Construtivismo sócio-histórico de Vygostky e a enfermagem
REFLEXÃO
Construtivismo sócio-histórico de Vygostky e a enfermagem
Vygotsky's social-historic constructivism and nursing
El constructivismo socio-historico de Vygotsky y la enfermería
Maira Buss ThofehrnI; Maria Tereza LeopardiII
IEnfermeira, Professora Assistente da Faculdade de Enfermagem e Obstetrícia da
Universidade Federal de Pelotas, RS. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação da
Universidade Federal de Santa Catarina. Coordenadora do Grupo de Pesquisa
GECEN-UFPel. Membro do Grupo de Pesquisa PRÁXIS-UFSC
IIEnfermeira, Professora aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina,
Florianópolis, SC. Doutora em Enfermagem. Membro do Grupo de Pesquisa PRÁXIS-
UFSC
1. INTRODUÇÃO
A Enfermagem é uma atividade milenar e presente na execução do cuidado à saúde
da clientela que procura por assistência. No curso de seu desenvolvimento,
tornou-se uma disciplina profissional, cujos trabalhadores permanecem
ininterruptamente ao lado do cliente, nas instituições de saúde porém, ainda
não têm o merecido reconhecimento pela sociedade. Isso é devido a fatores
políticos, sociais, culturais, dentre outros, os quais têm gerado uma visão
sobre o cuidado de enfermagem associada a uma atividade menos nobre, pouco
importante e de menor valor, determinando a essa profissão, no senso comum, um
papel de coadjuvante no processo de saúde.
Na tentativa de romper com a concepção vigente, é lançado um desafio à
Enfermagem, isto é, consolidar-se enquanto disciplina, aqui entendida como
envolvendo a construção de um corpo de conhecimento próprio e o comprometimento
com os interesses e necessidades da humanidade, demonstrando o seu papel, que
não é de coadjuvante, mas de estar com o outro, como participante no processo
terapêutico do indivíduo, sua família e a comunidade.
A distância entre o senso comum e as habilidades e conhecimentos atribuídos aos
profissionais na sua formação nos leva a pensar sobre as razões que podem estar
contribuindo para esta situação e sobre quais estratégias seriam adequadas para
contribuir com a mudança necessária.
Estamos de acordo com autores(1-3), que afirmam ser a Enfermagem uma disciplina
profissional, pois que constrói o conhecimento a partir da atividade prática,
mediante a integração da ciência, da ética e da arte, no cuidado aos clientes.
Porém, as possibilidades não são exclusivamente por esta via, uma vez que há
uma lógica de desenvolvimento de saber pela síntese de saberes já existentes,
em confrontação com a prática, ou ainda pelo teste de hipóteses plausíveis
sobre a realidade.
A via que nos parece adequada para a construção de métodos para o trabalho da
Enfermagem, de acordo com nossa experiência como docentes e enfermeiras, tem
sido, sem dúvida o construtivismo. Certamente não acolhemos a idéia de utilizar
um referencial sem a permanente crítica e reavaliação, de modo que optamos por
apresentar quais as possibilidades do construtivismo para o desenvolvimento da
enfermagem enquanto um conhecimento particular no conjunto da ciência.
No entanto, antes de abordar a temática propriamente dita, é necessária uma
compreensão mais profunda sobre o caráter de uma profissão, de modo que se
torne evidente sua prática como exclusiva e particular o conhecimento que a
sustenta.
A enfermagem, como disciplina profissional, e em fase de construção de
conhecimento, deve ser compreendida em suas ações e no processo de executá-las.
Sendo um trabalho cooperativo, é executado por uma equipe, e também um trabalho
de fluxo contínuo, de uma equipe para a outra.
Porém, esta sua face visível comporta uma dupla conotação imposta pelo próprio
trabalho, ou seja, de um lado caracteriza-se como um meio de sobrevivência e,
por outro, como realização do sujeito, envolvendo questões subjetivas nas
relações interpessoais, tais como, amor e ódio, confiança e desconfiança,
amizade e inimizade, solidariedade e individualismo, entre outras.
Esta dupla conotação o constitui, então, como uma ação que corresponde tanto a
necessidades prosaicas, ou seja, alimentação, vestuário, habitação, como a
necessidades mais complexas da vida de relações, ou seja, pertencer a um grupo,
ser aceito por ele, ter espaço como sujeito e assim por diante.
Constatamos que, frente ao capitalismo imposto à nossa sociedade, tem-se como
conseqüência a expropriação e exploração do trabalhador, com ênfase nas
estratégias de competitividade e individualismo, com exclusão dos diferentes e
massificação dos modos de atuação,constrangendo-o tanto em termos materiais
como afetivos. Ramos(4) pontua que a subordinação do trabalhador ao trabalho
produz danos físicos e, principalmente, psíquicos, quando ele é levado a um
fazer mecânico, fragmentado, sem sentido, ocasionando a mais grave das
expropriações, a expropriação da dignidade da humanidade enquanto espécie, e de
si mesmo enquanto sujeito.
Assim, como outros trabalhos, a prática da enfermagem precisa ser revista,
sobretudo quanto à adaptação às novas formas de engajamento no mundo, nas quais
se possa exercitar a busca de uma nova política da imaginação, assim como
experimentação e criação de algo novo, tendo como objetivo principal, segundo
Santos(5), resgatar a capacidade de indignação e espanto e direcioná-la para a
formação de um espírito de rebeldia e inconformismo, acarretando, assim, um
novo tipo de relacionamento entre pessoas e entre grupos sociais e, como
conseqüência, entre saberes e práticas.
Frente ao exposto, vislumbra-se nas idéias construtivistas, especificamente,
quanto abordagem vygotskiana uma possibilidade para avançar na construção do
conhecimento da Enfermagem, especialmente, quanto as questões subjetivas que
envolvem um trabalho em equipe.
A coesão interna na equipe de enfermagem pode ser base para o desenvolvimento
do processo de trabalho profissional, cuja premissa é a realização da sua
finalidade, ou seja, o cuidado terapêutico.Na medida em que se realiza, o
cuidado terapêutico torna-se a expressão objetiva de práticas, saberes e
propósitos da Enfermagem.
Dentre os meios utilizados pelo trabalhador para desenvolver suas atividades
junto ao cliente, podemos apontar os métodos de assistência, que se apresentam
como modos de fazer, cuja características são sustentadas por meio de
princípios e conceitos teóricos, além de valores morais.
Assim, o construtivismo aparece como um método alternativo, que vem ganhando um
espaço cada vez maior no campo social, pois está pautado numa abordagem
humanista, com estímulo à criatividade, ao respeito e à individualidade,
durante o planejamento e execução de qualquer atividade.
O presente estudo tem o propósito de apresentar as principais idéias
construtivistas preconizadas por Vygotsky e suas contribuições para a prática e
a pesquisa, especialmente, quanto às questões subjetivas do processo de
trabalho na enfermagem. O construtivismo em pauta, também é denominado de
sócio-interacionista, pois tem como foco a busca por novas formas de
compreensão da mente humana, a partir do contexto histórico-social, visando
desencadear um processo de mudança. Essa mudança é possível, já que na
interação entre dois elementos, a síntese não é a soma ou justaposição dos
dois, mas consiste na construção de algo novo e inédito, num processo de
transformação que gera novos fenômenos.
Para Vygotsky, a sociedade está em constante movimento, e cada pessoa é um ser
dinâmico, em contínua interação com o mundo cultural e o mundo subjetivo.
Assim, primeiramente, faremos uma breve abordagem à obra de Vygotsky e,
posteriormente, algumas implicações dessa abordagem na enfermagem, já que esse
referencial teórico atende a nossa crença de que a integração de agir e
pesquisar devem, cada vez mais, ser uma realidade concreta nos serviços de
saúde.
2. CONSTRUTIVISMO SÓCIO-HISTÓRICO DE VYGOTSKY
O construtivismo é um movimento que se consolidou no início do século XX e tem
suas raízes na filosofia. Os construtivistas de maior relevância são Piaget,
Wallon e Vygotsky, os quais preconizam que a construção do conhecimento ocorre
sob o prisma da interação do sujeito-objeto com o meio ambiente. Apesar desses
estudiosos apresentarem visões de mundo e posições teóricas diferentes, eles
defendem a importância do social na construção do processo do conhecimento.
Na abordagem construtivista, a interação sujeito-objeto aparece como uma
estrutura bipolar, em que estes dois elementos são inseparáveis, formando uma
única estrutura, pois no processo de construção, não há sujeito sem objeto e
nem há objeto sem sujeito. O construtivismo é uma teoria do conhecimento que
estabelece uma estrutura com dois pólos, o sujeito histórico e o objeto
cultural em interação recíproca, num movimento dialético e sem interrupção das
construções já acabadas, para sanar as lacunas ou necessidades. "O
construtivismo é dialético e supõe uma visão de totalidade integradora. É
movimento de mudança e transformação. Por ser dialético, supera os conflitos e
desequilíbrios, para atingir níveis estruturais qualitativamente superiores"
(6).
A idéia do construtivismo é sustentada no fato de que o indivíduo não é mero
produto do ambiente, nem resultado de suas disposições internas, mas uma
construção própria, produzida dia a dia, como resultado da interação entre o
ambiente e as disposições internas. Aqui, conhecimento é sinônimo de construção
do ser humano.
A teoria baseia-se em que o ser humano não nasce inteligente, mas também não é
totalmente dependente da força do meio. Desta forma, interage com o meio
ambiente respondendo aos estímulos externos, analisando, organizando e
construindo seu conhecimento, num processo contínuo de fazer e refazer.
Lev Semionovitch Vygotsky, também conhecido como construtivista sócio-histórico
e sócio-interacionista, foi um estudioso russo, cuja trajetória acadêmica
caracterizou-se pela interdisciplinaridade, já que teve contato com diversas
áreas: artes, literatura, lingüística, antropologia, cultura, ciências sociais,
psicologia, filosofia e, posteriormente, medicina. Nasceu em 1896, e faleceu
aos 37 anos, vítima de tuberculose, doença com que conviveu durante catorze
anos e sua produção científica, apesar de breve, foi intensa e relevante.
Os textos escritos por Vygotsky não chegam a estabelecer um sistema
explicativo, articulado e completo, mas se caracterizam pelo entusiasmo, e
estão repletos de idéias preliminares, que foram aprofundadas por um programa
de trabalho desenvolvido com o auxílio de seus colaboradores(7). Entre os mais
conhecidos, podemos citar Alexander Romanovich Luria e Alexei Nikolaievich
Leontiev, determinando desde o início uma construção coletiva do conhecimento.
Vygotsky baseou-se nos princípios do materialismo histórico e, pelo método
dialético procurou detectar mudanças qualitativas do comportamento presentes ao
longo do desenvolvimento do ser humano e sua relação com o contexto social. Um
dos focos centrais de sua teoria é que as funções psicológicas superiores
originam da realidade sócio-cultural e emergem de processos psicológicos
elementares, de origem biológica, isto é, estruturas orgânicas.
As funções psicológicas superiores diferem dos processos psicológicos
elementares, visto que esses estão presentes nas crianças pequenas e nos
animais, e correspondem as reações automáticas, ações reflexas e associações
simples, que são de origem biológica. Já as funções psicológicas superiores
consistem na capacidade, própria dos seres humanos, de planejamento, memória
voluntária, imaginação, referem-se a mecanismos intencionais, ações
conscientemente controladas e processos voluntários, possibilitando ao ser
humano, independência frente às características do momento e espaço presente.
Estes processos não são inatos, e ocorrem a partir das relações entre as
pessoas, desenvolvendo-se ao longo do processo de internalização de formas
culturais de comportamento(8).
Para Vygotsky, o desenvolvimento das funções psíquicas dos seres humanos ocorre
a partir da atividade prática, nas relações que os seres humanos estabelecem em
si e, com a natureza. É partilhando das relações de trabalho, participando
ativamente na coletividade, que o indivíduo apropria-se da linguagem, dos
instrumentos físicos produzidos historicamente, do conhecimento acumulado pelas
gerações precedentes e culturalmente disponíveis(6).
O mérito das idéias de Vygotsky está na visão da historicidade do ser humano,
ou seja, na formação da base do construtivismo sócio-histórico(9): "...pela
perspectiva histórico-cultural ou sócio-cultural que valoriza o elemento sócio-
cultural sobre o biológico-natural (fisiológico) pois para ele, as fontes de
desenvolvimento psicológico não estão no indivíduo, mas na comunicação,
relações sociais que se estabelecem entre as pessoas. Assim, o desenvolvimento
é determinado pela evolução cultural da sociedade ao longo de sua trajetória,
centrada na composição dialética na história pessoal, a história da
humanidade".
A teoria vygotskiana está pautada no esforço em considerar o ser humano em sua
dimensão plural, porém sujeitado ao contexto no qual está inserido, sendo ator
de sua própria trajetória, num determinado tempo. O desenvolvimento humano está
vinculado ao papel da aprendizagem e as relações sociais, ou seja, do convívio
com outras pessoas torna-se possível elaborar cultura e fazer história. A
relação sujeito e sociedade é inexoravelmente indissociável, bem como, está
diretamente relacionado ao processo de trabalho, o qual favorece a associação
entre pensamento e linguagem, pela necessidade de interação entre as pessoas.
Vygotsky entende por objeto o ambiente social e histórico estabelecido,
enquadrando-se na vertente sócio-interacionista, na qual a teia de relações
sociais é o ponto central. Ainda acredita que o conhecimento se constrói com
participação e colaboração do outro, isto é, no social, tendo como meios de
intercâmbio e estímulo à aquisição deste conhecimento, a ênfase na discussão em
grupo e no poder de argumentação(10,11).
Nas relações inter e intrapessoais, Vygotsky preconiza o caráter mediado, o
qual consiste na capacidade do ser humano em transformar o meio físico e social
em que se encontra, estabelecendo com o todo uma relação dialética, na qual
também se transforma, pois se encontra numa interação recíproca e constante.
A compreensão da mediação é fundamental, já que consiste na relação do ser
humano com o mundo e com os outros seres humanos, é justamente a partir desse
processo que se desenvolvem as funções psicológicas superiores. porque a
relação do ser humano com o mundo não é uma relação direta, mas,
fundamentalmente, uma relação mediada por ferramentas auxiliares da atividade
humana.
A mediação ocorre por meio dos instrumentos, também denominados ferramentas ou
elementos mediadores, que podem ser de duas naturezas: (a) física ou material
que alteram o meio físico e o sujeito da ação, instrumentos a partir das ações
concretas; (b) representacional ou de signos, em que ocorrem e mudam a relação
do ser humano consigo mesmo e com os outros, instrumentos psicológicos que
atuam nas questões internas do indivíduo. Vygotsky(8) esclarece que"a invenção
e o uso de signos como meios auxiliares para solucionar um dado problema
psicológico (lembrar, comparar coisas, relatar, escolher, etc.) é análoga à
invenção e uso de instrumentos, só que agora no campo psicológico. O signo age
como um instrumento da atividade psicológica de maneira análoga ao papel de um
instrumento de trabalho".
Uma das propriedades do signo, consiste na significação, ou seja, o significado
do mundo, já que o nosso contato com o mundo físico e social não é direto, é
marcado pelas nossas experiências, possibilidades, nossa história de vida. Na
concepção de Vygotsky, a pessoa, ao nascer, já é um ser social e, a partir da
apropriação das significações geradas nas relações sociais, gradativamente,
constitui-se enquanto sujeito, isto é, torna-se capaz de regular,
voluntariamente, suas ações.
O desenvolvimento do ser humano, enquanto um ser consciente, ocorre a partir da
interiorização, ou seja, na apropriação pelo sujeito das conquistas e
conhecimentos produzidos historicamente e originado nas relações sociais.
A construção do sujeito como um ser eminentemente social e o conhecimento como
produto social é uma contribuição essencial de Vygotsky para quem processos
como comunicação, linguagem e raciocínio são adquiridos em um contexto social,
para depois serem internalizados11. Na internalização, o produto do uso de
determinado comportamento cognitivo em um contexto social, um processo
interpessoal se transforma em intrapessoal, por meio da mediação. Assim, a
construção do conhecimento é resultado de mediações.
De acordo com Vygotsky(12), a linguagem aparece como um sistema integrado de
signos elaborados culturalmente, consistindo num fator determinante da evolução
do pensamento. À medida em que é internalizada, passa a converter-se em
estrutura básica do pensamento.
Assim, o ser humano apropria-se das mediações socialmente produzidas e por seu
papel ativo, produz novas mediações. Nessa abordagem, é rejeitada a
possibilidade de neutralidade por parte do investigador bem como do ambiente
pesquisado. O ser humano é entendido como um ser social e histórico, que se
constitui enquanto sujeito, a partir das relações que estabelece com os outros
seres humanos, responsável em manter ou transformar o contexto no qual se
insere. Desta forma, durante esse processo, estão presentes as questões éticas,
pois o foco está em construir uma ordem social digna para todos os seres
humanos.
Vygotsky propunha romper com a forma tradicional de análise dos fenômenos, ou
seja, fragmentado, como partes estanques de uma estrutura organizada
estaticamente, pois acreditava que o estudo de forma conjunta dos fenômenos
possibilitava ao investigador compreender o caráter dinâmico do funcionamento
mental, além de possibilitar a observação da interação desse fenômeno no
processo de desenvolvimento do ser humano. Desta forma Vygotsky(8) desenvolveu
o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), para explicar a evolução
intelectual, a qual é caracterizada por saltos qualitativos de um nível de
conhecimento para outro, definindo-a como: "A distância entre o nível de
desenvolvimento real que se costuma determinar através da solução independente
de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da
solução de problemas sob orientação de um adulto ou em colaboração com
companheiros mais capazes".
O nível de desenvolvimento real, na concepção de Vygotsky, refere-se ao
desenvolvimento de forma retrospectiva, relaciona-se às conquistas já
alcançadas e consolidadas. Quanto ao nível de desenvolvimento potencial, este
corresponde à capacidade de desempenhar tarefas mediante o auxílio de
ferramentas mediadoras, favorecendo os saltos qualitativos no desenvolvimento
do ser humano.
Para Vygotsky, o desenvolvimento e a aprendizagem se relacionam num movimento
dialético desde o nascimento do ser humano. O fator principal para o
desenvolvimento, está na apropriação, pelo sujeito, de novas formas de
mediação, de novos signos, levando em consideração que, na perspectiva
histórico-cultural, aprender consiste na apropriação da cultura.
Zanella(13) após realizar uma ampla análise das várias conceituação formuladas
pelos estudiosos, apresenta a seguinte definição: "A Zona de Desenvolvimento
Proximal consiste no campo interpsicológico onde significações são socialmente
produzidas e particularmente apropriadas, constituído nas e pelas relações
sociais em que os sujeitos encontram-se envolvidos com problemas ou situações
em que há o embate, a troca de idéias, o compartilhar e confrontar pontos
diferenciados (...) relações adulto/criança, relações de pares ou mesmo
relações com um interlocutor ausente: o que caracteriza a ZDP é a confrontação
ativa e cooperativa de compreensões variadas a respeito de uma dada situação".
Assim, a ZDP consiste na trajetória que o ser humano vai percorrer para
desenvolver funções que estão em processo de amadurecimento e que se tornarão
funções consolidadas, estabelecidas no nível de desenvolvimento real. A ZDP
refere-se a um domínio psicológico em transformação constante.
3. ALGUMAS CONTRIBUIÇÕES DA OBRA DE VYGOTSKY E A ENFERMAGEM
A abordagem vygotskiana pode trazer implicações significativas para a
Enfermagem, na medida em que aborda importantes reflexões acerca do processo de
formação da mente dos seres humanos, além de considerar esse sujeito em inter-
relação com outros e com o ambiente, inclusive no seu processo de trabalho, no
qual é ator. O trabalho entendido como uma atividade que exige, tanto a
utilização de instrumentos para transformação da natureza, quanto, o
planejamento, a ação coletiva e, conseqüentemente, a comunicação social. Ao
descrever o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal e outras idéias,
Vygotsky oferece subsídios para a compreensão do processo de integração entre
os seres humanos, na aprendizagem e desenvolvimento. Passamos a apresentar
alguns dos aspectos que consideramos de maior relevância para a Enfermagem.
Valorização do trabalho em equipe: as atividades de uma equipe de enfermagem,
diferentes daquelas que ocorrem no cotidiano extra-profissão, são sistemáticas,
têm uma intencionalidade deliberada e compromisso explícito, o qual é
legitimado historicamente, em prestar um cuidado terapêutico à clientela
necessitada. O cuidado é aqui entendido como a ação dirigida para a finalidade
do processo de trabalho da enfermagem.
Nesse contexto, os membros da equipe são desafiados a entender as concepções
científicas e a tomar consciência de seus próprios processos mentais, com
vistas a prestar um cuidado diferenciado e particularizado a cada indivíduo.
Para tanto, faz-se necessário interagir com os conhecimentos disponíveis,
construir significados a partir das informações descontextualizadas, lidar com
conceitos científicos hierarquicamente relacionados, visando possibilitar novas
formas de pensamento, de inserção e de atuação em seu meio.
Assim, as atividades desenvolvidas e os conceitos presentes no desenvolvimento
da prática profissional, quando refletidos e discutidos, introduzem novos modos
de operação intelectual, com abstrações e generalizações mais amplas acerca da
realidade e do próprio processo de trabalho. Como conseqüência, na medida em
que os membros da equipe expandem seus conhecimentos, modifica-se sua relação
cognitiva com o mundo, levando a valorização da própria ação, ou seja, o
cuidado terapêutico, o que favorece o desencadeamento da valorização e da
autonomia profissional.
Temos clareza que a possibilidade de um ambiente de trabalho propício as
transformações está intimamente relacionado aos fatores de ordem social,
política e econômica e que as interações presentes nos serviços de saúde
revelam várias facetas do contexto mais amplo em que o cuidado terapêutico se
insere.
Mas, na perspectiva vygotskiana, é preciso o rompimento com o modelo vigente de
verdades estanques e práticas rotineiras, pois interferem no desenvolvimento do
ser humano. Essa constatação determina a necessidade de criação de melhores
condições de trabalho para que todos os profissionais tenham acesso às
experiências e conhecimento para o aprimoramento da prática da enfermagem.
As melhores condições de trabalho devem ser uma preocupação nas instituições de
saúde, para estabelecer parâmetros de bem-estar e valorização do trabalhador,
para que ele possa sentir-se estimulado à busca da qualidade dos serviços, tão
em voga em nossa sociedade capitalista.
Desenvolvimento e capacitação da equipe: a Zona de Desenvolvimento Proximal,
que descreve o espaço entre os conhecimentos já adquiridos e aqueles que, para
se efetivarem, depende da participação de elementos mais capazes, isto é,
aquilo que embora presente no indivíduo, necessita da intervenção, da
colaboração de parceiros mais experientes para se consolidarem e, como
conseqüência, ajuda a definir o campo e as possibilidades da atuação do cuidado
terapêutico.
Vygotsky apresenta uma significativa contribuição ao dar uma nova dimensão ao
ato da imitação no aprendizado, a qual é responsável por criar uma zona de
desenvolvimento proximal. Ele considera a imitação como uma forma de estímulo e
oportunidade de reconstrução pela pessoa do que ela está observando. Pela
imitação e representação de situações reais do processo de trabalho, somos
capazes de internalizar as condutas, valores, maneira de agir e pensar que
possam guiar o próprio comportamento e o desenvolvimento cognitivo, de modo
que, neste processo,ocorrem mudanças não só no modo de ver e pensar o mundo,
mas também no modo de atuar nele.
Se entendermos os serviços de saúde enquanto instituições preocupadas com a
educação de seu pessoal e na formação de equipes que respondam às necessidades
da sociedade, vislumbramos no enfermeiro uma significativa responsabilidade
como estimulador e coordenador das atividades de capacitação e de atualização
da equipe de enfermagem.
O enfermeiro, na abordagem vygotskiana, tem o papel de direcionar as ações
educativas de modo a contemplar o nível de desenvolvimento de sua equipe, o
contexto sócio-cultural e a(s) teoria(s) de enfermagem que embasa(m) a sua ação
de cuidado terapêutico.
Assim, partindo daquilo que cada participante da equipe já sabe, ou seja, o
conhecimento que traz de sua formação e atuação prática, suas idéias a respeito
dos objetos, fatos e fenômenos, suas "teorias" acerca do mundo, com vistas a
ampliar e desafiar a construção de novos conhecimentos, na linguagem
vygotskiana, isto significa incidir na zona de desenvolvimento proximal dos
participantes.
Desta forma, cada componente da equipe de enfermagem, poderá estimular
processos internos de aprendizagem que acabarão por se efetivar, passando a
constituir a base que possibilitará novas formas de cuidado.
A função da outra pessoa na construção do conhecimento: o indivíduo se
constitui através de suas interações sociais, a partir das trocas estabelecidas
com seus semelhantes. As funções psíquicas humanas estão interligadas ao
aprendizado, à internalização e apropriação, determinando o contexto cultural
do grupo, o qual é formado pelos valores, conhecimentos, representações,
procedimentos, modo de pensar e de atuação que a sociedade determinou ao longo
da história. Portanto, é fundamental a mediação estabelecida por indivíduos,
sobretudo dos mais experientes em seu grupo cultural.
A mediação, ou seja, a interlocução entre sujeitos, não consiste somente na
transmissão do conteúdo, mas, principalmente, ensinar o outro a refletir sobre
suas ações e, aí vimos que cabe ao enfermeiro liderar o processo de ensino-
aprendizagem da equipe de enfermagem.
A partir dessa interlocução, é possível pensarmos em apropriação de novos
signos ou significados que irão ocorrer após a existência da internalização.
Isto implica na transformação dos processos externos, concretizado no trabalho
realizado e nas relações, em um processo intrapsicológico, no qual a atividade
foi reconstruída internamente. A longa trajetória do desenvolvimento humano
segue, portanto, uma direção que vai do social para o individual.
Em suma, uma equipe de enfermagem ou uma pesquisa com base nos princípios
construtivistas de Vygotsky, precisa considerar a pessoa como um ser ativo e
interativo no seu processo de aprendizagem e aquisição de conhecimento.
Mas, somente a atividade prática e individual não é suficiente para a
apropriação dos conhecimentos acumulados pela humanidade. Torna-se necessária
uma reciclagem contínua e um aprimoramento, por parte do enfermeiro e
investigador, para que esse possa intervir no desenvolvimento da equipe de
enfermagem ou demais participantes da pesquisa. Cabe ressaltar que é oportuno
que as atividades sejam planejadas, mediante a participação de todos os
componentes da equipe.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na perspectiva vygotskiana, entendemos que a construção do conhecimento, para a
produção de novas formas de cuidado de enfermagem, implica numa ação
partilhada, em que as relações entre sujeito e objeto são estabelecidas,
mediadas pelas relações entre as pessoas. O paradigma esboçado sugere, assim,
um redimensionamento do valor das interações sociais entre o enfermeiro e
demais membros da equipe de enfermagem e dessa com a equipe multiprofissional,
no contexto dos serviços de saúde.
Apesar de levar em consideração que a enfermagem não pode desvencilhar-se de
sua determinação social, envolvida historicamente, na divisão sexual, social e
técnica do trabalho humano, é possível, porém, por parte do enfermeiro,
enquanto coordenador da equipe, tratar seus companheiros de acordo com
pressupostos de simetria e complementaridade, com práticas democráticas no
interior da equipe. Mesmo sabendo que não poderá promover igualdade legal no
exercício profissional, no salário, na competência técnica (por conta do ensino
diferenciado) e na responsabilização social do exercício da enfermagem, pode
contribuir na manutenção de um espírito de cordialidade, prazer e alegria no
ambiente de trabalho, visando propiciar um clima favorável à promoção do
cuidado terapêutico à clientela usuária dos serviços de saúde.
As idéias defendidas por Vygotsky auxiliam, também, para a criação das
condições que permitam o diálogo, a cooperação e troca de informações mútuas, o
confronto de pontos de vista divergentes e que implicam na divisão de tarefas
em que cada componente da equipe tem uma responsabilidade que, somadas,
resultarão no alcance de um objetivo comum, ou seja, a finalidade do processo
de trabalho da enfermagem, com resultados concretos na situação sobre a qual
atua.. Entendemos o enfermeiro, como o profissional que pode favorecer as
condições para a construção de uma equipe comprometida com o cuidado
terapêutico.
Em síntese, o referencial teórico-metodológico proposto por Vygotsky é
caracterizado, pelo efeito de impacto(14), da ousadia, da lealdade à pesquisa
acerca de aspectos obscuros e polêmicos no contexto científico, os quais
instigam os questionamentos, indicam diretrizes, aguçam a elaboração de formas
alternativas para execução do cuidado terapêutico e, conseqüentemente, estimula
a reavaliação da prática vigente na enfermagem.