Morbidade referida por moradores ribeirinhos de Porto Rico, PR, Brasil
INTRODUÇÃO
Estudos ecológicos têm contribuído com as investigações das condições de saúde
frente à desigualdade social, correlacionando os indicadores epidemiológicos
aos socioeconômicos, geralmente provenientes de censos. Servem para comparar a
ocorrência de doenças ou condições relacionadas à saúde com a exposição aos
fatores de risco entre os grupos de indivíduos e verificar se existe associação
entre eles(1).
O estado de saúde pode ser determinado por diversos fatores, que interagem em
quatro dimensões: a biologia humana, o ambiente, o estilo de vida e o sistema
de atenção à saúde(2). O estilo de vida é um elemento determinante da promoção
da saúde e significante no processo de construção de uma qualidade de vida
saudável. A adoção de hábitos saudáveis de vida, tais como atividade física
regular e alimentação balanceada, é essencial para o enfrentamento de condições
ou situações adversas(3).
A dimensão do estado de saúde de uma população pode ser avaliada por diversos
indicadores e métodos de mensuração da saúde-doença. A análise de indicadores
de saúde, como de mortalidade e de morbidade em determinada população, serve
para verificar as desigualdades sociais e fornece subsídios para o planejamento
em saúde(4).
Apesar de serem pouco empregados e citados na literatura, os inquéritos de
saúde de base populacional possibilitam maior aproximação dos problemas reais
de saúde que ocorrem (morbi-mortalidade), independentemente de sua gravidade.
Para Carandina et al.(5), esse modelo de estudo permite identificar a percepção
de seu estado de saúde ou a representação da doença feita pelos indivíduos,
independente de critérios médicos de diagnóstico.
O inquérito domiciliar é um recurso utilizado na investigação de morbidade. É
de fácil aplicação nos serviços de saúde e possibilita o acesso ao conhecimento
submerso, à morbidade percebida, sentida ou ainda reprimida, sem acesso aos
serviços e as práticas não formais de restauração da saúde. Ademais, a
morbidade referida complementa as informações de morbidade geral, obtidas de
fontes secundárias e possibilita obter informações sobre as deficiências dos
serviços e incapacidades no consumo de recursos pelos usuários(6).
A auto-avaliação da saúde é outro indicador de avaliação da saúde pessoal,
altamente correlacionado à morbidade e mortalidade. Possibilita à pessoa
referir os agravos da saúde dos quais está acometida e o impacto que os mesmos
geram no seu bem-estar global: físico, mental e social(2). As informações sobre
saúde de um indivíduo, família e comunidade devem incluir também conhecimentos
integrados sobre as condições sociais, ambientais, econômicas e políticas em
que o indivíduo ou o grupo vivem(7) e servir de subsídios para a formulação de
políticas públicas.
Monitorar o estado de saúde das populações interessa a diferentes setores de
todos os níveis de governo e à sociedade e suas organizações, no processo de
construção de estratégias para a obtenção de melhor qualidade de saúde e de
vida(2).
O Grupo de Estudos Socioambientais da Universidade Estadual de Maringá (GESA/
UEM) participa, juntamente com o Núcleo de Pesquisas em Limnologia, Ictiologia
e Aquicultura (NUPELIA) e o Grupo de Estudos Multidisciplinares do Ambiente
(GEMA), do Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Dura-ção, desde 1992. Seus
pesquisadores vêm investi-gando aspectos ligados aos processos sócio-econômi-
cos, histórico-culturais e de saúde-doença da população de Porto Rico e região,
de-correntes das alterações am-bientais ocorridas na planície de inundação do
rio Para-ná(7) (Figura_1).
O segmento de pesquisa sobre Indicadores, Hábitos e Necessidades de Saúde
agrupa estudos sobre as ten-dências de morbi-morta-lidade do município e de
busca por atendimento junto ao sistema oficial de cuida-dos, como as Repre-
sentações Sociais da popu-lação sobre os processos saúde-doença. Os resultados
evidenciaram alguns problemas: a presença do alcoolismo, o adoecimento e os
acidentes de trabalho entre a população ribeirinha, os quais estão intimamente
relacionados ao ambiente em que essa população está inserida(7-8).
Como forma de continuidade dessas pesquisas, o presente trabalhovisou
investigar a morbidade referida por moradores de três conjuntos habitacionais
do núcleo urbano, no município de Porto Rico, PR, Brasil.
Porto Rico é uma cidade ribeirinha localizada na região noroeste do Estado do
Paraná, às margens do rio Paraná. Ocupa uma área de 227 km2e tem 2.462
habitantes, conforme Censo de 2007. Há em torno de 821 ligações na rede de
abastecimento de água e 1.056 de energia elétrica, além de coleta sistemática
de lixo(9). A rede de esgoto e tratamento de águas pluviais está em fase de
construção.
O município pertence à 14ª Regional de Saúde e Macro-Regional de Saúde do
Noroeste do Paraná com sede em Paranavaí. Três estabelecimentos de saúde
públicos oferecem cuidados à população, através do Sistema Único de Saúde
(SUS): um hospital de pequeno porte, com nove leitos; um Núcleo Integrado de
Saúde (NIS-I) composto por uma equipe que presta atendimento básico, uma de
Saúde Bucal e uma equipe do Programa Saúde da Família, além de um NIS-II no
distrito de Relíquia, com uma equipe de PSF que atende uma área de abrangência
de 2.336 pessoas. Os casos de média complexidade, inclusive ortopedia, são
encaminhados aos municípios próximos, Santa Cruz de Monte Castelo, Loanda ou
Paranavaí, e os de alta complexidade, para Curitiba(7).
No núcleo urbano foram edificados três conjuntos habitacionais. À esquerda da
Rua Joaquim de Campos, está localizado o conjunto Flamingo, que abriga 28
residências, e à direita, os conjuntos Casa Feliz, 10, e o Por do Sol, 35.
Os três conjuntos foram construídos de forma separada, embora próximos das
demais residências e vias públicas que compunham, originalmente, o núcleo
urbano da cidade de Porto Rico, com vistas a atender a necessidade de moradia
da parcela menos favorecida economicamente da população, ou seja, das famílias
de baixa renda, vítimas dos impactos sócio-ambientais que assolaram a região.
METODOLOGIA
Tratou-se de um estudo de caso, comparando a morbidade referida pelos grupos A
e B, compreendidos por moradores dos conjuntos habitacionais de Porto Rico, PR.
No presente estudo, os moradores do conjunto Flamingo foram agrupados no Grupo
A e os moradores do Por do Sol e Casa Feliz, no Grupo B, devido à proximidade
dos dois conjuntos e semelhança na infra-estrutura, que contrastava com o
primeiro conjunto, observadas no período da pesquisa.
O grupo amostral constituiu-se por um representante das 63 moradias situadas
nos três conjuntos, excluídas aquelas que estavam desabitadas ou ocupadas por
turistas. Um adulto, capaz de responder coerentemente as questões formuladas,
foi convidado a participar do estudo após ser informado sobre o objetivo da
pesquisa, o modo de aplicação e o destino dos dados obtidos. Concordando em
responder o instrumento, o mesmo assinou o termo de consentimento informado. A
coleta de informações ocorreu nos meses de julho de 2005 e janeiro de 2006,
através de inquérito domiciliar, aplicado pela pesquisadora. Foi utilizada a
Ficha de Informações sobre o Respondente, elaborada pelo Grupo de Qualidade de
Vida da Organização Mundial de Saúde (WHOQOL)(10). Foram coletadas as seguintes
variáveis: demográficas e socioeconômicas (sexo, faixa etária, constelação
familiar, ocupação profissional e renda familiar); saúde (nível de saúde e
agravos à saúde no período de 12 meses) e estilo de vida (uso de tabaco e/ou
álcool). Os dados foram processados no Programa Statistical Analysis Software
(SAS) para obter a estatística descritiva, seguido do teste de correlação de
Spearman (R), para verificar se existe correlação entre as variáveis.
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê Permanente de Ética em Pesquisa Envolvendo
Seres Humanos (COPEP/UEM), da Universidade Estadual de Maringá, sob o Parecer
n. 404/2005, atendendo a Resolução nº. 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.
RESULTADOS
No período da pesquisa, as ruas do conjunto Flamingo estavam desprovidas de
pavimentação e de calçamento externo, gerando poeira em dias secos, ou barro,
no período de chuva. A maioria das moradias tinha aparência descuidada, sem
pintura externa, sem cercas nas divisas dos lotes, pouca arborização, lixo e
entulhos depositados no quintal e em terrenos baldios próximos, denotando
contraste em relação aos outros conjuntos.
Nos dois conjuntos localizados à direita, as ruas estavam pavimentadas. Todas
as moradias do conjunto Casa Feliz foram edificadas em frente ao conjunto Por
do Sol, como se fossem um só conjunto. A maioria das residências e seus
entornos apresentavam boas condições habitacionais; muitas delas foram
reformadas e/ou ampliadas, pintadas, construídas cercas ou muros nas divisas e
calçamento externo. Foram plantadas árvores frutíferas, hortaliças e/ou plantas
ornamentais nos quintais.
A Tabela_1 apresenta as características sociodemográficas da amostra,
representada pelos dois grupos de moradores.
A tabulação dos dados mostrou que a maioria pertencia ao sexo feminino (73%), a
idade média dos entrevistados variava entre 30 a 59 anos (65%); mantinha união
estável (65%) e era chefe da família (50,8%). A escolaridade era baixa, 50,8%
não havia concluído o ensino fundamental. Predominavam as atividades urbanas
(63,5%) com renda familiar entre menos de um a sete salários mínimos (SM),
sendo que 44,4% dos entrevistados recebiam abaixo de dois SM.
Em relação à percepção do nível de saúde, a maioria dos moradores atribuiu
valor positivo à sua saúde e a quarta parte afirmou considerá-la como regular
(Tabela_2).
O Grupo B avaliou sua condição de saúde com otimismo, não referiu saúde muito
ruim. No Grupo A, não houve referência de saúde muito boa. A avaliação
intermediária foi semelhante entre os grupos.
Em relação à morbidade referida, 21,7% do grupo A e 42,5% do Grupo B negaram
problemas de saúde (P0) nos últimos 12 meses. Os demais relataram ao menos um
problema de saúde (Tabela_3).
Os agravos à saúde que geraram maior insatisfação e contribuíram para o
adoecimento nos dois grupos de moradores ribeirinhos estão apresentados na
Tabela_4.
No Grupo B, 57,5% dos moradores referiram problemas de saúde e 32,5% indicaram
comorbidade, a qual variou de dois a seis problemas de saúde. Os principais
agravos à saúde foram relacionados à hipertensão arterial, problemas ósseos,
nervoso e depressão.
No Grupo A, 78,2% dos moradores referiram agravos à saúde e 47,8%, comorbidade
de dois e sete problemas de saúde. Destacaram-se hipertensão arterial, nervoso,
depressão, problemas cardíacos e respiratórios.
Outros problemas de saúde não especificados, mais citados pelos dois grupos,
foram: enxaqueca, dor de cabeça, gripe, sinusite, labirintite, amidalite,
gastrite, hepatite, infecção urinária, cólica renal, alergias e coluna
("problemas de coluna"). Muitos agravos são de origem infecciosa e/ou
aguda.
Não houve relato de doenças crônicas como câncer e mal de Parkinson, de
queimaduras ou problemas com álcool e drogas pelos moradores dos dois grupos e
nem de diabetes ou de gestação no Grupo A.
Foram apreendidas algumas variáveis de morbidade correlacionadas ao nível de
significância de 95% de confiança (a=0,05), através da correlação de Spearman
(R).
As variáveis que apresentaram correlação no Grupo A foram: (1) problemas do
coração com hipertensão arterial, depressão, problema crônico no pé e
sangramento anal; (2) hipertensão arterial com nervoso crônico/emocional e
depressão; (3) acidente vascular cerebral com afecção pulmonar, déficit na
visão e artrites; (4) afecção pulmonar com problema crônico no pé, déficit de
visão, artrites e doenças de pele e (5) depressão com problema crônico no pé.
Já no Grupo B houve correlações significativas de: (1) problemas do coração com
diabetes, artrites, sangramento anal e doença de pele; (2) hipertensão arterial
com déficit de visão e problema crônico no pé; (3) nervoso crônico/emocional
com diabetes e artrites; (4) problema ósseo (fraturas) com sangramento anal e
doença de pele e (5) problema crônico no pé com depressão e com outros
problemas.
Os entrevistados negaram problemas relacionados ao estilo de vida, como o uso
de tabaco, álcool e drogas. Alguns afirmaram que às vezes fazem uso apenas de
tabaco ou de álcool e, outros afirmaram que fumam e bebem. Nenhum dos
entrevistados referiu o uso de drogas "ilícitas", até porque isto não
foi questionado diretamente (Tabela_4).
A análise por grupos indicou que, no Grupo A, a proporção dos entrevistados que
fumam é o dobro do que no Grupo B. Por outro lado, a proporção daqueles que
bebem, no Grupo B, é quase o quádruplo do Grupo A. Em relação ao duplo vício, a
proporção foi semelhante para os dois grupos.
DISCUSSÃO
Os resultados desse trabalho mostram uma avaliação positiva no nível de saúde
pelos dois grupos estudados. Essa avaliação foi influenciada pela baixa
ocorrência de adoecimentos (agravos à saúde) no último ano, relatada pela
população incluída nesta investigação.
Os achados dessa pesquisa estão em concordância com diversos estudos regionais
e na população brasileira, em relação à morbidade (7-8,11-19). A avaliação da
condição de saúde por usuários de serviços de saúde em Porto Alegre indicou que
a maioria estava satisfeita, quase um quarto indiferente e uma pequena parcela
insatisfeita com suas condições de saúde(11).
A análise das condições de vida e do nível de saúde de uma população deve
considerar a presença e a interação de fatores como história, cultura, saúde,
educação, trabalho e renda, dentro do contexto ambiental.
Estudo sobre determinantes de desigualdades na avaliação da saúde no Brasil,
fundamentado em dados do PNAD/1998, aponta que os níveis de escolaridade e de
renda influenciam o posicionamento das pessoas. Assim, a classificação em saúde
muito boa ou em saúde ruim ou muito ruimfoi maior em pessoas com menores níveis
de escolaridade, seguida pela renda. Devido a grande extensão e diversidade
social no Brasil, esses valores foram mais acentuados do que em outros países
(12).
Os dados refletem as desigualdades sociais (de renda e instrução) e de saúde
entre os dois grupos estudados. Estes indicadores podem ter contribuído para o
maior número de problemas de saúde referidos pelo Grupo A e estar interferindo
nas condições de vida e saúde deste grupo.
O nível de escolaridade associado ao desempenho de atividades cotidianas
interfere na percepção do estado de saúde das pessoas, já que a autonomia eleva
o grau de satisfação com a saúde e com a própria vida, especialmente entre
idosos(13).
Em relação àmorbidade referida pelos entrevistados, houve diferença na situação
de saúde entre os dois grupos. No Grupo A, um número menor de pessoas negou
adoecimento e apresentou maior proporção de agravos à saúde nos últimos 12
meses, em relação ao Grupo B. Estudos anteriores, desenvolvidos com outros
grupos populacionais do mesmo município, ao questionar a ocorrência de agravos
relacionados à saúde (deste domínio do WHOQOL), constatou que pouco mais da
metade dos entrevistados não apresentou problemas de saúde nos doze meses
anteriores(14). As principais causas de busca por serviços de saúde no
município foram, problemas respiratórios (gripe, amigdalite, infecção de vias
aéreas superiores, bronquite e pneumonia), seguidas dos sintomas mal definidos
(tosse, dor abdominal, cefaléia e vômito), osteomuscular, geniturinário,
digestivo, doença infecto-parasitárias, do aparelho circulatório, transtornos
mentais/comportamentais, doenças da pele e, de forma positiva, o acompanhamento
do pré-natal ao puerpério(8).
Por outro lado, mulheres de pescadores da região de Porto Rico associaram a
ocorrência de afecções respiratórias e parasitoses, principalmente, ao grupo
infanto-juvenil, doenças do aparelho circulatório e hipertensão em faixas
etárias mais avançadas e queixas de gripe, resfriado, dores de cabeça, nas
costas e pernas em adultos, como resultante da atividade pesqueira(7).
Esses conjuntos de informações indicam elevada ocorrência de hipertensão,
doenças respiratórias, parasitárias, cardíacas e infecções diversas. Tais
agravos à saúde podem estar associados às condições ambientais inadequadas,
decorrentes à falta de pavimentação no conjunto Flamingo, à ausência da rede de
esgoto no município e ao uso de agrotóxicos nas lavouras da região.
Estudo sobre a qualidade de vida em Palmas, TO, aponta que problemas na infra-
estrutura, devido à falta de pavimentação e de acesso ao esgotamento sanitário
trouxeram prejuízos à saúde daquela população, constatada pelo aumento de
infecções respiratórias e verminoses. Kran e Ferreira(15)argumentam que a falta
de pavimentação nos bairros prejudica a circulação de veículos para coleta de
lixo em dias chuvosos, gerando maus hábitos nos moradores que poluem o ambiente
ao lançar resíduos em terrenos baldios e vias públicas. No período seco, a
poeira causa problemas respiratórios e dificulta a higiene e conservação dos
domicílios, levando à insatisfação.
O aumento da expectativa de vida elevou a morbidade por doenças crônicas não-
transmissíveis que incapacitam pessoas de diversas faixas etárias. O
desenvolvimento de doenças crônicas ocupa papel central na meia-idade. A
morbidade e mortalidade por doenças crônicas predominam na época tardia,
coincidindo com a aposentadoria(16). O grupo da terceira idade é mais
vulnerável à comorbidade, especialmente daqueles agravos que provocam
incapacidades e dependências, necessitando de maior cuidado à saúde(17).
Apesar da faixa etária nos dois grupos estudados englobar pessoas mais jovens,
a presença de comorbidade também foi constatada. Entre os entrevistados, um dos
agravos à saúde mais relatados foi hipertensão, muitas vezes associada às
doenças circulatórias. Nos dois grupos, a hipertensão foi significativa e
acometeu pessoas na faixa etária de 40 a 49 anos. A freqüência de hipertensão
referida pelo Grupo A foi quase o dobro em relação ao Grupo B (30,4% para 17,5%
respectivamente).
A maioria das pessoas de meiaidade e idosas acabam desenvolvendo pelo menos uma
doença crônica, podendo chegar a oito ou mais. Mulheres referem mais agravos
dos que homens. A prevalência de doenças como hipertensão, artrite, déficit na
capacidade funcional, doenças do coração, diabetes, bronquite, doença renal,
câncer, cirrose e depressão têm sido descritas e associadas a comorbidade em
diversos estudos(11,14,18-19).
As queixas de depressão e problema nervoso foram mais freqüentes no Grupo A
(43,4%) que no Grupo B (25%). A depressão acometeu pessoas na faixa dos 30
anos, enquanto o problema nervoso entre 30 e 69 anos, sobretudo em mulheres. Um
dos fatores desses agravos à saúde pode ser decorrente da insatisfação com as
condições ambientais locais, como, a falta de pavimentação do conjunto demanda
maior esforço físico, a persistência para manter o ambiente limpo, o desemprego
e a falta de perspectivas. Estudo anterior, 19% de mulheres jovens (abaixo de
39 anos) atribuiu seu estado de depressão (...) à falta de disposição para o
desempenho de atividades diárias, (...) à falta de ocupação e às poucas
atividades de lazer existentes no município(14).
A literatura aponta que a depressão costuma acometer idosos, com maior
frequência em menores de 75 anos(18), por sentirem limitação no desenvolvimento
de atividades diárias. A depressão e os transtornos depressivos também merecem
atenção dos serviços e da sociedade, pela alta prevalência e impacto social.
"Pacientes deprimidos são freqüentadores assíduos de serviço de
atendimento primário, porém, muitas vezes não são diagnosticados como
tais"(11).
O alcoolismo é considerado um problema social e de saúde em Porto Rico. No
contexto cultural dos pescadores, pode ser considerado um hábito normal, mas no
domicilio, interfere na dinâmica e na estrutura familiar. O consumo frequente
de álcool pode causar "(...) dor de estômago e exacerba outras dores,
deixa a pessoa mais fragilizada e suscetível a doenças"(7). A queixa de
sangramento anal pode ser associada ao uso excessivo de medicamentos, aos
hábitos alimentares e ingestão de bebidas alcoólicas.
Fatores de risco relacionados ao estilo de vida como sedentarismo, tabagismo e
alimentação inadequada são "(...) responsáveis por mais de 50% do risco
total de desenvolver algum tipo de doença crônica, mostrando-se, nessa relação
causal, mais decisivos que a combinação de fatores genéticos e ambientais"
(20).
Em sendo assim, a adoção de medidas preventivas deve ser iniciada nos primeiros
anos de vida, como forma de prevenir doenças crônicas ao longo da vida, que
comprometem a autonomia e o envelhecer saudável. Nesse sentido, é fundamental
que os profissionais da saúde, inclusive "(...) a Enfermagem não esteja
focada somente na assistência ao idoso portador de doenças, mas que atue também
na promoção, manutenção e recuperação da saúde"(21) do ser humano nas
diversas etapas da vida.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O conhecimento sobre o nível de saúde e doença da população de Porto Rico é
fundamental para a elaboração de políticas públicas locais e de promoção da
saúde. O controle das doenças agudas ou crônicas, transmissíveis ou não, requer
maior divulgação de informações sobre os fatores de risco de adoecimento e
morte e dos cuidados para evitá-los.
Os resultados indicam a necessidade de rever programas voltados para a
prevenção de doenças e minimização dos fatores de risco, assim como a adoção de
hábitos saudáveis de vida para os moradores de Porto Rico e região.
A educação é um recurso fundamental para a melhoria das condições de vida e
saúde. Cabe aos profissionais da saúde e da educação disseminarem informações
sobre a importância da alimentação saudável, da prática de atividades físicas e
lazer, dos cuidados higiênicos pessoais e ambientais nos diversos cenários,
através de diversas atividades, tais como:
- Utilizar as estruturas já existentes no município, como a Casa da Família
(CRAS/PAIF) e a academia de Terceira Idade (ATI), inaugurada recentemente, para
incentivar e orientar os diversos grupos etários na adoção de hábitos de vida
saudável através da prática de exercícios físicos, lazer e alimentação
- Orientar os professores de todos os níveis de escolarização a direcionar seus
conteúdos para a criação de hábitos saudáveis de vida. Debater as conseqüências
do uso de bebidas alcoólicas e outras drogas, da violência, das doenças
sexualmente transmissíveis e da gravidez precoce na adolescência. E, sobretudo,
proporcionar às crianças e jovens, práticas desportivas e de recreação no
período do contra-turno escolar.
- Inserir acadêmicos em atividades de orientação, aos grupos de hipertensos,
diabéticos, gestação segura, de alcoolistas e usuários de drogas, desenvolvidas
nas escolas e na Unidade Básica de Saúde. A participação de acadêmicos, em
projetos de pesquisa e extensão multidisciplinares vinculados aos setores de
saúde e educação, é necessária, pois enriquece sua vivência em comunidade e
auxilia no processo de transformação da realidade.
Somente num esforço conjunto entre governantes, profissionais de saúde e
educação e a comunidade, é possível minimizar os efeitos das condições
ambientais adversas à saúde humana e melhorar o nível de saúde e a qualidade de
vida em Porto Rico.
Espera-se que a realização deste trabalho sirva como elemento direcionador e de
avaliação dos projetos de intervenção que deverão ser elaborados e
implementados como os próximos passos de atuação do GESA naquela região.