Apoio social à família do paciente com câncer: identificando caminhos e
direções
INTRODUÇÃO
Mudanças no sistema de cuidado à saúde têm ocorrido com o objetivo de
transferir os doentes com doenças crônicas avançadas do cuidado hospitalar para
o cuidado ambulatorial ou domiciliar. Aumentando a responsabilidade familiar
com o cuidado do membro doente. A família pode não estar preparada para assumir
o cuidado, necessitando ser informada sobre a doença e o tratamento, além de
receber instrução sobre habilidades técnicas para cuidar no domicílio. A rede e
o apoio social são recursos que a equipe de enfermagem pode oferecer para
melhoria da qualidade de vida das famílias, promovendo, fortalecendo e mantendo
o bem-estar das pessoas(1-2).
Embora interligados há diferenças entre os conceitos de apoio social e de rede
social(3). Rede social se refere à dimensão estrutural ou institucional
associada a um indivíduo como: vizinhança, organizações religiosas, sistema de
saúde e escola. Apoio social possui dimensão individual, sendo constituído
pelos membros da rede social que são efetivamente importantes para a pessoa(3-
4).
Rede social pode ser entendida como uma "teia de relações" que interligam os
indivíduos que possuem vínculos sociais entre si, permitindo que os recursos de
apoio fluam através desses vínculos, enquanto que apoio social possui a
dimensão informativa ou de recursos fornecidos por membros da rede gerando
efeitos físicos, emocionais e comportamentais benéficos(1).
O apoio social envolve relações de troca, as quais implicam obrigações
recíprocas e laços de dependência mútua que podem contribuir para criar
sensação de coerência e controle da vida, o que beneficiaria o estado de saúde
das pessoas(5).
A disponibilidade de certos recursos materiais, sociais e psicológicos pode ter
um papel crucial na decisão do familiar tanto em relação à continuidade do
cuidado em casa, quanto à efetividade do resultado. Assim, conhecer as
necessidades de apoio apontadas por famílias de doentes oncológicos e as formas
de apoio, intervenções e programas utilizados, auxilia na compreensão do tema e
favorece o planejamento de ações adequadas às necessidades da clientela.
OBJETIVO
Identificar e analisar artigos publicados sobre apoio social e família do
doente com câncer, sintetizando quais aspectos estão sendo estudados pelos
pesquisadores.
METODOLOGIA
O trabalho utilizou a técnica de revisão bibliográfica seguindo o referencial
metodológico de Salomon(6) que preconiza a realização sistematizada e
coordenada de uma revisão dos dados empíricos sobre um tema a partir das bases
de dados disponíveis. Na estratégia de busca optou-se pelas bases de dados:
Cochrane Library, Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde
(LILACS), PubMed, EMBASE (Excerpta Médica Database), CINAHL (Cummulative Index
to Nursing and Allied Health Literature), sendo incluída a biblioteca
eletrônica Scientific Electronic Library Online (SciELO), utilizando como
fatores de inclusão os artigos publicados no período de 1999 a 2008, nos
idiomas inglês, espanhol e português, em forma de texto completo, que estavam
disponíveis para acesso imediato, os demais foram excluídos da amostra. Para
efeito de melhor busca em cada base de dados foram utilizados descritores de
acordo com as especificações próprias. Em algumas bases de dados, o cruzamento
dos descritores controlados, próprios de cada uma delas, não trazia o tema de
interesse ou estava em número reduzido. Observou-se, por meio de busca não
sistematizada, que os artigos que se adequavam aos objetivos dessa revisão
foram indexados com outros descritores. Foram utilizados em cada base de dados
os descritores que traziam maior número de artigos sobre o tema de interesse.
Assim, na Cochrane foram utilizados os descritores neoplasms and family and
social support; na base Embase: cancer and family and social support; na base
LILACS: câncer e família; na biblioteca eletrônica SciELO: cancer and family
and caregivers; na base PubMed: neoplasms and family and caregivers; na base
Cinahl: neoplasms and caregivers and social support. O processo de extração de
dados foi feito conjuntamente pelas autoras de forma a prevenir vieses.
Para análise do material encontrado foram seguidos os tópicos: compreensão de
leitura, busca da idéia principal, elaboração de fichamento, crítica
bibliográfica e documentação científica(6). Com isso foram identificados nos
artigos: origem, idioma, data de publicação, enfoque metodológico, clientela
estudada e objetivo da pesquisa.
Os princípios éticos foram mantidos, respeitando-se os direitos autorais dos
autores, mediante a citação de cada um deles.
RESULTADOS
Foram localizados 51 artigos, sendo 34 (66,67%) de língua inglesa e destes 14
(41,17%) escritos por enfermeiros. Dos 16 (31,37%) artigos brasileiros, 11
(68,75%) foram publicados por enfermeiros. Apenas um dos artigos foi escrito na
língua espanhola (1,96%) por autores não enfermeiros. A ênfase metodológica
adotada em 70,00% dos trabalhos foi para a pesquisa quantitativa e 26,00% foram
publicados nos dois últimos anos.
Os temas abordados pelos artigos foram organizados em categorias e serão
discutidos, são eles: Cuidador familiar como provedor de apoio social; Fatores
que interferem no apoio social; Religiosidade como apoio social e O apoio
social proveniente de programas educativos, atividades grupais e recursos
tecnológicos.
Cuidador familiar como provedor de apoio social
É inquestionável a importância do cuidador na assistência à saúde do doente com
câncer, oferecendo cuidados diretos (higiene, alimentação), ou apoio indireto
(acompanhamento)(8). O cuidador familiar, embora leigo, assume a
responsabilidade pelas necessidades físicas e emocionais do outro que está
incapacitado de se cuidar(9), acatando que cabe à família a responsabilidade de
cuidar dos seus membros(8,10-11). No entanto, para a equipe de saúde, o foco de
atenção é o doente, cabendo aos cuidadores familiares apenas o papel de
recursos em benefício daquele(12).
A família do doente com câncer é apontada como a principal fonte de apoio para
o paciente(10) e o binômio paciente-cuidador considerado uma unidade de
atenção, por ser um "invisível sistema de cuidado da saúde"(13), onde o câncer
deve ser tratado como problema e questão familiar(14). O cuidador pode ser o
cônjuge, outros membros familiares e amigos próximos que, participando
ativamente, dão forma à experiência com a doença(15). A preocupação com o
cuidador familiar e a qualidade do cuidado prestado são essenciais, pois isso
terá um efeito significativo nos custos tanto para o sistema de cuidado à saúde
como para as famílias(16), já que o preparo do cuidador familiar leva a
diminuição das demandas médicas e de custos com tratamento hospitalar(17).
Pesquisas apontam que 25% da população dos Estados Unidos proveem cuidados para
algum membro familiar ou amigo com doença crônica terminal, gerando, muitas
vezes, abandono do emprego e perda de renda(14,16,18).
A família cuidadora necessita de dois tipos de apoio social: o apoio emocional/
instrumental (afeto, estima, companhia/aconselhamento, ajuda prática, ou
auxílio financeiro) e o apoio diário focado na orientação de problemas(19). O
apoio social pode ser entendido como uma forma de ajuda para membros familiares
aprenderem a priorizar e administrar os problemas e trabalhar colaborativamente
com o sistema de cuidado à saúde(16). Porém, há ausência de estratégias
efetivas para orientar os membros familiares, apesar de muito já se ter
estudado sobre a sobrecarga e a angústia deles. A maioria dos estudos aborda o
início da doença, o tratamento e os cuidados paliativos, os estudos são ainda
escassos sobre a doença crônica(16).
O cuidado de enfermagem compreensivo requer que cuidadores informais recebam
apoio e educação apropriados e preconiza esforços no controle dos custos do
tratamento, relação entre preparação e sobrecarga, programas e sistemas para
oferecer ao cuidador apoio informacional(9).
As demandas de cuidado do doente no domicílio podem ser de cuidado direto:
administração de medicação, cuidado de feridas e curativos, por exemplo;
cuidado indireto como: obtenção de medicamentos, agendamento de consultas ou
coordenação de cuidado; administração de sintomas e de conforto, com abordagens
não farmacológicas e relato dos efeitos indiretos e efetividade do tratamento;
necessidade de informação sobre a doença, tratamento, estratégias para
resolução de problemas e recursos da comunidade(16). O que mais preocupa o
familiar é o cuidado, como manter o conforto, quando informar mudança nas
condições e como lidar com equipamentos. A família também se preocupa em
equilibrar as demandas de cuidados com as outras responsabilidades e quer saber
o que o futuro reserva para ela e para o doente(16). As situações que pedem
atuação médica para ajudar a família do doente com câncer são: reconhecer as
sobrecargas do cuidador familiar; adequar a comunicação; assistir com tomada de
decisão; apoiar o cuidado domiciliar e ajudar o cuidador a reconhecer o luto.
Para tanto, é preciso conhecer melhor a situação de cuidador, implantando e
adequando medidas administrativas e técnicas compatíveis com a realidade.
Responder as perguntas: Quem é o cuidador? Que atributos trazem para a
experiência? Que impacto o diagnóstico teve na família? Qual a situação
financeira? ajudará nesse processo(20-21).
A família é afetada pela doença, e a dinâmica familiar afeta o paciente.
Depressão no paciente, por exemplo, prediz depressão no cuidador, e vice-versa
(22). O envolvimento prático e emocional das pessoas socialmente significantes
na jornada do paciente com câncer através da doença afeta suas próprias vidas,
às vezes de modo profundo(15), pois viver com o câncer envolve trabalho
adaptativo ou acomodação para transtornos e mudanças na família(23).
Apesar do papel fundamental, os cuidadores não são reconhecidos como pessoas
passando por processo doloroso e que precisam de ajuda, apoio e orientação(12).
Necessidades dos cuidadores podem ser descritas de acordo com os estressores:
intrapessoais (incertezas) e extrapessoais (transporte e finanças). Eles
definem suas dificuldades como sendo: sobrecarga, necessidades pessoais e
qualidade de vida(9,22).
Manifestando o desejo de manter a pessoa, o cuidador vivencia diferentes
situações, entre elas: aprendizado sobre a doença e o cuidado; culpa
relacionada ao cuidado, porque este demanda muita paciência; necessidade de
obter forças externas, como a religiosidade, e relações de convívio(24-25).
O papel de cuidador da pessoa com câncer além de afetar sua saúde mental,
causando: depressão, ansiedade, sobrecarga, conflito de papéis, incerteza,
erosão nos relacionamentos, entre outros problemas, também afeta sua saúde
física causando fadiga, declínio da saúde, falta de exercícios, nutrição
precária e necessidade de medicamentos(12,16,18,19,25-26). A origem dos
problemas pode estar na sobrecarga física, emocional e econômica dos cuidadores
familiares, levando muitos doentes a desejarem a própria morte por sentirem-se
sobrecarga para a família(15,27). Há forte relação entre saúde do cuidador e
grau de sobrecarga, o que está relacionado ao nível de preparo do mesmo(9).
Cuidadores apontam que gostariam de mais assistência do sistema de saúde para
ações específicas como o uso de estratégias não farmacológicas para alívio da
dor oncológica. O apoio de um sistema formal de cuidado ou de familiares é bem
vindo, mas muitas vezes é uma coisa a mais para se administrar. Conseguir ajuda
dos outros familiares pode ser difícil, se o cuidador não tem atividade
remunerada(16). Conhecer as medidas de suporte que protegem os cuidadores é de
extrema importância, para amenizar os fatores de risco a que estes estão
expostos(12,26), pois estudos revelaram alteração na saúde mental em 32% dos
cuidadores de doentes com câncer, com sinais para uma condição psiquiátrica
importante (13%) e/ou procura por serviços de saúde mental devido à preocupação
com o familiar (25%)(18). Esposas de pacientes com câncer apresentaram alto
risco para desordens psiquiátricas, especialmente durante a fase terminal da
doença(14). A sobrecarga psicológica do cuidador de paciente com câncer
avançado possibilitou o surgimento de síndrome do pânico, evidenciando a
necessidade de intervenções efetivas para aumentar a comunicação entre
profissionais de saúde e cuidadores sobre a necessidade de serviços em saúde
mental(14,18).
"Tensão devido ao papel de cuidador" e "Risco para tensão devido ao papel de
cuidador" foram os diagnósticos de enfermagem identificados em 50 cuidadores de
crianças com câncer, pois devido à necessidade de tomada de decisões nas
atividades da vida diária, são eles que sofrem desgastes(28).
Cuidadores de doentes com câncer descompensam com o tempo, esforçam-se para
cuidar, assumir as tarefas domésticas, a família, as responsabilidades
financeiras e suportar os danos, enquanto tentam suprir suas próprias
necessidades e manter uma rotina familiar normal(29,30). Sentem-se carentes de
informação, possuem diferentes necessidades de acordo com a fase da doença, com
as expectativas futuras e quanto ao cuidado(30).
Quando as famílias têm crianças pequenas ou têm pessoas idosas, oferecer um
apoio psicossocial mostra-se mais importante, pois no primeiro caso as famílias
têm a vida transtornada e lutam para manter a rotina das crianças e da família
o mais normal possível, e manter o otimismo(29), enquanto que pessoas
cuidadoras com mais de 60 anos possuem mais risco de mortalidade, pois há uma
tendência em desconsiderar o autocuidado levando à tensão emocional e mental
associada ao papel de cuidador(18,26). Fatores médicos e culturais, como
família menor, participação no trabalho, diminuição dos dias de hospitalização
e cobertura dos serviços de saúde em casa têm aumentado as responsabilidades da
família com o familiar doente(17). A atividade solitária e sem descanso dos
cuidadores pode leva-los ao isolamento afetivo e social(17,21).
Destaque especial para a mulher cuidadora tem sido dado, uma vez que a prática
de cuidar surge no âmbito domiciliário onde a família é reconhecida como a
fonte de cuidado para os membros dependentes. A figura feminina é eleita para
esse cuidado devido a parâmetros culturais já enraizados, que consideram o
cuidar uma atribuição feminina natural, ou seja, tomar conta, tratar para
garantir ou compensar as funções vitais de nascimento e morte(8,10,11). A
mulher cuidadora passa por dificuldades financeiras, exclusão social,
isolamento afetivo e depressão(14,18,20,26).
Esposas de pacientes com câncer enfrentam demandas físicas, sociais e
emocionais. As demandas físicas podem ir do aumento da fadiga à exaustão. As
atividades sociais frequentemente são restringidas. Tanto a antecipação da
morte quanto a perda podem levar à angústia psicológica, tornando-as
vulneráveis à depressão antes e após a morte. A depressão é associada com
prejuízo funcional, morbidade física e mortalidade e pode diminuir a qualidade
do cuidado prestado a outro. Fatores que influenciam a depressão nos cônjuges:
problemas conjugais e diminuição do nível de otimismo(31). Fatores relacionados
à angústia nas esposas incluem: baixa qualidade do casamento, empenho em evitar
enfrentamento, incerteza sobre a doença e falta de apoio social. As esposas que
buscam solução de problemas, procurando informação, comunicação aberta e
reavaliação positiva para enfrentar as situações, apresentam menos angústia
(32). O aumento da fadiga e dos problemas urinários, nos pacientes, trouxe
grande angústia e baixa qualidade de vida às esposas, sugerindo a necessidade
de aumentar o acesso à informação para provedores de cuidado, direcionando as
preocupações do casal e propiciando às esposas ajudar seus maridos oferecendo
apoio para suportar a experiência do câncer(33).
Fatores que interferem no apoio social
Os fatores que influenciam o foco de apoio e a percepção da qualidade do apoio
recebido pela família são: status socioeconômico, idade e gênero dos membros,
cultura, religião, tipo de família e situação do estresse(34-35). Os homens se
beneficiam mais do apoio de pessoas próximas como a esposa, mas quando a pessoa
doente é um filho pequeno, a mãe pode não conseguir dar o apoio necessário. No
caso de pai com criança pequena, parece haver pouca utilização do apoio social,
provavelmente pela necessidade de se ausentar do trabalho(34).
Cuidadores caracterizados como sendo mãe jovem, de baixa escolaridade,
desempregada e sentindo-se doente, estão mais vulneráveis quando seu membro
familiar tem diagnóstico recente de câncer de mama e ginecológico, é solteira,
com baixa escolaridade e emprego informal(13).
Esposas relataram que seus maridos, portadores de câncer de próstata,
experimentaram duradoura impotência ou incontinência, como resultado de receber
tratamento, e que esses efeitos colaterais, pelo menos inicialmente, causaram
transtorno na vida diária do casal. Também 18% dos homens tinham sequelas
psicossociais, incluindo evitar intimidade sexual, ansiedade por perda do
controle urinário em lugares públicos, senso de masculinidade prejudicado e
sintomas depressivos(23).
A avaliação de adoecimento, de recursos, suportes e riscos para o sofrimento,
nas fases da doença, diagnóstico, tratamento e cronicidade, demonstrou que as
esposas tiveram menos habilidade em gerenciar a doença do que os pacientes e
perceberam menos apoio através de todas as fases da doença, destacando a
necessidade de programas de atenção e cuidados para a mulher cuidadora(36).
Algumas tarefas são influenciadas por normas culturais, incluindo as derivadas
das tradições espirituais e religiosas. A família reproduz padrões culturais e
usa estratégias particulares de adaptação frente aos seus papéis e funções. O
cuidado geralmente é feito por uma mulher (cônjuge) devido à proximidade
afetiva e "dom natural de cuidar do ambiente doméstico"; já os homens ocupam-se
em fazer compras, deslocamentos e marcação de consultas(10). Assim, mulheres
imigrantes indianas, portadoras de câncer de mama, devido à doença estar
relacionada ao corpo da mulher, recebem de filhas e noras os cuidados íntimos,
como banho e massagem, enquanto que dos homens é esperado que sejam fortes e
forneçam apoio emocional e prático. Nessa cultura alguns deixam seus empregos,
suas vidas, sua pátria e até suas famílias, para cuidar de familiares doentes.
Os membros familiares se unem para cozinhar, fazer compras, limpar e cuidar das
crianças(11).
A religiosidade como apoio social
Na vigência da doença, a espiritualidade se apresenta como um apoio importante
na construção dos significados da vida para a família. A religiosidade pode
aumentar o apoio social, porque provê acesso às redes sociais e estabelece
formas de assistência, como cuidado espiritual nas fases de angústia aguda. O
suporte religioso inclui preces, procura de conforto de alguém da fé, obtenção
de apoio de membros da igreja e está associado à melhor saúde mental, melhor
adaptação psicológica dos pacientes e seus familiares com diminuição da
depressão. Extremos níveis de religiosidade foram associados ao aumento da
angústia, enquanto que níveis moderados foram associados à diminuição da
depressão(23,25,31).
As tradições espirituais foram consideradas como visão individual e operadas
como uma força cultural, desenvolvendo e sustentando a conexão com a comunidade
e com grupos de reforço espiritual, provendo oportunidade de dar e receber
apoio social. As mulheres chinesas que dividiam conhecimento sobre ervas
medicinais consideraram cuidar de outros como um bem-estar pessoal, e ajudar os
outros como parte de viver com fé e maturidade espiritual. Os profissionais de
saúde precisam ganhar compreensão cultural apurada sobre recursos baseados na
espiritualidade, usados em enfrentamento e adaptação para sobreviventes de
câncer avançado(23).
A religiosidade representa uma influência potencial no bem-estar emocional dos
cônjuges de doente com câncer que têm recebido escassa atenção(31) e aparece
como recurso para a esposa idosa adaptar-se à sobrevivência de longo-prazo do
marido com câncer de próstata. Para adaptarem-se aos desafios, elas buscam um
propósito e significado positivo na adversidade e contam com crenças e práticas
espirituais para enfrentar as mudanças e alcançar qualidade de vida. A
manutenção da crença e prática espiritual derivadas de uma religião organizada
e a prática de orações, meditação, leitura inspiracional e participação em
rituais e outras atividades fortalecem a conexão com o sagrado, a reflexão
crítica orientada e a aceitação da situação de forma mais maleável(23). Nesse
sentido, buscando forças na religiosidade, o cuidador sente-se acolhido pela
proteção de um ser superior que o acompanha e o ajuda a enfrentar os obstáculos
(25).
O apoio social proveniente de programas educativos, atividades grupais e
recursos tecnológicos
Os tipos de apoio que podem ser oferecidos são: instrumental, espiritual,
psicossocial, informacional, emocional e físico(35) e devem estar relacionados
a cada fase da doença e de acordo com cada perfil familiar, devendo ser
direcionados de um modo sensitivo(17). A falta de apoio social pode levar a
internações desnecessárias(37).
Intervenções psicoeducacionais melhoram a habilidade de enfrentamento, diminuem
a sobrecarga e aumentam a qualidade de vida do cuidador. Um Modelo Psicossocial
que prepara profissionais para que possam responder efetivamente às
necessidades dos cuidadores familiares, ensinando-os a cuidar do doente em
casa, compõe-se de: criatividade para distrair o paciente em relação à dor;
otimismo, planejamento e informação de especialista. A avaliação mostra aumento
da qualidade de vida e diminuição da sobrecarga entre os familiares, pois prevê
uma agenda de algumas horas por semana para o cuidador ter um tempo para o
autocuidado e descansar. Além disso, a intervenção propicia a recuperação mais
rápida da família após a morte do paciente(16,38). Cuidadores manifestam
preferências por programas para reduzir estresse, aprender técnicas de redução
de estresse focadas no corpo, na mente e corpo e construção de habilidade de
enfrentamento(39). Programas de arte criativa para pacientes e família mostram
redução do estresse, diminuem a ansiedade e aumentam emoções positivas(40),
enquanto que programas educacionais e de apoio, baseados em grupos, proveem
informação sobre doença e tratamento e ensinam habilidades de enfrentamento,
satisfazendo as necessidades do doente com câncer, seus familiares e amigos. Um
Programa Australiano de educação e apoio para pacientes com câncer, familiares
e amigos feito em seis sessões educacionais de 90 minutos semanais, mostrou
melhora do nível de ansiedade, conhecimento relacionado à doença e senso de
significado em suas vidas, com alta satisfação por parte dos participantes(41-
42).
Modelos de cuidado centrados na família podem ser apoios promissores para
mulheres com câncer de mama em tratamento(11). Esse modelo envolve a família no
cuidado e provê recursos para apoiar membros familiares, considerando o impacto
psicológico e social do câncer na família. Oferece apoio assegurando informação
e recursos para prótese de mama, peruca e sutiã para as pacientes.
Organizações beneficentes oferecem apoio e cuidado compreensivo, que proveem
esperança ao paciente e apoio ao cuidador. Em fóruns multidisciplinares, o
cuidador familiar reflete sobre a importância das questões psicológicas
enfrentadas pelo paciente, seus familiares e cuidadores e discute tipos de
intervenção de apoio e o papel do grupo formal, facilitando o enfrentamento e
redução da sensação de impotência. O doente é encorajado a identificar seus
próprios recursos para adaptação positiva e a procurar desenvolver um papel
ativo com a doença. São oferecidas aulas e sessões de: yoga, terapia mente-
corpo, relaxamento, hipnoterapia, orientação, nutrição e tratamentos
complementares visando a promover bem-estar físico e apoio psicológico e social
(43).
O Modelo de Sistema de Doença na Família(44), desenvolvido por universidades
americanas, oferece auxílio nos desafios e torna a pressão mais gerenciável,
atendendo as demandas psicossociais. Ele é baseado na perspectiva de esforço
orientado, tendo os relacionamentos familiares como recurso potencial e
enfatizando as possibilidades de adaptação e crescimento, e não apenas suas
responsabilidades e riscos. Para isso as famílias precisam aprender os padrões
e demandas, ganhar um conhecimento sistêmico sobre eles e apreciação do curso
de vida da família, do casal e dos indivíduos. As famílias precisam entender os
legados e crenças que guiam a construção dos significados sobre os problemas de
saúde e sua relação com o sistema de cuidado e provedores de cuidado à saúde.
A criação de uma central de informação sobre a assistência domiciliar pode
oferecer suporte 24 horas, por telefone, internet e outros meios de comunicação
à distância com: treinamento do responsável pelos cuidados; utilização de
tecnologia de apoio na realização dos cuidados ao paciente, visando à sua
independência total ou parcial e redução do desgaste físico do responsável pelo
cuidado; apoio psicológico aos cuidadores como meio de alívio ao estresse,
ansiedades, frustrações, revoltas, culpas e esgotamento físico e mental;
suporte no ambiente domiciliar, no sentido de promover o mais rapidamente
possível a condição funcional do doente(45).
Outro modelo de intervenção busca prover uma estrutura baseada no poder de
recuperação, usando linguagem comum que facilite a solução de problemas e que
contribua para a qualidade de vida dos familiares do doente com câncer. São
trabalhadas as questões: acalmando e evitando o desgaste físico e mental;
minimizando relacionamento distorcido e enviesado entre pacientes e familiares;
sustentando autonomia; preservando e redefinindo o desenvolvimento individual e
familiar, dentro das restrições da doença e sustentando a união diante das
perdas para enfrentar as questões de separação, morte, luto e reorganização
depois da perda(44).
O familiar cuidador despreparado e com pouca afinidade com o paciente, pode se
beneficiar de treinamento adicional e do trabalho social, que encaminha a
família à psicoterapia de apoio(45-46) e breve intervenção psicológica com
familiares de crianças com câncer, recém-diagnosticadas(47), direciona as
necessidades da família em um momento crítico e provê intervenção com abordagem
cognitivo-comportamental em terapia familiar. Há um assistente social designado
para atender cada família em um encontro inicial e prover recursos e informação
suplementar sobre o diagnóstico e tratamento, oferecendo apoio por serviços
especializados em crianças, incluindo médico, psicólogos e educação, arte,
musicoterapia, e assistência nos procedimentos. O objetivo é contribuir para a
prevenção e redução de sintomas de stress pós-traumático em pais(47).
Os pacientes precisam sentir-se ativos e contribuintes para com a família e a
sociedade, seguindo seu desejo de luta para retornar ao trabalho e sustentar a
família que é seu principal motivador para continuidade do tratamento. Os
programas de reabilitação educativos, exercícios físicos e atividades
voluntárias são muito importantes para a recuperação. Os pacientes requerem
assistência emocional, legal, financeira e conselhos práticos para resolver
seus problemas domésticos(48).
A internet tem sido largamente usada como recurso para acessar informação e
apoio, embora as informações nem sempre sejam precisas e confiáveis. Um estudo
revelou o uso desse recurso uma a duas vezes ao dia. O desenvolvimento de um
protótipo utilizando a internet para comunicação família-provedor e família-
família de cuidadores de crianças com câncer ofereceu uma abordagem inovadora
para assistir cuidadores familiares no encontro de informações atuais e na
necessidade de comunicação(49-50).
O uso do telefone para intervenções na saúde tem ganhado aceitação como método
de busca por um número de grupos vulneráveis. Um programa desse tipo objetiva
aumentar a habilidade do familiar no enfrentamento dos estressores que resultam
da doença em um membro da família(51). A consulta é feita por enfermeiras
intervencionistas aos familiares de pacientes com câncer avançado, para saber
suas principais preocupações. Os familiares se sentem confortados quando
enfermeiras demonstram preocupação com o bem-estar do cuidador e reconhecem as
dificuldades por eles experienciadas. Essas intervenções permitem identificar:
peso da sobrecarga; sentimentos de angústia; maneiras de enfrentamento; bem-
estar condicionado (à pessoa amada) e sentimentos de abandono pelos outros(51).
Uma instituição beneficente tem reconhecido a necessidade de ouvir cuidadores
de pacientes com câncer oferecendo apoio e informação, além de conduzir várias
atividades para consciência sobre a doença(52). Em eventos para celebração das
conquistas, familiares dos pacientes são encorajados a discutir suas
necessidades. Algumas das dificuldades que eles incluem são: não compreender
efeitos colaterais do tratamento; manter o trabalho de cuidador em tempo
integral; o impacto de cuidar na vida social própria; não saber quem contatar
para ajudar; estresse criado dentro da família (composto por dificuldades
conjugais pré-existentes ou problemas de família).
Os elementos de apoio identificados por mães são: rede, esclarecimento sobre
doença e tratamento, crença religiosa, família, equipe de saúde e amigos. O
estreitamento das relações conjugais é um importante recurso para unir forças e
cuidar dos filhos, além de dividir a sobrecarga vivida com a doença,
proporcionando conforto aos familiares. Outro recurso utilizado para enfrentar
a situação no convívio diário no hospital surge a partir das amizades criadas
neste ambiente. De modo especial, a equidade, o profissionalismo, a dedicação e
o carinho da equipe de saúde se revertem em mais um suporte(53).
A maioria dos estudos parte do pressuposto de que independentemente do programa
de apoio adotado, a família deve participar do tratamento e receber suporte não
apenas para aprender a cuidar do paciente, mas, sobretudo, para enfrentar,
compreender e compartilhar a situação de doença e/ou deficiência, e conseguir
lidar mais adequadamente com seus próprios problemas, conflitos, medo e aumento
das responsabilidades(12).
Faz-se necessário planejar estratégias de enfrentamento em programas
específicos como home care e cuidado paliativo. A recente redefinição de
cuidados paliativos da Organização Mundial de Saúde incorpora, além da já
preconizada busca de qualidade de vida dos familiares do paciente com doença
avançada, o suporte a estes familiares no período de enfrentamento da doença e,
se necessário, durante a fase de luto(26). De uma maneira geral os autores
apontam que a família avalia como sendo importante o apoio social recebido
(19,34) e consideram que o apoio foi maior na fase do diagnóstico da doença,
quando a angústia familiar estava em níveis altos, decrescendo com o passar do
tempo, embora ainda fosse necessário(34).
Programa educativo adotado na Europa foi avaliado com alta satisfação pelos
participantes, com utilidade e compreensão do material de aprendizado, aumento
do conhecimento da doença e tratamento, diminuição da confusão e ansiedade,
aumento da confiança e habilidades de enfrentamento(42).
Pais de crianças e adolescentes com câncer avaliaram os serviços de apoio(54-
55) e apontaram satisfação com a equipe de saúde e de enfermagem, mas assinalam
insatisfação com a falta de abordagem específica para a idade do filho e a
forma do apoio emocional e informação recebida. Segundo alguns pais, o apoio
psicossocial deve ser multidisciplinar e envolver todos os membros familiares,
sendo importante quando bem dirigido e adaptado para crianças e família, guiado
na visão holística, de acordo com a idade da criança e a fase da doença. As
crianças precisam de suporte prático e rápido quanto à escola e informação
sobre a doença e o tratamento(54).
Quando a criança está em um programa de cuidados paliativos os pais consideram
a necessidade de os profissionais de saúde entender melhor esse tipo de cuidado
e os fatores que contribuem para um relacionamento aberto, honesto e autêntico.
O controle da progressão da doença na criança tem profundo efeito nas famílias
que são afetadas emocional, psicológica e financeiramente alterando a estrutura
e organização das mesmas, de forma permanente(55).
No programa de cuidados paliativos, a habilidade dos pais para enfrentar
estressores pode depender do apoio disponível ao cuidado, considerado benéfico
para a criança e familiares por encorajá-los a viver tão bem quanto possível.
Inclusive o foco do apoio ao cuidado tem mudado de "criança morrendo" para
"criança e família vivendo com câncer e futuro incerto". Os pais sugerem
suporte informacional e emocional. Eles querem informações escritas para quando
os profissionais não estiverem disponíveis e querem estar envolvidos nas
tomadas de decisão. Também consideram importantes as estratégias de
enfrentamento para o momento do diagnóstico e gostariam de ter profissionais
disponíveis para responder a suas perguntas e encaminhá-los ao psicoterapeuta
quando necessário(35). Outros pais avaliam menor disponibilidade para o
trabalho e consequente diminuição da renda familiar e aumento da demanda de
ajuda nas tarefas do dia-a-dia, quando há presença de dor na criança com
câncer, devido ao sofrimento que isso causa. Esse sofrimento aumenta
principalmente quando há a percepção de que a equipe não leva a sério a dor de
seu filho. Esses pais procuram apoio para seus problemas físicos, tais como:
dificuldade para dormir, pesadelo, fadiga, entre outros. A busca pela
religiosidade e o apoio de amigos, de grupos de pais de crianças com câncer, de
outras crianças e crianças com câncer e de profissionais de saúde,
principalmente da enfermagem, foi considerada de grande ajuda para criar
habilidade de enfrentamento(35). A dificuldade na comunicação com os
profissionais de saúde foi relatada por pais de crianças com câncer, devido ao
uso de termos técnicos na linguagem. Eles gostariam que a comunicação fosse
inclusiva (35,55) e que suas crianças fossem incluídas nas tomadas de decisão,
apesar de isso depender da idade delas, embora muitos pais sejam incapazes de
reconhecer ou discutir o estágio terminal da doença da criança na presença da
dela. Os pais veem o cuidado paliativo como a retirada do serviço de cuidado à
saúde e dos profissionais (o começo do fim, ou substituição do conhecido pelo
desconhecido). Consideram a experiência "pavorosa"(55). A avaliação das
estratégias de enfrentamento e de apoio adotadas pela criança e pelos pais,
para lidar com o diagnóstico e tratamento, apontou que os pais que tiveram
apoio de familiares souberam lidar melhor com o estresse psicológico, com
questões financeiras e com mudanças de papéis advindas da doença(56).
Familiares e amigos são identificados como medidas de suporte essenciais(57) e
frequentemente utilizados para ajudar nos cuidados ou mesmo ficar com os irmãos
de crianças com câncer. Os pais apreciam o fato de o oncologista permitir o
cuidado em casa, embora precisem pedir assistência de enfermagem para cuidados
complexos com a criança. Eles não querem falsas esperanças que levem a
desapontamentos e surpresas, eles querem gestos de gentileza do profissional.
Desejam que o médico fale a verdade, mas com compaixão, deixando subentendido
que a criança irá morrer, mas não dizendo abertamente. Eles valorizam a
continuidade do cuidado de enfermagem e sentem conforto quando a enfermeira
trata a criança como uma pessoa(55).
Pais de adolescentes com câncer associam a esperança com a qualidade de vida,
pois a esperança os ajuda a direcionar o futuro e lidar com o sofrimento. A
esperança é avaliada como um fator positivo que sustenta a vida, leva a aceitar
a situação e ajuda os pais a sobreviverem à morte de filhos adolescentes(58).
Já foram considerados como incentivadores da esperança: a personalidade
positiva do adolescente, a espiritualidade, a melhora do quadro clínico, a
presença de bons profissionais, os bons recursos econômicos, o bom humor, o
apoio de outros pais e a presença do animal de estimação. Foram considerados
comprometedores da esperança: a deteriorização da saúde do adolescente, os
aspectos negativos do tratamento, como a quimioterapia, a falta de condições
econômicas e o abandono do filho por amigos e namorados(58).
Os pais percebem que a criança não responde ao tratamento antes do médico e
apresentam reações de choque e descrença na tentativa de encontrar uma
explicação para o inexplicável e desconhecido, ou reagem na tentativa de não
demonstrar o sofrimento, fazendo uma suspensão da vida pessoal e de seus
interesses ou, ainda, tendo senso de esperança, justaposto à incerteza e
apreensão(23).
DISCUSSÃO
Em relação à metodologia utilizada, dos trabalhos encontrados, 70% aplicaram o
método quantitativo. Ao primeiro olhar, podemos considerar este fato
contraditório, pois estudo recente(59) comprova a tendência internacional da
utilização do método de pesquisa qualitativo na área da enfermagem. Porém,
encontramos nestes artigos autores de diversas áreas da saúde, e não somente
enfermeiros, o que pode explicar esta aparente contradição.
A categoriaCuidador familiar como provedor de apoio social foi a que se
apresentou mais rica em relação ao conteúdo produzido sobre o tema. Chama a
atenção que na sua maioria os estudos são de origem estrangeira e enfocam a
preocupação com o cuidador familiar e as conseqüências da sobrecarga que o
cuidado de um doente com câncer traz. Esse também é um dos grandes problemas em
nossa realidade brasileira visto que não há uma preocupação com o preparo
instrumental da família para o cuidado no domicílio(60).
Os autores revelaram os Fatores que interferem no apoio social e baseados neste
conhecimento, os enfermeiros podem planejar intervenções e facilitar o apoio
desejado pela família. Estudiosos avaliam que o apoio social tem um papel
importante na manutenção da saúde e na prevenção de doenças uma vez que
conferem a pessoa mais satisfação com a vida e aumentando o bem estar subjetivo
(61). Assim, pode-se considerar que a redução ou ausência de apoio social, pode
afetar o organismo, fazendo com que o indivíduo se torne mais suscetível ao
estresse. Em momentos de muito estresse, o apoio social contribui para manter a
saúde das pessoas, pois desempenha uma função mediadora(62).
Embora a categoria A religiosidade como apoio social não apresente muitos
artigos publicados ela merece destaque por apresentar peculiaridades
importantes relacionadas a dois aspectos. O primeiro tendo em vista uma das
bases da assistência de enfermagem que preconiza o atendimento do ser humano
como um todo dinâmico(63) e a outra relacionada a uma conecção importante entre
o câncer e o Absoluto(64), isto porque, há sempre um questionamento em relação
à finitude relacionada ao câncer e tudo que o homem não consegue explicação por
meios lógicos acaba remetendo ao sagrado. Estudos apontam que tanto o doente
como a família encontram na espiritualidade respostas para seus anseios e
suporte para enfrentamento da doença(64).
Os artigos de enfermeiros provenientes de outros países dão ênfase para O apoio
social proveniente de programas educativos, atividades grupais e recursos
tecnológicos para a família do doente com câncer, além de avaliar as
necessidades e experiências dessas famílias. Porém nos artigos de enfermeiros
brasileiros há uma maior preocupação quanto à definição de conceitos e à
identificação das necessidades das famílias do doente com câncer, visando ao
planejamento de intervenções.
Devemos observar que a realidade brasileira difere da que se apresenta em
outros países. No Brasil, somente em 1994, o Ministério da Saúde instituiu o
Programa Saúde da Família (PSF), entendido como estratégia do modelo de atenção
básica à saúde, onde a equipe de saúde da família é um dos pontos de atenção da
rede horizontal do sistema municipal de saúde(65). E é neste contexto, onde
ainda vivemos um momento de mudanças, aprendendo cuidar da família, que os
autores brasileiros vivenciam seus questionamentos e tentam compreender os
conceitos relativos a estes cuidados. Enquanto em outros países, como Espanha e
Canadá, há uma outra realidade, onde esse modelo assistencial na área da Saúde
já está consolidado(66).
CONCLUSÃO
A tendência atual das políticas públicas é a da permanência dos doentes para
cuidado no domicílio, tanto nas doenças crônico-degenerativas, quanto nas
situações de cuidados paliativos. Isso se deve, em parte, à preocupação com a
redução dos custos decorrentes da assistência hospitalar, bem como à
importância atribuída à estimulação de vínculos entre doente e família no
ambiente domiciliar. As intervenções dos profissionais da saúde junto à família
podem reduzir internações desnecessárias. As redes de apoio permitem a
distribuição de recursos para famílias em situação de carência e a disseminação
da noção de cidadania.
Grande parte dos pesquisadores identifica como medidas de suporte essenciais: a
própria família do doente, os amigos, bem como os serviços de assistência
social e de saúde que compõem uma rede de apoio. Segundo os autores, quando o
suporte se dá de maneira precária, o cuidador vivencia uma intensificação do
seu desgaste pessoal que, habitualmente, já cresce à medida que o agravo da
saúde do doente se instala. Eles também assinalam preocupação com o cuidador
familiar e com programas educacionais visando ao cuidado tanto do doente quanto
do cuidador familiar.
A revisão realizada permitiu sintetizar o conhecimento disponível, de modo a
auxiliar enfermeiros e outros profissionais de saúde no cuidado de pessoas com
câncer e seus familiares. Houve a identificação de deficiência nas publicações
nacionais relativas a intervenções, programas e recursos tecnológicos que podem
ser oferecidos às famílias, apontando para a necessidade de incrementar
pesquisas em nosso meio visando a subsidiar ações efetivas de apoio à família
do doente com câncer.