Perspectivas atuais da Informática em Enfermagem
REFLEXÃO
Perspectivas atuais da Informática em Enfermagem
Current perspectives in Nursing Informatics
Perspectivas actuales en Informática en Enfermeria
Heimar de Fátima MarinI; Isabel Cristina Kowal Olm CunhaII
IEnfermeira. Livre Docente em Informática Médica. Professora Adjunto e
Coordenadora do Núcleo de Informática em Enfermagem (NIEn) do Departamento de
Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), São Paulo, SP.
Presidente da Sociedade Brasileira de Informática em Saúde (SBIS).
heimar@denf.epm.br
IIDoutora em Saúde Pública. Professora Adjunto e membro do NIENdo Departamento
de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). icris@denf.epm.br
A Informática em Enfermagem é uma área de conhecimento com mais de 30 anos de
aplicação e desenvolvimento. Porém, ainda é, para muitos profissionais em nossa
realidade, um desafio, uma área desconhecida e um mistério a ser respeitado e
temido. Para outros, representa grande perspectiva de atuação e crescimento,
utilizando seus recursos e produtos, quer seja como auxílio para o dia-a-dia na
prática e no cuidado direto ao paciente, quer seja na realização de pesquisas,
quer seja no ensino, como um instrumento a mais para estimular alunos e
pacientes, na busca de informações com qualidade.
Os computadores entraram na enfermagem, principalmente na área de maior atuação
do enfermeiro à época, ou seja, nos hospitais, na década de 50. No início, o
interesse pela capacidade do hardware e do software era o maior desafio. Estes
até dominavam a forma de desenvolvimento das aplicações e as áreas gerenciais
eram as mais favorecidas. Hoje, embora não tenhamos que ter obrigatoriamente
tanta preocupação com os recursos de hardware e software, já que as opções são
as mais variadas possíveis, temos que concentrar nossa atenção para a
aplicabilidade destes tantos recursos, de forma a trazer vantagens e melhoria
na atuação do enfermeiro, em qualquer área de especialidade. Assim, se antes
tínhamos a ferramenta e queríamos saber como usá-la, atualmente, desenvolvemos
ferramentas melhores e mais adequadas para satisfazer a necessidade de
documentação e controle.
A curiosidade pelo novo instrumento que começava a fazer parte da gama de
utensílios usados na saúde, ajudou na superação do medo e fez com que
profissionais de saúde entendessem que a informática tinha vindo para ficar e
teria que ser dominada. Cursos começaram a ser preparados, congressos, eventos,
e outros, de tal sorte que hoje encontramos uma área bastante definida,
atuante, que muitas vezes nos ajuda a melhor redesenhar a prática do cuidado,
garantindo qualidade e segurança a provedores e recipientes do atendimento.
Portanto, com o evoluir das pesquisas e com o grande número de enfermeiros que
resolveram se dedicar a esta área de atuação, temos um maior e melhor
entendimento de informática em saúde e em enfermagem. Entendemos que o hardware
e o software são meros meios para capturar, transferir, transformar o dado em
informação com o objetivo de facilitar o desempenho, auxiliando a promover o
melhor cuidado possível ao paciente/cliente.
Posto tais entendimentos, podemos dizer que as perspectivas da informática na
enfermagem podem ser visualizadas por dois lados: o da informática e o da
enfermagem. Entender as perspectivas e os impactos causados isoladamente de um
ou de outro lado, não é uma tarefa fácil. É mais fácil entender o crescimento
que a enfermagem e todas as outras ciências e profissões têm conseguido graças
aos avanços tecnólogicos, que hoje influenciam todos os setores de atividade
humana. Fica assim, mais difícil elencar quais seriam os avanços que a
enfermagem, enquanto ciência e arte têm conseguido obter de forma isolada, sem
sofrer influência ou sem utilizar os recursos da tecnologia de informação.
Por outro lado, vale enfatizar que no enfoque enfermagemarte, podemos ter mais
segurança em dizer que nada, nenhuma máquina será capaz de substituir a
capacidade humana de oferecer um sorriso, um toque, um olhar de carinho,...
Portanto, se isto é comportamento exclusivamente humano e não pode ser
substituído, deve ser uma atitude inteligente, enfatizar e fortalecer tal
comportamento, usando a tecnologia para atingir melhores níveis de resultado de
nossas ações puramente humanas.
Isto têm sido muito defendido; muito se ouve falar em cuidado holístico,
enfermagem humanizada e outros tantos chavões, como se a forma de cuidar de
indivíduo fosse diferente dá para prestar cuidado a um indivíduo de forma não
humana? Chegamos a tal ponto nos relacionamentos que agora é preciso defender
posturas humanas, como se isto pudesse ser diferente?
E o que dizer do temor de sermos substituídos por uma máquina? Precisaríamos
mesmo ter este temor ou nós, como cuidadores, já estávamos tão obsoletos e
afastados de nossa real função, que o advento dos computadores iria apenas
aumentar esta distância com o paciente já por nós, humanos, criada(1)?
Olhando de outra forma este cenário, temos a certeza de que a tecnologia serve
para expandir o nosso conhecimento e o entendimento de como as pessoas buscam
informação, seja qual for. Em termos gerais, sabemos que os computadores tem a
função de prover informação em tempo real, para melhoria do fluxo de trabalhos,
do desempenho profissional e da qualidade do atendimento. Então, não se trata
de temer, mas sim de dominar e saber como usar os computadores para tarefas
exclusivas da enfermagem, fortalecendo assim, o corpo de conhecimento desta
profissão de acordo com as tendências atuais.
Como os enfermeiros estão usando ou deveriam usar tais recursos? Como estão
tomando as decisões e dirigindo a utlização destes recursos na profissão?
Alguns, por certo, decidem, outros, esperam pela decisão. Outros, são deixados
à margem do processo.
Os anos de estudos das aplicações dos recursos computacionais na enfermagem nos
ensinaram que aquilo que mais importa não é necessariamente o tipo de conexão,
de comunicação, o monitor, o computador. É claro que isto não pode ser um
entrave e uma forma de bloquear o futuro. Por sinal, muitos avanços são
bloqueados por dirigentes que insistem em manter tecnologia obsoleta. Porém, o
que mais importa, é o que estamos comunicando e como esta informação pode ser a
chave para a prestação de cuidado com melhores e maiores chances de sucesso.
Se olharmos para a perspectiva da informática e seus produtos, hoje podemos ir
até onde nossa imaginação teria capacidade de nos levar. Alguns exemplos podem
ser citados, destacando o produto, a forma de uso e a tendência para a
enfermagem(2).
- Reconhecimento de voz: definido como o método pelo qual a linguagem natural
ou convencional é registrada e o reconhecimento de fonemas é usado para
identificar uma específica linguagem. Utiliza recursos tais como: microfone,
que atua como transdutor, convertendo o som falado em sinais elétricos; o
digitalizador: digitaliza o som para sinais elétricos e o software que serve
como recurso para converter o dado em textos.
O reconhecimento de voz trabalha em dois estágios: 1) o sistema de
reconhecimento da fala distingue as ondas geradas pelos fonemas, 2) o
componente do padrão de reconhecimento identifica o fonema e mapeia em
palavras. Este passo requer a integração de um dicionário fonético, listando a
pronuncia fonética de cada palavra usada e um modelo, utilizando probabilidade
de como as palavras serão usadas em uma seqüência. O reconhecimento de voz tem
sido usado com sucesso na patologia e radiologia. Nestes setores, os médicos
podem literalmente ditar seus relatórios para o computador. Existem dicionários
para transcrever medicamentos, especialidades cirúrgicas, saúde familiar e
outros.
Se é um recurso já usado e explorado em outras áreas da saúde, a enfermagem
precisa começar a também investigar esta possiilidade. Inicialmente, a
enfermagem precisa preparar os dicionários de termos se quer utilizar os
recursos do reconhecimento de voz na prática. E por que não fazer isto e
utilizar o reconhecimento de voz nos relatórios de evolução do paciente?
- Base de conhecimento, repositórios, "data warehouses": onde vamos encontrar a
melhor evidência em enfermagem? De que forma podemos criar as melhores bases
científicas, os indicadores de qualidade e instrumentos para medir e avaliar os
resultados do cuidado de enfermagem?
É muito comum ouvirmos pesquisadores em enfermagem falarem sobre pesquisa e
prática baseada em evidência. A pergunta permanece: onde estão as bases de
conhecimento em enfermagem que nos permitam avaliar e concluir evidências?
Outra grande tendência mundial é a ênfase na adoção de guias de conduta e
protolocolos multidisciplinares. Tais guias podem ser insitutucionalizados ou,
em alguns países, o próprio ministério da saúde disponibiliza, criando
repositórios onde tais guias são armazenados de forma centralizada, o que pode
permitir atualização mais rápida e eficiente. Cabe portanto, à enfermagem,
descrever e esclarecer a sua responsabilidade e contribuição na adoção de tais
guias. Vale acrescentar que o conteúdo tem que ser baseado em evidência,
consistente com padrões de terminologias que possam medir qualidade, resultados
e custo. Ainda, vale enfatizar que se não forem integrados com os sistemas de
informação computadorizados utilizados pelos profissionais, pouco beneficio
poderão acrescentar à prática diária. Os repositórios podem ainda ser usados
para: Gerenciamento de Caso, Apoio à Decisão e Controle de Qualidade.
- Projeto Genôma: genômica é a ciência que estuda os gens e suas funções. É a
grande revolução do final do século e início deste novo milênio, uma vez que as
descobertas podem resultar em curas de diversas doenças. Entendendo o
funcionamento normal dos diferentes genes, os cientistas podem desenhar modelos
para controlar este funcionamento. Doenças genéticas podem ser corrigidas
intra-útero, doenças clínicas, câncer e outras tantas patologias que reduzem a
vida e a qualidade de vida dos individuos, podem ser prevenidas de forma direta
e eficaz, curadas com medicamentos especificos e individuais os chamados
tratamentos customizados. Na Enfermagem, este enfoque é centenário e, de uma
forma bem simples, chamamos de cuidado individualizado. Com as descobertas
atuais, isto será extensivo não apenas para o cuidado das necessidades humanas
básicas, mas da patologia e suas repercussões no indivíduo como um todo, e
agora sim, verdadeiramente feito de forma única e direcionada.
Poder tratar e cuidar de um paciente em um futuro não muito distante, vai
eixigir do enfermeiro um conhecimento dos recursos da bioinformática e da
genômica. Os planos de cuidado e os guias de conduta serão baseados nas
interpretações dos resultados dos exames dos gens de cada paciente.
Em termos de sistemas computadorizados de informação em saúde, o prontuário
eletrônico do paciente, deverá possuir recursos de integração com bases de
dados moleculares, epidemiológicas e clínicas para que possa analisar os dados
do paciente. Assim, integração continua a ser uma resposta eficiente para tais
tendências.
Em termos de ensino, a internet continua sendo um dos mais promissores recursos
disponibilizados. Permite acesso remoto a informação com alta qualidade. Vale
mencionar também a grande capacidade de estoque e transferência de imagens que
podem ser utilizadas para o ensino, como por exemplo, o projeto Visible Man e
Visible Woman desenvolvido pela National Library of Medicine.
Em termos de educação de pacientes, educação continuada e treinamento, os
recursos da internet ainda podem e devem ser mais explorados pela Enfermagem.
O alto custo no desenvolvimento de softwares educacionais (CAIs) faz ainda mais
atraente o uso dos recursos da internet. Tais informações, disponibilizadas e
compartilhadas por milhares de pessoas, faz também com que os enfermeiros
precisem identificar estratégias para trabalhar com o novo paciente, agora mais
informado e mais responsável por sua saúde.
Na assistência, além de considerar as mudanças nas características do cliente/
paciente, os enfermeiros precisam comecar a definir estruturas de adaptação de
novos modelos de trabalho e de atendimento ao cliente, de acordo com as
tendências do modelo de saúde geral. O modelo antigo de atendimento à saúde já
não encontra muito mais ressonância. As características principais deste modelo
são conhecidas por nós, das quais pode-se citar:
- Cuidado fragmentado
- Autonomia do médico
- Alto custo
- Baixa qualidade
- Pouca ou nenhuma coordenação do atendimento
- Sistema de Informação Departamental
Em oposição a este modelo de serviço de saúde, começou a surgir com maior
ênfase nos países desenvolvidos, no início da década de 1990, o que se pode
chamar de novo modelo de atendimento à saúde. Como exemplo, pode-se mencionar
algumas das características deste serviço, que também são identificadas como
tendências atuais:
- Maior integração e gerenciamento do cuidado, ou seja, o cuidado tem que ser
visto como um todo; a informação deve ser integrada para permitir gerenciar e
analisar sucessos e fracassos do atendimento de forma continua;
- O foco atendimento é primário, entendendo que os hospitais continuam a ser um
centro para cuidado cirúrgico e intensivo. Porém, muitos tratamentos podem e
devem ser feitos em locais com sofisticação tecnológica adequada para o que se
pretende atender. Não adianta ter mais recursos quando estes não são usados.
Assim, vale o bom-senso e o equilíbrio como regras e valores;
- O pagamento do atendimento prestado é captado por gerenciamento do cuidado,
onde o apropriado é melhor, encorajando a eficiência no atendimento e na
utilização de recursos;
- O procedimento é baseado na melhor prática, exigindo dos profissionais maior
competência e capacitação do profissional. Continuar a ser um profissional de
saúde requer envolvimento e responsabilidade com os avanços da profissão.
Manter-se atualizado é dever de cada profissional.
- A equipe que atende é interdisciplinar, colaborativa, conduzida por uma
organização horizontal. Não existe um profissional que seja mais importante que
outro, uma vez que todos colaboram para que o paciente se restabeleça. O
cliente dos serviços de saúde não é o médico e sim, o paciente.
Este modelo de atendimento utiliza a informação e a integração como elementos
essenciais de organização. Neste aspecto, a estrutura computacional que surge
para oferecer solução é mesmo o chamado Prontuário Eletrônico do Paciente
(PEP), que é uma forma proposta para unir todos os diferentes tipos de dados
produzidos em variados formatos, em épocas diferentes, feitos por diferentes
profissionais da equipe de saúde em distintos locais. Assim, deve ser entendido
como a estrutura eletrônica para manutenção de informação sobre o estado de
saúde e o cuidado recebido por um indivíduo durante todo seu tempo de vida.
De modo geral, o princípio básico de construcão do PEP baseia-se na integração
da informação. Assim, uma vez coletada a informação, ela é registrada em um
determinado formato para fins de armazenamento e tal registro para ser
fisicamente distribuído entre os hospitais, agencias de seguro-saúde, clínicas,
laboratórios e demais setores envolvidos, sendo compartilhado entre os
profissionais de saúde, de acordo com os direitos de acesso de cada um.
Embora sendo apresentado como forte tendência e artigos científicos afirmarem
que todos nós se ainda não temos, vamos ter no futuro um PEP como modelo para
registro de informações clínicas, a maioria dos sistemas em uso ainda não é
direcionada por tal metodologia de desenvolvimento. A enfermagem ainda precisa
garantir a inclusão de seus elementos.
Para tanto, precisa definir os dados mínimos de enfermagem, capazes de
descrever e analisar o cuidado prestado. O uso de vocabulários na formação de
bases de dados é mandatório para permitir comparações entre diferentes
serviços.
Em termos de procedimentos de enfermagem, vale lembrar que os novos recursos
terapêuticos trazem repercussões na forma de selecionar e executar o plano de
cuidados de enfermagem. Os diagnósticos médicos não invasivos, trazem
implicações para os procedimentos de enfermagem e repercutem no tempo de
permanência no hospital, que hoje é reconhecido com um dos indicadores de
qualidade em serviço.
Não mais a prática de enfermagem será baseada só em avaliação do paciente e
planos de cuidados. Mais do que isto, sua ênfase é a fase de implantação as
intervenções descrevem o cuidado e a ação do enfermeiro. Assim, os enfermeiros
precisam expandir e melhorar o repertório de habilidades de intervenções. Pois
estas refletem os aspectos autônomos da prática de enfermagem. Baseada no corpo
de conhecimento e no julgamento profissional, as intervenções de enfermagem são
complementárias dos tratamentos médicos prescritos.
Em resumo, muitos avanços cientiíficos e tecnológicos foram conseguidos graças
ao uso dos computadores, que permitem lidar com quantias massivas de informação
de forma organizada e rápida. Estes avanços trouxeram mudanças para a
Enfermagem. Hoje, a profissão conta com recursos que antes não existiam,
encontrando portanto, novas oportunidades e novos desafios.
Como todo processo de mudança, a introdução de computadores na Enfermagem
passou e ainda passa por etapas de avaliação, de tentativa, de acerto e erro.
Também como todo processo de mudança, a resistência surge a toda hora. Resistir
à mudança faz parte da natureza humana e na Enfermagem não poderia ser
diferente. Isto não é novo. A humanidade conhece há muito tempo. Machiavel(3)
(O Principe), em 1514 já dizia: "Tenha em mente que nada é mais dificil de se
lidar, mais duvidoso de se atingir o sucesso e mais perigoso de se fazer do que
iniciar um processo de mudança O inovador se torna inimigo daqueles que estão
satisfeitos com os antigos processos e, somente obtém certo apoio daqueles que
acham que poderão tirar proveito com o novo. O apoio destes indivíduos é tímido
parcialmente porque temem os adversários que possuem as leis a favor de si
mesmos e, parcialmente, porque os homens são geralmente incrédulos, nunca
confiam realmente nas coisas novas
Mudar traz insegurança, mas é bem melhor correr o risco e assumir novos
desafios do que estar destinado a mediocridade e ao desaparecimento.
A Enfermagem Brasileira, com uma história de um passado brilhante e um presente
em contrução e um futuro promissor, sempre ousou correr riscos e aceitar os
desafios que se impõem, e vem respondendo de pronto as novas demandas na área
de Informática.