Pessoas com Diabetes Mellitus: suas escolhas de cuidados e tratamentos
PESQUISA
Pessoas com Diabetes Mellitus: suas escolhas de cuidados e tratamentos
People with Diabetes Mellitus: their care and treatment choices
Personas con Diabetes Mellitus: sus opciones de atención y tratamiento
Denise Guerreiro Vieira da SilvaI; Fabiane Ferreira FrancioniIII; Sabrina da
Silva de SouzaII; Mariza Maria Serafim MattosinhoVI; Maria Seloi CoelhoV; Rita
de Cássia Bruno SandovalVI; Mila Andrade CunhaVII; Nadja FerreiraVIII
IEnfermeira, Doutora em Enfermagem, Professora Adjunto do Departamento de
Enfermagem e do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (Pen) da Universidade
Federal de Santa Catarina (UFSC). Coordenadora do NUCRON
IIEnfermeira da Secretaria Municipal de São José/SC. Mestranda em Enfermagem do
PEn/UFSC. Integrante do NUCRON
IIIEnfermeira, Mestre em Enfermagem, Professora da Universidade Regional de
Blumenau-FURB. Integrante do NUCRON
VIEnfermeira da Secretaria de Estado da Saúde/SC -EFOS. Mestre em Enfermagem.
Integrante do NUCRON
VEnfermeira da Secretaria de Estado da Saúde/SC. Mestre e Doutoranda do PEn/
UFSC. Integrante do NUCRON
VIEnfermeira do Hospital Universitário da UFSC. Mestre em Enfermagem.
Integrante do NUCRON
VIIAluna do Curso de Graduação em Enfermagem da UFSC. Bolsista PIBIC/UFSC/CNPq.
Integrante do NUCRON
VIIIAluna do Curso de Graduação em Enfermagem da UFSC. Integrante do NUCRON
1. INTRODUÇÃO
A liberdade é uma das marcas definitórias da pessoa, permitindo-lhe alcançar o
máximo de sua grandeza, mas também sua maior degradação. A realização da
liberdade consiste no conjunto de decisões que vão desenhando a própria vida
(1).
Ao refletirmos sobre a maneira como nós, profissionais da saúde, atuamos nos
damos conta de que, muitas vezes, não consideramos a questão fundamental da
liberdade das pessoas que cuidamos. Convictos de que há uma maneira certa ou
mais adequada de efetuar os tratamentos e os cuidados em saúde e também que
possuímos um conhecimento superior ou mais evoluído sobre o cuidado à saúde,
sentimo-nos com poder para definir o que é melhor para o outro. Nessa
concepção, limitamos a liberdade do outro, restringindo seu direito de
escolher.
No entanto, quando nos aproximamos mais das pessoas que cuidamos, buscando
apreender a maneira como tratam e cuidam de seus problemas de saúde, percebemos
que a prescrição do profissional de saúde sobre o que podem ou devem fazer,
como um único caminho adequado ao tratamento e cuidado em saúde, é compreendido
por essas pessoas como mais uma opção, não a única, como gostaríamos de
acreditar.
Quando essas questões envolvem pessoas com doenças crônicas, esta percepção é
ainda mais ampliada. Afirmamos que a doença não tem cura, mas que pode ser
controlada desde que sejam efetuadas mudanças no seu cotidiano, com adaptações
de rotinas, inclusão de novos hábitos, enfim, as pessoas precisam ter limites e
novas obrigações. Apontamos esses tratamentos e cuidados sem reconhecer que
existem muitos outros que não fazem parte da biomedicina. Há opções muito
próximas de todos, ou seja, as mães ou as avós conhecem um chá, a vizinha já
teve uma doença semelhante e tomou este ou aquele remédio, há sempre uma
senhora que sabe uma reza.
Autores que têm se dedicado a compreender melhor os cuidados e tratamento que
as pessoas realizam na busca da cura ou do tratamento e cuidados de suas
doenças, afirmam que as questões de saúde não acontecem de maneira separada dos
demais aspectos da vida de uma pessoa e de uma sociedade, fazem parte do
contexto sócio-cultural(2-4). As ações e as interpretações relacionadas à saúde
estão organizadas em um sistema cultural especial que é o Sistema de Cuidado à
Saúde, conformado por três subsistemas inter-relacionados: Familiar, Popular e
Profissional(2). As pessoas circulam por esses três subsistemas, decidindo
sobre quais tratamentos e cuidados irão realizar. No entanto, por onde as
pessoas circulam e a lógica que há na decisão sobre o que fazer, parece ser
para nós, profissionais de saúde, uma questão ainda desconhecida.
Este é o ponto onde centramos nosso estudo, buscando conhecer o percurso que as
pessoas fazem na busca de tratamentos e cuidados para sua condição de saúde. Na
antropologia da saúde esse percurso é denominado itinerário terapêutico. O
itinerário terapêutico inclui uma seqüência de decisões e negociações entre
várias pessoas e grupos com interpretações divergentes sobre a identificação da
doença e a escolha da terapia adequada. Inclui tanto o percurso feito na busca
de tratamento e cura da doença, quanto as avaliações dos diferentes resultados
obtidos(5).
Estão incluídos no Processo Terapêutico o procedimento e o resultado
terapêutico. O procedimento terapêutico é a aplicação organizada de técnicas
com alguma meta estabelecida: quem faz o que para quem com relação à
administração de medicamentos, realização de técnicas físicas e operações,
rezas, manipulação de objetos simbólicos, indução ou evocação de estados
alterados da consciência. Quanto ao resultado terapêutico, este é extremamente
intrincado e se refere à satisfação das pessoas que participam do processo, com
relação à mudança dos sintomas, patologia ou funcionamento (positiva ou
negativa) do organismo(6).
Portanto, temos percebido nesses anos trabalhando com pessoas em condição
crônica de saúde, que para prestar uma assistência que possa contribuir para um
viver mais saudável, é preciso ir além do conhecimento sobre alterações físicas
e psíquicas, mas também compreender as experiências construídas por essas
pessoas no processo de viver com a doença(7). O conhecimento nessa área ainda é
insípido, não nos permitindo compreender porque uma pessoa busca em tantos
diferentes lugares, tratamentos para sua doença, afetando, de alguma maneira,
todos os envolvidos no processo: pessoas com doenças crônicas, seus familiares,
rede pública e privada de saúde e os profissionais de saúde.
Assim, o estudo foi orientado pela seguinte questão de pesquisa: Qual o
itinerário terapêutico de pessoas com Diabetes Mellitus na busca por
tratamentos e cuidados nos diferentes subsistemas de saúde?
Teve como objetivos: 1) Identificar as modalidades terapêuticas usadas por
pessoas com Diabetes Mellitus. 2) Conhecer os elementos que integram o processo
de avaliação dos tratamentos e cuidados à saúde efetuado pelas pessoas que
vivem com Diabetes Mellitus. 3) Conhecer o percurso terapêutico de pessoas com
diabetes mellitus, considerando os três subsistemas de cuidado à saúde:
familiar, popular e profissional.
2. METODOLOGIA
Trata-se de um estudo fundamentado na pesquisa qualitativa, na perspectiva
interpretativista. A escolha desta abordagem está definida pela questão de
pesquisa que aponta para a compreensão do "complexo mundo da experiência vivida
do ponto de vista daquele que a vive"(8), reconhecendo que para compreender
este mundo é preciso interpretá-lo.
2.1 Local da pesquisa
Foi desenvolvido em duas instituições de saúde de Santa Catarina, em diferentes
locais dessas instituições: unidades de internação hospitalar, unidades
ambulatoriais, além do domicílio das pessoas, buscando obter uma diversidade de
situações.
2.2 Sujeitos da pesquisa
Participaram do estudo vinte e nove pessoas com diabetes mellitus. A seleção
dos sujeitos atendeu aos seguintes critérios: ter mais de 18 anos; desejar
participar do estudo; ter o diagnóstico estabelecido há, no mínimo, dois anos;
ter tempo e disponibilidade para participar do estudo.
Foram selecionados a partir das instituições de saúde onde estavam cadastrados.
O convite foi efetuado durante as consultas de enfermagem ou por telefone,
dando as informações iniciais sobre o estudo.
Os participantes selecionados tinham entre dezoito e oitenta anos, sendo
dezenove do sexo feminino e dez do masculino, dez tinham Diabetes Mellitus tipo
1 e dezenove tipo 2. O tempo médio de diabetes foi de quinze anos.
2.3 Coleta de dados
Os dados foram obtidos através de doze entrevistas em profundidade e de dois
grupos focais. Participaram do primeiro grupo sete pessoas com Diabetes tipo 1
e do segundo grupo, dez pessoas com Diabetes tipo 2.
As entrevistas foram orientadas por um roteiro visando identificar a história
das pessoas com sua doença crônica, mais especificamente os tratamentos e os
cuidados escolhidos, os locais onde os buscaram e os resultados alcançados.
Essas entrevistas foram realizadas pelos profissionais envolvidos no estudo,
juntamente com os bolsistas capacitados para tal atividade. Os grupos focais
foram realizados com o intuito de melhor compreender as avaliações que as
pessoas fazem dos tratamentos e cuidados. Os dados analisados das entrevistas
subsidiaram os grupos focais no sentido de que as discussões iniciaram a partir
dos tratamentos e cuidados que as pessoas entrevistadas disseram realizar.
Os registros das informações foram efetuados através de gravação em cassete
(com a devida autorização dos participantes) e transcrição posterior ou através
de registros escritos, após as entrevistas, utilizando a memória recente.
2.4 Análise dos dados
Foi efetuada em três diferentes momentos: análise das entrevistas, análise dos
grupos focais e triangulação da análise. O processo de análise, nos dois
primeiros momentos, seguiu a mesma seqüência: organização dos dados, leituras e
releituras visando a apreensão do sentido das falas, codificação (identificação
das modalidades terapêuticas, da avaliação que efetuaram sobre essas
modalidades e da circulação nos três subsistemas) e interpretação dos
resultados. O terceiro momento foi de integração entre as análises das
entrevistas e do grupos focais. Todo este processo de análise foi orientado
pelo referencial teórico do estudo, visando atingir aos objetivos propostos.
2.5 Considerações éticas
A inclusão dos sujeitos de pesquisa obedeceu a Resolução 196/96 do CNS/MS. Para
tanto, foi utilizada linguagem clara e objetiva para informar sobre o estudo e
convida-los a participarem, favorecendo a compreensão por parte dos sujeitos da
pesquisa, sendo que a proposta (justificativa, objetivos e procedimentos) foi
apresentada a cada um deles, garantindo a liberdade de participar ou não e de
desistir a qualquer momento. Todos assinaram o termo de consentimento livre e
esclarecido. Também foram assegurados o sigilo e o anonimato. Os nomes
apresentados no texto são fictícios. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo
Comitê de Ética em Pesquisas com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa
Catarina.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
O conhecimento sobre os tratamentos e os cuidados realizados pelas pessoas
deste estudo possibilitou conhecer alguns elementos que integram o cotidiano
das pessoas que vivem com Diabetes Mellitus e compreender a maneira como
avaliam essa terapêutica, os profissionais envolvidos, as instituições que
prestam assistência e demais participantes do processo terapêutico.
Os resultados estão apresentados procurando atender aos objetivos propostos.
Desse modo, estão organizados em três subitens que representam a organização de
análise dos dados: a) Modalidades terapêuticas usadas por pessoas com diabetes
mellitus; b) Elementos que integram o processo de avaliação do tratamento e do
cuidado à saúde; e c) Percurso terapêutico de pessoas com Diabetes Mellitus nos
três subsistemas.
3.1 Modalidades terapêuticas usadas por pessoas com Diabetes Mellitus
As pessoas, de maneira geral, ao perceberem que algo está errado com seu corpo,
procuram compreender o que está lhes acontecendo. Pudemos observar através dos
relatos obtidos, que o subsistema profissional foi a referência inicial na
busca da compreensão sobre o que estava acontecendo e o que fazer para resolver
seu problema.
Após o diagnóstico ser estabelecido, as pessoas passam a realizar diferentes
tratamentos e cuidados. Estes são orientados pelos profissionais de saúde ou
indicados por familiares e outras pessoas conhecidas.
Integrando os tratamentos e os cuidados do subsistema profissional, as pessoas:
realizam dieta, tomam medicamentos orais e aplicam insulina; fazem exames para
controle; realizam exercícios físicos (ginástica e caminhadas); vão a consultas
médicas periódicas; e participam de grupos terapêuticos.
Esses tratamentos e cuidados indicados pelos profissionais da saúde, apesar de
reconhecidos, na maioria das vezes, como efetivos, são realizados parcialmente,
ou mesmo apenas depois de perceberem uma certa evolução da doença. O relato de
Ariane reflete essa situação:
As vezes sou meio desmiolada, meio descontrolada, mas eu sei que a gente corre
risco. Mas fico naquela: hoje não vai acontecer nada... Passa da dieta, belisca
por fora... Mas eu tenho consciência, hoje sou nova, mas mais tarde não posso
fazer o que estou fazendo agora, porque vai complicar. Pode já estar
complicando e eu não sei... (Ariane)
O que está implicado na realização dos tratamentos e cuidados não é somente o
controle das manifestações, mas como eles interferem no processo de viver. A
dieta traz um conflito constante, uma vez que modificar hábitos tem
repercussões na sensação de prazer que a alimentação traz, nos relacionamentos
sociais e na própria percepção das necessidades de seu corpo, que pode divergir
do que é recomendado pelos profissionais da saúde.
A realização de exercícios físicos que aparece na fala da maioria dos
participantes como importante, fica como uma repetição do que lhes foi dito.
Ela é geralmente referida por último e não há justificativa consistente para
sua não realização, dando a impressão de que é algo não muito valorizado no
conjunto dos tratamentos e cuidados. É compreendido como algo complementar e
não como essencial:
Quando você está na faculdade tem mais tempo, depois entra no mundo
do trabalho, aí as coisas mudam. Só para descansar já é difícil,
imagina fazer exercício físico regular.(Carlos)
O que as pessoas referiram como ações de cuidado à saúde, indicadas pelo
subsistema profissional, está de acordo com o conhecimento da biomedicina, com
interpretações e adaptações, como podemos perceber na fala de João:
Me falaram sobre dieta, mas eu não acreditei, achei que não era
necessário. E realmente eu comia bem. As vezes eu não como, faço a
dieta para depois... tem um dia que eu como de tudo. (João)
Quanto aos tratamentos e cuidados relacionados ao subsistema familiar, estes
incluíram: o uso de chás, as rezas, o repouso, a necessidade de manter a calma,
ter horário certo para fazer as coisas, o apoio e a conversa com outras
pessoas. Os chás foram referidos por todas as pessoas entrevistadas e incluíram
uma diversidade bastante grande: jambolão, pata de vaca, capim cebola, casca de
caju, abacate, semente de laranja, carambola, insulina vegetal, vagem e
carqueja. Apesar de vinculados a um conhecimento do subsistema familiar, a
literatura da biomedicina reconhece os efeitos hipoglicemiantes de alguns
desses chás: jambolão, pata de vaca, cebola, caju(9). A ação dos chás, para
alguns, não é somente sua ingestão, mas é preciso ter fé, como nos diz Ariane:
Pego um capim, faço um chá e, se tem fé, faz efeito. O que vale é a
fé, a fé melhora. (Ariane)
Percebemos que a maioria dos tratamentos e cuidados realizados no Subsistema
Familiar não tem indicação específica para o diabetes, mas faz parte do acervo
familiar para cuidar de problemas de saúde de maneira geral.
O subsistema popular apareceu com menor freqüência, manifestado pela procura às
benzedeiras e imposição de mãos. A manifestação dos cuidados populares, apesar
de aparecer discretamente, demonstra estar presente na vida destas pessoas. Foi
percebida uma certa resistência para iniciar a falar sobre os tratamentos e os
cuidados desse subsistema. Somente quando perguntado diretamente, por exemplo,
se tinha ido a uma benzedeira, alguns confirmavam e então contavam sua
experiência. A procura por estes tratamentos e cuidados tem uma lógica
diferente, pois nem sempre buscam por uma mudança de sua condição de saúde,
apesar da cura estar sempre colocada como uma possibilidade. A intenção é de
ter outra alternativa, destacando o ser ouvido sobre os diferentes aspectos do
seu viver, onde a doença surge como parte deste viver.
Os diferentes tratamentos e cuidados que as pessoas realizam, estão voltadas
para amenizar sua aflição. No curso dessas ações estão presentes emoções,
interesses e atitudes circunstanciais, ou seja, não há um roteiro previamente
definido, mas as escolhas vão sendo efetuadas dentre as possibilidades que lhes
estão acessíveis(3) e sempre acompanhados de uma avaliação dos resultado
obtidos.
3.2 Elementos que integram o processo de avaliação do cuidado e do tratamento à
saúde
A avaliação que as pessoas fazem acerca dos cuidados e tratamentos que realizam
é influenciada por uma série de fatores, uma vez que conviver com diabetes
mellitus requer mudanças no cotidiano e também nos valores, naquilo que
consideram como relevante em suas vidas.
De maneira geral, qualquer tratamento, ou mesmo cuidado é considerado como uma
tentativa de cura. Um novo tratamento ou cuidado é sempre iniciado com essa
expectativa, mesmo que ela pareça pouco provável, é algo ao qual se apegam,
buscando renovar suas esperanças.
Os principais elementos considerados na avaliação que fazem do resultado de
tratamentos e cuidados incluíram: melhora dos sintomas; dificuldades e
facilidades do tratamento, especialmente relacionadas a possibilidade de
realiza-los, os gastos que requerem, a facilidade de acesso ao local onde este
tratamento ou cuidado é realizado. Além disso, consideraram também a
interferência no bem-estar geral; a opinião da família; a confiança na pessoa
que indica o cuidado ou tratamento; e como ele se integra ao seu cotidiano,
permitindo manter suas atividades (trabalho, lazer).
As pessoas não se fixam em um único motivo para fazerem suas escolhas, mas as
fazem tendo como referência uma imagem do que sua opção pode ser, antecipando
resultados positivos como decorrência de sua escolha.
Apresentamos a seguir, três modalidades de tratamentos e cuidados apresentadas
pelos sujeitos do estudo como tendo destaque, evidenciando como os avaliam no
seu processo terapêutico.
Chás:o uso de chás envolve um intricado processo, uma vez que a decisão em
utiliza-lo ou não, é influenciado pelas relações familiares e pela concepção
que têm da doença crônica e de sua evolução.
Considerado como um coadjuvante pela maioria das pessoas, elas esperam uma
melhora de sua condição de saúde. A crença inicial de que o chá vai resolver
seu problema e esta crença inclui tanto a possibilidade da cura ou, para
alguns, não precisar mais usar insulina ou fazer a dieta. As pessoas que mantém
o uso do chá, geralmente argumentam que o fazem para agradar familiares,
especialmente pessoas mais velhas (mães ou avós) e também pela crença de que
"mal não faz". Outros sustentam que ele ajuda a diminuir a glicemia e que é
eficiente quando associado com os tratamentos da biomedicina.Isso fica evidente
conforme a fala que segue abaixo:
A minha mãe tinha uma fé danada nos chás ela dizia que aquilo ia
curar a minha diabetes. Então eu passava o dia todo tomando chás. Eu
não me lembro de ligar para aquilo ali. (Enilda)
Ao se referirem à associação do uso do chá com outros tratamentos da
biomedicina, destacam que os profissionais, especialmente os médicos, não
incentivam seu uso e afirmam que os chás não têm efeito, conforme percebemos
nesta fala:
A minha endócrino é muito cética ela dizia assim: você toma tudo
quanto é porcaria de chá que você quiser, mas não me deixa de tomar a
insulina. (Amélia)
Entretanto, mesmo diante de tal evidência, parece não haver uma preocupação
maior com a aprovação dos profissionais ao uso dos chás. A decisão está fora do
âmbito da atuação daqueles profissionais. É uma decisão da pessoa com diabetes
e sua família.
Dieta: A dieta é a modalidade terapêutica considerada como a mais difícil.
Fazer ou não a dieta é uma decisão que pode mudar a cada momento, em cada
refeição, mesmo que o reconhecimento de sua importância faça parte do discurso
de todos. Não há um único motivo, uma única orientação. Alimentar-se, como algo
que faz parte da vida social, cultural e biológica de cada ser humano, não pode
ser considerada no mesmo nível de, por exemplo, tomar um medicamento. O
alimento é uma forma de criar e manifestar os relacionamentos entre as pessoas
(4,10).
Os integrantes do estudo associam, muitas vezes, a melhora de sua glicemia com
a realização da dieta, acreditando que ajuda a manter o bem estar. O fator mais
motivador para manter a dieta é a compreensão de que as complicações futuras
estão associadas com o efetivo controle do DM. No entanto, esta compreensão é
manifestada por poucos como parte do processo de aceitação de sua condição de
saúde. Apontam como motivos para não a realizarem: falta de apoio da família;
dificuldades financeiras em adquirir alimentos especiais como os
diet;sentimentos conflitantes como o desejo de se auto punir, de punir sua
família; e revolta com a existência da doença. Isso é evidenciado na fala a
seguir:
Porque quem tem que se cuidar sou eu Ninguém busca insulina pra mim
quando eu vou tomar remédio, eles perguntam: que tanto você se enche
de remédio? ninguém pergunta ou sabe o que estou sentindo. (Maria
Isaura)
Insulina: Utilizada pela maioria dos integrantes do estudo, seu uso é sempre
acompanhado da incorporação de sua necessidade, como o tratamento mais
importante, referido até como "sagrado". Neste sentido, há a aceitação de que é
preciso usar, sendo que os aspectos mais difíceis estão relacionados a agressão
ao corpo pela aplicação (dor), ao uso regular requerendo o compromisso com
horários e a imagem que as outras pessoas fazem, especialmente amigos que
consideram "vício" estarem sempre se aplicando.
Esses achados são semelhantes a outros estudos, destacando que o uso da
insulina é bastante polêmico pelo reconhecimento dos resultados efetivos e, ao
mesmo tempo, pela não aceitação da agressão ao corpo e a dependência de seu uso
(4).
3.3 O percurso terapêutico de pessoas com Diabetes Mellitus
As pessoas que fizeram parte desse estudo iniciaram sua busca por tratamentos e
cuidados ao perceberem que algo não estava bem com seu corpo. As primeiras
manifestações foram inespecíficas, não indicando algo que sabiam denominar como
uma doença. Eram sinais e sintomas de sede excessiva, perda de peso, fome
exagerada, tonturas ou cansaço. No primeiro momento, recorreram aos seus
próprios conhecimentos, de familiares e de vizinhos ou de pessoas conhecidas
subsistema familiar - que indicaram os serviços de saúde subsistema
profissional - como o local onde poderiam obter respostas para o que estava
acontecendo. Aqueles com diagnóstico de Diabetes Tipo 1, logo iniciaram com
medicamentos, especialmente a insulina. Para todos, a recomendação era de uma
dieta com restrição de açúcar e a realização de exercícios. Nesse segundo
momento, a escolha também foi baseada em experiências anteriores, no uso de
receitas caseiras de chás, no aconselhamento de vizinhos e parentes. Ao
perceberem que a doença veio para ficar, onde a denominação de ter diabetes
criou uma nova preocupação: "É coisa séria", o subsistema familiar foi central
no apoio e na esperança de uma solução para o problema.
Ainda nesse momento, o subsistema popular foi levantado como um recurso
possível, mesmo que os relatos sejam discretos. Nesse subsistema a procura foi
para encontrar alternativas, especialmente baseados na crença de que a cura era
possível, pois no subsistema profissional esta possibilidade foi excluída.
Eu tomo os remédios com fé antes de tomar os remédios eu fico orando se a gente
não tem fé, a gente não se cura. (Olívia)
Com a continuidade da doença, as pessoas vão experimentando diferentes
tratamentos e cuidados: tomam remédio, mas não fazem à dieta; fazem exercício e
tomam chás, mas não fazem à dieta; tomam chás e tomam remédios, mas não fazem
dieta e exercícios. Há uma infinidade de combinações que as pessoas usam,
testando o que resolve, o que melhora e o que piora. Procuram uma maneira de
viver bem com sua condição crônica, numa expressão de sua liberdade. Sentem que
podem procurar algo diferente, que não existe somente um caminho, que podem
fazer escolhas.
A maioria das pessoas vai encontrando sua maneira de tratar e cuidar de seu
diabetes, identificando o que considera mais adequado, aquilo que lhe faz bem,
vai tomando consciência de seu futuro, de possíveis complicações crônicas.
Neste terceiro momento, o tratamento indicado pelos profissionais de saúde toma
um lugar de destaque, porém, na maioria das vezes, acompanhado de cuidados
familiares, especialmente adaptações da dieta e usos de chás.
O percurso terapêutico não é linear, as mudanças de trajetória são freqüentes,
sendo definidas pelas avaliações que fazem da eficácia e da exeqüibilidade dos
cuidados e tratamentos.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A literatura em antropologia da saúde que aborda o itinerário terapêutico, tem
como principal objetivo interpretar os processos pelos quais as pessoas ou
grupos escolhem, avaliam e aderem ou não a determinadas maneiras de tratamento.
Este objetivo fundamenta-se na evidência de que as pessoas encontram formas
diferentes de resolver seus problemas de saúde(3).
As pessoas interpretam certos tipos de práticas como mais adequadas para lidar
com sua doença, de tal forma que se considera que os padrões de seleção entre
as alternativas terapêuticas sejam definidos por certas situações de
enfermidade(3).
A centralidade do subsistema profissional pode estar relacionada ao fato das
pessoas que integraram o estudo estarem vinculadas a instituições de saúde no
momento da coleta de dados, portanto buscando tratamento profissional. Outro
fator que merece ser destacado é o fato do diabetes ser considerado "doença de
médico"(4), onde o conhecimento da biomedicina tem forte influência no
conhecimento popular, talvez devido a falta de um repertório consolidado sobre
o tratamento do diabetes neste subsistema.
O anúncio do diagnóstico do diabetes afeta diferentemente as pessoas, podendo
causar, inicialmente, sentimentos de negação e revolta. Estes sentimentos
constituem mecanismos de defesa, que, aos poucos, vão se agregando à realidade
vivida pela pessoa(11,12). Neste movimento de adaptação/agregação ao modo de
vida, é necessário oferecer às pessoas uma disposição de compreender sua
condição e o momento que estão vivendo.
O ser humano, no seu processo de desenvolvimento, descobre suas capacidades,
possibilitando assim a sua recriação como pessoa através da integração de novas
experiências e idéias, seleciona seus valores e ideais, reconhecendo sua
autonomia e possibilidades de escolhas, mesmo que isto seja envolvido por
sofrimento. Nesta concepção é preciso aceitar o sofrimento como parte da vida,
não como um fim em si mesmo, mas como algo que precisa ser enfrentado e
transcendido(1).
O cuidado requer conhecimento, honestidade consigo mesmo, confiança naqueles
que estão envolvidos no processo de buscar a saúde, humildade, esperança e
coragem(13).
Viver com diabetes pode parecer difícil e o processo de aceitação ser lento e
influenciar suas escolhas. No entanto, o exercício da autonomia para decidir
sobre o que deseja para si, escolhendo as modalidades terapêuticas que
consideram mais adequadas e efetivas, leva as pessoas a expressarem sua
liberdade na construção de um viver saudável(14).
As pessoas ao incorporarem o diabetes no seu processo de viver, não o vêem como
uma entidade à parte, mas afetando o seu modo de vida, que pode trazer uma
perspectiva negativa, mas também pode promover um desejo de lutar para a
construção de um viver saudável. Nesta última situação é necessário compreender
que saúde e doença estão interligadas, pois "saúde e doença são construções
sociais, uma vez que a pessoa é doente de acordo com classificações, critérios
e modalidades de sua sociedade"(4).
Percebemos que o maior impacto do viver com Diabetes Mellitus está relacionado
à necessidade de realizar mudanças no cotidiano. Assim, a pessoa circula por
várias modalidades terapêuticas até perceber aquela ou aquelas que lhes são
mais convenientes, tanto do ponto de vista do bem estar físico, quanto de como
esse cuidado ou tratamento passa a se integrar ao seu cotidiano. Sentimentos
como o medo e a tristeza, muitas vezes, colocam as pessoas em situações com as
quais elas próprias sentem-se impossibilitadas de lutar. A condição crônica
parece inicialmente imobilizar a pessoa. Contudo, é na trajetória que realizam
nos diferentes subsistemas de saúde (popular, familiar e profissional) que a
pessoa começa a entender, assimilar e construir seu processo de mudança.
Tendo como referência este conhecimento construído a partir das interpretações
que as pessoas fazem do viver com diabetes mellitus, retomamos o ponto de onde
partimos, que é o reconhecimento da liberdade de escolha que cada pessoa tem. O
compromisso do profissional de saúde passa a ser de oferecer suporte para que
as pessoas possam exercer essa liberdade de forma consciente, reconhecendo as
implicações de suas escolhas a partir de diversificados conhecimentos, sejam
eles os da biomedicina ou dos demais subsistemas de cuidado a saúde. A
complexidade das ações de enfermagem, especialmente a educação em saúde, requer
não somente ações voltadas ao indivíduo, mas também ações coletivas como
estratégia para que as pessoas e as comunidades alcancem saúde e bem-estar(15).