Trajetória de Edith Magalhães Fraenkel
HISTÓRIA DA ENFERMAGEM
Trajetória de Edith Magalhães Fraenkel
The trajectory of Edith Magalhães Fraenkel
La trayectoria de Edith Magalhães Fraenkel
Joel Rolim ManciaI; Maria Itayra Coelho Souza PadilhaII
IEnfermeiro. Mestre em Enfermagem. Aluno do Curso de Doutorado em Enfermagem da
Universidade Federal de Santa Catarina. Professor Substituto da Escola de
Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Servidor Público da
prefeitura Municipal de Porto Alegre, Porto Alegre, SP. Membro do Grupo de
pesquisa GEHCE
IIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Professor Adjunto do Departamento de
Enfermagem e Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC.Pesquisadora do CNPq.
Membro do Grupo de pesquisa: GEHCE
INTRODUÇÃO
A vida toda é cheia de tensões, eu acho que é do viver, mas seria sem graça,
também, se a gente não tivesse problemas para resolver(1).
O presente estudo faz parte do projeto: Recuperação da memória da Associação
Brasileira de Enfermagem (ABEn), que em uma de suas fases se dedica em
reconstruir a biografia das presidentes da ABEn, desde os primórdios de sua
criação oficial em agosto de 1926 até o momento atual. Nesta trajetória, Edith
de Magalhães Fraenkel, como presidente pioneira da ABEn é figura essencial para
este estudo, tanto pela sua atuação na construção da identidade da Enfermagem
moderna brasileira, bem como pelos rumos tomados pela ABEn.
Edith Magalhães Fraenkel é considerada de forma unânime como uma personalidade
marcante na história da Associação por sua liderança, visão de futuro refletida
em sua atuação e capacidade de agregar as enfermeiras em torno de seus ideais o
que a tornou uma liderança de longa duração na história da enfermagem
brasileira(2).
Embora as relações entre biografia e história sejam ambíguas e sujeitas a
controvérsias, no caso da história das profissões, parece pertinente o estudo
de algumas figuras que atuaram direta e continuadamente em certas questões ou
que exerceram influência considerável no delineamento de diretrizes e
tendências(3).
Edith Magalhães Fraenkel nasceu em 9 de maio de 1889, no bairro de Santa
Thereza no Rio de Janeiro, antiga Capital da República. Neta pelo lado materno
do líder republicano Benjamin Constant Botelho de Magalhães. Considerada como
uma situação de distinção que certamente lhe favorecerá durante toda a vida,
para abrir espaços sociais e políticos na profissão de Enfermagem, devido a sua
cultura incomum, oriunda de seu parentesco ilustre e de suasinúmeras viagens.
Tal condição lhe proporcionou um capital social relevante(4).
Com a idade de dois anos parte com a família para a Alemanha, acompanhando o
pai, que havia sido nomeado cônsul do Brasil em Berlim. Permanecendo fora do
país por mais de uma década. Assim, iniciando sua alfabetização em outro país
(5).
Retorna ao Brasil com a idade de 14 anos, podendo-se dizer que está visitando
seu país de origem pela primeira vez(5). Seu pai,exercendo o cargo de
diplomata, com freqüência mudava de residência, de forma que Edith viveu e
estudou em outros países, como Suécia e Uruguai. Nestes países aprendeu a
língua local, além daquela oficial nas embaixadas, o francês. Porém, no ano
de1906, com a morte do pai, vem definitivamente, com sua família e fixa
residência no Rio de Janeiro(6).
O pai de Edith desejava que a filha seguisse a carreira médica, uma vez que sua
família era de médicos e advogados, profissões de grande destaque social à
época. Porém, com a morte do pai e as dificuldades financeiras enfrentadas por
sua mãe, viúva, Edith completou o curso Normal e foi lecionar em uma escola
particular no Bairro de Santa Thereza. A diretora dessa escola era cunhada de
Maurício de Abreu, secretário do Departamento de Saúde Pública. Deste modo,
Edith tomou conhecimento da existência do curso para visitadoras sanitárias da
Cruz Vermelha Brasileira. Conclui, em 1918, o curso da Escola Prática de
Enfermeiras da Cruz Vermelha, destinado ao preparo de socorristas voluntárias
para atender aos feridos da primeira Grande Guerra(5). Este conhecimento lhe dá
subsídios para atuar intensamente na epidemia de Gripe Espanhola que se alastra
no Rio de Janeiro naquele mesmo ano. Em reconhecimento pela sua atuação, nesse
episódio recebe o título de sócia remida da Cruz Vermelha Brasileira(5).
No ano seguinte, iniciou o "Curso para visitadoras do serviço de tuberculose",
visando complementar seus estudos em saúde pública e fortalecer a sua
instrumentalização para atuar no combate às doenças infecto-contagiosas. Neste
tempo assolavam o país: Tuberculose, Cólera, Febre amarela e Sífilis,
influenciando negativamente as relações do Brasil com o comércio exterior(5).
Em 2 de setembro de 1921, chega ao Brasil, trazida por Carlos Chagas, Diretor
do Recém criado Departamento Nacional de Saúde Pública- DNSP, a enfermeira
norte-americana Ethel Parsons (EP), do serviço Internacional de Saúde da
Fundação Rockefeller que passou a chefiar a Missão Técnica de Cooperação para o
desenvolvimento da Enfermagem no Brasil. Esta iniciou cursos intensivos de
visitadoras de Higiene, no qual foram aproveitadas algumas visitadoras do
Serviço de Combate à Tuberculose, dentre elas Edith, agora comochefe do Serviço
de Visitadoras(5).
EDITH ENFERMEIRA
Em fins de 1921, Ethel Parsons promoveu uma aproximação com Edith Magalhães
Franckel quando a convidou para palestras, refeições em comum e para fazer o
curso completo de enfermagem em nível superior nos Estados Unidos(5). Percebe-
se neste discurso que Edith era vista pelas enfermeiras da Missão Americana no
Brasil como uma personagem capaz de reproduzir o modelo preconizado por estas,
já que Edith Magalhães Fraenkel tinha incorporado ao seu habitusas condições
necessárias para se tornar uma enfermeira nos moldes anglo-americanos(7).
Edith vivenciava uma vida social de distinção, pois nesta época já era
enfermeira-chefe do Serviço de Visitadoras da Inspetoria de Tuberculose do
Departamento Nacional de Saúde Pública-DNSP, cargo para o qual havia sido
nomeada logo após a conclusão do curso de visitadora, com a idade de 29 anos
(5).
As Enfermeiras americanas oferecem a ela a oportunidade de fazer o curso de
graduação em enfermagem nos Estados Unidos. Esta embarca para os Estados
Unidos, em 1922, com a idade de 33 anos a fim de realizar o curso superior de
enfermagem na Filadélfia. (Edith Magalhães Fraenkel teve destaque na atuação
como aluna, principalmente pelo domínio do inglês, motivo de elogios pela
diretora da Escola. Ali conhece Lilian Clayton, professora ( Escola de
Enfermagem da Filadélfia) de ética que terá profunda influência em sua
carreira. Edith, a partir de então, assume a premissa de que uma profissão para
se firmar necessitava da uma Associação e de uma Revista.
O investimento em sua formação atendia o interesse de Ethel Parsons (chefe da
Missão Americana que veio para o Brasil em 1921 e permaneceu até 1931), de
torná-la superintendente do Serviço de Enfermeiras do DNSP, quando esta
deixasse o Brasil, o que ocorreu em 1928(7).
Edith Magalhães Fraenkel retorna ao Brasil, em 1925, com o diploma de
enfermeira, registrada no Departamento de Saúde Pública dos Estados Unidos,
sendo, também, a primeira enfermeira brasileira. Aqui chegando, imediatamente é
nomeada instrutora da Escola de Enfermeiras Anna Nery (EAN) em substituição a
uma professora americana(5).
A enfermeira Edith, ao que parece, por ser formada no exterior, não era bem
vista pelas enfermeiras nativas formadas na EAN. Apresentava uma condição que a
colocava em melhor posição no campo profissional, considerando que dominava
várias línguas(8), tinha formação rigorosa, vinha de família ilustre, detentora
de grande capital cultural. Assim, sua liderança era questionada porque não
havia formado seu habitus profissional na EAN(4). Nesta condição diferenciada,
este habitusprofissional ao tempo que era prestigio, também lhe causava
constrangimentos, porque estava muito mais próxima das enfermeiras americanas
que também tinham um capital cultural reconhecido.
Após a diplomação da turma pioneira da EAN, em 1925 a idéia da criação de uma
associação de ex-alunas era conveniente tanto à Escola, que manteria um certo
controle sobre o conjunto das enfermeiras por ela diplomadas, como às ex-alunas
que, ao seu diploma agregariam o capital cultural referente às credenciais de
membro de uma associação profissional ligada a uma instituição de prestígio
como a EAN(2).
A tradição reconhece como 12 de agosto a data de fundação da Associação de
1926. Antes, porém, se discutiu muito a característica da Associação ser
vinculada diretamente EAN, sendo, portanto, uma Associação de ex-alunas o que,
de certa forma, excluiria Edith Magalhães Fraenkel, porque esta havia se
graduado no exterior, na Escola de Enfermagem do Hospital Geral da
Filadélfia.Bem como Raquel Hadock Lobo, também com formação fora do Brasil,
mais especificamente, em Paris, na École des Enfermiéres de L'Assistence
Publique, ou uma organização de enfermeiras diplomadas, vencendo esta última
proposta(3,8-12).
Assegurando este argumento, encontramos o depoimento de Edméia Cabral Velho,
que acompanhou Edith desde os primórdios da Associação até 1938, a qual em
carta para subsidiar o histórico da ABEn, informa que Edith se envolveu com a
criação da ABEn desde 1926. E que Ethel Parsons fez grande pressão em Edith
para concretizar a Associação (2 Carta que conta a história da origem da ABEn
entre 1926 e 1938. O documento se encontra na caixa do Documentário da ABEn, na
sede da Associação em Brasília.
Desta forma Edith Magalhães Fraenkel inicia sua atuação na vida associativa,
ainda que sofra muitas restrições das enfermeiras brasileiras devido a presença
da liderança americana. Mesmo que tenhamos poucos registros do período inicial
da Associação, em 1927, foi eleita a 1ª diretoria da Associação Nacional de
Enfermeiras Diplomadas (ANED), tendo como presidente Edith Magalhães Fraenkel,
sendo que no período entre 1927 e 1929 as condições de funcionamento da ANED
não estão muito claras nos documentos analisados, e, ao que parece com muita
influência das enfermeiras americanas da Missão Parsons. Neste ano Edith
Magalhães Fraenkel reorganizou a ANED, porque iria solicitar sua filiação ao
Conselho Internacional de Enfermeiras (CIE), solicitação atendida no 8º
Congresso Internacional do CIE, realizado em Montreal em 1929, ocasião em que
Edith representou o Brasil. Também, nesse mesmo ano providenciou o registro da
ANED em cartório e comprou um terreno na Ilha do Governador, Rio de Janeiro
destinado à construção da Casa da Enfermeira (propriedade que foi vendida no
ano de 1999. Teve vários projetos de construção, nenhum se concretizou).
Importante salientar que no ano de filiação ao CIE a Associação passou a se
chamar: Associação Nacional de Enfermeiras Diplomadas Brasileiras, por
exigência desse Conselho(8).
Em Montreal, onde ocorreu o Congresso do CIE, Edith também participou da
reunião de editoras de revistas das organizações membros da entidade. Neste
momento surgem as primeiras discussões para criar uma revista de enfermagem no
Brasil. Nascia assim, no Canadá a idéia de publicar Annaes de Enfermagem,
primeira revista de enfermagem brasileira. Isto acontece em 1929 e, no próprio
hotel em que estavam hospedadas as enfermeiras brasileiras, juntamente com
Edith Magalhães Fraenkel, fazem uma reunião e delineiam como deverá ser o
periódico, que teria seu primeiro exemplar publicado em 1932. A Publicação se
viabiliza com a doação do papel para impressão feita por Rachel Haddock Lobo,
editora da revista(12).
É editado, assim, o primeiro número da Revista Annaes de Enfermagem, da qual
Edith Magalhães Fraenkel foi idealizadora e incentivadora. Recebeu como
homenagem das enfermeiras da ANED, uma estatueta de uma coruja sobre um
pedestal, no qual estava escrito 1º Volume4 (A relíquia se encontra hoje na
casa de Vitória Secaf (Professora aposentada da Escola de Enfermagem da USP),
confiada por Amália Correa de Carvalho (Professora da Escola de Enfermagem da
USP; Presidente da ABEn de 1968 a 1972), que havia recebido da própria Edith) .
Waleska Paixão em seu livro História da Enfermagem questiona se foi realmente
uma pessoa somente a responsável pela criação da revista. Em carta acompanhando
a estatueta, Edith coloca que a coruja é a prova de que ela foi a idealizadora
da revista, visto que o presente foi-lhe dado pelas enfermeiras como
agradecimento por sua concretização5. (Documentos da ABEn, caixa ano 1968.)
OS ANOS TRINTA
Designada, em 1928, como Superintendente do Serviço de Enfermeiras do DNSP sem
interrupção do exercício dos cargos anteriores, Edith Magalhães Fraenkel
ocupava cargo de destaque, porque a EAN era subordinada ao DNSP. Logo depois,
assumiu o cargo de Superintendente do Serviço de Enfermagem da Diretoria
Nacional de Saúde Pública e Assistência Médica Social, sendo que dois anos
depois foi Superintendente do Serviço de Enfermeiras do Ministério da Educação
e Saúde. Hábil politicamente, participou na elaboração de subsídios ao decreto
20.109/ 19316, (Decreto que instituiu o Padrão Anna Nery para implantação de
escolas de enfermagem no Brasil.) conseguindo inserir, neste, a presença da
ABEn na Comissão de validação de diplomas de enfermeiras com formação no
exterior(8). Como pode-se ver na seguinte citação: Artigo 3º- A banca a que se
refere o artigo 1º deverá constar: da Direção da Escola de Enfermeiras Ana
Nery, de duas enfermeiras diplomadas indicadas pela diretoria da Associação
Nacional de Enfermeiras Diplomadas Brasileiras, de (dois) professores da Escola
Ana Nery, dos quais um médico e outra enfermeira, ambos indicados pela
superintendência geral do Serviço de Enfermeiras do Departamento Nacional de
Saúde Pública(13).
Trabalhou intensamente pela campanha do voto feminino a convite da deputada,
feminista, Bertha Lutz a qual, em 1918, assumiu a liderança do movimento
feminista no Brasil, tendo lutado em favor do direito do voto para as mulheres
e contra a incapacidade civil da mulher casada. Ela criou a Liga para
Emancipação Intelectual da Mulher no Brasil. Recebeu o título de sócia
honorária da ANEDB no ano de 1938, sendo este o primeiro título concedido pela
entidade.
Depois de longa campanha saem vitoriosas, concluindo-se, assim, a luta pela
conquista do voto feminino no Brasil, no ano de 1934(11). Vale ressaltar a
importância do movimento feminista para a enfermagem brasileira quando graças a
sua interferência conseguiu que a Escola Ana Néri fosse incorporada a
Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1937
(14).
Nesta mesma época colaborou no anteprojeto de Regulamentação da Profissão de
Enfermeiros Sanitários da Marinha Mercante e idealizou e ajudou a fundar o
Serviço de Obras Sociais (SOS), organização filantrópica que funciona até hoje,
no Rio de janeiro. No mesmo ano organizou o corpo discente da Escola
Profissional de Enfermeiros do Hospital Psiquiátrico do Rio de Janeiro(5). No
final de 1938 deixa a presidência da ABEn, depois de quase doze anos. No
entanto, logo depois foi escolhida como presidente da Comissão de Estatuto da
Associação. Deixa em seu lugar uma nova liderança, Hilda Anna Kirsch, que
permanecerá como presidente da Associação até 1941(15). Neste ano, Edith foi
reeleita para presidente da Associação Nacional de Enfermeiras Diplomadas
Brasileira (1941-1943). A sede da entidade é levada para São Paulo, domicílio
da presidente: "As atividades da ABEn passaram quase todas para São Paulo, sob
a liderança de Edith, auxiliada por Ella Hasenjaeger (Enfermeira do Institut of
Inter-American Affairs, a serviço da Escola de Enfermagem da USP) com o
concurso das docentes da Escola de Enfermagem da USP e das enfermeiras do
Hospital de Clínicas, e com a colaboração da Escola de Enfermeiras do Hospital
São Paulo. Escola de Enfermagem de São Paulo passou a ser o centro irradiador
de onde partiam as iniciativas mais arrojadas"(9).
O PERÍODO QUE ESTEVE EM SÃO PAULO (1941-1955)
Em 1940 Edith Magalhães Fraenkel foi ao Estados Unidos com bolsa da Fundação
Rockfeller para realizar estudos complementares. Lá permaneceu durante quase
dois anos e recebeu o convite para criar, organizar e dirigir a Escola de
Enfermagem da Universidade de São Paulo. Em agosto de 1941 Edith retornou ao
Brasil e, em novembro, foi comissionada pelo Governo Federal junto à
Universidade de São Paulo. No final do ano seguinte, foi nomeada pelo Governo
de São Paulo diretora da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo,
criada através do decreto estadual n. 13.040 de 31 de outubro de 1942(16).
Em13 de outubro de 1943 Edith proferiu a aula inaugural da Escola de Enfermagem
na presença de autoridades, funcionários e 38 professores normalistas, primeira
turma de alunas(9).
Nascia, assim, uma das escolas mais importantes na formação do pensamento da
Enfermagem brasileira, se constituindo em uma novo centro difusor da profissão
no Brasil, que vai exercer profunda influência na organização de novas escolas
no país(16).
De acordo com o relatório apresentado por Edith sobre as atividades da Escola
em 1948, o SESP e a Fundação Kellogg eram de parecer que "(...) deveria ser
esta Escola o centro de irradiação para o ensino de Enfermagem (com a Fundação
Kellogg foi planejado um programa a curto e a longo prazos, destinado ao
aperfeiçoamento das docentes em univesidades norte-americanas, com bolsas de
estudo por ela outorgada. Outras entidades internacionais colaboraram nesse
progama: Fundação Rockfeller, Institut of Inter-American Affairs e Organização
Sanitária Panamericana"(9)) curso básico e pós-graduação, não só para o Brasil
como também para a América do Sul". Edith Magalhães Fraenkel visitou Recife
para estudar a viabilidade de instalação de uma escola de enfermagem. Graças à
excepcional clarividência de Edith Fraenkel a Escola pode contar, a partir de
1950, com um corpo docente capaz de desempenhar-se com grande eficiência nas
atividades relacionadas com a finalidade, (...) não apenas preparar moças de
boa condição social e intelectual, com marcada vocação para contribuir
eficientemente para o desenvolvimento da medicina preventiva mas, também,
torná-las apta a prestar cuidados técnicos de enfermagem a doentes
hospitalizados ou em domicílio, o estabelecimento de outras escolas no Estado
ou melhorar as já existentes e instituir cursos pós-graduados(16).
CONGRESSSO PAN-AMERICANO DE ENFERMAGEM
Em 1942, por ocasião da realização do Congresso Pan-Americano de Enfermagem, em
Santiago do Chile, discutiu-se a criação de uma Federação Pan-Americana de
Enfermagem, entendida como uma estratégia para o fortalecimento da enfermagem
americana em nível internacional, possibilitando assim o ingresso de
associações nacionais latino-americanas no CIE. A futura organização passa a
fazer parte da agenda de discussões do CIE. Em 1947 Edith foi eleita uma das
presidentes da Comissão de Estatuto da futura Federação Pan-americana de
Enfermeiras. No ano seguinte foi indicada para Presidente da Federação
Interamericana de Enfermagem, recém criada, bem como para elaborar estatutos e
estruturá-la(16). Em 1949 no Congresso do CIE em Estocolmo10, (Nessa ocasião
foi acertado que o próximo Congresso do CIE seria no Brasil, em Petrópolis.)
recebe a incumbência de levar avante o projeto da Federação Latino-americana. O
projeto vinha sendo discutido de longa data, mas infelizmente, não se
concretizou (Federación Panamericana de Profesionales de Enfermería-FEPPEN,
fundada em 1970, durante o IX Congreso Interamericano de Enfermeras e o Iº
Congreso de la Federación Panamericana com o tema: "Estatuto y Reglamentos de
la Federación". Teve lugar na cidade de Caracas, na Venezuela. Atualmente
congrega 19 países e tem sede na cidade do México, junto ao Colégio Mexicano de
Enfermeiras).
A REVISTA BRASILEIRA DE ENFERMAGEM
Em 1944, ao ser eleita redatora-chefe da Revista Anaes de Enfermagem da ABED,
começa uma nova etapa na vida da revista. Estava fora de circulação desde 1941,
devido aos altos custos para a ABED do papel importado pois estávamos em plena
Segunda Guerra e esta era um das conseqüências. Assim, foi interrompida a
impressão da revista. Edith se empenha na reorganização do periódico e consegue
editá-lo, a partir de 1946. Desta forma, ressurgiu a Revista dando continuidade
a sua numeração seqüencial de volumes, com nova capa e outras modificações que
lhe davam um aspecto mais moderno(12).
No pós Guerra a Associação se encontrava em situação de insolvência pois os
recursos eram escassos, o quadro de sócias era de apenas 60 enfermeiras(8). Em
vista disto um grupo de enfermeiras lideradas pela Escola de Enfermagem da USP
começou a mobilizar-se para a criação de uma associação estadual autônoma, na
cidade de São Paulo. De fato, no ano seguinte, em 4 de abril de 1945 surge como
ABED, Seção de São Paulo. Para organizar e dirigir os trabalhos da nova
associação é escolhido o nome de D. Edith de Magalhães Fraenkel, que nas
eleições ocorridas na 2ª reunião da Associação, se tornou a 1ª Presidente da
Seção(17).
A intenção de Edith era criar uma Associação de Enfermeiras paulistas,
independente da ABED, mas Haydée Guanais Dourado, presente em reunião
específica para este fim, faz defesa da unidade da profissão bem como da
possível exclusão do CIE da nova organização, porque já havia uma entidade
brasileira filiada(18).
Esta seria a primeira Seção a ser criada fora do Estado do Rio de Janeiro em
1945, denominada de "Associação Paulista de Enfermeiras Diplomadas", sob a
Presidência de Edith Fraenkel. A idéia dessa presidente era de que as
associações que se formassem à posteriori, deveriam receber o nome do Estado a
que pertencessem. Sabiamente, Haydée Guanais Dourado, era contrária a esta
posição, afirmando que o "nome" deveria ser mantido o de Associação Brasileira
de Enfermeiras Diplomadas (ABED) acrescido da seção correspondente ao Estado em
que fosse criada, como um modo de garantir a força e a unidade no trabalho da
entidade(8).
Por outro lado, pode-se inferir que Edith estava mais interessada em combater
suas adversárias e, para isso, utilizou essa estratégia como uma ameaça. Ou
como uma prova de seu poder, pois provocou reação imediata nas colegas em
defesa da unidade da organização nacional(8).
CONGRESSO NACIONAL DE ENFERMAGEM
O Congresso Nacional de Enfermagem manteve este nome até a realização do VIII,
a partir do IX realizado em Porto Alegre em 1956 passou a se denominar
Congresso Brasileiro de Enfermagem(11).
Edith Magalhães Fraenkel, presidente da seção São Paulo, enviou à presidente da
ABED, em outubro de 1946, Zaira Cintra Vidal, um convite para um congresso (I
Congresso Nacional de Enfermagem, em março de 1947, com participação de 112
congressistas) de enfermagem, que se realizaria no ano seguinte, na EE da USP,
cuja programação científica estava sendo organizada pelas divisões de educação
e de saúde pública da ABED. No entanto, em dezembro de 1946, Laís Neto dos
Reis, diretora da EEAN e Coord. da Comissão de Educação da ABEn, em reunião da
divisão de educação, protestou contra a exclusão da EAN dos preparativos do
congresso, assim ficando claro, na ocasião, as divergências entre as duas
lideranças, Edith e Laís Netto dos Reis, católica e diretora da EAN(2) .
(...) nesses primórdios da Associação e, portanto da EAN (...)eu pude
compreender muito melhor, como era aquela dinâmica e, até essa rivalidade que
tem, EAN com a USP. Isto você só entende, quando entende a trajetória da Edith
Magalhães Fraenkel(19).
"Essas reuniões também deixaram evidente a emergência de outras lideranças na
enfermagem, representadas pelas diretoras das escolas católicas e da Escola de
Enfermagem de São Paulo, que sob os auspícios do SESP e FR, concorriam
diretamente com a EAN pela enunciação do discurso autorizado no campo da
educação em enfermagem"(20).
A criação do Congresso, em território de liderança de Edith, nos parece que
explicita uma importante vitória desta enfermeira, visto que nas reuniões de
diretoras ela questionava muito a prerrogativa de somente uma escola ser
responsável pela avaliação da implantação de escolas e, ao mesmo tempo o modelo
a ser seguido (20). Tanto, que a partir da Lei 775/49 tal quesito deixa de
existir, passando essa função para o Ministério da Educação(7).
No entanto, o "I Congresso Nacional de Enfermagem", realizado pela recém criada
seção de São Paulo da ABED, foi um acontecimento que marcou época, prestigiado
pela presença de autoridades da área da educação e da saúde. Este deu início a
uma série de encontros semelhantes, onde problemas educacionais e do exercício
profissional passaram a ser amplamente debatidos pelas enfermeiras de todo o
país". Constituiu a conseqüência natural das reuniões que vinham sendo
realizadas pelas diretoras de escolas através da Divisão de Educação da ABED,
sob a presidência de Edith Fraenkel. O Congresso representou, na verdade, a
ampliação dos objetivos dessas reuniões e das realizadas pela Divisão de Saúde
Pública, da mesma Associação"(9).
Durante a sua gestão realizou o "II Congresso Nacional de Enfermagem" no Rio de
Janeiro em 1948. Ao final do II Congresso, em julho de 1948, Edith Magalhães
Fraenkel inicia seu terceiro mandato como presidente na Associação, ainda como
diretora da EE da USP(5).
Instalou no Brasil o III Congresso Nacional de Enfermagem no Rio de Janeiro e o
IV Congresso Nacional de Enfermagem em Salvador-Bahia em dezembro de 1950, com
o lema Trabalhemos para fortalecer a Enfermagem nas Américas. Nos temas
oficiais foram discutidos os desdobramentos da nova lei do ensino 775/49; o
surgimento das especialidades; a organização da enfermagem em nível
internacional e o programa de cooperação Brasil-EUA. Além disso, representou o
Brasil no X Congresso do CIE realizado em Estocolmo/Suécia, em 1949. Durante
esse Congresso ofereceu pela segunda vez o Brasil para sede do evento seguinte
(5).
Em 1948, Edith Fraenkel, eleita novamente presidente da ABED, passou a ser
membro do Conselho Diretor do Conselho Internacional de Enfermeiras, da
Comissão de Legislação deste mesmo Conselho. Importante salientar que Edith foi
candidata a reeleição a presidente da ABEn, no Congresso da Bahia e, sofreu uma
derrota. Houve acerto da Diretoria da ABEn para eleger Waleska Paixão. O que
levou Edith a afastar-se da entidade por algum tempo(5).
ASSOCIAÇÃO DE ENFERMAGEM DO URUGUAI
Edith Magalhães Fraenkel colaborou durante o ano de 1951 na reorganização da
Associação de Enfermagem do Uruguai, tendo em vista a filiação desta no CIE.
Nesse país ainda sugeriu medidas para melhoria das escolas de enfermagem(9,21).
Na ocasião manifestou sua impressão negativa sobre a entidade afirmando que a
mesma "não tem o padrão de ensino de todas as outras escolas",o que no momento
impediria a participação das Enfermeiras uruguaias no CIE. Havia enviado para
aquele país três docentes da Escola de Enfermagem da USP para realizar cursos
sobre Organização e Administração, também prepararam as enfermarias destinadas
a estágios, além disso, recebeu em São Paulo quatro docentes uruguaias para
acompanhar as atividades dos professores da USP(16).
ELA POR ELAS
A personalidade firme e com autoridade conferia a Edith muita admiração de seus
pares, como Haydée Dourado , Maria Elena Nery, Amália Correa de Carvalho, entre
outras, que se referem a ela com muito respeito e admiração.
(...) Edith com aquela sensatez e aquela atitude tão cabal de
trabalhar, de exercer enfermagem autêntica, com esforço (...)(18).
(...) figura impar, invulgar, de uma líder nata, enfermeira por
vocação e escolha consciente, feminista por convicção, grande
administradora, capaz de ser extremamente enérgica, autoritária, e ao
mesmo tempo humana e branda, de acordo com as circunstâncias, e com o
tipo de pessoas com as quais tratava (...)(8).
(...) viajei no mesmo carro, com Dona Edith de São Paulo para
Ribeirão Preto, quando chegamos percebi a autoridade dela, todos
corriam para atende-la(22).
OUTRAS ATIVIDADES DE RELEVÊANCIA
São de difícil enumeração os cargos/atividades que Edith Magalhães Fraenkel
desenvolveu ao longo de uma vida profissional rica em realizações, entretanto,
alinhamos algumas, as quais, dentre muitas escolhemos como importantes. Quais
sejam: de 1938 a 1946 foi membro da Divisão de Educação da ABEn, que
posteriormente se chamou Comissão de Educação e, atualmente se denomina
Diretoria de Educação; 1949 Colaborou na reorganização da Escola de Enfermagem
da UFBA Salvador-Bahia(16); 1952 colaborou na criação de Escolas de Auxiliares
de Enfermagem; 1953 Visitou os Estados Unidos a convite, freqüentou cursos e
realizou conferências nas Universidades e Escolas de Enfermagem daquele país
sobre o sistema de ensino de enfermagem do Brasil; Realizou em Petrópolis, Rio
de Janeiro, o XI Congresso do CIE em 1953; no ano1954 instalou o curso de
auxiliares de Enfermagem na Escola de Enfermagem da USP; 1956 Coordenou o
Departamento de Ensino da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto até o ano de 1961;
1965 presidiu a Comissão do Histórico da ABEn, atividade que desenvolveu até
1968, quando entregou a ABEn um documento de 160 páginas datilografadas
contando a história da Associação até então. Informou que não considerava
completo, que deveria ser complementado17;(O Histórico de Edith Magalhães
Fraenkel) foi utilizado por Anayde Correa de Carvalho para realizar o
Documentário da ABEn, publicado em 1976 por ocasião dos 50 anos da Associação.
O relato original não foi encontrado, o que se conhece está em Carvalho,
1976)em 1967 reorganizou e dirigiu o serviço de enfermagem da Casa de Saúde e
Maternidade Santa Maria na cidade do Rio de Janeiro, estava então com 78 anos
(5).
O RECONHECIMENTO DA CATEGORIA-CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em 1957 a ABEn instituiu o prêmio Edith de Magalhães Fraenkel é patrocinado
pela Escola de Enfermagem da USP/SP e diz respeito aos melhores trabalhos
relativos "a pesquisa em enfermagem" apresentados no Congresso Brasileiro de
Enfermagem(23). Este também foi o primeiro prêmio a ser criado pela ABEn.
Encontramos o seguinte comentário feito pelas diretoras da ABEn no ano de 1959
com relação à descrição do prêmio: "poderão concorrer ao prêmio, com trabalhos
de pesquisas, inéditos ou meritórios, que versem sobre centro cirúrgico,
enfermeiras diplomadas que sejam membros ativos da ABEn"(23).
Recebeu significativa homenagem da ABEn- seção Guanabara, recebendo um prêmio
de Johnson & Johnson Hospitalar, menção honrosa da enfermeira do ano de
1968. Em 2 de agosto de 1955 foi obrigada a pedir demissão da Diretoria da
Escola de Enfermagem da USP e retornou ao Rio de Janeiro(5). As circunstâncias
de sua saída ficaram muito confusas, pois respondeu a processo administrativo
que determinou seu afastamento do cargo e, logo sua aposentadoria. Pode-se
sugerir que alguma interferência houve por parte dos novos governantes do
estado de São Paulo e a relação de Edith com o governo que saia (10). Edith foi
acompanhada pela ABEn todo o tempo de sua transferência, segundo Irmã Tereza
Notarnicola que foi responsável por trazer Edith de São Paulo para o Rio de
Janeiro, inclusive a ABEn ajudou-a com assistência jurídica portanto, a ABEn
esteve sempre presente, ao lado de Edith(22).
Este texto impregnado do olhar dos autores não pretende se configurar como uma
verdade absoluta, mas sim, valorizar uma das personagens responsáveis pela
consolidação da profissão de Enfermagem, via Associação Brasileira de
Enfermagem, desde seus primórdios. O resgate da história de vida profissional
de Edith Magalhães Fraenkel permitiu-nos estabelecer um itinerário da
enfermagem neste período. Bem como reconhecer a centralidade desta personagem
na enunciação de um discurso da enfermagem brasileira.
Faleceu em 5 de abril 1969, num sábado de Aleluia(24).