Acidentes na infância e adolescência: uma revisão bibliográfica
REVISÃO
Acidentes na infância e adolescência: uma revisão bibliográfica
Accidents in childhood and adolescence: a bibliographic review
Accidentes en la infancia y adolescencia: una revisión bibliográfica
Christine Baccarat de Godoy Martins
Mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual de Londrina. Docente do
Departamento de Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina - PR. - Área
Saúde da Criança e do Adolescente
1. INTRODUÇÃO
Os acidentes, classificados atualmente como causas externas(1) são definidos,
culturalmente, como situações inevitáveis(2). No entanto, um novo conceito tem
considerado o acidente como um evento previsível, resultando em uma transmissão
rápida de um tipo de energia dinâmica, térmica ou química de um corpo a outro
ocasionando danos e até a morte(3). Neste sentido, os pesquisadores têm
apontado os acidentes como passíveis de serem controlados e evitados através de
cuidados físicos, materiais, emocionais e sociais, colocando em discussão a
"acidentalidade" dessas ocorrências e destacando a necessidade de prevenção(2-
7).
Vários autores apontam o trauma resultante das causas externas como o principal
mal dos últimos 60 anos, em todas as partes do mundo, ocorrendo tanto em países
desenvolvidos, devido à industrialização, urbanização e motorização, como
também em países subdesenvolvidos, onde o ambiente hostil, a explosão urbana, a
superpopulação, a miséria e a educação e vigilância insuficientes contribuem
para a incidência das causas externas(8-10). Mundialmente, os acidentes estão
entre as cinco principais causas de mortalidade, ocupando em quase todos os
países a segunda ou terceira colocação(11).
Em todo o Brasil, as lesões e envenenamentos são responsáveis por 5 a 6% do
total das internações conveniadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), gerando
gastos hospitalares de 8% do total de gastos com as internações(12,13).
Um recente artigo de Blank(14) discute a gritante desproporção entre a
importância das causas externas como causa de morbi-mortalidade de crianças e
jovens e a escassez de estudos sobre o assunto. O autor destaca que nos países
ricos das Américas as causas externas são responsáveis por 53% da sobrecarga
total das dez principais doenças entre cinco e 14 anos de idade e que 98% das
mortes de crianças e jovens por causas externas ocorrem nos países em
desenvolvimento, apontando como fatores de risco a pobreza, mãe solteira e
jovem, baixo nível de educação materna, habitações pobres, famílias numerosas e
uso de álcool e drogas pelos pais. Blank ainda chama a atenção para um aumento
desses eventos nos próximos vinte anos e para a necessidade de tratarmos a
questão sem menosprezá-la.
Diante deste contexto, o objetivo do presente trabalho foi conhecer e divulgar
os dados epidemiológicos acerca dos acidentes infantis, bem como os fatores
relacionados a esses eventos, além de identificar os estudos brasileiros a
respeito e as políticas e estratégias desenvolvidas na atenção aos acidentes
infantis.
2. METODOLOGIA
O estudo constituiu-se em estudo bibliográfico acerca dos acidentes infantis e
foi desenvolvido no período de janeiro de 2002 a janeiro de 2004, durante o
desenvolvimento de dissertação para a obtenção do título de mestre em Saúde
Coletiva da Universidade Estadual de Londrina, mediante pesquisa bibliográfica
e em base de dados LILACS e MEDLINE, usando como descritores as palavras
acidentes, crianças, epidemiologia, prevenção de acidentes, pediatria e
enfermagem, não se fazendo restrição aos idiomas espanhol, inglês e francês.
3. RESULTADOS
3.1. Alguns dados epidemiológicos
Em relatório apresentado pela UNICEF(15), em 2001, os países com menor taxa de
mortalidade por causas externas em menores de 15 anos são a Suécia e Itália,
com taxas de 5,2 e 6,1 por cem mil crianças, respectivamente. A Dinamarca, com
coeficiente de 8,1 (por 100.000 crianças), a Alemanha, com coeficiente igual a
8,3, e o Japão, com coeficiente de 8,4, são considerados países com taxas
intermediárias. A França, com coeficiente de 9,1 (por 100.000 crianças), a
Bélgica (coeficiente de 9,2), a Áustria (coeficiente igual a 9,3) e o Canadá,
com coeficiente de 9,7, são considerados países com taxas altas de mortalidade
por causas externas em menores de 15 anos. São paises com taxas muito altas de
óbitos por acidentes em menores de 15 anos, os Estados Unidos da América (14,1
por 100.000 crianças), Portugal (17,8 por 100.000 crianças), México (19,8 por
100.000 crianças) e Coréa com 25,6 óbitos por 100.000 crianças.
Além dos custos sociais, econômicos e emocionais, os acidentes na infância são
responsáveis não só por grande parte das mortes, mas também por traumatismos
não fatais, como encefalopatia anóxia por quase afogamento, cicatrizes e
desfiguração devidos a queimaduras, bem como déficits neurológicos persistentes
devidos a traumatismos cranianos, que exercem um grande impacto a longo prazo,
repercutindo na família e na sociedade e penalizando nossas crianças e
adolescentes em plena fase de crescimento e desenvolvimento(2,3,13,16).
Segundo Harada et al(10), as causas externas ocupam de 10 a 30% dos leitos
hospitalares no Brasil e estima-se que, para cada 10 crianças, uma necessite de
atendimento no sistema de saúde e, para cada morte, haja 15 casos de seqüelas
permanentes.
Pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde(17), em 1996, revela que as
colisões de carro, atropelamentos, afogamentos, quedas, queimaduras e
intoxicações foram responsáveis por 5843 óbitos de meninos e meninas até 14
anos.
Estatística da Sociedade Brasileira de Pediatria divulgada em 1998(18)
demonstra que 80% dos acidentes que ocorrem em casa são devidos a tanque solto,
panelas com água fervendo sobre o fogão, ferros de passar roupa ligados,
medicamentos, materiais de limpeza e fósforos. Segundo esse levantamento, a
asfixia e o sufocamento representam cerca de 40% do total de acidentes em
crianças e se deve a balas, uvas, nozes, chupetas pequenas, bolas pequenas,
pecinhas de brinquedo e balões. As mortes por incêndio e queimaduras
representam quase 10% de todas as mortes traumáticas, sendo que, destas, mais
de 20% ocorrem em menores de cinco anos e a grande maioria (85%) se deve a
incêndios domésticos, com morte por inalação de fumaça e asfixia e não por
queimaduras graves. A queimadura que ocorre em casa, sendo a cozinha o local
mais comum (70%), está quase sempre relacionada com líquido fervente (água,
café, leite, óleo), gerando sofrimento físico e psicológico, além de desfigurar
a vítima e gerar elevado custo econômico e social. Destes acidentes por
queimadura, 5% das crianças vão a óbito. As quedas e lesões decorrentes de
práticas esportivas, por sua vez, são as principais causas de procura nos
pronto-socorros e hospitalizações. Além destes, as intoxicações exógenas estão
incluídas nos acidentes domésticos mais comuns.
3.2. Fatores relacionados com os acidentes na infância
Frente à necessidade de um enfoque preventivo, diversos estudos epidemiológicos
têm buscado conhecer os fatores de risco para a ocorrência dos acidentes na
infância, bem como os processos pelos quais esses eventos ocorrem(2,19-24).
Esses estudos apontam que a probabilidade e a natureza do acidente resulta da
interação entre um agente etiológico (forma de energia que lesa os tecidos
orgânicos), o hospedeiro (a criança cujo estágio de desenvolvimento permite
identificar o risco) e o ambiente (a situação física e psicossocial na qual
ocorre o acidente ou violência).
O conhecimento desta "tríade" substitui os aspectos de casualidade dos
acidentes, permitindo identificar os grupos de maior risco, bem como estudar a
interação desses fatores de acordo com a fase de desenvolvimento da criança(2).
Desta forma, é possível fornecer subsídios que direcionem ações de prevenção
específicas(20,22).
Para alguns autores, os acidentes guardam relação com uma rede ampla de
fatores, tais como as condições ambientais, físicas, culturais e sociais da
família: o estilo de vida dos pais, condições de vida e trabalho, urbanização,
marginalidade, desemprego, desigualdade social, superpopulação, miséria,
educação, estresse, condições impróprias de moradia, vigilância insuficiente,
entre outros(8,23,25).
Outros fatores ainda são relacionados com a ocorrência dos acidentes na
infância, tais como o sexo, a idade da criança e sua etapa de desenvolvimento
neuro-psico-motor (imaturidade física e mental, inexperiência, incapacidade
para prever e evitar situações de perigo, curiosidade, tendência a imitar
comportamentos adultos, falta de noção corporal e de espaço, incoordenação
motora) e características da personalidade de algumas crianças (hiperatividade,
agressividade, impulsividade e distração), além de particularidades orgânicas
ou anatômicas, tais como deficiência física e/ou mental(8,23,26).
Souza e Barroso(7)ainda classificam os fatores de risco para acidentes na
infância em químicos (medicamentos, produtos de higiene, produtos de limpeza
doméstica), físicos (líquidos quentes, locais perigosos como janelas, escadas,
elevadores, banheiro, áreas de serviço, jardins, piscinas e cozinha com
armários e gavetas contendo objetos cortantes e perfurantes), biológicos
(plantas venenosas, animais domésticos, animais peçonhentos, insetos,
roedores), e estruturais (formação da família, fatores culturais, estilo de
vida, hábitos e crenças). As mesmas autoras chegam a apontar a falta de cuidado
dos responsáveis na proteção e segurança da criança como uma das causas dos
acidentes, o que para os pais gera culpa e arrependimento, porém conformismo e
resignação na compreensão dos acidentes como fatos pré-destinados.
O entendimento de todos esses fatores relacionados aos acidentes evidencia a
necessidade de disponibilizar recursos para a prevenção, com atuação inter-
multisetorial e direcionamento das intervenções conforme os fatores específicos
da população alvo.
3.3. Os acidentes na infância: alguns estudos brasileiros
No Brasil, relata-se que o primeiro trabalho a descrever o acidente na infância
como causa de seqüela e óbito data de 1951, de Orlando V. Orlandi e Elísio de
Almeida, publicado na Revista "O Brasil Médico"(2,8). A partir desse estudo,
várias outras publicações passam a enfocar os acidentes como importante causa
de morbi-mortalidade nessa faixa etária.
A classificação e especificação dos acidentes tornam-se mais claras a partir de
estudos epidemiológicos como o de Wilson, em 1966, que analisou as
características dos acidentes domésticos na Vila Madalena em São Paulo,
classificando-os e especificando-os(8).
Na década de 1970, o tema ganha maior interesse e surgem trabalhos como o de
Schvartasman(27), que estudou e classificou as intoxicações exógenas em um
hospital público do Rio de Janeiro, e de Mello Jorge(28), que apontou o
acidente de trânsito como a principal causa de morte violenta em São Paulo
entre menores de 15 anos.
Apesar de alguns avanços em torno do assunto, um estudo realizado por Blank em
1980, na cidade de Porto-Alegre, revela que os acidentes infantis continuavam
sendo subestimados pelas pessoas que deveriam preocupar-se com a saúde da
criança(2).
A partir da década de 1980, os estudos revelam o crescimento dos acidentes,
refletindo num interesse crescente, tanto em nível nacional como internacional,
em entender o fenômeno. Desta forma, ampliam-se os estudos e publicações acerca
do tema(2,8).
Na década de 1990, inúmeros estudos passam a discutir os diferentes tipos de
acidentes, identificando e classificando as causas externas nas diferentes
faixas etárias. Em relação às crianças, Mello Jorge et al(29), em 1990,
identificam, em São Paulo, as quedas da cama como o tipo de acidente mais comum
entre os menores de um ano e as quedas de janelas e em poços a mais comum na
idade de um a nove anos. Com a preocupação em interromper e anular a evolução
das causas externas como importantes agravos à saúde, Pelicione e Gikas(30), em
1992, chamam a atenção para a prevenção, que deveria envolver não só os
profissionais de saúde e educação, mas também os responsáveis pela viabilização
das estruturas sócio-econômicas. A preocupação em determinar os fatores de
risco impulsionou trabalhos como o de Teixeira(31) que, num estudo realizado em
1994 sobre as queimaduras em crianças de Fortaleza, identificou como fator de
risco para o acidente a exposição a locais perigosos como a cozinha, banheiro,
área de serviço, escadas e jardins, sem a vigilância adequada de um adulto
responsável.
A década de 1990 é então marcada por uma intensa atividade de pesquisa em
relação às causas externas. Vários estudos vêm contribuir para contextualizar a
dimensão desses eventos. Um estudo de Souza e Barroso no ano de 1995, em um
hospital público do Ceará, revela que, das crianças admitidas na unidade de
internação pediátrica do hospital, 30,5% haviam sido acometidas por acidentes
domésticos. As mesmas autoras, em outro estudo, em 1996, chamam a atenção para
a alta freqüência de acidentes por corpo estranho em vias aéreas entre crianças
atendidas em um hospital público de Fortaleza, sendo a espinha de peixe, as
moedas e o osso de galinha os principais corpos estranhos identificados(2).
Em 1996, Del Ciampo e Ricco(8) chamam a atenção para os acidentes de trabalho
na faixa etária de 10 a 14 anos, muitas vezes trabalho ilegal e clandestino,
principalmente no meio rural, que expõe as crianças a riscos ocupacionais
diversos. Os autores ainda discutem a falta de estudos que possam reconhecer os
acidentes infantis mais freqüentes a fim de direcionar melhor as ações
preventivas, específicas para cada situação identificada.
Neste sentido, Souza, em 1997, através de um estudo realizado no Centro de
Assistência Toxicológica do Ceará, consegue identificar os medicamentos, os
produtos químico-industriais e os de higiene doméstica como os principais
responsáveis por intoxicação em crianças de 0 a 14 anos(2).
A partir do ano de 2000, outros estudos contextualizam as causas externas entre
crianças e adolescentes em seus diferentes aspectos. Harada et al(10) concluem,
num estudo realizado em um hospital municipal de São Paulo, com crianças de 0 a
14 anos, que há predominância de crianças do sexo masculino (59,6%) e na faixa
etária de 7 a 12 anos. O estudo aponta, ainda, predomínio das quedas (44,9%),
seguidas por acidente de trânsito (24,0%), aspiração de corpo estranho (8,7%),
queimadura (6,8%) e intoxicações (5,0%), com uma taxa de mortalidade de 1,3%.
Os autores ainda chamam a atenção para as lesões de origem intencional, que
representaram 5,9% da população de estudo.
Ainda no ano de 2000, Baracat et al(20), em um estudo em menores de 15 anos
atendidos pelo Hospital de Clínicas da Universidade de Campinas (UNICAMP),
concluem que 62,1% dos acidentados eram do sexo masculino e 33,4% estavam na
faixa etária de 9 a 13 anos, apontando ainda para a alta freqüência de
traumatismos por queda (74,0%) e para o grande número de atendimentos de baixa
complexidade (89,7%), com taxa de 0,6% de encaminhamento para Unidade de
Terapia Intensiva e de 0,1% de óbitos.
Em uma série temporal estudada por Barros et al(21), em Recife, de 1979 a 1995,
os autores revelam crescimento dos coeficientes de mortalidade por causas
externas na faixa etária de 0 a 19 anos, com destaque para os homicídios entre
os adolescentes, dos quais 90,0% são ocasionados por arma de fogo.
Em 2002, Filócomo et al(22) estudam os acidentes infantis em um pronto-socorro
pediátrico de São Paulo, identificando a faixa etária mais atingida (7 a 11
anos, com 41,0%) e o sexo mais envolvido (masculino, com 56,1%), o tipo de
acidente mais freqüente (queda, com 46,9%), a presença dos pais no momento do
acidente (43,4% dos pais estavam presentes no momento do acidente) e 4,0% de
internação (95,7% receberam alta após o atendimento).
Ainda em 2002(a), Fonseca et al(23) apresentam os principais fatores de risco
relacionados à ocorrência de injúrias acidentais, na faixa etária de quatro a
cinco anos de idade, apontando um risco maior da ocorrência de acidentes no
sexo masculino (30% mais em relação ao sexo feminino), em crianças brancas (70%
mais em relação às não-brancas), em crianças com um ou mais irmãos (30% mais de
risco) e em crianças que residem em construção de tijolo (40% mais em relação a
outros tipos de construção). O estudo não encontrou associação da ocorrência de
injúrias com a renda familiar, escolaridade dos pais e trabalho materno, apesar
desta relação ter sido relatada em outros estudos(24). Estes resultados
refletem a necessidade de novos estudos no Brasil.
Através dos estudos levantados, pode-se concluir que, atualmente, em todo o
mundo, a alta incidência dos acidentes na infância, bem como a importância do
seu controle e prevenção, continuam despertando o interesse por estudos que
possam melhor direcionar e fundamentar a implementação, execução e avaliação de
estratégias de prevenção específicas.
3.4. Políticas e estratégias voltadas para as causas externas
Na medida em que os índices de morbi-mortalidade por causas externas vão se
destacando, a necessidade de estratégias para minimizar este problema de saúde
pública mobiliza sociedades e organizações.
Em 1955, durante a 80ª Assembléia Mundial de Saúde, realizada em Genebra, o
governo sueco propõe, pela primeira vez, que os acidentes sejam considerados
como um problema de saúde pública (8). Onze anos mais tarde, em 1966, em nova
Assembléia Mundial de Saúde, com todos os representantes membros da Organização
Mundial de Saúde (OMS), torna-se prioridade o encaminhamento de propostas para
a prevenção dos acidentes(10). No mesmo ano, a Sociedade Brasileira de
Pediatria cria o Comitê de Prevenção de Acidentes na Infância, sob a
presidência de Orlando V. Orlandi, autor do primeiro trabalho sobre o tema no
Brasil(8).
Em 1990, a Convenção sobre os Direitos da Criança e do Adolescente, publicada
no Diário Oficial da União (DOU) em 22 de novembro de 1990, normatiza que
"deve-se assegurar a todos os setores da sociedade, em especial aos pais e às
crianças, o conhecimento dos princípios básicos de saúde e, entre outros, o de
ações de prevenção de acidentes, recebendo apoio para a aplicação destes
conhecimentos"(32).
Em outubro de 1998, a Sociedade Brasileira de Pediatria lança a Campanha
Nacional de Prevenção de Acidentes(22) e em 2001, o Ministério da Saúde (MS)
lança a Política Nacional para Redução da Morbi-Mortalidade por Acidentes e
Violências, publicada no Diário Oficial da União (DOU) número 96 em 16 de maio
de 2001, com propostas de ações específicas para os gestores federal, estaduais
e municipais, cujas diretrizes são(33):
- Promoção da adoção de comportamentos e de ambientes seguros e saudáveis;
- Monitorização da ocorrência de acidentes e de violências;
- Sistematização, ampliação e consolidação do atendimento pré-hospitalar;
- Assistência interdisciplinar e intersetorial às vítimas de acidentes e de
violências;
- Estruturação e consolidação do atendimento voltado à recuperação e à
reabilitação;
- Capacitação de recursos humanos;
- Apoio ao desenvolvimento de estudos e pesquisas.
Para vários autores(7,10,20,22), é preciso que os programas de prevenção e
controle das causas externas entre crianças tenham como base a identificação de
fatores de risco e se efetuem através de:
- Intervenção por meio de legislação apropriada, voltada para os padrões de
segurança e prevenção desses episódios, principalmente em relação à indústria
farmacêutica (fabricação de medicamentos com tampa inviolável, produção de
álcool gel, etc) e construção civil (com a adoção de medidas de segurança na
construção de playgrounds e residências pisos que diminuem o impacto, tomadas
altas, entre outras medidas);
- Programa de educação em saúde segundo a realidade social de cada população
alvo, envolvendo a criança, a família, os profissionais das diversas áreas, as
associações comunitárias e a sociedade em geral;
- Contato direto com as famílias para elucidar atitudes e práticas na prevenção
de acidentes infantis;
- Treinamento de profissionais de saúde e outras categorias que direta ou
indiretamente lidam com crianças;
- Adequação dos serviços de nível primário e secundário para um atendimento
eficaz e resolutivo, com diminuição das seqüelas, reabilitação e reintegração
no contexto familiar e social.
Para tanto, as medidas de prevenção e controle dos acidentes e violências
precisam ser compreendidas e praticadas não só pelos órgãos competentes, mas
principalmente pela família e sociedade. Desta forma, as ações voltadas para a
problemática das causas externas culminarão com o conceito de prevenção, que,
para Rouquayrol(34), "é a ação antecipada que tem por objetivo interceptar ou
anular a evolução dos acontecimentos, evitando que algum dano aconteça mediante
o exercício de cuidados físicos, materiais, emocionais e sociais".
Vale destacar que os aspectos determinantes dos acidentes infantis reportam-se
às especigicidades de cada população. Portanto, é necessário que qualquer
reflexão ou proposta de ação baseie-se na realidade local, quer seja do ponto
de vista epidemiológico, social ou cultural(35), tendo sempre em vista os
riscos inerentes ao ambiente e o estágio de desenvolvimento neuro-psico-motor
da criança.
4. CONCLUSÕES
A literatura aponta para a abrangência e magnitude dos acidentes infantis,
havendo necessidade de ações preventivas junto aos profissionais de saúde,
criança, família, comunidade e sociedade em geral, no sentido de alertar para
os riscos e para a necessidade de adotar comportamentos seguros em relação ao
ambiente doméstico e à fase de desenvolvimento da criança. Pode-se compreender
que a prevenção é o caminho mais eficaz para reduzir os altos índices de
acidente na infância. Para tanto, é preciso que se desenvolva programas
educacionais desde a pré-escola e junto à comunidade, além do cumprimento de
normas e medidas de proteção junto à indústria farmacêutica e engenharia civil.
Os estudos apresentados enfatizam, ainda, a importância de se conhecer a
natureza e a realidade acerca dos acidentes na infância a fim de se formar um
diagnóstico que auxilie na elaboração e implantação de estratégias específicas
de prevenção.
Por fim, compreendemos a relevância de se abordar o tema a fim de que todos
possam exercer a sua co-participação na preservação da saúde de nossas
crianças, que se encontram em plena fase de crescimento e desenvolvimento.
Sugerimos, ainda, novos estudos que venham complementar lacunas do conhecimento
e contribuir para melhorar a qualidade de vida da população infantil.