Processos coletivos de produção de conhecimento em saúde: um olhar sobre o
exercício de enfermagem no hospital
REFLEXÃO
Processos coletivos de produção de conhecimento em saúde: um olhar sobre o
exercício de enfermagem no hospital
Colective process of knowledge production in health: an overview in hospital
nursing practice
Proceso colectivo de producción de conocimiento en salud: una visión sobre el
ejercicio de enfermería en el hospital
Dagmar Elisabeth Estermann Meyer
Enfermeira. Doutora em Educação. Professora Adjunto na Faculdade de Educação da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora do Grupo de Estudos de
Educação e Relações de Gênero e bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq
1. A DE-LIMITAÇÃO DE UM PERCURSO ARGUMENTATIVO
As reflexões que apresento, aqui, sob a forma de artigo, decorrem de minha
participação em uma mesa redonda que previa a discussão da temática Processos
coletivos de produção de conhecimento em saúdea. A abordagem com que retomo
esse amplo e complexo tema, neste texto, reproduz, então, a forma específica e
pontual com a qual procurei responder ao teor do convite que justificava minha
presença naquela mesa: discutir e levantar questões, do ponto de vista das
relações poder-saber, acerca de algumas dimensões do processo de produção de um
conhecimento particular (o conhecimento científico), em um espaço singular (o
hospital), considerando a posição de um saber-fazer específico (o de
enfermagem) no contexto das práticas de saúde que têm como foco direto de seu
trabalho a doença e o corpo doente.
E o que estou chamando de conhecimento científico neste contexto? De modo
geral, nos referimos a uma série de características para diferenciar o
conhecimento, qualificado como científico, de outros tipos de conhecimentos:
ele seria um conhecimento crítico, fundamentado e que visa produzir
interpretações de realidade; ele visa permitir um certo grau de generalização
ou, dito de outro modo, pretende produzir um certo consenso sobre algo; ele é
intencional porque constitui determinados objetos e pretende fornecer subsídios
para compreendê-los ou produzir instrumentos de intervenção sobre eles; é um
conhecimento sistematizado e que obedece às regras de um determinado campo e,
por fim, ele é também um conhecimento que se pretende verdadeiro, para além do
tempo e espaço de sua produção.
Aparece, aqui, então, uma primeira relação para a qual quero chamar atenção,
que é a relação entre conhecimento científico e verdade. Que verdade é essa que
a ciência pretende estar produzindo? Para que serve esse conhecimento que se
orienta pela verdade? Como se constrói e funciona esse consenso tão poderoso
que nos faz acreditar como cientistas e intelectuais que estamos posicionados
em um lugar privilegiado de acesso a, e de reconhecimento da, verdade? Foucault
(1) enfatiza que a verdade não existe fora do poder ou sem poder. Isso é a
mesma coisa que dizer que a verdade é legitimada como verdade no âmbito de
determinados processos de validação do conhecimento que envolvem condições
históricas, culturais, econômicas e políticas, matrizes disciplinares, conjunto
de regras metodológicas, conceitos que precisamos admitir para falar de
determinados objetos e é este conjunto de elementos que permite definir o que é
que conta como verdade, em um determinado tempo e contexto. Com isso o autor
quer dizer que a verdade e, portanto, os conhecimentos que a sustentam, são
"deste mundo"(1). Nesse sentido, ele enfatiza que cada sociedade tem seu regime
de verdade, isto é,
(...) os tipos de discursos que acolhe e que faz funcionar como verdadeiros, os
mecanismos e as instâncias que permitem distinguir enunciados falsos de
verdadeiros, a maneira como se sancionam uns e outros; as técnicas e os
procedimentos que são valorizados para a obtenção disso que funciona como
verdade, o estatuto daqueles que tem o encargo e a autoridade de dizer o que
funciona como verdadeiro(1)
Isso, de certa forma, implica considerar duas coisas: a primeira é que, como
todos os processos e relações deste mundo, o processo de produção de
conhecimento envolve relações de poder; a segunda é que a instituição e
operacionalização desses regimes de verdade centrados no discurso científico
demandam a constituição concomitante de comunidades científicas no interior das
quais se delimitam as condições de validação desses conhecimentos. De uma forma
muito provocativa, Costa(2) sintetiza isso dizendo que os conhecimentos
científicos funcionam como crenças compartilhadas por determinados grupos, e
que os campos de estudo e as comunidades que os integram e compõem podem ser
entendidos como territórios e agentes de validação dessas crenças. O que
poderia nos levar também a perguntar: quais crenças (ou discursos científicos)
compartilhamos, como elas se constituíram e como fazem funcionar o regime de
verdade que sustenta o saber-fazer na área da saúde, hoje?
Tendo em vista o que vim enfatizando, até aqui, é possível fazer mais uma
pergunta: seria possível pensar a produção de um conhecimento científico com
essas características 'fora'ou desvinculada de determinados tipos de coletivos?
Seria possível pensar em conhecimentos produzidos por indivíduos, no sentido
estrito do termo? Eu assumiria que não.
Assumindo então essa posição de que o processo de produzir conhecimento
científico envolve sempre determinados coletivos, eu pretendo, então, na
próxima seção, qualificar um pouco a noção de coletivo com que vou trabalhar
aqui, considerando o processo de constituição das sociedades ocidentais
modernas, nas quais o hospital vai-se estabelecer como a instituição referência
de organização e intervenção no processo saúde-doença.
2. O HOSPITAL COMO COLETIVO QUE PRODUZ E TRANSFORMA RELAÇÕES ENTRE SABER E
PODER
Quando descreve e analisa os processos de regulação e controle que atravessam e
modulam a produção daquilo que chamamos de "civilização" das sociedades
ocidentais, Elias(3) desenvolve, em uma longa citação, um argumento que permite
delinear a noção de coletivo que me interessa destacar:
Dos períodos mais remotos até os nossos dias, as funções sociais, sob pressão
de diversos tipos de competição, tornaram-se cada vez mais diferenciadas.
Quanto mais diferenciadas elas se tornavam, mais crescia o número de funções e,
assim, de pessoas das quais o indivíduo constantemente dependia em todas as
suas ações, desde as simples e comuns até as complexas e raras. À medida que
mais pessoas sintonizavam sua conduta com a de outras, a teia de ações teria
que se organizar de forma sempre mais rigorosa e precisa, afim de que cada ação
individual desempenhasse uma função social. O individuo era compelido a regular
sua conduta de maneira mais diferenciada, uniforme e estável (...) a direção
dessa transformação da conduta, sob a forma de uma regulação crescentemente
diferenciada era determinada pela direção do processo de diferenciação social,
pela progressiva divisão de funções e pelo crescimento de cadeias de
interdependência nas quais, direta ou indiretamente, (...) cada ação do
indivíduo precisava ser integrada (...)(3).
É importante dar-se conta, em primeiro lugar, que é a esse processo de
transformação e regulação da conduta, indispensável para o funcionamento dessas
cadeias de interdependência, que o autor chama de civilizador. O termo, da
forma como é usado por ele, pretende descrever uma forma de organização e
funcionamento social que caracteriza o que ele chama de sociedades complexas e,
nesse sentido, não carrega, em si, os sentidos de valoração com os quais ele é,
comumente, usado para hierarquizar sociedades, culturas, grupos e indivíduos
numa escala que opõe civilização a primitivismo para justificar o acesso
diferenciado a bens e serviços que configuram relações sociais injustas e
desiguais. Em segundo lugar, é possível pensar que um coletivo sempre implica
relações de interdependência, divisão de funções e estruturação interna de cada
uma dessas funções, mesmo que elas sejam de natureza e de graus diversos. O que
me leva à instituição hospitalar, pensada como coletivo e como um lócus onde
opera uma extensa e complexa rede de saberes e de funções interdependentes e
internamente estruturadas.
Como podemos situar a instituição hospitalar nesse contexto de civilização das
sociedades ocidentais modernas? Foucault (4) refere que, até meados do século
XVIII, o hospital se configurava como um lugar de internamento que reunia
indivíduos reconhecidos e nomeados como doentes, loucos, criminosos, devassos e
prostitutas e funcionava como uma espécie de instrumento de exclusão,
assistência e transformação espiritual na qual a função médico-terapêutica
pouco aparecia. Refere também que, dentre as condições que possibilitaram a
"medicalização" do hospital e a "hospitalização" da medicina, estava a
necessidade de "purificar a instituição de seus efeitos nocivos e da desordem
que ele acarretava [...]; as doenças que ele podia suscitar nas pessoas
internadas e espalhar na cidade em que estava situado, como também a desordem
econômico-social de que ele era foco perpétuo"(4). Segundo o autor, dois
movimentos concomitantes e inter-relacionados vão possibilitar a transformação
dos hospitais em instituições médico - terapêuticas: a introdução de mecanismos
de disciplinamento (do espaço, das relações e das formas de organização) da
instituição que foram demandadas por questões econômicas; o preço atribuído ao
indivíduo e à vida humana, bem como a necessidade de evitar epidemias e sua
propagação; e a transformação do saber e da prática médicas. Desse encontro do
hospital com a medicina é preciso destacar, considerando-se o tema do artigo,
que uma das estratégias centrais desse processo de medicalização do hospital
foi a organização de um sistema de registro permanente e exaustivo do que ali
acontece: identificação dos doentes; acúmulo e transmissão de informações (que
se materializa de modo exemplar no prontuário do paciente); a obrigação de
confrontar experiência e registro para avaliar tratamentos, êxitos, fracassos,
etc(4).
Nesse sentido, o hospital passou a funcionar não só como uma instituição de
disciplinamento, controle e/ou cura de certos tipos de desordens reconhecidas e
nomeadas como patológicas, mas, também, como uma instância de acúmulo,
registro, produção e veiculação de um tipo específico de saber a medicina
clínica. O hospital transforma-se em lugar de formação privilegiada
primeiramente de médicos e, crescentemente, de outros profissionais de saúde,
como os da enfermagem moderna (que se organiza como profissão no século XIX). O
saber clínico se estrutura e organiza o espaço, as relações e o fazer nesse
contexto orientando-o para a intervenção sobre o corpo doente individual e
funciona, ao mesmo tempo, como instância de produção de saber e, também, de
formação profissional e de transmissão desse saber. Esse saber clínico que
emerge se exercita, se amplia e subsidia vários outros tipos de saber,
estabelece a partir daí como objeto de conhecimento um "imenso domínio,
limitado de um lado pelo indivíduo e de outro, pela população", uma vez que o
seu foco sobre o indivíduo, permite observar ao mesmo tempo uma grande
quantidade de indivíduos e conhecer "fenômenos patológicos comuns a uma dada
população"(4).
Eu estou pontuando estas coisas aparentemente desconexas e situadas em outro
tempo histórico para tentar articular o argumento que propus inicialmente: uma
discussão sobre algumas das dimensões da relação entre conhecimento e poder, no
contexto de uma dada configuração hospitalar, pensando a posição do saber-fazer
de enfermagem nesse contexto.
Com esse intuito, daquilo que escrevi sobre conhecimento científico quero
lembrar as características que lhe são atribuídas dentro de uma certa
perspectiva de ciência e a relação desse conhecimento com a produção do que
conta verdade. Ressaltar, ainda, que a instituição e operacionalização de
regimes de verdade centrados no discurso científico demandam a constituição
concomitante de comunidades científicas no interior das quais se delimitam as
condições de validação desse conhecimento.
Do processo civilizador(3) quero reter a idéia de que o que determina a
complexidade de uma sociedade e, por conseguinte, de suas instituições, é a
extensão das interdependências, o nível de divisão das funções e a estrutura
interna das próprias funções, o que nos permitiria pensar que sociedades e
instituições complexas se materializam sob a forma de redes das mais diversas.
E que, como integrantes de redes estamos como indivíduos, grupos e instituições
sempre mergulhados em certos tipos de coletivos.
Da discussão sobre a emergência do hospital(4) quero reter a idéia de que o
hospital se configura como um lócus onde produção de saber e intervenção sobre
o corpo e a doença dos indivíduos estão intrinsecamente ligadas. E, ainda, que
o processo de disciplinamento que tornou isto possível demandou, ao mesmo
tempo, tanto o privilegiamento de um profissional e de uma área do saber a
clinica médica e o médico - quanto o reconhecimento e a regulação das
interdependências, a divisão das funções e o detalhamento cuidadoso das
especificidades de cada uma das funções envolvidas nesses - e necessárias para
esses - processos de conhecer e intervir.
Tomando estes pontos como referência, poderíamos, então, fazer-nos mais algumas
perguntas: como a enfermagem tem participado e se posicionado nesse processo
coletivo de produção de conhecimento científico sobre a doença e sobre o
doente, nessa instituição social complexa que é o hospital? Como e onde seu
saber-fazer se situa na cadeia cada vez mais extensa e especializada de
interdependências e de divisão das funções que tornam essa instituição - e os
conhecimentos que nela se produzem - possível? Como isso impacta e delimita seu
saber e seu fazer? Com que efeitos, para quem?
3. ENFERMAGEM E PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO. QUAL CONHECIMENTO? PARA QUE(M)?
As perguntas acima enunciadas me colocam a necessidade de retomar, brevemente,
algumas dimensões da emergência e consolidação da Enfermagem profissional
moderna. As enfermeiras profissionais, desde o início, buscaram suporte em
variados campos do conhecimento para apoiar o emprego de uma variedade de
instrumentos e de procedimentos, no processo de avaliar, intervir e confortar
seres humanos com problemas de saúde ou que estavam vivendo momentos
particulares do seu ciclo vital (gestação, nascimento, primeira infância,
velhice ou morte, etc). A Enfermagem profissional também foi definida, em seu
início, como uma profissão feminina, cujo fazer estava centrado no cuidar, em
oposição ao tratar que caracterizava a Medicina centrada no saber clínico, e
que era representada como profissão masculina (5).
Nesse processo de profissionalização da Enfermagem buscou-se, também desde o
início, construir um campo de conhecimentos específicos que deveria tanto
manter operantes os sistemas de valores que caracterizavam o feminino e o
cuidado como sua extensão, quanto adquirir o estatuto de ciência. Nesse
processo de cientifização de um saber até então qualificado como não científico
o cuidar, em contraposição ao tratar, foi, grosso modo, tematizado de duas
formas distintas e complementares: uma, onde a legitimação pela cientifização
procurava conciliar a objetividade da ciência masculina com a intuitividade e a
emoção que caracterizavam o feminino, posicionando o cuidado como interface de
humanização na relação médico-paciente e, outra, muito atual, onde a ilimitada
possibilidade de tecnologização de todas as dimensões do processo saúde-doença
e as críticas ao paradigma de ciência que ainda sustenta, em grande parte, essa
tecnologização, têm levado a uma teorização que, crescentemente, tematiza o
cuidado comointerface de humanização na relação médico-tecnologia-paciente que
aí se processa(6,7). Tratar e cuidar, científico e não científico, masculino e
feminino e, por extensão, Medicina e Enfermagem são, pois, oposições
constitutivas dessa enfermagem que aprendemos e fazemos hoje. E as teorias do
cuidado, aqui genérica e frouxamente enunciadas sem considerar a imensa gama de
enfoques e abordagens teóricas que têm sido utilizadas em sua enunciação,
constituem o discurso científico em cuja produção e veiculação a enfermagem vem
investindo na direção de disputar e dizer verdades sobre o corpo doente e a
doença que segue se configurando como seu foco de atenção privilegiada, no
âmbito do regime de verdade que institui e regula o saber-fazer em saúde que se
materializa com, a partir e dentro da instituição hospitalar(8).
E ai meus argumentos se encontram com os de Araújo(9). Ao descrever e analisar,
desde uma perspectiva foucaultiana, processos contemporâneos de subjetivação de
enfermeiras, tomando como referência os registros das práticas assistenciais
feitos pela enfermagem na UTI de um hospital escola, a autora levanta alguns
pontos que, a meu ver, são fundamentais, para a reflexão sobre o saber-fazer de
enfermagem, entendido como uma das dimensões constitutivas das redes, cada vez
mais complexas, de produção de conhecimento em saúde.
Quero só relembrar, aqui, a centralidade atribuída ao sistema de registros no
processo de medicalização do hospital e na constituição de um certo regime de
verdade nesse território(4). E quero também lembrar que, na cadeia de
interdependências e de divisão de funções que estrutura e dá ordem à
complexidade da instituição hospitalar, cabe ao serviço de enfermagem
(entendido aqui como um serviço regulado e estruturado em relações para dentro
equipe de enfermagem - e para fora equipe multiprofissional) uma parte
substantiva desses registros. Considerando-se a permanência dessa equipe junto
ao corpo doente, nas 24 horas do dia, durante sete dias da semana, poderíamos
pensar que se espera, de forma idealizada, que ele funcione como um panóptico
(10) relativamente ao corpo doente e suas manifestações (observando,
monitorando, encaminhando, intervindo e registrando, continuamente o que nele e
em torno dele se passa).
O estudo antes mencionado(9) considerou os registros hospitalares da enfermagem
(em prontuários, relatórios, livros de ocorrência, encaminhamentos, passagens
de plantão) como narrativas em que se podem analisar, concomitantemente, formas
de objetivação do saber-fazer enfermagem e formas de subjetivação do ser
enfermeira ou membro da equipe de enfermagem. Vou pinçar duas ou três
conclusões desse estudo que me parecem sumamente importantes para pensarmos o
embate e a relação entre os discursos que disputam autoridade científica no
contexto hospitalar.
A primeira grande conclusão do estudo é a de que o corpo apreendido e sobre o
qual se age no contexto hospitalar segue sendo o corpo anátomo-clínico e que é
este corpo que emerge, se mantém e se consolida, também, como o corpo do
cuidado de enfermagem no hospital. As análises realizadas demonstram a
competência da enfermeira no domínio da linguagem clínica e da semiótica e da
semiotécnica que possibilitam a apreensão dos sinais e sintomas que a
enfermagem registra, na ocupação dos espaços de intervenção que esse saber
demarca, no reconhecimento das hierarquias e expertises que delimitam e
conformam o processo coletivo de produção de conhecimento e de intervenção
sobre a doença e sobre o doente, nessa complexa rede que configura a
instituição hospitalar contemporânea.
As análises demonstram, também, que é o saber clínico que conforma e informa o
saber-fazer, que se nomeia como sendo de enfermagem, nesse espaço e nessas
relações. E é isso que me interessa comentar aqui, na medida em que essa
análise aponta para uma dissonância entre aquilo que se pretende que seja o
objeto epistemológico da enfermagem o cuidado em suas múltiplas acepções e
aquilo que se desenha como sendo o seu objeto de trabalho no cotidiano
hospitalar(9). Analisando os registros realizados pela enfermagem constata-se
que seu foco substantivo são as práticas médicas e aquelas que se desdobram ou
que dão suporte a ela: "as enfermeiras priorizam registrar certas práticas
sobre o corpo: primeiramente e de forma muito detalhada práticas e intervenções
médicas, seguidas de procedimentos técnicos em enfermagem"(9). Constata-se uma
certa hierarquia nestes registros: "prioriza-se o registro da terapêutica
médica, especialmente a medicamentosa, utilizando-se fundamentalmente a
linguagem da clínica"(9). Nestes registros, aquilo que se denomina cuidado de
enfermagem ou seja, as intervenções de enfermagem sobre o corpo - estão
fundamentadas no saber clínico e resultam de demandas colocadas pela
terapêutica médica. Pouquíssimos registros evidenciam o cuidado como um saber/
fazer específico e autônomo relativamente a este saber. Para além disso, e o
que é mais importante, enquanto as práticas vinculadas ao exame, ao diagnóstico
e à terapêutica médicas são extensivamente descritas e minuciosamente
registradas, com delimitação de autoria e de expertise, os cuidados de
enfermagem são prescritos e registrados de forma genérica ("feitos cuidados de
enfermagem" ou, quando especificados, são apenas nomeados como procedimentos -
"foi feito banho no leito"). Não se detalham tecnologias utilizadas para a
efetivação do procedimento, não se registram reações do corpo a estes cuidados,
não se nomeiam ou discriminam os agentes que o efetivam.
Considerando-se o volume dos registros elaborados pela enfermagem, o estudo
constata que aquilo que supostamente constituí a especificidade desse campo o
cuidado - é muito pouco descrito e visibilizado. Desta forma, esse cuidado
conforma-se como um cuidado prescritivo, que assume a forma de procedimentos
técnicos apesar das tentativas de estabelecer "uma linguagem para o corpo,
entendido como corpo do cuidado; de produzir uma metodologia para o cuidar
chamada de metodologia da assistência de enfermagem; de instituir uma taxonomia
diagnóstica de enfermagem"(9),dentre outras coisas que permeiam o processo de
constituição de um campo do saber ancorado em Teorias do Cuidado. E ai, ao
dizer que o hospital segue sendo o templo da clínica e que a UTI é o seu
cenário exemplar, a autora argumenta que, mais do que qualquer outra função
hospitalar, a enfermagem que ali se exercita funciona como "extensão do olhar e
do braço médicos"(9).
Com essa afirmação, o estudo nos coloca, enquanto integrantes de uma comunidade
envolvida com a produção de sistemas de validação de conhecimento, diante de
algumas perguntas desafiadoras e instigantes: Existiria, no corpo, um domínio
do cuidado? Como se realiza aquilo que denominamos de cuidado de enfermagem? O
cuidado constitui mecanismos de visibilidade que nos permitem detalhar e
descrever o corpo de formas específicas e colocá-lo como objeto de intervenções
específicas e autônomas?(9) Ao que eu acrescentaria: E dispomos de linguagens
para isso? Que sistemas de validação de conhecimento essas teorias e as
comunidades científicas que investem nelas têm produzido e legitimado?
4. ...E POR QUE É PRECISO TERMINAR...
De forma muito pontual, o estudo acima mencionado me faz retomar um enunciado
recorrente nas discussões da área da enfermagem, sobretudo quando se pensam os
processos de formação e sua relação com o exercício profissional: o da
dicotomia entre teoria (o que se constrói como objeto epistemológico da
enfermagem) e prática (o que se realiza como objeto de trabalho da enfermagem).
Para Foucault e Deleuze (11), a relação teoria-prática, tomada como resultado
de pólos separados e unívocos de uma oposição binária, não se sustenta. Os
autores trabalham com a noção de teoria como prática, enfatizando que não há
teoria sem uma prática que a alimente, fortaleça e modifique e que não há
prática sem uma teoria que a atravessa e lhe dá sustentação.
Tomadas dessa forma, teoria e prática são elementos distintos de um mesmo e
indissociável movimento o de conhecer os mundos em que vivemos e nos quais nos
tornamos o que somos. Trata-se, então, de perceber que não estamos, aqui,
diante de um fazer de enfermagem desvinculado de teoria, mas de um fazer de
enfermagem produzido e orientado por outras teorias que não aquelas
preconizadas, intencional e explicitamente, pela comunidade científica da área.
Se voltarmos ao conceito de regime de verdade antes mencionado, podemos pensar
que teoria e prática são também indissociáveis de formas de exercício de poder,
porque buscamos conhecer, para controlar, potencializar e dominar a nós mesmos,
aos outros e às coisas do mundo; e desenvolvemos formas de controle e de
domínio, e instituímos campos de ação e de conduta por que estes nos permitem
conhecer algo, conhecer de outras formas, conhecer outras coisas, num movimento
incessante de continuidades e rupturas que fazem deste mundo um lugar tão
interessante, prazeroso, disputado, e ao mesmo tempo, perigoso, de se viver.
Para finalizar, quero pontuar que o artigo pretendeu focalizar alguns limites e
condições de possibilidade muito pontuais do saber-fazer de enfermagem, na
complexa rede de saberes e fazeres que configuram a instituição hospitalar
contemporânea. Saber-fazer esse que resulta de processos coletivos em um duplo
sentido: coletivos porque resultam de embates dentro de um território que tem
pretensões de se estabelecer como campo científico a própria enfermagem; e
coletivos, também, porque estes embates integram uma rede de saberes e funções
interdependentes com os quais se disputam espaço e legitimidade os saberes que
integram a área da saúde, sob a égide do saber médico.
Tomando um elemento substantivo da prática da enfermagem no hospital como
exemplo os registros coloquei para reflexão três perguntas inter-relacionadas e
inter-dependentes: que saberes conformam e informam o fazer de enfermagem
hospitalar? Que saberes o fazer de enfermagem, traduzido nos registros,
reforça, legitima e retro-alimenta? Como isso se dá e com que efeitos?
E, ao priorizar estes desdobramentos do tema não pretendi defender ou apontar
para a impossibilidade de um saber-fazer enfermagem centrado no cuidado. Ao
contrário, ao encaminhar a discussão na direção de considerar que discursos e
verdades científicas são "coisas deste mundo", feitas por seres deste mundo,
pretendi apontar para o fato de que as coisas deste mundo podem ser
questionadas e, portanto, também modificadas.