta do
hábito de reflexão crítica da prática profissional; a pouca desenvoltura em
escrever e divulgar as experiências e atividades profissionais. A estas
dificuldades acrescentam-se a falta de incentivo pela instituição empregadora,
como ainda a inexistência de um serviço de apoio(3-4).
Os estudos citados apontam que quando a enfermeira estabelece para si a meta de
realizar um trabalho científico, o realiza pela necessidade e motivação
pessoal/profissional, em algumas situações com o apoio da instituição
empregadora. Quando encontra dificuldades de ordem instrumental em relação ao
método científico e a redação, tenta superar com a ajuda de docentes e
profissionais da área da saúde(4). A experiência de enfermeiras assistenciais
de desenvolverem pesquisa nas organizações hospitalares revela que esse é um
processo que ainda está sendo apreendido por estas profissionais e
administradores e, por isso, nesses ambientes não há uma política definida que
proporcione a realização dessa atividade. Portanto, o processo de pesquisar é
determinado pela própria enfermeira, que sofre influência do contexto
institucional(4-5). Estabelecer ambiente favorável, estimular as enfermeiras a
questionar e avaliar a prática faz parte de um agrupamento de ações para o
enfrentamento das barreiras que impedem ou dificultam a utilização da pesquisa
no cotidiano profissional(4).
Acontecimentos recentes são as parcerias entre instituições de ensino e
empregadoras da saúde, visando o aprimoramento do seu pessoal, apoio às
enfermeiras na efetivação de pesquisas com a formação de grupos de estudo e
núcleos de pesquisa entre outras atividades. Vários grupos, comissões e núcleos
de pesquisa, centro de estudos e de práticas educativas em Enfermagem vêm sendo
criados com a finalidade de estimular e auxiliar as enfermeiras no
desenvolvimento e divulgação de pesquisa, como importante recurso no seu
processo de trabalho(4-6). Estes são movimentos que apontam inovações e mudança
na cultura das organizações.
Seguindo essa tendência, a Diretoria de Enfermagem do Hospital Universitário
Regional do Norte do Paraná (HURNP) criou em 1999 o Núcleo de Pesquisa em
Enfermagem (NUPE), com o propósito de apoiar as enfermeiras na realização de
pesquisas. Nos quatro anos de funcionamento (1999 a 2002), o núcleo desenvolveu
diversas atividades como encontros científicos, workshops, cursos e realização
de pesquisas de interesse das participantes, cujos resultados tiveram
implicações na qualidade do cuidado de enfermagem prestado, fornecendo o apoio
necessário e financiamento para a divulgação destes em eventos científicos e
publicações(5,7).
A necessidade de identificar como a pesquisa foi percebida no cotidiano das
enfermeiras apoiadas pelo NUPE, nos mobilizou na investigação da problemática:
Qual o sentido da atividade investigativa no desenvolvimento profissional e na
prática assistencial de enfermeiras participantes de um serviço de incentivo à
pesquisa?
Assim, esse estudo teve como objetivo analisar os sentidos dados a atividade
investigativa atribuídos pelas enfermeiras assistenciais participantes do NUPE.
REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO
Buscamos na Antropologia Interpretativa a base teórica e metodológica para a
realização do estudo. O conceito-chave dessa abordagem teórica é cultura como o
conjunto de regras e padrões que orienta e dá sentido às idéias e às práticas
de um determinado grupo social. Entretanto, a análise da cultura é semiótica, o
que leva o pesquisador a considerar esses sentidos, relacionando-os às
características dos elementos do grupo e ao contexto social, interpretando-os
compreensivamente em saberes diferentes(8).
O estudo de caso etnográfico foi a estratégia metodológica selecionada,
possibilitando centrar o nosso interesse na capacitação de pesquisar das
enfermeiras participantes do núcleo, tendo como eixos a articulação da pesquisa
com a prática profissional(9).
O estudo foi realizado no HURNP, que conta com 294 leitos, todos à disposição
do Sistema Único de Saúde, situado no interior do Estado do Paraná.
Para a coleta de dados foram empregadas entrevistas semi-estruturadas
individuais e grupais gravadas, depoimentos escritos e documentos do núcleo, de
2003 a 2005. Das 76 enfermeiras que freqüentaram as atividades, 36 participaram
do estudo, sendo que 12 participaram das entrevistas individuais e 30 das
grupais; seis participaram das duas estratégias. A entrevista grupal foi
realizada com cinco grupos de enfermeiros do serviço de enfermagem,
constituídos por enfermeiras-assistenciais, por enfermeiras em cargo de chefia,
outro com enfermeiras em assessorias e chefia do período noturno e um com
enfermeiros que haviam concluído ou estavam realizando cursos de pós-graduação
stricto sensu. As entrevistas foram norteadas pela questão: qual a sua opinião
sobre a prática de pesquisa por enfermeiros assistenciais após participar do
NUPE ? O diário de campo foi utilizado para o registro de aspectos julgados
interessantes pela primeira pesquisadora(10).
As participantes eram todas do sexo feminino, com idades variando de 28 a 53
anos, atuando na instituição de um a 26 anos, ocupando diferentes cargos na
instituição.
Os princípios éticos foram seguidos: o estudo teve a aprovação do Comitê de
Ética em Pesquisa da UEL, e todas as participantes concordaram em participar
assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
A análise dos dados seguiu as seguintes etapas: 1) ordenação dos dados em
textos e leitura repetida de todo o material obtido; 2) elaboração de
categorias empíricas, ou seja, conceitos que expressam a lógica interna do
grupo (objeto) estudado; 3) elaboração de categorias analíticas, ou seja, os
constructos teóricos do conhecimento do objeto e seus aspectos gerais,
compreendidos e interpretados pelos pesquisadores, com as quais construímos os
sentidos(10).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os sentidos manifestos por elas foram compreendidos a luz dos pressupostos que
mostram a pesquisa como processo de aprendizagem reconstrutivo(11), além dos
conceitos emitidos sobre a pesquisa como atitude e atividade investigativa
inerente a uma boa performance profissional(12).
Apresentamos a seguir a categoria que aponta a importância da pesquisa na vida
profissional.
A valoração da atividade investigativa
Os termos fundamental e importante foram freqüentemente usados nas entrevistas
individuais e grupais, expressando a valoração da atividade investigativa para
elas. Assim ouvimos:
Eu acho que é fundamental pesquisar, prá gente não fazer mecanizado,
pesquisar o dia a dia, ver o que está acontecendo na sua prática
diária. Estudar, aprofundar. Fazer sabendo quais as consequências.
Como fazer melhor. (G6)
Acredito que a pesquisa é importante para todo enfermeiro
assistencial. Ela possibilita o crescimento profissional. A qualidade
da assistência está diretamente relacionada à pesquisa. (G4)
Para este grupo social, a pesquisa é tida como atividade importante, tanto pela
expansão de conhecimento que provoca, como pela incorporação de novas práticas
que possibilita.
Alguns estudos têm evidenciado, por parte das enfermeiras-assistenciais, uma
atitude positiva em relação à pesquisa, sem, contudo constituir-se aspecto
determinante para a efetivação da atividade, devido a motivos de ordem
estrutural e cultural nas organizações hospitalares(13). Para as participantes
do estudo, a pesquisa possibilita a aquisição, produção e aprofundamento de
conhecimentos, a atualização e avaliação de suas práticas, o encaminhamento
metodológico de soluções, o crescimento profissional pelo estímulo à reflexão
sobre novas formas de conduzir seu trabalho e o despertar da paixão pelo
conhecimento estruturado cientificamente(5).
O entendimento valorativo da atividade investigativa é um quesito essencial
para que as enfermeiras-assistenciais sintam-se motivadas para a sua realização
no cotidiano. Isto ocorre quando elas percebem a importância dos resultados da
sua pesquisa para a melhoria da assistência e o desenvolvimento profissional.
No caso em estudo, podemos dizer que esta atitude pró-ativa foi condição básica
para que houvesse ações e estratégias direcionadas a essa melhoria e que
reforçassem os movimentos de busca de reflexão do fazer profissional embasado
em conhecimentos científicos. Com esse sentido, compreendemos uma retomada de
valores culturais profissionais até então esquecidos, devido à prática
cotidiana do fazer sem reflexão.
Pesquisar é Aprender
Ao pesquisar, a enfermeira assistencial estuda, lê, busca, constrói
conhecimento próprio e, assim, expande-se intelectualmente. O processo
intrínseco ao desenvolvimento do raciocínio investigativo associado à
experiência de consumir e produzir conhecimento de forma sistematizada propicia
ao enfermeiro a atitude de estar de olhos abertos para a realidade que, no
exercício de problematizar, interpretar e dialogar, aprende em sentido criativo
(11). Esse é um processo de aprendizado contínuo que se expande para além do
conhecimento do tema em si, provocando novas concepções, atitudes e
possibilidades na recriação da própria maneira de ser e cuidar/assistir.
Ressaltando o momento de aprendizado possibilitado pela pesquisa, ouvimos:
A gente começa a estudar um assunto pra entender melhor sobre este
assunto, então a pesquisa, acima de tudo, ela é aprendizado. (E2)
A pesquisa 'abre' a cabeça dos enfermeiros assistenciais e
possibilita uma visão global. (G2)
O aprendizado por meio da pesquisa favorece o desenvolvimento do hábito de
leitura e da redação científica, capaz de levar a descoberta e a resolução de
problemas, foi assim ressaltado:
[...] a gente vai aprendendo a escrever, aprendendo a ler. Então,
isso enriquece muito o nosso dia a dia em termos de produção de
trabalho científico. (E9)
[...] de você ter a satisfação de ir lá, de ler, de refletir, de
pensar. É muito bom esse momento da descoberta. Quando você faz as
ligações. Você junta um pedacinho daqui, um pedacinho dali, que você
leu e daí você constrói uma idéia, uma possibilidade e resolução dos
problemas. (E7)
O ato de pesquisar também é visto como uma atividade que predispõe a enfermeira
ao estudo e, conseqüentemente, a uma aprendizagem mais efetiva e significativa,
à consciência de precisar se aperfeiçoar. Assim ouvimos:
Eu acho que a pesquisa me fez crescer. Eu só aprendi sobre um assunto
porque eu comecei a estudar, porque queria escrever artigos. Então
conforme a gente pesquisava um tema, eu me sentia mais segura de
debater com algum médico, de orientar o funcionário. Estudando para
escrever o artigo, eu estava aprendendo. (E1)
Eu aprendi bastante a escrever, isso é importante, apesar de que eu
ainda tenho um pouquinho de dificuldade para colocar as palavras em
ordem. (E9)
A importância de se compreender a aprendizagem como fenômeno reconstrutivo, em
que a pesquisa é ressaltada como processo de aprendizagem, é defendida pela
noção de que a atividade investigativa precisa fazer parte de todo processo
educativo, em qualquer nível e em qualquer fase(11).
Nesse sentido é necessário distinguir o pesquisador profissional, sujeito que
vive de produzir conhecimento, do profissional pesquisador, aquele que usa a
pesquisa como propedêutica de seu saber. Nesta segunda classificação encontra-
se a enfermeira assistencial que, pela pesquisa, é motivada a construir seu
caminho, passando por etapas sucessivas, pelas quais ela se eleva a patamares
mais avançados e complexos. É um caminho de emancipação, pois ao colocar o
cérebro para funcionar, ou seja, pesquisando com sistematicidade ou sabendo
pensar, gera modos alternativos de intervenção na realidade(11).
É importante considerar que de fato, nem todo enfermeiro será pesquisador, no
sentido stricto; porém, para que ele possa ter segurança sobre a eficácia do
cuidado de enfermagem oferecido, ele depende de uma base científica sólida e,
para tanto, todo enfermeiro deve sim, estar engajado em atividades de pesquisa.
O sentido de pesquisar, como um movimento intenso do pensamento associado à
consciência crítica e criativa, de quem sabe pouco, e que o conhecimento
aprofundado reflete na prática assistencial, foi assim manifestado pela
enfermeira:
[...] enquanto eu pesquiso, eu estudo. Quanto mais eu estudo, menos
eu sei. Quanto menos eu sei, mais eu vou estudar. Quanto mais eu
estudar, melhor. O estudo reflete na minha prática do dia a dia. (E3)
Demo(11) esclarece estes sentidos, colocando dois cenários. Primeiro, é
importante ler a realidade com olhos abertos, sendo um dos pontos centrais da
aprendizagem reconstrutiva a idéia, pois "não se pode questionar sem ser
questionado, não se pode arrumar consciência crítica sem tê-la, não se pode
avaliar sem ser avaliado".
O autor expõe como segundo ponto que "o saber pensar não é apenas pensar, mas a
base teórica para poder intervir melhor". O pensar é então, uma habilidade que
reforça o entendimento de que a essência do conhecimento é ser a intervenção
mais prática dos tempos. E conclui citando: "Um projeto de intervenção só tem a
ganhar força se for orientado devidamente pela teoria, bem como a teoria, para
ser deste mundo, precisa confrontar-se com a prática"(11).
O conceito da cultura nos ajuda a fazer uma leitura apropriada do processo de
aprendizagem. A aprendizagem propiciada pela atividade investigativa é
decorrente de um processo social, entre pessoas e o meio que as cerca. Sendo
assim, podemos imaginar que existe o antes e o depois no processo de
aprendizagem. A enfermeira, antes do início da atividade investigativa, em
muitas situações, é alguém que age por rotina, empiricamente e, após a
aprendizagem, ao buscar e aplicar a evidência científica no contexto
profissional, ela assume a postura de um novo ser, transformado e transformador
das práticas no processo de cuidar.
O movimento empreendido na elaboração de uma pesquisa possibilita também o
crescimento e o aprendizado de todos os membros da equipe de enfermagem.
Trazemos este exemplo:
Enquanto profissional você cresce muito, então você acaba crescendo
junto com todo mundo que trabalha com você. [...] (E8)
Percebemos que a pesquisa tem implicações em múltiplas direções, isto é,
possibilita a aprendizagem pessoal, pela expansão da visão do mundo social e
profissional, mobiliza o hábito da leitura e escrita, a reflexão, a
argumentação, a síntese e, por conseguinte, possibilita uma nova maneira de
pensar e agir. Todo esse movimento, quando socializado com os pares, pode levar
ao crescimento de todos e, consequentemente, a uma melhor maneira de cuidar.
Contudo, apreendemos que a enfermeira traz seus saberes teórico-práticos
anteriores para esse processo de pesquisar e que estes são valorizados e
incorporados na construção do novo saber. Isto implica uma transformação
profissional na sua ação de cuidar em saúde, tornando-se mais competente e
compromissada com o exercício da profissão.
Movimentos da Atividade Investigativa
Entre os aspectos intrínsecos da prática investigativa, as enfermeiras
apontaram vários movimentos que são desenvolvidos, desde a sua atitude diante
do problema, a sua reação e transformação na busca das respostas e, ainda, o
estado de permanente aprendizagem no mundo profissional.
O sentir-se movida por um questionamento, por um problema é a condição básica
que desperta na enfermeira uma atitude investigativa. Caracterizamos assim este
entendimento:
A pesquisa é você ir buscar alguma coisa que satisfaça uma indagação, um
questionamento: - Será que isso é isso mesmo?(E7)
O cotidiano do cuidado é rico em situações e atribulações que podem, muitas
vezes, transformarem-se em indagações, inquietações e objeto de pesquisa.
Partindo do pensamento de que pesquisa é "uma atividade intelectual e um labor
que resulta da relação do homem com o mundo, como um observador, indagador e
interventor", podemos explorar o sentido manifesto da pesquisa como inquietação
da enfermeira, a qual, ao observar a realidade que a cerca, consegue
identificar situações que fogem do esperado. Nesta situação ela indaga por que
tal fenômeno está acontecendo e pode chegar a intervir, dando respostas as
inquietações(14).
A rigor, a atitude e a atividade científica são coisas diferentes. A atitude
científica é uma dimensão pessoal, uma característica não-exclusiva dos
cientistas profissionais, mas que se encontra difusa nas pessoas da sociedade
em geral. Por outro lado, a atividade científica é uma atividade desenvolvida
por indivíduos de uma parcela da comunidade, e está relacionada a uma ocupação
de natureza profissional, sendo decorrente de um aprendizado obtido de forma
praticamente exclusiva na convivência institucional, de acordo com paradigmas
normativos(12).
Interessa-nos aprofundar a compreensão sobre a atitude investigativa que é
filha do bom senso, do espírito crítico que uma pessoa desenvolve desde os
primeiros anos de atividade intelectual, bem como uma relação sadia que a
pessoa estabelece com os outros e com o mundo, ou seja, a atitude investigativa
existe num estado de espírito que compreende uma disposição emocional e uma
organização intelectual que permite às pessoas poder duvidar das idéias que
lhes relatam, para que possam vir a aceitá-las como verdadeiras e valorizá-las
ou recusá-las por compreenderem-nas falsas e combatê-las(12).
Com esse sentido, ouvimos o seguinte relato de uma enfermeira:
A pesquisa é aquela perguntinha que está sempre no sue cérebro e você
não acha resposta. Então você, baseada na necessidade da resposta,
vai atrás. (E3)
Tal discurso expressa a atitude investigativa da enfermeira assistencial pelas
situações do cotidiano profissional e que ela, pela indagação, se sente
inquietada e mobilizada à busca de respostas. É o movimento de reflexão-ação
movido pelas circunstâncias, ações, pessoas que fazem parte do contexto
pessoal, profissional e organizacional.
Entretanto, o importante é atingir, pela atitude investigativa, o
questionamento reconstrutivo, que se apresenta duplamente provocativo,
Há que parecer o desafio do questionamento: um sujeito capaz de perguntar,
inquirir, duvidar, contrapor-se, confrontar-se, significando sobretudo
capacidade de autonomia e a habilidade de saber pensar; há que parecer o
compromisso da reconstrução: à crítica deve seguir a contraproposta,
devidamente reconstruída, na qual comparece a competência humana pertinente e
capaz de intervir na prática(11).
Ainda sobre a discussão da pesquisa como uma inquietação do profissional,
acrescentamos a reflexão sobre o pesquisar e ensinar a pesquisar na enfermagem,
que é descrita como uma atitude primordial, pois os problemas sempre são
emergentes da prática de cuidar e de ensinar a cuidar, ou se referem à
totalidade da prática da enfermagem. Portanto, nem os conceitos e definições
são intocáveis. Tudo merece questionamento, discussão e análise, bem como
submissão às regras da demonstração e das provas"(15).
A inquietação é um primeiro movimento que, se é estimulante para a enfermeira,
provoca a busca da comprovação da evidência científica para um fazer com
conhecimento cientificamente comprovado. Este sentido é, no pensar das
enfermeiras, aspecto marcante da atividade investigativa, reiterado nos
depoimentos e exemplificado abaixo:
Eu acho que a pesquisa, hoje ela tem que ser muito em cima da
prática. Hoje se fala muito em prática baseada em evidência. Você vai
buscar elementos que subsidiam a tua prática. (E3)
A palavra evidência ressalta o quanto este conceito é importante na cultura do
conhecimento científico de uma profissão dominada por rotinas e rituais, como a
enfermagem.
A evidência científica rompe com o velho paradigma do fazer respaldado na
norma, rotina, no continuísmo empírico. Este linguajar tem sido empregado mais
recentemente no campo da saúde, a partir da abordagem que incorpora as
evidências oriundas de pesquisas, a competência clínica e as preferências do
cliente para a tomada de decisão sobre a assistência à saúde, denominada de
prática baseada em evidências(5).
A importância da evidência científica para a profissão decorre da possibilidade
de instaurar a relação do raciocínio científico com a prática de pesquisa,
situação essencial para a aproximação de uma enfermagem baseada em evidências,
como se observa no panorama mundial(5).
Para tanto, é mister provocar um movimento que estimule os profissionais a
procurar a repensar e refazer a prática que muitas vezes é inconsistente,
fragmentada e pautada na autoridade e em observações não-sistematizadas e não-
científicas. A busca da evidência científica é um paradigma assistencial e
pedagógico, e como uma ferramenta que se bem usada pode modificar os
resultados, refletindo uma assistência de qualidade e na redução dos custos dos
serviços de saúde(5).
No caso em estudo, existe um movimento ativo das enfermeiras voltado para a
aplicação de evidências que leva, num primeiro momento, a buscar por
informações, decidindo-se pela atividade investigativa como caminho para a
resolução das dificuldades da prática.
O movimento intrínseco à atividade investigativa, gerado pela inquietação e a
busca da evidência científica, possibilita a valorização da atividade
assistencial. Este sentido surgiu nos depoimentos percebidos como fator de
estímulo à enfermeira que pesquisa e é, por isso, exposta à influência de novos
valores (evidências) relacionados aos procedimentos de enfermagem, uma poderosa
arma contra os rituais desta prática. Neste sentido ouvimos:
Uma profissão é valorizada, quando você faz um trabalho científico,
quando você demonstra que aquilo que você se propôs a fazer, de certa
forma deu resultado. (E8)
É através da pesquisa que você dá um pulo muito maior e você consegue
fazer esse cuidar, que seria meio intuitivo até, de uma forma muito
mais racional, muito mais científica. (G14)
O valor da pesquisa para o fortalecimento da profissão foi apresentado no
depoimento:
O enfermeiro assistencial vive a prática no dia-a-dia e suas
pesquisas valerão para o crescimento da enfermagem como profissão.
(G3)
É interessante apreender nos depoimentos, a valorização da atividade
investigativa no contexto profissional da enfermeira, como fator propulsor de
mudanças no cotidiano do cuidar, integrando as evidências do conhecimento
científico ao cuidado humano oferecido pela enfermagem.
Atividade Investigativa é trabalho árduo que demanda esforço pessoal
Ao mesmo tempo em que as enfermeiras expressaram a importância da pesquisa para
a prática profissional, elas também manifestaram claramente que se trata de uma
atividade que só ocorre com empenho pessoal. Assim, observamos o sentido de que
fazer pesquisa é tarefa árdua:
[...] levantar problema não é fácil, fazer levantamento de dados não
é fácil, você compilar dados não é fácil, você ir atrás de referência
bibliográfica não é fácil e não é barato, porque você tem que buscar
fora. (E3)
É difícil ainda, eu insisto em dizer, pelas poucas oportunidades que
a gente tem de tempo, envolvimento com o trabalho. (E12)
Acho que por isso, para você escolher uma pesquisa, primeira coisa
você tem que falar 'gosto disso'[...] É isso que ajuda pra você
passar, se não você não agüenta, por que é sofrido. (E1)
Autores concordam sobre o empenho necessário a ser dado à produção de pesquisa,
porque esta demanda esforço pessoal na busca de informações sobre o fenômeno em
estudo, toma tempo e muitas vezes esgotam, podendo culminar em obras de arte
como resultado de exaustivo labor técnico e científico(5,14).
Contudo, é possível tomar gosto pelo saber pensar, por meio da pesquisa, desde
que esta ação não seja concebida a maneira de quem não sabe pensar, ou de quem
apenas reproduz ou ainda de quem encara a pesquisa como tarefa penosa. Quando o
indivíduo percebe que o conhecimento crítico é a bagagem mais decisiva para
enfrentar as questões da vida e do mercado de trabalho, mais facilmente adere
ao processo sistemático de conhecer, reconstruir, crescendo com ele(11).
A superação do sentimento de trabalho exaustivo pode ainda ter o entendimento
de que estudar dá trabalho e pode cansar. Porém, se pode extrair a satisfação
desta situação que "não é a alegria da superficialidade, banalização,
encurtamento, macetes, mas aquela que enche a alma"(11).
Complementando a citação anterior, o trabalho árduo numa atividade
investigativa, pode ser suavizado quando a estrutura formativa e assistencial
incorpora diferentes estratégias que visam dar sustentação à enfermeira-
pesquisadora, como o desenvolvi-mento de habilidades de estudo, de leitura e
redação de textos científicos, participação em cursos de metodologia
científica, orientação de trabalhos científicos, etc.
Até este ponto, podemos sintetizar que, para as enfermeiras informantes do
estudo, a pesquisa é um elemento-chave no processo de cuidar, no crescimento e
aprendizado pessoal e da equipe. A atividade investigativa acontece mediante
alguns movimentos que se entrelaçam ¾ da inquietação à busca de melhores
respostas para uma ação profissional mais adequada e profícua, que pode
qualificar cientificamente a atividade assistencial. Contudo, fazer pesquisa é
trabalho árduo, que demanda esforço pessoal, pressupõe perseverança da
enfermeira-pesquisadora que, ao se lançar nessa tarefa, prova o sabor agridoce
da atividade investigativa, experimentando a dualidade entre o ato trabalhoso e
o prazeroso, entre a inquietação e a descoberta.
Estes sentidos são específicos para o grupo envolvido no estudo, frente às suas
características pessoais, profissionais e o contexto da cultura organizacional
que o circunda.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os sentidosda atividade investigativa na prática profissional de enfermeiras
assistenciais, apoiadas por um serviço de assessoria em pesquisa, trouxeram a
manifestação da valoração da atividade como condição primordial de motivação
para que as enfermeiras-assistenciais realizem tal prática no seu cotidiano.
As enfermeiras também sinalizaram sobre os movimentos e finalidades inerentes a
atividade investigativa, que parte da inquietação, mobiliza a busca da
evidência científica e possibilita a sustentação e valorização da atividade
assistencial. São sentidos que fortalecem o entendimento da atividade como
estratégia de renovação de conhecimentos, atitudes e comportamentos para um
cuidar qualificado cientificamente.
Apontaram que o desenvolvimento de pesquisa é uma tarefa árdua e que demanda
esforço pessoal. De todo modo, as próprias enfermeiras expressam que a
superação deste fator está na consciência da necessidade e do prazer decorrente
do ato de pesquisar, quando concebido como desafio e caminho para a elaboração
criativa de soluções transformadoras.
A pesquisa, como atividade acessível e factível a enfermeira assistencial,
possibilita-lhe resgatar a auto-estima profissional, o desenvolvimento técnico-
científico, a produção de saberes e transformações na prática, enfim, construir
novas idéias e práticas, transformando sua cultura profissional.
Frente aos resultados do estudo consideramos que o setor responsável pela
educação permanente dos profissionais, das organizações hospitalares, deve
empenhar-se na missão de capacitá-los e de promovê-los, assumindo a
responsabilidade de instrumentalizá-los e apoiá-los no trabalho de pesquisa.
Assim, a pesquisa, como ferramenta de trabalho, poderá impulsionar os
profissionais a produzirem conhecimentos que auxiliem na compreensão daquilo
que se lhes propõe para um fazer aberto às indagações e reconstruções.
Finalizando, a formação do NUPE foi considerada uma proposta ousada e com bons
resultados, mostrando que a união de gestores, educadores e profissionais
possibilita a criação de uma cultura de pesquisa no contexto da enfermagem
assistencial.