Modelos aplicados às atividades de educação em saúde
INTRODUÇÃO
A educação deve contribuir para auto-formação do indivíduo, de modo a ensinar a
assumir a condição humana, ensinar a viver e ensinar como se tornar cidadão(1).
A civilização ocidental desenvolveu uma forma de pensar e agir que se tornou
predominante no mundo moderno, a racionalidade técnica, com grande valorização
do conhecimento científico(2).
Atribui-se uma importância suprema ao "conteúdo da matéria", esperando que os
educandos o absorvam sem modificações e o reproduzam fielmente. Este modelo de
educação, caracterizado pela transmissão do conhecimento e experiência do
professor, é denominada de educação bancária. Conseqüentemente, o educando é
passivo, tomador de notas, exímio memorizador, preferindo manejar conceitos
abstratos a resolver de forma original e criadora problemas da realidade em que
vive(3-4). Tal concepção, bancária, caracteriza o Modelo Tradicional de
Educação.
Entretanto, aprender é uma atividade que acontece no educando, sendo estimulada
pelo educador. Ninguém pode aprender por outro. Ensinar não é o mesmo que
aprender, deste modo se o educando não aprender, todo o esforço para ensiná-lo
estará perdido(3).
A educação como prática da dominação, que mantêm a ingenuidade dos educandos,
pretendendo doutriná-los no sentindo de sua acomodação ao mundo da opressão,
vem sendo objeto de crítica(4).
Nesse sentido, o ato de educar já não pode ser o ato de depositar ou de narrar
ou de transferir, ou de transmitir conhecimentos e valores aos educandos, mas
um ato cognoscente, cedendo lugar para a educação problematizadora, que sugere
a superação da contradição educador-educandos(4).
A educação "problematizadora" parte do princípio que uma pessoa somente conhece
bem algo quando o transforma, sendo transformada também no processo(3). Tal
modelo de educação pode ser referido como Modelo Dialógico, por ser o diálogo
seu instrumento essencial(4).
A educação em saúde deve ser compreendida como uma proposta que tem como
finalidade desenvolver no indivíduo e no grupo a capacidade de analisar de
forma crítica a sua realidade, como também, de decidir ações conjuntas para
resolver problemas e modificar situações, de modo a organizar e realizar a ação
e de avaliá-la com espírito crítico(5).
Apesar de estar bastante difundido entre os profissionais de saúde, o
conhecimento crítico que questiona as intervenções baseadas, restritamente, nas
dimensões biológicas dos problemas de saúde, havendo ainda um amplo
reconhecimento da importância de mudanças subjetivas, sociais e ambientais para
a superação destes problemas, parece que estas discussões não estão sendo
revertidas para ações práticas(6).
Diante disso, indaga-se sobre a razão pela qual o modelo tradicional pode ainda
prevalecer sobre o Modelo Dialógico durante as atividades de Educação em Saúde.
Alguns autores citam a aplicação do Modelo Tradicional nas atividades de
Educação em Saúde como Moura e Souza(7), Santos(5), Bessen et al(8) e outros a
utilização do Modelo Dialógico como Alvim e Ferreira(9), Frota et al(10) e
Toledo et al(11).
Entretanto, há uma escassez de estudos que abordem de forma sistemática os
modelos educacionais utilizados nas atividades de Educação em Saúde. O
conhecimento desses modelos se faz necessário para que as atividades de
Educação em Saúde possam ser estruturadas a fim de alcançar os seus objetivos.
O objetivo desse trabalho foi realizar uma revisão de forma reflexiva da
literatura sobre os modelos de Educação Tradicional e Dialógico aplicados às
atividades de Educação em Saúde.
METODOLOGIA
Foi realizada uma revisão de literatura a partir das publicações disponíveis
nas principais bases de dados: Bireme, Medline e Scielo, utilizando palavras-
chaves "Modelos de Educação" e "Educação em Saúde", referentes ao período de
2004 a 2008. Foi ainda utilizado como referenciais livros-textos contemporâneos
de especialistas da área de educação sobre tais temas. Após a pesquisa
bibliográfica, foi feita a seleção e leitura dos artigos e livros-textos, de
forma reflexiva, buscando identificar concepções teóricas, vantagens e
desvantagens e aplicação de cada modelo.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Modelo Tradicional de Educação em Saúde
O modelo tradicional de Educação em Saúde corresponde a forma de educar
conceituada por Freire(4) como educação bancária, em que o papel do educador
consiste em "encher" os educandos de conteúdos, fazendo depósitos de
comunicados. Nesta visão, os homens são seres passivos, de forma que cabe a
educação adaptálos à realidade.
Neste modelo de educação, considera-se que quanto mais se ensina mais se sabe
(12). Tem-se o que Morin(1) caracteriza de uma cabeça bem cheia, em que o saber
é acumulado e empilhado.
Nesta forma de educar, formam-se indivíduos medíocres, em que não há estímulo
para a criação, sendo o educador também considerado medíocre porque não é
adaptável e não busca outros conhecimentos, uma vez que não é desafiado pelos
educandos. A educação ainda permanece verticalizada, com o educador sendo
considerado um ser superior que ensina ao ignorante(12).
Ao fazer isto, ao obstaculizar a atuação dos homens, como sujeitos de sua ação,
frusta-os. Quando se sentem incapazes de usar as suas capacidades, sofrem(4).
Historicamente, sempre houve uma tendência a estruturar as ações educativas em
saúde no sentido de ampliar informações da população sobre os principais danos/
agravos. Para tanto, inúmeras recomendações sobre comportamentos "certos" ou
"errados" relacionados à vivência das doenças e à sua prevenção eram
disseminados à população(13), caracterizando o Modelo Tradicional de Educação
em Saúde.
Os indivíduos são considerados como carentes de informação em saúde. A relação
estabelecida entre educador e educando é essencialmente assimétrica, já que um
detém um saber técnico-científico, com status de verdade, enquanto o outro
precisa ser devidamente informado A comunicação caracteriza-se pelo caráter
informativo, na qual o educador, assumindo uma atitude paternalista, explicita
ao educando, hábitos e comportamentos saudáveis, o que fazer e como fazer para
a manutenção da saúde(14). Não há aquisição de conhecimento, mas a memorização
do conteúdo narrado pelo educador(4).
Há hiatos enormes entre a realidade de vida do educando e dos profissionais de
saúde, tendo este último, em geral, dificuldades de traduzir e interpretar a
realidade do primeiro(5), visto que não realiza uma reflexão sobre a realidade
local(7). O educando vai agir de acordo com suas crenças e realidades, por isto
que, por melhor que a prática educativa em saúde possa ser, ao não se
considerar estes aspectos, pode ser uma ação esvaziada em si(5).
Tem-se um estilo de pensamento curativista, com foco nas patologias,
apresentando uma relação profissional-paciente impositiva(8). Preconiza que a
prevenção das doenças prima pela mudança de atitudes e comportamentos
individuais(14).
Em estudo realizado com os profissionais de saúde da Estratégia Saúde da
Família (ESF), que realizam as atividades de Educação em Saúde(8), verificou-se
que, além de centrar-se na doença, a educação em saúde, segue um modelo
tradicional de imposição de conhecimentos, tratando a população de forma
passiva, transmitindo conhecimentos técnicos sobre as patologias e como cuidar
da saúde, desconsiderando o seu saber popular e as suas condições de vida.
Muitas vezes, há culpabilização do próprio paciente por sua doença.
No modelo tradicional, os educadores são os autores e os atores do processo; os
educandos, seus objetos. Os educadores modelam; os educandos são modelados. Os
educadores optam; os educandos seguem a opção do educador. Os educadores atuam;
os educandos têm a ilusão de que atuam, na atuação dos invasores(4).
Este modelo de educação objetiva fundamentalmente produzir um aumento de
conhecimento nos educandos, sem preocupar-se com o indivíduo como ser integral
e como membro da comunidade(3).
A reflexão da literatura aponta que este modelo tem como vantagem proporcionar
para a população o conhecimento produzido cientificamente, com aquisição de
conteúdos e ampliação de informações sobre o seu dano/agravo. Como
desvantagens, têm-se um relacionamento verticalizado entre educador e educando;
a formação de um indivíduo passivo, mero receptor de informações, que pode não
saber aplicá-las a sua realidade, já que esta não é considerada pelo
profissional, durante as atividades de Educação em Saúde.
Considerando os princípios do Modelo tradicional de Educação em Saúde,
acredita-se que o mesmo possa ser aplicado a projetos e capacitações de
abrangência nacional, em que há grupos com um alto número de participantes, que
necessitam ser sensibilizados, sem necessariamente mudança de prática.
Modelo Dialógico de Educação em Saúde
Para que uma atividade seja geradora de aprendizagem, é necessário que a
situação desafie o indivíduo, de modo que ele tenha a necessidade de aceitar
esse desafio e que isso esteja dentro de seus meios, ao preço de uma
aprendizagem nova mais acessível(15).
A transferência é definida como a capacidade de um sujeito reinvestir suas
aquisições cognitivas. Toda aprendizagem seria totalmente inútil, sem um mínimo
de transferência, visto que corresponderia a uma situação passada e não
reprodutível em sua singularidade. Seria possível distinguir uma transferência
banal, automática, de uma transferência problemática que exige esforço e
trabalho cognitivo, porque mobiliza aquisições construídas em situações
nitidamente diferenciadas(15).
Os programas de ensino não têm sido feitos de forma a favorecer o debate,
apesar das declarações de intenção, visto que são sobrecarregados e induzem os
educadores a privilegiar a transmissão eficaz de conhecimento em detrimento de
uma construção comum em um debate(16).
Contrariamente, á educação tradicional, a pretensão de toda educação é preparar
os indivíduos para reinvestirem suas aquisições em contextos variados, em
situações de vida cotidiana(15).
No modelo dialógico de educação, a solução de problemas implica na participação
ativa e no diálogo constante entre educandos e educadores. A aprendizagem deve
ser idealizada como resposta natural do educando ao desafio de uma situação-
problema(3).
O educador já não é mais o que apenas educa, mas o que enquanto educa, é
educado, em diálogo com o educando que, ao ser educado, também educa. Ambos,
assim se tornam sujeitos do processo em que crescem juntos e em que os
argumentos de autoridade já não valem(4).
Faz-se necessário dispor de uma aptidão geral para colocar e tratar os
problemas e de princípios organizadores que permitam ligar os saberes e lhes
dar sentido, caracterizando uma cabeça bem-feita. Uma cabeça bem-feita é apta a
organizar os conhecimentos e desta forma evitar sua acumulação estéril(1).
As competências são construídas, através de um treinamento. Aprende-se fazendo,
por meio de uma prática reflexiva, com um apoio, uma regulação e um
acompanhamento individual(16) .
Por outro lado, no Modelo Dialógico de Educação em Saúde, o indivíduo é
reconhecido sujeito portador de um saber, que embora distinto do saber técnico-
científico não é deslegitimado pelos serviços. Em um modelo dialógico e
participativo, todos, profissionais e usuários, atuam como iguais, ainda que
com papéis diferenciados(14).
Os educandos devem ser vistos como agentes/co-produtores de um processo
educativo. Possuem uma dupla dimensão no processo: são ao mesmo tempo objetos
de trabalho dos agentes educativos e sujeitos de sua própria educação(11),
tendo o educador problematizador, o papel de proporcionar, com os educandos, as
condições em que se dê a superação do conhecimento(1).
A abordagem crítico-reflexiva torna-se pertinente, porque discute a ação
educativa de forma inovadora, centrada no diálogo entre o educador e o educando
(9).
Em estudo realizado sobre educação popular em saúde no cuidado à criança
desnutrida(10), reconheceu-se que as práticas educativas devem permitir aos
indivíduos-sujeitos sociais, históricos e culturais, a oportunidade de conhecer
e reconhecer a obtenção de destreza para a tomada de decisões, a fim de se
obter uma melhor qualidade de vida.
O modelo dialógico de Educação em Saúde tem sido associado a mudanças
duradouras de hábitos e de comportamentos para a saúde, já que é responsável
pela construção de novos sentidos e significados individuais e coletivos sobre
o processo saúde-doença-cuidado(14).
A partir do momento em que o indivíduo se descobre sujeito, deixando para traz
a ignorância sobre a sua situação de oprimido, torna-se ator de práticas
realmente libertadoras, comprometendose, com a sua transformação(4).
O educando deve ser reconhecido como sujeito portador de um saber sobre o
processo saúde-doença-cuidado, sendo capaz de estabelecer uma interlocução
dialógica com o serviço de saúde e de desenvolver uma análise crítica sobre a
realidade e o aperfeiçoamento das estratégias de enfrentamento e luta(11).
Torna-se importante que se amplie a participação da pessoa cuidada como co-
responsável pelas ações de saúde(9). As práticas educativas devem permitir aos
indivíduos-sujeitos sociais, históricos e culturais, a oportunidade de conhecer
e reconhecer a obtenção de destreza para a tomada de decisões, na busca de uma
melhor qualidade de vida(10).
As formas tradicionais de aprendizagem não desapareceram absolutamente(15).
Observou-se em um estudo com os profissionais de saúde da ESF(8), que estes não
conseguem se despir do rigor do conhecimento científico considerado como
verdade absoluta e única a ser inserida no conhecimento dos indivíduos, apesar
de reconhecer a necessidade de considerar o conhecimento do paciente e sua
cultura.
À luz da literatura, o Modelo Dialógico de Educação em Saúde apresenta como
vantagens a construção coletiva do conhecimento, proporcionando aos indivíduos
uma visão crítica-reflexiva da sua realidade, co-responsabilizando-o e
capacitando-o para a tomada de decisões relativas à sua saúde. Apresenta como
desvantagem a falta de conhecimento e capacitação dos profissionais para a
aplicação deste modelo durante as atividades de Educação em Saúde.
A partir dos princípios do Modelo Dialógico de Educação em Saúde, entende-se
que o mesmo deva ser utilizado para trabalhar com grupos com menor número de
participantes, em que se faz necessária a mudança duradoura de comportamento e
atitudes de promoção de saúde, em que se busca a autonomia do indivíduo.
O quadro_1 é uma síntese das concepções, vantagens, desvantagens e aplicações
de cada modelo educativo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Modelo Tradicional de Educação em Saúde está fortemente enraizado nas
práticas educativas realizadas pelos profissionais de saúde. Neste modelo, a
transmissão do conhecimento técnico-científico é privilegiada, sendo o educador
o detentor do saber e o educando um depósito a ser preenchido pelo educador.
Entretanto, está bastante difundido o conhecimento crítico que questiona a
efetividade destas práticas. Contudo, pouco se tem feito para a transformação
dessa realidade.
O Modelo Dialógico de Educação em Saúde propõe a construção do conhecimento,
que deve ser pautado no diálogo, em que o educador e educando assumem papel
ativo no processo de aprendizagem, através de uma abordagem crítico-reflexiva
da realidade.
A aplicação dos princípios do Modelo Dialógico de Educação, nas práticas
educativas em saúde, constitui um grande desafio, já que muitos profissionais
de saúde podem não ter conhecimento sobre esse modelo, outros não foram
capacitados para aplicá-los a sua prática.
Durante as atividades de Educação em Saúde pode haver uma mistura dos dois
modelos educativos: Tradicional e Dialógico, na tentativa de superação do
primeiro, já que o mesmo ainda apresentase fortemente inserido na prática
profissional.
Há que se considerar que a aplicação destes dois modelos educativos deve ser
feita de acordo com o contexto em que se está trabalhando, não sendo
excludentes.